Golden College
14 I love you, but I don't want you
Notas iniciais
CAPÍTULO 14 — GOLDEN COLLEGE
I love you, but I don't want you
Não houve beijo.
No momento em que os lábios de Aiolia quase tocaram os de Mu, a porta foi aberta de repente, assustando-os.
— Mas o que é que está acontecendo aqui?! — Algol espantou-se. Sempre desconfiara de Mu, mas Aiolia também era gay?!
— Eu sabia! — declarou Abel, com satisfação por ter suas suspeitas comprovadas.
— Mas que merda vocês estão fazendo aqui?! E quem deu o direito de vocês entrarem assim no meu quarto? — Aiolia berrou, enquanto se levantava e tentava se recompor. Já Mu não sabia onde enfiava a cara de vergonha e, por conta disso, nem abriu a boca para falar nada.
— Vocês são nossos candidatos, portanto, temos o direito de entrar no quarto de vocês do jeito que quisermos, na hora que quisermos — Algol deixou claro, dirigindo-se até a mesinha de computador e sentando-se na cadeira, com toda a folga do mundo. — Pelo visto, você não anda lendo o manual dos candidatos.
Aiolia bufou. Não via a hora de acabar esse período de testes. Os veteranos da fraternidade faziam o que bem queriam, e os candidatos não tinham mais comando sobre suas próprias vidas, tampouco alguma privacidade. Aquilo era frustrante! Antes, achava que valia a pena passar por tudo isso para entrar para os Sigma Tau, no entanto, naquela situação, começou a duvidar disso. Os bastardos estragaram o momento dele com Mu!
— Mas o que vocês querem aqui mesmo?
— Estou aqui para buscar os comprimidos que ficou de me arrumar...
— Eu disse a você que levaria para a república... Não podia esperar?
— E eu disse a você que estava ansioso. Acha que aguento esperar sua enrola? Vamos, cadê os comprimidos mágicos...? — Algol estendeu a mão na direção de Aiolia, meneando os dedos.
Resmungando, Aiolia foi até o seu armário e pegou um frasco, entregando-o a Algol, sob o olhar curioso de Abel.
— Toma. Agora vê se me deixa em paz e some do meu quarto... — Aiolia estava louco para voltar a ficar a sós com Mu.
— Valeu, cara! — Algol levantou-se, satisfeito. — Vamos, Abel...
— Vamos... — Abel assentiu. — Podem ficar namorando aí agora, tranquilos. — Piscou para Mu, que abaixou a cabeça, sentindo seu corpo pinicar pelo embaraço. — A propósito, Mu, eu quero que você saiba que eu sinto muito por esse boato que está rolando sobre você e o Paul... Ele é meu primo de segundo grau, mas não apoio as bobagens que ele anda fazendo.
Aiolia olhou para Mu, com a testa franzida, antes de direcionar o olhar para Abel.
— Que boato que está rolando entre Mu e esse Paul aí?!
— Tá maluco, Abel! — Algol recriminou o colega. — Isso é coisa íntima. Não é momento pra falar disso não.
Aiolia insistiu em saber, já nervoso, enquanto Mu, perplexo, se questionava: Como é que eles estavam sabendo disso?! Quando fizera a denúncia, ele fora sozinho. Não contara a ninguém.
— Ué! Mas está todo mundo comentando mesmo... — Abel deu de ombros. — Um garoto escutou outro garoto falar no telefone para alguém que tinha denunciado o Paul por estupro. E alguns Ômega Chi espalharam por aí que a polícia foi lá na república atrás de Paul e tudo mais... — Abel contou o que sabia. — Além disso, Mu é nosso candidato, isso meio que envolve a gente também...
— É claro que não vamos deixar barato um Ômega Chi mexer com um Sigma Tau. Mas não é coisa para conversarmos assim. Você é um sem noção mesmo, Abel. É melhor a gente ir embora...
Aiolia olhou para Mu ansioso por uma explicação, enquanto os meninos saíam do quarto, discutindo entre si.
Mu suspirou. Ele que, até então, estava tentando poupar Aiolia desse fato, não só por conhecer o temperamento do colega e ter medo do que ele poderia fazer, mas também por vergonha de falar com ele sobre essa situação, não teve escapatória a não ser contar toda a história para ele.
Primeiramente, Aiolia surtou por Mu ter escondido isso dele. Depois, deixou o discurso sobre Mu ser um péssimo gafanhoto de lado e rumou para fora do quarto. Iria até a república dos Ômega Chi dar uma bola lição no bastardo que se metera com Mu.
— Aiolia, por favor... — Mu fez uma barreira na porta, impedindo que o colega a abrisse. — Se você for à casa dos Ômega Chi só vai criar mais confusão. Deixe que a polícia e a direção da universidade resolvam isso.
Aiolia olhou para Mu como quem achava aquela ideia um absurdo.
— Não vou ficar aqui esperando a enrola da polícia... Eu mesmo resolverei do meu jeito...
Mu passou a mão pelos cabelos, aflito. Sempre conseguia conter o seu amigo imprudente, mas nunca o vira tão nervoso antes.
— Você ouviu os meninos contando que outro estudante o acusou por estupro, e nós sabemos como acusações desse tipo aqui nos EUA são levadas a sério. Tivemos uma palestra no início do semestre sobre isso, não se lembra? — Mu tentou argumentar, acreditando que convenceria Aiolia. — A polícia logo vai dar um jeito nisso...
— Você não devia ter escondido isso de mim... Meu Deus! Sinto medo só de pensar no que aquele retardado poderia ter feito com você... — Aiolia apertou os punhos, e o seu rosto se transformou numa careta. E seu Paul tivesse estuprado Mu?! Não, era melhor nem pensar naquilo.
— Eu não queria esconder isso de você, eu só estava tentando evitar que você fizesse o que está querendo fazer agora. Eu tenho medo de que você brigue com ele e acabe se machucando. Ele pode estar armado como da outra vez, lembra-se? Também tenho medo que você é que o machuque a ponto de ser expulso do time de futebol, ou mesmo da faculdade... — Mu expôs suas preocupações enquanto afastava-se da porta para aproximar-se do colega. — Por favor, Aiolia, deixe que a polícia resolva isso...
Por um momento, Aiolia pareceu se acalmar. Mu suspirou aliviado por isso. Mas logo em seguida, Aiolia afastou-se e deu um soco forte na porta, assustando Mu.
— Aiolia!
— Eu vou arrebentar esse desgraçado! — Aiolia rugiu, antes de desaparecer do campo de visão de Mu.
— Aiolia... — Mu ainda o chamou outra vez, em vão. Oh, Buda, o que eu faço?! Mu suspirou, inconformado.
* * *
No laboratório de Física, Camus havia acabado de fazer uma breve explanação sobre o seu projeto para Milo e estava agora mostrando alguns materiais que, provavelmente, seriam utilizados pelo seu “assistente” durante a experiência.
— Cuidado com isso, é frágil! — Camus alertou, quando viu Milo pegar uma proveta como se estivesse pegando numa bola de futebol.
— É um idiota mesmo! — Christian comentou, com um ar de superioridade.
— Esse babaca vai ficar aqui o tempo todo nos observando? — Milo quis saber de Camus, que apenas balançou a cabeça numa negativa. — Então o que ele está fazendo aqui?
— Eu quero estar aqui para dizer ao Camus “eu avisei” assim que você quebrar alguma coisa importante.
— A sua cara não é importante — Milo retrucou, fechando o punho e fazendo um sinal de que bateria em Christian.
— Ah, não! Por favor, parem vocês dois. Christian, você deveria ir cuidar do seu projeto.
— Estou esperando o meu professor orientador — Christian justificou-se, afastando-se um pouco mais de onde Milo estava, só por precaução. — Ele só chegará daqui uns dez minutos. Enquanto isso, fico aqui de olho em vocês.
Camus revirou os olhos, e Milo bufou.
— Mas você não tinha dito que o projeto estaria concorrendo a um prêmio, Camus? Que era uma espécie de competição? Então esse babaca não deveria ficar por perto, já que ele também está concorrendo com outro projeto.
— O que você quer dizer com isso?! — Christian indignou-se, ultrajado. — Eu não preciso desses artifícios! Camus e eu competimos dignamente e até ajudamos um ao outro se for o caso. Não há necessidade de segredos ou de furtos de ideias. Somos gênios! — fez questão de ressaltar.
Milo passou um rabo de olho para o engomadinho enjoado, como que dizendo que não confiava em suas boas intenções.
— Veja, Milo... — Camus entregou ao seu ajudante uma lista com tudo o que ele deveria fazer. — Você só precisa seguir esses passos. Eu vou terminar de te mostrar cada item, explicar o nome e dizer para que serve cada um.
Milo sorriu de lado. Como se não bastasse Camus sempre fazer uma lista de tarefas para si mesmo, agora havia feito uma lista para Milo também.
— Imagino que o prêmio seja em dinheiro...
— Sim, o prêmio é uma generosa quantia em dinheiro — Camus falou. — Mas o dinheiro é destinado apenas ao financiamento do projeto, não poderá ser usado para outra finalidade. Mas se estiver precisando de dinheiro, Milo...
— Não estou precisando — Milo logo respondeu, sentindo-se até ofendido com a possibilidade de Camus querer emprestar-lhe dinheiro. — Bem, na verdade, confesso que não seria uma má ideia se tivesse um prêmio extra para os participantes, tipo um carro...
— Está querendo um carro?
— Estou tentando juntar dinheiro para comprar um carro já há algum tempo...
— Se gastasse menos com festas...
Pobretão! — pensou Christian no mesmo instante em que viu o seu professor orientador entrando no laboratório.
— Bem, preciso ir. Boa sorte, Camus — disse, referindo-se as bobagens que imaginava que Milo faria.
— Odeio esse babaca engomadinho! — Milo declarou, quando Christian já havia se afastado. — Estava louco para ele sair, queria conversar sozinho com você.
— Lembre-se de que estamos aqui para nos concentrarmos no projeto — Camus o lembrou, já antevendo o que Milo queria conversar, enquanto acrescentava mais uma anotação na sua lista de tarefas.
— Eu sei. Mas nós precisamos conversar sobre aquele dia. Eu... eu não entendo por que você foi embora.
Camus suspirou.
— Porque foi a coisa certa a fazer.
— Isso não faz o menor sentindo! A gente estava se entendendo, Camus...
— Não, Milo. — Camus desviou os olhos de sua lista por alguns segundos. — Nós não estávamos nos entendendo. Na verdade, nós estávamos discutindo e deixamos que nossas emoções falassem mais alto.
— Eu não te entendo.
— Cuidado com isso — advertiu, ao ver Milo colocar a proveta de qualquer jeito em cima da mesa.
— Eu não te entendo! — Milo falou outra vez, num tom mais baixo. — Qual é o problema em deixar que nossos sentimentos falem mais alto? — Sentou-se na cadeira ao lado de Camus.
— Eu realmente gostaria que nos concentrássemos no trabalho aqui. Isso é muito importante para mim, podemos falar sobre isso em outro momento.
Milo se aproximou mais, ficando bem próximo de Camus.
— Não. Eu não consigo esperar mais, e você sabe disso. Não é certo o que você está fazendo comigo. Num momento você me enche de esperanças, depois me chuta, e depois me chama de volta outra vez. Parece que está fazendo algum tipo de jogo comigo...
Camus suspirou antes de Milo continuar.
— Cansei de fingir me satisfazer somente com sua amizade, Camus, eu já te falei isso. Você sabe muito bem o que eu quero com você...
— Olha, Milo. Não quero que pense que estou jogando com você, eu nunca faria isso propositalmente, você sabe...
— Por que me chamou para ser seu assistente então, se você acha que não devemos ficar juntos?
Se Camus não tinha uma resposta sobre suas atitudes dúbias nem para si mesmo, como explicaria isso para Milo então? Como dizer “Eu te amo, mas não te quero...” se aquilo parecia patético até mesmo para ele? Só sabia que voltar com o ex-namorado não era a coisa certa a se fazer, mas também não conseguia ficar longe dele. Era complicado.
— Não confio em outra pessoa além de você para me ajudar. — Foi a melhor resposta que Camus encontrou naquele momento. E, por mais que fosse uma desculpa perfeita, não era exatamente uma mentira. Milo tinha razão quando questionou o fato de Christian estar observando o seu projeto, uma vez que ambos participavam de uma competição. Não que Camus desconfiasse de Christian. Só que também não confiava totalmente. Nem em Christian, nem em qualquer outro de seus colegas. Camus não era ingênuo e conhecia o espírito competitivo de seus colegas, sem contar que aquele prêmio era muito importante; definiria o futuro deles como astrofísicos. — Eu não sou uma pessoa muito sociável, você sabe. As poucas pessoas que tenho contato nessa universidade estão nessa competição. Meu projeto é grande, e preciso de um assistente de confiança. Estou tentando ser prático e não misturar as coisas, mas não precisa participar disso, se não quiser. Se isso te incomodar de alguma forma...
Não era exatamente o que Milo gostaria de ouvir, mas pareceu uma resposta razoável, levando em consideração de era Camus quem estava falando ali, e o ruivo quase nunca admitia seus sentimentos com palavras. De qualquer forma, não foi de todo ruim saber que era a pessoa que Camus mais confiava naquele momento. Já era um começo. Quem sabe até poderia tentar usar isso a seu favor para reconquistá-lo. Além do mais, em nenhuma hipótese negaria ajuda a Camus.
Milo olhou em direção ao bloco de notas que Camus segurava sobre a mesa e tomou-o de sua mão.
— O que você está fazendo? — Camus ficou curioso.
— Bem, já que aceitei ser o seu assistente, tenho que ajudá-lo a reorganizar a sua lista de tarefas e acrescentar coisas que a sua cabecinha dura teima em esquecer. — Milo pegou a caneta da mão do ex-namorado e riscou as três primeiras anotações da lista, escrevendo outra coisa no lugar delas.
Camus ficou observando aquilo, sem dizer nada. Quando Milo terminou de escrever, entregou-lhe de volta o papel.
Tarefa número 01: Deixar se ser tão cabeça dura e admitir os sentimentos por Milo.
Tarefa número 02: Não recusar as investidas de Milo...
Tarefa número 03: Acompanhar Milo na festa de Halloween esta noite.
Camus continuou em silêncio, mas Milo não deixou de notar um fantasma de sorriso nos lábios do ruivo.
Nesse momento, o professor Saga chegou.
— Desculpe-me o atraso, Camus. Estava conversando com meu irmão quando vimos um dos garotos do time agredindo outro, tive que ajudá-lo a separar a briga.
Camus olhou para Milo em reprovação, como se o ex-namorado tivesse alguma coisa a ver com isso só por ser do time de futebol. Além do mais, Camus tinha certeza de que o garoto violento era também alguém da fraternidade.
— Briga entre os jogadores do time de futebol?! — Milo ficou preocupado com a informação. Aquilo iria dar merda! O treinador Kanon já havia deixado bem claro que não os queria metido com brigas. — Quem estava brigando?
— Milo é o capitão do time — Camus explicou para Saga.
— Um dos garotos do Kanon envolvido com projeto de Física? Interessante! — Saga comentou antes de responder a pergunta de Milo: — Bem, se não me engano, o Kanon mencionou o nome do quarterback titular do time. Mas acredito que a briga foi mais por conta de alguma rixa de fraternidades, pois os dois vestiam casacos de fraternidades diferentes, e esses meninos vivem criando conflitos por conta disso.
— Com certeza foi rixa de fraternidades... — Camus deu seu palpite, passando um rabo de olho para Milo, que achou aquilo o cúmulo do preconceito.
Apesar disso, Milo não podia descartar nenhuma das possibilidades, e problemas tanto da fraternidade quanto do time o atingiam de certa forma, uma vez que ele era o líder das duas coisas. Preocupado, Milo tentou ligar para Aiolia várias vezes, mas a ligação só caia na caixa postal. Ligou para Aldebaran, que não sabia de nada, mas ficou de averiguar a informação.
Milo praguejou. Precisava saber o que estava acontecendo, porém, não poderia se afastar dali naquele momento. Não depois de reparar no jeito todo empolgado do seu ex-namorado perto daquele professor, e de como o professor era muito atencioso com seu aluno brilhante. Sim, Saga havia acabado de elogiar Camus descaradamente bem ali, na frente de Milo, e Camus ainda fizera o favor de corar. Aquilo estava muito errado.
Milo sabia que o irmão gêmeo de Saga já tinha se envolvido com estudantes, ele mesmo já tivera alguns momentos íntimos no vestiário com o treinador. Vai que o irmão era paquerador do mesmo jeito? Tinha que ficar de olho neles.
Merda! Por que as coisas tinham que acontecer sempre ao mesmo tempo? Guardou o celular no bolso. Quando o professor fosse embora, ele iria até a república ou ao estádio para descobrir o que acontecera. Por ora, ficaria ali, ao lado de Camus.
* * *
Enquanto isso, em frente ao prédio de Física, Kanon recriminava Aiolia.
— Eu fui bem claro quando eu disse que não queria saber de vocês metidos em brigas...
— Ele tentou violentar o meu colega de quarto, estuprou outro garoto, e ele também já tentou me esfaquear... O que queria que eu fizesse?!
— Que chamasse a polícia. Era isso o que você tinha que fazer...
— Eu sei... Mas meu sangue ferveu, não pude me controlar. Nunca perdeu a cabeça assim, treinador? O que faria no meu lugar se um idiota tentasse machucar alguém especial para você?
— Provavelmente eu mataria o desgraçado na porrada!
— Então...?
— Mas eu não estou no seu lugar, garoto! — Kanon exasperou-se. — Eu sou o treinador do time, e é com ele que estou preocupado. Brigas envolvendo jogadores mancham a nossa reputação. Não posso deixar que isso aconteça em plena temporada de jogos. Vou ter que suspender você do time.
— O quê?! — Aiolia se desesperou. — Não pode fazer isso comigo, treinador. Faltam só dois jogos para o final da temporada. Não posso ficar de fora da final, não posso ficar sem jogar...
— Bem, que isso sirva de lição para você e para os outros.
— Não pode me suspender ou me expulsar do time! — Aiolia falou de modo que soou autoritário.
— Quem você pensa que é?! — Kanon cruzou os braços, desafiador. — Pois eu tenho uma informação para você. Eu posso! E eu vou! E se você continuar a me encher a paciência, eu não espero outra briga sua para te expulsar definitivamente...
— Se me expulsar, não será uma punição apenas para mim, o time também vai sair perdendo...
— O time ficará melhor sem um galinho de briga petulante como você. Agora suma da minha frente antes que eu perca a paciência!
— E quem vai jogar no meu lugar? — Aiolia insistiu. — Quem vai ser o quarterback do time? Sabe que Abel joga bem nos treinos, mas não aguenta a pressão dos jogos. Ele não está preparado. O time vai perder sem mim.
— Você está se achando a última bolacha do pacote, não é? Pois saiba que venceremos com ou sem você.
— Tudo bem. Então vai lá, coloca outra pessoa em cima da hora para jogar no meu lugar na semifinal, depois diga se eu estava errado... Sem esquecer que o meu nome está na lista para a escolha do melhor jogador da temporada. Vai perder mais esse título para a Universidade?
— Mas é muito convencido mesmo! — Kanon balançou a cabeça, impressionado por ter encontrado alguém mais pretensioso do que ele próprio, e isso o fez ponderar por um momento. Porque o pior de tudo era saber que o petulante tinha razão!
Mas que merda!
Kanon iria correr o risco de perder o jogo por conta de brigas entre adolescentes? O garoto parecia ter bons motivos... E o time estava indo tão bem, com tantas chances de ganhar o título. E não se mexe em time que está ganhando, certo? Por outro lado, ele também não poderia deixar o garoto sem uma punição, mesmo sendo o melhor jogador que já vira em campo, ou então, ninguém mais iria obedecê-lo naquele time. Era uma decisão difícil a tomar.
Kanon respirou fundo, e coçou a cabeça.
— Durante essa semana — ele disse, autoritário. — Você vai ficar à disposição do time integralmente. Das aulas para o estádio, do estádio para as aulas. Vai treinar fora do horário e, durante os treinos normais, vai carregar a água para os outros jogadores e servir de ajudante para eles. Só vou te liberar na sexta-feira. Deixarei você descansar na sexta e no sábado, por conta do jogo no domingo.
— Tá de brincadeira, treinador?!
Kanon se virou para ele, com um olhar sério.
— Estou com cara de quem está de brincadeira?
Aiolia fez que não com a cabeça.
— E tem mais, se eu souber que você brigou mais uma vez, você será expulso definitivamente do time, não jogará nunca mais pela Golden College e eu não quero nem saber se você é bom ou não — Kanon sentenciou. — Agora vá lavar o vestiário, que está imundo. Quero ele limpíssimo todos os dias. Isso manterá você afastado de confusão até o final da temporada e baixará um pouco essa sua bola. — Diante do olhar de Aiolia, ele completou: — É isso ou a suspensão.
Kanon sabia que sua atitude era censurável. O correto a fazer seria seguir o regimento do time e suspender Aiolia por conta de sua briga. Mas que se dane! Era ele quem comandava aquele time! Queria a vitória e, portanto, faria as coisas do seu jeito e pronto. E mesmo que o seu jeito nem sempre fosse o mais “tradicional” — como ele preferia definir —, era o que sempre dava certo.
Aiolia achou aquilo um absurdo, mas resolveu acatar, afinal, era melhor do que ser expulso do time. Resmungando, começou a recolher os restos do seu celular que havia caído e se espedaçado na hora da briga.
— Só vou passar numa loja antes pra comprar um celular novo, porque o meu já era...
— É melhor não. Essas coisas distraem muito vocês. Depois do jogo você compra outro.
Aiolia fez uma cara feia, e seguiu para o vestiário praguejando. Era muito azar o dele ter sido pego logo por Kanon. E o pior é que nem batera no bastardo do Paul o tanto que gostaria. O treinador atrapalhara tudo.
* * *
Quem também praguejava por essa mesma briga era Paul, enquanto a enfermeira fazia um curativo em seus machucados. Como se não bastasse o maldito Mu e o maldito Evan terem acabado com sua vida, esse idiota do Aiolia, que nada tinha a ver com a história, viera se intrometer.
Assim que a enfermeira saiu, Paul pegou o seu celular e fez uma ligação para o seu primo Abel, para relembrá-lo de uma proposta que fizera a ele outro dia. Depois de Abel concordar, Paul ligou também para a Agência Norte-Americana Antidoping e fez uma denúncia anônima. Já que ele sabia que não seria fácil se livrar das acusações de estupro, e que corria um grande risco de acabar se ferrando por isso no final das contas, decidiu que não iria se ferrar sozinho.
* * *
Quando Mu deixou o quarto naquela manhã, Aiolia ainda dormia. Aquilo vinha se repetindo durante toda a semana, e os dois praticamente não se viam mais, já que Aiolia também passava o dia inteiro sumido e, quando voltava para o quarto, era Mu quem já estava dormindo.
Na primeira noite, Mu chegou a esperá-lo acordado, só que Aiolia estava praticamente cochilando enquanto Mu tentava puxar conversa. Como, além do sono, a fisionomia do colega não parecia nada amigável, Mu resolvera não insistir. No dia seguinte, tentara ligar para ele algumas vezes, para saber se estava tudo bem, entretanto, o celular permanecera sempre desligado. Fora então que Mu chegara à seguinte conclusão: Aiolia estava o evitando.
Pensar nisso fez com que Mu desistisse de esperar o colega, indo dormir até mais cedo e levantando mais cedo ainda, como que para não criar um clima estranho entre os dois. Ele também tinha seu orgulho, ora essa. Se o colega queria evitá-lo, daria esse tempo a ele. Mas aquilo era extremamente angustiante. E se pensar na rejeição já era ruim, viver aquilo era bem pior.
Foi só na quinta-feira à tarde que Mu ficou sabendo do tal castigo de Aiolia. Os meninos haviam comentado sobre isso na república quando justificaram a falta do colega na reunião com os candidatos. Depois do julgamento de Mu, os compromissos relacionados à faculdade eram sempre prioridades, ainda mais quando o assunto se referia ao time, já que a maioria ali era jogador de futebol.
Bem, lá estava então mais uma razão para Aiolia não querer vê-lo tão cedo, segundo as caraminholas de Mu.
Agora, além de achar que o colega havia se arrependido de tê-lo quase o beijado, depois de terem sido pegos em flagrante por seus amigos, e de ter ficado chateado porque Mu omitira sobre o assédio de Paul, havia mais um motivo para que Aiolia não quisesse mais olhar para a cara de Mu. O tal castigo. Afinal, o castigo fora por conta de sua briga com Paul. E Aiolia brigou com Paul por causa de Mu, o que significava que, indiretamente, Mu era o culpado do castigo de Aiolia.
Oh, Buda! Isso estava mesmo acontecendo?! Como tudo podia mudar assim tão de repente? Em um momento, ele estava prestes a viver um sonho, no outro, tudo vira um pesadelo.
Mu resolveu que precisava desabafar com alguém. Não aguentava mais guardar essa angústia somente só para si. Sendo assim, antes de ir para a aula, resolveu passar no quarto de Afrodite. Ainda que os conselhos de Dite fossem meio maluquinhos, na opinião de Mu, sempre o faziam se sentir melhor de certa forma.
Antes mesmo de bater na porta do quarto do amigo, ela foi aberta por Ikki, que parecia estar de saída.
—Oi, Ikki. O Dite ainda está aí?
— Oi, Mu. Está sim. Ele está terminando de se maquiar — respondeu, abrindo passagem para que Mu entrasse e retirando-se logo em seguida.
Mu franziu o cenho quando entrou no quarto e deu de cara com Afrodite em frente a um espelho, passando batom.
— Achei que o Ikki estivesse de brincadeira quando disse que você estava se maquiando...
— Meu Deus! Quantas vezes terei que dizer que é apenas um bálsamo para manter os meus lábios hidratados?
Mu olhou para blush usado em cima da mesinha.
— Sou muito branco e sempre fico com uma aparência pálida no outono, preciso colocar alguma cor nesse rosto — justificou Afrodite, meio impaciente. — Ou você quer que eu vá parecendo um fantasma para a aula de Espanhol?
— Eu não disse nada...
— Mas pensou, que eu sei... — Afrodite pegou o rímel, notando o olhar avaliador de Mu. — Todo mundo tem que usar isso aqui, está bem!? É para destacar os meus olhos.
Mu quase deu uma risadinha da cara emburrada de Afrodite.
— Você não precisa destacar nada. É naturalmente a pessoa mais bonita dessa faculdade...
— Ai, que fofo! Eu meio que sei disso, mas é sempre bom ouvir... — disse Afrodite, desemburrando e voltando para sua expressão alegre. — E por causa desse elogio lindo você pode me pedir o que você quiser hoje...
Mu revirou os olhos.
— Eu não quero nada...
— Quer sim. Você nunca vem no meu quarto antes da aula. Para falar a verdade, você quase nunca vem aqui.
Mu deu um suspiro, abatido.
— O que anda te perturbando? — Afrodite perguntou. Na verdade, ele já havia notado que o amigo andava meio sumido nos últimos três dias, enfurnado dentro do quarto, mas não deu muita atenção. Mu tinha mesmo esses ataques de solidão de vez em quando.
Mu começou a contar sobre tudo que o estava perturbando, enquanto Afrodite vestia uma fantasia — para o estranhamento de Mu. Contou da conversa que tivera com Aiolia, do quase beijo — fazendo Afrodite vibrar nesse momento —, da interrupção, da briga e do gelo que Aiolia parecia estar dando nele desde então. Despejou tudo sem rodeios, havia ido lá para desabafar, afinal.
— Estou me sentindo numa montanha russa, Dite. Por um momento eu estava lá em cima, agora estou lá em baixo.
— O que eu te falei, ah? Eu não te disse que ele estava caidinho por você?
— Acho que você não ouviu direito a parte sobre ele me evitar depois disso.
— Detalhe... — Afrodite abanou a mão. — Mas você realmente errou em não contar para os seus amigos sobre aquele animal, que não gosto nem de falar o nome, tomei um abuso dele... Um absurdo eu só ficar sabendo disso pelos meninos da fraternidade. Mas enfim... Voltando ao seu dilema, não acho que Aiolia ficará chateado por muito tempo. E, quer saber, talvez nem esteja mesmo chateado, talvez ele realmente esteja ocupado por conta desse tal castigo, e também esteja louco para conversar com você. Já pensou nisso? Por que você sempre pensa no pior? É claro que ele gosta de você, ele já deu tantas provas disso...
— Não é que eu só pense no pior, é que... É que eu não sei o que fazer se ele não quiser mais falar comigo... E se ele estiver arrependido? Talvez ele até goste de mim, mas não queria gostar e está com vergonha porque os meninos chegaram bem na hora...
— Deixa de ser besta, homem! Que arrependido o quê! Olha a bobagem que você está dizendo! Depois dizem que eu é que sou dramático. Drama não combina com essa sua carinha zen não, heim, Mu. — Afrodite fez um gesto meio impaciente.
— Ah, vai dizer que você nunca gostou de alguém que você não queria gostar por algum motivo?
— Eu não! — Afrodite negou, mas imediatamente a imagem de DeathMask apareceu no seu pensamento. — Olha, por mais imaturo que Aiolia seja, ele não iria tomar uma iniciativa dessas se não tivesse certeza do que queria. Não foi algo de momento, bêbado numa festa. Por Deus! Essa sua insegurança toda não faz o menor sentido.
— Eu não sei o que fazer, Dite — Mu queixou-se, parecendo inconsolado. — Antes, mesmo gostando dele, eu tinha consciência de que seria algo platônico, sem chance, sabe. Mas, agora, essa mistura de esperança com insegurança está me deixando louco. Agora que ele quase me beijou... — Mu passou o dedo nos lábios, recordando-se do momento. — Mesmo que a amizade voltasse a ser como antes, não sei se aguentaria ser só amigo dele, Dite. Estou apaixonado por Aiolia!
— Até que enfim você assumiu isso, heim...? E esse é o primeiro passo, agora tudo ficará mais fácil. Eu já percebi que você é meio inexperiente nessas questões do amor e deve ser por isso essa sua insegurança toda. Mas não se preocupe não, que o Dite aqui é expert no assunto, e eu vou te ajudar.
Mu suspirou. Tinha até medo das ideias de Afrodite.
— Você sabe me dizer se Aiolia vai à festa no Sanctuary hoje à noite? — Afrodite questionou, depois ele mesmo respondeu: — Ah, claro que vai. Aiolia não é do tipo que perde festa...
— Acho que ele vai sim, os garotos estavam dizendo na república que Aiolia seria o motorista da vez¹.
— Hum... Então temos que arrumar uma fantasia de arrasar para você usar nessa festa...
— O quê?! Não, Dite! Eu não vou. Não frequento esse tipo de festas.
— Como assim não vai?! — Afrodite colocou as mãos na cintura. — Vai sim, senhor, ora essa. Até o Shura vai estar nessa festa!
— Mas eu...
— Olha aqui, você quer ou não quer voltar para o topo dessa sua tal montanha russa? Ou você prefere passar mais uma noite choramingando no quarto... Aiolia! Oh, Aiolia! Vem me procurar, Aiolia! — Imitou um chorinho de Mu. — E, enquanto isso, Aiolia vai estar todo bonitão na festa, com um monte de garotas dando em cima dele. E de garotos também. Agora que o boy curte as duas coisas, sua concorrência ficou maior. Você vai dar esse mole?
Mu fez que não com a cabeça.
— Então, pronto! Quando sairmos da aula, vamos passar numa loja e comprar uma fantasia para você. Eu só não te passo a fantasia lacradora que comprei para mim porque, como eu disse, o Shura vai estar lá, e eu preciso arrasar também. Mas vamos encontrar outra fantasia também maravilhosa para você. Até já tenho uma em mente...
— Por falar em fantasia, eu já estava doido para te perguntar. Você vai mesmo para a aula vestido assim? — Mu deu uma analisada no colega.
— Hoje é Halloween, criatura! — Afrodite exasperou-se, achando um absurdo o questionamento de Mu.
— Mas é uma fantasia de mulher?
— E desde quando fantasia tem gênero?! Além do que, é uma fantasia muito discreta.
Mu não concordava com a parte da "fantasia discreta". Além disso, já não era o suficiente ir fantasiado à festa que teria mais tarde? Ele perguntou isso a Afrodite, que prontamente explicou ao amigo sobre a necessidade de aproveitar ao máximo o melhor das tradições, porque aquilo era muito divertido. Ficou indignado quando Mu confessou que não entendia essa cultura norte-americana que dava tanta importância ao tal dia das bruxas.
— Ah, Mu... Você vai morar aqui durante quatro anos, é melhor que se habitue com os costumes daqui, ao menos os que são bons... — Afrodite aconselhou, enquanto os dois saiam do quarto para irem à aula de Espanhol. — Agora, vamos, que estou ansioso para assistir a aula do meu professor namorado bonitão. Eu fiquei charmoso nessa fantasia de Alice? Ah, claro que fiquei...!
* * *
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