Gone
5 Capítulo 04 - Melancolia
Michael manteve contato durante muitos anos com a família, sempre tinha notícias, seu pai e seu irmão haviam morrido há dois anos em um acidente e sua mãe estava doente, mas ele não pôde voltar.
Ele havia perdido contato com seus amigos e com Victoria, já que tinha parado de viajar para a casa dos pais nas férias a partir do terceiro ano. Um namoro à distância pode funcionar, mas não por sete anos.
10 anos depois
Michael estava com suas malas prontas no quarto. Morava apenas com um garoto, Jim, já que seus melhores amigos, Kevin e Jason, haviam se mudado há um ano.
Jim ainda ficaria ali por mais quatro anos, mas para Michael aquilo acabava ali.
Tudo já estava pronto em duas malas grandes e sua mochila, ele estava voltando para casa depois de sete anos apenas falando com a família por celular e chamadas de vídeo. Mal podia esperar para chegar e abraçar sua mãe e sua irmã, visitar seu pai e seu irmão nos túmulos e reencontrar alguns conhecidos.
– O seu táxi chega que horas? – Perguntou Jim, que estava parado na porta com uma xícara de café na mão.
– Eu chamei há cinco minutos, deve estar chegando.
– Eu nem acredito que você já terminou.
– Pois é, nem eu – Michael sorriu.
– Vou sentir sua falta.
– Eu também.
Michael colocou a mochila nas costas e segurou as duas malas pela alça.
– Já estou indo, não chore – Brincou ele.
Jim sorriu.
– Tchau cara – Disse ele.
– Tchau Jim.
***
Quando chegou aos EUA, no aeroporto onde seu pai o trouxe três vezes, ele se sentiu feliz e seguro. Finalmente estava em casa.
Não tinha ninguém para pegá-lo, então ele tinha que pegar um táxi, saiu pela porta dupla automática e encontrou um deles parado, com o taxista em pé, encostado na porta fechada. Michael olhou para ele e o homem apontou para o carro, como se perguntasse silenciosamente se ele iria pegá-lo. O garoto balançou a cabeça em afirmação e o taxista foi abrir o porta-malas.
***
Estava bem próximo à entrada da cidade, já podia ver a placa. O taxista entrou à esquerda e dirigiu por alguns minutos, até ele começar a ver as primeiras casas e a rodoviária. Cruzando os portões da rodoviária, ele entrou. Pouca coisa tinha mudado.
Quando o senhor de pouco mais 50 anos parou o carro, Michael desceu e o acompanhou até o porta-malas, onde pegou suas duas malas.
Arrastando as duas malas grandes e com a mochila nas costas, ele começou a caminhar naquela tarde melancólica de outono.
Saiu da rodoviária e caminhou pela pequena avenida, vendo algumas casas e estabelecimentos. Várias pessoas o olhavam com estranheza, outras cumprimentavam com acenos de mão e ele os devolvia.
Quando virou a esquina e entrou na sua rua, percebeu que quase tudo estava igual, menos algumas árvores, que haviam sido cortadas, e a grama de algumas casas estava morta. Surpreendeu-se quando chegou à sua casa, o jardim não existia mais, era apenas um monte de terra e restos de grama morta. O jardim era a paixão de sua mãe.
Ele respirou fundo e tocou a campainha. Demorou alguns segundos até que Heather abriu a porta. Seus cabelos estavam curtos e as primeiras rugas começavam a aparecer. Ela abriu um sorriso e o abraçou com força.
– Eu não acredito que você está aqui! – Exclamou ela.
Quando ela parou de abraçá-lo, Michael percebeu que ela estava chorando.
– Finalmente eu estou em casa.
Ela enxugou as lágrimas.
– E essa barba? Que estranho – Disse, sorrindo.
Ele sorriu de volta.
– Pois é, resolvi deixar crescer... Onde está a mamãe?
– Está no quarto dela, descansando.
– Como ela está?
– Está piorando – O sorriso do rosto de Heather se desfez, transformando-se em lágrimas – Ontem ela estava preenchendo uns papeis e não conseguiu lembrar o próprio nome.
– Eu vou vê-la.
Michael acompanhou sua irmã até o corredor de cima. Estava cheio de fotos do seu pai.
– Belas fotos – Disse ele.
– Ela quis pendurar por todo canto, ele foi a única pessoa quem ela nunca esqueceu.
A porta do último quarto estava fechada, Michael bateu e em seguida abriu devagar. Sua mãe estava deitada na cama, olhando para o teto. Os cabelos bagunçados, as rugas ainda mais evidentes no rosto, lábios pálidos e profundas olheiras. Estava bem longe de ser a mulher bela que um dia já fora.
– Mãe?
Ela olhou para ele e ficou parada, mas logo começou a chorar. Lentamente se levantou da cama e caminhou até ele. Tocou seu rosto, passou a mão por seus cabelos, chorando, e disse:
– Simon?
Michael, que estava com um sorriso no rosto, tirou-o. Seus olhos encheram-se de lágrimas. Ela não lembrava de seu próprio filho.
– Mãe, esse é o Michael – Disse Heather.
Ela olhou para ele novamente.
– Michael? – Perguntou ela, olhando para ele, assustada.
– Sou eu, mãe – Respondeu ele, abrindo um sorriso novamente.
Ela sentou na cama e chorou ainda mais.
– Eu não lembro de você, desculpa – Disse ela – Com posso não lembrar do meu próprio filho? – Cecilia colocou as mãos no rosto, chorando. Não aguentava mais ter que conviver com aquela doença. Seu filho estava bem à sua frente, mas ela não lembrava.
Aquilo o atingiu como uma pedra.
Ele sentou ao lado dela e a abraçou. Ela deitou nos ombros de Michael e continuou a chorar. Ele olhou para Heather, que estava parada na porta com os olhos lacrimejando.
***
A noite tinha caído, Heather estava na cozinha fazendo o jantar e Michael, na mesa, atrás dela. Patrick já havia chegado da escola e estava assistindo TV na sala ao lado.
– Eu não fazia ideia que ela estava assim – Disse ele.
– Muita coisa mudou desde quando você foi embora – Falou ela.
– Então você está morando aqui?
– Sim, desde que o papai e o Simon morreram ela entrou em depressão, precisava de ajuda, e para piorar, pouco tempo depois foi diagnosticada com Alzheimer... Eu me divorciei e trouxe o Patrick para cá.
– Eu deveria ter voltado.
– Não, não deveria, só iria vê-la sofrer, além disso, o sonho dela era ver você formado.
– Mas agora ela nem consegue lembrar quem eu sou.
– Eu me lembro – Disse a mãe, parada na entrada da cozinha.
Michael olhou para trás e a viu sorrindo.
A mãe correu e o abraçou.
– Eu me lembro Michael, eu me lembro filho – Disse ela, passando as mãos pelos cabelos dele.
Michael sorriu.
– Eu te amo, mãe – Disse ele, impulsivamente.
– Eu também.
– Mãe, você deveria estar na cama.
– Heather, não me trate como uma criança – Ela sentou-se à mesa – Michael, você vai voltar quando?
– Para onde?
– Para... – Ela ficou com dificuldade para lembrar.
– Para a Inglaterra?
– Sim, isso mesmo!
– Eu não vou voltar, mãe, eu me formei, eu voltei para casa de vez.
Ela ficou surpresa, primeiramente não sabia como processar a informação, mas logo abriu um grande sorriso.
– Você se formou?
– Sim, eu sou um médico, mãe!
– Eu não acredito – Disse ela, extremamente feliz – Eu sei que esse era o seu sonho, mas era o meu também.
Heather olhou para ela e deu um leve sorriso.
– Pois é.
– Eu preciso de um cigarro.
– Mãe, você não pode fumar, não lembra o que do médico disse? – Lembrou Heather.
– Ah, eu o odeio.
– Pronto – Disse ela – Vou deixar esfriar e daqui a pouco jantaremos.
Cecilia levantou-se da cadeira e caminhou até a sala, sentando no sofá para assistir um pouco de TV com o neto.
– Eu já preparei o seu quarto – Avisou Heather.
– Valeu.
– Como vai ser agora, vai procurar emprego?
– Sim, em algum lugar perto daqui, ou até mesmo aqui.
– Então você realmente pretende ficar por perto.
– Com certeza.
– Às vezes eu penso... – Ela olhou para baixo, como se relutasse em dizer.
– Pensa o que?
– Eu penso em colocá-la em um asilo... Às vezes acho que é mais fácil para ela, receber mais cuidados, ter pessoas com quem conversar – Ela começou a chorar e enxugou o rosto – É tão difícil, Michael.
– Heather, acredite, um asilo não seria melhor, vamos tentar tornar melhor aqui, eu estou em casa agora, estarei sempre ajudando.
– Ela tentou suicídio duas vezes... Você não sabe o quanto foi difícil para nós – Ela desabou – Eu não sei se consigo dar conta.
– Agora somos nós dois para dar conta.
– Queria que o papai estivesse aqui.
Michael abraçou a irmã.
– Eu também.
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