Golden College
6 To give up or not give up, that’s the question
Notas iniciais
— GOLDEN COLLEGE –
To give up or not give up, that’s the question

— Você quer, por favor, prestar atenção no que eu estou falando? — Afrodite reclamou cruzando os braços, exasperado, enquanto caminhava em direção ao refeitório, ao lado de Mu.
— Ah... Me desculpe. — Mu guardou o celular na mochila. — Só estava respondendo a mensagem de Aiolia.
— Aiolia, Aiolia... Deus! A cada dez coisas que você fala, nove é sobre esse garoto. Estou começando a achar que está rolando algo a mais do que somente amizade nesse coraçãozinho aí.
— Claro que não! Que ideia, Afrodite! — Mu protestou, sentindo suas bochechas arderem.
É claro que ele não sentia nada mais além de amizade por Aiolia. Tudo bem, ele tinha que admitir que sempre ficava impressionado com aqueles músculos bronzeados do colega, com aquele sorriso cafajeste que fazia seu coração bater mais rápido do que o normal, e sempre tinhas aquelas fisgadas incomodas que sentia no baixo ventre toda vez que estavam muito próximos; mas isso não queria dizer nada. Além do mais, Aiolia nunca iria olhar para ele com outros olhos.
— Ele não gosta de garotos... E mesmo se não fosse assim, eu só o vejo como amigo; do mesmo modo que você e eu.
Afrodite olhou de soslaio para Mu.
—Tá bom, tá bom... Sei.... Vou fingir que acredito só porque não estou a fim de render o assunto sobre isso agora. Preciso desabafar o meu drama. Se você me escutar, é claro — proferiu a última frase com um tom afetado e abanando a mão de forma dramática.
— Pode falar, Dite. Sou todos ouvidos. — Mu revirou os olhos, sorrindo.
— Então, como eu estava te dizendo... Tetis me contou que ele ficou super revoltado depois que descobriu que eu entraria para fraternidade. Até pensei em desistir por causa disso, quer dizer, ainda estou pensando a respeito.
— Ele é um idiota, homofóbico, que não sabe nem diferenciar um homem de uma mulher. Também não dá para esperar bom senso de um cara que se apresenta com um apelido desses... DeathMask?! Por Buda!
— Pois é! Foi exatamente o que eu pensei... — anuiu, antes de suspirar. — É mesmo uma pena um cara tão gato ser tão babaca!
Os dois entraram no refeitório e seguiram para a fila da comida, tão concentrados na conversa que sequer notaram que estavam sendo observados por alguém.
Esse alguém era DeathMask, que se encontrava sentado ao lado de Paul e mais dois colegas.
— Ainda não engoli essa história de Radamanthys convidar esse Afrodite para entrar para a nossa fraternidade. Nem ele e nem aqueles outros dois, o tal do Lune e do Valentine — disse um dos colegas, conhecido pelo apelido de Faraó.
— Eu também não. — DeathMask empurrou seu prato de comida para o lado, acabara de perder o apetite. Isso estava acontecendo com frequência desde que descobrira que beijara um homem.
— Eu acho que vamos perder um pouco da nossa liberdade quando eles se mudarem para a república. Pra mim, eles estarão sempre nós olhando com outros olhos, reparando no nosso corpo, só esperando pelo momento de atacar.
— Nossa! Que idiotice você acabou de dizer, Faraó — falou o outro colega, chamado Orpheu. — Não é porque o cara é gay que significa que ele esteja a fim de você ou pronto para atacar qualquer outro cara que vê pela frente. Além disso, mesmo que fosse dessa forma, eu, por exemplo, não me importo de ser admirado por outro homem, assim como não me importo de ser admirado por uma mulher em que eu não esteja interessado. Tenho certeza da minha orientação sexual, não vou virar gay só porque tenho um amigo gay, ou porque algum homem gostou de mim.
— Mas sei lá... Esse Afrodite tem um rosto muito bonito e feminino. Vai que alguém se embebeda demais e, numa noite louca de seca braba, acaba confundido e dando uns pegas... — Calou-se quando percebeu o olhar mortífero de DeathMask, dando-se conta de que algo parecido já havia acontecido com o colega ao lado. — Bem, vocês me entenderam.
DeathMask deu um suspiro de lamento. Ele sempre seria lembrado como o cara que beijara um homem achando que era uma mulher. Maldito Afrodite! A culpa era dele, de Afrodite. Por ser bonito daquele jeito! Ponderou enquanto o observava na fila da comida. Afrodite parecia estar conversando sobre algo muito engraçado, pois sorria animadamente e gesticulava para o outro garoto. Quem era mesmo aquele garoto?!
— Não fale bobagens. Além do mais, Radamanthys já o convidou e vocês terão que aceitar — disse Orpheu, levantando-se. — Bem, já estou indo. Combinei com a minha namorada, Eurídice, de estudarmos juntos na biblioteca.
— Acho que deveríamos dar um jeito de excluí-lo — Paul disse quando Orpheu não estava mais lá, e Faraó concordou.
— Está brincando! — DeathMask exclamou. — Radamanhtys nunca deixaria isso acontecer. É mais fácil ele nos expulsar da república.
— Convidar esse cara para a fraternidade foi uma afronta a você. Eu, no seu lugar, faria alguma coisa para esse Afrodite cair fora — Paul falou para DeathMask.
— O que eu posso fazer?
— Bem, acidentes acontecem... sabe como é.
— O que você quer dizer com isso?
— Quem sabe se você o machucasse um pouco, ameaçasse-o para desistir. Podemos juntar nós três e darmos uma boa surra nele e nesse amiguinho dele. Esse Afrodite nunca mais iria se meter em seu caminho outra vez.
— Tá maluco, Paul?! Tá usando maconha estragada?! — DeathMask questionou. Ele podia não ser um exemplo de bom moço, mas também não era um bastardo covarde para se juntar com dois caras no intuito de dar uma surra em alguém, ainda que esse alguém fosse Afrodite, o culpado de todos os seus atuais problemas. — Não vou fazer isso. Além do mais, tenho uma ideia muito melhor, vou botar pressão nos testes até que ele não aguente mais e desista.
— Claro, como responsável pela iniciação dos calouros você pode fazer isso. — Faraó se empolgou. — Saiba que pode contar com a minha ajuda.
— Então venha comigo. — DeathMask levantou-se, sorrindo e sentindo-se revigorado por acreditar ter encontrado uma solução perfeita. — Precisamos agilizar algumas coisas para colocar o meu plano em prática o mais rápido possível — disse, antes de rumar em direção à saída do refeitório, seguido de Paul e Faraó. Estava muito esperançoso de que seu plano fosse dar certo.
* * *
No final da tarde, Milo também estava esperançoso de que a bola desviasse do caminho e caísse na canaleta quando Calvin, o colega de quarto de Camus, lançou-a em direção aos pinos. Mas isso não aconteceu.
— É isso aí! — Calvin comemorou ao fazer um striker.
— Ah! Você é o melhor, meu amor — a namorada dele pulou em seu colo de forma animada, dando-lhe um beijo na boca.
— Por que quando eu faço um strike não recebo um beijo desses? — Milo perguntou a Camus, fazendo cara de cachorrinho abandonado.
— Ei, Betty, Milo quer saber por que quando ele faz um strike não recebe um desses também.
A garota sorriu, ainda pendurada no pescoço do namorado, que lançava para Milo um olhar acentuado, fingindo ciúmes. Claro que estava fingindo. Sabia que Milo estava falando com Camus e não com a sua namorada.
— Você está muito engraçadinho! — Milo falou, aproximando-se mais de Camus, que se levantou para fugir do ex-namorado, com um olhar que dizia “não vem que não tem”.
— Minha vez — Camus pegou uma bola e foi para frente da pista. Eles estavam jogando em dupla contra Calvin e a namorada dele naquela noite.
Milo respirou fundo, tomando um gole de seu refrigerante, enquanto observava o seu parceiro segurar a bola um pouco de lado, aproximar-se da linha e fazer a mira antes de arremessá-la. Aquela era a última jogada, a que definia o jogo, mas Milo já sabia que ganhariam, pois, além de precisarem de poucos pontos para ultrapassar os adversários, Camus era um ótimo jogador de boliche; e, por mais que Calvin também fosse, a namorada dele tinha errado muitas jogadas.
Como Milo havia previsto, Camus fez um striker. Milo tentou imitar a comemoração de Betty, abraçando o ex-namorado e arriscando beijá-lo. Entretanto, Camus segurou-o pela manga da camisa a fim de afastá-lo para o lado. E foi então que notou algo.
— Você tem um buraco.
Milo franziu a testa, obviamente não entendendo. Camus acenou com a cabeça para a manga da camisa de Milo. Havia um buraco no tecido, em seu cotovelo direito.
— Droga! — Milo murmurou, realmente chateado. Aquela era sua camisa favorita, a que mais usava. Seus colegas chegavam a brincar que aquela camisa poderia ir sozinha para as aulas. — Como isso aconteceu? Preciso colocar um remendo nela.
— Você precisa é jogar essa camisa fora. Tem tantas roupas, não há necessidade de consertar uma camisa velha.
— Eu não vou jogá-la fora — Milo falou, ainda analisando o buraco em sua manga. — Eu adoro essa camisa.
— Compre outra. Não é um modelo tão exclusivo assim. Em qualquer loja você encontra uma igual.
De fato, era uma camisa simples, branca, com modelagem reta, mangas longas e fechamento frontal. Mas não era pelo modelo que Milo tinha tanto apreço por ela. Aquela camisa tinha sido um presente de Camus, o primeiro presente que Camus dera para ele logo que começaram a namorar.
— Não quero outra, quero essa. Acho que tem uma costureira perto da república, amanhã a levarei lá. — Milo parecia verdadeiramente triste e preocupado em perder sua camisa preferida.
Camus nunca fora sentimental e raramente fazia um grande negócio sobre qualquer coisa, só que achou realmente doce a afeição do ex-namorado com aquela camiseta que lhe dera. Então, num impulso de ternura, ele se aproximou mais e deu um selinho em Milo, que, em instantes, mudou o seu semblante de desanimado para bem-disposto.
— Foi só um selinho de amigos — Camus fez questão de deixar bem claro, ao perceber toda aquela esperança estampada no rosto de Milo.
Betty observava como os dois formavam um bonito casal e teve uma ideia para ajudá-los. Quando ela olhou para o namorado com aquele sorriso doce e os olhinhos piscando, ele já sabia exatamente o que significava.
— Nós estamos pensando em sair mais tarde para comer alguma coisa num restaurante novo que abriu aqui no bairro, e depois vamos ao cinema. Ouvi muitos elogios sobre o filme que está em cartaz. Vocês dois não querem vir com a gente? Iremos adorar a companhia de vocês.
Calvin não gostou muito da ideia, porém, sabia que discordar de sua namorada quando ela resolvia bancar o cupido era comprar uma grande briga. E ele não estava disposto. Não depois do que ela havia prometido fazer para ele mais tarde.
Camus refletiu por alguns segundos se deveria ir, afinal, aquilo parecia um encontro de casais. Mas quer saber? Ele estava cansado de lutar contra suas próprias vontades, deixaria que as coisas acontecessem se elas tivessem que acontecer. Além disso, Milo estava tão mudado, tão atencioso, tão mais maduro...
— Eu não posso — Milo respondeu, com uma dorzinha no peito. Queria muito sair com Camus e também sabia que estava perdendo uma grande oportunidade, no entanto, ele não podia esquecer de suas obrigações. — Tenho um compromisso hoje à noite. É a iniciação dos calouros, e eu sou o presidente da fraternidade. Podemos combinar de fazer isso outro dia; por que não amanhã? Eu posso cancelar qualquer coisa que tiver para amanhã, é que hoje não dá mais tempo de fazer isso, pois o pessoal teve muito trabalho para organizar tudo.
— Não se preocupe em cancelar nada, Milo. Eu também não poderia ir, de qualquer forma — disse Camus, fazendo um grande sacrifício para esconder sua irritação. Aquela maldita fraternidade! Sempre. Aquela. Maldita. Fraternidade! Onde ele estava com a cabeça quando pensou em dar uma chance a Milo? Quando pensou que o ex-namorado teria mudado? Não, definitivamente, devia ter perdido o juízo; ainda bem que o recuperou a tempo. Olhou no relógio, como se estivesse atrasado para algum compromisso. — Foi bom jogar com vocês, mas preciso ir. Também tenho algumas coisas para fazer esta noite.
— Camus, espere — Milo o chamou. — Jogaremos novamente amanhã?
— Combinei de sair com Chris — mentiu, propositalmente para feri-lo. A verdade é que Camus havia dispensado Christian por ele ficar questionando suas saídas com Milo para jogar boliche. Só que talvez fosse o momento de repensar sobre isso.
— Achei que você não estivesse mais saindo com ele.
— Achou errado. — Camus fez sua típica cara de paisagem, antes de se despedir do casal de amigos e se retirar, deixando Milo roendo a unha do dedo mindinho.
Betty olhou para o namorado, sentindo-se estúpida. Fora ajudar, mas parecia que acabara atrapalhando.
— Também precisamos ir, Milo. Vamos marcar de jogar novamente qualquer dia desses — Calvin falou e Betty se despediu com um aceno para Milo. — Até mais.
— Até mais — respondeu com o olhar longe, sentindo-se um idiota azarado.
Parecia que as coisas nunca iriam se acertar entre ele e Camus. Apesar disso, ele não ia desistir.
***
Abandonar a ideia de entrar para a fraternidade foi algo que, momentaneamente, passou pela cabeça de Afrodite quando estava na biblioteca, concentrado em terminar o seu trabalho de química, e o celular vibrou alertando para a chegada de uma mensagem.
“Candidato, você tem cinco minutos para ir à república ou sofrerá as consequências”.
Pensou por alguns instantes se entrar para aquela fraternidade era o que queria ou não, e, após decidir, arrumou o seu material e partiu em direção à república dos Ômega Chi. Estava um pouco longe, mas isso de forma alguma o faria correr até lá. Seria algo deselegante, eles que esperassem um pouco.
Já haviam se passado vinte minutos quando ele, enfim, entrou na casa, e todos os outros candidatos já tinham chegado. Eram, contando com ele, vinte estudantes eufóricos e empolgados por terem sido selecionados. Eles estavam de pé, um do lado do outro, em frente à comissão da fraternidade, que era formada pelo presidente, Radamanthys; pelo vice-presidente e responsável pela iniciação de calouros, DeathMask; e por Julian, o tesoureiro e secretário de relações públicas. Os demais membros da fraternidade estavam espalhados pela sala apenas observando a iniciação dos calouros. Alguns estavam muito aliviados por, finalmente, não serem mais os alvos de trotes, e não viam a hora de descontarem nos novatos.
— Me desculpem o atraso. Eu estava na biblioteca principal, e ela fica um pouco longe daqui — Afrodite explicou.
— Tudo bem, candidato — disse DeathMask calmamente. — Mas terei que fazer vocês pagarem vinte flexões mesmo assim.
— O quê?! — Lune exclamou, inconformado.
— Ouçam bem. O sucesso de um irmão é o sucesso de todos, e a falha de um afeta a todos nós. — A voz do vice-presidente soou alta e intimidadora, e os calouros rapidamente acataram suas ordens. — Eu sou o mestre de candidatos, irmão DeathMask. É meu dever ensiná-los, aos poucos, as ideias que honramos aqui. Auto melhoramento. Liderança. Dedicação — ele falava pausadamente, ao mesmo tempo em que Faraó entregava-lhe alguns livros, que colocava um a um nas costas dos candidatos enquanto eles faziam suas flexões. — E parte da fraternidade é ... — Jogou o livro nas costas de Afrodite, dando-lhe um olhar repreensivo. — ... pontualidade. A capa dura que coloquei nas costas de vocês é o livro dos candidatos. Vocês serão testados por ele.
— A iniciação não serve para humilhá-los — Radamanthys falou. — Seu real propósito é desafiá-los e fazer os garotos que são agora tornarem-se homens de verdade. Por isso, durante esse semestre, se quiserem se tornar um Ômega Chi, terão que apreender todas as nossas tradições, passar por todos os nossos testes e, se tudo ocorrer bem, no próximo semestre vocês poderão se considerar nossos irmãos, o que é um privilégio para poucos. Por isso, rapazes, não nos decepcionem e não se esqueçam de que nosso lema é: sempre podemos fazer melhor.
Os candidatos se levantaram ao terminarem suas flexões e pegaram seus livros. Faraó trouxe alguns envelopes, entregando-os a DeathMask, e eles se entreolharam, cúmplices.
— Senhores, eu apresento a vocês o nosso teste de iniciação. — DeathMask mostrou os envelopes aos calouros. — Cada um de vocês receberá uma lista com algumas tarefas que deverão cumprir em até vinte e quatro horas. Quem concluir a sua lista deverá nos encontrar no Sanctuary amanhã, nesse mesmo horário. Os que não concluírem até lá não vão continuar na disputa. Ah, sim, tem um detalhe, tudo deverá ser fotografado ou filmado para provar que realmente fizeram. — DeathMask entregou o envelope nas mãos de cada um dos candidatos. — As listas contêm tarefas dadas ao acaso e sem tratamentos especiais — frisou quando estava entregando o envelope nas mãos de Lune.
Afrodite abriu seu envelope e arregalou os olhos quando leu as tarefas em sua lista. Ele foi falar com DeathMask enquanto os outros se dispersavam para agilizar suas tarefas.
— Espera aí, acho que você me deu uma lista de piadas ou algo do tipo.
— O quê? — DeathMask se fez de desentendido.
— Tirar uma foto de um professor sem camisa. Dançar twerk somente de cueca no banheiro feminino; assistir as aulas vestido de mendigo; beijar a garota mais feia da faculdade; fazer uma selfie, pelado, na sala do reitor...
— Deixe-me dar uma olhada nisso. Oh, entrar na jaula de um leão e alimentá-lo com folhas de alface. Essa é a minha tarefa favorita... — falou, sorrindo com ironia e entregando a lista de volta a Afrodite. — Olha, você é um dos garotos agora. Ficaria estranho se nós te déssemos uma lista mais fácil só porque você é assim... delicado demais, entende? Aqui não é lugar para rosas, é um lugar para machos. Se você não é capaz de concluir suas tarefas porque não é homem suficiente...
— Eu sou muito homem, se quer saber — Afrodite disse com firmeza.
— Ninguém aqui está duvidando disso — DeathMask deu um sorriso debochado.
— E eu vou conseguir cumprir essa lista mais rápido do que você pensa — falou, antes de jogar seus cabelos loiros para trás e se retirar.
— Claro que consegue — zombou, inspirando o perfume gostoso que emanava de Afrodite.
— Eu achei que ele fosse desistir logo depois de receber a lista — Faraó comentou com DeathMask.
— Ele nunca vai terminar essa lista — falou, observando Afrodite ir embora e tentando não reparar no quanto a calça jeans emoldurava bem o traseiro perfeito.
***
Aiolia acordou engasgando e tossindo depois de receber um balde de água na cabeça.
— De prontidão, calouro! — uma voz forçosamente grossa gritou.
Mu levantou-se subitamente por conta do barulho, e uma expressão assustada desenhou-se em seu rosto sereno ao ver várias pessoas encapuzadas como ninjas no quarto, próximas da cama de Aiolia. Mesmo ainda aturdido e com o cérebro lento pelo sono, pensou em ajudar o seu colega quando o viu ser agarrado pelas pernas e braços e carregado para fora, debatendo-se e xingando alguns palavrões. Entretanto, antes que Mu conseguisse fazer alguma coisa, um dos encapuzados se aproximou da sua cama com um jeito predador.
— Você também vem comigo. — Mu reconheceu a voz de Aldebaran, antes de também ser vendado, agarrado e jogando nos ombros dele como se fosse um saco de roupa suja. — Extração completa, rapazes.
— Milo, seu filho da puta! Você vai me pagar por isso! — Aiolia reclamou enquanto alguém cobria o seu rosto com um pano preto. — E eu tenho pernas, se não percebeu.
— Cala a boca, calouro! Respeite seus superiores. — Milo deu um tapa atrás da cabeça de Aiolia. — Vamos logo, galera, não podemos ser descobertos ou teremos problemas.
Arrastando Mu e Aiolia, os veteranos da Sigma Tau avançaram como bandidos pelos corredores vazios, escuros e silenciosos do dormitório. Havia mais veteranos recolhendo outros calouros pelo campus.
Quando Mu e Aiolia foram colocados no chão, no pátio da república, uns vinte calouros curiosos e empolgados — mesmo estando todos com uma venda nos olhos — já os aguardavam. Entretanto, foram obrigados a permanecerem vendados por mais algum tempo, até que todos estivessem ali.
— Onde eu estou e que diabos estou fazendo aqui?! — Alguém que acabara de chegar resmungava com uma voz grossa e irritada, que Mu achou muito familiar. — Mime, quero explicações!
— Podem tirar as suas vendas agora — Mime se pronunciou.
Mu arrancou a tira de pano preto dos olhos e virou-se em direção àquela voz, tentando ver quem era. Embora não pudesse enxergar com clareza as pessoas que estavam ali, pois o local estava completamente escuro, ele reconheceu o dono da voz.
— Ikki?
— Quem é Ikki? — Aiolia quis saber, desconfiado.
— Você também está aqui, Mu? — Ikki achou estranho. Mu, com sua cara de nerd, não parecia o tipo de garoto que frequentava aquele tipo de fraternidade. A maioria dos garotos que estavam ali eram esportistas de corpos troncudos e musculosos. E até mesmo Mime, que também era mais delicado, estava ali porque fazia parte do time de futebol, embora sua participação no time fosse imposição do seu pai para aceitar pagar-lhe a faculdade de artes, pois achava o filho delicado demais.
— Na verdade, fui sequestrado.
— Quem é esse Ikki?! – Aiolia insistiu.
— Eu vou embora agora mesmo. — Ikki já ia se retirar quando Mime segurou em seu braço, pedindo para que ele ficasse. — Que parte de “não gosto de andar em bandos” você não entendeu, Mime? Eu disse que não queria entrar em nenhuma fraternidade idiota!
Ikki estava a ponto de brigar com alguém, desprezava a ideia de entrar numa fraternidade, pois achava tudo aquilo uma bobagem. Só se deixara ser arrastado porque reconhecera que era Mime quem o estava “sequestrando”, e achou que seria algum fetiche do amigo, com quem tinha algumas intimidades. Somente naquele momento, ao notar as outras pessoas, foi que percebeu a real situação.
— Espere, Ikki — Mime continuava segurando no braço dele. — Qual o problema de você se enturmar com meus amigos?
No momento em que Ikki ia retrucar, alguns veteranos acenderam suas lanternas, iluminando o local. Uma música de efeito impactante começou a tocar enquanto Milo, seguido de outros veteranos, saíram de dentro da casa, vestidos apenas com cuecas de couro marrom, capas vermelhas amarradas nos pescoços e elmos espartanos; eles também seguravam lanças e escudos.
— Senhores, hoje é o primeiro dia do resto de suas vidas — Milo falou com uma voz firme, como um verdadeiro líder. — Vocês são os poucos escolhidos para disputar uma vaga na fraternidade Sigma Tau Beta e, esta noite, todos vocês se tornarão homens.
— Mas não na maneira como estão pensando — Aldebaran comentou malicioso, dando uma piscadinha.
— Vocês todos foram trazidos perante nós para participar de um rito cerimonial de passagem que deriva de um antigo ritual grego chamado de cryptea — Milo prosseguiu. — Onde um garoto era enviado à selva para viver da terra e lutar pela vida enquanto defendia a vila. O objetivo dessa iniciação era preparar os garotos para se tornarem os melhores soldados que o mundo já conheceu. O garoto era constantemente testado, ensinado a não demonstrar dor nem piedade, a nunca recuar, a nunca se render, e, quando falhava, era punido com um chicote. E depois de passar por toda essa provação, e se não tivesse sido devorado pelos lobos, ele voltava para casa como um verdadeiro guerreiro e...
— Esse não é o início do filme 300? — Aiolia questionou.
— Silêncio, calouro — Milo gritou. — Não vê que estou dando o meu discurso majestoso!
— É preciso ter muita paciência com esses discursos intermináveis de Milo. Isso poderia facilmente ser resumido numa única frase — Aldebaran, que havia se aproximado de Mu, cochichou no ouvido do novo amigo, ganhando uma risadinha dele, enquanto Milo lançava-lhe um olhar ameaçador.
— Bem, continuando... essa era a iniciação dos garotos espartanos e também será a iniciação de vocês.
Alguns calouros se entreolharam, amedrontados com o que estava por vir, e Milo concluiu:
— Vocês terão que ficar aqui, no quintal, a noite toda, protegendo nossa república e dormindo em contato com a natureza. Na verdade, eu aconselho a não dormirem, os lobos selvagens estão por aí. — Deu uma piscadinha. Estava se referindo aos veteranos que ficaram responsáveis por pintar o corpo de quem dormisse. — Ah, e só mais um detalhe, os garotos espartanos usavam as vestes da guerra por vinte e quatro horas.
— O quê?! — Aiolia prontamente retrucou, indignado. — Mas eu estou só de cuecas! Não posso frequentar as aulas assim.
— Fiquem bem e sejam espertos — disse Milo, ignorando o protesto do primo. — Veremos vocês pela manhã, quando já forem homens.
Retirou-se, sendo seguido pelos outros veteranos, deixando um murmurinho entre os candidatos.
— Isso é uma palhaçada! Eu estou caindo fora, Mime. Te vejo no sábado, Mu — Ikki falou antes de sair, e Mime foi atrás dele, disposto a tudo para convencê-lo a ficar.
— Você ainda não me disse quem é esse Ikki — Aiolia cobrou de Mu, sua mandíbula subitamente apertada.
— Ah, ele é colega de quarto de Afrodite.
— E por que ele combinou de te ver no sábado?! — Aiolia ergueu as sobrancelhas, um brilho frio nos olhos. Seria capaz de trucidar alguém naquele momento, de preferência esse tal de Ikki.
— Afrodite e eu estamos fazendo aula de artes marciais com ele aos sábados pela manhã, apenas isso.
— O quê?! — Aiolia não podia acreditar no que estava ouvindo. Como assim Mu estava tendo aulas de luta com outro cara? Ele fez uma careta. — Desde quando, Mu?!
— Ah... — Mu sentiu suas bochechas pinicarem e abaixou a cabeça, deixando seu cabelo cair para cobrir o rosto; morria de vergonha quando se lembrava daquele dia. — Desde aquele episódio no porão... Você sabe!
— Se você queria aprender a lutar, por que não pediu isso para mim? Eu poderia te dar aula de lutas. Por acaso acha que não luto bem o bastante?!
— Claro que é não é nada disso, Aiolia. — Mu rapidamente esclareceu. Na verdade, as aulas tinham sido uma ideia de Afrodite. — Você luta muito bem, muito bem mesmo! É que Ikki já dá aulas...
— Mu, você é um péssimo Gafanhoto! — Aiolia pronunciou, decepcionado com o colega, antes de se afastar e sentar-se escorado numa árvore.
— Aiolia! — Mu sentiu seu peito apertar. Aquela tinha sido a primeira vez que o colega se referia a ele como gafanhoto com um tom desprovido de carinho. Mu até tentou argumentar, embora não entendesse o porquê de o amigo ter ficado tão chateado, mas Aiolia simplesmente o ignorava e fingia que não havia ninguém ali falando com ele. — Você não vai mais falar comigo?
Aiolia continuou o ignorando.
Mu suspirou profundamente, desolado, observando alguns garotos fazendo uma fogueira com a madeira que encontraram no quintal para aquecê-los. Ainda que fosse verão, a maioria deles estava quase despido e dormiriam sem cobertores no chão frio.
— Aonde você pensa que vai? — Aiolia levantou-se de súbito, finalmente quebrando o silêncio, quando percebeu Mu se distanciando.
— Vou para o meu quarto, — respondeu o óbvio. — Eu não vou dormir ao relento.
— Não pode. Se você não seguir as regras, não será aceito na fraternidade.
— Bem, eu nunca tive intenção de entrar...
Aiolia lançou a Mu aquele olhar de decepção novamente. Estava prestes a dar um sermão sobre os benefícios de fazer parte de uma fraternidade e sobre ele querer que Mu continuasse sendo o seu colega de quarto quando se mudasse para a república, porém, apenas disse com um tom frio e desanimado: — Você que sabe. Só achei que você não fosse assim tão fresco.
— Eu não sou fresco — Mu disse como que ultrajado. E ele realmente não era. É certo de que sempre fora cercado de muito conforto, e ficava um pouco receoso de dormir daquela forma. Mas não era por frescura. Ele só não via necessidade de passar por isso, já que não era sua intenção entrar para uma fraternidade. — É só que...
— Que você não faz questão de fazer parte do grupo, assim como o seu “amiguinho” Ikki...
— Não é isso! Por que você está sendo tão implicante comigo? O que eu te fiz?
— Nada não. Você não fez nada não — falou em um tom irônico, arrancando um galho da árvore e trucidando algumas folhas, com uma carranca no rosto.
Mu suspirou profundamente. Aiolia era tão infantil. O correto seria ignorar aquele mal humor do colega, girar nos calcanhares e voltar para o seu quarto. Mas que se danasse o correto. Ele jamais conseguiria sair e deixar Aiolia chateado com ele daquele jeito, mesmo sabendo que não havia feito nada que justificasse aquilo. Então aproximou-se do amigo emburrado e sentou-se ao lado dele.
— Me desculpe se de alguma forma te magoei — Mu sabia que não havia um real motivo para se desculpar, contudo, era da sua natureza tentar apaziguar as coisas. Não era como se Mu não tivesse seu orgulho. Ele tinha, mas usava quando necessário. Era maduro o suficiente para compreender que ficar bem com o amigo seria mais interessante do que uma disputa de orgulho entre eles por uma simples criancice.
— Então me prometa que você não vai desistir da fraternidade.
— Tudo bem, se é tão importante assim pra você. — Mu deu de ombros.
— É — Aiolia confirmou e aproveitou para dar a seu pequeno gafanhoto uma palestra sobre suas habilidades em artes marciais e em vários outros tipos de lutas, deixando bem claro que seria com ele que Mu continuaria tendo aulas. — E você vai me chamar de mestre.
— Não há nenhuma possibilidade nesse mundo de que isso aconteça, Aiolia. — Mu revirou os olhos. Por Buda! Isso já tinha virado obsessão.
— Que tal, soberano Aiolia?
— Ahm, deixa eu pensar .... Não!
— E que tal...
— Aiolia, vamos tentar dormir?
— Devemos ser os últimos a dormir e os primeiros a acordar para não termos surpresinhas ao amanhecer. O meu irmão também foi um Sigma Tau e me explicou como as coisas funcionam por aqui.
Mu notou os demais calouros tentando se esquentar ao redor da fogueira.
— Então vamos nos sentar com os outros.
Eles se aproximaram e interagiram com os colegas, que contavam histórias, até que, pouco a pouco, eles foram se dispersando, procurando um lugar para repousarem. Como Aiolia havia comentando, os primeiros a adormecer tiveram o corpo pintando e os pijamas cortados pelos colegas, por isso Mu e Aiolia ficaram jogando conversa fora até que já era madrugada e o corpo exigiu o descanso. Os dois se afastaram da fogueira e deitaram um do lado do outro abaixo da árvore onde estavam antes.
— Eles deviam ter providenciado ao menos alguns sacos de dormir pra gente. — Aiolia pensou no quanto iria ser desconfortável dormir quase pelado no chão, sem um cobertor. Olhou para Mu, que contemplava as estrelas. — Ainda bem que não há previsão de chuvas e a noite está estrelada.
— Já houve um momento em que desejei estudar astrologia — Mu comentou, bocejando.
— Você acredita na influência das constelações em nossas vidas?
— Muito — Mu respondeu e sorriu ao ter uma recordação de sua infância. — Quando eu era criança, o meu pai e eu costumávamos ficar algum tempo deitados sobre o telhado de nossa casa para admirar as estrelas; e ele me contava que, numa era remota, existia um grupo de jovens que protegiam a terra quando as forças do mal tentavam apoderar-se do mundo. Eles eram chamados de “os cavaleiros de Atena”. O meu pai me falava que com um movimento de mão eles eram capazes de rasgar o céu, e com apenas um chute abriam fendas na terra.
Mu parou por um instante, observando o quanto Aiolia estava prestando atenção em sua fala.
— Os mais fortes entre eles eram regidos pelas doze principais constelações do zodíaco e combatiam usando sagradas armaduras feitas de um metal especial extraído do pó das estrelas, que somente o cavaleiro de Áries tinha o dom de restaurar. Como esse é o meu signo, eu ficava fantasiando que eu era esse cavaleiro poderoso e ficava brincando de consertar armaduras. Criança tem cada coisa, não é?
— Acho que já ouvi falar dessa lenda — Aiolia falou, abraçando o próprio corpo ao sentir um vento frio. Droga! — Eu vou congelar. Olha só para mim — Aiolia abriu os braços, fazendo seu colega engolir em seco ao analisar aquele corpo nu, musculoso e bronzeado, deitado ao seu lado.
Mu tentou camuflar seu desconforto, já estava acostumado com Aiolia andando só de cueca pelo quarto, mas sempre se policiava para não olhar demais.
— A fogueira vai nos aquecer. — Mu bocejou novamente e virou-se para o lado oposto do colega, dando boa noite.
Aiolia reparou que Mu estava agasalhado com uma calça de flanela e uma blusa lilás, de manga comprida e quentinha, e pensou que ele bem que poderia aquecê-lo, mas não teria a cara de pau de sugerir isso. Então, apenas respirou fundo, desejou boa noite ao amigo e resolveu tentar dormir também. Horas mais tarde, o frio começou a apertar e acabou abraçando Mu, sem perceber, dormindo quase de conchinha.
Claro que isso rendeu muita algazarra para os outros colegas no dia seguinte.
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