Gonna Change You
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Notas iniciais
O dia ainda não tinha acabado.
A feira já tinha fechado a algumas horas atrás, mas meus pensamentos não sairiam tão cedo daquele lugar. A briga, o beijo inesperado, as gêmeas, tudo. Uma manhã foi o suficiente para virar minha mente de ponta cabeça. Mas também foi tudo isso que me fez perceber a onde eu estava indo parar. Eu estava mudando, e muito. Eu já não estava estudando direito, nem me concentrando bem, e era tudo culpa daquele... garoto.
Logo após o final, pedi para que Kamiho me levasse pra casa, e acabei me despedindo de Leo e dos outros no colégio mesmo, de modo curto e grosso, não queria mais nenhum envolvimento com eles, depois daquela bagunça.
No caminho, percebi o quanto Kamiho ainda parecia meio alheio e estranho, foi então que lembrei daquela discussão, e resolvi o perguntar o que tinha acontecido, mas tudo que consegui naquele momento foi uma resposta bem seca e indelicada.
—Não quero falar disso agora. -e assim meu amigo loiro calou-se pelo resto do percurso.
E quando eu cheguei em casa, resolvi acabar com aquele mundinho cor de rosa e confuso de uma vez. Subi ao meu quarto e abri meus cadernos, que antes eram completos e organizados, mas de alguns meses para cá, estavam só repletos de notas bagunçadas, desenhos e carinhas desenhadas. Arranquei as folhas, nervosa. Aqueles meses foram tão diferentes e bons, mas já era o suficiente. A lembrança daqueles dias felizes eram mais do que o necessário. Eu precisava me focar novamente, ou teria problemas com meus pais.
O resto da tarde, recuperei as matérias que tinha perdido, estudei como uma louca e não parei em momento nenhum, a não ser por uma vez ou outra que Kanako me trazia comida e eu parava para comer. Fora isso, não desgrudei de meus livros nenhum segundo, e eu finalmente pude me sentir bem comigo mesma de novo. Eu pude me sentir a Kaya de sempre.
—Caramba, como senti falta de ser a nerd excluída. -comentei em voz alta, satisfeita após uma tarde longa de leitura e estudos. Eu já estava bem cansada, então decidi dar uma pausa e relaxar, levantando da cadeira e me deitando na cama.
Peguei o celular, que estava de lado a tarde toda, e olhei as horas. Já era final de tarde, horário que eu normalmente saia da escola, e comecei a lembrar das minhas caminhadas com Leonard Sinclair, e em como ele cantarolava suas músicas. Eu ri, pensando nisso, mas logo afastei esses pensamentos, me sentando. Eu tinha que parar de pensar naquele menino...
Em uma tentativa de me distrair, olhei pela janela e fiquei ali parada, observando a luz alaranjada do céu pintar a rua com sua coloração vívida. Meu olhar, então, se fixou no meio fio, onde geralmente me sentava e conversava com Kami, sem ver o tempo passar. Eram momentos felizes, que não podem nem nunca vão ser esquecidos.
Estava tão alheia, que levei um susto ao ouvir uma batida na minha porta. Pelo ritmo semelhante ao tema de Star Wars das batidas, presumi ser meu irmão, e o mandei entrar. Aquela era uma maneira discreta de identificarmos quem queria entrar, sem precisar falar nada. Kanako sempre bate com um ritmo parecido com o tema de Harry Potter.
—Desculpe, não sabia se estava ocupada ou não. -ele disse, abrindo a porta tranquilamente, com um sorrisinho. Eu o olhei, e sinalizando para que entrasse.
—Sem problemas, maninho. Não estou mais ocupada. -eu respondi, me afastando da janela, sentando na beirada da cama, e ele se aproximou. -Mas o que foi?
—Você agiu de modo esquisito hoje. Se trancou aqui a tarde toda sem falar nada da feira ou algo do tipo. Kanako me contou que você estava séria além do normal estudando. Aconteceu algo? -ele parecia genuinamente preocupado, parando a minha frente e se ajoelhando perto de mim. Eu suspirei, pensando se deveria ou não contar a ele o que estava me acontecendo. Bem, por que não?
—Muita coisa aconteceu, Raku. Esses meses todos, essas amizades, Leonard... Tudo aconteceu rápido demais, eu não estava nem estou preparada pra tudo isso. O que eu sinto por Leo, seja o que for... Eu não quero isso. Então, hoje, foi quando finalmente percebi o tanto que estava afastada de meus objetivos, e resolvi me concentrar de novo. -eu apontei as folhas amassadas no lixo e todos os livros em minha mesa, com m suspiro triste. -Eu precisava recuperar o tempo que perdi tentando fazer amigos. Foi divertido e tudo, mas realmente não é pra mim. Eu só preciso do meu caderno, dos meus livros, de você e de Kanako, e de Kamiho.
—Eu nunca vou entender essa obsessão sua e de Kanako pelo estudo, mas tudo bem. -Raku respirou fundo, e começou a acariciar meu rosto de modo terno, olhando para mim. -Escuta, irmã. Não sei exatamente porque está tão incomodada com tudo isso, fazer amigos é bom. Ter sentimentos é bom. Amar é bom. Se isso tudo foi tão divertido e feliz, por que acabar com isso?
—Eu não sei, mas...
—Mas nada, Kaya. Você precisa aprender que aquilo ali -ele apontou meus cadernos, e continou. -não é tudo. Há um mundo fora dos livros, uma vida toda. E você precisa entender isso. Leonard gosta muito de você, bem como todos os seus amigos. Eles só querem te ajudar a ver isso. Não acabe tudo assim.
—Eu... -a fala dele me incomodou. Ele não deixava de ter razão. Para um jogador com má interação no mundo real, ele era bom com socialização, mesmo que virtual. -Eu preciso pensar. Mas obrigada pelo apoio, Raku.
—Você sabe que sempre estou aqui por você, não? -ele riu, se levantando, e me deu um beijo na testa. -Eu amo você, criança. Se precisar, é só pedir ajuda.
—Também te amo, projeto de adulto. Obrigada por tudo.
Ele sorriu uma última vez, e começou a andar até a porta do quarto. Ele acenou rapidamente para mim, antes de sair e me deixar novamente sozinha com meus pensamentos, ainda mais bagunçados agora.
Cai de costas na cama, com um grunhido de desespero. Pensando sobre meus amigos, peguei o celular novamente, vendo o que tinha ali. Tinham tantas notificações de mensagens que quase fiquei com preguiça de desbloquear a droga do telefone, mas a curiosidade me venceu.
Haviam cento e poucas mensagens de Kyoko, Naomi e Peter no grupo se perguntando porque eu fui embora tão repentinamente e sem dizer tchau, tentando me chamar por uma resposta e se queixando por eu não respondê-los. Havia outras mensagens privadas de Leo perguntando se estava tudo bem comigo, que as meninas, e até mesmo o mal humorado Peter estavam preocupados comigo. Naquele momento, percebi que Raku tinha razão. Eles gostavam mesmo de mim, algo estranho. Eu era tão esquisita, como consegui arrumar gente que me entendesse e gostasse de mim? Talvez eu devesse realmente valoriza-los. Quero dizer, não era impossível conciliar amizade com estudos, Kamiho era a prova disso.
Ao pensar no meu amigo loiro, resolvi abri as mensagens privadas dele. Ao contrário de todas as outras, as dele não me perguntavam nada que eu não quisesse responder. Em verdade, ele só mandou uma, escrita "Me desculpa se eu te preocupei hoje com aquela briga. Eu te amo, Ky".
—Tinha que ser esse garoto. -sorri, feliz em ver como meu melhor amigo me conhecia tão bem. Respondi rapidamente, dizendo que estava tudo bem, mas que eu cobraria explicações depois dos dois. E que eu também o amava.
Então larguei o aparelho de lado, e resolvi tomar um banho rápido para colocar os pijamas. Só aí que lembrei que era sexta, e que eu costumava ir dormir na casa de Sakura esses dias, para ajudá-la a estudar e conversar um pouco. Assim, antes de entrar no chuveiro, enviei uma mensagem rápida pedindo que ela viesse para minha casa dessa vez, passei endereço, horário e tudo, e finalmente entrei na ducha.
Se tinha outra pessoa que me fazia querer continuar tendo amigos, essa pessoa era Sakura. Ela, além de Kamiho, parecia ser a única daquele grupo que nunca, mas nunca mesmo, me questionou sobre meu gosto por estudos ou porque eu era tão obececada por isso, então me sentia à vontade com ela. Além do que, eu precisava conversar com alguém que não fosse meus irmãos ou Kami.
A água quente caindo no meu rosto foi um alívio de um dia estressante, e fez meus pensamentos se acalmarem um pouco. O calor vindo das gotas fizeram com que me sentisse bem acordada de novo, e meu corpo ia relaxando ao mesmo tempo. Sai de debaixo da água e troquei de roupa rápido, pondo o pijama. Peguei uma borrachinha de cabelo em cima da mesa e o celular, e corri ao banheiro de novo para amarrar meu cabelo molhado.
Havia mais uma mensagem de Sakura, dizendo que já estava a caminho, e que trazia com ela lanchinhos, já que eu sempre fazia o mesmo. Agradeci a ela, largando o celular, e amarrei o cabelo ruivo em um rabo-de-cavalo. Como ainda estava molhado, as ondas do meu cabelo estavam bagunçados e desorganizados, mas acho que essa era a única desorganização que eu realmente gostava e ainda gosto.
Um pouco mais tarde, quando eu já estava na sala, lendo deitada no sofá, Sakura chegou em casa, carregando várias sacolas de comida. Convidei-a para entrar, colocando a sacola na cozinha e impedindo meu irmão de roubar alguma coisa. Pegamos alguns dos lanches e subimos para meu quarto, depois de rapidamente a apresentar aos meus irmãos.
—Eles são legais, parece que vocês vivem uma harmonia boa aqui né? -ela dizia, enquanto entrávamos em meu quarto. Ela se sentou em minha cama, cruzando as pernas para cima. -Casa tão fofa, só vocês três... Eu não consigo me imaginar morando com meus irmãos! Com certeza não ia dar certo... Akiro iria querer a namorada morando junto e Tamaki não ia gostar nada da ideia de outra menina sem ser eu morando em casa, além de reclamar que se Akiro podia ter a namorada em casa, que o namorado dele também deveria morar conosco. Senhor que bagunça.
Eu ri, concordando, e sentei na cama também, e começamos a conversar sobre esse assunto. E sim, ela tem mais dois irmãos já adultos, não moram com ela. Mas eu já tive a chance de conhecer Akiro e Tamaki uma vez, quando visitaram a irmã, e eles são bem legais, mas esses três tem gostos extremamente diferentes. Acho que seria realmente bem difícil eles morando juntos.
Enquanto conservamos, comecei a lembrar de algumas coisas que ela já tinha me contado sobre sua vida, e fiquei a observar. Ela também já estava de pijama, então era possível reparar um pouco mais em sua aparência delicada e feminina. Ela tinha um corpo esbelto e bonito, não era atoa que ela era uma modelo famosa na Coréia, o decote na blusa do pijama deixava isso bem claro. O cabelo longo e escuro estava trançado de lado, caindo como uma corda pelo seu ombro esquerdo. Sua pele era tão branca quanto a minha, revelando algumas manchinhas espalhadas aqui e ali em seu corpo. Seus olhos tinham uma coloração engraçada, variando de um cinza para um verde claríssimo. Era realmente muito bonita, de dar inveja. Não me admirava que tantos garotos na escola babassem por ela.
—Mas, Kaya, me conta uma coisa. -Sakura parou com o assunto de irmãos do nada, e comeu um doce, dando um sorriso suspeito. -E aquele assunto lá hein? Já sabe o que fazer?
—Não. Eu não tenho a mínima ideia do que fazer. -eu suspirei, mordendo um bolinho furiosamente. -Aliás, eu tava pensando nisso a pouco tempo, depois de conversar com meu irmão. É meio estranho ter tanto sentimentos ao mesmo tempo...
—Nisso você tem razão. É uma droga se sentir assim. -ela caiu de costas na cama, abraçando uma das almofadas. -Queria ser decidida assim como você, poder e querer largar de ser idiota e parar de sorrir abobadamente toda vez que escuto o nome dele.
—Para com isso, Sakura. Você não precisa dele pra viver. É só um garoto. -eu disse, mais falando para mim mesma do que para ela. -Além do que, se quiser, eu mesma posso fazer vocês dois ficarem juntos. Só preciso de sua autorização.
—Mas por que não falou isso antes?! -ela se levantou e exclamou, batendo a almofada na cara em seguida. -Ai, Kaya do céu, você hein...
—Eu o caramba! Só estou sendo uma boa amiga te mostrando os dois lados da moeda! Fui genuinamente neutra. -reclamei, bufando. -Você, Kyoko... Por que vocês ficam tão idiotas quando apaixonadas?
—Odeio quando você faz essas coisas de gente inteligente. As vezes parece que você esquece que a gente não entende de tanta coisa que nem você. E nem somos duras que nem você, sua sem coração. -Sakura suspirou e pegou um dvd dentro da mochila, de um anime chamado "Dramatical Murder". Era o anime favorito dela. -Então, quer ver comigo?
—Claro. Nunca vi mesmo. Parece interessante pelo nome...
E quem disse que eu estava certa? Nunca estive tão errada na minha vida.
Aquilo era puro material yaoi. Puríssimo. Parecia que o nariz de Sakura poderia sangrar a qualquer momento, e eu estava morrendo de medo de que ela começasse a gritar. Fujoshis... Mas o anime em si era realmente legal, adorei a história e os personagens.
Depois de assistir uns 5 episódios, minha irmã apareceu no quarto e pediu para nós duas irmos dormir logo, então desligamos a TV e arrumamos as camas, ainda conversando.
—E amanhã é sábado já! Graças a Deus! Mal posso esperar para as férias... -Sakura caiu desmaiada no colchonete no chão, após o arrumar bem, se esparramando. Eu ri dela, deitando em minha própria cama.
—Estamos em dezembro já... Logo temos a folga dos feriados e depois mais 5 meses de aula, mais nem é tanto assim...-para mim, isso não era nem um pouco ruim. Eu gostava de ir a escola e estudar, então não conseguia entender o motivo dela ficar tão frustada.
—Cinco meses?! -ela levantou o olhar rapidamente para mim e reclamou, caindo de novo com a cabeça no travesseiro. -Argh! Eu não aguento mais tanto tempo!
—Veja pelo lado bom. Esse vai ser o primeiro natal que passamos juntas... Vai ser divertido.
—Você quer dizer com todo mundo junto né? Porque sabe como é o pessoal... -a menção de Sakura ao resto do grupo me fez lembrar dos meus pensamentos anteriores, e suspirei.
—É, eu sei.
Pouco depois de mais algumas conversas, resolvemos finalmente dormir. Porém, antes, peguei meu celular, e vi algumas notificações de mensagens de Leo e Kamiho brilhando na tela. Resolvi respondê-los, rapidamente.
Kamiho mandou um simples e rápido boa noite, seguido de um eu te amo, e o respondi com as mesmas palavras. Já Leo, tinha um texto enorme, desisti de ler e apenas mandei um "estou com sono agora, juro que leio amanhã. Beijo." Em seguida, acabei deitando e caindo no sono.
No dia seguinte, nada muito empolgante ou interessante. Sakura foi embora pela manhã, me deixando sozinha o resto do dia para estudar para as próximas provas, que seriam na semana seguinte. Mas aí então lembrei do texto que Leo me mandara noite passada, e quando subi novamente para o quarto após me despedir de Sakura, peguei o celular e li, e então finalmente toda a bagunça da feira estava explicada.
"Kay, desculpa por tudo hoje. Foi uma manhã tão turbulenta, mal consegui pensar. Aquela briga foi algo tão idiota que se eu te contasse de frente para você, era certeza que eu levaria um tapa. A briga começou quando eu estava arrumando as bexigas de água perto da piscina, e aí ele apareceu, perguntando se eu precisava de ajuda. Eu agradeci de bom grado e o deixei me ajudar por tempo, até quando uma voz parecida com a minha gritou algo como 'ainda não sei porque deixei um iludido como você me ajudar. Você deve ficar imaginando o rosto dela nesses balões'. Aí ele achou que era eu que tinha falado aquilo, me chamou de traíra, ladrão, que eu queria tirar você dele. Eu disse que não tinha sido eu, mas ele nem escutou, então eu fiquei irritado por ele não acreditar em mim. Aí você já sabe o final. Mas foi isso, me desculpa mesmo. Fomos idiotas, reconheço. Mas eu te amo, viu? Boa noite, Mitsuki".
Eu arregalei os olhos no final da mensagem, tentando absorver as informações direito. Então não era nem culpa deles, era de uma terceira pessoa. Sorte que era final de semana, e por enquanto eu não poderia fazer nada, porque senão, eu teria culpado os dois sem nem saber a história. Agora, eu tinha que saber de quem era a terceira voz, e aí poderia resolver tudo de uma vez. Mas não naquele momento. Precisava me concentrar para as provas, já tinha perdido tempo demais.
Ainda assim, não podia deixá-lo sem respostas, então mandei uma mensagem pedindo para me encontrar mais tarde na lanchonete, para podermos conversar direito e esclarecer algumas coisas.
Passei o resto do dia folheando livros, completando meu caderno, coisas do tipo. Quando percebi que minha cabeça já estava carregada o suficiente de informações, deitei um pouco na escrivaninha, para cochilar. Tinha dormido pouco na noite anterior, eu merecia um descanso.
Acordei mais tarde, bem mais tarde. Olhando no celular, vi que já era quase final do dia. Suspirei, me espreguiçando, e decidi ir até a cozinha, comer alguma coisa, antes de sair para encontrar Leonard. Peguei meu celular, e desci até o primeiro andar, onde minha irmã estava preparando café e torradas. Pedi que fizesse uma caneca para mim e me sentei na bancada, olhando as mensagens.
Leo havia me respondido mais cedo, dizendo que queria que eu fosse até seu apartamento, que ele mesmo viria em minha casa me buscar. Mesmo meio contrariada, acabei por concordar, sem ter algo melhor como ideia. Quero dizer, não tinha problema nenhum se eu sei me conter, não é?
—Estudando muito? -Kanako chegou perto de mim na bancada e se apoiou do outro lado, me despertando de meus pensamentos.
—Sim. As provas são essas semanas. Tenho que garantir minhas notas altas de sempre. -respondi, bebendo um gole de café. Ela sorriu, me encarando, e logo soube que lá vinha um sermão.
—Sabe, eu acho tão bom você se dedicar tanto aos estudos... Mas não pode simplesmente esquecer do mundo, entende? -ela balançou a sua xícara de café, e deu outro gole. -Não é bom nem saudável, Kay. Eu também quis me separar de meus amigos uma época, mas eu percebi que a falta deles era pior que qualquer coisa, até mesmo uma prova de matemática. Não os deixe, maninha. Nunca se sabe quando você vai precisar de amigos, e eles realmente se importam muito com você. Especialmente Leo e Kamiho, se bem que sei que você nunca deixaria aquele garoto de lado, já que se conhecem desde sempre. Mas Leo... Ele a ama, não vê? Vocês me lembram a mim e Near.
—Kanako, eu...
Antes que pudesse concluir ou pensar direiro, fui interrompida por uma campainha. Por coincidência, era o namorado de minha irmã que chegava. Ela foi atender a porta e, ainda ali, ele a agarrou pela cintura e a beijou, de modo fofo. Sorri, vendo a cena de longe, lembrando-me de quando eles ainda se "odiavam".
Bebi o resto do café na xícara e suspirei. Pensando no que minha irmã me falou, percebi que, assim como Raku tinha me dito mais cedo, ela tinha uma certa razão. Aquele pessoal mudou minha maneira de ver o mundo, de um modo ou de outro. Eu não podia simplesmente dar as costas para isso, mas também não podia jogar fora todo um esforço que tenho feito para manter minhas notas altas e bons resultados. Mas para ter aquelas amizades e minhas notas ao mesmo tempo, eu tinha que dar um jeito.
De repente, Near se aproximou de mim, me cutucando na barriga, fazendo com que despertasse de meus pensamentos. Ele deu um largo sorriso, me abraçando em seguida.
—E aí, Kay? Tudo bem? -ele perguntou, depois de me soltar e se juntar a Kanako do outro lado da bancada. Me apoiei com os ombros na mesa e respirei fundo.
—É, sim. E você? Está bem também?
—Sempre. -Near sorriu de modo otimista, e abraçou minha irmã pela cintura, beijando sua orelha, de modo a provocá-la. Kanako deu um suspiro irritado e empurrou o rosto dele com a mão, mas segundos depois o puxou pela gola da camiseta e o beijou.
Não havia nada mais bonitinho do que esses dois.
Sorri, pedindo licença, e subi para meu quarto para trocar de roupa e esperar Leo vir me buscar. Eu estava apenas com um suéter largo e meias, então decidi só colocar um short e sapatilhas, ajeitando o cabelo em um coque desarrumado, já que íamos para o apartamento dele e não sair para algum outro lugar. Pensar nisso me deixava nervosa. Só nós dois... O quão pior a situação poderia ficar?
Uns 15 minutos depois disso, ele apareceu, e eu corri escada abaixo, indo até a porta. Me despedi de Kanako e Near, que estavam deitados no sofá juntos, vendo TV.
Do lado de fora, Leo me esperava na calçada, com as mãos atrás das costas, parecendo esconder algo. Me aproximei, um tanto quanto curiosa.
—Leo? -o chamei, e ele rapidamente levantou o olhar, sorrindo para mim.
—E aí, Mituski? Vem cá! -ele me chamou, acenando com uma das mãos, enquanto a outra continuava escondida. Curiosamente, espichei o olhar para sua mão escondida, e ele riu.
—O que é isso? -perguntei bem diretamente. Ele apenas sorriu.
—Opa, calma aí, curiosa. Isso é só para quando chegarmos na minha casa. -ele deslizou a mão para o bolso de trás, guardando a tal coisa, e enfim deixou suas mãos livres. -Falando nisso, vamos! Estou ansioso para você finalmente conhecer minha cobertura!
—Você mora na cobertura de um prédio? -perguntei, espantada. Será que ele era de uma família rica? Que interessante... Mas que droga! Não deveria estar tão interessada nele!
—Sim! E sozinho ainda por cima... Meus pais não queriam vir pra cá, por ser só um intercâmbio meu, então não tive escolha a não ser morar só. Mas é bem divertido! -Leo falou com um ar contente e meio nostálgico, como se lembrasse dos pais. Eu assenti, meio sem saber o que responder e sem querer estender a conversa.
O caminho não era tão longo quanto eu imaginei. Mas o tempo todo eu pensava nas palavras de minha irmã, lembrando de como ela dizia que Leo me amava. Eu não sabia mesmo se ele gostava assim de mim, de amar mesmo. Porém, de certo modo, eu sempre percebi o tanto que ele me tratava diferente do resto das pessoas, e o que me deixava confusa. Será que o amor nos faz tratar a pessoa especial de forma diferente? Se for assim, isso explicaria porque eu agia de forma tão estranha com ele, sabe, como se não fosse eu mesma. Isso significaria... que eu o amo?
Antes que eu pudesse continuar pensando nisso, nós chegamos no apartamento, e ele abriu a porta, me deixando passar primeiro. Tirei os sapatos e entrei, sentindo meu fôlego sumir no instante que olhei para dentro.
O apartamento era incrível. Nada muito grande, já que era somente ele ali. De cara, o lugar onde me encontrava era a sala de estar, que se ligava com uma cozinha atrás. Na parede a minha esquerda, uma porta dava para o quarto dele e outra para o banheiro. Ao fundo, atrás da cozinha, uma porta de vidro imensa dava para uma grande piscina com algumas cadeiras ladeando. Eu me perguntei como os pais deveriam ser ricos para bancar tal apartamento.
—Esse lugar é... inacreditável. -eu disse, sem conseguir pensar em mais nada, olhando em volta, e me sentei no sofá. -Eu queria morar aqui.
—Eu não reclamaria. Seria ótimo ter uma companhia, principalmente a sua. -Leo sorriu, corando. Eu fiquei sem reação, só olhando para seu rosto. Suas olheiras estavam desaparecendo, indicando que ele havia dormido melhor essas noites. Seu cabelo continuava um caos, mas não esperava nada demais dele. -Enfim, vem cá. Você ainda não conheceu o melhor lugar daqui.
Ele se aproximou de mim, me puxando do sofá pela mão, e em seguida me levou até seu quarto. Era verdadeiramente um covil de um otaku, cheio de pôsteres de mangás e animes nas paredes, revistinhas de mangás espalhadas em cima da mesinha de estudos, action figures na estante e uma grande mesa de desenho separada, perto da cama, que ficava grudada na parede. Ao ver tal lugar, eu ri.
—Eu nunca pensei que você era tão viciado nessas coisas. -eu disse, surpresa pela quantidade de objetos naquele quarto. Tinha mais coisinhas pequenas naquele lugar do que na minha casa inteira.
—É, desde que cheguei aqui, me encantei pelos desenhos japoneses, e acabei adquirindo um carinho por eles. Agora, quero tentar ser mangaká. -ele se sentou em sua cama, me chamando para sentar do seu lado, apoiado com as costas na parede. Ainda distraída, sentei ao seu lado, e então ele passou as mãos pela minha cintura, silenciosamente. Do mesmo modo, deixei minha cabeça pesar sobre seu ombro. Eu nem pensava mais direito no que fazia. -Kaya? Posso te falar um negócio?
—Hm?
—Não importa se foi culpa de outra pessoa ou não ontem, pelo qual eu e Kamiho brigamos. Quando eu vi você entrar por aquele portão com o rosto vermelho de raiva, me arrependi de todas as palavras que disse a Kami, e percebi que pelo rosto dele, ele também se arrependeu. A gente conversou depois, a está tudo mais ou menos bem entre nós agora. De qualquer forma, nos desculpe, por tudo. Fomos tão idiotas.
—Esqueça. Vou resolver isso segunda, relaxe. Você e Kamiho estão só numa mini enrascada agora. -eu dei uma risadinha seguida de uma risada dele também. E mais um momento de silêncio se fez, só nós dois abraçados, quando do nada ele levantou, parecendo animado, e se ajoelhou em frente à mim no chão. Que garoto estranho.
—Ei, o que acha de dormir aqui? Não temos aula, e eu preciso de ajuda para estudar. O que acha? -ele parecia animado com sua própria ideia, e sua felicidade me contagiou, mesmo que pouco. Eu dei de ombros, me dando por vencida. Se ele precisava de ajuda para estudar, quem sou eu para negar?
—Ah, acho que tudo bem. -respondi, e o olhar dele pareceu brilhar. Eu corei, mesmo sem saber o motivo. -E-eu só preciso avisar meus irmãos...
—Tudo bem! Fique a vontade! -ele disse, parecendo bem feliz. Quem diria que alguém podia ficar tão alegre só na presença de outra pessoa... Se isso era amor, então o amor é a coisa mais estranha que existe, e eu não consigo entender isso.
—Ah, certo, então o que eu devo...
Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, ele pulou em cima da cama de novo, se apoiando por cima do meu corpo, se aproximando bem do meu rosto. Paralisada, não consegui fazer nada, e nem sei se eu realmente queria impedi-lo de ficar perto de mim. E quando ele finalmente me beijou, mais nada no mundo pareceu importar mais. Nem minha confusão de sentimentos, minhas notas, minhas preocupações, nada.
Foi um beijo mesmo dessa vez, de verdade, e eu nem tentei parar ou me afastei. Segurei seu rosto, enquanto ele passava a mão pelo minha nuca, soltando meu cabelo do coque e o acariciando, no passo que a outra mão segurava minha cintura.
Por um momento, por um único segundo, pensei em me afastar, e eu tentei. Mas não conseguia encontrar forças para tirar ele de perto de mim, e talvez devesse realmente ser assim. Talvez eu devesse parar de tentar me afastar e me deixar ir logo de uma vez. Não seria por causa disso que eu não teria notas altas ou deixaria de alcançar meus objetivos.
Decidida, puxei Leo pelo pescoço, caindo com ele deitado em cima de mim em sua cama, sem largar sua boca. Eu nem sabia mais quem eu era, porque definitivamente, não era a Kaya de sempre. Por um momento, ele se afastou de mim, e sorriu em seguida. O sorriso dele só me fez ter ainda mais certeza do que eu sentia.
—Só queria falar que esse é tipo, o primeiro beijo da minha vida. E eu estou feliz que seja com alguém que eu amo.
—Eu só tenho a dizer o mesmo. -respondi, sorrindo. Era a primeira vez que eu percebia isso, que eu o amava, que aqueles sorrisos idiotas em nossos rostos era amor. E era a coisa mais confusa, tosca e incrível do mundo. Se algo pode te mudar completamente, deve-se concluir que é poderoso, não é verdade?
—Acho que eu deveria ir fazer algo para comermos. -ele disse, rindo. Eu também ri, ainda meio nervosa e chocada com tudo aquilo.
—É, eu concordo. -eu falei, e Leo se aproximou de mim novamente, me dando um último selinho antes de se levantar. Eu me sentei, o observando andar para porta, ajeitando suas roupas.
—Certo, então. -ele olhou para mim, e estendeu uma das mãos. -Venha, quero você perto de mim pelo maior tempo possível.
Eu ri, me levantando e pegando em sua mão, e fomos até a cozinha, onde fiquei o observando cozinhar. Eu nunca tinha me sentido tão bem, quanto me sentia ali, na companhia dele. E assim foi, pelo resto daquela noite.
E então, no mesmo dia, eu decidi que iria me dedicar só aos estudos e depois que eu poderia me dividir entre meus amigos e os livros. Não foi um dos meus dias mais bem decididos, mas com certeza foi um dos mais felizes. Porque finalmente tive meu primeiro beijo, e foi com aquele garoto que eu enfim tinha entendido meus sentimentos por. Ele era o garoto que eu amava.
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