Golden College

3 We could be friends


Notas iniciais
Olá, meus queridos leitores. Tudo bem com vocês? Desculpem o atraso (justificativa nas notas finais. hahaha...) Gostaria de agradecer a Sarah Hardt por revisar o capítulo, mesmo não sendo dos fandom dos CdZ. A imagem do capítulo não é minha; créditos ao artista. Aos leitores queridos que deixaram um comentário nos capítulos anteriores. Muito obrigada pelo carinho. Obrigada também a galera que add aos favoritos. Boa leitura. Até as notas finais.

— GOLDEN COLLEGE -

We could be friends

Aiolia levantou a camiseta para ver o ferimento em seu tórax. Por sorte, não era fundo. O canivete havia passado de raspão, fazendo apenas um corte superficial. Ele tinha ótimos reflexos e conseguira se desviar a tempo, assim que ouvira o grito de Mu, pulando para trás e fugindo da lâmina que se cravaria em seu abdômen se ele não tivesse sido rápido o suficiente.

Depois disso, com uma agilidade que Mu julgara incrível, Aiolia conseguira imobilizar Paul, segurando fortemente seu pulso e tirando a arma de sua mão. Ele dera mais alguns socos no rosto de Paul, porém deixara que o idiota fugisse, cambaleando pelos cantos. Não queria perder o controle e acabar matando o cara.

Paul não tentara revidar depois que fora desarmado: sabia que seu físico era muito menor do que o de Aiolia e que numa briga entre os dois ele sairia perdendo. Além disso, estava bêbado. Mais tarde daria o troco com a ajuda dos seus irmãos de fraternidade.

— A culpa foi minha. — Mu olhava para o corte de Aiolia, seus olhos brilhavam em consternação.

— Ei... A culpa não foi sua...

— Obrigado, Aiolia, por ter me ajudado — Mu agradeceu, um pouco acanhado. — Não consigo nem imaginar o que aconteceria caso você não tivesse aparecido naquele momento. E agora você está ferido...

— Eu deveria era ter batido mais naquele babaca. — Aiolia fez uma careta e apertou os punhos fortemente, tensionando os músculos de todo o corpo, o que fez com que o seu corte doesse. Só de pensar no que Paul poderia ter feito com seu tímido colega de quarto, sentia vontade de bater ainda mais nele.

— Temos que ir até a enfermaria cuidar desse ferimento e, depois, denunciar o garoto à diretoria...

— Não! — Aiolia esbravejou, alarmando-se. — Não posso ir para a enfermaria, e você não pode falar sobre isso com ninguém.

Mu piscou umas duas vezes consecutivas, sem entender o motivo daquela atitude de Aiolia. Era claro que ele teria que denunciar Paul, aquilo não poderia passar impune.

Percebendo o olhar inquisitivo do colega, Aiolia tentou explicar os seus motivos.

— Se denunciarmos Paul, ou se eu for para a enfermaria, pode ter certeza de que isso chegará aos ouvidos do treinador. E quando ele ficar sabendo que me meti em uma briga e, pior ainda, que saí ferido, não vai me deixar jogar amanhã.

— Mas você precisa cuidar desse ferimento e, de qualquer forma, não poderá jogar desse jeito...

— Eu tenho que jogar amanhã! — Aiolia rosnou, fazendo Mu arregalar os olhos, receoso. Ao perceber o choque do outro pelo seu jeito nada educado, Aiolia respirou fundo, tentando se acalmar. — Me desculpe, eu não queria assustar você. É que esse jogo significa muito para mim. É o meu primeiro jogo num time realmente importante, e eu estou ansioso esperando por isso. Além do mais, como vou jogar na National Football League¹ se deixar um maldito arranhãozinho desses me atrapalhar?

Aiolia sabia que jogar na equipe da universidade abriria muitas portas. Mas havia muitos outros jogadores bons ali, e ele precisava se destacar, dedicando-se integralmente ao time, se quisesse ter uma carreira de sucesso. Mesmo que para isso precisasse jogar estando machucado.

Mu suspirou. Ainda achava errado não denunciar Paul, e mais errado ainda Aiolia não ir para enfermaria, mas compreendia os motivos colega, embora não concordasse.

— Um dia, eu vou ser o melhor jogador de futebol do mundo — disse Aiolia —, e você me verá na TV e dirá para as pessoas: “Está vendo aquele jogador realmente bom ali? Ele era o meu colega de quarto na faculdade”.

Mu mordeu o lábio inferior tentando reprimir um sorriso. Talvez Aiolia não fosse tão intimidador como ele o achava. Era apenas um garoto cheio de sonhos, assim como ele próprio. Até admirou, de certo modo, sua determinação.

— Está bem. Tenho um kit de primeiros socorros lá no quarto e eu mesmo farei o curativo em você. Não será a mesma coisa, mas é bem melhor do que deixar assim.

Aiolia agradeceu e Mu abriu um sorriso leve. Era o mínimo que poderia fazer. Afinal, Aiolia se machucara porque o havia ajudado. Depois corou e desviou o olhar para o chão, quando notou que Aiolia sorria de volta.

Aiolia mantinha os olhos pregados em Mu. Era a primeira vez que conseguia ver o colega sorrindo. E mesmo que fosse apenas um sorriso tímido, era encantador. Droga! Eu devo estar ficando maluco!

Antes de seguir para o quarto, Aiolia ainda convenceu Mu a passar no “Brownie” para comprar hambúrguer, batata frita e refrigerante, reclamando que estava morrendo de fome. Por sorte, o lugar estava vazio; muita gente estava na “Sanctuary”, e as poucas pessoas presentes encontravam-se entretidas demais para reparar no pequeno corte e na mancha de sangue do casaco preto de Aiolia.

Já no quarto, Mu pegou a sua caixa de primeiros socorros, enquanto Aiolia tirava o casaco e a camisa suja, jogando-os no chão, ao lado da cama.

— Uau! Você tem uma verdadeira farmácia aqui e eu nem sabia — Aiolia comentou.

— O meu irmão nasceu com alguns problemas de saúde e me acostumei a estar sempre preparado para eventualidades — Mu explicou, virando-se para o colega. Ficou meio sem jeito com a visão à sua frente e baixou os olhos, sentido suas orelhas ficarem quentes e o seu coração acelerar pelo nervosismo. Embora já tivesse visto Aiolia sem camisa algumas vezes antes, era a primeira vez que ele permanecia assim tão perto (o incidente em sua chegada era um caso à parte e Mu preferia excluí-lo de sua memória). Em todo caso, essa visão sempre o deixava meio desorientado. Aiolia tinha o corpo tão bonito!

Ele puxou o ar e depois apertou os lábios, sentando-se na cama ao lado de Aiolia, para examinar com cuidado o ferimento e a sua real gravidade. Desviou o olhar por um momento — imaginando se ficaria assim tão encabulado toda vez que tivesse que fazer curativos em seus pacientes. Não pode deixar de revirar os olhos quando notou a camiseta e o casaco jogados no chão. Achou que precisava, com urgência, presentear o colega com um cesto para roupas sujas.

— Realmente não foi um corte profundo. Se você cuidar direitinho, logo estará cicatrizado. De qualquer forma, depois do jogo, você terá que passar na enfermaria para tomar uma vacina antitetânica.

— Tem certeza de que não tem uma vacina dessa, aí, nessa sua caixinha? — Mu olhou para ele com reprovação, ao mesmo tempo que pegava o soro fisiológico e uma gaze. — Tudo bem! Eu estava só brincando.

— Vai arder um pouquinho — avisou.

— Eu aguento... — Aiolia disse com ar confiante, mas não conseguiu reprimir um gemido quando Mu pressionou a gaze embebida com soro fisiológico em seu corte, e gemeu ainda mais depois de Mu aplicar o antisséptico.

Enquanto Mu fazia o ritual de higienização com toda a calma e concentração do mundo, Aiolia reparou no quanto o colega era cuidadoso e delicado. Depois passou a analisar o rosto dele e observou que a sua pele era bem lisinha e sem o mínimo sinal de barba; notou também que ele mordia o lábio inferior e estava com as bochechas avermelhadas. Na verdade, já havia percebido que o colega corava por qualquer coisa.

— O que foi? — Mu quis saber, quando percebeu que Aiolia estava “viajando” em seu rosto.

— O quê?

— Por que você está me olhando assim? — Envergonhado, Mu ajeitou rapidamente sua franja. Será que Aiolia estava achando as suas pintas esquisitas?

— Oh... não é nada. É que você faz isso com muita habilidade... — Aiolia apontou o dedo para o curativo, tentando disfarçar, e, em seguida, endireitou-se desajeitadamente na cama. — Você está fazendo um curso “pré-med²”, não é? Eu vi o seu horário em cima da mesa. — Mu apenas assentiu, enquanto terminava de cobrir o ferimento com uma gaze e um esparadrapo. — O meu irmão também estudou Medicina aqui nessa universidade. Ano passado ele concluiu o seu doutorado, e minha mãe fez uma festa em comemoração que durou vários dias. A nossa família inteira veio da Grécia para essa festa. Meu pai assou mais de três carneiros.

Mu deu uma risadinha.

— Parece que sua família é bem grande.

— Enorme mesmo — Aiolia confirmou. — Só os meus avós maternos tiveram oito filhos. E mesmo morando aqui nos Estados Unidos já há um bom tempo, ainda conservamos todas as nossas tradições e sempre reunimos toda a família em ocasiões especiais.

— Deve ser bem legal ter uma família assim tão grande. Na minha casa, vivemos somente eu, meu pai e meu irmão. Tenho apenas um tio bem mais velho, um primo e uma prima, que vemos vez ou outra.

— E a sua mãe?

— A minha mãe morreu quando eu tinha doze anos de idade.

— Ah... eu sinto muito!

— Tudo bem! — Mu assentiu com um olhar tristonho.

Aiolia ficou com o coração apertado ao perceber a melancolia do seu colega e resolveu voltar ao assunto do curso de Mu, na tentativa de animá-lo.

— Por que você decidiu fazer Medicina? É um curso muito difícil, o meu irmão estudava bastante.

— Quero salvar vidas, Aiolia. Quero ajudar as pessoas e tentar amenizar o sofrimento delas — Mu disse com firmeza.

— Tenho certeza de será um ótimo médico!

Mu agradeceu e sorriu.

— Temos que trocar esse curativo amanhã, antes de você jogar. E depois do jogo, você não vai fugir de passar na enfermaria para tomar...

— Uma vacina antitetânica. Você já explicou direitinho, doutor Mu. — Aiolia não pode deixar de sorrir para o colega. Ele achava que Mu ficava tão bonitinho falando assim, com tanta convicção e autoridade; nem parecia o mesmo garoto tímido que saía correndo todas às vezes em que ele estava por perto.

— Ótimo! — Mu consentiu, guardando algumas coisas na caixinha e separando outras em uma sacola, que jogou no lixeiro em seguida.

— Então... — Aiolia sibilou, batendo uma mão na outra algumas vezes. Não queria encerrar a conversa, estava feliz que o seu colega de quarto finalmente tinha saído de seu trono e dialogado com ele. Embora não estivesse nada satisfeito em ter sido quase esfaqueado para que isso acontecesse; e jogar no dia seguinte machucado, definitivamente, também não estava em seus planos. — Mais alguma recomendação, doutor?

Mu apontou para a sacola com hambúrgueres e batatas-fritas em cima da mesinha, divertindo-se com a cara engraçada que Aiolia fez.

Durante as horas seguintes eles comeram e falaram um pouco mais sobre a faculdade, família e outros assuntos banais que surgiram. Até o final da conversa, Mu parecia ter saído completamente do escudo que havia em torno dele, e Aiolia se considerou afortunado por ter como colega de quarto, alguém que sabia escutar com atenção e paciência, sem fazer piadas e brincadeiras de mau gosto, como os seus companheiros do time de futebol gostavam de fazer. Sem contar que Mu era lindo e delicado, qualidades que atraíam Aiolia. Claro que isso era apenas um bônus.

Um bônus agradável, mas um bônus, já que Mu não era uma garota. Era apenas o seu mais novo amigo.

* * *

Amigos era o que DeathMask e Radamanthys não eram, ainda que se designassem irmãos de fraternidade. Eram cúmplices e tinham interesses e desafetos em comum. Agora, eles estavam do lado de fora do pub conversando sobre a semana de recrutamento dos calouros, que acontecia logo depois do início das aulas.

— Acabou de entrar para a Golden College o filho de um dos homens mais ricos e influentes do planeta.

— O cara com o carro do homem de ferro? — DeathMask já tinha visto o rapaz andando pelos corredores da faculdade, sendo seguido por um monte de abutres puxa-sacos.

— Esse mesmo — Radamanthys confirmou. — O nome dele é Lune. Como você já deve ter ouvido falar, o pai de Lune é um juiz renomado e o seu nome tem sido um dos mais cogitados entre os Republicanos³ para concorrer às eleições presidenciais dos Estados Unidos. Quero que Lune entre para a nossa fraternidade. Isso significará bons contatos no futuro.

— Sem problemas. Pode deixar esse cara comigo. — DeathMask deu uma risadinha como que dizendo isso será uma tarefa fácil. — Nossa fraternidade é a melhor do campus, é claro que ele vai desejar fazer parte dela.

— Mas devemos ter cuidado com um certo presidente dos Sigma Tau.

— Milo?!— DeathMask exclamou arqueando a sobrancelha. — Você acha que esse tal Lune vai querer se juntar a alguns bolsistas dos Sigma Tau? Eu acho que não, Radamanthys.

— Nunca subestime o seu rival, por mais fraco que lhe pareça — Radamanthys disse, enquanto apagava a bituca do seu cigarro e a jogava fora. Gostava de fumar um ou dois cigarros esporadicamente.

— Seja mais claro.

— Você sabe que nada escapa aos meus olhos atentos. — Deu um meio sorriso presunçoso. — Eu andei observando esse Lune durante toda a semana e, por três vezes, eu o peguei olhando com “interesse” para Milo. Ele só faltava babar.

DeathMask arregalou os olhos e fez uma cara de asco.

— Então o cara é um veado?! Que os Sigmas Tau façam bom proveito... Não precisamos desse tipo de gente!

— Que parte de “filho de um dos homens mais influentes do planeta” você não entendeu, seu idiota? — Radamanthys rosnou de forma impaciente. — O que ele faz na cama e com quem faz não é da nossa conta, desde que traga prestígio para os Ômega Chi, entendeu?! Como você sabe, vou me formar logo e se quiser ser o novo presidente da nossa fraternidade, terá que ser mais tolerante a certas “situações”, ao menos até o dia da eleição. Não conseguirá se eleger se continuar sendo assim tão radical. — Radamanthys apontou a cabeça em direção à porta do pub, de onde Julian estava saindo. — Ou você vai deixar que ele seja o meu sucessor?

— O que você quer dizer com isso? Achei que estivesse certo de que você me apoiaria e convenceria todos a votar em mim.

— Eu apoiarei o melhor. E o melhor é aquele que faz tudo para o bem da fraternidade — Radamanthys foi enfático. — Além disso, você realmente acha que não tem veados enrustidos entre os Ômega Chi? Se acha, você é mais cego do que pensei. Eu não coloco a minha mão no fogo por boa parte dos nossos companheiros...

— Veados filhos da puta! — DeathMask proferiu, acendendo o seu segundo cigarro naquela noite. Ele observava com ódio alguns membros da Sigma Tau saindo do “Sanctuary” abraçados com outros garotos, jogando conversa fora e dando risadas sonoras.

DeathMask detestava homossexuais. Achava que deveriam ser banidos da face da terra. Filho de um político conservador na Itália, ele crescera ouvindo o seu pai dizer que os homossexuais eram anormais, amaldiçoados por Deus. Não que DeathMask fosse um rapaz religioso e conservador, ao contrário, vivia se metendo em confusões e seu caráter era duvidoso, ainda que se fizesse de bom moço para o pai.

No entanto, ele tinha um objetivo: tornar-se presidente dos Ômega Chi. E para isso era capaz de tudo, até mesmo passar por cima do seu orgulho, momentaneamente. Afinal, todos na república faziam o que Radamanthys queria, e DeathMask precisava da ajuda dele se quisesse se tornar o novo presidente, assim que o atual se formasse, o que aconteceria no próximo semestre. Depois de eleito, ele faria as coisas à sua maneira.

— Para alguém que é da equipe de Natação, você não deveria fumar tanto — Julian, que acabara de se aproximar deles, comentou, olhando com reprovação para DeathMask.

— Vai se ferrar! – DeathMask rosnou, nervoso. Ele sabia muito bem os males do cigarro, não precisava de que os outros ficassem repetindo aquilo para ele ou dizendo o que deveria ou não fazer, ainda mais alguém como Julian, que ele julgava ser um sujeitinho hipócrita. — Você é o meu treinador por acaso, pra ficar vigiando quantos cigarros eu fumo?

Para DeathMask, Julian não passava de um filhinho de papai metido, que se achava um deus, só porque o seu pai estava na lista dos dez homens mais ricos do mundo. Babaca! Não o suportava, mas tinha que aturá-lo como irmão de fraternidade e ainda na equipe de Natação. Para piorar, Julian também pretendia se candidatar à presidência dos Ômega Chi, concorrendo contra DeathMask.

— Radamanthys, o Oliver está procurando confusão lá no bar — Julian avisou.

— Eu falei para aquele imbecil se segurar até passar a semana de recrutamento; não queremos que bons candidatos tenham má impressão dos membros de nossa fraternidade.

— Tentei falar com ele, mas você sabe, ele só escuta você.

— Como quer se tornar o presidente da fraternidade, se não é capaz de fazer um babaca como o Oliver te ouvir? — DeathMask provocou, com um tom de deboche.

— Se você se acha capaz de convencer um bêbado chato de quase dois metros de altura como o Oliver, vai em frente — Julian rebateu com um ar confiante.

— Tudo bem. Já estou indo resolver isso — disse Radamanthys, mal-humorado. Ele tinha seus métodos para lidar com os membros de sua fraternidade: conhecia todos os podres de cada um deles para usar quando necessário. Tinha todos em suas mãos. Ele se virou para DeathMask. — Não se esqueça do que conversamos. Pense nas vantagens.

— Eu entendi. — DeathMask assentiu, sob o olhar curioso de Julian. Ele daria um jeito desse tal de Lune ver o quanto Milo era um idiota. Estava mesmo doido para aprontar alguma armadilha para o presidente dos Sigma Tau.

Quando voltaram para dentro do “Sanctuary”, Radamanthys foi falar com Oliver, que estava intimidando um pequeno grupo de calouros magricelas. Julian e DeathMask seguiram em direção à mesa onde estavam os outros membros da fraternidade.

— Essa banda é um merda! — DeathMask comentou.

— Você apenas não aprecia o legado de bandas cabeludas — Julian discordou.

DeathMask não lhe deu atenção. Seus olhos percorriam por todo o ambiente em busca da loira com quem flertara mais cedo, até que a visualizou na pista de dança. Ele estava impressionado com o quanto ela era atraente. Ainda que ela não estivesse com um decote ousado e as pernas de fora, quase mostrando suas genitálias, que era como se vestiam a maioria das garotas com as quais ele já tinha saído. Mesmo usando aquela camisa rosa bem-comportada e uma calça branca folgada, dava para perceber suas belas curvas. E daí que parecia não ter os seios fartos... DeathMask nem ligava. A garota tinha porte de modelo internacional e todo o restante do corpo compensava os seios miúdos.

Julian percebeu os olhares interessados do colega para Afrodite. Ele teve a impressão de conhecer aquele rosto de algum lugar, mas não se lembrava de onde. Radamanthys também tivera essa impressão mais cedo, chegando a comentar com DeathMask.

— Se toca, seu idiota, você não tem a menor chance.

— E quem tem? Você?

Julian deu um sorrisinho convencido, que irritou ainda mais o colega.

Em seguida, DeathMask seguiu com passos rápidos em direção a pista de dança. Iria mostrar para Julian que ele tinha charme o suficiente para seduzir uma mulher interessante como aquela.

Afrodite já tinha tomado quatro drinques e se agitava na pista de dança, exibindo um imenso sorriso, ao lado de Marin e Evan.

— Vou pegar mais uma bebida, quer alguma coisa? — Marin gritou mais alto que a música.

— Eu vou com você — Afrodite falou, olhando para Evan e apontando para o bar.

Evan balançou a cabeça e continuou a dançar. Antes que Afrodite conseguisse acompanhar Marin, sentiu uma mão em suas costas e se virou.

— Oi — disse o cara com quem ele estava flertando antes. O rapaz tinha um sotaque italiano encantador.

— Oi — Afrodite articulou com um sorriso afetado. Por Deus! Eu estou muito bêbado, tenho que estar, para me oferecer desse jeito.

De qualquer forma, o estado de DeathMask também não era muito diferente, depois de ter misturado uísque com cerveja, e aquelas luzes coloridas piscando e se movimentando ao som da música não ajudavam muito.

Marin revirou os olhos para a cena e seguiu em frente, sem Afrodite.

— Você é caloura, não é? Ah, claro que é, porque nunca te vi aqui antes — DeathMask disse, impressionado com o quanto a garota era mais bonita de perto. E alta também.

Afrodite não o escutou direito, por conta do som elevado. Ouviu apenas alguma coisa sobre nunca te vi e, então, sorriu novamente antes de se apresentar; não iria bancar o retardado e perguntar ao cara o que ele tinha dito.

— Meu nome é Afrodite — gritou por cima do barulho. Era melhor fazer as apresentações logo para não correr o risco de dar mancada, como havia feito com o professor no seu primeiro dia de aula. —, e o seu?

— Todos aqui me conhecem por DeathMask, eu sou o vice-presidente da melhor fraternidade do campus — expôs, excessivamente empolgado, querendo mostrar algum status.

Afrodite achou aquilo um pouco idiota e arrogante, mas também achou que o cara era gostoso o suficiente para compensar esse defeito.

— Então, DeathMask, me fale mais sobre você... Qual é o seu curso? — Afrodite perguntou, apenas porque não tinha outra coisa para perguntar e gostaria de desenvolver uma conversa.

— Eu estou no terceiro ano e pretendo me especializar em direito penal — DeathMask respondeu, falando um pouco mais alto do que da última vez, impressionado com o vozeirão da garota. Não era grossa demais, como a voz de um homem, mas era um tanto grave. Ele gostou e achou agradável. Era bom saber que ela não falava de forma infantilizada. A sua última transa tinha uma voz tão irritante que o lembrava o som feito pelo ar quando se esvaziava lentamente um balão.

— Você está de brincadeira! — Afrodite gritou, sem acreditar. — Você não parece o tipo de pessoa que faria carreira em direito penal.

DeathMask juntou as sobrancelhas

— Por que não?

Afrodite passou os olhos pelas tatuagens que cobriam seus braços e pela barba por fazer.

— Eu diria que você parece mais do tipo criminoso.

DeathMask soltou um gargalhada.

— Você realmente diz o que pensa, não é? Eu gostei disso. Que tal irmos para um lugar mais tranquilo, onde poderemos conversar melhor? — propôs com um olhar provocante.

Afrodite já tinha bebido bastante naquela noite, e refletiu que não seria bom sair com um desconhecido, por mais que ele fosse incrivelmente charmoso.

Foi então que começou a tocar uma música bem animada e Afrodite puxou DeathMask para a o centro da pista de dança, recomeçando a se remexer de forma sensual. Dançar não era o que DeathMask fazia de melhor e ele preferiu não bancar o idiota, principalmente perto de Afrodite, que dançava tão bem.

— Vou buscar uma bebida pra gente, o que você quer? — DeathMask perguntou, mas percebeu que Afrodite não ouvira direito quando ele respondeu apenas "tudo bem". Então ele se aproximou do ouvido de Afrodite e repetiu o que havia dito, reformulando a frase.

— Pode ser uma cerveja — Afrodite respondeu, virando-se de frente para ele.

Seus rostos ficaram frente a frente e muito próximos, e DeathMask sentiu um arrepio correr por sua espinha. Nunca havia se sentindo tão atraído assim por uma garota antes, ainda mais uma que ele acabara de conhecer. Mas ela é bonita demais! — Pensou. No impulso, pegou o rosto de Afrodite com as duas mãos e deu-lhe um beijo na boca.

* * *

No dia seguinte, Camus acordara cedo e bem-disposto. Ele tinha acabado de tomar banho e seu cabelo ainda estava molhado em seus ombros, umedecendo seu pequeno robe de cetim, enquanto ele lia um interessante livro sofre Física Quântica, antes de se arrumar para assistir ao jogo de futebol.

De repente, soou uma batida na porta, tão alta e inesperada que o assustou. Quem será? Raramente recebia visitas, menos ainda às nove horas da manhã de um sábado. Tudo bem que o seu colega de quarto tinha a mania de bater na porta antes de entrar, com medo de encontrar Camus com algum cara — como se isso realmente fosse acontecer —, mas Calvin havia dormido fora e passaria o dia todo com a namorada, como era de costume nos finais de semana.

As batidas eram insistentes, e Camus, cogitando que fosse algo realmente importante, teve que atender.

Ele ficou paralisado quando abriu a porta e viu a figura diante dele, encostado na parede, de calça jeans, tênis e um casaco de grife.

— O que você está fazendo aqui? — Camus foi logo perguntando, com sua típica expressão impassível, apesar de estar surpreso.

Milo estava de boca entreaberta, seus olhos analisavam o ex-namorado de cima a baixo. A imagem do robe se abrindo e caindo sobre o ombro dele era perturbadora.

— Acha certo atender a porta com esses trajes?! E se fosse outra pessoa?!

— Eu definitivamente imaginava que fosse outra pessoa...

— Meu Deus, Camus! Você fica vestido assim na frente do seu colega de quarto? — Milo se assustou ao pensar nisso. Já havia pesquisado antes, assim como quem não queria nada, para saber quem era o colega de quarto do seu ex-namorado e ficou feliz em descobrir que o cara era heterossexual, sem histórias de envolvimento com outro homem, além de ser apaixonado pela namorada, que também estudava na Golden College. Mesmo assim, isso não era garantia de nada. Afinal, quem resistiria àquela visão à sua frente?!

— O que você está fazendo aqui, Milo? — Camus se limitou a refazer a pergunta anterior, não iria explicar para Milo que ele só se permitia ficar à vontade assim aos sábados, porque sabia que Calvin passava o dia todo fora. Ele tinha bom senso, afinal.

— É claro que eu não vou deixá-lo fazer o nosso trabalho sozinho e colocar o meu nome. — Milo falou. — Não sou nenhum idiota, por isso estou aqui. Podemos marcar outro momento para terminá-lo. Talvez hoje, depois do jogo de futebol. À propósito, não vai me convidar para entrar?

Camus respirou fundo e, sem vontade, fez um sinal para que Milo entrasse. Em seguida, foi até o seu armário e abriu a segunda gaveta, onde ficavam seus trabalhos.

Enquanto isso, Milo analisava os porta-retratos em cima da mesinha para ver se tinha alguma foto do tal de Christian. Não tinha foto alguma, apenas um notebook e alguns livros sobrepostos de forma bem organizada. Todo o restante do cômodo também era incrivelmente limpo e organizado. Milo sorriu ao lembrar-se do jeito de Camus, de como ele era chato, de como ele sempre implicava com a sua bagunça quando eles eram colegas de quarto, e de como aquelas brigas sempre terminavam em sexo. Sentia muita falta disso. Principalmente da parte do sexo.

— Aqui está — Camus se aproximou, entregando a ele uma pasta branca. — Eu já fiz o trabalho sozinho. Terminei ontem mesmo. Mas se achar que precisa acrescentar algo, fique à vontade.

Milo recebeu a pasta e deu um breve suspiro.

— Por que não podemos ser amigos?

Camus surpreendeu-se com a pergunta, não esperava por isso.

— Você quer que nós sejamos amigos?!

— Sinto falta de nossas conversas — Milo respondeu, colocando a pasta em cima da mesinha, sem nem a abrir, e aproximou-se de Camus. — Sinto falta de fazer parte da sua vida. Eu te quero tão bem, Camus... Você sempre será importante pra mim. Você sabe disso.

— Milo, nós já conversamos sobre isso — Camus afastou-se, tentando não se deixar fraquejar, e baixou os olhos. — Não tem volta...

— Nosso namoro não tem volta. Já entendi isso. Mas nós éramos amigos primeiro, não podemos ser amigos outra vez? Sempre que a gente se encontra por acaso fica um clima chato. Não precisamos disso. Não precisamos ficar nos evitando.

Camus pensou por alguns segundos. Talvez Milo tivesse certa razão, eles não precisavam ficar se estranhando toda vez que se encontrassem. Além do mais, ele também sentia falta de conversar com Milo, de fazer parte da vida dele. Tanto que Camus detestava jogo de futebol, mas assistia todos os jogos do ex-namorado somente para torcer por ele, ainda que calado e discreto.

Apesar disso, nunca cogitara a possibilidade de conviver com Milo como amigo, ao contrário, quando terminaram o namorou, afastou-se completamente dele, a fim de tentar esquecê-lo. Entretanto, esse tempo longe, reprimindo os seus sentimentos, se enganando, de nada tinha adiantado. Ainda pensava em Milo do mesmo jeito que pensava quando se conheceram e começaram a namorar.

Sendo assim, ele refletiu que talvez essa ideia de tentarem ser amigos não fosse realmente tão ruim, pois ele poderia redirecionar o amor que sentia por Milo para a amizade, seguindo o caminho reverso do que tinha acontecido com eles. Por que não?! Além disso, se dissesse que não, isso passaria a Milo a impressão de que era um fraco, de que não conseguia esquecê-lo. Era como se estivesse tão danificado que não pudesse estar perto dele.

— Não me incomodo em sermos amigos, desde que você não tente usar isso para tentar reatar o namoro — falou, observando as reações de Milo. Afinal, conhecendo o ex-namorado, sabia que sempre havia essa possibilidade.

Milo balançou a cabeça e meio que sorriu para si mesmo. Camus não tinha jeito!

— Como isso não vai acontecer, então podemos ser amigos?

Camus sentiu como se tivesse levado um soco no estômago, ao invés de se sentir aliviado como deveria. Milo realmente havia superado o fim do namoro. Saber disso não deveria deixá-lo triste, mas, de uma maneira estranha, deixou.

— Está certo então, Milo. — Camus deu um sorriso contido. — Nós podemos ser amigos.

— Ótimo. — Os olhos de Milo ficaram brilhantes. — Bem, eu tenho que ir agora. Estou atrasado para a reunião do time, e o pessoal já deve estar me esperando e reclamando.

Milo deu um beijo de despedida na bochecha de Camus, antes de se dirigir até a porta.

— E o trabalho? — Camus questionou, quando viu que Milo havia deixado a pasta em cima da mesa.

— Você disse que já está pronto, então, acho que não tem muita coisa que eu possa fazer. Tenho certeza de que ficou muito bom. — Deu uma piscadinha, com um sorriso de orelha a orelha. — Ah... Você vai assistir ao jogo do seu amigo aqui, não vai?

— Talvez! — Camus respondeu, sua fisionomia indiferente como sempre.

Milo não se importou. Saiu do quarto de Camus satisfeito com a sua ideia genial. Embora ela houvesse inicialmente lhe parecido completamente absurda, não poderia haver outra coisa a ser feita. Teria que se contentar em ser amigo de Camus, para que, assim, pudesse ficar por perto, descobrir quem era esse tal de Chirstian, acabar com esse namoro e reconquistar o ex-namorado.

Sim. Faria de tudo para tê-lo de volta, até mesmo fingir querer ser apenas seu amigo. Agora, o que ele tinha que fazer era trabalhar para Camus não perceber suas reais intenções e estragar tudo de novo.

* * *

Notas finais
NOTAS DO CAPÍTULO: National Football League¹ (em português: Liga Nacional de Futebol Americano; abreviação oficial: NFL) é a maior liga de futebol americano do mundo, com trinta e dois times nos Estados Unidos. Pré-med² - Pre-med ou pre-medical (e às vezes pre-health) é um curso acadêmico introdutório à área da medicina. A medicina nos Estados Unidos é uma área de pós-graduação. Por isso, para estudá-la, o estudante (tanto nacional quanto internacional) precisa obrigatoriamente de um bacharelado. Republicano³ – é um dos maiores partidos políticos dos Estados Unidos. Seu principal adversário é o Partido Democrata. NOTAS DA AUTORA: Eu sei que demorei uma eternidade para atualizar, me desculpem por isso. A questão é que estes últimos dias foram MUITO atarefados para mim. Além disso, encontrei uma beta para a fic e ela fez a revisão dos dois primeiros capítulos (já postados) antes deste. Tive sorte dela ser rápida. Espero que ninguém tenha desistido da fic por conta da demora. De qualquer forma, eu já havia comentado com vcs que essa fic não teria atualizações tão rápidas. Então e isso. Espero que tenham gostado do capítulo. Beijokas 23/06/2015 às 00:28