Golden College
4 Playing to win
Notas iniciais
— GOLDEN COLLEGE -
Playing to win

— Antes de uma partida de futebol, há um momento de grande silêncio. Os jogadores ficam em posição de ataque e os homens de linha permanecem parados, esperando para defender o seu território. Depois, como num acidente de trânsito, tudo colide de repente. — Afrodite explicava de forma didática para Mu, enquanto bebia mais um gole de sua cerveja. Antes, Mu havia comentado com ele que nunca tinha assistido a um jogo de futebol americano. — Aí, do toque na bola ao primeiro osso quebrado, leva de quatro a cinco segundos.
— Nossa! — Mu exclamou e pensou em seu colega de quarto, que já estava machucado. — É mesmo um jogo assim tão bruto?
— É. Eu sei porque já namorei um jogador na época do colégio — Afrodite falou dando uma piscadela. — Mas quer saber? Não tenho interesse em repetir a experiência, jogadores de futebol são como crianças grandes. Ah... E por falar em namorar, eu ainda não te contei que beijei um cara lindo de morrer na festa, ontem.
Mu deu uma risadinha do jeito empolgado do amigo.
— Na frente de todo mundo?!
— Aham... — Afrodite confirmou. — Mas, logo depois do beijo, ele saiu para buscar cerveja e, nesse exato momento, o Evan passou mal por conta do excesso de bebida e eu tive que levá-lo ao hospital imediatamente para tomar glicose, sem tempo de avisar o bonitão. E nós nem tínhamos trocado telefone ou coisa assim... — Fez um muxoxo. — Mas eu já encontrei o perfil dele no facebook e mandei uma solicitação de amizade, só que ele ainda não aceitou.
Shaina se aproximou deles com um cachorro quente numa mão e um dedo de espuma na outra.
— Nem acredito que você conseguiu ingressos nos assentos gold. Estamos no melhor lugar do estádio. — Ela sentou-se ao lado de Afrodite e jogou um beijo para ele.
— E cadê Marin?
— Ela irá assistir do camarote dos jornalistas, pois será a responsável pela cobertura do evento. Mas me conte sobre o que vocês estavam conversando de forma tão animada. — Shaina deu uma mordida em seu cachorro quente.
— Beijei o seu primo DeathMask ontem à noite!
Shaina engasgou com o cachorro quente, cuspindo um pouco do chucrute.
— Você o que?! — Shaina tossiu, ainda engastada, limpando a boca com as costas da mão.
— Afrodite beijou o seu primo ontem — Mu repetiu, achando que Shaina não havia entendido, devido ao barulho na arquibancada.
— Eu ouvi, só não estou acreditando... Ah, meu Deus! — Shaina deu um pulo de repente, assustando Mu e Afrodite. — Era você a garota que ele estava procurando no final da noite!
— Como assim, a garota que ele estava procurando?
— Tenho certeza de que ele pensa que você é uma mulher — Shaina contou.
Afrodite abriu a boca, surpreso, e depois bufou.
— Ele não pode ser tão lesado!
— Mas, Dite, realmente não é difícil te confundir com uma mulher — Mu comentou, achando graça da situação.
— E você ontem estava com uma roupa bem afeminada, amigo — Shaina completou.
Afrodite estalou a língua e fez um gesto de descaso com a mão.
— Isso é só um detalhe... — Se o cara tivesse realmente gostado dele, aquilo não faria diferença nenhuma. Ou faria?
— Como pude perder isso, gente?! — Shaina se sentiu culpada por não ter evitado a confusão. Ela estava tão ocupada tentando atender aquele monte de clientes, que nem percebeu que DeathMask estava interessado em Afrodite. Quando ele pediu a ela que entregasse a bebida para as “garotas”, achou que ele estava tentando flertar com Marin.
Shaina olhou para Afrodite e respirou fundo. Não teve coragem de avisar ao amigo que o primo definitivamente o rejeitaria; não queria magoá-lo. Por isso precisava urgentemente esclarecer as coisas com DeathMask, antes que ele fizesse uma confusão ao trombar de novo com Afrodite e notar o detalhe que lhe passara despercebido na noite anterior. Sim, ela tinha certeza de que ele iria surtar.
* * *
Enquanto isso, no vestiário, o treinador Kanon passava as últimas orientações para os jogadores.
— Quando entrarem naquele campo, vocês têm que jogar com o coração até o último instante. Com suas almas e seus pés, com cada gota de sangue que vocês têm no corpo. Não estou pedindo para serem perfeitos, estou pedindo para darem o melhor de vocês, do começo ao fim. E se vocês fizerem isso, podem apostar seus rabos que nós não perderemos. E lembrem-se: não quero ninguém tentando bancar a estrelinha. Até o Doutor House trabalha em equipe. Estamos entendidos? — Depois de receber uma resposta positiva dos jogadores, o treinador bateu uma palma na outra de forma empolgada. — É isso aí, galera! Vamos jogar para ganhar... Somos Gold Saints!
Os jogadores levantaram os braços para cima e rugiram:
— Somos Gold Saints... Somos Gold Saints...
Em seguida, eles entraram para o estádio gritando “Somos Gold Saints...” sob os aplausos, berros e assovios das pessoas enlouquecidas na arquibancada, enquanto as líderes de torcida faziam suas melhores performances e balançavam seus pompons. Na lateral do campo, um garoto fantasiado de leão — mascote do time — corria de um lado para o outro, animando os torcedores.
“Bem-vindos ao primeiro jogo dessa grande temporada do campeonato College Football, senhoras e senhores” — falou o comentarista. “E hoje temos um clássico no primeiro jogo da temporada... Os protagonistas de uma das principais rivalidades no futebol universitário: os Gold Saints da Golden College enfrentam os Warriors Gods de Asgard University, diante da arquibancada lotada do estádio Arena”.
No campo, os jogadores estavam em formação. A equipe da Golden College, vestida num uniforme dourado com preto, estava posicionada de frente para a sua equipe rival, que usava um uniforme azul e branco. Eles se encaravam com expressões ameaçadoras e, então, soou o apito, dando início a partida.
— Atenção! Vermelho dezoito. Vermelho dezoito. Vai... — Milo gritou o código para os seus companheiros e passou a bola para Aiolia por baixo de suas pernas.
Aiolia pegou a bola e lançou para Milo, enquanto os bloqueadores ofensivos de seu time se chocavam contra os jogadores da primeira linha da defesa do time adversário. Com uma jogada ousada de troca de passes, Milo devolveu a bola para Aiolia, que saiu correndo, costurando pelo campo, driblando alguns jogadores, enquanto Aldebaran corria na frente abrindo caminho.
“Aiolia passa o bloqueio, agora ele tem espaço. Ele sai da marcação... Mas que jogaaaada! E os Saints marcam o seu primeiro touchdown”.
— Vai, Gold Saints! — Gritavam as pessoas na arquibancada, vibrando, enquanto os jogadores comemoravam com alguns passos de dança.
— Esse Aiolia é a melhor aposta em campo — o técnico assistente disse de forma empolgada para o treinador, que concordou, com um sorriso satisfeito.
Enquanto isso, Abel estava sentado no banco de reservas, ouvindo e vendo tudo com a fisionomia emburrada. Ele era o primeiro reserva quarterback do time há dois anos, e era ele quem deveria estar brilhando no campo. O quarterback era a posição mais apreciada do futebol americano, a de maior destaque, o cérebro por trás das jogadas de ataque. Abel estava esperançoso, achando que fosse se tornar o titular, agora que o antigo havia se formado e sido contratado por um time profissional. No entanto, o treinador o substituiu por Aiolia, que ainda era um calouro. E daí que Aiolia havia sido procurado por várias universidades por conta de suas habilidades em campo? Abel tinha certeza de que era tão bom jogador quanto Aiolia, ou até melhor.
No campo, o jogo seguia o seu ritmo. Os minutos se passavam rápidos e os Saints marcavam vários pontos, contudo, os Warrionrs Gods não ficavam para trás, afinal, eles também eram bons.
— Tá vendo aquele com a camisa doze lá? — disse um homem na arquibancada, sentando um degrau acima de Shaina. Ele usava um boné e uma camisa azul com o slogan dos Warrionrs Gods. — É o meu filho Surt. Ele vai acabar com os Gold Saints.
Shaina lançou ao homem um olhar desafiador. Não era a primeira vez que ele menosprezava os Saints e isso a estava deixando irritava.
Quando faltavam apenas alguns minutos para acabar o primeiro tempo, o cronômetro parou para que os treinadores pudessem substituir alguns jogadores machucados. Os Gold Saints aproveitaram para repassar as táticas com o seu treinador e se hidratarem.
— Os zagueiros deles estão marcando você na maior parte do jogo, Aiolia, mas você corre bem mais do que isso — falou o treinador para o seu quarterback, que havia começado com muito vigor, mas estava perdendo a energia.
Abel, ansioso, prestava atenção em Aiolia, e engoliu em seco, lembrando-se da conversa que tivera mais cedo com seu amigo Paul: “É só um calmante, Abel. Ele vai ficar lento, e o treinador terá que colocar você em campo. Relaxa! Tudo vai dar certo, e ninguém vai descobrir”.
— Está tudo bem, Abel? — Algol, que também estava no banco de reservas, quis saber. — Você parece apreensivo.
— Está tudo ok! — Tentou disfarçar a ansiedade.
Pouco tempo depois, o sinal tocou, finalizando o primeiro tempo.
“Agora vamos para o intervalo. Fiquem ligados, vai ser uma briga de cachorro grande quando as equipes votarem para a segunda rodada” — falou o comentarista, eufórico.
* * *
— Aonde você vai? — Mu perguntou a Afrodite quando este se levantou.
— Eu quero pegar uma cerveja gelada.
— Quer companhia?
— Não precisa, obrigado. Eles não vão acreditar na minha identidade falsa se me verem andando com você por conta dessa carinha de bebê. Você bem que podia deixar essa franjinha crescer, Mu. Iria parecer mais velho. — Afrodite passou os dedos pela franja do amigo para afastá-la do olho.
— Quer parar com isso — Mu tentou impedi-lo, achando graça.
— Pare você! Não sei porque fica escondendo essas pintas. Se quer saber, elas são o seu charme.... Se fosse realmente esquisito, eu não andaria com você. Seria suicídio social — Afrodite falou, abanando a mão, e saiu para comprar sua bebida.
Ele pensou em passar no banheiro primeiro, mas desistiu quando viu que a fila estava enorme. Então, foi direto comprar cerveja antes que acabasse os doze minutos de intervalo. Durante o caminho ele observava as pessoas na expectativa de se encontrar com DeathMask.
Assim que ele comprou sua bebida, virou-se para sair daquele lugar e quase teve uma parada cardíaca ao ver o seu professor Shura se aproximando do final da fila, conversando com outro homem de forma bem descontraída. Shura estava bem mais informal, com uma calça jeans, um boné e um casaco com a marca dos Saints.
Droga! Afrodite se deu conta de que o seu professor, com certeza, perceberia que ele estava comprando cerveja usando uma identidade falsa. Sem contar o fato de que Afrodite já estava morrendo de vergonha pela sua gafe no primeiro dia de aula. Desde o episódio, ele sentava no fundo da sala para não ser visto e ainda faltara a maioria das aulas de Espanhol. Então, num estalo criativo, ele teve a brilhante ideia de passar fingindo que estava falando no celular. Dessa forma, poderia passar despercebido, sem que precisasse cumprimentá-lo ou coisa assim. Entretanto, logo que Shura o notou, gesticulou com as mãos, fazendo um sinal para que Afrodite se aproximasse.
Pra que eu fui olhar?! — Afrodite pensou e caminhou até o professor, guardando o seu celular no bolso.
Olhou para Shura de forma segura, como se nada tivesse acontecido. Não era à toa que era filho de uma atriz famosa. Ele poderia seguir essa carreira se quisesse.
— Professor Shura, então você também gosta de futebol? — Comentário idiota!
— Já fui um jogador dos Saints na época da faculdade, além disso, estou fazendo companhia para o meu amigo Aiolos, aqui. Ele veio prestigiar o irmão que está jogando pela primeira vez pelos Saints. — Ele deu alguns tapinhas nas costas de Aiolos, que trocou cumprimentos com Afrodite. Em seguida, Shura disse, divertido. — Aiolos esse é o meu aluno que não gosta muito de alguns professore de línguas.
— Ah... me desculpe pelo que eu disse — Afrodite falou, meio sem graça. — Como iria imaginar que existia um professor tão jovem como você por aqui?
Shura riu outra vez.
— É o segundo ano que dou aula, eu me formei aqui mesmo.
— Você explica como se fizesse isso há anos, é muito boa a sua aula — Ele estava sendo sincero.
— Então, espero que não falte mais — Shura falou com um sorriso sedutor no rosto.
— Ah, claro! Não vou faltar — Afrodite ficou um pouco encabulado, ao mesmo tempo em que uma onda de satisfação subiu pelo o seu corpo. Então o professor sentiu falta dele. O que isso queria dizer? — Bem, preciso ir. Meus amigos estão me esperando. Até mais, professor. Até mais, Aiolos.
— Foi um prazer conhecê-lo — Aiolos falou com simpatia, e Afrodite assentiu, antes de se dirigir para a arquibancada.
Shura o seguia com os olhos, pensando no quanto o seu aluno era charmoso.
— Não vá se meter em confusão, Shura. Lembre-se de que você...
— Relaxa, Olos! — Shura o cortou, batendo a mão no ombro do amigo, e seguiu para a fila. — Você sabe que sou um homem sério e que gosto de mulheres.
— Sei... — Aiolos falou desconfiado. Lembrava-se das safadezas do amigo na época da faculdade.
* * *
DeathMask estava escorado numa parede, próxima da fila do banheiro. O rosto de Afrodite apareceu em sua memória. Sem pensar, ele tinha beijado a garota na festa e, desde então, não conseguia parar de pensar naquele beijo e naquele cheiro agradável que ela tinha. Mas Afrodite havia desaparecido quando ele saíra para comprar bebida e DeathMask ficou se perguntando o que havia acontecido. Ele empurrou as lembranças para longe da sua memória e jogou fora a cinza de seu cigarro quando Lune apareceu a sua frente. Ele estava lá, aguardando por Lune, que tinha entrado no banheiro. DeathMask havia o seguido na hora do intervalo.
— Oi... Você é o Lune, não é? Eu sou o DeathMask. É um prazer conhecê-lo — falou, estendendo a mão para Lune, que retribuiu o gesto,com uma sobrancelha arqueada, estranhando a abordagem. — Sou o vice-presidente dos Ômega Chi e também o responsável pelo recrutamento e iniciação de novos calouros. Gostaria de convidá-lo para visitar a nossa república. Teremos um enorme prazer em tê-lo como irmão de fraternidade.
— Não é contra as regras você conversar comigo sobre isso antes da semana de recrutamento e essas coisas?
— É sim, e esse é o motivo de toda essa conversa ser informal. Tenho aqui um convite para a nossa exclusiva festa secreta e tenho certeza de que você vai adorar a nossa república. É o lugar onde se concentra os alunos mais ricos e requintados de todo o mundo, e onde você dá o primeiro passo para um futuro promissor e de sucesso. Desfrutamos também das regalias de sermos muito bem vistos pelo corpo docente. Sem contar que nossa casa é muito bonita e pode ser comparada com as melhores mansões de...
— Vamos logo ao ponto. — Lune o interrompeu, sem o menor interesse naquele discurso idiota. — Me fale sobre a vida social dos Ômega Chi.
— Nós saímos com as garotas da Zeta Delta Zeta, que são as garotas mais bonitas da faculdade. Nossas festas sãos as mais requintadas, melhores canapés, as melhores bebidas, os melhores DJs e atrações...
— Bom pra você. Foi ótimo conhecê-lo, mas agora preciso ir. O segundo tempo vai começar e não quero perder o jogo.
Lune saiu depressa, deixando DeathMask com cara de pateta.
— Veado idiota! — DeathMask rosnou baixo. Quem ele pensava que era para desprezar assim os Ômega Chi? Qualquer outro calouro daquela faculdade se mataria por um convite desses.
* * *
O sinal tocou, dando início ao segundo tempo. Os jogadores voltaram para o campo com ainda mais determinação, pois o jogo estava quase empatado, e eles queriam a vitória.
Seguindo as regras, o time que iniciava com a bola no primeiro tempo era o mesmo que iniciava no segundo. Assim, os Saints fizeram o snap, passando a bola para o quarterback, que a lançou bem longe para Milo.
“O time dos Saints tem a posse de bola. E passa por um, passa por outro... Já passou das trinta jardas... E vai, vai, vai... e Surt fez um bloqueio sensacionaaaal!”
— Eu disse que o meu filho iria detonar esses Saints, eles não são de nada... — gritou o pai de Surt na arquibancada.
— Oh boca suja, fecha essa matraca, senão eu vou aí fechar pra você, heim... — Shaina ameaçou o torcedor do time rival.
— Shaina, controle-se.... Não revide provocações — Mu tentou acalmar sua amiga, que estava eufórica, enquanto Afrodite tirava mais uma selfie.
Mu olhava com apreensão para o campo, a marcação do time rival havia derrubado Aiolia novamente.
Milo se aproximou do primo para ajudá-lo e conferir se estava tudo bem. Como Aiolia demorou a se levantar, os outros jogadores e o treinador também correram para junto dele.
— Não faz isso comigo, cara — Milo falou, ajoelhado ao lado de Aiolia.
— Eu nem bati tão forte, vocês é que são meio moles — Surt, o zagueiro do time adversário, falou com ar de desdém, fazendo Milo o encarar com ódio. Babaca!
Aiolia abriu os olhos e começou a ver tudo embaçado e embaralhado, estava sentindo dor em seu corte, mas não comentaria isso com ninguém, não queria ir para o banco de reservas. De qualquer forma, o que mais o incomodava era o sono estranho que sentia.
O treinador mostrou dois dedos para Aiolia e perguntou:
— Quantos dedos têm aqui?
Aiolia levantou um pouco a cabeça, se esforçando para ver, e respondeu:
— Três.
O treinador olhou para os outros jogadores.
— Vamos tentar diferente — disse Aldebaran, esperançoso. — Vamos tentar verdade ou mentira. Aiolia, o treinador mostrou dois dedos para você, verdade ou mentira?
— Verdade — Aiolia respondeu, grogue, tentando se levantar.
— Viu, ele já está bom.
— Não, ele não está bom. Ele vai para o banco de reservas — o treinador foi enfático.
— Não! Eu consigo jogar!
— Hoje você não joga mais. Vamos, levante-se e vai para o banco. Abel — o treinador chamou —, você vai entrar em campo agora.
— Não, eu consigo jogar, treinador, por favor...
— Sem choramingar, Aiolia!
Abel sorriu vitorioso e correu para o campo, enquanto Aiolia seguia chateado, com dores e tonto para o banco de reservas. Ele se perguntava o porquê de tanto sono se havia dormido bem na noite anterior, ainda que tivesse ido dormir tarde por conta do incidente com o seu colega de quarto. Mal sentou-se e começou a cochilar.
— Oh, Aspros, vê se faz o seu trabalho da próxima vez — Milo gritou, irritado, apontando para o colega de time. Aspros era o interceptador e era sua função proteger o quarterback do que ele não via chegar, proteger o seu lado cego.
— Fica frio, Milo. Nós temos três touchdown, cara — Aspros falou com pouco caso. — Aiolia que tá ficando meio molengo, mas eu bloqueio na próxima jogada.
— Se não fizer direito, não vai ter próxima jogada — Milo rebateu.
Aspros levantou o dedo para Milo.
— Baixa a sua bola, que você não é o treinador. Só é a mulherzinha dele.
— Eu vou arrebentar você, seu babaca!
Os dois partiram para a briga no meio do campo, mas foram separados pelos companheiros. O treinador Kanon observava os seus meninos discutindo entre eles mesmos e revirou os olhos. Esse era o seu time. Cheio de estrelinhas. Nunca conseguiam trabalhar direito em equipe. Aquela jogada no início do jogo fora mesmo um golpe de sorte¹, e, naquele dia, os Saints perderam o jogo.
* * *
À noite, quando o Porsche reluzente de Christian parou em frente ao dormitório Sulivan, Camus saiu rapidamente pela porta, antes que Christian tivesse tempo de ir até ele.
— Eu estava indo buscar você — disse Christian, decepcionado, enquanto segurava a porta do carro.
— Então eu fiz você economizar tempo — Camus falou, sentando-se e colocando o cinto de segurança. Respirou fundo ao observar o desapontamento do seu acompanhante. — Mon Dieu, Christian! Eu não sou uma garota.
Christian entrou no carro e se inclinou na direção de Camus, tocando seu rosto e dando um selinho em seus lábios. O hálito de Christian cheirava a menta, sua colônia tinha um aroma incrível, e ele estava lindo de calça jeans escura e um suéter estilo preppy.
— Eu sei. É que eu estou muito feliz que você finalmente aceitou sair comigo — ele falou, soltando o ar e Camus sorriu forçado.
Christian se encaixava perfeitamente na imagem de um namorado perfeito. Ele era bonito, sofisticado e organizado, com um plano tão claro para a sua vida quanto o que Camus também tinha para si. Apesar disso, Camus não conseguia se desvencilhar da sensação de que faltava algo nele.
Assim que eles chegaram ao restaurante, foram conduzidos imediatamente a uma mesa perto da janela da sacada. Fizeram o pedido e Christian fechou o cardápio, sorrindo para o garçom.
— E, por favor, nos traga uma garrafa de Allegrini Amarone.
— Sim, senhor — disse o garçom, recolhendo os cardápios.
— Este lugar é muito elegante e agradável — Camus falou e os olhos verdes de Christian se iluminaram.
— Obrigado. Vou falar para o meu pai.
— Você me trouxe ao restaurante da sua família?!
— Achei que soubesse. Tenho fotos desse restaurante no meu facebook.
— Eu não tenho facebook — Camus relembrou Christian.
Uma mulher elegante e bonita se aproximou da mesa. O alvo de seus olhos verdes era Camus. Ela desviou rapidamente o olhar para voltá-lo a Christian.
— Quem é seu amigo, querido?
— Mãe, esse é Camus Chevalier. Camus, essa é minha mãe, Rebecca Harrison.
Camus estendeu a mão, e ela o cumprimentou rapidamente. O interesse iluminou suas feições distintas, e ela olhou para Christian, que assumiu uma expressão impaciente.
— O Camus também é estudante de Física, mãe, e estamos trabalhando num projeto do grupo de astrofísica.
— Ah — Rebecca olhou para Camus de novo. A tensão ao redor de seus olhos se suavizou um pouco. — Bem, não quero atrapalhar a conversa sobre os projetos de vocês. Deixarei os futuros astrofísicos à vontade.
— Foi bom ver você, mãe. Boa noite.
Ela o beijou no rosto, tirou com o polegar a marca de batom que havia deixado ali e voltou para sua mesa.
— Sinto muito pela maneira como te apresentei à minha mãe, não sabia que ela estaria aqui hoje e não queria causar uma situação embaraçosa. Você sabe...
— Tudo bem. Eu teria agido da mesma forma.
Christian sorriu, aliviado.
Durante os minutos seguintes, eles conversaram sobre comida, o grupo de física, as aulas, o projeto que tinham em comum e sobre a complexidade do Universo. Nesse meio tempo, várias pessoas se aproximaram para cumprimentar Christian, ele era visto como uma celebridade no restaurante, e Camus sentia os olhares avaliadores de todos no salão.
De repente, o celular de Camus tocou. Ele ignorou por alguns segundos, mas o aparelho vibrava de forma insistente, e ele atendeu depois de dar um sorriso de desculpas.
— Que foi, Milo? — Camus tentou colocar rispidez na voz, mas não conseguiu.
— Onde você está? Eu estou na porta do seu quarto.
— O que você está fazendo aí?
— Quero te convidar para jogarmos boliche.
— Boliche?! Acho que não vai dar, estou ocupado.
— Não, não está nada ok. Você disse que podemos ser amigos, mas nós não podemos sair juntos para jogar boliche?
Camus respirou fundo, olhando para Christian à sua frente, que tentava fingir não estar incomodado com a conversa de Camus, apenas por educação. Mas a verdade é que ele não estava gostando nada, nada.
— Tudo bem. Amanhã eu te ligo pra gente combinar direito. Preciso desligar agora.
— Onde você está, Camus? Por que não pode falar comigo agora?
— Estou jantando com um amigo.
— Onde? — Milo quis saber, com a intenção de ir pessoalmente atrapalhar.
— Até amanhã. — Camus desligou a ligação e, em seguida, o telefone; voltando sua atenção para Christian e sua cara emburrada. — Desculpe-me. Onde estávamos mesmo?
— Você dizia que acreditar que a vida na terra é a única no Universo seria imperdoavelmente egocêntrico.
— Ah, sim... O Universo é enorme no tempo, espaço e conteúdo e sabemos que fenômenos extraordinariamente raros acontecem todos os dias. Além disso, somos feitos das coisas mais comuns encontradas no Universo. O carbono é o elemento quimicamente mais...
— Desculpe-me se eu estiver sendo invasivo, Camus — Christian o interrompeu. — Mas eu conheço esse Milo? O nome me soa tão familiar.
— Provavelmente, já que a faculdade inteira o conhece. Milo é um dos jogadores de futebol e presidente dos Sigma Tau.
— Ah... Era exatamente quem eu estava imaginando. Ele é, de fato, “famoso” na faculdade — falou com ar de desprezo. — Não sabia que você tinha amizade com jogadores de futebol.
— Fomos colegas de quarto quando eu ainda era calouro — Camus não gostou da maneira com Christian se referiu a Milo, mas achou melhor não questionar, para evitar uma situação ainda mais constrangedora.
— Apenas amigos?
— Se fosse o contrário, eu não teria aceitado sair com você.
— Ah, claro. Me desculpe, Camus...
— Acho melhor voltamos a falar sobre a complexidade e beleza do Universo.
Christian assentiu e eles mudaram o assunto da conversa.
* * *
Nessa mesma noite, Lune estava com seu amigo Valentine no bar do Rizoli’s, um restaurante italiano local que ficava perto da faculdade. Depois de alguns minutos de conversa fiada e flertes com alguns garotos na mesa ao lado, Lune se levantou para ir ao banheiro. Estava andando pelo canto do bar e, antes que pudesse chegar ao seu destino, ouviu uma voz chamar o seu nome.
— Oi, Lune. Você se lembra de mim? — Era DeathMask.
— O maluco com nome estranho. Sim, eu me lembro. Você está me seguindo? — Lune quis saber, imaginando se DeathMask estava afim dele.
— Não. Foi uma coincidência te encontrar por aqui. — Não foi mentira.
Antes disso, DeathMask estava sentado no bar tomando uma bebida com um dos seus amigos de fraternidade, enquanto aguardavam por uma mesa. Os dois eram italianos e gostavam de ir àquele restaurante de vez em quando, para relembrar a comida de sua terra natal. Eles estavam falando sobre o fracasso do jogo de futebol americano, quando DeathMask notou Lune passando e foi atrás dele.
— Mas eu estava mesmo querendo te ver. Lune, sei que pareço impertinente, mas é que tenho certeza de que nenhuma fraternidade se encaixará tão bem a você quanto a nossa. Sabe, eu não comentei com você quando te encontrei mais cedo, mas temos festas incríveis no porão da mansão e lá rola de tudo. — DeathMask havia se dado conta de que era algo assim que Lune estava querendo.
— Parece legal, mas eu ainda estou analisando outras possibilidades — Lune disse.
— Ah... Tudo bem. Estou ciente de que você pode escolher qualquer fraternidade do campus. De qualquer forma, duvido muito que você queira se juntar aos estudantes esquisitos da Lambda Psy, e a Sigma Tau, com certeza, está fora da jogada pra você, não é? — DeathMask deu alguns tapinhas nas costas de Lune e fez menção de se retirar.
Lune franziu a testa.
— Por que a Sigma Tau, com certeza, está fora da jogada pra mim?
DeathMask virou-se novamente para Lune, dando-lhe um olhar do tipo “você está brincando?”.
— Você não sabe?
— Não, eu não sei.
DeathMask esfregou a parte de trás do seu pescoço, com um suspiro cansado.
— Realmente isso não é da minha conta, mas eu tenho certeza de que não é uma boa ideia um rapaz como você fazer parte daquela fraternidade.
— Por que não? — Lune perguntou, soando um pouco inseguro. A verdade é que ele queria saber se a informação estava relacionada ao líder deles.
Depois de uma pausa, DeathMask sacudiu a cabeça.
— Esqueça o que eu disse, eu não quero me envolver nisso.
— Conte o que você sabe... — Lune praticamente choramingou e DeathMask fez um grande esforço para não rir.
— Tudo que posso dizer é que a pessoa que anda com os caras da Sigma Tau precisa ser realmente cuidadosa. — Ele deu a Lune um olhar aguçado quando acrescentou: — Porque eles não são! Principalmente o líder deles...
— O que tem o líder deles? — Lune exclamou, realmente interessado.
— Você percebeu como o quarterback do time pareceu meio lento depois de apenas alguns minutos de jogo? Soube que foi por culpa do presidente dos Sigma Tau...
Os olhos de Lune se arregalaram enquanto sua boca caia aberta.
— Já na nossa fraternidade você vai estar com os melhores. Não vai precisar se preocupar se o seu colega de quarto tem DST ou não. — DeathMask já havia se informado de que Lune era um filhinho de papai metido, cheio de frescuras e preconceitos, por isso inventara essa mentira.
— Isso que está me dizendo é verdade?!
— Fontes seguras me disseram isso. Alem do mais, se você quiser entrar na nossa fraternidade, eu estou disposto a lhe dar não só um convite agora, mas um bônus que você não pode se recusar.
— O que está me oferecendo? — Lune ficou interessado. Ele queria entrar para os Sigma Tau apenas porque estava interessado no presidente deles, mas não iria se arriscar.
— Qualquer coisa. O que pedir é seu.
— Eu quero um quarto só para mim e um convite para o meu amigo Velentine.
DeathMask apertou os olhos e respirou fundo, insatisfeito. Com certeza, outro veado. Mas ele precisava fazer alguma coisa para convencer Lune e mostrar aos companheiros da Ômega Chi que ele era capaz de levar qualquer pessoa importante para a fraternidade. Afinal, ele não jogava para perder.
— Feito — DeathMask disse.
— Então estou dentro.
Quando Lune saiu, DeathMask pegou o celular para enviar uma mensagem a Radamanthys avisando de que tinha convencido Lune, porém, ao ver a quantidade de post no grupo de WhatsApp da fraternidade, ele resolveu ler as mensagens primeiro. Uma delas o fez congelar.
“Essa é ‘a loira gostosa’ que DeathMask beijou na festa, galera. Hahahah...”
Logo depois da mensagem, uma foto de Afrodite de sunga branca na piscina da faculdade.
— Mas que porra é essa?! — DeathMask exclamou, com os olhos arregalados.
* * *
No dia seguinte, logo cedo, Mu estava no refeitório tentando fazer o dejejum.
— Eu não sou gay! — Ele repetiu para o cara detestável que estava farejando ao seu redor e o incomodando pelos últimos dez minutos.
— Você tem certeza? — o homem o avaliou de cima a baixo, sem acreditar muito no que Mu falava. — Você tem jeito de ser gay.
Mu suspirou de leve, trocando o peso do corpo de um pé para o outro. Ele odiava quando as pessoas o julgavam apenas por sua aparência delicada. Isso acontecia desde o colégio e parecia que a coisa iria se repetir agora na faculdade. Como se não bastasse o episódio traumático pelo qual havia passado sexta-feira à noite, agora, às nove e meia da manhã de domingo, ele precisava lidar com todo esse assédio, que ia desde comentários sujos até olhadas para a sua bunda. Se Mu não precisasse tão desesperadamente de cafeína para se manter acordado depois de passar toda a noite terminando o seu trabalho de Biologia, ele já teria saído.
— Sim. Tenho certeza.
O cara ficou pensativo por um instante.
— Bem, você não gostaria de experimentar?
— Não — Mu disse rápido.
— Tenho certeza de que vai gostar. Será divertido e posso deixar você...
— Não.
— Você nem me deixou terminar de explicar. E se eu...
— Ele disse que não — Aiolia falou de forma intimidante para o cara, enquanto jogava o braço em volta dos ombros de Mu de uma forma preguiçosa, achando graça em vê-lo completamente vermelho.
Mu fechou os olhos e inalou vagarosamente. Parecia que Aiolia iria sempre presenciar esses momentos constrangedores.
— Hey! Você disse que não era gay! — o cara gritou em tom acusador.
Sem perder o ritmo, Aiolia disse:
— Ele não é. Eu sou apenas a puta dele.
Mu abaixou o rosto, ainda mais vermelho, e deu uma risada.
O cara lançou um olhar fulminante para os dois; depois, avaliou a estatura e o corpo grande de Aiolia e resolveu deixar passar. Assim que o cara saiu, Mu se desvencilhou do braço do seu colega de quarto.
— Achei que você não fosse acordar mais. Já estava ficando preocupado. Você estava dormindo desde que chegou do jogo ontem, parecia que tinha tomado um sossega leão.
— Por favor, não me lembre do jogo de ontem — Aiolia fez uma careta. — Preferia ainda estar dormindo para não pensar nisso, mas tenho um trabalho de Biologia para entregar amanhã. — Bocejou. — Não importa o quanto eu estude, Biologia e seus nomes estranhos simplesmente não entram na minha cabeça.
— Seus nomes estranhos?! — Mu perguntou, enquanto chegava a sua vez na fila do café. Aiolia estava ao seu lado.
— Prótese, menalgumacoisa... e sei lá mais o que.
— Acho que você quis dizer prófase, metáfase, anáfase e telófase.
— É, acho que foi isso mesmo. Espera aí, você já fez o seu trabalho? Bem que podia me ajudar.
— Tudo bem. Eu te ajudo a fazer o seu trabalho — Mu disse e deu as costas para o colega.
O olhar de Aiolia não se desviou de Mu, enquanto este, de modo tímido, procurava uma mesa para se sentar. Aiolia suspirou profundamente quando notou alguns caras, perdedores na sua opinião, com olhares sujos para a bunda de Mu. Caramba! Parecia que o seu colega de quarto não podia andar sozinho por aí, sem que todo mundo o assediasse. Ele precisava urgentemente fazer alguma coisa para resolver esse problema.
Aiolia refletiu sobre isso, enquanto pegava sua bandeja e caminhava em direção a mesa onde Mu estava. Ele chegou à conclusão de que era esse jeito acanhado e doce do colega que atraía as pessoas, além daquele seu rosto de boneca de porcelana, claro. Aiolia sentou-se ao lado de Mu, decidido de que faria do seu colega de quarto o seu mais novo pequeno projeto. Ensinaria-o a ser mais confiante e a se impor mais. Sim, Aiolia seria o seu mestre. Isso iria ser ótimo, porque no momento em que ele finalizasse a sua obra, Mu estaria vivendo uma vida livre de idiotas e muito mais divertida.
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