Notas iniciais
Olá, pessoal Como é de praxe: Perdão a demora! A imagem foi encontrada na net, e não sei quem é o autor. Muito obrigada a nane yagami, Orphelin, Sheilinha, Gyo Costa, Saorynha, reneev, Mel Dark, Ana Carolina, Jenferr, Suh, delencei e Sweet Selene por comentarem no capítulo anterior. S2 Bem, já que ninguém se opôs ao tamanho dos capítulos, eu trouxe um maior ainda. Até tentei dividi-lo, mas tive a sensação de que ficou fragmentado ou coisa assim... Espero que não seja uma leitura cansativa.

— GOLDEN COLLEGE –

I kissed a boy


DeathMask estava sentado no gramado do campus, com um notebook em seu colo, escorado numa árvore em frente ao University Hall — um edifício de granito branco onde funcionava a faculdade de Artes e Ciências. Ali havia se tornado o lugar preferido dele, depois de uma semana tumultuada de brigas na república com seus irmãos de fraternidade. Seu olho ainda estava marcado, os nós dos dedos da mão direita estavam arranhados, e, no braço esquerdo, estavam enroladas algumas faixas de gazes que cobriam os ferimentos da última briga.

E tudo por culpa dele! — rosnou, enquanto olhava para a foto de Afrodite no facebook, reparando em cada detalhe. Era a mesma foto que Julian havia postado no grupo do WhatsApp. Alto, loiro e esguio, Afrodite também não tinha muitos pêlos no corpo; e o seu rosto de proporções gregas realmente parecia o de uma menina. No peito liso, destacava-se a tatuagem de uma rosa em cima de seu coração, com as pétalas em vermelho escuro e o caule verde levemente curvado. Os olhos de Afrodite eram de um azul-piscina tão claro que não pareciam naturais, ainda que fossem, e, abaixo do seu olho esquerdo, havia uma pinta que DeathMask sequer notara naquela noite. Merda! Ele realmente não tinha notado muita coisa naquela noite. Poderia culpar a bebida, o jogo de luzes, mas sabia que esse não era o real motivo. A questão é que Afrodite era muito mais bonito do que qualquer estrela de cinema que ele já tenha visto, e aquela inquietante e embriagadora beleza o havia seduzido de tal maneira que ele nem cogitou a possibilidade de ele ser um garoto. Merda! Eu beijei um garoto! Na boca. Na frente de todos os meus amigos.

E como se isso já não fosse humilhação o bastante, Julian Solo — aquele bastardo idiota que se acha um deus — virou amiguinho de Afrodite, apenas para afrontar DeathMask e humilhá-lo ainda mais. DeathMask estava tão revoltado que saíra da equipe de natação na segunda-feira, quando descobrira que Afrodite faria parte dela. Sim, Julian também fizera questão de contar isso para todos na fraternidade, além de vários posts no facebook com fotos dos treinos.

— Relaxa! Você não sabia que era um homem. Isso não significa que você seja gay. — Shaina se aproximou dele, colocando uma mão em seu ombro, e sentou ao seu lado. Ela sabia que ele estaria refugiado ali. — A não ser que você tenha gostado...

— Cala essa maldita boca, Shaina! Olha a besteira que está falando! E quer saber? A culpa disso tudo é sua.

— Minha?! Agora a culpa é minha?!

— Você o conhecia e deveria ter me alertado. Agora estou sendo motivo de chacota na república.

— Nada de que você possa se queixar. Eles só estão retribuindo o que você já fez com todos eles. Estão aproveitando a oportunidade para se vingar por tudo que você os fez passar no semestre passado.

— Isso é tão reconfortante... — disse com ironia, pegando um cigarro e posicionando entre os lábios. Mas Shaina o arrancou de sua boca antes mesmo que ele pegasse um isqueiro para acender.

— Oh, por Deus! Isso vai acabar te matando!

DeathMask torceu os lábios, voltando sua atenção para a tela do computador e olhando novamente a foto de Afrodite.

— Pare de ficar namorando as fotos dele. Isso não vai fazê-lo se transformar numa mulher. — Shaina estalou a língua. O primo parecia estar achando que aquilo era uma ilusão de ótica e estava mais chateado por Afrodite não ser uma mulher do que pelas brincadeiras dos amigos. Até porque DeathMask sabia que, daqui a pouco, todos esqueceriam a mancada do colega, encontrariam novas histórias com novos personagens para o alvo das brincadeiras de mal gosto. Era sempre assim entre eles.

Com a mandíbula apertada, DeathMask fechou a tela do notebook com força, quase o quebrando.

— Eu preciso fazer alguma coisa para calar a boca daqueles idiotas. Principalmente do babaca do Julian.

— Quem sabe se você aparecesse com uma namorada, eles esqueceriam isso.

— Ei... pode ser uma boa ideia! — Ele ficou empolgado. Namorar uma garota bonita era o que ele precisava nesse momento.

— É claro que é uma boa ideia! Eu sou um gênio.

— Hoje terá festa na fraternidade. Faremos o recrutamento dos novos calouros e será a oportunidade perfeita para que eu apareça com uma loira linda, alta e quente, com pinta de modelo internacional.

— Afrodite não é uma mulher — Shaina brincou, arrependendo-se ao olhar para o rosto transfigurado de DeathMask, que deixava claro porque os colegas haviam escolhido aquele apelido para ele. Para sorte dela, Milo passou por eles naquele momento, e Shaina tentou desviar a atenção do primo para outra coisa. — Olha quem está passando ali... Ah, ele é tão lindo!

DeathMask revirou os olhos, exasperado.

— Eu não sei o que você vê nesse bastardo idiota. Ele é um otário! Eu não o suporto! Além disso, como você pode ficar aí suspirando por ele, se ele é um veado? Seu gosto para homem é tão duvidoso, Shaina.

Ela pensou em dizer ao primo que ela, ao menos, não confundia os gêneros das pessoas que beijava nas festas, mas decidiu que era nova demais para ser assassinada por ele, então apenas disse:

— Ele é bissexual.

DeathMask gargalhou antes de responder:

— Em outras palavras: um veado que fica com algumas mulheres de vez em quando para disfarçar, e elas aceitam porque são umas idiotas.

— Eu não entendo porque você tem tanta raiva dele. Vocês eram amigos no primeiro ano — ela falou, ignorando o comentário do primo, já estava acostumada aos seus discursos machistas e preconceituosos. Sabia que debater com ele sobre isso seria perda de tempo. — O que aconteceu mesmo?

— Eu descobri que ele estava transando com o colega de quarto dele, foi isso o que aconteceu. — DeathMask fez cara de asco. — Eu não iria ficar andando com um veado pra lá e pra cá. E olha que eu tentei ajudá-lo a virar macho, e ele me culpou pelo rompimento do namoro dele com aquele outro veado ruivo, metido a cientista. Além disso, foi por causa desse babaca que eu tive que sair do time de futebol americano.

— Às vezes você é tão idiota! — Shaina comentou, balançando a cabeça.

Uma garota bonitinha passou por eles e cumprimentou Shaina. Ela deu a DeathMask um olhar provocante e um sorriso doce.

— Quem é ela? — ele perguntou, interessado.

— Helena. Ela é minha parceira no trabalho de economia. Mas ela é tão bobinha...

DeathMask já tinha visto a garota outras vezes na fila do refeitório, e ela sempre tentava flertar com ele. Como ela não fazia o seu tipo, pois era muito magrinha, ele não dera muita importância na época. Entretanto, ele não podia negar que a garota era muito bonita e, o mais importante, era uma garota, e totalmente diferente de Afrodite. Além disso, precisava agir rápido. Então, guardou o seu notebook na mochila e levantou-se.

— Ei, aonde você vai? — Shaina tentou chamá-lo quando ele se afastou.

— Eu falo com você mais tarde — respondeu, e foi atrás de Helena.

* * *

Enquanto isso, chegando alguns minutos antes da aula do período da tarde começar, Mu viu Aiolia encostado na parede, do lado de fora da sala de aula, trocando números de telefone com uma garota. Ele, inexplicavelmente, sentiu-se incomodado com a cena, fingiu não ter visto o colega e entrou na sala. Colocou sua mochila no chão e sentou-se na cadeira, curvando-se para pegar o notebook. Quando ergueu a cabeça para colocá-lo na mesa, Aiolia sentou sorrateiramente na cadeira ao lado.

— Que bom que você e meu colega nessa aula. Assim, você pode fazer anotações para nós dois.

— Talvez você também devesse fazer algumas anotações, isso te ajudaria com a sua dificuldade em decorar nomes — Mu falou, sem conseguir esconder uma leve irritação, e logo depois se arrependeu, com medo de ter soado rude. Também não entendia porque de uma hora para outra se sentiu chateado com Aiolia.

Nesse momento, uma garota baixinha, ingênua e cheia de esperança, que havia acabado de entrar na sala, sentou-se ao lado deles.

— Oi, Aiolia — ela o cumprimentou em um tom cantado, brincando com os seus cabelos loiros, cheio de mechas azuis.

— Oi, uh...

— Lifyia... — ela falou. — Nos conhecemos na semana de orientação dos calouros.

— Ah, claro, Lifya. Agora eu me lembro — Aiolia mentiu. Havia conhecido inúmeras garotas desde que chegara a faculdade e não se lembrava de um terço delas.

— E então, você vai aos Sanctuary esta noite?

— Não. Tenho outros planos — Aiolia respondeu sem muita paciência, mexendo na faixa de couro marrom que tinha em volta do pulso, e retornando sua atenção para Mu. Ele não gostou de a garota ter falado com ele e ignorado o seu amigo. Aquilo foi grosseiro.

— Ah — disse ela, triste. Seu lábio inferior formou um beicinho por perceber que ele não estava interessado.

Mu se sentiu mal por ter adorado o gelo que o colega deu na tal de Lifya. Isso faz de mim uma pessoa ruim? Ele também estava esperançoso de que os planos de Aiolia o incluíssem. Provavelmente assistiriam juntos à sequência do filme que viram na noite anterior, pensou.

Desde que os dois, finalmente, começaram a interagir e começar uma amizade que Aiolia passou a ficar mais tempo no quarto estudando, ou assistindo filmes e seriados ao lado de Mu. Aiolia não gostava muito de perder tempo com essas coisas, contudo, fazia isso porque era incrivelmente prazeroso estar na companhia colega. Melhor do que estar com qualquer outra companhia. Nem ele entendia muito bem o porquê disso.

Da mesma forma, Mu percebia que estava gostando cada vez mais de ficar perto de Aiolia, e que o julgara mal a princípio. Ainda ficava curioso sobre como passara de estar completamente intimidado pelo colega de quarto a pensar nele como um urso de pelúcia gigante. Aiolia ainda podia ser esquentadinho e um pé no saco, mas era um agradável pé no saco. Ele ainda pegava “emprestado” suas coisas, só que agora deixava bilhetes engraçados que o faziam até chorar de rir. Ele continuava sendo um selvagem bagunceiro e um ridículo paquerador, mas havia se tornado um amigo querido também. E o mais importante, ele era incrivelmente atencioso com Mu.

— Quais são esses incríveis planos que você tem para esta noite? — Mu indagou.

— Festa da fraternidade — Aiolia respondeu para o descontento de Mu. Em seguida, pegou um papel no bolso e sacudiu. — E eu consegui um convite para você.

— Não tenho interesse em festas de fraternidade.

— Está brincando?! São as melhores festas. Sem contar que neste final de semana os veteranos irão recrutar os novos candidatos, e tudo depende dessa festa.

— Grande coisa!

— É grande coisa sim! É prestigioso fazer parte um grupo de amigos que dividem uma tradição encorajada por uma instituição que tem mais de dois séculos — Aiolia disse, empolgado, e colocou o convite em cima da mesa de Mu. — E eu estou contando com a sua presença.

A professora entrou a passos largos, e Mu desviou a sua atenção dos olhos verdes de Aiolia para frente da sala, guardando o convite em sua mochila, embora tivesse certeza de que não iria.

— Boa tarde, turma, alguém aqui já assistiu ao filme Matrix? — A maioria dos estudantes levantaram a mão. — Vocês acham que na vida real é possível manipular os sentidos com perfeição, ou seja, criar situações indistinguíveis da realidade como no filme Matrix? É possível ter a sensação da realidade sem experimentá-la?

— Quando eu digo que essa professora é doida, você diz que estou exagerando — Aiolia comentou, e Mu mordeu o lábio inferior para esconder um sorriso, sem reparar em como Aiolia olhava para a sua boca.

— A resposta está no nosso sistema sensorial e nervoso — continuou a professora. — Na aula de hoje, vamos falar sobe os princípios biológicos do sistema sensorial que permitem o desenvolvimento de tecnologias de realidade virtual.

— Anota isso pra mim, meu Pequeno Gafanhoto.

— Pare de me chamar assim! — Mu reclamou baixinho, enquanto digitava o que a professora dizia. — Pela centésima vez, Aiolia, eu não sou o seu pupilo e não vou te chamar de mestre.

Aiolia deu de ombros.

— Sim, você vai...

— Não, eu não vou — Mu afirmou.

— Antes de discutirmos sobre o assunto, vamos fazer alguns testes — a professora prosseguiu. — Bem, vou precisar de um voluntário. Alguém?

— Meu pequeno gafanhoto, anota aí para o seu mestre — Aiolia cutucou o colega com um lápis.

— Fica quieto. Presta atenção na aula... — Mu o repreendeu, um pouco mais alto do que gostaria.

— Você quis dizer alguma coisa? — A professora se virou na direção de Mu, chamando a atenção de todos para ele.

Aiolia recostou-se na cadeira, reprimindo um sorriso, quando um rubor subiu pelo lindo rosto de seu colega. Ah, parece que seu pequeno gafanhoto ainda odiava chamar atenção para si mesmo. Bem, ele teria que se acostumar com isso se eles estavam começando a ser amigos, desde que Aiolia tinha o mau costume de chamar a atenção para si praticamente em todos os lugares por onde passava.

— Sim, Mu, você tem algo a dizer? — Aiolia perguntou em tom divertido, segurando-se para não gargalhar.

Mu lançou lhe um olhar estreito antes de se virar para a professora. O brilho em seus olhos se foi, apenas para ser substituído por um sorriso bastante doce e inocente. Aiolia estava tão concentrado nesse sorriso que quase perdeu o que Mu disse.

— Não, senhora Logan, não era eu. O meu colega Aiolia estava se voluntariando para participar dos testes.

— O quê?! — Aiolia exclamou, demasiadamente tarde.

A professora sorriu.

— Bem, isso é excelente! Venha até aqui, Senhor Panagoupolis.

Aiolia dirigiu um olhar estreito para Mu, antes de ir para a frente da sala. Mas ele só estava se fingindo de chateado. Ao invés de realmente ficar com raiva, ele sentiu algo como orgulho. Mu estava ficando mais esperto, e isso era graças a ele, claro. Ele levava cem por cento do crédito por isso. Afinal, ele era um grande mestre e estava passando toda a sua sabedoria para Mu. Ao menos era nisso que Aiolia acreditava.

* * *

Algumas horas mais tarde, Mu estava em frente à porta da república dos Sigma Tau, passando os dedos pela sua franja e refletindo que talvez aquilo não tivesse sido uma boa ideia. Com um gemido interior, repreendeu-se por ser um idiota. Que tipo de nerd frequentaria festas de fraternidade? Ele havia ouvido alguns relatos de que essas festas eram assustadoras. Na verdade, algumas coisas das quais ele ouvira falar realmente o tinham assustado, contudo, outras o tinham deixado intrigado. Não que ele fosse admitir, claro, mas em mais de uma ocasião ele se perguntava como seria ir a uma dessas festas; razão pela qual havia aproveitado essa chance hoje. Estava cansado de perder as coisas por conta de sua timidez ou por medo de seu pai o repreender. Além disso, Aiolia havia insistindo tanto... E ele era um universitário agora, caramba, se queria festejar em sua primeira festa, então ele iria, e estava indo para se divertir.

Ou talvez não, pensou, mordendo seu lábio inferior e olhando para as grandes letras em grego acima da porta — Sigma, Tau, Beta. Avaliando que ninguém o vira ali, decidiu que era melhor voltar para o seu quarto. Estava prestes a fazer a sua fuga quando alguém o chamou.

— Hey... — Era um garoto que ele tinha visto centenas de vez ao lado de Aiolia. — Você é o colega de quarto de Aiolia, não é? Eu sou primo dele, o meu nome é Milo — disse, estendendo a mão.

Depois de apenas uma ligeira hesitação — que esperava não ter sido notada — Mu deu um passo para frente e apertou a mão de Milo, observando as inúmeras pulseiras de neon ao redor do pulso dele.

— Oi, meu nome é Mu.

— Eu sei. Aiolia já me falou de você. É bom conhecê-lo, Mu — Milo deu um sorriso charmoso. — Venha, vamos entrar. Eu prometo que você vai gostar.

— Obrigado — Mu falou baixinho, reparando em todos os detalhes, enquanto entrava na festa descontraída.

Havia luzes de neon multicoloridas espalhadas por todo o lugar, que estava lotado de estudantes segurando copos que brilhavam no escuro e dançando ao som de uma música animada que o DJ tocava. Mu ficou impressionado. Era exatamente como nos filmes que ele assistira. Milo percebeu o deslumbramento e perguntou, rindo:

— Você gostou da decoração?

Mu assentiu, sentindo que suas orelhas estavam cada vez mais quentes, e perguntou por Aiolia.

— Ele deve estar com alguma garota por aí... — Algo deve ter se mostrado no rosto de Mu, porque Milo sorriu de canto, com o olhar desconfiado, e passou o braço pelo ombro dele. — Venha, eu vou te apresentar o resto do pessoal.

Mu foi levado por Milo para dentro da república, com um braço por cima do seu ombro. Não demorou muito para que Mu sentisse uma mão grande segurando o seu braço e afastando–o de Milo. Ele olhou assutado para dono do braço, mas sorriu docemente quando viu que era Aiolia.

— Eu estou feliz por você ter vindo.

Mu sorriu encabulado, colocando uma mecha do cabelo atrás da orelha, enquanto Aiolia trazia uma expressão de bobo no rosto.

— Ok, chega dessa melação — Milo falou. — Você quer beber alguma coisa, Mu? Há um monte de bebidas na cozinha.

— Miiiiiiloooo! — Uma garota gritou com a voz arrastada, antes que Mu pudesse dizer alguma coisa. — Estamos jogando quarters. Vem ficar na minha equipe!

Milo curvou uma sobrancelha.

— Estão jogando em equipes?

— Sim. — Ela agarrou o braço dele. — Mime vai jogar com a Megan! Joga comigo!

— Você não gostaria de jogar, Mu? — Milo perguntou.

— Ele não bebe, Milo — Aiolia se antecipou em responder.

— Então ele será o meu parceiro, já que eu também não bebo. — Um cara forte como um touro, de uns dois metros de altura, se aproximou estendendo a mão para Mu. — Eu sou Aldebaran, e estou inteiramente ao seu dispor.

Aiolia revirou os olhos com desgosto.

— Então, que tal participarem da torcida? — Milo sugeriu animado.

— Sim. Venha, Mu, vamos pegar uma água de coco pra gente beber, e depois vamos torcer para a equipe adversária chutar o traseiro deles — disse Aldebaran, ganhando uma risada suave de Mu e um rosnado de Aiolia.

Aiolia continuou resmungando baixinho, enquanto eles seguiam para o pátio, vendo Aldebaran e Milo conversando animadamente com Mu. E, pela primeira vez desde que chegou a universidade, Mu sentiu que poderia se encaixar com os amigos de Aiolia.

* * *

Nesse mesmo momento, não muito longe dali, Afrodite chegava à república dos Ômega Chi. Os dois rapazes que estavam na porta, vestidos de terno e gravata, olharam um para o outro ao vê-lo, mas não disseram nada. Um deles pegou o convite de Afrodite e lhe entregou uma tira de bilhetes para o “bar” criado na cozinha, e um bilhete de rifa para a tabela de prêmios que o outro rapaz vigiava. Os prêmios eram em sua maioria dispositivos eletrônicos — de iPods com sistemas de jogo até uma Smart TV 42’’.

Assim que ele entrou, percebeu que a atenção de quase todos estava voltada para si. Um calouro magricela, que já estava bêbado, tropeçou e caiu praticamente aos seus pés.

— Uau! — Ele respirou fundo ao olhar para Afrodite, que riu ao passar por ele, batendo a mão em sua cabeça como se o garoto fosse um cachorro. A expressão dele de adoração ao toque de Afrodite indicou que ele estava disposto a colocá-lo em um pedestal e tratá-lo como um deus.

Afrodite seguiu em frente e, então, ouviu uma voz feminina.

— Dite! — Era a voz de Tétis, namorada de Julian. Ela também fazia parte da equipe de natação e era chamada de “a sereia”, devido a sua beleza e sua habilidade como nadadora. A garota estava linda num vestido rosa, decotado e curto. Ao lado de Tétis, estava Julian, tão bonito quanto a namorada, vestindo em um terno lápis cinza, de perfeito corte, e gravata azul.

Afrodite sorriu para os dois.

— Que bom que você veio — Julian estava realmente satisfeito com a presença de Afrodite. Ele o convidara porque queria desestabilizar DeathMask, pois sabia que ele ficaria furioso e acabaria brigando ainda mais com seus companheiros, ao ponto de não conseguir se eleger presidente da fraternidade, cargo que Julian cobiçava para si.

— Acabei de chegar. Nossa! O lugar parece incrível! — falou, dando uma olhada pelo ambiente decorado. O tema da festa era Embalos de Sábado à Noite e a banda tocava uma canção dos Bee Gees. — Obrigado por me convidar.

— Que bom que gostou. — Julian pegou um copo com uma bebida vermelha, de um cara que estava passando com um punhado delas, e entregou a Afrodite. — Venha, quero que você conheça uma pessoa.

Afrodite o seguiu, ao lado de Tétis, até a cozinha, onde Radamanthys estava quase perdendo a paciência com Paul.

— Você não vai me ajudar, não vai fazer nada? — Paul questionava.

— O que você quer que eu faça? Eu não tenho culpa que você é um fracote e levou uma surra desse tal de Aiolia. Eu não vou me envolver nisso.

— Ele acabou de entrar para os Sigma Tau, e eu achei que você odiasse os Sigma Tau. Qual é, Radamanthys?! Vamos preparar alguns trotes pra esses caras...

Radamanthys respirou fundo, colocando as duas mãos nos ombros do colega.

— Paul, esqueça. Eu já disse que não vou me envolver. Agora me deixe em paz.

Radamanthys percebeu a aproximação de algumas pessoas e, quando viu Afrodite, seus olhos se arregalaram antes de lançar a Julian um olhar de reprovação.

Paul olhava com lascívia para Afrodite. Deus! Ele é muito lindo! DeathMask teve muita sorte de tê-lo beijado. Só que, então, Paul se deu conta de que Afrodite andava com Mu, e sentiu raiva ao lembrar-se do episódio no porão. Afrodite percebera o rapaz o encarando. Se não fosse por aquele sorriso indolente, até que ele seria bonitinho. Paul tinha o cabelo loiro escuro e curto. Não era muito alto, e seus músculos eram graças aos esteroides.

— Afrodite, quero que conheça Radamanthys. Ele é o presidente da nossa fraternidade.

— É um prazer conhecê-lo. — Afrodite estendeu o braço para cumprimentar Radamantys, que retribui por educação.

— O prazer é todo meu — disse e voltou-se para Julian. — Posso falar um momento com você?

Ele assentiu e, em seguida, Radamanthys pediu licença, afastando-se com Julian, enquanto Afrodite ficou conversando com Tétis sobre a decoração da festa.

— Que ousadia é essa?! Por que trouxe esse rapaz para cá? Quer provocar uma briga em nossa festa de recrutamento? Você sabe que DeathMask vai começar uma briga, e eu não vou fazer nada para impedir.

Radamanthys não gostava de Julian, não queria que ele fosse presidente da fraternidade, pois DeathMask era mais fácil de ser manipulado. Assim, ele poderia continuar com sua influência sobre os Ômega Chi.

— Radamatnhys, você já ouviu falar de Alicia Bergman?

— Claro. Todo mundo já ouviu falar. Por quê? — Radamanthys questionou sem entender onde Julian queria chegar. Alicia Bergman era uma premiada atriz sueca, considerada por muitos uma das maiores estrelas do cinema de todos os tempos. Ganhara dois Oscares de Melhor Atriz principal e um de Melhor Atriz coadjuvante. Também era casada com um cineasta americano premiado e famoso. — O que isso tem a ver?

— Afrodite é filho dela com aquele cineasta que ficou famoso pelo filme "Os Deuses do Olimpo".

Os olhos de Radamantthys brilharam.

— Tem certeza disso?

— É claro que eu tenho! Por que você acha que eu o convidei? O meu amigo Sorento é estudante de Belas Artes e ouviu quando algumas garotas do grupo de teatro estavam comentando sobre isso. E, outro dia, Tétis estava com Afrodite quando alguns idiotas dos Lambda Psyo o bajulavam feito urubus, e um deles mostrou uma foto autografada da atriz ao lado do filho, que era Afrodite. E se você reparar bem, ele é a cara dela.

Radamanthys olhou para Afrodite tentando encontrar semelhanças. De fato, o olhar e o sorriso lembravam a atriz; porém, isso não queria dizer muita coisa. Além disso, ainda que as reportagens jornalísticas dele fossem mais ligadas a área da política, sempre procurava se manter informado sobre tudo, e não tivera conhecimento de que o filho de Alicia estava estudando na Golden College. Será que era porque focara demais em Lune?

— E por que eu não fiquei sabendo disso antes?

Porque você não é tão esperto, idiota — Julian pensou, mas respondeu:

— Parece que Afrodite queria discrição para evitar exposição, essas coisas... A mãe dele é conhecida por ser muito discreta em sua vida pessoal. Eu andei investigando tudo, antes de convidá-lo para vir aqui.

Radamatnhys acariciou o seu próprio queixo, pensativo, e Julian sabia o que aquilo significava. Não poderia ser mais perfeito. Se DeathMask estava se achando por ter levando Lune para a fraternidade, Julian agora também levava alguém importante: o filho de uma celebridade mundialmente conhecida.

— Talvez devêssemos fazer logo o convite a ele, antes que ele entre para outra fraternidade. Pensa bem... na semana de visita dos pais dos calouros, teremos Alicia Bergman aqui na nossa república. Já imaginou isso, cara? Você é jornalista e sabe que pode lucrar muito com isso.

— Tem razão, Julian. Eu farei o convite.

— E quanto a DeathMask?

— Eu me viro com ele. Ter o filho de uma celebridade no grupo será muito bom, isso sempre traz publicidade — ele falou, pensando no dinheiro que conseguiria vendendo as fotos dela quando visitasse a casa, ou alguma foto comprometedora de Afrodite. Depois se entenderia com DeathMask. Radamanthys sempre o convencia a fazer o que ele queria.

Quando voltaram para perto de Afrodite. Ele estava contando para Tétis porque desistira da carreira de modelo.

— Então foi isso, não deu para conciliar — falava Afrodite.

— E aí, Afrodite, está gostando da festa? — Radamantys perguntou e depois de receber uma confirmação, e um comentário de que a casa era muito bonita, fez o convite. — Não gostaria de vim morar aqui conosco?

— Está me convidando para entrar para os Ômega Chi?!

— E espero que aceite.

Afrodite afastou seus cachos loiros com as mãos.

— Ainda estou avaliando. Os Lambda Psy já me fizeram o convite, e também quero visitar os Sigma Tau... — ele se fez de difícil. A verdade, entretanto, é que estava louco para entrar para os Ômega Chi.

— Bem, espero que pense com carinho. Acho que você irá adorar fazer parte do nosso grupo de amigos. Agora preciso resolver algumas coisas, mas eu já volto. Espero que aproveite a festa — disse e se retirou, depois de dar uma olhada significativa para Julian, como que o incumbindo da missão de convencer Afrodite a aceitar o convite.

Radamatnhys saiu para ir falar com DeathMask, explicar-lhe a situação do seu jeito. Mas Paul havia sido mais rápido. Assim que ouvira a conversa, correu para contar ao colega a novidade.

* * *

DeathMask estava com Helena na varanda do segundo andar. Ela estava com a perna enganchada no quadril dele, encostada na parede. Quando ele percebeu a presença de Paul, que estava os observando, tirou a mão de baixo da saia dela.

— O que você quer, Paul?

— Já sabe da novidade?

— Não, eu não sei. Mas tenho certeza de que você está louco para me contar.

Paul olhou para Helena e depois voltou o seu olhar para DeathMask, em deboche.

— Nossa! Alguém aqui vai ficar com ciúmes. Disputar com uma celebridade.

— Desembucha logo, Paul. Eu tô sem paciência.

— O cara que você beijou... — Paul foi interrompido por DeathMask, que o agarrou pelo colarinho e o prensou contra a parede, pronto para esmurrá-lo, sob o olhar amedrontado de Helena, que não sabia se estava com medo de uma briga ou chocada com o que ouvira. DeathMask tinha beijado um garoto?!

— Qual é a sua, seu babaca?! A surra que aquele calouro te deu não foi o suficiente, tá querendo apanhar mais? — Ele estava se segurando para não espancar Paul, por conta do olhar de medo de Helena. Mas estava louco para dar uma surra no idiota, assim como fizera com outros dois colegas por conta das piadinhas relacionadas a Afrodite e ele. — Radamanthys já não alertou sobre o que aconteceria se houvesse mais brigas entre nós por conta dessas brincadeiras estúpidas?!

— Espera aí, DeathMask. Calma! Eu sou teu amigo, cara... Radamanthys é que não é teu amigo assim como você pensa.

— Do que você tá falando?

— Eu vim aqui te alertar que Radamanthys acabou de convidar Afrodite para se juntar aos Ômega Chi.

— O quê?!

— É isso mesmo que você ouviu. Afrodite está lá em baixo agora, com Julian e seus puxa-sacos. E Julian contou para Radamanthys que Afrodite era filho de uma atriz famosa. E você conhece...

DeathMask soltou Paul, que caiu com um saco de batatas no chão. Sim, ele conhecia Radamanthys, e se Afrodite fosse mesmo filho de gente famosa, ele, com certeza, faria o que Paul disse que ele tinha feito. Sem pensar duas vezes, DeathMask ignorou os protestos de Helena e saiu em passos largos atrás do seu amigo para tirar satisfações.

Ele desceu as escadas correndo, dando de cara com Radamanthys que subia, atrás dele.

— Eu estava te procurando...

— Seu traidor! — DeathMask empurrou Radamanthys, que bateu as costas com força na parede.

— Você ficou maluco?! — Ele o olhou com um brilho frio nos olhos e os punhos cerrados. Só não revidou porque era um homem controlado e não seria interessante uma briga deles naquele momento.

— Que história é essa de que você e Julian convidaram aquele veado para entrar para a fraternidade? — rosnou, apontando-lhe o dedo. Quem olhasse para ele pensava que estava possuído. — Que traição é essa?!

— Então alguém já te contou... — Radamanthys se recompôs. — Primeiro, acalme-se. Como vai querer ser presidente da fraternidade se não tiver calma para lidar com situações delicadas?

— Como você quer que eu tenha calma?! Você tá querendo transformar essa casa num abrigo de veados, porra!

— Você tá vendo só o lado ruim das coisas. Não está agindo como um bom político. Não percebe que Julian está tentando provar que você não é capaz de ser o presidente? Que não tem capacidade para controlar situações de confrontos? Vai deixar que ele consiga fazer isso?

— Bem, você está o ajudando. Não sei mais de que lado você está!

— Estou do seu lado, seu imbecil. E você sabe disso. Eu sou o seu melhor amigo aqui, se esqueceu?

— Se realmente está do meu lado, se realmente é meu amigo, mande-o ir embora. Você terá que escolher: ou ele, ou eu.

— É isso que os amigos fazem, DeathMask? Dão ultimatos um para o outro?

— Olha só o que você está fazendo comigo!

— E você queria que eu fizesse o quê?! Que eu dissesse que não podíamos aceitá-lo porque ele é gay? Mas nós aceitamos Lune que também é gay, e foi você que o convenceu, lembra-se? Além disso, poderíamos ser taxados na faculdade inteira de homofóbicos, preconceituosos, e essas coisas. Se fosse qualquer um, tudo bem. Mas o cara é filho de uma artista famosa, isso mancharia a minha reputação e atrapalharia a minha carreira política. Você sabe dos meus planos — Radamanthys disse e depois cruzou os braços, com um sorriso debochado. — Ou, então, você queria que eu dissesse que não poderíamos aceitá-lo porque você o beijou? — Gargalhou alto, balançando a cabeça. — Isso seria patético!

DeathMask apertou a sua mandíbula com força, e todos os músculos do seu corpo estavam tensos.

— Olha, eu vou falar aqui como o presidente da fraternidade... Você tem noção do quanto a presença de Afrodite pode ser vantajosa para nós? Pense na publicidade e no status que ela traz para a casa. Fora as doações milionárias, que, com certeza, a mãe dele nos fará, eu mesmo cuidarei disso. E por falar em doações milionárias... Acha que é barato manter essa casa com o luxo que temos? Julian, apesar de ser um imbecil, é o que mais faz doações aqui. É ele quem está bancando essa festa, os prêmios; e o convite para Afrodite é um pedido dele... Então, esqueça esse maldito beijo, ignore a presença dele e finja que nada aconteceu, porque... confie em mim, não vai querer que eu faça aquela escolha. — DeathMask engoliu em seco, inconformado, e Radamanthys continuou. — Agora eu vou falar como seu amigo... Você vai abrir mão de tudo que você batalhou até aqui para ser o presidente dessa fraternidade por causa deles? Por que você cometeu um equívoco que qualquer um cometeria estando bêbado como você estava? Sim, porque todos nós pensamos que ele fosse uma garota.

DeathMask respirou fundo e passou as mãos pelos seus cabelos.

— Olha, é que eu não posso suportar isso.

— Pode sim! E pode aproveitar a situação e transformá-la em algo favorável para você. Mostre a Julian e aos outros que você é capaz de lidar com isso como um bom líder, que é o que você vai ser. Você quer ou não quer ser o presidente da fraternidade? O seu pai está te cobrando isso, não está? Você não quer deixá-lo orgulhoso?

— Você sabe que sim.

— Escute-me. Se você quer realmente algo, não pode deixar pequenas coisas entrarem no caminho do que você quer. O que você tem que pensar é: “o quanto eu quero isso?”. Aí, você faz o que for preciso. E pronto.

DeathMask respirou profundamente. Ele não podia desistir da fraternidade. O seu pai já havia sido o presidente em sua época de estudante e agora esperava isso do filho. Então, insatisfeito, assentiu. Radamanthys passou um braço em seu ombro.

— Venha, vamos tomar uma bebida juntos e esquecermos isso.

* * *

Um pouco mais tarde, Aiolia e Aldebaran estavam na sala de jogos assistindo a uma disputa entre Milo e Mu no videogame. Foi uma ideia que tiveram quando, numa conversa animada sobre League of Legends, Mu mencionara que nunca havia jogado.

— Eu estou ganhando? — Mu perguntou inocentemente, mordendo o lábio inferior; e algumas pessoas que estavam ao redor deles riram. Definitivamente, ele não estava ganhando.

— Você está indo muito bem, meu pequeno gafanhoto — Aiolia falou e seus olhos caíram para os lábios carnudos do colega. Mas que diabos era isso?! Ele puxou os olhos a tempo de pegar o olhar sujo de Aldebaran e o sorriso enviesado de Milo.

— Quer tentar outra vez? — Milo perguntou, assim que venceu a partida.

— Acho melhor não — disse Mu, levantando-se e afastando-se.

— Aonde você vai? — Aiolia quis saber.

— Vou buscar alguma coisa para comermos.

— Quer que eu vá com você? — disse Aldebaran, levantando-se e ignorando o olhar atravessado que recebia de Aiolia.

Mu sorriu suavemente.

— Não, obrigado. Eu vou ficar bem.

Aldebaran relutantemente sentou-se.

Milo estava entretido no celular, mandando alguma mensagem, enquanto Aldebaran e Aiolia ficaram se encarando em silêncio por alguns minutos, antes de Aiolia falar:

— Nem pense nisso. Ele não está interessado.

Aldebaran bufou.

— Só porque você é colega de quarto dele e fica por aí dizendo que ele é o seu protegido, não significa que você pode falar por ele.

Aiolia tomou um gole de sua bebida, acenando com a cabeça lentamente.

— Eu sei que ele não é gay...

— Bem, eu prefiro ouvir isso da boca dele.

— Não há nenhuma maneira no inferno que eu vou deixar um idiota como você perto dele! — rosnou.

— Por quê? Está querendo ele para você? — Aldebaran riu, debochado.

Aiolia mal conteve seu temperamento.

— Não, eu não! Não estou interessado nele assim. Ele é apenas um amigo, nada mais.

— Sim, está bem. Continue dizendo isso a si mesmo. Qualquer pessoa com dois olhos abertos pode dizer que você está preparando para atacar.

— Isso é besteira — Aiolia falou com os dentes cerrados.

— Olha, é Mu quem faz as escolhas dele — disse Aldebaran levantando-se bruscamente. — Se ele quiser sair comigo, ele vai. Você não tem voto nisso.

— Vamos ver — Aiolia ainda gritou, sabendo que daria uma surra em seu amigo se ele tentasse alguma coisa com Mu.

Aldebaran saiu pisando alto e Milo guardou o celular no bolso, aproximando-se do primo e colocando um braço em seu ombro, enquanto as outras pessoas que estavam por perto se dispersavam.

— Então, há alguma coisa acontecendo entre você e Mu? Parece que você gosta dele.

— Eu gosto dele — Aiolia respondeu. — Ele é meu amigo.

— E ele é muito bonito também — Milo acrescentou com um olhar sugestivo.

Aiolia mal conteve uma gargalhada.

— Você sabe que eu não sou gay! Se eu gostasse de homens, já teria dormido com algum.

— Uh... Uhm...

— O que você quer dizer com esse “Uh... Uhm...”?

Milo encolheu o ombro.

— Nada. — Alguns segundos depois, ele prosseguiu: — Só que naquela noite em que estávamos no seu quarto e eu te masturbei, você estava bem duro para quem não sente atração por homens. E se você não tivesse deixado a porta destrancada, e Aiolos nos pegado em flagrante...

— Eu tinha doze anos! — Aiolia gritou, interrompendo a fala do primo. — E nós estávamos vendo fotos de mulheres peladas. Por Deus! Esquece isso.

— Eu também me lembro de você ter me confessado que beijou um garoto na festa de despedida do time da escola. E você não tinha só doze anos.

Aiolia bufou. Ele estava completamente bêbado no dia daquela festa e não se lembrava da metade do que tinha feito ou falado na madrugada. Ele ainda desconfiava de que Milo tinha inventado essa história de que ele tinha beijado outro garoto.

— Você que está dizendo, eu não me lembro disso.

— Claro! — disse Milo com um sorriso irônico, irritando Aiolia ainda mais, depois ele riu mais abertamente. — Oh, aqui vem o objeto de seu desejo.

— Cala a boca! — Aiolia exclamou.

Mu voltou com uma bandeja cheia de comida em seus braços, enquanto Milo, com um sorriso bobo, afastava-se para ler a mensagem que recebera no celular. Era uma resposta da mensagem que Milo havia mandando para Camus alguns segundos antes.

“Então está querendo perder outra vez?”

Ao invés de mandar outra mensagem, Milo ligou para o ex-namorado.

E isso lá são horas de você ligar para as pessoas — Camus atendeu. Seu tom não era ríspido.

— Eu sabia que estava acordado. Ou, então, não teria respondido minha mensagem. Aposto que você está sentando em sua cama, lendo algum livro pela terceira vez.

Pois você errou feio — disse Camus, do outro lado da linha, fechando o seu livro. Na verdade, era a quarta vez.

— E então, preparado para minha revanche?

— Eu já te aviso que você vai perder novamente. Você pode ser um bom jogador de futebol, mas eu sou muito melhor no boliche.

— Não tenha tanta certeza disso. O que você está fazendo? Está sozinho?

— Estou indo dormir agora. Devia fazer o mesmo ao invés de ficar curtindo essas músicas de péssimo gosto. Estou ouvindo daqui. E sim, eu estou sozinho.

— Não se encontrou com o seu namoradinho hoje?

— Primeiro, isso não é da sua conta... Milo, vai curtir a sua festa, vai... Eu vou desligar agora. Boa noite.

— Boa noite, Camus. Durma bem... — falou e, após Camus desligar o telefone, respirou fundo melancolicamente — ...e eu ainda te amo.

Ficou escorado na parede alguns minutos, pensando no o ex-namorado e desejando estar com ele. Depois, desviou o olhar em direção a Aiolia, que ensinava a Mu algumas táticas de jogo. Milo sorriu. Seu primo poderia ainda não admitir, mas era meio óbvio que ele tinha desejos homossexuais. E mais óbvio ainda que estava louco por Mu.

* * *

Já passava das duas horas da manhã quando DeathMask resolveu não se esconder mais. Ele estava escorando numa parede com um copo de uísque na mão, observando um grupo de pessoas imitando os famosos passos de John Travolta ao som de “Stayin Alive” sob o globo de discoteca motorizado na designada pista de dança — uma área que foi desobstruída de móveis —, bem na frente da banda. Essas pessoas eram Afrodite, Tétis, Pandora, Valentine e mais duas garotas que ele não conhecia. Em pouco tempo, outros se juntaram ao grupo numa espécie de flash mob improvisado. Primeiro, algumas meninas e depois os meninos. Claro que os seus amigos já estavam terrivelmente bêbados, a contar por aquelas gravatas amarradas em suas testas e os passos desengonçados. DeathMask revirou os olhos. Ele definitivamente não pagaria esse mico. Sem. A. fodida. Chance.

Próximo de DeathMask, Radamanthys falava alguma coisa no ouvido de Lune, que parecia entediado, com sua costumeira expressão de nojo ao ver algumas garotas seminuas subindo para o segundo andar com alguns caras.

Assim que a música acabou, mudou para algo lento e alguns casais foram se formando na pista de dança. DeathMask viu quando Afrodite riu de alguma coisa que Tétis comentou, e então caminhou em direção ao bar, passando exatamente por onde ele estava.

DeathMask sentiu um bolo se formar na garganta, e ele julgou que fosse de raiva.

No momento em que Afrodite o viu, estancou seus passos e não conseguiu segurar o sorriso que foi de orelha a orelha, assim como o disparar dos batimentos do seu coração. Estava a noite toda procurando por ele disfarçadamente. Na verdade, foi só por causa dele que havia ido àquela festa, ao invés de ter ido para a casa dos Sigma Tau com Mu. Só que o sorriso foi murchando e perdendo o brilho, à medida que notava o semblante de DeathMask ficando cada vez mais emburrado, ainda que nenhum dos dois quebrasse o contato visual.

Foi então que Helena apareceu e abraçou DeathMask, pendurando-se em seu pescoço, já que ela era bem menor do que ele. DeathMask não estava nem um pouco interessado em beijar Helena, mas lhe deu um beijo cinematográfico.

Apesar da sensação de ter levado um soco no estômago, Afrodite empinou o nariz, jogando os cabelos longos ao vento, antes de seguir seu caminho.

Quando DeathMask encerrou o beijo e sorriu debochado, virando-se para olhar se Afrodite estava com cara de tacho. No entanto, sentiu-se decepcionado e um esquisito vazio no peito quando percebeu que ele não já estava mais lá.

* * *

Notas finais
NOTAS DO CAPÍTULO: Gafanhoto, nesse caso, significa aprendiz, alguém que está buscando conhecimento. A expressão vem de um seriado Kung Fu onde o mestre (Sr. Miyagi) era um monge e se referia ao seu discípulo (Daniel Sam) como "meu pequeno gafanhoto" quando respondia suas dúvidas. Isso gerou a fábula "O Mestre e o Pequeno Gafanhoto" PS: Créditos devidos à R.L. Mathewson, cujo livro me serviu de inspiração para a cena de Mu e Aiolia, especialmente o apelido carinhoso de Pequeno Gafanhoto. (Embora eu já tenha visto algo sobre isso em alguns blogs) "Quarters" É um jogo bastante conhecido em festas universitárias, especialmente nos EUA e Canadá. NOTAS DA AUTORA: Agora a coisa ficou feia para DethMask. Afrodite entrou na fraternidade dos Ômega Chi! Será que isso vai dar alguma coisa que presta? Não percam as cenas dos próximos capítulos... Hahahah... E então gente... Obrigada a todos que estão acompanhando, principalmente aos que tem comentando. Não se acanhem em dizer o que não estão gostando na história. Eu não tenho problemas com críticas, ao contrário, acho que elas são importantes e fazem parte do processo. Assim como tbm gosto de saber o que está dando certo. Então é isso. Aquele super beijo para vcs que são lindos, cheirosos e, assim como eu, apaixonados por esses cavaleiros maravilhosos! Até mais. 25/08/2015 às 22:29