Gone
8 Capítulo 07 - Fogo e Gasolina
A grande placa luminosa com o nome “Wendy’s” estava apagada, pois eram nove da manhã, mas a sorveteria estava aberta. Ele podia ver pelas enormes janelas de vidro os funcionários lá dentro e alguns clientes sentados às mesas redondas.
Ele atravessou a rua, entrou no estabelecimento e dirigiu-se ao balcão, onde uma senhora sorridente o atendeu.
– Ah, Michael, há quanto tempo! – Disse ela, surpresa.
– Muito tempo mesmo – Responde ele, simpaticamente.
– Como você está?
– Muito bem, muito bem.
– O que vai querer?
– Ainda lembra o de sempre?
– Hm, chocolate com granulados!
– Isso mesmo – Michael riu – Mas dessa vez sem granulados.
Minutos depois, quando ele estava sentado sozinho em uma das mesas, mexendo em seu celular, olhou para o balcão e lá estava Victoria.
– Victoria?
Ela olhou.
– Ah, oi Michael – Respondeu, bem na hora que a Sra. Davis entregava seu sorvete.
Ela sentou-se junto a ele.
– Olha, eu queria mesmo te ver.
Michael ficou esperançoso, abriu um sorriso.
– Por quê?
– Eu fui muito rude com você ontem e sinto que deveria me desculpar.
– Não precisa.
– Eu só não quero me envolver em nenhum relacionamento no momento.
– Eu sei.
– Foi difícil superar o nosso término e eu nunca consegui realmente esquecer você... Não quero passar por novamente.
– Mas eu voltei para ficar Victoria.
– Você não sabe sobre isso.
– Claro que sei.
– Não, Michael, você acha que veio para ficar, mas você não pertence mais a Springfield, não é um lugar onde você queira ficar, muita coisa mudou desde que você foi embora.
– Eu quero ficar onde você estiver – Michael disse, tocando a mão dela em cima da mesa.
Ela tirou a mão e sorriu.
– Não faça isso.
– Mas é verdade, eu sei que eu fui um idiota quando terminei, mas agora pode dar certo, você não acha?
– Não, sinceramente não.
– Por que não?
– O que nós tivemos foi intenso, mas passou, esses dez anos serviram para desgastar ainda mais a nossa relação, você não entende?
– Não, não entendo, nós fomos tão apaixonados...
– Não somos mais.
– Eu ainda sou.
Ela se levantou, mas ele segurou seu braço.
– Não existe um dia que eu passe sem lamentar o nosso namoro ter acabado, se você me der mais uma chance...
Ela soltou-se.
– Aquilo era um amor adolescente, imaturo – Disse ela – Acabou.
– Eu sei que você não pensa isso.
– Você não colocou granulados coloridos no seu sorvete desta vez, Michael... Você não vê? Todos nós amadurecemos.
Victoria foi embora, deixando-o mais uma vez.
***
Quando saiu da sorveteria, Michael resolveu passar pelo parque. Sempre gostava de ir lá. Desta vez, no entanto, ele estava vazio e sujo, cheio de folhas secas no chão e a fonte estava desligada, com uma água esverdeada pela metade. Alguns jovens estavam sentados embaixo de uma árvore, conversando e fumando. Do outro lado, em uma mesa embaixo de uma árvore, dois senhores de idade jogavam xadrez.
Tudo estava tão diferente de antes, parecia que todos haviam esquecido do parque da cidade. Estava praticamente abandonado. O chão sujo com lixo e folhas secas, a grama morta, tudo sem cor, sem vida. Springfield não era mais a mesma, nem as pessoas que lá viviam.
Michael sentou em um banco e observou o local, lembrando de como ele era antes, quando sua família fazia um piquenique nos fins de semana ou quando ele jogava um improvisado futebol americano com seus amigos no imenso campo. Aqueles tempos não iriam voltar, nunca mais. Seus amigos agora tinham suas vidas, Tyler estava casado e com filhos, Hector tinha sido preso... Quando saía para andar de bicicleta com seus amigos, ele nunca pensaria que aquele seria o futuro. Ele achava que seu futuro era com Victoria.
***
Quando a noite caiu, Michael saiu do seu quarto em direção ao quarto de Heather. Ela estava deitada na cama, lendo um livro.
– Me empresta o seu carro? – Perguntou ele.
– Claro – Respondeu ela, pegando as chaves na gaveta do criado mudo ao seu lado e em seguida jogando para ele, que não deixou cair.
– Valeu.
– Vai aonde?
– Na casa da Victoria.
– Leve sua chave se for voltar tarde.
– Tudo bem.
O carro de Heather estava estacionado na frente da casa. Michael entrou e colocou a chave na ignição, torcia para ainda lembrar dirigir, já que não fazia isso há dez anos.
Por sorte, lembrava bem, então foi embora. Heather havia dito que ela estava morando em uma fazenda perto da entrada da cidade, então ele dirigiu. Quando parou de ver as casas do centro da cidade, tudo o que enxergava eram árvores.
Alguns minutos depois, ele parou na entrada da fazenda e saiu do carro. Reconheceu que era a casa dela por causa do carro parado lá dentro.
O portão estava aberto, então ele entrou. Quando chegou à porta, tocou a campainha. Enquanto esperava alguém atender, começou a ficar nervoso, achando que seria rejeitado mais uma vez. Finalmente a porta abriu e era Victoria, com os cabelos amarrados em um rabo de cavalo e um vestido folgado, mas curto. Estava descalça.
– Oi – Disse ele.
– Como você descobriu onde eu moro? – Perguntou ela
– É uma cidade pequena, não dá para se esconder.
– Você não desiste mesmo, né?
– Não – Ele abriu um sorriso.
– Mas deveria... Michael – Ela esfregou a têmpora direita – Eu não acho que nós devemos nos ver.
– Eu não entendo porque você está agindo assim.
– Eu não espero que você entenda, só quero que você respeite.
Ele ficou em silêncio. Até mesmo ela percebeu que aquelas palavras foram fortes.
– Olha, eu não quero te magoar.
– Eu não sei como você poderia me magoar.
– Eu não sou a mesma pessoa, e você também não é.
– Mas assim como deu certo uma vez pode dar de novo.
– Não.
Ele silenciou mais uma vez.
– Então tá – Abaixou a cabeça e tentou disfarçar que ela havia partido seu coração em milhões de pedaços com um sorriso falso.
Michael se virou e foi embora.
– Tchau.
Ela o olhou ir embora.
– Espere! – Exclamou.
Ele virou, esperançoso.
– Eu estou fazendo pipoca para assistir a um filme, minha mãe vai passar a noite fora, acho que não faz mal você ser um amigo por essa noite.
Ele sorriu.
– Você está falando sério?
Ela sorriu e balançou a cabeça levemente. Ele voltou.
***
Quando os dois estavam na imensa sala, em cuja TV o filme “Pânico” estava pausado na cena inicial, ela disse:
– Eu já volto com a pipoca, arranje um lugar para sentar.
Ela foi até a cozinha e ele sentou no sofá, olhando ao redor da sala rústica. Ela logo voltou com uma pequena bacia de pipocas, que colocou sobre a mesinha de centro. Em seguida voltou à cozinha e retornou para a sala com duas latas de Coca-Cola, entregou uma a Michael. Ele pensou que ela sentaria ao seu lado, mas Victoria resolveu ficar no outro.
Ela tirou o filme do pause e eles começaram a assistir, em silêncio. Michael estava um pouco desconfortável, nervoso.
– Eu queria pedir desculpas pelo modo como agi nesses últimos dias, é que estou passando por um turbilhão de coisas.
– Eu é quem preciso pedir desculpas, por ser tão chato e insistente.
– Sabe, Michael, te ver por aqui foi um choque e tanto, eu demorei tanto para te esquecer e aí você aparece, como alguém derrubando um castelo de cartas que eu demorei 10 anos para construir.
– Eu não sabia que você se sentia assim, mas a verdade é que eu nunca superei o nosso término, eu sempre tive esperanças de voltar e te encontrar do mesmo jeito, linda do mesmo jeito, simpática do mesmo jeito, compreensiva do mesmo jeito, e eu realmente te encontrei assim, parece que o tempo só te fez bem.
Ela sorriu timidamente.
– Eu não esperava te encontrar esperando por mim de braços abertos, não esperava mesmo, mas não achei que seria tão difícil se reaproximar.
Ela baixou a cabeça e começou a arranhar a lata de refrigerante. Ela sempre brincava com as unhas quando estava nervosa. Não disse nada.
– Você não lembra, nove anos atrás, quando eu te prometi que aquilo não era um adeus – Ele disse, levantando-se do seu sofá e sentando ao lado dela – Era um até logo... Agora aqui estou eu, por que você não me deixa voltar?
Michael podia sentir o cheiro dela, suave e adocicado. Ela estava muito nervosa e indecisa, ele podia sentir em sua respiração ofegante. Agora mexia em seus cabelos loiros, colocando-os atrás da orelha. Ela olhou para ele, seu olhar apaixonado encontrou o dele. Agora eles estavam em silêncio, próximos.
Ele lentamente avançou para beijá-la e Victoria então se rendeu. O beijou de volta, apaixonada. Nunca o havia esquecido, Michael sempre teve um lugar especial em suas lembranças e agora estava ali. Toda a barreira que ela construiu para se proteger de mais um coração partido desmoronou enquanto os dois se beijavam ali no sofá.
Eles continuaram a se beijar por alguns instantes, enquanto as mãos dela passeavam pelas costas dele tirando sua camisa. Michael tirou sua leve camisola, deixando-a apenas com roupas íntimas. Lá estavam eles, dois corpos queimando em desejo, dois corações batendo acelerados.
Victoria parou de beijá-lo.
– Não deveríamos fazer isso.
– Eu não quero parar agora? Você quer?
Ela não respondeu com palavras, voltou a beijá-lo e ele tomou aquilo como um “não”. Não conseguia parar.
***
Minutos depois, Victoria estava deitada com as pernas passando por cima das coxas de Michael, que estava sentado. Ambos nus, ambos ofegantes e suados. Ele olhou para ela e sorriu.
– Eu senti falta disso – Disse ele.
– Eu também – Respondeu ela, sorrindo de volta.
Ela se levantou e caminhou para o corredor.
– Onde você vai?
– Eu vou para o chuveiro, se você quiser vir comigo, estarei esperando – Disse ela, com um sorriso malicioso.
Michael se levantou e a seguiu.
Naquela noite eles transaram mais uma vez e, na manhã seguinte, Michael acordou na cama de Victoria, sozinho. Sentou-se e recolheu sua cueca, camisa e calça no chão. Depois que se vestiu, saiu do quarto e caminhou pelo corredor até a sala, temendo encontrar a mãe ou o pai dela. Mas não tinha ninguém, apenas Victoria na cozinha, cozinhando alguma coisa.
– O que está fazendo? – Perguntou ele.
– Bacon – Respondeu ela – Sua mãe reclamaria se soubesse que você não comeu nada, não é? – Brincou.
– E agora? O que vai ser de nós?
– Eu ainda não sei, Mike.
– Você já me chamou de Mike, isso é um começo.
– Tudo aconteceu tão rápido.
Michael se aproximou e envolveu seus braços ao redor da cintura dela, beijando sua nuca.
– Podemos começar a nos conhecer de novo.
– Não precisamos, eu já conheço cada parte da sua alma e cada parte do seu corpo.
– Talvez.
– Então tá, o que você quer que eu faça?
– Sei lá, me convide para jantar uma nova primeira vez, me surpreenda.
– Talvez eu faça isso, é... Vai ser interessante, um novo primeiro encontro.
– Você lembra do nosso primeiro encontro?
– Ah sim, você estava linda, com um vestido florido e o cabelo preso, e aqueles morangos estavam com gosto de terra.
– Oh meu deus, você lembra!
– Como poderia esquecer?
Ela desligou o fogão e virou-se, enrolando seus braços no pescoço dele e beijando-lhe. Era como um primeiro namoro, não havia estado tão feliz assim há muito tempo.
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