Golden College
9 Why things are so complicated?
Notas iniciais
— GOLDEN COLLEGE—
Why things are so complicated?

No quarto de Milo, Camus revirou os olhos ao vê-lo puxar algumas roupas sujas que estavam penduradas na poltrona ao lado da cama e jogá-las no chão. O ex-namorado continuava tão bagunceiro como quando se conheceram. Ou melhor, talvez até mais, já que, agora, como presidente da fraternidade, tinha um quarto somente para si e ninguém para reclamar da sua falta de organização.
— Então, ruivo, a que devo a honra de sua visita? — Milo indicou a poltrona para que Camus se sentasse, antes de tirar o seu casaco e se jogar despojadamente na cama, com os braços fortes flexionados e servindo como apoio para o corpo. Suas formas bem definidas se evidenciavam por baixo do jeans justo que estava usando.
Camus engoliu em seco com a visão, voltando a se questionar se ter ido falar com o ex-namorado havia sido mesmo uma boa ideia; em seguida, colocou o livro em cima da escrivaninha.
— Gostaria de conversar sobre o que aconteceu hoje mais cedo, não imaginei que você fosse ficar tão chateado.
— Achei que estava preparado para ser somente seu amigo, mas não estou. — Milo foi sincero.
— A verdade é que nós dois sabíamos que essa história de amizade não iria dar certo.
— Eu queria me reaproximar de você, porque eu tinha esperanças de que você ainda sentisse alguma coisa por mim, Camus... — Milo admitiu, ajeitando-se na cama e olhando para o rosto do ex-namorado. O rosto bonito que ele tanto apreciava.
— Milo, você sabe que... — Camus sentiu um aperto no peito.
— ...que pertencemos a mundos diferentes, eu sei. Cansei de ouvir isso da sua boca. Foi por esse motivo que comecei a frequentar as aulas de Física, eu pretendia te mostrar que poderia me adaptar ao seu mundo, mesmo que você sempre se recusasse a aceitar o meu...
— O quê?! — Camus quase se exasperou, contudo, conseguiu manter o controle, ainda que quisesse esganar Milo. — Como pode dizer isso?! Eu tentei aceitar o seu estilo de vida, Milo... eu tentei...
— Tentou mesmo?! — Milo questionou de modo sarcástico. — Quando foi que você tentou aceitar o meu jeito de ser, heim, senhor “a minha agenda organizada não tem espaço para futilidades” — disse a última frase, tentando imitar o sotaque francês de Camus, que o olhou de modo impassível, achando aquilo uma infantilidade.
— Até parece que, se estivéssemos em posições contrárias, você teria feito a metade do esforço que fiz para o namoro dar certo. Eu cheguei até a frequentar esse antro...
Milo gargalhou de modo teatral.
— Que esforço você fez?! Vir aqui de cara emburrada, com o nariz empinado, julgando todo mundo, como se os meus amigos fossem um monte de merda só porque eles não se enquadram no seu tipo “perfeito”. — Milo balançou a cabeça. Não conseguia entender o motivo de Camus ter tanta hostilidade em relação aos seus amigos. No início do namoro chegara a pensar em desistir da fraternidade para agradar ao namorado, mesmo que ele nunca o tivesse pedido por isso. Mas ainda bem que não desistira; se não fosse pelos seus “irmãos”, não teria conseguido superar os momentos difíceis que passara depois do fim do namoro. — Não, Camus, você não fez nenhum esforço.
— E o que você fez, Milo, para mostrar que eu estava errado?
Milo levantou-se abruptamente da cama e esbravejou:
— Eu fiz de tudo; eu te amei fodidamente; corri atrás de você feito um cachorro, ignorando o meu orgulho e até mesmo a minha dignidade...
— Bem, você só esqueceu de acrescentar algumas coisinhas nessa sua lista... — Camus disse sem alterar a voz e colocou a mão no queixo, apenas fingindo estar procurando por algo em suas memórias. — Deixe-me ver... — Ele não era o do tipo que jogava coisas na cara, normalmente era Milo quem fazia isso, porém, não conseguiu se segurar, tamanha era a sua indignação com a arrogância do ex-namorado. — Competições idiotas de bebidas, festas com mulheres nuas e, o melhor de todos, um ensaio fotográfico de sacanagem...
— Eu sei que estraguei tudo — Milo bradou, quase descontrolado, e bateu o punho com força na escrivaninha, fazendo alguns papeis caírem no chão. — Mas você nem me deu a chance de me explicar. Eu não me lembro direito do que aconteceu naquela noite, Camus, mas, de uma coisa tenho certeza: eu nunca trairia você, e você sabe disso. Aquilo foi uma armação...
— Já chega, Milo! Não me venha, outra vez, com essa historinha de armação. — Foi a primeira vez naquela noite que Camus alterou a voz. Por Deus! Milo tirava-o completamente de seu estado natural. A questão é que ele não estava a fim de relembrar aquilo, seu estômago embrulhava. Tinha que confessar que, às vezes, chegava a pensar que Milo realmente não tinha ficado com aquelas pessoas da foto, parecia drogado demais para isso. Mas, de qualquer forma, trair a confiança era algo muito mais abrangente do que transar com outras pessoas. — Não tente colocar nos outros a culpa de suas escolhas. É desse tipo de bagunça que você gosta, e é por isso que ainda está aqui, nessa fraternidade... mas quer saber, foi uma perda de tempo ter vindo falar com você, Milo, porque você nunca vai mudar...
Camus já quase atravessava a porta quando foi puxado por Milo e prensado na parede.
Mas que diabos?! Quantas vezes teria que explicar para aquele cabeça dura que aquilo fora uma armação de DeathMask quando descobrira que ele tinha um namorado e não uma namorada!
Só que Camus não acreditava naquela versão. Para ele, aquela fora mais uma festa da fraternidade, como todas as outras que Milo devia frequentar. Se aquelas garotas não tivessem postado algumas das fotos da “festinha” no facebook e compartilhado na timeline de Milo, além de mandar para o celular de Camus as imagens mais comprometedoras, nunca saberia o que acontecia de verdade naquele lugar.
E — MonDieu! — Aquilo havia lhe espedaçado o coração! Porque, por mais que Camus sempre achasse que o sistema grego nas universidades fosse um pandemônio sem fim, onde a putaria rolava solta, jamais imaginaria que Milo fosse fazer algo tão baixo. Teve sorte em conseguir trocar de quarto com um conhecido para não ter que olhar para a cara do ex-namorado.
Agora, dois anos depois, ainda não havia conseguido superar os sentimentos que tinha por Milo. E a maneira como o seu corpo estava reagindo àquela proximidade entre eles deixava isso bem claro.
— Me larga, Milo... — Camus tentou se afastar, fugir daquele contato.
— Dessa vez, você vai me escutar. — Milo manteve Camus pressionado contra a parede.
— Eu não quero escutar mais nada...
— Esse é o seu problema. Você nunca me escuta, nunca acredita em mim, não me aceita, acha que é o dono da verdade e se esconde atrás dessa barreira de gelo que você criou para afastar as pessoas...
Eles se encararam por alguns segundos, olhos nos olhos, e Camus engoliu em seco.
— Então por que você ainda insiste em se aproximar?
Perguntou com os lábios tão próximos, tão convidativos...
E os olhos de Milo se desviaram rapidamente para eles. Droga! Por que ele não conseguia manter o seu orgulho quando ficava assim, tão perto de Camus?
— Porque eu sou um idiota apaixonado! — Milo respondeu, antes de beijá-lo com força.
E, a partir desse momento, Camus não foi mais capaz de manter o autocontrole, correspondendo o beijo de forma quase que desesperada. Estava com fome e sentia urgência, e o seu humor mudou em um instante. Sentia tanta saudade daquele contato!
Não era um beijo calmo, tranquilo e doce. Era um beijo explosivo, rude, urgente, de uma forma intensa, que traduzia todo o desespero deles por ter e sentir um ao outro depois de tanto tempo longe, de tanto desejo reprimido. Ambos ofegaram baixo, mal aguentando aquele calor que fervilhava no peito.
Camus passou o braço em volta do pescoço de Milo, puxando-o para mais perto, e Milo o apertou num abraço quase sufocante, obrigando Camus a quebrar o beijo em buscar de ar, ofegando com dificuldade. Milo não o esperou recuperar o fôlego e atacou-lhe o pescoço, chupando e mordendo, deixando várias marcas roxas no lugar, enquanto mexia a perna, para que pudessem se encaixar. Camus fechou os olhos e gemeu o nome de Milo ao sentir o atrito de suas ereções. Depois, ele sentiu sua camisa sendo desabotoada e os beijos descerem do pescoço para o seu abdômen liso. O peito doía tanto quanto a sua excitação e podia jurar que sua pele estava pegando fogo.
Milo já havia praticamente arrancado a camisa de Camus, quando percebeu que alguém batia insistentemente em sua porta, e, só então, eles notaram que o barulho da música havia acabado. Milo ainda tentou ignorar, mas não foi possível, pois Camus o empurrou rapidamente, fazendo com que ele caísse de bunda no chão. Merda!
Levantou-se, exasperado e ainda ofegante, olhando para sua virilha. Estava excitado a níveis extremos. Praticamente rosnando, abriu parte da porta, deixando apenas sua cabeça para o lado de fora.
— Eu juro que te mato, Aldebaran, se não for algo realmente importante! — vociferou entre os dentes.
— Tá rolando uma grande confusão lá em baixo porque os Ômega Chi não quiseram deixar que outra pessoa jogasse no lugar de Mu, e os Sigma Tau não querem aceitar perder uma jogada.
— Que se danem, resolvam vocês... eu tô ocupado. — Tentou fechar a porta, só que Aldebaran o impediu.
— Mas teve porrada e tudo mais.
— Que se matem! Fale com Radamanthys, resolva você com ele lá... Pelo amor de Deus, você é o vice-presidente! — Milo, novamente, tentou bater a porta na cara de Aldebaran. Por Deus! Não era qualquer um que estava ali, era Camus! Entretanto, outra vez, foi impedido.
— Mas a polícia quer falar com o presidente da casa...
— Polícia?! — Milo abriu totalmente a porta.
— Alguns dos garotos bêbados que estavam pelados na piscina se aproveitaram da confusão e pularam para o quintal do vizinho. Acho que ele chamou a polícia.
Milo grunhiu, disse que já estava indo e voltou para perto de Camus, que ainda estava escorado na parede, com a respiração forte e coração descompassado.
— Eu resolvo isso em questão de minutos e já volto. — Colocou a mãos no rosto dele, uma de cada lado, e uniu suas testas. — Pelo amor de Deus me espera aqui... — Deu um selinho demorado, relutando em se afastar.
— Vai lá... estão esperando por você... — Camus sussurrou, a respiração ainda alterada.
Milo olhou para o teto e respirou fundo, tentado se recompor. Era melhor ir logo mesmo, ou não conseguiria mais sair dali.
Ele chegou a atravessar a porta, mas resolveu voltar e abraçar Camus novamente, enchendo o seu rosto de beijos. Ainda que estivesse com vontade de espancar alguém pela interrupção, estava feliz, extremamente feliz. Ele e Camus, finalmente, estava se acertando. Agora, tudo que precisava fazer era cuidar para que nunca mais se separassem. E ele estava disposto a tudo por isso.
— Eu já volto... — Deu mais um beijo no rosto do amado.
Quando ele finalmente saiu, Camus fechou os olhos e suspirou. Dieu! Como amava aquele grego maluco; contudo, uma coisa era certa: eles jamais conseguiriam se entender enquanto Milo estivesse nessa maldita fraternidade. Sendo assim, por mais que seu coração, seu corpo e sua alma lhe implorassem para que ficasse ali, esperando por Milo, seu lado prático e racional lhe alertava de que precisava sair. Então, antes que perdesse a coragem, desceu rapidamente as escadas, aproveitando-se de que Milo estava entretido ao lado de Radamanthys tentando convencer a polícia de que não havia nada de errado acontecendo ali, e fugiu, esperando não ser notado.
Mas foi notado por Lune, que sorria satisfeito, segurando seu celular contra o queixo. Não é que a polícia do campus era mesmo rápida?!
* * *
Aiolia nem quis saber como terminaria a confusão, aproveitou-se do tumulto e correu para o seu dormitório para descobrir o que havia acontecido com Mu. Ele pensou em várias coisas que o seu colega de quarto poderia estar fazendo para não ter ido ao desafio e não gostou nada de algumas que chegara a cogitar. Respirou fundo. Era melhor que Mu estivesse naquele quarto. E sozinho! Ou sabe lá Deus o que Aiolia seria capaz de fazer...
Assim que o viu, sentado em frente à mesinha do computador, com a cabeça apoiada sobre os braços, colocou a mão no peito, estranhamente aliviado. Às vezes, nem mesmo ele entendia por que tinha tanto ciúme de Mu. Não se lembrava de ter sido tão possessivo com nenhum outro amigo, nem mesmo com alguma das garotas com as quais já tinha saído. Talvez com seu irmão quando era criança, mas era um ciúme diferente.
— Por que você não foi...? — interrompeu-se ao perceber que Mu estava ressonando, adormecido sobre os livros. Suspirou e aproximou-se mais. — Mu, acorde... — Aiolia o chamou bem baixinho e não obteve resposta. Parecia tão cansado! Observou que o celular estava descarregado em cima da mesa, ao lado de alguns papéis sobrepostos de forma organizada. Era o trabalho de Mu.
Pegou umas folhas para admirar a letra bonita do colega e o seu capricho. Aproveitou e leu algumas questões, não entendendo nada do que estava escrito ali. Só Mu mesmo para pegar matérias tão complicadas no primeiro semestre. Cem questões?! Aquele professor definitivamente estava doido para ferrar com os alunos. Sabia que alguns professores de determinados cursos eram assim naquela faculdade, diziam que era uma forma de selecionar os melhores. Claro que Aiolia passava longe de matérias como aquela. Não que ele não fosse inteligente, é só que aquilo era para nerds como Mu, afinal.
— Mu, é melhor você ir para a cama ou vai acabar todo troncho... — falou um pouco mais alto do que da outra vez, mas obteve apenas um resmungo como resposta. — Que sono pesado, heim, meu pequeno gafanhoto! — Aiolia balançou a cabeça e, como não deixaria o seu colega passar a noite toda dormindo naquela posição, colocou o papel de volta sobre a mesa antes de pegá-lo no colo.
Era incrível como Mu se encaixava perfeitamente em seus braços, mesmo sendo um garoto. E era tão leve... tão bom de carregar.... Ou ele que era muito pesado por conta do futebol? Depois de uma breve reflexão sobre essas questões, acomodou-o com cuidado na cama.
— Aiolia... — Mu falou bem baixinho, quase inaudível, e rolou para o lado.
Será que ele está sonhando comigo?! — pensou, com um sorriso de orelha a orelha.
— Aiolia... — ele sussurrou novamente — Me chame quando for sete horas...
Só se for sete horas da manhã! Aiolia bufou. Não, não estava sonhando consigo e, sim, com o desafio.
Tirou o tênis do colega e, logo em seguida, sentou-se ao lado dele na cama, para observá-lo melhor.
Mu tinha o ar tão sereno, a pele lisinha, a boca rosada e, mesmo dormindo, tinha um ligeiro sorriso doce. Parecia um anjo. Bem, na verdade, aquele cabelão liso e comprido dele, somado ao rosto delicado e jeito meigo, também o fazia parecer uma menina, às vezes.
Mas não é! — ponderou. Não que ele se importasse com isso, não teria problema se gostasse de garotos. Seu primo Milo era gay e nem por isso era menos homem do que ele. Era só que ele não gostava de garotos, o que ele sentia era uma estranha curiosidade de saber como seria com Mu. Porque era evidente que ele já notara que se sentia atraído pelo colega. Sua virilha fazia questão de deixar isso bem claro em algumas situações. Tudo bem, em muitas situações. Perdera as contas de quantas vezes tivera que se concentrar para disfarçar a ereção que sempre aparecia por causa do colega de quarto.
Ainda se lembrava da primeira vez que o vira, feito um bichinho assustado, quando o agarrara por engano. Desde aquele dia, Aiolia ficava se perguntando o que diabos havia acontecido com ele para ter ficado ainda mais excitado, ao invés de ter brochado — o normal a acontecer depois de perceber que agarrara um garoto por engano, ao invés da garota que esperava. Fora a partir desse momento que a sua curiosidade começara.
Passou a mão pelos cabelos, bagunçando-os, tentando afastar aqueles pensamentos.
Era tão complicado!
E ele nunca iria estragar a amizade que tinha com Mu por causa de uma mera curiosidade. Sim, apenas uma curiosidade. Por isso ele precisava parar de ficar pensando o dia inteiro naquilo.
Mas não resistiu e afagou rosto de Mu com as costas do indicador. Depois, pegou uma mecha do cabelo dele e levou-a ao nariz, sentindo o cheiro suave do shampoo de lavanda. Cara, o que você está fazendo além de ser ridículo?!
Mu remexeu-se na cama, abraçando o travesseiro, e Aiolia levantou-se, sobressaltado, com medo de acordá-lo e não saber como se explicar. Mas, antes de se afastar, cobriu Mu com as cobertas — fazendo um grande esforço para não dar um selinho em seus lábios —, e murmurou:
— Duma bem, meu pequeno gafanhoto...
Depois que se afastou, tirou suas roupas e as jogou no chão. De repente, lembrou-se da bronca que Mu daria, pegou-as e jogou no cesto de roupas sujas ao lado da cama. Vestiu uma calça de pijama e uma camiseta. Ele odiava dormir vestido, mas desde que fora raptado pelos colegas de fraternidade passara a ficar alerta. Afinal, como calouro, sabia que coisas do tipo poderiam voltar a acontecer. Deitou-se em sua cama e ligou a TV no canal de esportes. Estava sem sono, mas sua visão estava mais direcionada para a pessoa que dormia ao lado do que exatamente para a tela à sua frente.
Inspirou fundo.
Por que tinha que ser tão complicado?
* * *
Já era quase duas horas da manhã quando Paul voltou para a república dos Ômega Chi. Ele havia ido ao um clube de strip depois do jogo na casa dos Sigma Tau, para dar uma aliviada na raiva e em outras coisas também.
Foi até a cozinha tomar um copo d’água e, mal entrou, ouviu um ruído vindo da dispensa. Temendo que fosse um ladrão, caminhou cuidadosamente até o armário e pegou uma faca, tomando todo cuidado para não fazer barulho e denunciar sua presença. Ficou ali no escuro, com a faca na mão, de olho no lugar de onde viera o ruído.
Quando viu Valentine saindo da dispensa, ficou chocado. O que ele estaria fazendo ali uma hora daquelas?! O único calouro que já estava morando na república era Lune. Foi então que a ficha caiu: Valentine estava ficando com alguém. Mas quem? Será que era Lune?! Simplesmente não conseguia imaginá-los como amantes. Além do mais, Lune tinha um quarto só para ele, poderia ter levado Valentine para lá como bem quisesse.
Revirou os olhos, era um absurdo um calouro ter um quarto só para si, enquanto ele, que era veterano, tinha que dividir quarto com o enjoado do Julian.
Valentine saiu de modo cauteloso, arrumando os cabelos e olhando para os lados, querendo se certificar de que não havia ninguém ali, mas não percebeu que Paul estava escondido perto do armário.
Paul permaneceu no seu esconderijo, esperando para ver quem era o colega que sairia na sequência. Estava curioso, será que havia mais algum gay enrustido naquela casa? Sempre pensara que era o único, antes da chegada do trio maravilha, como havia apelidado secretamente Lune, Valentine e Afrodite.
Enquanto esperava, alguns candidatos passaram pela sua cabeça. Quem poderia ser um enrustido ali que teria fetiche em transar na dispensa da cozinha? Pensou que talvez devesse experimentar isso algum dia! Teve que esperar por mais dez minutos e já quase havia desistido quando alguém saiu da dispensa.
Seus olhos se arregalaram quando viu quem estava lá. Por essa pessoa ele não esperava.
* * *
O resto da semana passou como um borrão para Afrodite. Ele estava tão animado para o seu encontro com Shura que atravessara os dias flutuando em um estado quase de devaneio. A sexta-feira desaparecera em um torvelinho de atividades de embelezamento, higienização, hidratação, escolha do look perfeito... até que, finalmente, chegara o momento.
Eles combinaram de se encontrarem no restaurante para não correr o risco de o carro de Shura ser reconhecido no campus. Afrodite também preferiu ir de táxi ao invés de usar o próprio carro. Primeiramente, porque ele esperava que a noite não fosse terminar no restaurante e seria péssimo se eles tivessem que se locomoverem em automóveis diferentes; segundo, por uma questão de discrição mesmo.
Quando o táxi parou em frente ao lugar onde haviam combinado, Afrodite estava praticamente sem ar com a expectativa. Primeiro encontro era sempre um misto de excitação e nervosismo.
A fachada do restaurante era charmosa e incorporava traços da arquitetura oriental. Uma ikebana e alguns vasos com Ráfis davam um toque especial à entrada. As paredes eram revestidas com madeira e pedras naturais e o nome do estabelecimento destacava-se num letreiro luminoso.
Dentro do restaurante, a decoração era tão temática quanto a fachada. Toda a combinação de cores, móveis e, principalmente, acessórios, possuía todos os elementos para destacar a cultura japonesa.
Afrodite foi recebido pela hostess, que o conduziu até um ambiente mais restrito. Era uma sala pequena, possuía somente uma mesa baixa, almofadas e tatames, bem ao estilo residencial, diferente da outra área que possuía mesas comuns com cadeiras escurecidas. Os lustres de papel em formatos e tamanhos diferentes deixavam a iluminação mais difusa.
Shura já se encontrava lá, displicentemente bebendo uma taça de champanhe. Usava uma camisa de linho branco, calça jeans escura, gravata e paletó preto. Ele percebeu a presença de Afrodite e levantou-se para cumprimentá-lo, com um sorriso charmoso no rosto.
Shura pensou em elogiar Afrodite, dizer o quanto ele estava lindo, essas coisas, mas sentia-se um pouco receoso. Acostumado a sair apenas com mulheres, não sabia ao certo como agir no seu primeiro encontro com outro homem. Tinha medo de parecer frio demais, ou de, na tentativa de ser cavalheiro, acabar tratando Afrodite como uma mulher.
— Reservei esse ambiente para que possamos ficar mais à vontade.
— Gostei desse lugar — Afrodite comentou, ainda que ele tivesse achado o lugar muito longe. — É aconchegante!
— Que bom! — Shura deu um sorriso discreto. — Esse restaurante é de um amigo meu. Ele se mudou do Japão para os Estados Unidos recentemente. Gosto de vir aqui porque é um lugar bastante reservado e discreto.
Afrodite entendia que, como professor, Shura não poderia se envolver com um aluno e, por isso, toda essa preocupação.
— O que vai querer beber?
— Vou beber o mesmo que você.
Uma jovem garçonete, japonesa, aproximou-se deles, servindo o champanhe para Afrodite. Eles fizeram os pedidos e ela se retirou imediatamente.
Durante o jantar, engataram uma conversa sobre os mais variados assuntos, tais como: comida, restaurantes, faculdade, fraternidades, trabalho, hobbes... Afrodite descobrira que Shura tinha trinta anos, portanto, um pouco mais velho do que pensara, e que ele também era um colecionador de espadas.
— Foi uma paixão que começou logo na infância, quando ganhei do meu pai uma Excalibur de brinquedo — Shura explicou. — Mas meu acervo ainda é pequeno... estou só começando.
— Deve ter peças muito interessantes. Eu gostaria de algum dia conhecer a sua coleção.
Os olhos de Shura brilharam. Ele deu um sorriso sedutor e esticou o braço sobre a mesa para pegar na mão de Afrodite, que sentiu seu corpo esquentar apenas com aquele toque.
— Por que não hoje?!
— Com certeza, uma ótima oportunidade... — respondeu, com um frio na barriga em expectativa. Não exatamente para conhecer as espadas.
Quando o garçom apareceu para levar os pratos da sobremesa, Shura pediu a conta, que foi paga por ele. Afrodite não achou justo e protestou, mas Shura lhe garantiu que ele pagaria na próxima. Afrodite se contentou só em pensar que haveria uma próxima.
* * *
Quando chegaram no apartamento, enquanto Shura colocava a chave em cima da mesa, folgava a gravata e tirava o casaco, Afrodite reparava o ambiente. O apartamento era moderno, organizado e grande. Grande demais para somente uma pessoa.
— Você mora aqui sozinho? — quis saber, ao mesmo tempo em que caminhava até um porta-retratos digital que passava várias fotos de Shura pulando de asa delta, esquiando, na torre Eiffel e em muitas outras viagens.
— Eu morava sozinho aqui até pouco tempo. Mas um amigo terminou a faculdade recentemente e estava querendo dividir as despesas com alguém, então eu o convidei para ficar aqui até que ele se estabelecesse. Gosto de ter companhia, nem que seja somente de passagem. É chato morar sozinho, sabe.
— Sei como é. Apesar de ser um cubículo os quartos do dormitório, estou gostando de dividir o espaço com alguém. Eu me sentia muito só na minha casa em Los Angeles. A casa é muito grande, os meus pais ficam muito tempo fora quando estão gravando algum filme, e meu único irmão mora em outra cidade.
— Pobre menino rico... — Shura falou em tom de brincadeira.
— Oh, por favor — Afrodite fez um gesto de descaso com a mão. — Sem deboches com esse clichê. Eu compensava isso com algumas festinhas, se é que você me entende.
Shura riu outra vez. Em seguida, sua expressão passou de divertida a sedutora e ele pegou na mão de Afrodite.
— Venha, quero te mostrar minha coleção.
Afrodite o acompanhou até outro cômodo. Assim que entrou, seus olhos se iluminaram. A parede era toda decorada com vários tipos de espadas, e ainda havia uma prateleira com muitas delas. Cada uma era mais bonita do que a outra e deviam ser muito caras para um simples professor universitário, pensou. Mas depois refletiu que os professores de uma faculdade tão cara e tão conceituada como a Golden College deviam ganhar bem. Ele só não sabia que Shura também trabalhava como tradutor de livros e escrevia editorias numa coluna de esportes destinada a jogadores de futebol americano.
— Nossa! Isso é mesmo incrível! — exclamou Afrodite, enquanto admirava a Excalibur pendurada no centro da parede. Era a réplica perfeita da espada da lenda. Depois seus olhos correram pelo restante. — Onde você as compra?
— Elas vêm de várias partes do mundo, algumas eu comprei em leilões aqui mesmo nos Estados Unidos, e tem umas três que foram presentes. Essa aqui... — Shura pegou uma delas na mão e entregou a Afrodite — comprei na França. Ela é do século XVI.
— Nossa! É muito antiga...
— Essa espada provavelmente foi feita para ser doada a algum príncipe ou alguém importante da corte; veja como ela é cheia de detalhes, e tudo feito à mão — Shura acrescentou, de modo empolgado.
— Deve ter demorado muito tempo para fazê-la. — Afrodite alisou o metal, sentindo a textura de sua arte, depois colocou de volta no lugar.
Shura, orgulhoso, continuava a explicar de onde vinha cada uma das suas espadas.
Afrodite já estava começando a ficar um pouco impaciente, achara que essa história de “quero te mostrar minhas espadas” era apenas uma desculpa para levá-lo ao seu apartamento. Entretanto, pelo jeito, tinha se enganado. Já que, até aquele momento, Shura estava mais entretido em dar uma explanação sobre cada uma daquelas espadas do que qualquer outra coisa. Eram lindas e realmente incríveis! Tinha que admitir. E ele entendia perfeitamente toda aquele zelo, era mais ou menos isso o que sentia pelo seu jardim de rosas, que cultivava na sua casa em Los Angeles, mas... Por Deus! Seus hormônios estavam enlouquecidos perto daquele homem maravilhoso! A imagem dele sem camisa no banheiro masculino da faculdade ainda povoava sua mente e mandava sinais para outra parte de seu corpo. Ele não acreditava que aguentaria mais um minuto ali, sem ao menos um amasso. E não aguentou mesmo.
Aproximou-se de Shura, o abraçando por trás de forma cautelosa, e sussurrou:
— Então você não me trouxe aqui com outras pretensões?
Os olhos de Shura se arregalaram, e sua respiração parou por alguns segundos.
Ele tinha certeza de que seria ele quem tomaria a inciativa; ao menos, era assim que se acostumara a fazer com as mulheres. Mas não estava saindo com uma mulher, ponderou. Ainda que aquele rosto, às vezes, o confundisse um pouco.
Afrodite notou que Shura estava imóvel, sem reação, e sentiu-se totalmente desconcertado. Será que ele ficou ofendido? Droga! A sua ansiedade sempre o fazendo atropelar as coisas e fazer tudo errado. Já estava ficando grande o seu histórico de mancadas na frente do seu professor de Espanhol. Precisava contornar a situação.
— Não que eu não quisesse ver a sua coleção. Por Deus! Eu queria muito, de verdade. Suas espadas são lindas, e eu estou realmente impressionado. É só que eu achei que a gente fosse, sei lá... — Interrompeu-se, afastando-se, e respirou fundo. Percebera que estava se atrapalhando cada vez mais. Shura virou-se de frente para ele. — Tem como voltar e esquecer minhas últimas falas?
Shura sorriu com gosto, mas não de forma debochada, e o puxou novamente para perto, segurando-o pela cintura.
— Eu realmente gosto de exibir a minha coleção, mas é claro que eu tinha um outro motivo para trazê-lo aqui. — Acariciou a cintura de Afrodite, enquanto admirava aquele rosto perfeito ficando corado.
— Por que eu sempre tenho que fazer papel de bobo na sua frente? — queixou-se de forma manhosa, e mordendo o lábio inferior.
Shura ergueu a mão e tirou uma mecha de cabelo dos olhos de Afrodite. Ele entendia que o outro era ainda um adolescente de dezoito ou dezenove anos, no máximo, e nem sempre conseguia segurar sua ansiedade. Mas estava disposto a ensiná-lo direitinho.
— Porque é exatamente esse seu jeito que me deixa completamente maluco por você. Eu sei que você vai achar isso meio bobo, e já deve ter ouvido centenas de vezes, mas, você é a criatura mais linda que eu já vi na vida... Ainda mais quando fica assim, todo atrapalhado, tentando se justificar.
Afrodite sentiu seus batimentos cardíacos dispararem no peito, quando Shura o olhou de um jeito intenso e sedutor, enquanto contornava os seus lábios com o polegar. E, antes que ele tivesse a chance de imaginar se seria ou não finalmente beijado, Shura o beijou.
Começou com um beijo lento, que foi aumentando o ritmo aos poucos, intensificando-se na mesma proporção em que seus corpos correspondiam àquele contato.
— Eu te desejei desde a primeira vez que eu te vi, andando pelo corredor da faculdade... — Shura murmurou com a voz rouca, rente aos lábios de Afrodite.
— Eu também... — Afrodite enroscou os dedos no cabelo de Shura, atrás da cabeça, puxando-os delicadamente.
O beijo foi ficando mais ardente, mais intenso, mais urgente...
As mãos de Shura deslizaram sobre as costas de Afrodite, chegando até a bunda e o puxando para mais perto. Afrodite deixou escapar um gemido e, então, suas mãos também começaram a se mover.
Depois disso, eles foram parar num sofá cama que havia no cômodo, atacando-se mutuamente.
* * *
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