Gone

6 Capítulo 05 - Cinza


No dia seguinte, logo no início da manhã, Michael entrava pelos portões do cemitério, dando um bom dia ao vigia. Ele levava consigo duas rosas brancas. O local estava vazio e extremamente silencioso, como sempre. Dava para ouvir o som dos pássaros nas árvores ao redor do grande campo.

Não era muito fácil achar um túmulo, ainda mais porque as lápides eram todas uniformes, pequenos blocos de mármore fincados no chão. Michael, no entanto, sabia que as lápides e seu pai e seu irmão ficavam à direita, quase no final.

Ele caminhou pela grama, observando os túmulos. Ele não conhecia muitas daquelas pessoas, mas reconheceu alguns. Quando finalmente chegou, viu as duas lápides vizinhas, seu pai, “Jack Simon Brooks”, e o irmão, “Simon Junior Brooks”.

Michael se sentou e colocou as duas rosas bem à frente das lápides, uma em cada, e respirou fundo. Sentia um grande aperto no coração ao ver os dois nomes ali, gravados naqueles blocos de mármore. Os dois estavam bem abaixo dele, enterrados ali, e nunca iriam voltar.

– Eu sei que vocês não podem me ouvir – Disse ele – Mas eu preciso conversar.

Seu pai e seu irmão não podiam responder, nem mesmo haviam ouvido, ele sabia disso, pois não acreditava em vida após a morte, mas precisava desabafar.

– Desculpem por não estar aqui em todos esses anos – Os olhos começavam a lacrimejar – Agora eu percebi o quão difícil foi... Eu me formei, e esse era seu sonho papai, mas não pude ver sua reação ao saber, porque você não sabe – As primeiras lágrimas começaram a cair.

Ele respirou fundo.

– Simon, seu idiota, lembra que um dia prometemos viajar de bicicleta por dias? Que ideia estúpida, cara – Brincou ele, sorrindo – Se você estivesse aqui eu iria – Terminou, tirando o sorriso do rosto.

Não se sentia nada bem. Queria ter visto seu pai pessoalmente pela última vez, ou ter falado que o amava abraçando-o. Queria ouvir mais uma vez as imitações de personagens famosos que Simon fazia. Não podia mais.

– Se existe realmente um Deus, por que tiraram vocês de mim? – Desta vez ele jogou a pergunta no ar, olhando para o lugar ao seu redor.

Ele se levantou e limpou a parte traseira da calça.

– Tchau pai, tchau Simon – Disse ele, e por um momento, lá no fundo da sua alma, ele esperou uma resposta, mas não obteve.

Michael enxugou as lágrimas, que não pararam de cair, e foi embora.

***

Voltando para casa, ele percebeu que toda a cidade parecia triste, sem vida e sem cor. As casas não tinham mais os jardins coloridos e belíssimos de antes, o céu estava cinza e o clima estava frio. Springfield nunca esteve tão depressiva.

Na calçada da sua casa, ele parou e viu a casa à frente, estava parecendo abandonada. Victoria havia se mudado, mas ele não sabia para onde.

Entrou em casa e encontrou Patrick com um casaco sobre o uniforme da escola e sua mochila nas costas.

– Mamãe mandou dizer que tem panquecas e bacon na cozinha – Disse ele – Eu estou indo para a escola.

– Tudo bem, cadê a mamãe?

– Está dormindo.

– Ok.

– Tchau.

– Tchau.

Patrick foi embora e Michael caminhou para a cozinha. Viu o café da manhã, mas decidiu que não estava com fome, então foi para a sala e ligou a TV. Minutos depois, adormeceu.

***

Ele acordou quase duas horas depois, congelando de frio, então percebeu que a janela estava aberta. Desligou e TV e foi fechá-la. Pegou seu celular no bolso a calça e viu que já passava das nove horas da manhã.

Subiu as escadas e foi até o seu quarto, sentou na cama, pegou o notebook no criado-mudo e entrou no site de empregos onde havia se cadastrado. Não havia aparecido nada ainda.

Ele não sabia como procurar emprego, mas não deveria ser tão difícil, afinal, a sociedade valoriza tanto a profissão dos médicos que é eles só ficam sem emprego se quiserem.

A porta do quarto estava aberta, então deu para ouvir a porta da frente abrindo. Michael saiu do quarto e desceu as escadas, encontrando Heather lá embaixo com algumas sacolas de papel.

– Onde estava? – Perguntou ele.

– Fui comprar algumas coisas que estamos precisando – Respondeu ela.

– Por três horas?

– Não, estava no banco, mas quando cheguei vi você dormindo, então nem acordei.

– Onde está a mamãe?

– Está lá fora, fumando um cigarro.

Ele olhou pela janela e a viu encostada na pequena árvore que havia na frente da sua casa.

– Mas você não disse que ela não pode fumar?

– E você acha que eu não tentei impedir?

Michael acompanhou sua irmã até a cozinha, onde ela começou a tirar as compras das sacolas e guardar no armário.

– Algum resultados em relação aos empregos?

– Nada ainda, mas não deve morar muito, eu espero.

– Tomara.

– Você sabe os vizinhos da frente estão morando agora?

– Para que você quer... – Ela ia perguntar, mas lembrou – Ah, Victoria morava ali.

– Pois é.

– Eles moram em uma pequena fazenda nos limites da cidade... Por que você quer saber? Vocês não terminaram há uns, sei lá, oito anos?

– É, mas eu queria vê-la, saber como ela tem passado.

– Você pode pegar o meu carro se quiser, mas se quiser vê-la mesmo, ela trabalha no Le Café.

– Ela não foi pra faculdade?

– Eu acho que sim, por um tempo – Falou Heather, enquanto terminava de guardar as compras – Você vai falar com ela?

– Eu não sei, talvez eu passe lá pela frente da lanchonete e espere ela sair.

Neste momento, a Cecilia entrou pela porta da frente.

– Heather, hoje eu vou fazer o almoço – Disse ela – Ah, filho, nem te vi acordado hoje, bom dia – E deu um beijo no rosto de Michael.

– Acho melhor não.

– Por quê? Por que eu estou com Alzheimer? Heather, não me trate como uma demente, eu não posso ficar o dia inteiro deitado numa cama.

– Você tem razão, desculpa.

– Você vai descansar um pouco, está muito sobrecarregada e eu sinto que é por minha culpa... Não se preocupe, se eu esquecer algo como ferver água, Michael me ajuda – Brincou ela.

Heather sorriu.

– Tudo bem – Ela a abraçou.

***

Quando a noite caiu, Michael saiu de casa, com um casaco e as mãos no bolso. A casa da frente totalmente escura, a rua tranquila não tão bem iluminada quanto antes. Um dos postes, inclusive, estava com a lâmpada piscando, denunciando que iria parar de funcionar em breve.

Minutos depois estava parado em uma árvore no outro da lado da rua do Le Café, observando a lanchonete. Ele conseguia ver Victoria dali, pelas janelas. Estava servindo um casal. Não havia mudado muito, estava tão linda quanto antes.

Ele ficou ali por uns quinze minutos, até ver ela saindo pela porta da frente. Michael hesitou em correr até ela, era o que queria fazer, não não fez. Estava nervoso, não sabia se queria falar com ela naquele momento, mas era tarde demais, ela o havia visto.

O coração dele disparou, ele abriu um grande sorriso, queria abraçá-la e beijá-la, mas Victoria não queria o mesmo. Ela deu um leve sorriso, como o que alguém dá para um conhecido da família por educação, e saiu caminhando até seu carro velho, parado um pouco depois da lanchonete.

Michael tirou o sorriso do rosto e observou ela entrar no veículo e ir embora, sem nem ao menos ir conversar ou dar as boas-vindas. Victoria não sentia o mesmo que ele, não mais. Aqui partiu seu coração da mesma forma que a doença de sua mãe fez quando ele a viu depois de tantos anos.