Good Gone Girl
26 Capítulo 26 – Para de fazer merda, Isabelle
Notas iniciais
Capítulo 26 – Para de fazer merda, Isabelle
A primeira coisa que eu vejo quando acordo é o gato de Alexander com a cabeça apoiada na minha barriga, me encarando como se eu fosse a coisa mais interessante que ele já tinha visto. O gato de Alexander estava com a cabeça apoiada em mim porque... eu estava no quarto de Alexander, no apartamento de Alexander usando Alexander como travesseiro. Apesar de não ser a primeira vez, era constrangedor
Meu rosto se tingiu de vermelho.
Como eu havia ido parar ali?
Estendi a mão e fiz carinho na sua cabeça branca, sentindo meu braço latejar no processo. Estranho. Eu estava com uma camiseta preta, larga e de mangas (enroladas até meus cotovelos). O tecido era quente e macio e a gola era larga, quase ameaçando escorregar por meus ombros.
Tinha o cheiro dele.
Merda.
Observei o gatinho fechar os olhos e apreciar o carinho, ronronando como se tivesse um motorzinho na garganta. Era fofo. E então, um braço tatuado se enroscou no meu, sua mão se entrelaçou com a minha e o gato abriu os olhos sentindo a falta do carinho. Meu coração deu um pulo no peito.
Por que eu me lembrei. Lembrei de como fui parar ali.
Enquanto sentia seus lábios em minha testa, dando-me um beijo que parecia dizer: “que bom que você acordou”, lembrei-me que aqueles mesmos braços tatuados me envolveram quando eu estava chorando no banheiro e então me carregaram para outro lugar, que eu não vi porque enterrei meu rosto no ombro dele.
Eu tinha que olhar para ele, mas... com que cara? Depois de tudo o que tinha acontecido, depois de ter me resgatado chorando de um banheiro num hospital e depois de eu ter pedido para ele ficar ali como se eu fosse uma criança com pesadelos. Como eu ia olhar para ele? Não fazia ideia.
E eu devia estar horrível.
Meu rosto devia estar inchado, meus olhos deviam estar vermelhos e (sendo sincera) cara de choro só fica bem em atrizes e quando é visivelmente falso. Não queria pensar em como estavam meus cabelos ou o meu braço ferrado.
Não era assim que eu esperava reencontrar Alexander de novo. Juro.
Então eu ia prolongar aquilo o quanto desse.
Apertei sua mão de volta, antes de soltá-la para voltar a acariciar seu gato. Minha mão escorregando pelo topo da sua cabeça até o rabo.
— Se eu fosse você não pegava no... – De repente, o gato se levanta e sibila para mim, correndo para longe da cama. Alex completou: – Rabo dele. Ele não gosta.
— Por quê? – Eu perguntei.
Minha voz estava rouca. Que desgraça. Minha garganta doía muito.
— Hum.... Quebraram o rabo dele uma vez, e aí ele não gosta que peguem – Alexander respondeu. – Está vendo que ele é torto?
Realmente, o rabo do gato do Alex tinha um nó na ponta.
— Como assim “quebraram”? – Eu perguntei.
O gato não era dele?
— Eu encontrei ele assim na rua. Com o rabo quebrado e com um corte horrível da escápula até o rabo. Não sei se você percebeu uma falha que ele tem nos pelos – ele disse. Sim, eu percebi da primeira vez que o vi. – Achei que estivesse morto, mas não estava. Levei para o abrigo e cuidamos dele. Como eu me apeguei muito, decidi adotar.
Observei o gato dar um pulo para o armário do Alex e se deitar no meio das roupas pretas do dono. Eu nunca havia reparado se as blusas pretas de Alex tinham pelos brancos. É, acho que não sou nenhum pouco observadora. Sherlock Holmes teria visto na hora e, quem sabe, deduzido até mesmo a raça do animal e a sua origem.
Pergunto-me quem faria isso com um gatinho.
— Ele foi meu primeiro “paciente” – Alex murmurou.
Arrisquei um olhar para ele.
Eu precisava ver a expressão que ele estava fazendo, que mesmo não sendo nada demais (ele só estava olhando para o gato com o seu meio sorriso misterioso e sexy), fez meu coração dar uma cambalhota no peito. E então ele olhou para mim, e parecia que todo o ar do mundo havia sumido. Eu estava flutuando no espaço.
— Para com isso – eu murmurei.
Ele arqueou uma sobrancelha para mim.
— Com o quê? – Ele perguntou.
— Para de ser legal. Para de se importar... Seja mais filho da puta, por favor – Eu pedi, fazendo com que seu meio sorriso se alargasse no rosto. – Só.... Não sei.
Então eu enterrei o meu rosto no peito dele.
Que vergonha, Bell. Belas palavras.
Em minha defesa, se ele fosse mais filho da puta, tenho certeza que tudo teria sido maravilhoso. Se ele fosse filho da puta e só bom em sexo, teria sido perfeito. Teria sido fácil não gostar dele; teria sido fácil... não me sentir numa corda bamba prestes a cair se pisar em falso. Prestes a cair no poço sem fundo dos corações apaixonados e fodidos.
Ele coloca sua mão no meu braço e então, sinto uma pontada de dor.
— Puta merda – eu disse entredentes.
Alexander me olhou com alarme, enquanto me sentei na sua cama e percebi que meu ombro estava ferrado. Quer dizer, eu já tinha percebido, mas era a primeira vez que eu via o quão ferrado ele estava: com um hematoma enorme. Abaixei um pouco mais a gola da camiseta até perceber que ia até um pouco acima do cotovelo. Uma enorme mancha roxa e dolorida. Meu Deus, eu era uma garota muito burra.
Sério, Bell, tentar arrombar uma porta de aço emperrada? Com que músculos?
— Como isso aconteceu? – Ele perguntou.
Nem parecia surpreso. Claro que ele já tinha visto.
Soltei um suspiro.
— Lauren... – eu comecei, e então um aperto se fez no meu peito. Meu deus, eu estava ali, tentando fingir que nada havia acontecido, enquanto minha ex-melhor amiga estava numa sala de cirurgia tentando salvar sua coluna. – Ela tentou se jogar da cobertura do prédio administrativo... E a porta estava emperrada.... Tentei abrir... tentei.
Eu não vou chorar. Eu não vou chorar. Não vou.... Ah, merda, eu vou chorar.
Alexander se sentou na cama dele e então me abraçou. Graças a Deus meu choro não foi como antes: descontrolado, cheio de soluço e catarro. E as lágrimas ficam só nos meus olhos, porque eu consegui não as fazer transbordar.
— Um cara chegou lá e conseguiu abrir.... Eu falei com ela, eu prometi que ia ficar tudo bem, que a gente ia se entender.... Ela não queria se matar, sabe? Ela não queria.... Eu senti quando ela me estendeu a mão dela.... Ela estava apavorada! Mas... não consegui segurar.... E ela perdeu o equilíbrio....
O.K. Não consegui mais segurar. Elas transbordaram e eu me agarrei nele.
Alex tentou me acalmar. Ele acariciou minhas costas e disse que ficaria tudo bem. Que ela ficaria bem... Mas a questão era que ela havia confiado em mim e eu havia falhado. Várias vezes e de tantas formas diferentes, que essa culpa era insuportável de aguentar. Era muito dolorosa. Mais que o hematoma no meu braço.
— Ela vai ficar bem – ele murmurou no meu ouvido. – Não foi culpa sua.
— Foi sim... – Eu insisti.
— Não foi – ele insistiu também. – A culpa não foi sua. Se teve algum culpado foi aquele filho da puta que acabou com ela.... Não você.
Eu me afastei e olhei para ele. À essa altura, foda-se minha aparência.
— Sabe... se eu estivesse com ela... se eu a tivesse perdoado antes... ela não teria...
Tipo aquela série “15 Porquês”. Eu seria um dos porquês de Lauren.
De repente, a boca dele cobriu a minha. Eu não sei se ele quis me fazer sentir melhor me beijando (o que definitivamente chegou bem perto de conseguir) ou se ele queria só me fazer calar a boca e parar de chorar (o que definitivamente deu muito certo). Só sei que quando ele se afastou, todas as minhas palavras sumiram.
Não foi um beijo, foi um selinho.
E foi o suficiente para eu ficar encarando ele, como uma retardada, e ele ficar me encarando, como um Deus. Sua mão fazendo carinho no meu rosto, como se quisesse me manter calma. Funcionava. Seu toque me deixava calma. Me deixava no mundo da lua, na verdade. Fechei os olhos e abaixei a cabeça. Eu sabia que não merecia aquele carinho.
— Mike ligou para mim enquanto você estava dormindo. Ela saiu da cirurgia e já foi movida para um quarto – ele avisou calmamente. – Ainda não acordou, mas poderá receber visitas assim que o fizer.
Eu congelei.
— Mike? Que Mike? Aquele Mike?
— Não, outro Mike. Michael Carmichael – ele respondeu.
— Michael Carmichael que raios de nome é esse? – Perguntei.
Alex fez um esforço para não rir.
— Ele é um Mike legal. Era ele quem estava com você no hospital – o ruivo respondeu. – Ele está com ela agora, eu acho. Disse que assim que ela acordasse, nos avisaria. Disse que tudo ocorreu bem na cirurgia, mas precisam esperar que ela acorde para ter certeza dos resultados.
Pergunto-me se “resultados” quer dizer se ela estaria andando.
Soltei um suspiro. Ela estava viva. Ia ficar bem... ou quase.
— Eu acho... que você devia tomar um banho enquanto eu faço alguma coisa para você comer – Alexander disse, entrelaçando suas mãos nas minhas. – Você dormiu por muito tempo e deve estar com fome.
Eu não estava, mas sabia que precisaria comer.
— Por quanto tempo eu dormi? – Perguntei.
— Umas cinco horas – ele respondeu. E como eu devo ter parecido muito culpada por ter dormido tanto (e o forçado a ser meu travesseiro), ele disse: — Mas não se preocupe. Era bom que você dormisse. Foram, literalmente, recomendações médicas.
Ele soltou as minhas mãos e se levantou da cama para ir fazer alguma coisa para mim. E eu fiquei ali sentada, como se não soubesse o que fazer. Devia agradecer por ele ter cuidado de mim ou pedir desculpas por ser tão incômoda? Como foi que ele me encontrou afinal? Por que o apartamento dele?
Por que eu não fiz nenhuma pergunta realmente importante?
Soltei um suspiro e então eu me levantei. Acho que eu precisava de um banho mesmo. Mas confesso que me ver no espelho era a última coisa que eu queria. Meus cabelos não estavam tão ruins, mas meu rosto estava uma desgraça. Vermelho e pálido ao mesmo tempo. Os olhos inchados, a cara toda marcada. Meu Deus, deviam dar um prêmio para o Alex só por ele conseguir olhar para mim daquele jeito.
Quando tirei a blusa, pude analisar o hematoma melhor.
Meu hematoma devia ser o rei dos hematomas de tão grande que estava. Ele começava no meu ombro e vinha por toda a extensão do braço até um pouco acima do cotovelo. Nunca pensei que fosse possível existir algo desse tamanho. Ele tinha uma cor meio vermelho forte misturado com roxo. E doía dores da minha alma.
Com sacrifício, consegui abrir meu top de couro e então me despir. A água quente por algum motivo me ajudou um pouco a lidar com aquela situação toda. Era fácil não pensar em nada quando você se sentia um lixo e estava fazendo alguma coisa que fazia se sentir bem (como tomar um banho quente).
Quando saio, procuro alguma pomada para baque no espelho do banheiro dele e passo sobre o hematoma no meu ombro. Falei muitos palavrões, não vou citá-los.
Como sinto que minhas peças intimas estão muito sujas, eu visto a camiseta do Alex sem nada por baixo. Parece um pouco sem-vergonha, mas em minha defesa, meu corpo já não era nenhum mistério para Alexander, que provavelmente já o conhecia de cor. Depois, eu juro que estava pensando em pedir para alguém trazer minhas coisas ou em colocar as minhas roupas para lavarem... na casa dele.
E eu não esperava encontrar ninguém quando saísse do quarto.
Me enganei redondamente.
Quando saí, havia uma garota de pelo menos dezesseis anos jogada no sofá, zapeando pelos canais da televisão com uma expressão de puro tédio. E pela cozinha americana, pude ver que havia uma senhora conversando com Alex. Uma senhora normal, de cabelos castanhos e olhos claros.
E eu sem nada por debaixo da blusa enorme dele.
Meu. Deus. Que. Vergonha.
— Ah – a garota é a primeira a me notar. – Você é a namorada do Alex?
Eu corei até a raiz do cabelo e me encolhi, rezando para que não fosse tão óbvia a minha falta de roupa. Porém, mais constrangedor do que aquilo, foi ouvir ser chamada de “namorada”. Perguntei-me se ele teria dito isso, mas achava pouco provável.
— Hum... não...? – Não sei o que responder.
— E o que está esperando para ser? – Ela retrucou.
Fiquei sem reação. Caramba, que menina direta! O que eu ia responder para uma pergunta dessas? O que eu ia fazer diante de uma pergunta dessas?
— Hum... eu... na verdade...
— Alexis! Deixa ela em paz! – Alexander gritou da cozinha. – Eu já disse!
A garota revirou os olhos e cruzou os braços.
Eu não havia percebido que ela era a garota da foto (obviamente, ela havia crescido). Tinha cabelos ruivos como do irmão, olhos verdes e rosto corado. Havia algo de atrevido nela, um modo como ela tinha o queixo proeminente, que me fazia sentir estar encarando uma garota de personalidade forte e impulsiva.
— Então você é a irmã dele – eu comentei.
— Ele falou de mim?! – Ela perguntou com os olhos brilhando.
E empolgada, pelo visto. Do tipo que não parava quieta.
— Eu vi a foto da família dele no rack e perguntei sobre – eu respondi.
O olhar dela relanceou para os porta-retratos.
— Ah, é. Eu que dei para ele quando ele veio morar sozinho – Ela comentou fazendo uma expressão pensativa. – Era a única foto de família que tínhamos, mesmo que antiga. Eu disse para o Alex colocar um adesivo na cara do Alexiel, mas ele não quis me ouvir.
Ela devia estar se referindo ao irmão mais velho.
Havia algo de muito espontâneo em Alexis que, eu tinha que admitir, era fofo. Quase infantil. E então ela começou a me contar sobre quando Alex resolveu morar sozinho, sua mãe foi contra e fez todo o drama que mães fazem, mas ele se recusava a ficar sob o mesmo teto do cara que machucou a amiga dele e que foi o maior barraco.
E ela teria continuado se a mulher da cozinha e Alexander não tivessem vindo para a sala a fim de colocar a mesa para o jantar. Pelo olhar que ele lançou para ela, parecia que ela havia falado demais.
— Então... essa é a sua namorada, Alex? – A mulher perguntou.
Novamente eu fiquei vermelha. Que merda.
— Não... – ele respondeu, parecendo constrangido também.
— E O QUE FALTA PARA SER?! – Alexis gritou como se estivesse impaciente.
Ele respondeu com um olhar sério para ela. Até eu entendi que ele estava a mandando parar com isso. Se fosse eu, eu teria medo, mas como não era, eu ri, assim como a outra mulher. Vendo agora, ela devia ter uns cinquenta anos, porém, “conservada”. Obviamente, diferente da risada dela, a minha foi mais de nervosismo do que de outra coisa.
Na minha cabeça foi tipo: “Há há há, me mata, há há há”.
— Ah, desculpe. Eu sou Diana, tia do Alex – ela se apresentou estendendo a mão.
E é essa parte que eu fico constrangida por estar só com a camisa dele.
— Isabelle – me apresentei.
— Desculpe atrapalhar vocês, mas Alex não me falou que estava com alguém aqui... e eu precisava trazer a blusa nova que eu comprei para ele – Diana comentou, empolgada, pegando um embrulho em cima da mesa e mostrando-me uma camiseta cinza e rosa-clara. Era até bonita, mas eu não conseguia imaginar Alex usando outra coisa que não preto. – É para ele usar no fim de semana, no jantar que vamos dar em casa.
Por algum motivo, Alex parece envergonhado. E eu acho que nunca o vi tão visivelmente desconfortável e constrangido quanto naquele momento. Cogitei que, durante todo aquele tempo, talvez eu o tivesse julgado errado. Talvez ele não fosse tão lobo solitário quanto parecia. Obviamente sua tia e a irmã gostavam dele.
Como a mulher esperava algum comentário meu sobre a camiseta, eu apenas digo:
— Combina com os olhos dele.
Ela pareceu satisfeita, como se tivesse pensado na mesma coisa.
— Bem, não vamos mais atrapalhar vocês – Diana disse. – Vamos, Alexis.
A garota parecia longe de querer ir embora, mas não tinha muita escolha.
— Vocês não vão ficar para jantar? – Perguntei.
Pelo olhar que Alex me lançou, acho que fiz a pergunta errada.
— Podemos?! – Alexis pareceu empolgada.
Eu dei de ombros, ficando vermelha. Bem, de onde eu vinha era estranho uma família ajudar a colocar a mesa e não ficar para jantar, né? Sei lá, era no mínimo esquisito. E também, era comum convidar as pessoas para jantar, mesmo que fosse só por educação.
— Já que é assim, licença... – a garota diz, sentando-se em uma cadeira na mesa de quatro lugares no canto da sala. – Meu irmão é o melhor cozinheiro que eu já vi. Acho que é verdade o que dizem sobre morar sozinho, sabe?
Eu não sabia o que diziam sobre morar sozinho, mas dei um sorriso. Sentindo que mais tarde Alexander ia me matar por não ter deixado que ele se livrasse das duas. Não que ele quisesse, eu acho. Sinto que ele ficou constrangido por eu estar lá. Eu também ficaria no seu lugar. E então eu percebi que o problema não eram as duas e sim eu, que era a intrusa naquele jantar.
Enquanto comia um pedaço delicioso de lasanha (meu deus, se Alexander tivesse feito aquilo mesmo, ele cozinhava muito bem!), fiquei quieta o máximo possível, para que elas não notassem a minha presença e nem se sentissem obrigadas a me conhecer, porém, elas estavam curiosas. Perguntaram de onde era o meu sotaque, e porque eu estava usando a blusa de Alexander (obviamente, Alexis fez essa pergunta constrangedora).
— Ele... não estava esperando que eu aparecesse aqui – foi o que eu respondi.
Alexander ficou quieto quase o jantar todo. Só falando quando falavam com ele. Mas acho que ele sempre foi assim, não é? Um pouco quieto quando tinha muita gente. Ele era assim até com a própria família? Curioso.
— O que foi isso no seu ombro, Isabelle? – A mulher perguntou, apontando para o hematoma que aparecia pela gola larga que caía sobre meus ombros. – Está feio.
Perguntei-me como eu iria contar sobre aquilo.
— Ela tentou arrombar uma porta emperrada – Alexander me dedurou.
Havia um sorriso maldoso no seu rosto, como se ele fosse se divertir me vendo ser interrogada pela tia e pela irmã. Alexis arregalou os olhos, assim com Diana.
— Sério?! – Ela perguntou animada. – E conseguiu?!
— Não – eu confessei, fazendo-a rir. – Foi uma ideia bem idiota, na verdade.
— Mas por quê? – A mulher perguntou.
— Bem... Era uma porta que estava trancada por dentro e devia pesar mais que eu mesma... Foi burrice ter tentando – eu respondi.
— Não! – A mulher disse rindo. – Quis saber por que você tentou abri-la!
— Ah – eu disse, envergonhada. – Bem... minha amiga... estava em perigo.
As duas ficam muito intrigadas, mas não fazem mais perguntas. E mesmo quando Alexis faz, Alexander e sua tia fingem que não escutam e mudam de assunto. Falam sobre seus parentes até que elas decidem ir embora. Ou melhor, Diana decide e arrasta Alexis junto, ignorando os protestos da garota.
— Sua irmã é engraçada – eu lhe disse.
— Você que deu muita confiança para ela – ele retrucou enquanto tirava a mesa.
Como parecia injusto deixá-lo fazer tudo sozinho, depois de ter cozinhado, decidi ajudá-lo a secar a louça e colocá-las no lugar. Uma ajuda que ele recusou no início, mas então eu insisti até ele aceitar. Enquanto ele protestava, eu já estava secando as louças e talheres, então não adiantou de nada.
— Você não me falou que elas estavam aqui – eu disse, constrangida.
— Achei que Alexis já tinha ido embora – ele confessou. – Não vi quando minha tia chegou. Eu estava no meu quarto... com você. Só vi quando vim fazer o jantar.
Meu rosto ficou mais vermelho ainda, então não tento mais fazer perguntas sobre isso. Novamente, sinto-me mal por me impor a ele daquele jeito. E é esse sentimento que me faz lembrar das perguntas que eu devia ter feito antes.
— Como você me achou? – Eu perguntei. – No hospital...
— Ouvi sua mensagem e fui te procurar – ele respondeu. – Chris me disse que você estava no hospital. Ela sabia qual hospital levaram Lauren então não foi difícil.
— Por que me trouxe para cá? – Eu perguntei.
Ele demorou para responder.
— Porque... era mais perto – ele respondeu. – E... eu queria cuidar de você.
Ai meu deus, meu coração deu um pulo no peito. De todas as respostas que ele poderia ter me dado, aquela era a que eu menos esperava. Quer dizer, mesmo que Alexander respondesse que houve uma invasão alienígena que havia destruído o campus, eu não me surpreenderia tanto quanto aquela resposta.
— Ah – é tudo o que eu consigo dizer.
Gênia.
Senti que ele estava me olhando, mas não consegui olhar de volta. Pareceu-me mais esperto virar de costas e tentar guardar os copos na prateleira do armário.
De repente, sinto Alexander atrás de mim. Seu corpo junto ao meu. Sua respiração pesada batendo ao lado da minha orelha, como se ele tivesse excitado só com a aproximação. Ele estende o seu braço e então pega os copos da minha mão, colocando-os numa prateleira mais alta, e então fecha a porta. E ele fica com a sua mão apoiada na porta do armário. Meu coração parece um motor no meu peito. Batendo tão rápido, tão inquieto, como se esperasse alguma coisa naquele momento.
Como se esperasse... bem, que ele me comesse por trás.
Sua respiração ali é, certamente, excitante.
Então eu sinto a ponta do seu nariz pelo meu pescoço, descendo pelo meu ombro machucado. É tão sutil que nem dói. Enquanto isso, sinto sua outra mão, subindo pela minha coxa até a minha cintura. Seus movimentos são tão lentos, que fico impaciente. É uma tortura lenta e viciante, entretanto.
“Eu quero que ele me foda por trás” lembrei-me.
— O quê? – Ele perguntou no meu ouvido.
— Quê o quê? – Eu respondi.
Será que falei alto?
— Você...
— Oi? Hã? Quê? Já estou indo Kurt! – Desconversei.
Mas antes que eu pudesse sair correndo, ele me prendeu contra aquele balcão. Sua mão na minha cintura me agarrando com força. Impossível não me lembrar da vez em que ele... me chupou naquele balcão. Ai meu deus. Ele me prendeu no melhor estilo: “ah não, você não vai a lugar nenhum”. Corei até a raiz do cabelo. Não quero pensar em quantas vezes eu corei só nesse espaço de duas horas. Só era humilhante demais.
Ele riu e então beijou o meu pescoço.
— Eu senti saudades de você – murmurou, entre beijos.
Eu confesso que fiquei tensa.
Uma parte de mim (a parte que estava puta por ontem) queria responder-lhe algo do tipo: “Ahã, eu vi como você estava com saudades ontem, com os peitos daquela loira balançando na sua cara”. Porém, havia outra parte, mais esperta, que dizia: “Bell, pelo amor de Deus, não estraga esse momento”.
E nós sabíamos que eu nunca ouvia a parte inteligente.
— Ahã, por isso ontem você estava com os peitos daquela loira na sua cara? – Eu perguntei com sarcasmo, e então sua boca no meu pescoço parou de repente. – É, eu vi como você estava sentindo saudades... pode apostar.
Alexander, virou-me para encará-lo, mas eu não consegui. Eu estava com raiva. Então fiquei olhando o chão enquanto eu tentava não estrangular aquele cara ruivo à minha frente. Não que eu fosse de verdade. Mas pelo menos nos meus pensamentos. Não queria matar Alexander nos meus pensamentos.
— Você está falando da Georgia? – Ele perguntou.
Respirei fundo, resposta errada.
— Eu não sei o nome da vagabunda, só... Argh! Por quê? Por que você tinha que estar lá e eu tinha que ver você com aquela loira aguada?! – Eu respondi, dando um soco no ombro dele. Eu não sou forte, sei que não doeu. Só queria descontar em alguma coisa. – Eu fiquei puta. Ainda estou puta. Eu passei duas semanas inteiras pensando... sei lá, em como eu voltaria para você e aí eu saio e... vejo você com aquela fulaninha.
“Porra, Bell. Você não queria conversar com ele para brigar. Queria se jogar nos pés dele e deixar claro o que estava acontecendo, o que você estava sentido. E torcer para ele não dizer: eu disse que não era para você se apaixonar” uma voz consciente disse na minha cabeça. Infelizmente, eu estava com tanta raiva que nem a ouvi.
Tudo o que eu faço é esconder meu rosto nas mãos e respirar fundo.
— Não era para essa conversa ter começado assim – eu disse, respirando fundo.
— Mas já que começou... – Alexander disse, apoiando suas mãos no balcão atrás de mim. Senti-me presa e, pior que isso, novamente eu não queria sair. Vejo-o se aproximar de mim, e então ele pergunta com a boca no meu ouvido: — Eu passei as últimas duas semanas grudado no telefone, esperando você me ligar.
Meu coração parou por um instante.
Eu não sabia se era verdade. Não tinha como saber se era... Só sei que, quando ele dizia daquele jeito, minhas pernas fraquejavam. E eu queria muito acreditar. Mas confesso que estava com medo. Com medo de acreditar e então me foder. Eu havia acreditado em Michael e veja no que deu, não é mesmo?
Encostei minha testa no seu ombro e respirei fundo.
Eu queria acreditar nele.
— Você dormiu com ela? – Eu murmurei, tão baixo que rezei para que ele não ouvisse. Quer dizer, essa era uma pergunta humilhante.
A prova viva de que eu era uma garotinha apaixonadinha por ele.
Havia uma parte de mim que desejava que ele respondesse que não. Outra parte, desejava que ele respondesse que sim. E pode parecer confuso. Mas se ele dissesse que sim, eu me sentiria menos culpada por causa de John.
— Bem, depois que você deu aquele olhar de “Para de fazer merda, Alexander”... Oliver fez questão de contar para todo mundo que eu meio que estava com você... então ela me deixou em paz porque sabia que seria inútil dar em cima de mim – ele respondeu.
Eu ergui o olhar para ele e nossos olhares se encontraram.
E, então, eu acreditei nele.
É. Eu provavelmente havia cometido o mesmo erro mais uma vez: eu havia gostado de mais de um cara, eu havia visto esse cara com outra garota e havia acreditado na palavra dele... E eu provavelmente tomaria no cu alguma hora, mas foda-se. Aparentemente, se foder fazia parte da vida, era assim que ela se reproduzia.
— E o cara? – Ele perguntou. – O cara que estava te acompanhando?
Merda.
Um arrepio percorreu a minha espinha.
Provavelmente, se eu dissesse a verdade, Alexander ia ficar puto. Muito puto. Quer dizer, nenhum cara normal aceitaria aquilo, certo? Ainda mais quando ele não havia feito nada... Basicamente, eu fui uma garota irracional, impulsiva e... meu deus, talvez eu tenha arruinado tudo com ele. E mesmo com todos esses motivos para mentir, eu senti que ele merecia a verdade.
— Hum... Eu confesso... que estava puta com você e meio bêbada.. e talvez eu tenha me emputecido em imaginar você e a loira peituda transando... – eu balbuciei, totalmente culpada. Tenho certeza que meu rosto corado me denuncia, ainda mais quando eu sussurro: – Desculpa.
Por um instante, Alexander pareceu ter virado uma estátua.
Há um instante em que ele não se mexe e eu nem acho que ele consegue respirar. E então ele se afasta de mim. Porém, não sai correndo da cozinha, puto da vida, como eu imaginei (e até esperava) que ele fosse fazer. Ele só se afasta. Encosta-se na bancada do outro lado e respira fundo. Então eu arrisquei um olhar para ele...
Meu coração perdeu uma batida.
Alexander parecia... arrasado? Por quê?
— Nós estávamos dando um tempo – ele disse, mas sua voz não soa como alguém “O.K. com a situação”. Ele parecia querer convencer a si mesmo. – É... Você... disse que queria um tempo para si mesma... acho que não posso te culpar. Só... Não sei...
Ele respirou fundo.
E nunca eu me senti tão mal em toda a minha vida.
— Desculpa – eu murmurei de novo, me aproximando dele devagar. – Desculpa. Me desculpa, por favor... Eu... eu...
“Eu estou me sentindo péssima”, “eu me arrependo de ter feito isso”, “eu acho que estraguei tudo”, “eu não pensei que você se importasse”, “eu pensei que você estava com aquela loira”... O que soava menos pior? Provavelmente, o silêncio, por isso eu fico quieta antes que ele me odeie ainda mais.
Eu não queria que ele ficasse bravo.
De todas as pessoas, não queria que ele ficasse assim.
Alexander olha para mim e então pede um tempo. É assim que ele foge para o quarto, me deixando sozinha na cozinha com a sensação de que eu era uma péssima pessoa... Nunca pensei que chegaria o dia em que eu magoaria um garoto.
Esse dia chegou.
Bell do mau está completa e eu quero matá-la.
Eu não tive coragem de entrar no quarto para encarar Alexander.
Eu me sentia uma péssima pessoa, então eu só terminei de lavar as louças e guardar tudo no lugar, coloquei minha roupa para lavar e me joguei no sofá em posição fetal, esperando que ele aceitasse meu pedido de desculpas silencioso ou que a morte viesse. O que acontecesse primeiro, eu acho. A morte devia ser o castigo para quem trai o.... sei lá, para quem machuca alguém como Alexander (que desde que conheci só fez cuidar de mim e me matar de prazer).
Eu era uma puta hipócrita.
Uma garota má, enfim, mas eu só queria não me importar tanto. Como as pessoas conseguiam não se importar em quebrar corações? Era tão difícil.
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