Gone

7 Capítulo 06 - Reencontros


Michael chegou em casa e subiu as escadas.

– Não vai jantar? – Perguntou Heather, quando viu ele passar.

– Não, agora não – Respondeu ele, do andar de cima.

Entrou em seu quarto e deitou na cama, ficou olhando para o teto, pensando em Victoria. A culpa era dele, toda dele. Michael pediu para dar um tempo por causa dos estudos que estavam ficando muito intensos. Durante o ano em que terminaram, eles haviam se falado muito pouco, umas duas vezes por semana e às vezes menos.

Ela havia sido tão compreensiva, mas no fundo os dois sabiam que dificilmente daria certo. Ao menos ele esperava que ela ainda estivesse esperando. Que idiota, pensou ele.

***

Mais tarde, quando a névoa da madrugada já permeava as ruas de Springfield, Michael estava no seu quarto, querendo dormir. Tinha permanecido deitado de lado por vinte minutos, pensando diversas coisas.

Ele se levantou para beber água, mas quando abriu a porta, viu sua mãe e Heather no outro quarto. Ele fechou um pouco a porta e ficou observando pela brecha.

– Quando o seu pai está, Heather? Já passa das onze horas, eu estou ficando preocupada.

– O quê? Mãe, ele não vai voltar.

– Como assim?

– Mãe, o papai morreu há dois anos, você não lembra?

– O que? – Ela ficou chocada, como se ouvisse a notícia pela primeira vez – Não pode ser verdade.

Heather a abraçou enquanto ela chorava.

– Essa doença está me matando, Heather – Falou ela, aos prantos.

Michael estava com os olhos lacrimejando. Não havia passado nem uma semana ali e já podia ver os efeitos devastadores do Alzheimer. Ele sentia tanta pena.

***

No dia seguinte, quando a noite caiu, Victoria saiu do restaurante e tirou um isqueiro e um maço de cigarros do bolso, tirou um deles, acendeu e começou a fumar.

Quando olhou para o seu carro, viu Michael parado em frente a ele. Ela não queria vê-lo, realmente não queria, mas não podia evitar dessa vez.

– Oi – Disse ele.

– Oi – Respondeu ela, soprando a fumaça no ar.

– Você não veio falar comigo ontem... Está com raiva?

– Não, é claro que não... Eu só estava bem ocupada ontem.

– Eu estava pensando, se você não queria sair comigo amanhã ou depois... Sei lá, pra conversar.

– Eu acho melhor não.

– Por quê?

– Eu acabei de sair de um relacionamento ruim, não estou procurando por outro.

– Vamos sair como amigos, então.

– Michael, não.

Ela deu a volta e abriu a porta do carro.

– Espere!

Victoria parou.

– O quê? – Perguntou ela, impaciente.

– Onde você mora agora?

Ela sorriu, como se estivesse ouvindo uma piada, e entrou no carro, sem responder.

Victoria acelerou o veículo e foi embora. Michael ficou olhando ela partir mais uma vez. Ele tentaria reconquistá-la e não desistiria até conseguir.

***

Enquanto voltava para casa, caminhando com as mãos nos bolsos do casaco, foi abordado por alguém que estava na casa pela qual passava.

– Michael? – Perguntou o homem.

Michael virou-se e demorou três segundos para perceber que era Tyler, agora com barba e cabelos mais curtos. Depois ele lembrou, aquela era a casa da mãe dele.

– Oh meu deus, Tyler?

Tyler saiu pelo pequeno portão e os dois se abraçaram, dando tapinhas nas costas um do outro.

– Há quanto tempo – Disse ele.

– Pois é – Respondeu Tyler – Como andam as coisas? Veio para ficar?

– Andam bem – Respondeu, sorrindo e mentindo – Dessa vez eu vou ficar por uns tempos, conseguir um emprego por aqui, cuidar da minha mãe.

– Sei.

– Mas e você, o que anda fazendo?

– Eu sou dono de uma rede de supermercados, acabo de abrir um aqui em Springfield.

– Um homem de negócios.

– Pois é.

– Você mora aqui?

– Não, moro em Winston, mas venho visitar a família todos os fins de semana, e como não é longe daqui, sempre estou por perto e meus filhos adoram a cachoeira.

– Você tem filhos? – Michael ficou surpreso.

– Estão lá dentro, se despedindo da avó, sempre que eles vêm não querem ir embora.

Neste momento, duas crianças saíram de dentro da casa, acompanhadas de uma bela mulher.

– Ah, lá estão eles – Disse Tyler.

Quando chegaram, as crianças olharam para Michael, tímidos. A mulher ficou ao lado dele.

– Crianças, esse é um grande amigo do papai, Michael – Disse ele – Michael, esses são Arthur e Violet e essa é Anna, minha esposa.

Ele deu um aperto de mão na mulher, que sorriu.

– Tyler falou muito sobre você – Disse ela.

– Ah, sério?

– É – Respondeu Violet, deixando de lado a timidez – O papai disse que você viajou para o outro lado do mundo.

Michael sorriu.

– Eu não acredito que esses dois anjinhos são seus filhos – Disse Michael, passando a mão pelos cabelos de Arthur, que sorria de um modo sapeca.

– Pois é, em breve serão três – Falou ele.

– Você está grávida? – Perguntou à Anna.

– Sim, com dois meses.

– Parabéns.

– Obrigada.

– Crianças, vão entrando no carro que eu já vou – Disse Tyler.

Os dois irmãos correram e brigaram pelo banco da frente, que acabou ficando com a mãe.

– Eu tenho que ir agora – Disse o amigo – Mas... Te vejo por aí?

– Sim, tchau – Falou Michael.

– É bom ter você de volta, Mike.

Tyler entrou no carro e foi embora com sua família.

Michael, por algum motivo, se sentiu mal. Passou 10 anos da sua vida estudando fora, se isolando de todos quem conhecia e agora estava sozinho. Tudo havia mudado, as pessoas amadureceram, construíram suas vidas, enquanto ele não tinha nada. Tyler nunca havia sido do tipo sério, era festeiro e pegador, mas agora tinha uma esposa e dois filhos lindos. Michael queria aquilo, queria aquilo com Victoria.

***

Pela manhã, ele estava sentado à mesa tomando uma xícara de café com leite, quando Heather chegou à cozinha.

– Bom dia – Disse ela.

– Bom dia.

– Você sempre acorda cedo assim?

– Sim, tive que me levantar cedo por 10 anos para assistir aulas, é meio difícil desacostumar.

Ela caminhou até o balcão da cozinha, pegou uma xícara e a garrafa de café e despejou o líquido fervente no recipiente. Em seguida sentou-se à mesa, de frente para seu irmão.

– Sabe quem eu encontrei ontem? – Perguntou Michael.

– Quem?

– Lembra do meu amigo Tyler?

– Ah sim, claro.

– Ele tem dois filhos e está casado agora.

– Eu sei, ele sempre visita a família aqui, gente boa.

– Mais alguém continua morando aqui? Dos meus amigos?

– Eu não sei – Respondeu Heather, dando um gole no café – Quer dizer, como é o nome daquele seu amigo que morava ali perto do hospital?

– Hector?

– Esse mesmo... Foi preso há alguns anos.

– O quê? – Michael ficou surpreso.

– É, ele se envolveu em um assalto.

– Aqui em Springfield?

– Não, em Winston, mas ele morava aqui, a polícia chegou na cidade quando estava anoitecendo, todo mundo saiu para olhar, a mãe dele ficou arrasada.

– Eu não acredito.

– Pois é, mas ele já vinha se envolvendo com drogas e gangues antes disso, ele chegou a... – Ela parou, como se achasse melhor não terminar a frase.

– Chegou ao quê?

– Não sei se você vai querer saber disso.

– Quero, diga logo.

– Ele chegou a namorar sua ex, Victoria...

– Sério?

– Sim, ele até batia nela, coitada daquela garota, a mãe nunca foi flor que se cheire e o pai... Nem se fala.

– Ele não parecia ser o tipo de pessoa que se envolveria nesse tipo de problema.

– Pois é né, era um garoto tão inteligente e simpático, mas não importa se você é Deus ou o Diabo, se andar com as pessoas erradas, vai se tornar uma delas.

Heather se levantou e colocou a xícara na pia.

– Eu vou trocar de roupa para trabalhar, peguei o turno da manhã no hospital, uma outra enfermeira teve uma emergência e a Mary não pôde substitui-la, então sobrou pra mim... Pelo menos ficarei em casa a tarde toda.

– Tudo bem.

– O que vai fazer a manhã toda?

– Não sei, assistir TV, abrir meu e-mail a cada quinze minutos para ver se consegui um emprego... Coisas desse tipo.

– Preciso que você acorde o Patrick daqui a meia hora, diga a ele que o lanche está na geladeira.

– Tudo bem.

– Vou trocar de roupa.

Heather subiu as escadas e Michael colocou sua xícara vazia na pia. Em seguida dirigiu-se à sala, sentou-se no sofá e ligou a TV. Passava o noticiário da manhã.

Alguns minutos depois, Heather desceu as escadas, vestindo sua roupa branca de enfermeira.

– Eu já vou, tchau.

– Tchau – Disse ele, sem tirar os olhos da TV.

– Lembre-se de acordar o Patrick.

– Tudo bem.

Ela foi embora.

Neste momento, ele ouviu passos na escada e olhou para trás. Era sua mãe.

– Bom dia, filho – Disse ela com um sorriso amarelo. Os cabelos estavam assanhados como sempre e ela parecia cansada.

– Bom dia, mãe.

– Onde está a Heather?

– Foi trabalhar.

– Patrick já foi para a escola?

– Ainda não, vou acordá-lo daqui a pouco.

– Tudo bem... Olha, eu vou tomar uma xícara de café e depois vou à feira, comprar frutas, tudo bem?

– Ok, não quer que eu vá com você?

– Não precisa.