Good Gone Girl
30 Capítulo 30 - O Jogo da Colheita
Notas iniciais
Capítulo 30 – O Jogo da Colheita
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Todo o meu corpo parecia eletrizado quando parei em frente à sala do jornal da universidade. Eu não havia percebido que minhas mãos estavam tremendo até que ergui uma delas e bati na porta. Uma batida baixa e tímida, que mesmo assim foi respondida por uma voz familiar que gritou: “Pode entrar” de dentro da sala.
Meu coração parecia um acrobata em meu peito quando a abri.
A sala era pequena, cabendo malmente quatro escrivaninhas, e era uma confusão de estantes, caixas de papelão e folhas de papel. Quando Robert Shawcross ergueu sua cabeça do fichário sobre sua mesa, e sorriu para mim, eu tive a sensação de que eu estava procurando por problemas, mas sem vontade de correr deles. Eu aperto a alça da minha mochila com força e retribuo o sorriso.
— Você apareceu! – Ele disse, como se não acreditasse.
Eu também não acreditava que estava ali.
— Você me deixou curiosa – eu confessei, constrangida.
Como se percebesse minha hesitação, ele pede para que eu entre e fecha a porta atrás de mim. Há outras duas pessoas na sala: uma garota e um garoto. Ambos me olham desconfiados, como se não soubessem o que eu estava fazendo ali. Tenho a sensação de que eu já os vi pelo campus, provavelmente, pelo mesmo prédio que o meu.
Meu olhar, entretanto, recaí na mesa sem dono. Provavelmente o lugar que Lauren ocupara no jornal antes de tudo o que aconteceu. Estava vazia e me pergunto se ela havia tirado todos os seus objetos dali ou se haviam tirado e mandado para ela no hospital.
— Eu acho que só curiosidade não traria você aqui – Robb observou.
Seu tom era astuto e o olhar estava afiado, mas não me deixei intimidar.
Voltei meu olhar para ele e larguei minha mochila pesada (cheia de roupas para uma temporada longa na casa de Alexander) sobre uma cadeira vazia em frente à escrivaninha dele.
— Desembucha – mandei. – Estou com pressa.
Antes de encontrar Alexander no estacionamento, eu havia decidido passar no jornal do campus para ver Robert. De acordo com ele, ele tinha um jeito de parar Mike e seus amigos babacas. Infelizmente, esse era um assunto que me interessava. Até demais.
Ele me lança um meio sorriso presunçoso.
— Tudo bem, então sem rodeios – ele concordou. Robb apenas cruzou os braços antes de perguntar: – Você já ouviu falar de um jogo chamado “a colheita”?
Franzi o cenho e meneei com a cabeça.
Parecia um jogo de Facebook, daqueles chatos que você tem que ser um fazendeiro e fazer sua fazenda prosperar. Ou pior: parecia um filme de terror. Daqueles em que uma família vai morar no interior do interior (numa casa com uma plantação de milho com espantalhos medonhos, para ser mais específica) e então vão morrendo um a um até sobrar a filha adolescente que sempre avisou que havia fantasmas na casa.
Eu não gostava de nenhuma das duas opções.
— Aparentemente, é um jogo praticado pela fraternidade do seu ex-namorado – ele disse, apoiando-se em sua mesa. Como se quisesse sentar, mas achasse que não devesse. – Durante duas semanas eles observam as garotas da universidade, e então se reúnem e montam um ranking: “Cebolas”, “Maçãs”, “Morangos”, “Batatas” e entre outros. A regra é simples: colher o máximo de... frutas? Legumes? Não sei o critério, enfim, colher um de cada tipo.
Franzi o cenho e olhei para Robert.
— Desculpa... acho que não entendi – eu pedi, sentindo falta de ar.
Não pode ser verdade... não pode... devo ter entendido errado.
A garota que estava na sala, se aproximou e foi para o lado do moreno. Ela era bonita, de dreads azuis, pele escura, olhos brilhantes e curvilínea em seu biótipo pequena e gorducha, porém, uma mulher que parecia ter sangue quente. Sua expressão era de completa indignação e seu tom era agressivo quando ela disse:
— Michael Furrey e a fraternidade dele tem um jogo onde eles rotulam garotas e brincam de dormir com elas. Quando uma garota é bonita e gostosa, eles a chamam de “morangos”, quando a garota é feia e nojenta eles a chamam de “cebola”, quando é novinha chamam de “maçãs”... e quando são insossas e virgens chamam de “batatas”.
Um aperto se fez em meu peito.
“Quando são insossas e virgens chamam de batatas”.
“Michael disse que você era uma batata”
De repente, o que aquele cara havia dito no bar fazia muito sentido. Quando ele disse que Michael me chamou de batata. Mas não devia fazer sentido. Por que não era para ser verdade... era verdade? Era possível que eu houvesse namorado com um monstro desse nível? Era possível que Michael fosse tão baixo?
Levei uma mão aos lábios, incrédula.
Eu não posso estar ouvindo isso. Quer dizer, tudo bem, que eu sabia que Michael havia dormido comigo por causa de uma aposta... mas um jogo? Um jogo que ele pratica com todas as garotas? Em que eles as rotulam e marcam pontos...?
Sinto dificuldade para respirar. A bile parece subir à garganta só de pensar nisso.
— A regra é simples: eles têm que dormir com todos os tipos de garotas, sem repetir as frutas/legumes. Quem dormir com todos os tipos, ganha – Robb continuou.
Ergui o olhar para ele, mas algo na garota ao seu lado me chamou atenção.
Seus lábios carnudos estavam cerrados em uma linha apertada de frustração... ou algo pior. Suas mãos, fechadas em punhos ao lado de seu corpo. Porém, os olhos dela... os olhos brilhantes daquela garota não demonstravam raiva... demonstravam uma mistura de humilhação e dor. Algo que eu pensava ser reflexo dos meus próprios sentimentos até que ela me olhou de volta e disse estendendo a mão:
— Lauren é o “morango” de Mike, você é a “batata”... e, prazer, eu sou a “cebola” dele.
Ao dizer a palavra “cebola” sua voz falhou. Tenho certeza que era para ser um comentário sarcástico e mordaz (e soou assim mesmo), porém, eu ouvi aquela falha quase imperceptível que me mostrou como ela era: uma garota forte, mas ferida, humilhada. E eu conseguia ver isso tão claramente que me mostrou o quão errado era. Como era errado fazer garotas se sentirem assim.
Estava indignada. Havia uma chama inflamando meu corpo. Uma corrente espalhando energia por meus músculos. Foi por isso que eu me levantei da cadeira e apertei a mão dela. Não como se a cumprimentasse, mas para lhe dizer:
— Você não é uma cebola. Eu não sou uma batata.
Ela olha para a minha mão na sua, e então mostra um sorriso mínimo. Como se entendesse o que eu queria dizer. Nós não éramos o que garotos como Mike diziam de nós. Não éramos “nojentas e feias” ou “insossas”. Não éramos frutas/legumes.
Nós somos pessoas. Seres humanos com sentimentos.
— Eu me chamo Nala – ela murmura.
— Eu me chamo Isabelle – eu lhe respondo, mesmo que ela já saiba.
Então eu volto o meu olhar para Robert. Não minto que fiquei surpresa ao encontrar o garoto moreno (e o outro garoto presente na sala) encolhidos, como se tivessem vergonha pelo que seus colegas do mesmo sexo eram capazes de fazer. Ou talvez como se hesitassem em contar o resto da história.
— Então... tem esse jogo – eu disse tentando manter a calma, respirando fundo. – O que podemos fazer com isso? O que vocês pretendem fazer com isso?
Os dois garotos trocam olhares, antes de Robb olhar para mim e dizer:
— Pretendemos expor no jornal da universidade. Expor todos dessa fraternidade e que praticam esse jogo e expor ainda mais os que tentam ganhar... a todo custo.
Franzi o cenho.
— Como assim “que tentam ganhar a todo custo”? – Perguntei.
Ele se remexeu, como se houvesse algo desconfortável espetando suas costas.
— O jogo é sobre você dormir com as garotas. Não as conquistar – o outro garoto murmurou, com a mesma expressão de desconforto. – Ouvimos... alguns casos em que eles... embebedam ou drogam garotas nas festas da fraternidade...
—... E abusam delas – Nala murmurou com o olhar baixo.
E quando você acha que já ouviu de tudo... booum!
Eu não consigo mais ficar em pé, então me sento na cadeira. Dividindo espaço com a minha mochila cheia de roupa. Simplesmente parece muito incrível pensar em tudo isso. Muito demais. Parece mentira. Queria que fosse mentira... Quer dizer... Mike fazendo parte de algo assim? Garotos fazendo algo assim?
— O que eles ganham...? – Murmurei incrédula. – O que eles ganham com isso?
Nada justificava algo assim, mas... não parecia lógico fazer isso para nada.
Para a minha surpresa, Robert deu de ombros com uma expressão de desgosto.
— Eles entram para fraternidade – ele respondeu.
“Que teste de admissão idiota” eu pensei. E então me peguei refletindo: “Se para participar da fraternidade tem que participar desse tipo de ‘jogo’... imagine o ambiente tóxico que deve ser lá”.
Estou em choque... e enojada.
Tudo o que os três diziam fazia sentido, porém, havia uma parte de mim que não queria acreditar. Não queria acreditar porque... bem, eu namorei seis meses com um filho da puta que conseguia ser mais filho da puta do que eu esperava. Como isso é possível? Como é possível que durante esses seis meses eu não tenha percebido nada? Como era possível eu ser tão cega?
— Parece que eu vou vomitar – eu murmurei.
Nala coloca a mão sobre o meu ombro.
— Eu também me senti assim – ela confessou.
Eu meneei com a cabeça.
— Não... eu... eu oficialmente namorei com esse cara... e ele... – Eu murmurei.
Senti a bile subir pela garganta. A palavra “monstro” presa na garganta.
— É por isso que precisamos de você – Robb disse de repente.
Ergui o olhar e franzi o cenho.
— De mim? – Perguntei.
Os três hesitaram, trocando olhares silenciosos. Por algum motivo, um arrepio percorreu minha espinha. O silencio deles não me agradava. Parecia dizer mais do que qualquer outra palavra que eles poderiam usar.
— O único jeito de provarmos que esse jogo existe e tudo mais... é tendo provas... – Robert começou. – Caso contrário, não teremos credibilidade.
Assenti vagarosamente com a cabeça. Até aí eu entendia.
— Você namorou Mike... e ele é um membro da fraternidade... – Robert disse.
Por algum motivo eu sabia onde isso ia parar. Quando dei por mim, levantei-me da cadeira com um pulo. Toda raiva que pulsava em mim, parecia ter esfriado e dado espaço a um sentimento gélido: o medo. A última coisa que eu queria era ter que me aproximar de Mike de novo... mesmo que para fazer ele pagar.
— Você só precisa arrumar um pretexto para ir no quarto dele... e procurar um caderno. Temos quase certeza que eles anotam em um caderno tudo o que fazem... – Nala disse. – Cada membro tem o seu caderno, mas a única pessoa que conhecemos que conviveu tempo demais com um membro... foi você.
Abaixei o olhar, por algum motivo meu corpo tremia de novo.
A última coisa que eu queria era ver Mike de novo... ele me dava medo. E procurar uma desculpa para entrar no quarto dele... voltar a falar com ele... parecia pior que o filme de terror chamado “A Colheita”. Provocar ele em um brinde de bar, com mais de dez testemunhas, é uma coisa, mas ficar à sós com ele... No quarto dele...
— Não sei eu... tenho medo dele – eu confessei, me encolhendo.
— Sabemos que é difícil – Nala disse, colocando uma mão no meu braço, como se quisesse me confortar. – Mas... pense em todas as garotas que passaram pelo que você e Lauren passou... Pior que isso, pense em todas as garotas que podem ter sido abusadas por causa desse jogo estúpido? Isso não precisa acabar? Não vale a pena?
Eu não tenho coragem de olhar para ela... porque eu sei que vale a pena.
Fingir não saber de nada e fingir que não é problema meu... era algo que a Belle antiga faria. Eu não sou mais a Belle Antiga, sou?
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Quando encontro Alex no estacionamento, eu acho que já estou mais calma. Quer dizer, jogar uma água na cara e respirar fundo contando até dez enquanto caminho até o estacionamento do campus deveria ter sido o suficiente para que eu me recuperasse de todo o choque que a informação de Robert me causou.
Porém, quando eu o vejo, seu meio sorriso desaparece quase que instantâneo.
Esse foi o meu indicativo de “não, você ainda não está mais calma”.
— Está tudo bem? – Ele pergunta assim que chego perto.
Por algum motivo, quando olho naqueles olhos cinzas preocupados, eu tenho quase certeza de que mentir não adiantaria nada, então eu nem me esforço. Eu apenas meneio com a cabeça e estendo meus braços para ele.
— Você pode me dar um abraço? – Pergunto.
Ele não pergunta porque, apenas me envolve com seus braços tatuados e confortáveis imediatamente. Pensei pelo lado bom: eu podia estar perturbada, mas não estava em prantos (como era de praxe para mim) e eu havia ganhado um abraço de Alexander. O lado ruim: eu havia acabado de descobrir que meu ex-namorado tinha um chifre e um rabo de diabo, e que eu precisaria falar com ele mais uma vez se quisesse destruí-lo.
Eu não havia respondido Robert se o ajudaria com o que ele me pediu.
Eu disse que teria que pensar nisso porque, todas as células do meu corpo, pareciam gritar: “Essa é uma má ideia. Uma péssima ideia. Por muito menos esse cara torceu o seu pulso sem nem se importar!”. Mas havia aquele sentimento, o mesmo sentimento que eu vi nos olhos de Nala... que eu não queria que mais nenhuma menina sentisse. Nunca mais.
Meu deus, eles chegaram a abusar de garotas!
Isso era caso de polícia! De prendê-los!
— Não tem como provar, Isabelle. É a palavra de algumas garotas contra a de uma fraternidade inteira— Robert havia dito. – Além disso, você já ouviu alguma fofoca sobre alguma garota estuprada por aqui? Não. Por quê? Elas não querem lembrar disso, não querem falar sobre isso. Mas nós podemos falar. Podemos expor. Podemos denunciar.
— O que aconteceu, meu anjo? – Alex perguntou, tirando-me dos pensamentos. Senti sua voz vibrar por meu corpo.
Respirei fundo.
— Você já sentiu como se estivesse carregando o peso do mundo nas costas? – Eu perguntei, com o rosto enterrado em seu casaco. – Como se uma decisão sua pudesse ajudar várias pessoas, mas que você precisaria ter de muita coragem para isso?
Ele pareceu pensar por um tempo.
— Acho que se você tem que ter muita coragem para fazer alguma coisa, seja para tomar decisões ou para tomar uma ação... sempre vale a pena – ele respondeu.
— Sempre? – Eu perguntei, afastando-me e olhando no seu rosto.
— Sempre – ele confirmou. – Porque significa nem todo mundo tem a coragem necessária para fazer..., mas se você tem, você deve fazer. É assim que você consegue chegar em lugares que nem todo mundo chega: com coragem.
Eu pensei sobre isso por um tempo.
Fazia sentido. Um discurso ambicioso, talvez. Provavelmente perigoso dependendo de quem ouvisse, mas sedutor. Afinal, sem a coragem onde estaríamos? Trancados em terra sem coragem de desbravar os oceanos?
— Você devia escrever um livro de autoajuda – eu murmurei, acariciando seu rosto.
Seu meio sorriso volta ao seu rosto e ele me beija.
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