Gonna Change You
2 Entre irmãos e irmãs
Notas iniciais
A aula já tinha acabado. O sol estava se pondo no horizonte, colorindo o céu com cores vivas e alegres, deixando o chão em uma tonalidade laranja. Um vento de fim de tarde sobrevoava a escola, fazendo as folhas da cerejeira em frente à escola balançarem. Era uma cena um tanto melancólica, mas muito bonita. O fim de tarde era o meu momento favorito do dia.
Todos na sala já estavam do lado de fora, perto do portão, onde eu também estava. Apoiada no muro do portão, eu lia um livro enquanto esperava Kamiho, para voltarmos para casa juntos, como fazíamos normalmente. Ele era (ainda é e sempre será) um lerdo, então não estranhei a sua demora para sair da escola, só esperei. Quando senti alguém me cutucar, e logo me virei, pensando em ser meu amigo loiro. Mas bem, parece que meu dia teve mais uma surpresa.
—Ei, Kaya, não é? -Leonard apareceu na minha frente, de repente, com um sorrisinho no rosto. Eu acenei em afirmativo com a cabeça, e logo voltei a ler.
—Sim, eu mesma. -respondi, sem o olhar. Ele deu um suspiro e olhou para o lado, enquanto passava a mão pelo cabelo, ajeitando-o para trás. Mesmo sem o ver bem, dava para sentir seu estranho nervosismo ao estar perto de mim.
—Foi divertido dançar com você, no "intervalo prolongado" -ele deu uma risadinha e olhou para os pés, corando. -Não costumo dançar, mas foi bem legal.
—É, foi mesmo muito legal. Não estou acostumada a ficar muito com outras pessoas a não ser o Kamiho, mas a experiência foi divertida. -eu continuava a ler, mas meu comentário era sincero. Eu tinha realmente me sentido feliz naquela hora.
Ainda assim, um silêncio sobrevoou nós dois. Fiquei olhando para o livro, sem de fato lê-lo, só disfarçando para não olhar o rosto dele. Ele me deixava intrigada, nunca tinha visto ninguém com um comportamento tão bizarro perto de mim. Principalmente alguém tão bonito. Leo mordeu o lábio, e desfez o silêncio.
—Eu estou indo para casa. N-não quer vir comigo? Posso te acompanhar até em sua. -ele olhou para mim e ficou vermelho, vendo minha expressão meio surpresa. -M-mas se quiser não precisa...ou sei lá...
— Eu geralmente vou embora com o Kamiho e parece que ele quer falar comigo ou algo assim... -ele grunhiu e olhou pro chão. Fiquei confusa. Será que eu disse algo errado? -Mas se quiser, podemos voltar juntos amanhã. Tudo bem pra você?
—Acho que sim... -ele deu um pequeno sorriso de satisfação. Senti meu rosto esquentar, olhando o seu sorriso, então logo voltei a encarar meu livro. -Até amanhã, Kaya.
—Até, Leonard. -coloquei o livro em frete minhas bochechas, tentando disfarçar o vermelho de meu rosto, e respirei fundo para não pensar nisso. Mas posso jurar que o ouvi dar uma risadinha, o que me deixou ainda mais desconfortável.
Ele se virou e foi embora, enquanto eu o olhava. Ele deve ter percebido meu olhar, e virou a cabeça. Acenou, com um sorriso meigo, e voltou a andar. Eu fiquei estática, sem saber como responder aquilo.
O que diabos tinha de errado com esse menino?
Bati o livro em minha cabeça, com raiva de mim mesma por estar pensando tanto nisso. Era algo tão banal, por que esse comportamento me deixava tão incomodada?
—Você é uma tonta. Não perca tempo com garotos. Livros, livros trazem conhecimento. Meninos e amor só trazem problema. Lembre-se disso Kaya. Sempre lembre-se disso. -eu disse para mim mesma, em voz baixa. Suspirei e, com uma careta, voltei a ler o livro, até a lesma do Kamiho aparecer.
—Você tá bem, Ky-chan? Parece confusa. -Kamiho finalmente veio, e pegou na minha mão. Me virei para ele, me recompondo e respirando fundo.
—Desculpa, não é nada. Estou bem. -fechei o livro, e começamos a andar, de mãos dadas. Isso não me incomodava, já que era o Kamiho. Nós dois sempre tivemos um relacionamento muito próximo, então, sempre me sentia extremamente confortável perto dele.
Durante uns 10 minutos, andamos em silêncio, rumo a minha casa, no final da rua da escola. O trajeto era bem grande, mas a gente gostava de caminhar, fazer companhia um ao outro. Kamiho morava duas casas antes da minha, mas ele sempre me deixava em casa e depois voltava para a dele.
Passado um tempo em silêncio, ele resolveu finalmente quebrar o gelo, já que ele sabia que, se dependesse de mim, iríamos ficar em silêncio até chegar em casa.
—Então, Ky-chan, tem algo que a gente precisa conversar.
—Bem, pode falar o que quiser. Estou toda a ouvidos. -eu disse, ainda de cara em meu livro. Ele deu uma risadinha nervosa, e suspirou.
—Cara, que vergonha de falar. Porque eu tenho que te conhecer tão bem? Seria bem mais fácil se a gente não se conhecesse.
—Kami-kun, você está me deixando curiosa e inquieta. Você que eu odeio curiosidade e inquietude. -ele riu de mim e eu apertei sua mão. Esse menino me dá nos nervos as vezes... -Kamiho Yosaka!
—Desculpa! Você fica engraçada falando palavras complicadas!
—Eu te odeio.
—Ai, você fere meus sentimentos, Ky-chan. Você é tão má!
—Obrigada pela parte que me toca.
Nós dois começamos a rir da cara do outro. Já estávamos em frente da minha casa, então tinha que acelerar o assunto. E sabendo que ele ainda demoraria a falar, sentamos no meio-fio, e esperei ele desenrolar. Ele suspirou, apertando minha mão.
—Quer saber? Vai ser bem mais fácil se eu parar de enrolar e ser bem direto.
—Concordo. Agora para com o suspense e me conta!
Ele se virou para mim, pegando minha outra mão, de um jeito bonitinho. Estávamos um de frente para outro naquele momento. Ele suspirou de novo.
—Kaya, eu gosto de você. Sempre gostei. Desde sempre. Acho que senti essa necessidade de te contar isso só agora porque percebi que aquele outro garoto também pareceu interessado em você. -ele olhou nos meus olhos, só então vi o quanto ele estava vermelho. Ai, ai. Meninos.
Eu olhei bem Kamiho. Dei primeiro um sorriso, depois uma risadinha, aí comecei a rir. Ele fez uma careta.
—Do que tá rindo?
—Estou rindo do quão bobo você é. -apertei suas mãos e cheguei perto do seu rosto. -Eu sei disso desde sempre, seu tonto. Você é tão fácil de ler quanto um livro de história.
—Vou considerar isso um elogio. -ele riu, parecendo menos incomodado. Eu acariciei suas bochechas, com um sorriso tranquilizador.
—Você é o garoto mais idiota e mais fofo que eu conheço, e não importa o que aconteça, isso nunca vai mudar, Kami-kun. -dou um beijo delicado em sua boca. Algo rápido, um toque repentino de lábios. Para mim, não era nada. Não era a primeira vez que dávamos um selinho, sendo melhores amigos fazemos isso o tempo todo. Eu não via nada de especial nisso, eu achava normal.
Então levantei, com a intenção de entrar em casa, mas ele me puxou pela mão antes que pudesse me afastar. Me virei para ele, rindo. O que mais queria de mim?
—O que é?
—Então, é só isso? Você não tem nenhum problema? Posso continuar gostando de você? -ele me perguntou, com as bochechas rubras. Eu sorri, dando de ombros. Por que ele tinha que complicar alguma coisa? Eu hein.
—Por que eu te impediria? Você sabe o quanto sou focada nos estudos, coisas assim não me atrapalham. -ele levantou, e eu o abraçei, antes de entrar pelo portão de casa. -A gente se vê amanhã, Kami-kun.
—Até amanhã, Ky-chan. Estou feliz de você ser tão natural e despreocupada assim. Isso é tão... Tão... Você. -ele riu, e acenou em despedida. -Tchau!
—Tchau, Kamiho! -eu ri, acenando de volta, e finalmente entrei em casa.
—Nerd anti social é? Não, acho que não. -Kanako me deu um susto, assim que tirei os sapatos e olhei para cima. Minha irmã sorria de um jeito travesso, com os olhos escuros brilhando pela lente do óculos.
—Meu Deus! Que susto! Não faça isso de novo. -exclamei de susto, e ela disparou a rir. Só então notei mais risadas, vindo de longe, mas não eram femininas.
—O Near tá aí também? -perguntei pelo namorado de minha irmã, já que ele geralmente estava em nossa casa. Ela ajeitou o seu gorrinho verde em seu cabelo azul escuro, fazendo que sim com a cabeça, e logo me animei. Ele faz uma comida maravilhosa. -Ele fez o jantar?!
—Sim, senhora esfomeada. E já está quase pronto. Dá pra você chamar o Raku lá em cima? Acho que aquele garoto ainda tá no computador. -ela suspirou, se referindo ao nosso irmão do meio. Ele era o único de nós três que nunca foi completamente absorvido pelas torturas de nossos pais com estudos e um “bom futuro”. Acho que foi por causa dele que meus pais ficaram tão rígidos comigo.
—Ta, tá. Como quiser, Garota Azul. -eu sorri, andando para a escada. Mas antes que eu pudesse subir, ela pigarreou, chamando minha atenção de novo. Quando a olhei, ela deu um sorrisinho subjetivo. Eu já sabia o que aquela cara queria dizer. -A gente conversa depois, sabe, sem nenhum garoto por perto.
—Combinado. -ela estendeu a mão para trocarmos um soquinho amigável, e sorriu.
Dei uma acenada rápida para o namorado da minha irmã na cozinha, que sorriu de volta, ainda muito ocupado cozinhando. Eu era encantada em como ele era tão dedicado a nos ajudar aqui em casa. Ele e minha irmã estavam juntos a tanto tempo... Era quase como se estivessem casados. Ri, pensando sobre isso, e logo subi as escada, a procura do meu irmão.
—Raku? A comida ta quase pronta. -eu abri a porta do quarto dele com força, dando um pequeno susto no garoto sentado em frente a tela de seu computador, como era de costume. Meu irmão é um jogador famoso de videogames, apesar de nunca ter revelado sua verdadeira identidade. Todos sabem o reconhecer por seu nickname e sua maneira obsessiva de jogar.
—Calma aí! Estava so acabando a partida! -ele exclamou, tirando os headphones. Ele balançou a cabeça, passou a mão no cabelo ruivo e soprou algumas mechas soltas, ajeitando-as (ou pelo menos, quase). -E aí, como foi a escola?
—Ah, nada demais. Foi um dia normal. -respondi, não muito convencida de minha própria resposta, pensando naquele garoto... Ele me incomodava, mas não ia comentar nada sobre isso.
Meu irmão levantou da cadeira e piscou algumas vezes, parecendo confuso com minha expressão. Querendo ou não, ele era ótimo em reconhecer minhas mentiras, então provavelmente notou algo diferente. Ele veio andando em minha direção, já que eu ainda estava parada, na porta. Raku colocou a mão no meu ombro, cochichando na minha orelha em seguida.
—Te conheço, maninha. Sei que aconteceu algo diferente. E também, vi aquela cena da janela... -ele deu uma risadinha e me soltou, saindo do quarto. -Você mente pior que a Kanako, Kaya. Ainda bem que eu não peguei esse mal de família.
—EU OUVI ISSO, PIRRALHO! -minha irmã gritou lá de baixo, irritada. Mas meu irmão apenas riu, sabendo que era só mais uma demonstração de amor agressiva da Kanako.
—TE AMO, GAROTA AZUL.
—TAMBÉM TE AMO, SEU FILHO DA MÃE!
Eu ri, sem dar muita bola para meu irmão. Ele poderia até ter percebido algo anormal, mas sendo o Raku, ele não ia me forçar a falar nada, algo que eu agradecia. Então apenas deixei de lado seu comentário. Ele olhou para mim, e sorriu.
—De qualquer jeito, saiba que pode sempre confiar em mim, mana. Eu to sempre aqui pra você. É pra isso que irmãos mais velhos servem, né?
—Claro, maninho. Sempre.
Com uma troca de sorrisos, ele desceu a escada, e eu fui ao meu quarto, deixar a mochila da escola e trocar de roupa rapidamente, antes de descer para jantar. Quando entrei, desabei na cama antes de fazer qualquer outra coisa. Suspirei algumas vezes, tentando relaxar. Tinha algo estranho se movendo dentro de mim. Um sentimento esquisito. Eu não sabia dizer o que era, eu estava bem confusa e perdida... Eu não podia ficar me sentindo assim o tempo todo... Mas o que estava me causando isso?
—As coisas vão ser muito complicadas esse ano. -praguejei, levantando da cama para por meu pijama. Eu realmente estava preocupada em como as coisas iriam tomar um rumo agora. Quero dizer, eu precisava descobrir a origem do meu incômodo e acabar com ela. Ou isso ia acabar me consumindo.
Ouvi minha irmã chamar meu nome, dizendo que a comida estava pronta. Meio tonta e meio confusa, desci as escadas, preparada para descarregar toda minha confusão na deliciosa comida do Near.
—Então é isso? Esse é seu incômodo? -Kanako me perguntou, quando terminei de contar toda a história. Nós duas estávamos no meu quarto, sozinhas. Near já tinha ido embora e Raku estava no quarto dele, jogando. Era um bom momento para contar para minha irmã sobre aquele meu sentimento estranho e confuso.
—Como assim, só isso? Você sabe o que eu tenho? O que está me deixando assim? -eu perguntei, curiosa e confusa. Ela riu, cruzando as pernas em cima da cama. Mudei de posição também, me encostando na parede, apertando uma almofada.
—Escuta, maninha. Eu já passei por isso. Eu sei como é quando do nada alguém aparece na sua vida e de repente você sente algo que nunca sentiu antes. Algo que te incomoda, te consome. -ela olhou para o teto, com um sorriso nostálgico. -E aos poucos essa pessoa parece ir mundando a sua vida, vai te fazendo ver o mundo de outra forma. E, então, você acaba amando essa pessoa.
—Amando...? -só a breve menção dessa palavra me fez arrepiar. Eu não estava gostando do rumo que a conversa estava tomando.
—É, Kaya. Amor. O Near me fez ver o tanto de tempo que eu perdia sem aproveitar a vida, que o mundo não gira em volta de livros. Que eu merecia viver uma vida, uma vida de verdade. E ele demorou muito pra conseguir, mas conseguiu, e então foi que entendi que aquele sentimento estranho era amor. -ela olhou para mim, com uma expressão de carinho, e até felicidade, mas eu permaneci com uma careta no rosto. -E talvez esse garoto que você esteja se queixando e achando estranho que te observe tanto, e te faça se sentir diferente, pode ter aparecido com o mesmo objetivo que o Near apareceu para mim.
Eu suspirei e cai deitada na cama, nervosa com essa hipótese. Em momento nenhum eu tinha pensado que poderia ser... amor? Que negócio estranho, eu mal o conheço. Eu não posso amar alguém assim, do nada. Isso me parece ridículo.
—Talvez. -falei, pouco convencida. Kanako riu da minha reação, e se levantou da minha cama, espreguiçando.
—Eu vou dormir, você também deveria. — ela chegou perto de mim, só para me dar um beijo na testa. -Boa noite maninha, e desencana. Uma hora ou outra, você descobrirá porque ele apareceu, porque nada é ao acaso.
—Tem razão. -suspirei, sorrindo para ela. -Boa noite, mana.
Ela saiu do meu quarto e fechou a porta. Eu respirei fundo e olhei pela janela do meu quarto, observando o cenário noturno da rua. Lá fora, a lua cheia brilhava de modo maravilhoso, iluminando tudo. Desliguei as luzes, e deixei a luz lunar preencher o quarto. Ao ver seu brilho claro invadir ali dentro, respirei fundo, pensativa.
Agora, só uma questão de tempo até eu conseguir entender o porquê daquele garoto ter aparecido na minha vida.
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