Gonna Change You
6 Decisões
Notas iniciais
—Kaya? -a voz lenta de Leo ao meu lado me acordou na manhã seguinte. Eu apertei os olhos, me despertando lentamente. -Ei, bom dia.
—Bom... Dia... -respondi, ainda sonolenta. Estávamos deitados na cama de Leonard, onde dormimos abraçados na noite anterior.
Eu me sentia estranha naquela manhã. Apesar de tudo na noite anterior ter sido incrível, e de finalmente perceber que eu estava realmente apaixonada por ele, achava que tinha me deixado ir pelo calor do momento. Quero dizer, o beijo, passar o tempo estudando com ele, rindo, e até dormir ali, juntos... Aquilo era demais para mim. Eu o amava, mas as coisas não podiam ser assim. Pelo menos não por agora.
Eu me levantei da cama, espreguiçando. Leo só se sentou na beirada, olhando para mim. Suspirei, pensando no que fazer, no que dizer antes de o deixar. Não queria magoá-lo, mas precisava manter aquele maldito causador de sentimentos longe de mim.
—Preciso ir embora. -eu disse, ajeitando minhas roupas amassadas, parada de costas para ele. Leo emitou um som parecido com um grunhido frustado, e o ouvi levantar da cama.
—Por que? É domingo, pode ficar o tempo que quiser.
—Mas eu não quero ficar.
Minha frase pareceu um choque para ele. Eu me virei para encará-lo, e só então percebi que estava parado perto de mim, com uma expressão confusa. Será que fui indelicada demais?
—Tudo bem, eu acho... -apesar de dizer isso, seu tom era triste, e me senti meio mal. Por impulso, me aproximei de seu rosto e lhe dei um breve selinho. Por que eu ainda fiz isso?! Coitado,não podia ficar fazendo isso com ele, mas não conseguia controlar.
—Me perdoe, mas pode ir lá em casa mais tarde, para continuar os estudos. Parece bom?
—Claro. Está bem.
Mas não estava bem mesmo. Ele estava claramente chateado por eu estar indo embora, e eu não podia culpa-lo. Eu também não estava bem por estar indo assim, mas eu não posso fazer nada. Eu tinha mais coisaa a fazer do que me preocupar em amar um garoto.
Sem dizer mais nada, me virei de costas para ele e fui, sai do apartamento, sem nem olhar para trás. Ele também não tentou me impedir. Acho que ambos sabíamos que, naquele momento, nós ainda não podíamos ficar juntos, não era a hora certa. O importante era saber que nós nos amávamos, e só. O resto podia esperar.
Depois de uma caminhada solitária e pensativa, eu cheguei em casa, já perto do almoço. Kanako não estava, provavelmente tinha passado a noite na casa do Near. Raku era o único ali, sentado sozinho no sofá da sala, vendo televisão. Me aproximei dele em silêncio, e o abracei por trás.
—Ei, oi. -eu disse, quando ele levou um sustinho com meu abraço. Mas então ele olhou para mim, e sorriu.
—Ei, oi irmã! -ele estava claramente de muito bom humor, seu tom dizia isso. -Como foi lá com o Leo?
—Ah, nada demais. -menti, tentando não demonstrar meu incômodo com a pergunta, mas meu irmão era inteligente o suficiente para perceber minhas mentiras.
—Aham, sei, sua mentirosa. Você e a Kanako não sabem mesmo disfarçar nada. -ele riu, dando tapinhas no espaço vazio ao lado dele, no sofá. -Senta aqui. Se não quer me falar nada, me faça companhia pelo menos.
—Certo.
Sem questionar Raku, dei a volta no móvel e sentei ao seu lado. Ele me envolveu em um abraço aconchegante, acariciando meu cabelo, enquanto eu distraidamente levava meus pensamentos para bem longe dali.
Depois do almoço, novamente me tranquei no quarto para estudar. Raku foi para seu próprio espaço também, começar mais uma partida de algum jogo. Sozinha, consegui me concentrar ao menos um pouco para ler, apesar da minha mente não parar de voltar para a noite anterior. Por mais que tentasse, eu não conseguia esquecer o calor dos lábios de Leonard, algo que me deixava irritada. Por que é tão difícil tirar ele do meu pensamento?
Já no meio da tarde, decidi parar um pouco, e esperar para que Leonard viesse em casa para continuar a estudar e ajuda-lo. Sentei na cama, perto da janela, observando o jeito que a luz do sol iluminava as janelas das casas e prédios em volta, reparando que sem aquele brilho, a paisagem não seria tão bonita. Era um cenário tranquilo e reconfortante...
Suspirei, pensando que ainda tinha muito o que fazer no dia. Levantei-me da cama e decidi checar se Leo tinha respondido a minha mensagem perguntando se já estava vindo. "Ah, claro, eu estou a caminho... Não se preocupe” Ele parecia um tanto sem graça, tímido. Sorri, imaginando a cara dele se ele me dissesse isso ao vivo. Ele realmente era um bobo. E eu era uma idiota por estar pensando nisso.
"Okay, então, estou te esperando. Ah, se quiser chamar mais alguém, não me importo.”
"Acho melhor não, tem algo que a gente precisa conversar e que não pode ir além de nós dois. Certo?"
"Certo. Te vejo daqui a pouco então. Beijo, Sinclair."
"Beijo, Mitsuki."
Deixei o celular de lado, e fui até o banheiro, arrumar o cabelo (Kaya e seu cabelo, um caso de amor impossível). Sem muita ideia de como prendê-lo, amarrei-o em um coque alto e coloquei uma faixa de cabelo rosa, prendendo o resto da franja e fios rebeldes. Respirei profundamente, cansada por antecedência, e fui avisar meu irmão que Leo estava vindo.
Por volta de uns 15 minutos depois, Leo chegou em casa, com a mochila da escola nas costas, sorridente. A primeira coisa que fez depois de entrar, foi me abraçar, de modo que acabou por me levantar do chão. Seu abraço era quente, confortável, com um leve cheiro de canela e páginas de mangá. Dei um pequeno sorriso, quase me deixando levar pelos meus sentimentos de novo, e logo quis soltá-lo. Tentei sair do abraço, mas não encontrava forças para me afastar dele. Meu Deus, o que estava acontecendo?
Mas acho que ele percebeu que eu queria soltar, e então ele me desceu, soltando-me lentamente, e seu sorriso transformou-se em uma cara de arrependimento em dois segundos.
—Sei que você deve estar meio estranha assim por... você sabe. Me desculpa por aquilo, sério. Eu simplesmente não sei o que... Foi tão... Eu não sei... -ele dizia atrapalhadamente, e eu não soube como respondê-lo. Minha única vontade era de voar para cima dele de novo, mas eu não podia. Eu só desviei meu olhar do seu, pigarreando.
—Eu não sei do que está falando. -eu disse, me virando de costas. Era horrível ter que ficar o evitando assim. -Entre, temos muito que estudar.
Ele ficou me encarando, enquanto eu me afastava, parecendo surpreso com minha ação. Leo passou a mão pela nuca, meio desorientado agora.
—Ah... a gente fala disso depois então.
—Sim, eu acho melhor. -disse, olhando para trás, para vê-lo andar para dentro, meio confuso e cabisbaixo. Mais que droga, eu não queria fazer isso...
Eu o guiei até a sala, deixando-o lá, e fui rapidamente pegar meus materias no quarto. Logo desci novamente, trazendo minhas coisas de escola para o andar de baixo, onde ficaríamos estudando o resto do tempo. Leo olhava para os livros como se eles estivessem escritos em grego, sem entender nada, com uma careta esquisita e engraçada. É, sempre era um desafio tentar explicar toda a matéria para ele.
Horas e horas se passaram lentamente, enquanto eu explicava as matérias para Leonard. Minha irmã voltou para casa nesse meio tempo, e aparecia de vez em quando para ver se estava tudo bem, ou trazia uma xícara de café para nós. Foi uma tarde agradável e tranquila, e eu estava feliz por ter conseguido estudar, sem ficar me distraindo pela presença dele.
No final da noite, paramos de estudar. Minha irmã pedira para Leo ficar para jantar, e ele aceitou, então eu ainda teria que aturar a presença dele mais um pouco. Esperando Kanako terminar de cozinhar, eu e Leo estávamos em silêncio vendo TV, distraidamente. Até que ele quebrou o silêncio.
—Kaya, posso te dizer uma coisa?
—Hm? -murmurei, alheia a fala dele.
—Você ta brava por causa da feira ainda? Ou pelo que aconteceu ontem...? -ele ficou avermelhado, ao perceber que agora eu prestava atenção. -Sei lá. Eu fiz muitas coisas com você e... Talvez não tenham sido boas para você. Bom, tenho certeza que a briga não foi mas... Aquela outra coisa lá... Você sabe... No vestiário... E depois no apartamento...
—Esqueça isso.
—O que?!
Ele me encarou, parecendo espantado. Para mim, estava na hora de cortar definitivamente aquela curta ligação que fiz com ele. Sem nem olhar para ele, continuei a encarar a TV, séria. E ele permaneceu confuso.
—Esqueça tudo que aconteceu. A briga, o beijo, tudo. Apenas finja que nada daquilo aconteceu, nunca.
—Mas Kaya...
—Esqueça, Leonard! -exclamei, dando um fim no assunto, e um silêncio mega desconfortável pairou no ar, durante uns minutos, até minha irmã aparecer com a comida.
Foi um jantar rápido e silencioso. Acho que minha irmã entendeu como nosso clima estava meio tenso, e meu irmão também. Eu não queria que eles tivessem percebido nada, mas era impossível. Eu tinha acabado de quebrar o coração de Leo, e o meu próprio. Mas tinha que valer a pena, eu fiz em prol das minhas notas, do meu futuro. Nós dois poderíamos nos resolver depois.
Terminada a refeição, Leo começou a arrumar as coisas para ir, e eu o levei até fora de casa, ainda sem trocar nenhuma palavra com ele, que parecia um tanto pensativo e chateado. Chegando na rua, quando estávamos nos despedindo, ele finalmente decidiu abrir a boca, quando se virou de frente pra mim.
—Obrigada, Kay, por me ajudar nos estudos. E se eu me sair bem, vai ser por sua causa. -ele tentou sorrir, ainda meio sem jeito, porém eu sabia que ele estava agradecido. Dei de ombros, meio sem graça também.
—Imagina, eu estou aqui pra isso. -sorri de volta do melhor jeito que podia, mesmo me sentindo meio desconfortável.
Então ele se aproximou de mim, e me abraçou. Dessa vez, eu me deixei retribuir o abraço. Aquele seu abraço quentinho e confortável, que dava vontade de ficar ali pra sempre, só com nossos corpos juntos. O seu cheiro que só ele tinha preenchia minhas narinas, e me fazia bem. Em momentos assim, era que eu só tinha cada vez mais certeza que o amava, o que era péssimo, por isso não queria abraça-lo. Mas eu não conseguia me soltar.
—Eu não vou esquecer. -ele sussurrou, de repente, enquanto ainda estávamos juntos. Depois, lentamente, ele me soltou, mas deslizou sua mão pelo meu braço, até segurar a minha. -Sei que você quer esquecer para se concentrar, mas eu não irei. Se quiser se afastar desse tipo de coisa, eu entendo. Se quiser me esquecer, eu também entendo. Mas meus sentimentos são verdadeiros e você sabe muito bem do que eu falo. Eu te amo, Kaya, e vou te esperar, até quando for preciso.
Fiquei o olhando, sem reação. Esse garoto só me surpreendia casa vez mais, mas eu não era capaz de confessar o mesmo em voz alta, dizer que o amava também, pelo menos não ainda. Apenas o abracei de novo, em silêncio, e dessa vez o abraço foi mais intenso, demonstrando o quanto eu ainda tinha para falar, mas não conseguia.
—Até mais, Leo. -eu disse, somente, sem poder dizer nada a mais.
—Até mais, Mitsuki.
Então ele me soltou completamente, e se virou, indo embora. Eu o observei enquanto desaparecia na paisagem, com um aperto no peito. Eu me sentia mal, porque sabia que, dessa vez, ele estava indo embora e demoraria para voltar.
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