Good Gone Girl
25 Capítulo 25 – Para de fazer merda, Alexander
Notas iniciais
Capítulo 25 – Para de fazer merda, Alexander
Eu conhecia poucas pessoas capazes de lançar o olhar de “Para de fazer merda, Alexander” com tanta perfeição que me deixasse realmente constrangido. Na verdade, eram tão poucas que eu conseguia contá-las nos dedos de uma mão: Minha mãe, Minha irmã, Sasha, Oliver e, aparentemente, Isabelle. Pelo menos foi assim que eu me senti depois que ela me lançou aquele olhar antes de sair do bar com aquele cara.
E mesmo tendo sido um olhar injusto, devo admitir que doeu.
Às vezes era difícil entender o que se passava na cabeça dela. Era difícil entender como uma única cabeça era capaz de complicar tanto as coisas. Numa hora, estava tudo perfeito, e no instante seguinte, eu fui chutado para escanteio no maior estilo “Preciso de um tempo para mim”. Algo que até agora eu não consegui engolir, mas eu aceitei.
Afinal, aqueles haviam sido os termos dela, certo?
Ela havia começado com aquilo, então ela diria quando parar.
Oliver havia soltado um assovio naquela hora e dito:
— Acho que a sua patroa tá puta da vida. Só acho.
— Qual foi a sua primeira dica, capitão óbvio? – Eu respondi com sarcasmo.
O.K. Que a Bell estava puta, eu havia entendido.
Ela havia deixado bem claro.... A questão era: “com o quê e por quê? ”. Ela havia passado duas semanas sem me ligar, sem me mandar uma mensagem, e então, quando nos vimos imaginei que ela fosse sentir alguma coisa; que ela fosse me dizer alguma coisa, por isso a fiquei encarando e ela ficou me encarando... E então havia ficado puta e se agarrado naquele outro garoto que eu não fazia ideia de quem era, mas já queria a morte.
Cogitei que talvez ela houvesse dito para “darmos um tempo” para sair com o outro cara. E, por mais que me doesse pensar nisso, eu não podia julgá-la. Em nenhum momento ela havia dito que não sairia com mais ninguém.
Porém, nem pensar nisso me confortava. E não me fazia entender aquela raiva.
Eu não era conhecido por ser uma pessoa muito esperançosa, mas não vou mentir e dizer que não fiquei esperando que ela fosse me ligar em algum momento. Eu queria que ela me ligasse. Que dissesse que estava com saudades e que queria me ver e para esquecer essa merda de “dar um tempo”.
Eu ainda estava esperando quando eu a vi saindo daquele bar... acompanhada.
Minha esperança devia ter morrido ali..., mas aquele olhar dela...
— Que patroa? – Georgia perguntou, olhando ao redor.
Eu amava e odiava quando Oliver marcava essas coisas de reencontro de amigos do Ensino Médio. Adorava porque era legal reencontrar Gus, Ryan, Tyson e Will de novo. Por outro lado, odiava porque eles sempre tinham que chamar Georgia, minha ex-namorada do ensino médio. E o fato de ela não ter superado o namoro que ela mesma terminou, apenas só me fazia odiar estar ali.
Quer dizer, ela não tinha superado tão bem quanto eu havia superado.
A primeira vez que aconteceu esse encontro gerenciado por Oliver, eu fiquei receoso. Saber que ele chamaria Georgia me fazia preferir perder um braço a comparecer nessa reunião. Sim, eu era uma pessoa muito rancorosa. Mas então ele chegava e dizia: “Assim, eu sei que vocês terminaram mal e tal, e sei que vocês se formaram ainda sem se falar... mas, poxa, vamos crescer, né!”.
E então eu aceitei.
E percebi que eu havia superado o fora que ela me deu. E eu achei que ela havia me superado também, até ela começar a se jogar para cima de mim e eu ter que deixar bem claro que o que aconteceu no passado ficou no passado. Apesar de dizer que aceitava e entendia... ela aparentemente não aceitava e nem entendia.
Na verdade, ela não gostava mais de mim, ela só queria um brinquedinho para passar o tempo quando viesse de Londres. Um daqueles relacionamentos que tornaria menos desagradável suas viagens para ver a família na cidade natal. E o pior é que se a situação fosse outra, eu provavelmente teria aceitado isso.
De repente, perguntei-me se foi isso o que deixou a Bell tão irritada.
Georgia, se espremendo do meu lado... Ela teria entendido errado? Mas não fazia sentido se ela havia pedido para darmos um tempo. Quer dizer, porque ela se irritaria se ela havia me tirado do caminho por causa do outro cara? A menos que ela fosse o tipo de garota que gostava de ter caras correndo atrás... o que eu sabia que ela não era. Esperava que não...
— A namorada do Alex – Oliver respondeu à loira, rindo.
— Namorada? – Ela perguntou desconfiada.
Seus olhos felinos se voltaram para mim com curiosidade.
— Ela não é minha namorada – eu respondi à contragosto.
“Bem que eu queria” eu pensei com frustração.
Não tentei explicar o relacionamento para eles, era complicado até para mim.
— Como não? – Ele desdenhou. – Todo mundo nessa mesa sabe que você é cara de se amarrar em uma garota por vez. Sempre foi assim desde o ensino médio.... Se está na vez dela então... é a sua namorada, mesmo que ela não saiba.
— E assim vai ser, até ela te deixar na estação de trem sozinho porque não gosta o suficiente de você para faltar a festa de formatura – Gus completou, alfinetando Georgia.
Há quem diga que nosso namoro terminou da maneira mais estúpida possível.
De acordo com ela, eu havia pedido um absurdo. De acordo comigo, ela havia escolhido errado. A questão é que, como eu havia sido suspenso e não poderia participar da festa de formatura, sugeri que nós viajássemos para Londres por alguns dias. Só o fim de semana da festa. Ela disse que os pais dela não deixariam, então eu disse: “deixa um bilhete dizendo que vai viajar e que vai ficar bem”.
Sim, era um pouco irresponsável naquela época.
De qualquer forma, ela disse que iria. Me prometeu que apareceria na estação no horário certo e que mal podia esperar... mas ela não apareceu. E eu fiquei lá, esperando por horas, me sentido o próprio Hachiko de Shibuya. Esperando o dono que nunca voltaria. E foi então que eu descobri que ela havia ido para a festa sim, com Barnaby Graves, o garoto que eu odiava, tinha ficado com ele e ainda sido coroada rainha do baile.
Para mim, isso não foi “pouca coisa”. Foi uma questão de confiança.
— Podemos mudar de assunto? – Perguntei irritado.
A última coisa que eu precisava era de alguém me lembrando que meu relacionamento com a Bell era mais instável do que uma montanha-russa. Uma hora estava bem, na outra hora ela parecia confusa; numa hora estava perfeito, na outra hora... “preciso um tempo para mim mesma”.
A verdade é que eu sabia o que ela estava fazendo comigo.
Ela estava me usando.
Ela queria se conhecer, queria descobrir coisas com as quais sente prazer e queria descobrir o quanto era capaz uma pessoa desejá-la. Ela estava me usando para ganhar confiança nela mesma, uma confiança que, ou ela nunca teve, ou foi pisoteada pelo ex-namorado babaca dela. Muitas garotas eram capazes de descobrirem essas coisas sozinhas, mas acho que ela tinha medo. Do quê? Eu não tinha a mínima ideia.
E, sabe qual era a parte mais triste da história?
Eu sou masoquista o suficiente para me prestar a esse papel.
Se nessas duas semanas ela me ligasse me mandando dar a volta no mundo andando e nadando e depois aparecer no quarto dela... eu provavelmente teria feito. É, eu sou do tipo de cara triste que faz essas coisas malucas por causa de uma garota. Se isso significasse que ela me deixaria continuar com ela como as coisas estavam.
Eu fui para meu apartamento por volta das onze horas.
Apesar de eu ter certeza que minha irmã não estava lá quando eu saí para o bar, não me surpreendi ao encontrá-la na sala assistindo televisão. Alexis era tipo um gato, ia e vinha quando lhe dava vontade. Não que eu tivesse moral para lhe passar um sermão. Eu era exatamente assim quando tinha a idade dela. Mesmo assim, não pude deixar de me perguntar porque eu dei a chave da minha casa para ela.
Graças a Deus eu não sentia atração por Georgia o suficiente para levá-la lá.
— Não vai dormir muito tarde – eu avisei, indo para o meu quarto.
— Ei, Alex, quando vamos conhecer a sua namorada? – Ela perguntou. – Tio Edward vai dar um jantar de aniversário nesse fim de semana e....
Soltei um suspiro.
Todo mundo tirou o dia para cutucar a ferida. Que desgraça.
— Ela não é minha namorada – eu disse calmamente.
— Tá, e o que falta para ela ser? – Ela perguntou.
“Para começar, voltar para mim” eu quis responder.
— Quer que eu mande outra mensagem para ela? Do tipo: “Ei, pare de ser burra e namora o meu irmão. Ele é amarradão em você”— a garota sugeriu.
Respirei fundo. Às vezes, Alexis me dava a vontade de enfiar a cabeça dela na privada, como eu fazia quando éramos menores. Talvez eu não tenha feito o suficiente porque a cabeça dela continua parecendo oca.
— Já disse para você ficar fora disso – eu briguei. – Deixa ela em paz. Você já atrapalhou muito a vida dela mandando aquela mensagem sobre o namorado e a amiga.
Alexis faz um biquinho, contrariada.
— Mas eu tenho a melhor das intenções...
— Aham, e de boas intenções o inferno está cheio – retruquei. – Vou dormir. Boa noite Alexis. Não durma tarde, se não mamãe me mata.
Alexis era uma garota muito obstinada às vezes, não que eu pudesse culpá-la por isso. Como eu disse, eu era igualzinho quando mais novo. O único defeito é que eu ao menos sabia não me meter no assunto dos outros, diferente dela. O ápice de sua inconsequência foi descobrir sobre Isabelle, descobrir que ela namorava, e que ele a traía com a melhor amiga... e então mandar a mensagem que acabaria com tudo.
Isso mesmo. Quem mandou a mensagem foi a minha irmã caçula.
A mente do mal.
A espiã que deveria trabalhar para MI5.
A mandante do crime que arruinou a vida da Bell.
Ela mesma, minha irmã mais nova, Alexis Victoria Kensinton. E ela foi tão esperta que não usou o próprio telefone para isso, usou o de uma amiga que nada sabia sobre a história. Por algum motivo, sinto que um dia eu deveria contar isso para ela, para a Bell (era o certo a se fazer, não era?), mas como explicar que eu sabia de algo quando ela sequer sabia que eu existia?
Seria complicado. E ela poderia não querer me ver nunca mais.
Como sempre, eu mal durmo.
Apesar de estar jogado na minha cama, não consigo dormir, então pego o meu caderno na cabeceira e trabalho naquela letra de música que não saia da minha cabeça (algo a ver com boas garotas que não têm mais nada a perder). E quando consigo, enfim, dormir, já está quase na hora de eu acordar. E Kurt faz questão de me lembrar para colocar comida para ele às quatro da manhã, quando então eu tomo um banho e me arrumo para mais uma madrugada no abrigo em que trabalho.
Ainda está escuro quando entro e dou uma olhada nos animais que corriam mais risco. Havia um cachorro atropelado e um coelho que caiu do primeiro andar de um prédio. Não me pergunte como ele havia caído, a sorte era ele estar vivo ainda, mas não sei até quando. Precisávamos de um veterinário especializado.
Quando algo assim acontecia, eu me perguntava se as pessoas achavam que animais eram brinquedos. Era revoltante. Eles só não tomavam cuidados básicos.
— Ah, Alex, que bom que você que você já chegou – o veterinário plantonista disse, aliviado. – Vem comigo, preciso te mostrar nosso novo paciente... Eu estou de saída então você vai ter que ficar de olho nele até o outro veterinário chegar.
Eu concordo com a cabeça, seguindo-o pelo corredor branco cheio de plaquinhas fofas sobre “adotar um amigo” e os benefícios que os animais trazem para os donos. Quando ele abre a porta do que poderíamos chamar de “UTI”. Há um cachorro grande e peludo, apesar de visivelmente desnutrido, amarrado à maca.
— Acabaram de trazê-lo de uma casa de campo abandonada — o veterinário contou, quando me aproximei para analisá-lo. – Parece que estavam treinando-o para ser um cão de briga. Está desnutrido e tão fraco que não conseguia nem andar quando o encontraram, e mesmo assim, ele quase atacou os voluntários.
Me aproximei do cachorro.
Há coisas que dá para se saber só pelo olhar do animar, e olhar dele era cansado.
Mesmo assim, quando estendi a mão para tocar no seu pelo preto, ele se move como se quisesse me atacar. O que justificava as amarras e a focinheira. Apesar de fraco, ele não iria aceitar a aproximação de humanos sem lutar. Era um guerreiro.
O veterinário então me passa várias instruções sobre como cuidar dele e um remédio para dar de duas e duas horas, até o outro veterinário chegar. E um analgésico para o caso dele parecer estar sentindo muita dor.
— Está tudo anotado aqui – Ele disse assinando a prancheta com o histórico do animal. – Qualquer coisa, me liga no celular.
Eu concordei com a cabeça e ele foi embora. Me deixando sozinho com Guerreiro.
Minha rotina no abrigo não é tão animada. Dou uma olhada nos cachorros e gatos saudáveis que esperam por adoção, e de duas e duas horas eu dou uma olhada em Guerreiro. O ruim de se trabalhar num abrigo voluntário não é a falta de remuneração (quando o trabalho é voluntário, você sabe que não vai ser remunerado), mas sim os veterinários que chegam quando querem.
O plantonista vai embora às seis da manhã.
Quando o outro veterinário chega, já é quase meio-dia.
E eu só consigo comer alguma coisa antes de ir para a universidade. Assistir minha aula que começa às duas horas. Quando estou indo para o meu carro, dou uma olhada no meu celular e vejo que tenho uma ligação perdida... Da Bell.
Hesito por um instante. Eu não fazia ideia do que ela poderia ter dito naquela mensagem. Talvez queira explicações sobre a loira? Talvez queira saber o que raios eu estava fazendo no mesmo bar que ela? Uma parte mais esperançosa de mim cogitou que, talvez, ela tivesse percebido que gostava de mim e queria parar de “dar um tempo”.
Meu coração até se agitou no peito.
“Oi, Alex, é a Bell... a garota idiota que ontem saiu do bar puta da vida e que pediu para darmos um tempo há duas semanas, caso você não lembre. Eu preciso conversar com você... Conversar sério. O.K. Talvez não muito sério... Só, me liga de volta... se quiser... por favor”
Contra a minha vontade um sorriso aparece nos meus lábios.
Ela conseguia ser engraçada até mesmo numa mensagem de voz que devia ser tensa. A prova de que eu não sabia como a mente dela funcionava eram: porque eu não me lembraria dela se nas últimas duas semanas eu só tenho lembrado dela? E como era uma conversa séria, mas não muito séria? E então: “me liga de volta... se quiser... por favor”. De qualquer forma, ouvir a voz dela me deixa de bom humor.
E eu sei que é errado, mas eu ligo para ela enquanto estou dirigindo.
Ela não atendeu.
Decido passar no quarto dela, antes da minha aula começar. Acho que dava tempo. Não seria a primeira aula que eu mataria por causa dela, de qualquer forma. Já fiz a mesma coisa quando aquele filho da puta torceu o braço dela. Estaciono o carro e então percebo que os alunos pareciam visivelmente inquietos. Um conhecido no estacionamento me disse que uma aluna tentou se matar.
Que trágico.
Vou para o dormitório da Bell, e bato na porta do quarto dela. Mas quem abre não é ela, é a colega de quarto, Chris. Sinto-me um pouco desconfortável. Eu tinha a impressão que Chris não gostava de mim desde o incidente com o pulso da sua amiga. Acho que ela cogitou que eu houvesse feito aquilo, o que era um absurdo. Eu não teria coragem de tocar na Bell de maneira que não fosse para deixá-la louca.
— A Bell está aí? – Eu perguntei.
Um vinco de preocupação se formou na sua testa.
— Você não soube? – Ela perguntou, parecendo nervosa.
Meu coração perdeu uma batida. Algo não me cheirava bem.
E ainda, uma aluna tentou se matar.... Não.
— Aquela garota que era amiga de Isabelle... Lauren tentou se matar – Ela respondeu, antes que eu começasse a me desesperar. Sei que é maldade, mas dei um suspiro de alívio. – Isabelle estava lá quando... bem, quando ela caiu do telhado. Me disseram que ela e mais um garoto foram para o hospital que ela estava.
Eu acho que me lembrava dessa Lauren.
No início do semestre, eu a vi com a Bell, assistindo um dos jogos de Mike. Ela era alta e magra, loira e de aspecto simpático. Na ocasião, Ellie havia me contado que ela era a única e melhor amiga de Isabelle desde que ela chegou aqui. Hoje, depois de tudo o que aconteceu com o namorado (que a Bell me contou quando estava bêbada), eu não sabia mais como estava o clima entre as duas. Mesmo assim, parte de mim não se surpreende.
Bell era boazinha demais para deixar que alguém (por mais cretino que tivesse sido) se suicidasse sem se sentir culpada por aquilo. Óbvio que ela tentaria ajudar, óbvio que ela iria para o hospital ver se podia fazer alguma coisa.
Diferente de mim, acho que ela não conseguia guardar rancor.
— Você sabe em qual hospital estão? – Eu perguntei.
— Acho que é aquele grande em Nottingham – Ela respondeu.
— Obrigado.
Viro-me para ir embora, quando Chris me chama, fazendo-me parar no lugar.
— Eu sei que não tenho nada a ver com a história..., mas, por favor, ignora o jeito retardado da Bell e não desiste dela. Eu acho... que você lhe faz bem.
Há algo no modo como Chris diz que ela é “retardada” que me faz rir.
— O problema não é eu desistir dela, é ela desistir de mim – eu lhe respondi.
E aí saí andando para o meu carro. Que se foda a aula, precisava ver se ela estava bem. Do jeito que ela era sensível, parecia óbvio que ela não estaria bem. E ela não estava. Quando cheguei no hospital, não a vi. Vi o garoto, um conhecido que fazia parte da equipe de corrida, e uma enfermeira ao lado dele.
— Mike, você viu a Bell? – Eu perguntei a ele.
— Bell? – Ele perguntou.
— Uma garota morena, baixinha, com cara de lesa...
— Ah, sim... – A enfermeira foi quem disse. – Você é conhecido dela? Namorado ou algo assim?
E aí estava a palavra novamente: “Namorado”.
— Algo assim – eu respondi à contragosto.
— Ah, que bom. Eu precisava falar com alguém... Se você puder levá-la daqui, eu agradeceria. Ela precisa descansar e esse ambiente só a está deixando estressada – a mulher falou com expressão de pena. – Ela parecia estar em estado de choque, quando voltou a si, ela falou que estava enjoada e eu lhe disse onde era o banheiro.
Estado de choque?
— Claro... onde fica o banheiro? – Perguntei.
Ela me apontou uma direção e eu a segui até encontrar as placas de indicação dos banheiros. Parecia errado entrar num banheiro feminino, ainda mais de um hospital, então eu esperei para ver se ela saía. Quando comecei a ouvir um choro, eu tive que entrar. Desculpe mulheres, mas era uma situação de emergência,
Quando entrei, senti como se alguém tivesse arrancado o meu coração do peito, cortado em mil pedacinhos e deixado com que ele sangrasse ao sol. Bell estava encolhida em um canto, chorando muito. Um braço dela estava todo vermelho e roxo, inchado. A vontade de abraçá-la e de lhe dizer que ia ficar tudo bem, foi mais forte que eu.
Me abaixei ao seu lado e a abracei.
À princípio, pareceu que ela não tinha me percebido ali. E então ela se aninhou contra mim e seus braços me envolveram de volta, como se seu corpo instintivamente reagisse ao meu. E ela me agarrou com tanta força, como se precisasse de ajuda.
— Precisamos sair daqui – eu disse.
Ela não pareceu ter ouvido.
Não disse nada e nem se mexeu.
— Bell... Você... – E então eu percebi o quanto o seu corpo tremia. Quase como se ela estivesse com frio. A abracei mais forte. – Você está tremendo tanto...
Ela não respondeu. E por algum motivo (talvez por vê-la chorando) quase tive vontade de chorar. Eu duvidava, uma pessoa não olhar para aquela cena e não sentir que ela era de cortar o coração. E a Bell ainda era tão... pequena e frágil.
Como ela não estava reagindo, decidi pegá-la no colo e tirá-la do banheiro.
Ela era um pouco pesada, mas não tanto a ponto de ser impossível aguentá-la. Isabelle enterrou seu rosto no meu ombro, como se pelo menos tivesse alguma noção de que estava chorando muito e de que não queria ser vista daquele jeito. Seus braços, me agarrando ao redor do pescoço.
Sinto que algumas pessoas olham quando passo com ela chorando no meu colo, mas não é como se o hospital pudesse fazer alguma coisa para ajudá-la. Mike também fica encarando quando passo pelo corredor onde ele estava esperando.
— Você vai ficar? – Perguntei a ele.
— Vou – ele avisou.
— Qualquer notícia, me liga, por favor – Eu avisei. – Ela vai ficar comigo.
Ele assentiu com a cabeça e então olhou para a Bell, mas não disse mais nada.
Quando passei pela recepção, a enfermeira me deu uns calmantes para o caso de eu precisar. Do jeito que ela chorava, provavelmente eu iria, por isso a agradeci pela atenção e coloquei Isabelle no meu carro. Ela não parou chorar e soluçar.
Será que uma hora as lágrimas dela acabariam?
Frases incoerentes saíam da sua boca: “Eu devia tê-la segurado mais forte”, “Não devia ter deixado ela sozinha”, “Minha culpa”. E então o choro recomeçava. Ela ainda parecia alheia ao que estava acontecendo. Como se estivesse perdida em algum lugar na sua cabeça. E mesmo quando eu segurei a sua mão, ela não segurou de volta. Ela puxou a sua mão e abraçou suas pernas.
Parecia que tudo o que ela queria era chorar.
Como se não bastasse aquela situação, minha irmã apareceu no meu apartamento de novo e olhou para Bell com curiosidade e empolgação. Começou a me encher de perguntas (como sempre) até que eu disse com impaciência:
— Vou levá-la para o meu quarto e não quero você perturbando, tá? Quando eu sair de lá você pode perguntar o que quiser.
E isso foi o suficiente para ela nos deixar em paz.
A primeira coisa que fiz foi deitá-la na cama e trocar a roupa dela (o que não foi tão difícil já que ela me ajudou instintivamente). Depois, misturei o calmante com um suco de laranja. Ela não estava disposta a beber, então coloquei o copo na sua boca e esperei que ela tivesse reflexo para engolir o líquido. E ela teve. Ela bebeu tudo.
Quando coloquei o copo no criado mudo e me levantei, senti sua mão no meu casaco, fazendo-me virar para olhá-la. Ela estava me olhando de volta, com aqueles olhos muito azuis e hipnotizadores. Eles expressavam uma perturbação, uma tristeza, profunda.
— F-fica comigo, p-por favor – ela gaguejou.
Era a primeira vez que ela falava comigo.
Como eu poderia dizer não para aquilo?
— Fico – respondi, respirando fundo.
Tirei o meu casaco e os meus sapatos, e me deitei ao seu lado na cama. Ela apoiou a cabeça no meu ombro e seu choro pareceu ir diminuindo aos poucos, até que ela acabou adormecendo ali. Kurt pulou na cama de repente, como se sentisse que tinha alguém mal. Olhei para o meu gato e o vi se aproximar de Isabelle e se deitar, colocando a cabeça na barriga dela para ficar olhando-a dormir.
Animais pareciam saber quando precisávamos deles.
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