Golden College

2 Thank God it's friday


Notas iniciais
A imagem não é de minha autoria, encontrei no site: http://sinnistvether.deviantart.com/art/In-library-257662926 Créditos ao artista. Boa leitura.

— GOLDEN COLLEGE –

Thank God it's friday


A semana passou rápido e, num piscar de olhos, já era sexta-feira, o momento mais esperado pelos estudantes que gostavam de sair e se divertir. Não era o caso de Camus. Para ele, era só mais um dia de estudos como outro qualquer; e já fazia mais de quatro horas e meia que ele se encontrava enfurnado na Saint Memorial Library, a principal biblioteca do campus e também uma das maiores dos EUA. Ali era o seu lugar preferido — depois do laboratório de física de partículas —, porque, além de abrigar cerca de 3,5 milhões de livros e ficar aberta vinte e quatro horas por dia de segunda a sexta-feira, era um ambiente extremamente silencioso, de tal forma que ele se sentia confortável para estudar e preparar os seus trabalhos, que era justamente o que fazia naquele momento.

Um desses trabalhos estava relacionado com uma de suas atividades extracurriculares, o “Astrophysics Group”, um grupo formado por professores e universitários que se reuniam toda quinta-feira para debaterem e pesquisarem sobre física e astronomia. Camus era um dos organizadores do grupo, junto com um estudante de PhD e um professor do departamento de Física.

Esse professor era Saga, com quem ele também fizera pesquisa no verão passado. Naquele dia, Saga havia lhe enviado um e-mail, o informando sobre uma competição de projetos de Física Quântica e, imediatamente, Camus criou uma lista de coisas para fazer em preparação.

Camus cursava Física e seu desejo era ser um astrofísico. Filho de engenheiros químicos, a ciência e os números sempre fizeram parte se sua vida. A vaga no Golden College fora conquistada porque ele praticamente gabaritara nos dois exames de Scholastic Assessment Test (SAT), uma espécie de avaliação escolar que selecionava os estudantes para as universidades. Na primeira prova, que trazia questões de raciocínio lógico, consideradas mais difíceis, ele tirou 2.400, a pontuação máxima. Na segunda, onde caiam questões específicas do núcleo comum do ensino médio, ele tirou 2.350 pontos. Ambas as avaliações exigiam nível avançado de inglês. Camus era nascido e criado na França.

A outra atividade que ele tinha que fazer naquela noite era um trabalho de Ciências Políticas. Em dupla. Por isso, Camus não ficou alarmado quando um homem alto, de cabelos compridos, presos frouxamente às costas, e olhos azuis vibrantes, entrou na biblioteca e se sentou ao seu lado, espreitando discretamente por cima do seu ombro para ler o que ele digitava. Camus sequer desviou o olhar da tela do computador.

— Fiquei surpreso quando recebi sua mensagem. Achei que o trabalho seria entregue apenas na quarta-feira — Milo comentou, enquanto afastava do olho um cacho de cabelo.

— Você está certo — Camus concordou, depois de respirar fundo, tentando disfarçar o quanto a presença do colega o incomodava. — Só que não gosto das coisas pairando sobre mim, esperando para serem feitas.

— Sim, desde que te conheci, que estou ciente do quanto você é “impressionado” com horários e planos.

— Por "impressionado" eu suponho que você queria dizer "bem organizado" — Camus rebateu, enquanto clicava em enviar os dados de sua inscrição antes de riscar mais um item de sua lista.

Milo abriu um largo sorriso, daqueles que fazia Camus estremecer, ainda que ele fingisse indiferença.

— Eu não tenho certeza de que “bem organizado” define totalmente a extensão de seu tipo “aluno nota 10”.

— O que você quer dizer com isso? — Camus conhecia muito bem aquele tom casualmente desdenhoso de Milo, que sempre o incomodava.

— Você vive como se o mundo fosse entrar em colapso se não for listado, programado e planejado com antecedência, de acordo com uma agenda organizada...

— Eu só gosto que as coisas permaneçam em ordem. O que há de errado?

Milo sorriu novamente, acenou com a cabeça em direção ao bloco de notas sobre a mesa. O papel pautado tinha um tamanho regular, longo e estreito, na forma perfeita para fazer listas.

— Você pode fazer listas e riscá-las para se sentir feliz, mas elas realmente não mantêm o mundo em ordem.

— Bem, elas ajudam... — Camus inspirou profundamente, se concentrando para não entrar em uma discussão com Milo, o que sempre acontecia nas poucas vezes que se encontravam no mesmo ambiente. — É melhor nos focarmos no nosso objetivo aqui. O que você acha?

Ele não estava se sentindo nada confortável em ter que fazer dupla com o ex-namorado. Desde que terminaram o relacionamento, há um ano e meio, que se evitavam. O término não fora nada fácil para nenhum dos dois. Camus sofrera muito e, quando se lembrava dos motivos do rompimento, ainda sofria. No início, Milo tentara reatar o namoro várias vezes, todavia, Camus sabia que, mesmo o perdoando, aquilo nunca daria certo. Os dois pertenciam a mundos completamente diferentes, o que foi ficando cada vez mais claro ao longo do tempo. O melhor a fazer era fingir ter superado e seguir em frente. E foi o que ele fez, aborrecendo ainda mais o outro, que não entendia como havia sido descartado e esquecido assim tão facilmente, enquanto sofria como um condenado.

Contudo, quis o acaso que, nesse semestre, eles estivessem na mesma aula e que fossem sorteados — assim pensava Camus — para fazerem um trabalho juntos. Isso era algo comum nas faculdades, mesmo fazendo cursos diferentes.

Milo pretendia seguir carreira acadêmica em Direito e concorrer à promotoria. Tinha intimidade com as palavras e argumentava como ninguém, tanto que ele creditava à sua entrevista o sucesso de ter sido aceito na Golden College; mesmo tendo um currículo escolar de primeira. Sem mencionar que era muito bom nos esportes.

— Tudo bem... — Milo se recostou na cadeira com o braço estendido e suspirou, apreciando o ex-namorado.

Aquele maldito cabelo ruivo era uma tentação. Tão longo, liso e macio, que sentia vontade de enfiar os dedos nele como fazia antes. Sem contar que os fios contrastavam perfeitamente com a pele alva de Camus, acentuando ainda mais os traços bonitos de seu rosto e o narizinho afilado, além dos olhos verdes, cheios de fogo escondido por aquele semblante sério.

— Eu tomei a liberdade de iniciar o trabalho, já que você não pôde vir mais cedo... — Camus falou, fazendo Milo parar sua contemplação e bufar exasperado.

— Eu avisei que estaria no treino de futebol. O jogo de abertura é amanhã. Eu sou o capitão do time...

— Bem... Cada um com suas "prioridades" — o estudante de Física comentou laconicamente.

Milo fez uma careta. Camus era sempre assim. Nunca entendia o seu lado, estava o tempo todo se achando o dono da verdade. Será que o ex-namorado não percebia que ele só havia sacrificado a sua noite de sexta-feira para fazer um trabalho que somente seria entregue na semana seguinte por que era com ele?!

— Como nosso tema é a Economia Política Internacional, pensei em dissertarmos sobre a crise da Grécia e o impacto dela em toda a Europa... — Camus parou sua fala, notando o semblante emburrado de Milo. — Você tem alguma outra ideia?

— Para mim, tanto faz. Você começou sozinho mesmo... — respondeu, balançando os ombros, e Camus revirou os olhos. Aquilo seria tão difícil quanto ele imaginava.

* * *

Enquanto isso, em seu quarto, Mu estava sentado na cama com um livro de química no colo e segurando o celular ao ouvido.

Já que não quer ir ao pub se divertir um pouco, posso te buscar mais tarde e te levar para jantar — disse Afrodite do outro lado da linha. — Só que ficar preso no quarto sexta-feira à noite é muito chato...

— Obrigado pela atenção, Dite. Mas preciso terminar o meu trabalho de Química. Depois, dou uma passada no refeitório e como alguma coisa.

Tem certeza?

— Tenho.

Tudo bem então. — Desligaram, e Mu voltou a se concentrar no que fazia.

Durante toda a semana, ele tinha passado os seus dias estudando na biblioteca e, agora, estava feliz por finalmente poder ficar tranquilo e à vontade em seu quarto, sozinho, sem a incômoda presença de seu colega de quarto.

O tal do Aiolia era um bárbaro.

Para início de conversa, a forma nada convencional com que Mu fora recepcionado em sua chegada já o deixara temeroso. Ele realmente achara que estava sendo atacado por algum tarado pervertido. Porém, para sorte e alívio de Mu, uma moça peituda em trajes indecorosos entrara logo em seguida, e ele pudera, por fim, compreender o que estava acontecendo; principalmente depois de observar a quantidade de camisinhas usadas que estavam no chão do quarto.

Nos dias que se seguiram, a situação não melhorou muito. A cama do seu colega era uma espantosa bagunça e as roupas dele ficavam mais jogadas na escrivaninha do que dentro do armário. E isso não era a pior parte. Ao longo de uma única semana, Mu teve que aguentar embalagens de fast food espalhadas pelo chão, música alta, e até uma garota surtando em frente à porta, porque o idiota se recusava a sair e lidar com ela. Por duas vezes, pessoas estranhas usando casacos com o nome do time de futebol entraram em seu quarto, na maior intimidade, e o deixaram constrangido. Isso quando Aiolia não estava querendo suas coisas emprestadas, como canetas e livros.

Ontem, ele realmente assustara Mu, ao ter um ataque memorável de raiva e jogar o seu computador para fora do quarto, dando um rugido alto e claro, desfilando apenas de cueca pelo corredor do dormitório. E, como sempre, não houve bom senso, ou melhor, houve sua ausência total. Aiolia simplesmente não tinha nenhuma compostura.

Mu não estava acostumado com esse tipo de situação e chegara a tentar mudar de quarto, sem sucesso. Ele sempre fora um menino tranquilo, com o nariz enfiado nos livros, almejando que ninguém o notasse. Não era tão recluso a ponto de ser uma pessoa antissocial, é claro que ele gostava de estar rodeado de amigos. Tinha mais a ver com o fato dele ser muito tímido e não saber lidar com confrontos. Na infância, quando os outros garotos pegavam no pé dele por ser mais delicado ou o empurravam, ele não revidava, simplesmente se encolhia e procurava evitá-los. Pessoas insistentes realmente sugavam-no e ele não aprendera a se relacionar com elas. Esse mau hábito o seguia até hoje.

Sua insegurança ficava pior perto de homens bonitos como Aiolia. Seus cabelos revoltos, seus olhos verdes expressivos e os seus músculos bronzeados deixavam Mu nervoso. Assim, ao invés de freá-lo, como deveria fazer, guardava para si e evitava conversa ou, sempre que podia, procurava sair de perto dele.

Por esse motivo, Mu ficou extremamente feliz que o seu colega não estava por perto, e ele poderia curtir a tranquilidade em seu quarto. Quando Aiolia retornasse, com sorte, Mu já estaria dormindo. Só esperava que o outro não chegasse fazendo barulho ou, pior, que trouxesse alguma garota para o quarto.

* * *

Conforme a hora passava, Milo se apoiava no braço de Camus para dar uma olhada no monitor do notebook. Camus se concentrava, esforçando-se para ignorar essa proximidade, mas aqueles músculos saltando do braço de Milo tornavam a tarefa difícil.

Quando achou que já era o suficiente, Camus levantou-se para ir ao banheiro. Precisava jogar água em seu rosto e respirar um pouco, longe do perfume inebriante do ex-namorado. Ao chegar lá, ele suspirou, recordando-se dos bons momentos que tiveram juntos. Nem percebeu que havia esquecido o celular.

O aparelho piscava em cima da mesa, e Milo, literalmente, roía as unhas de curiosidade, com vontade de bisbilhotar. Ele olhou para os lados e, como não viu Camus, pegou o celular para ver quem ligava. Era um tal de Christian. Milo não fazia a menor ideia de quem era esse cara. Pensou em atender, só que seria ousadia demais, então decidiu por colocar o aparelho de volta no lugar onde estava. O celular começou a piscar outra vez. A mesma pessoa. Milo continuava a roer a unha do indicador, um hábito do qual tentava se livrar há muito tempo. Segundos depois, Camus voltou do banheiro, sentando-se novamente ao seu lado.

— O seu telefone estava tocando — Milo o informou, como quem não queria nada.

— Tudo bem. — Camus não deu muita importância. Ele já imaginava quem estava ligando naquele horário. Parecia ter virado um hábito desagradável e, definitivamente, não estava interessado em falar com ele. Além disso, precisava terminar logo aquele trabalho para não ter que ficar mais tempo ao lado de Milo. Era angustiante ficar tão perto de Milo, sem poder tocá-lo.

— Não vai conferir para ver quem era?

— Não.

— Pode ser o seu namorado. — Havia certa ansiedade na voz de Milo.

Camus ficou olhando para ele com uma expressão dúbia, antes de responder: — Pode ser.

Então Camus tem um namorado?! — Milo pensou. — E eu nem sabia?! Quer dizer.... Não era como se Milo ficasse investigando a vida do ex-namorado, mas vira e mexe procurava saber alguma coisa... Assim, como quem não queria nada. E até então, para seu alívio, nunca tinha ficado sabendo de nenhum namorado.

Milo queria fingir que aquela informação não o havia afetado, a fim de continuar o seu trabalho, no entanto, não conseguiu.

— Você está namorando esse tal de Christian? — inquiriu sem pensar, fazendo Camus interromper sua pesquisa.

— Você mexeu no meu celular, Milo? — Apesar de ser uma pergunta, o tom já era uma acusação.

— Claro que não! — retrucou, se fazendo de ofendido. Droga! Como pôde dar essa mancada, entregando-se desse jeito?

Camus bufou. Sabia que ele tinha mexido sim, mas de nada adiantaria ficar discutindo sobre isso. O melhor era simplesmente ignorar e voltar a se concentrar em suas anotações.

Depois de uma pequena pausa e mais algumas unhas roídas, Milo acabou retomando o assunto.

— Está namorando, ou não...?

Camus inspirou profundamente, antes de responder, fazendo cara de paisagem:

— E se estiver?

O jogador tomou aquilo como uma confirmação e apertou os punhos com força. Todavia, o que ele poderia dizer? Não tinha o direito de cobrar nada de Camus, eles já não eram mais namorados. Entretanto, ainda precisava extravasar a sua raiva de alguma forma.

— Só achei estranho você não se importar em responder a ligação do seu namorado... Mas você é assim mesmo, nunca se importa, não é?

Milo relembrou todas as vezes em que Camus não o atendeu, e ficou imaginando se o ex-namorado fingia não ter visto suas ligações.

— Ah, não! Por favor, Milo, não começa... Por que você está sempre me julgando?

— É você quem julga as pessoas. É você que cria um estereótipo delas, que tem olhar unilateral e não enxerga nada além daquilo que você quer. É você que não consegue se adaptar à ambientes diferentes e acha que todo mundo é assim, que todo mundo tem que ser assim. Como se as pessoas não pudessem ser ecléticas e versáteis. Como se eu não pudesse... — Milo completaria com “pertencer ao seu mundo”, mas percebeu que já não estava falando coisa com coisa, o que sempre acontecia quando era dominado pelo ciúme. A vontade que tinha era de dizer a Camus que ainda o amava e que não iria deixar que ele ficasse com mais ninguém. Contudo, não daria o braço a torcer. Era orgulhoso demais para isso.

Camus percebeu que o ex-namorado já tinha mudado o assunto da conversa, ou melhor, que não conseguia nem distinguir o assunto da conversa, e estava tentando discutir uma relação que, na verdade, já tinha terminado há algum tempo. Maldito trabalho. Maldito professor de Ciências Políticas que veio cutucar o que estava quieto.

— Palavras, palavras... Você só sabe falar e fazer cobranças. Deve achar que é uma perfeição de pessoa e um namorado exemplar. Não se esqueça de que a culpa de tudo foi sua, Milo — Camus se exaltou.

Foi quando eles perceberam a presença da bibliotecária. Ela estava de braços cruzados e com uma feição nada amigável. Eles estavam falando alto e atrapalhando os outros estudantes, e ela teve que pedir para que se retirassem.

Já do lado de fora da biblioteca, Camus estava vermelho de raiva. Pouquíssimas vezes perdia o controle, e era sempre por conta de Milo.

— Vamos para o meu quarto na fraternidade ou para o seu dormitório? — Milo quis saber. Agora que haviam sido expulsos da biblioteca, onde eles fariam o trabalho?

Eu vou para o meu quarto no dormitório. Você, se quiser, pode ir para aquele antro que chama de fraternidade ou para o raio que o parta. E pode deixar que termino o trabalho sozinho e coloco o seu nome — Camus falou, saindo pisando alto, e deixando Milo frustrado.

Se Camus pensava que as coisas iriam ficar assim, ele estava muito enganado. Mas, antes, Milo precisava descobrir quem era esse tal de Christian e dar um fim nesse namoro.

* * *

Afrodite também estava frustrado, enquanto escolhia uma roupa para ir ao pub. Havia combinado de se encontrar com Evan e Marin lá, já que Mu não quis ir com ele.

— Acho um absurdo eles nos disponibilizarem esses armários tão pequenos, se nos cobram uma verdadeira fortuna! Metade das minhas roupas ainda estão amarrotadas nas malas. Que horror!

— Deixando uma gaveta para eu guardar umas camisas, pode usar o meu lado do armário — Ikki falou.

— Obrigado! — Afrodite ficou surpreso. Era a primeira vez que o eu colega de quarto tinha mostrado algum tipo de gentileza.

Assim que eles chegaram à Golden College Afrodite percebeu que Ikki era meio antissocial. Andava sempre sozinho e com uma expressão carrancuda, o que era estranho para um rapaz jovem, de boa aparência e que se expressava bem.

Ikki era um japonês extremamente bonito. Sem contar que aqueles braços musculosos e aquele seu jeito rebelde eram mesmo um charme. Por onde passava, atraía a atenção de todas as mulheres. No entanto, ele não olhava para nenhuma delas e tinha verdadeira adoração por uma fotografia que ele deixava em cima do seu criado mundo. Era de uma moça loira, meio sem gracinha, achava Afrodite.

— Até que você não é uma pessoa tão ruim... Acho que estou até começando a gostar de você.

Ikki deu uma gargalhada que ecoou pelo quarto. Estava deitado numa posição relaxada, com um braço apoiado entre a cabeça e o travesseiro, e o outro segurando uma revista de esportes radicais. Como estava sem camisa, dava para ver claramente a enorme tatuagem de uma fênix do lado direito de suas costas. Ikki virou-se para ele com uma sobrancelha erguida.

— Você me acha uma pessoa ruim, Afrodite?

— Talvez ruim não fosse exatamente o que eu queria dizer. Você só é um pouco... estranho.

— Você usa maquiagem, e eu é que sou estranho...? — Gargalhou outra vez, balançando a cabeça em negação, achando aquele comentário absurdo. Por fim, voltou sua atenção para a revista.

Afrodite jogou seus cachos loiros para trás com as costas das mãos.

— Por Deus! Eu não uso maquiagem! É só um rímel básico que confere aos meus olhos azuis um visual sensual e atraente, e um protetor labial, porque o clima daqui é muito seco — explicou, como que ultrajado.

— Que seja! Mas continuo achando tudo isso uma viadagem — Ikki expôs, rindo de lado para Afrodite, que bufou em resposta. Em seguida, recebeu no celular uma mensagem que o fez levantar-se bruscamente, jogando a revista para o lado. Vestiu uma camiseta básica e pegou seu casaco de couro que estava pendurado na cabeceira da cama. — Vou dar uma volta. Fui...

Afrodite observou o colega cruzar a porta, sem entender como alguém igual a Ikki podia ser tão arredio. No início, achara que não conseguiria dividir o mesmo quarto que ele; agora, no entanto, até que já estava se acostumando. Afrodite percebera que Ikki se fazia de durão, só que, no fundo, bem lá no fundo mesmo, era alguém prestativo e carismático. Não, talvez carismático fosse um pouquinho demais para Ikki, pensou.

Finalmente escolheu a sua roupa. Uma calça branca, cujo corte e o caimento eram perfeitos e ficava bem com sua blusa de seda da mesma grife. Era um look um pouco afeminado, mas ele não se importava. Costumava se vestir de modo mais discreto para frequentar as aulas, mas, gostava mesmo era de se sentir sexy e na moda quando saía no final de semana. Isso lembrava sua época de modelo.

Afrodite começara a modelar quando tinha quatorze anos e, assim que completara dezoito, deixara a carreira para se dedicar à faculdade, uma vez que conciliar as duas coisas lhe parecera uma tarefa difícil. Além do mais, ele não queria ser reconhecido pelo mundo apenas por ser um rostinho bonito, filho de pais famosos — um cineasta americano e uma atriz sueca. Depois que conseguisse um diploma e algum prêmio realmente importante, talvez pudesse voltar a fazer algumas capas de revista. Talvez! pensou e terminou de se arrumar.

Quando Afrodite e Marin chegaram ao "Sanctuary", o lugar estava lotado. Eles se encostaram no bar, onde Shaina estava tampando garrafas de bebidas e as balançando a toda velocidade, parando apenas momentaneamente para digitar os números de registro ou escrever uma adição na comanda de alguém. Assim que ela viu Afrodite e Marin, seus olhos se iluminaram.

Ela pegou três garrafas de Bud, tirou as tampas e as colocou no balcão em frente aos dois, virando-se rapidamente para deslizar outra garrafa para baixo do bar e se esforçando para ouvir outra ordem, sem tempo para jogar conversa fora com os amigos.

— Acho que ela não aguentará isso muito tempo — Afrodite comentou com Marin, enquanto eles se dirigiam até uma mesa.

— Tenho certeza de que não aguentará — Marin falou. Sabia que a sua colega de quarto só estava nesse emprego porque se descontrolara nas contas do cartão de crédito no último semestre. Era a terceira vez que ela fazia isso e, desta vez, seu pai se recusara a pagar as contas extras. Aquele era o seu primeiro dia de trabalho.

Afrodite deu uma risadinha, enquanto observava o estilo da amiga.

— Shaina não me parece do time consumista.

— As aparências enganam. No quarto não cabe mais tanta coisa inútil, e ela não usa nem a metade. Mas Shaina é assim, precisa de uma obsessão para sobreviver, é como o ar que ela respira.

Pouco depois, Shaina se aproximou da mesa deles, trazendo dois copos de bebida.

— Aqueles rapazes ali mandaram entregar para vocês.

Eles se viraram na direção dos dois rapazes, que acenavam com a mão. Marin revirou os olhos e se indignou com a colega de quarto.

— Só estou fazendo o meu trabalho. — Shaina deu de ombros.

— Até que são bonitinhos, Marin... — Afrodite ponderou.

— São uns idiotas, isso sim. O loiro que está tomando uísque é o Radamanthys. Ele é presidente da Ômega Chi e também um dos responsáveis pelo jornal do campus. É um fofoqueiro estúpido, que adora se intrometer em tudo. Inescrupuloso, traiçoeiro, manipula informações, vive fazendo piadinhas no jornal, sua coluna é um lixo. É uma vergonha para nós, jornalistas. A ex-namorada dele é a presidente da Zeta Delta Zeta, uma irmandade de patricinhas mimadas e anencefálicas. O moreno que está tomando Bud é Deathmask, outro imbecil. Sem contar que esse apelido é ridículo.

— Dá um tempo, Marin... Deathmask tem essa cara de durão, mas, no fundo, é uma manteiga derretida... — Shaina proferiu.

— Você só o defende porque é seu primo. O cara é um escroto.

Embora já tivesse conhecimento de que sua colega não gostava do seu primo, nem dos amigos dele, Shaina iria retrucar, mas para seu desgosto, estava sendo solicitada por vários clientes.

— Já vou! — gritou, enfezada. — Eu ainda quebro uma garrafa na cabeça de alguém aqui. Que infernos!

Deathmask — Afrodite chamou mentalmente, enquanto notava o moreno sorrindo para ele, no que presumiu ser sua expressão mais charmosa. Apesar do apelido patético, até que ele não era de se jogar fora. O rapaz transbordava a sexo e a rebeldia, com aqueles antebraços tatuados e os cabelos castanhos, meio bagunçados. Talvez valesse a pena conhecê-lo.

* * *

Algum tempo mais tarde, Mu sentiu o seu estômago grunhir. Envolveu-se enquanto fazia o trabalho e acabou não vendo a hora passar. Olhou para o relógio digital na cabeceira da cama, já era quase uma hora da manhã e ele se assustou com o horário. O refeitório já estava fechado, mas se lembrou de que descendo as escadas do dormitório havia um sistema de túneis subterrâneos que conectava todos os quartos, inclusive os do dormitório vizinho. Lá havia um cafe, carinhosamente conhecido como "The Brownie¹". O Brownie era um ótimo lugar para fazer uma pausa dos estudos e um lanche rápido no fim de noite. Mu seguiu para lá.

Enquanto ele descia devagar as escadas do porão, o seu celular tocou.

— Oi, pai — atendeu, preocupado por Shion estar ligando naquele horário. Será que aconteceu alguma coisa com seu irmão?

Liguei para te desejar um bom dia, meu filho... — disse Shion, com a voz animada. — Você dormiu bem?

Mu deu uma risadinha. Já era a segunda vez que Shion confundia a hora, ainda não tinha conseguido se habituar com a diferença de fuso horário. Na verdade, nem ele se sentia totalmente habituado. Achava isso tão estranho!

— Na verdade, aqui ainda é uma hora da manhã, pai...

Uma hora da manhã?! Então por que ainda não foi dormir, Mu? — Shion era mesmo um pai superprotetor e adorava controlar os passos do filho.

— Estava estudando e acabei não vendo as horas passarem.

Mu, não é bom para os estudos ficar acordado até tarde. — Seu pai o recriminou. — Tente fazer os seus trabalhos mais cedo. Assim você acorda mais disposto no dia seguinte. Sabe que, quando dorme mal, não consegue se concentrar.

Mu suspirou. O seu pai não fazia ideia de como era a vida na Golden College e da quantidade de trabalhos que ele tinha que dar conta. E veja que estava lá apenas há uma semana. Além disso, não teria aula no dia seguinte. Contudo, conhecia muito bem o seu pai e achou melhor não entrar em confronto com ele sobre isso. Shion sempre dava um jeito de provar que tinha razão.

— Está bem, pai — falou ao mesmo tempo que ouviu o barulho de passos e uma algazarra vindo da direção do outro dormitório.

Onde você está agora, rapazinho? — Shion quis saber. Ele ouviu de leve o barulho.

— Estou indo para uma lanchonete...

Alguns garotos passaram por ele, rindo alto e com ares de que estavam bêbados.

Mu, você sabe não é apropriado frequentar certos ambientes. Sei que essa é uma das melhores universidades do país, mas também é conhecida por ser uma das mais festeiras. Muitos jovens se perdem e desviam dos seus objetivos...

— Pai! — interrompeu a fala de Shion, satisfeito por ele não poder vê-lo revirando os olhos. — Você teve quase duas décadas para me cobrir de toda a informação necessária. Você fez um bom trabalho, confie em mim. Além disso, eu nem gosto de festas. Só estou indo comer alguma coisa e logo volto para o meu quarto.

Eu sei. Mas não custa nada alertá-lo novamente. Tenho que desligar agora, estão me esperando para uma reunião importante. Qualquer coisa é só me ligar e eu vou correndo. Eu amo você, meu filho.

— Eu também te amo, pai. Diz para o Kiki que estou morrendo de saudade dele. Até mais.

Mu suspirou e desligou o telefone. Assim que terminou de descer as escadas, percebeu uma silhueta escura se aproximando.

— Oi, docinho? Estava falando com o papai? — um rapaz de cabelos loiros curtos debochou. Era Paul Jenks.

Mu não o conhecia, mas seu instinto o avisou de que era melhor sair dali o mais rápido possível. Mal conseguiu avançar em direção à lanchonete, Paul afundou os dedos na parte de trás da sua calça jeans e o puxou.

— Eu ainda estou falando com você — ele disse, olhando para Mu com intenções lascivas

— Me solta! — Mu gritou, tentando arrancar a mão dele de sua calça.

Paul riu e o puxou ainda mais para junto de si.

— Eu não quero te soltar. — Mu tentou empurrá-lo para longe. Os braços dele eram pesados e sua pegada era firme. O rapaz se inclinou para frente e agarrou-lhe o traseiro. — Eu achei você bem gostosinho — disse, com sua fala arrastada de bêbado, exalando um bafo nojento de cerveja no rosto de Mu. — Cadê o seu outro amiguinho? Podemos fazer um ménage à trois. Olha que delícia! — Ele passou o nariz pelo seu rosto e desceu até o pescoço. — Hum...! Seu cheiro é muito bom.

Mu fechou os olhos, com nojo, quando sentiu a boca dele em seu pescoço, e o empurrou mais uma vez.

— Eu disse para me soltar! — Apavorado, gritou novamente e, de forma desastrada, golpeou a virilha do outro com o joelho.

Paul se curvou para frente, levou uma das mãos até a fonte da dor e com a outra ainda segurou o casaco de Mu, recusando-se a soltá-lo.

— Seu veadinho, filho da puta! Você iria gostar... Mas, agora, vou ter que machucar você. — Paul ameaçou, mas, no momento seguinte, Mu já estava livre, e não estava mais sozinho.

Mu não pôde evitar um sorriso de alívio. Nunca imaginou que algum dia fosse ficar tão feliz em ver o seu colega de quarto.

Pouco antes, Aiolia estava no “Sanctuary” com os amigos, mas resolvera ir embora mais cedo, por conta do jogo que teria no dia seguinte, e acabou se deparando com aquela cena. Quando ele viu o seu tímido colega de quarto sendo intimidado daquele jeito por Paul Jenks, o seu sangue ferveu. Então, ele fez o que achou que qualquer um faria nas mesmas circunstâncias. Deu um soco tão forte que fez Paul cambalear e cair no chão.

— Ei, Aiolia, calma! Eu... eu não iria fazer nada demais com ele... — Paul ainda conseguiu dizer, limpando o sangue que saía do nariz com a palma da mão. — Eu nem gosto homens... eu só estava brincando.

— Seu babaca imprestável... — O olhar de Aiolia era agressivo, encarando Paul enquanto o agarrava pelo colarinho e o prensava contra a parede. Ele conhecia o cara, era um filhinho de papai metido que queria fazer parte do time de futebol. — Isso aqui também é de brincadeira! — falou antes de voltar a desferir vários socos, enquanto Paul tentava cobrir o rosto ensanguentado com as mãos.

Aiolia conteve o punho cerrado no meio do caminho quando sentiu o toque suave da mão de Mu em seu braço. A vontade dele era continuar dando socos no maldito, mas a expressão assustada no rosto angelical do seu colega de quarto o fez hesitar. Ele soltou a camiseta de Paul, deixando que o idiota desmoronasse no chão. Afastou-se rapidamente, resistindo ao impulso dar um chute, e olhou para Mu dizendo que estava tudo bem.

Mu tentou desviar daquele olhar, que sempre o deixava nervoso. Foi então que percebeu o canivete nas mãos de Paul.

— Aiolia! — Mu gritou, sobressaltado, desesperando-se com a cena que seguiu.

* * *

Notas finais
NOTAS DO CAPÍTULO: The Brownie¹ – inspirado no cafe chamado “The Buttery” da faculdade de Yale. A biblioteca foi baseada na de Harvard, que fica aberta 24 horas por dia de segunda a quinta-feira. Como cada faculdade tem suas particularidades, a da Golden fica até sexta. Hahaha... * * * NOTAS DA AUTORA: Então, gente, o que vcs acharam desse capítulo? Eu fiquei muito feliz e empolgada com a reação positiva de vcs com o primeiro. Espero que tenham gostado desse tbm. Muito obrigada, Jenferr, Kiba-Ino, Orphelin, Ana Carolina, nane yagami, Sweet Selene, Myrho, Brunaryu, Suh, Luna Moon e Sakykah, pelos comentários. Obrigada tbm ao pessoal que favoritou. Um agradecimento especial também a querida Sweet Selene, que estuda numa faculdade nos EUA e se disponibilizou a me ajudar, esclarecendo algumas dúvidas de como as coisas realmente funcionam por lá. Obrigada, querida. Queria me desculpar com alguns leitores, por ter falado que eu postaria o segundo capítulo na sexta-feira da semana passada. Acontece que eu tive que fazer umas modificações em algumas cenas e só tive tempo para conclui-las hoje, depois do trabalho. Então é isso. Estou ansiosa para saber o que acharam. Beijos e até o próximo. 15/05/2015