Golden College
13 You're the best part of my day
Notas iniciais
– GOLDEN COLLEGE —
You're the best part of my day
No salão de conferência dos docentes, os professores confabulavam sobre a reunião que acabaram de ter, enquanto se deliciavam com o lanche servido. Entre os assuntos em discussão, o que mais rendera comentários fora a substituição do presidente da Universidade. Ainda que já fosse do conhecimento de todos os professores que o senhor Jones Cameron, o atual presidente, iria se afastar da função por conta de sua idade avançada e por estar há muitos anos no cargo, fora somente naquela reunião que receberam o comunicado oficial sobre quem seria o do novo presidente e de que ele assumiria o cargo assim que iniciasse o próximo semestre.
— O senhor Cameron era um bom presidente — Shura comentou com os colegas de trabalho que estavam ao seu lado, Saga e o irmão gêmeo dele, Kanon. — Duro, mas justo.
— Sim — Kanon concordou. — Além disso, era o maior torcedor que tínhamos. Só espero que esse novo presidente também dê a devida importância ao nosso futebol.
— E por que não daria? — Saga questionou, e Kanon apenas deu de ombros enquanto pegava mais um bolinho na bandeja.
— Não se preocupe com isso, Kanon — disse Shura, pegando um bolinho também. — Nenhum presidente da Golden College negligenciou o nosso time, não será este que irá fazer isso. Todos sabemos o quanto os americanos são fanáticos pelo futebol. Não é à toa que o salário dos treinadores seja maior que o do próprio presidente da Universidade
— Só que esse novo presidente não é americano... — Kanon ressaltou, relevando o comentários sobre o seu salário.
— Não se pode julgar que ele não dará importância ao futebol por não ser americano. Você é grego e é o treinador de futebol americano mais fanático que eu já vi. — Saga fez questão de lembrá-lo.
— Além disso, para ter sido escolhido como presidente de uma faculdade como a Golden College, ele, obviamente, tem um grande conhecimento sobre como as coisas funcionam por aqui, afinal, os presidentes ficam aqui por muitos anos. A transição de gestão é considerado um momento histórico. — Shura acrescentou, depois de beber um gole de seu suco.
— Verdade. Além disso, Dohko é um homem muito sábio, já tive o prazer de conversar com ele sobre alguns projetos educacionais — Saga contou. — Ele é formado em psicologia e é pioneiro em estudos da área de inteligência emocional, sei que fará um ótimo trabalho. Fico feliz com a sua vinda.
— Com trezentos e doze anos de história, acho que essa é a segunda vez que a Golden College será presidida por um estrangeiro... — Enquanto Shura falava, o seu celular vibrava insistentemente no bolso. Ele tentou ignorar, até que não foi mais possível. — Tenho que atender. Com licença...
Assim que Shura se afastou, Saga falou com o irmão:
— Ainda não deu tempo de te contar a novidade. Quando eu estava vindo para cá, recebi uma ligação do meu advogado. Acredito que logo estarei, finalmente, divorciado.
— A megera aceitou assinar os papéis?! — Kanon arregalou os olhos ao perguntar, e Saga confirmou balançando a cabeça. Ele sorriu, satisfeito, e colocou as mãos para cima, como que agradecendo aos deuses. Estava cansado de ver o irmão deprimido e chateado por conta da ex-mulher que se recusava a assinar os papéis do divórcio. — Só espero que ela não mude de ideia de novo...
— Não, acho que não. Desta vez, estou confiante. Afinal, ela está levando todo o meu dinheiro com ela por conta disso.
Kanon balançou a cabeça e jogou alguns biscoitos na boca.
— É por essa e outras que não me caso... — disse de boca cheia, e Saga deu um meio sorriso, pensando que era o sujo falando do mal lavado. Por mais que Kanon nunca se assumisse com ninguém, vivia se metendo em relacionamentos tão complicados quanto os dele, ou até mais.
— O importante é que agora poderei voltar a me dedicar ao meu novo livro. Estou escrevendo sobre as partículas de luz e o universo.
Kanon gostou da empolgação na voz de Saga.
— Ora, vejam! Fico feliz em vê-lo assim. Há tempos que você não escrevia nada... Só ficava reclamando por conta disso.
— O projeto de um dos meus alunos me inspirou. — Saga já havia percebido que esse aluno o tinha como uma espécie de ídolo e, por isso, não queria decepcioná-lo. Não queria parecer alguém que simplesmente já foi bom, mas que ultimamente não estava rendendo muita coisa.
— Está vendo, você dizia que os remédios estavam atrapalhando a sua inspiração, mas o que faltava mesmo era só algo para te motivar...
— Pois é — Saga fungou e coçou a orelha. Sempre ficava um pouco agitado quando Kanon falava daqueles malditos remédios, que não estavam fazendo nenhuma falta. Ao contrário, só serviam para atrapalhar o seu raciocínio. Desde que parara de tomá-los, há algumas semanas, Saga se sentia muito mais revigorado e disposto com seus projetos, além de não sentir mais nenhum sintoma, o que provava que o que sentira fora apenas uma crise de estresse por conta do divórcio tumultuado que tivera. — Bem, preciso ir. Marquei de me encontrar com um dos meus alunos no Laboratório de Física, estamos trabalhando no projeto dele — Saga disse, colocando sua xícara de chá em cima da mesinha.
— É o tal aluno inspirador?
Saga não gostou do tom de insinuação de seu irmão e respondeu com um rabo de olho, daqueles que diziam “me respeita, não sou sem juízo como você”.
— Tudo bem. Vai lá... — disse Kanon, dando de ombros e jogando mais um biscoito na boca. — Passo na sua casa hoje à noite para saber mais sobre o divórcio.
— Está bem... — Ao sair, Saga deparou-se com Shura, que voltava, deu uma batidinha sem suas costas e um até logo antes de seguir.
Shura aproximou-se novamente de Kanon, com uma expressão de aborrecimento.
— Você me acompanha numa cerveja? — convidou o colega. Precisava se distrair um pouco para esquecer dos problemas.
— Só se for agora — Kanon respondeu, com a boca cheia, e os dois saíram, rumo a um bar.
* * *
Na biblioteca dos Ômega Chi, Julian cobrava de Radamanthys uma atitude em relação a Paul. Todos na casa já estavam cientes de que o colega havia sido acusado de estupro e assédio sexual. O boato se espalhara rapidamente.
— Você precisa dar abertura a um processo de expulsão contra ele, Radamanthys. Não podemos tolerar que Paul permaneça na casa depois de uma acusação tão grave.
— Como você mesmo disse, Julian, é uma acusação. Não foi provado que Paul realmente estuprou esse garoto e, muito menos, assediou o outro. O Joe mesmo disse que viu a cena toda e que o garoto começou a dar chilique do nada.
— Não importa! Só o fato de Paul estar sendo acusado já é motivo suficiente para afastá-lo da república. Afinal, é o nome dos Ômega Chi que está em jogo, vai parecer que estamos de acordo com esse tipo de conduta. Qual é, Radamanthys, não estou te reconhecendo!
— Olha, eu compreendo a sua indignação. Também estou chocado com tudo isso, mas Paul é nosso irmão, e devemos ficar ao lado dele nesse momento.
— Eu não vou apoiar um estuprador...
— Julian, um dos garotos que está acusando Paul é um Sigma Tau. Ele pode muito bem estar inventando a coisa toda. Você sabe como eles nos odeiam...
— Ano passado, quando o David foi denunciado por estar vendendo drogas, você não pensou duas vezes antes de iniciar um processo de expulsão. E, mesmo depois de ser provado que ele não era culpado, você disse que não poderíamos aceitá-lo de volta porque ele estava com o nome manchado, e isso mancharia o nosso nome também. Por que com Paul as coisas são diferentes?
— Porque percebi que agi errado em relação ao David. Não quero cometer o mesmo erro... Olha, Julian, o Paul permanece na república até que seja provado que ele realmente violentou esse garoto, e fim do assunto. É melhor você ir, estou ocupado escrevendo um artigo para o jornal...
— Isso não está certo, Radamanthys! — Julian saiu resmungando. Aquilo não poderia ficar daquele jeito. Radamanthys era o presidente da casa, mas ele não tinha o direito de decidir sozinho. Ah, Julian não via a hora de ser tornar o presidente da fraternidade e fazer as coisas do seu modo. De qualquer forma, ele não iria ficar esperando de braços cruzados, iria convencer os demais garotos a exigirem uma votação, onde todos pudessem opinar sobre a situação de Paul naquela casa. Era o certo a fazer, e era também uma forma de mostrar aos outros que ele seria um líder muito melhor e mais justo do que o atual.
Assim que Julian abriu a porta, deu de cara com Paul, que estava parado na entrada.
— Agora resolveu escutar atrás da porta também, Paul...?
— Só quando sou o protagonista do assunto. — Paul abriu o seu sorriso indolente para o colega, que apenas bufou e saiu da sala, resmungando.
— O que você quer aqui? — Radamanthys perguntou de mal humor quando Julian saiu e Paul entrou na biblioteca.
— Nada não. Só vim jogar conversa fora com um amigo. — Paul sentou-se na poltrona e colocou os pés na mesinha de assento, de forma despojada.
— Nós não somos amigos — Radamanthys falou de forma seca, enquanto colocava duas doses de uísque num copo com gelo.
— Como não? — Paul, cinicamente, arqueou a sobrancelha em interrogação. — Somos irmãos de fraternidade, “jogamos no mesmo time”, se é que você me entende... Temos muitos assuntos em comum... — Cruzou as mãos atrás da cabeça e esticou um pouco mais as pernas, ficando quase deitado.
Radamanthys respirou fundo. A presença de Paul era irritante, e ele não via a hora de se livrar daquele maldito. O problema era que Paul o flagrara com Valentine na despensa da cozinha e resolvera chantageá-lo. Droga! Como pudera ser tão descuidado e deixado que esse idiota o visse?! Sempre fora cuidadoso em relação a seus relacionamentos, nem mesmo quando ele namorava Pandora deixou que ela percebesse que ele mantinha um caso com outro homem.
Radamanthys bebeu mais uma dose generosa de seu uísque. Nunca imaginara que um dia provaria do seu próprio veneno e agora lá estava ele, rendendo-se às chantagens de Paul. E tudo isso porque o bastardo deixava implícito que sabia de seu antigo caso, além de Valentine. Em relação a Valentine e ele na despensa, isso não o preocupava tanto, afinal, era a palavra de Paul contra a dele. O problema era a outra história que poderia gerar um escândalo naquela faculdade. Claro que existia sempre a chance de Paul estar blefando, e, provavelmente, era isso mesmo. Só que Radamanthys não iria arriscar. Radamanthys sabia escolher as brigas pelas quais valia a pena se arriscar.
— De qualquer forma, eu gostaria de saber o que você vai fazer em relação a esse nojento do Julian que quer me ver pelas costas. — A voz de Paul tirou Radamanthys de seus pensamentos.
— Ele não é o único que quer te ver pelas costas, você sabe. E mesmo que eu te defenda, contra a minha vontade, que isso fique bem claro — Radamanthys fez questão de ressaltar —, eles vão acabar exigindo uma votação, e eu não poderei fazer nada. Em todo caso, quando for provado que você realmente violentou esse garoto, você vai ser expulso da Universidade e vai morar numa outra “república” — fez sinal de aspas — muito maior e mais adequada ao seu perfil, conhecida popularmente como cadeia. Lá, você encontrará amigos do seu estilo.
— Na verdade, eu já tenho muitos amigos do meu estilo aqui. Você mesmo é um deles. — Paul sorriu, indolente. — De qualquer forma, para o seu desgosto, isso não vai acontecer, porque eu sou inocente e ninguém tem provas contra isso.
— Com toda certeza que sim — Radamanthys falou de modo irônico.
— E sobre uma votação para que eu saia da fraternidade... — Paul continuou a falar. — Eu também tenho uma galera que me apoia e que odeia o Julian.
Radamanthys deu um meio sorriso.
— Acha que DeathMask, Faraó, ou os garotos que andam com você por aí vão apoiá-lo depois dessa conversa de você violentar garotos? Para início de conversa, são todos homofóbicos, e só o fato de você gostar de garotos já será suficiente para que eles virem as costas para você... — Radamanthys sorriu novamente, enquanto bebericava seu uísque.
— Quanto a DeathMask e Faraó, eu sei muito bem como lidar com eles. Em relação aos outros, eu deixo por sua conta. Em outras palavras, acho bom convencê-los a ficar do meu lado e testemunharem a meu favor, dizendo coisas maravilhosas a meu respeito, porque se eu sair da fraternidade a porra dos seus segredinhos é que entrará no meu lugar. — Paul levantou-se. — Bem, o recado está dado. Eu tenho outras coisas para resolver. — Saiu, assoviando e com o seu típico sorriso indolente estampado na cara, enquanto deixava um Radamanthys irritado, virando o copo de uísque de uma vez só na boca.
* * *
Assim que Paul deixou a sala, ele foi até o quintal da república, onde DeathMask, Faraó e outros garotos estavam reunidos. Paul revirou os olhos ao perceber que eles pararam o assunto abruptamente e se entreolharam quando que ele aproximou. Era óbvio que estavam falando sobre ele. Tinha virado o assunto da casa.
Paul resfolegou.
— Vocês viram o que esses malditos Sigma Tau aprontaram para mim?
Os garotos se entreolharam novamente.
— Não estão acreditando nessa história idiota? Estão? Onde já se viu. — Balançou a cabeça, parecendo verdadeiramente incrédulo, e colocou a mão no peito. — Eu ter que agarrar alguém à força para ter sexo! Falem a verdade, vocês que andam comigo, que me veem nas festas com um monte de garotas lindas da Delta Zeta Delta se jogando para mim, imaginam que eu precisaria recorrer a isso para ter sexo? E com um veadinho ainda?
Alguns garotos fizeram que não com a cabeça, mas Orpheu comentou:
— Foram duas denúncias, Paul...
— Primeiro, se eu gostasse de homem, eu não precisaria agarrá-los à força. Eles estão aí, se oferecendo para tudo mundo, vocês bem sabem. Segundo, eu tenho nojo... E me lembro vagamente de ter dispensado esse garoto numa dessas festas no Sanctuary. Eu estava bem bêbado e o garoto veio se jogando para cima de mim. Ele, com certeza, deve ter ficado chateado pelo fora que levou e acabou se juntando com esse Ômega Chi para se vingar. Não vejo outro motivo para esse garoto ter cismado logo comigo. Logo comigo! — Balançou a cabeça, como que realmente chateado com a situação. — E não duvido que eles cismem com vocês também. — Apontou o dedo para os amigos. — Pode ser um complô por termos coragem de dizer na cara deles a verdade.
Eles se entreolharam, parecendo receosos com essa possibilidade.
— Eu acredito em você, Paul... Tem uns veados que tentam perturbar a cabeça da gente — DeathMask falou. De qualquer forma, ele não conseguia imaginar que o seu amigo fosse capaz de algo tão grave. Sabia que Paul não era nenhum santo, ele também não era. Já aprontaram juntos muitas vezes, mas estuprar alguém? Seu amigo nunca faria algo assim, e a sua versão dos fatos era algo mais fácil de acreditar. — E os irmãos vem antes de qualquer coisa. Estamos com você.
— Obrigado, amigo. — Paul fingiu-se de emocionado. — É bom saber que vocês acreditam em mim e que ficarão do meu lado.
— A gente já estava imaginando que era armação desses Sigma Tau — Faraó falou. — Paul é um dos maiores pegadores dessa casa, cara gente boa. Esses veadinhos é que estão de sacanagem, querendo se aparecer às nossas custas.
— E por falar em veadinho, olha só quem vem ali... — outro garoto comentou. — A florzinha do trio maravilha...
Todos olharam em direção a Afrodite que se aproximava, segurando um copo grande na mão.
Paul pulou para trás ao sentir-se encharcado quando Afrodite jogou o refrigerante com gelo no rosto dele, surpreendendo a todos.
— Seu idiota! Eu vou te arrebentar! — Paul gritou, antes de partir com tudo para cima de Afrodite, só que DeathMask se colocou a sua frente como uma parede para impedi-lo.
— Isso não é nada perto do que eu pretendo fazer com você por ter machucado os meus amigos... — Afrodite deixou claro, apontando o dedo para Paul. — Pode apostar que você vai pagar caro pelo que fez.
Paul tentou partir novamente para cima de Afrodite, sem sucesso, pois DeathMask continuou a segurá-lo.
— Qual é DeathMask?! Você vai proteger a florzinha, agora!?
DeathMask fechou a cara, não gostando do tom que Paul usara com ele.
— Está querendo uma queixa por agressão também? Já não basta uma queixa por estupro — DeathMask tentou se justificar. No entanto, a verdade era que ao segurar Paul a única coisa em que pensara fora em impedi-lo de machucar Afrodite. Nem ele entendia ao certo por qual motivo fizera isso, apenas agira no impulso, mas tentou justificar para si mesmo que fora para ajudar Paul e também porque ele era o único ali que tinha direito de brigar com Afrodite.
— Isso não vai ficar assim, sua florzinha de merda... — Paul olhou para Afrodite, com ódio.
— Não vai mesmo! — Afrodite respondeu no mesmo tom de ameaça que Paul usara. — Você vai descobrir que mexeu com os amigos da pessoa errada....
Afrodite e Paul começaram a discutir, e DeathMask ficou prestando atenção na cena. Apesar de tudo, ele tinha que admitir — nunca em voz alta, é claro — que apreciava e até mesmo admirava o jeito de Afrodite. Sim, admirava a maneira como ele nunca abaixava a cabeça para ninguém, como ele estava sempre confiante, sem medo de enfrentar quem quer que fosse, e ainda conseguia manter a classe e a elegância. O modo como ele, mesmo com uma aparência tão delicada, sabia se impor. E, acima de tudo, o modo como ele ficava ainda mais lindo e sexy quando estava bravo daquele jeito, o que fazia com que DeathMask o desejasse cada vez mais...
DeathMask assustou-se com os próprios pensamentos. E foi esse o instante em que ele se deu conta do que aquilo significava. Sentiu um solavanco no peito. Estou tão ferrado!
Afrodite disse mais alguma coisa e jogou seu cabelo por cima do ombro antes de sair caminhando para fora do quintal como um modelo de passarela.
* * *
Quando Milo abriu a porta e entrou na república, encontrou Aldebaran e Mime jogando pôquer na sala de estar.
— Não é justo! — Aldebaran torceu os lábios enquanto distribuía as cartas para uma nova rodada. — Você está ganhando todas.
— Eu disse a você que sou o melhor!
Aldebaran estalou a língua.
— Vocês não têm trabalho para fazer não? — Milo perguntou.
— Eu tinha um paper para entregar, mas já acabei... — Foi Mime que respondeu, reparando nos livros que Milo segurava. — Você voltou a frequentar as aulas de Física?
— Ah, dei uma passadinha por lá. Mime, você que gosta de decorar a casa, bem que podia já começar a colocar algumas coisas do Halloween — Milo desconversou. Não queria que os colegas começassem a fazer gracinhas por ele frequentar as aulas de Física somente para ver Camus. E pior, ver de longe, enquanto fingia interesse na palestra do professor Saga. Mas Milo percebera que Camus o notara na aula.
— Falta uns cinco dias ainda — Mime respondeu. — Quer jogar com a gente? Estamos jogando com apostas.
— Não quero gastar mais dinheiro. Tive que pagar a conta de um playboyzinho na Sanctuary no final de semana. Estou com a impressão de que o cara tinha comprado o bar inteiro.
— Não acredito que você perdeu num reles jogo de sinuca para um maldito Ômega Chi. — Aldebaran balançou a cabeça, num gesto descrente. — Nos humilhou por tão pouco, Milo.
— E o pior é que ele era um péssimo jogador! — Milo fez um muxoxo. — Mas eu estava tão bêbado, cara, que mirava nas minhas bolas e encaçapava as dele.
Mime riu com escárnio.
— Ninguém te merece, Milo...
— Mas já marcamos uma revanche. Quero ver ele ganhar de mim comigo sóbrio. — Milo sentou-se no sofá para observar os colegas jogarem
— Bem, só espero que você não perca outra vez — Mime disse, enquanto pedia mais uma carta.
— Nem me fale, vou ter que adiar o meu presente de novo. Eu tinha planejado comprar meu carro esse mês para me dar de presente de aniversário, mas tive que mexer no dinheiro. Acho que só o ano que vem agora — Milo suspirou, chateado.
— Foi tanto assim a conta do Ômega Chi? — Mime arqueou a sobrancelha.
— Foi bem gorda. Ele bebe Dalmore 62, acredita? — ele falou e os outros assobiaram. Era um uísque bem caro. — E eu também já tinha gastado esse mês mais do que devia com festas. E esse final de semana ainda tem o Halloween, e no próximo é minha festa de aniversário. À propósito, vocês já compraram meus presentes?
— Por falar em presente, acho que vou aproveitar e comprar uma lembrancinha para o Mu também.
— Tentando fazer a média, não é? — Mime implicou. — Deixa só o Aiolia ver isso...
— Aiolia não tem que falar nada, ele não é dono do Mu. E agora que Mu me escolheu como irmão mais velho passaremos mais tempo juntos, é a minha chance de investir — falou Aldebaran, colocando algumas fichas sobre a mesa. — Eu dobro a aposta!
— Talvez eu também devesse comprar uma lembrancinha para o Ikki. — Mime refletiu. — Pago. — Também colocou fichas sobre a mesa. — Talvez devêssemos fazer uma festa de trocas de presente com nossos irmãos mais novos, o que acha Milo?
— Me ter como irmão mais velho na fraternidade é o melhor presente que Aiolia já teve... — Milo estalou a língua. — Mas vamos pensar no assunto, deixa passar esse período de festas. Já está acabando a temporada dos jogos, e talvez eu aproveite para arrumar um emprego.
Enquanto ele falava, sentiu o celular vibrar no bolso, pegou o aparelho e disfarçou um sorriso ao ver que era uma mensagem de Camus.
“Preciso falar com você, pode vir ao laboratório de Física hoje à tarde?” — Hum, ele está com saudades de mim. Guardou o celular no bolso, não iria responder tão rápido. Era bom que Camus esperasse por um tempo para aprender como era bom ser deixado de lado.
— O Ikki me disse que no Starbucks estão sempre contratando gente nova — Mime disse, abrindo suas cartas sobre a mesa. — Straight Flush!
— Ah, eu desisto! — Aldebaran berrou, chateado.
— Pois é. Quem sabe eu tente alguma coisa lá — Milo respondeu sem muita emoção, como que falando só por falar, e pegou o celular novamente do bolso, enquanto Aldebaran reclamava de Mime ganhar sempre. Já havia passado um minuto, era um tempo suficiente. Bem, ao menos, foi o máximo que ele conseguiu se segurar. De qualquer forma, havia sido Camus que o procurara, e isso era bom, falou para si mesmo.
Ansioso, digitou uma resposta: “Posso”. Achou que a mensagem estava curta demais, então apagou e digitou outra: “Que horas?”. Mas que droga! Não seria Camus a escolher o horário. Ele não era um cachorrinho que voltava abanando o rabo toda vez que o ruivo o chamava de volta, depois de tê-lo abanando. Não, não era assim que as coisas funcionavam com Milo. Ele tinha orgulho, afinal. Então digitou outra: “Passo aí assim que der” e enviou.
“Se possível, tente chegar antes das duas horas.”
Milo suspirou. Droga! Porque sempre acabava fazendo o que Camus queria?
“Até as duas horas, então.”
Como não vieram mais mensagens, guardou o celular, e se espalhou no sofá, pensando nas coisas que jogaria na cara de Camus. Até que, sentindo que seu bom humor estava nas alturas, resolveu sentar para jogar com os colegas. Já estava ferrado mesmo! Quem sabe não ganharia.
* * *
Enquanto isso, no quarto de Aiolia, ele e Mu terminavam de assistir ao segundo capítulo da quarta temporada de Game of Thrones, um seriado norte-americano que Mu conhecera depois de vir morar nos EUA e que acabou se tornando um grande fã. Aiolia já tinha ouvido falar do seriado antes e até tentara assistir um ou dois capítulos, mas nunca tivera paciência para passar muito tempo em frente à televisão; até conhecer o seu pequeno gafanhoto e tudo mudar.
Eles estavam deitados lado a lado na cama de Mu, Aiolia com a mão direita dobrada abaixo da cabeça sobre a almofada, enquanto a esquerda fazia um carinho involuntário no braço do colega.
— Nossa! Já assistimos três episódios seguidos — Mu comentou. — Nem vi a hora passar... E então, paramos por aqui e vamos estudar na biblioteca, ou assistimos mais um?
— Assistimos mais um, claro — Aiolia falou, pegando um restinho de pipoca na vasilha. — Temos que aproveitar a melhor parte do dia.
Mu o olhou de esguelha, surpreso com o comentário do colega. Aiolia vivia implicando com ele por conta de sua fascinação com o seriado. Dizia que ele não se contentava em somente assisti-lo, tinha que ler os livros, ler sobre o assunto na internet, procurar pistas, bolar teorias, comprar bonequinhos e ainda falar sobre aquilo com tanta paixão que deixava Aiolia com ciúmes às vezes.
— Depois diz que eu é que sou viciado em Game of Thrones.
— Não estou falando do seriado. Estou falando de ficar aqui com você... Você é que é a melhor parte do meu dia — Aiolia confessou, fazendo Mu corar e dar um sorriso doce.
— Também gosto de passar o meu tempo com você... — Mu falou, meio encabulado. Os dois trocaram olhares e sorrisos, mas o barulho do celular de Aiolia tocando insistentemente atrapalhou o momento.
Droga!
— Quem perturba? — Aiolia falou num tom que oscilava entre a impaciência e a descontração.
— Sou eu, Aiolia — respondeu Algol do outro lado da linha, e Aiolia reconheceu a voz. Ele não tinha olhando no visor para ver o número do telefone.
— O que você quer?
— Estou precisando de um favor...
— Fala então...
— Tem como você me arrumar um daqueles seus comprimidos mágicos? Tô muito estressado com as atividades da faculdade, eu fui mal numa prova aí e tô com medo de ser reprovado no semestre... Cara, não estou nem dormindo direito...
Comprimidos mágicos era como Aiolia se referia ao calmante natural que seu irmão Aiolos havia lhe receitado quando ele perdera a posição de quarterback titular do time de futebol. Na ocasião, Aiolia precisou fazer terapia com um psicólogo esportivo, mas não fora o suficiente. Mesmo fazendo as seções com o doutor Miller, ela ainda se sentia muito ansioso, o que fez com que o seu irmão Aiolos lhe receitasse essas pílulas para ajudá-lo a ficar menos agitado e superar o período fora do campo. Aiolia dizia que o remédio era mágico porque resolvera o seu problema como num passe de mágica, mas Aiolos acreditava que era mais um efeito placebo do que o remédio propriamente dito, já que a dosagem daquele medicamento natural e manipulado era extremamente baixa.
— Eu te arrumo sim, ainda tenho alguns comprimidos aqui...
— Só para confirmar, eles não dão problema se houver algum exame antidoping não, não é? Você tem certeza disso, não é?
— Claro que tenho! — Aiolia rosnou, não gostando da desconfiança do colega. Onde já se viu? O seu irmão nunca lhe receitaria algo que pudesse prejudicá-lo. — Acha que eu tomaria algum remédio que pudesse me atrapalhar nos jogos?
— Eu sei, eu sei, cara... Foi só pra confirmar mesmo. Eu sei que você é muito cuidadoso com essas coisas, ou então eu não estaria te pedindo uns comprimidos. E aí, você pode me arrumar uns?
— Mais tarde eu passo aí na república e levo para você, estou meio ocupado agora.
— Beleza então. Depois eu pego com você.
Aiolia desligou o celular, colocou em cima da cama ao lado do travesseiro em que estava deitado e se endireitou.
— E então, onde estávamos? — perguntou a Mu.
— Terceiro episódio — respondeu, enquanto apertava o play no controle remoto para dar início. — Eu me arrepio todo com essa música de abertura.
Aiolia sorriu e implicou um pouco com o colega, chamando-o carinhosamente de “viciadinho”.
Aproximadamente uns trinta minutos depois que o episódio havia iniciado começou uma cena que Mu julgou bastante constrangedora. Bem, para ele sempre era constrangedor assistir às cenas de sexo ao lado de Aiolia, principalmente quando eram cenas de sexo entre homens. Ou, pior, entre homens e mulheres, tudo misturado, como era aquela. Não que cena em questão estivesse mostrando muitos detalhes, mas só o fato de Mu ficar ouvindo os personagens gemerem alto daquele jeito, enquanto Aiolia ficava ali perto dele, com aquele corpão sarado, aquele cheiro convidativo, alisando seu braço... Mu sentiu um arrepio percorrer o seu corpo e ele tinha certeza de que estava vermelho de vergonha — e de outras coisas também.
Já Aiolia prestava atenção no diálogo da cena, que muito tinha lhe interessado. Após um dos personagens, o príncipe Oberyn da casa Martell de Dorne, ter sido questionado sobre gostar igualmente de homens e mulheres, já que cada pessoa tinha suas preferências, o príncipe respondeu que estariam todos, então, perdendo a metade do prazer do mundo. E ainda acrescentou que os deuses haviam feito as mulheres, e isso o encantava; havia feito os garotos, e isso o encantava igualmente. “Quando se trata de guerra, eu luto por Dorne, mas quando se trata de amor, eu não escolho lado”.
Aiolia gostou de ouvir aquilo, porque foi como se ele tivesse ganhando uma resposta positiva para alguns de seus questionamentos. Desde que ele conhecera Mu, uma dúvida pairava sobre sua cabeça: Será que ele era gay? Mas como ele poderia se considerar gay se ele ainda gostava de mulheres?
Tudo bem que seu primo Milo ficava com ambos os sexos; só que era diferente, ele notava. Milo só ficava com mulheres quando elas o assediavam; era bem óbvio que ele sempre preferia os homens. Já com Aiolia, ele sentia que era diferente, pois ele estava louco por Mu, isso não conseguia mais negar, só que ele também já se sentira assim por algumas meninas antes, na época do colégio. No entanto, acabara de ouvir o que ele precisava para se sentir mais confiante. Satisfeito com isso, olhou para a pessoa que havia despertado esse seu lado. Viu que Mu parecia meio encabulado, e deduziu que fora por conta daquela cena. Ele já tinha percebido que Mu ficava tímido sempre que tinha alguma cena mais quente. Aiolia reprimiu um sorriso. Aquela timidez toda o deixava tão bonitinho!
Então, discreto como Aiolia não era, ele pausou o seriado, fazendo Mu olhar em sua direção à procura de uma justificativa para isso.
— Sabe, eu estava pensando esses dias sobre isso que o príncipe de Dorne disse — falou Aiolia, virando-se de lado para Mu, que notou o movimento e virou-se também, ficando deitados um de frente para o outro.
— É? — Mu ficou interessado. — E o que você estava pensando?
— Eu estava pensando que se um garoto estivesse a fim de mim, uma pessoa legal, sabe... eu estava pensando no que eu faria...
O coração de Mu falhou uma batida. Ai, meu Buda! E agora? Por que ele está falando isso? Será que ele notou que eu gosto dele? Bom, era óbvio que ele iria notar. Afrodite mesmo já o tinha alertado de que o seu interesse por Aiolia piscava como um letreiro luminoso em sua testa.
— E o que você faria? — Havia uma certa ansiedade camuflada na voz de Mu. Ele passou a mão pela franjinha, como sempre fazia quando ficava apreensivo.
— Eu iria querer experimentar, querer descobrir mais sobre esse sentimento, iria querer ficar com a pessoa... — Aiolia confessou, enquanto estendia a mão sobre cabelo do seu pequeno gafanhoto, tirando a franjinha da frente e colocando-a atrás da orelha. A franja de Mu havia crescido e estava cobrindo o seu olho. Aiolia queria os olhos de Mu descobertos para que ele tentasse ler algum sinal ali. — E você? Você já pensou sobre isso? Ou você acha que é errado dois homens se gostarem? — Tinha receio dessa opção.
— Não... — Mu respondeu rápido. — Não há nada de errado em duas pessoas que se gostam, mesmo que sejam dois garotos. — Lembrou-se da conversa que tivera com Afrodite.
— Que bom que pensa assim. — Aiolia alargou o sorriso, estendendo a mão e encontrando a de Mu. Seus dedos se entrelaçaram. — Sabe, Mu, a verdade é que eu é que estou interessado em um garoto.
Mu quase teve uma síncope de tanta ansiedade. Seu coração parecia um motor dentro do peito. Bem que Afrodite havia falado. Mas espera! E se esse garoto não fosse ele? De repente, o medo de Aiolia estar interessado em outro garoto começou a perturbá-lo.
— E eu fico me perguntando — continuou Aiolia. — Se eu deveria contar para ele, sabe. Eu queria contar, mas... Sei lá, tenho medo de que ele não goste de mim desse jeito, e as coisas mudem entre a gente.
— Eu acho que você devia contar — Mu disse, em expectativa.
Aiolia respirou fundo, e os dois se fitaram em silêncio por um bom tempo, até que Aiolia esticou sua mão e tocou o rosto de Mu, contornando a linha do maxilar dele com a ponta dos dedos, subindo-os para sentir a maciez do cabelo.
As palavras faltaram, e ele não conseguia encontrá-las para se expressar. Então, resolveu fazer do jeito como estava acostumado a fazer, afinal, sempre acreditara que uma ação valia mais do que mil palavras.
Mu prendeu a respiração e fechou os olhos quando sentiu as mãos de Aiolia em sua nuca, e os lábios dele prestes a tocar os seus.
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