Golden College

1 I wanna be a freshman


Notas iniciais
Olá a todos, Já faz algum tempo que eu estava querendo escrever uma fic com tema colegial e jurei que só iria postá-la quando já estivesse toda escrita. Claro que isso foi apenas uma bela ilusão da minha cabeça. Como sou uma pessoa muuuito ansiosa (vcs não tem noção do quanto) mal terminei de escrever o primeiro capitulo e acabei postando. Vamos ver no que vai dar. É uma fic leve e despretensiosa. Nas notas finais eu falo mais. Boa Leitura. Ah... Não estranhem a cor do cabelo de Mu, isso vai mudar do decorrer da fic. Ele tbm é budista aqui.

— GOLDEN COLLEGE –

I wanna be a freshman


Assim que o táxi finalmente chegou ao campus da universidade, o peito de Mu se apertou. O lugar era tanto intimidador quanto impressionante. Ele deu uma última olhada em seu mapa para memorizá-lo — esperando que não fosse precisar andar com aquilo colado no nariz o tempo todo —, enfiou o papel dentro da mochila, colocou a alça sobre o ombro e, antes de sair do carro, respirou bem fundo. Agora eu sou um estudante internacional, sozinho, a quilômetros e quilômetros de casa. Oh, Buda! O que é que eu estou fazendo aqui?!

A Golden College era uma das instituições de ensino superior mais antigas dos EUA, e também uma das mais elitistas. Seus alunos geralmente eram filhos de políticos, bilionários e celebridades. A universidade também absorvia campeões na área esportiva ou jovens gênios que se destacaram no colegial, não só nos EUA, mas também em outras partes do mundo. Dezenas de vencedores dos prêmios Nobel e Pulitzer eram ex-alunos de lá.

Mu era um desses jovens gênios. Nascido e criado no Tibete, era a primeira vez que passaria mais de uma semana longe de casa. Estava ansioso, mas ao mesmo tempo nervoso, principalmente por ter chegado já no início das aulas e perdido a semana de orientação para estudantes internacionais. O seu irmão caçula estivera no hospital com uma crise respiratória, e ele se recusara a viajar antes que Kiki estivesse recuperado. Claro que ele já tinha visitado o campus antes, ao lado do seu pai, no período de visita dos alunos aprovados; o que realmente o deixava desconfortável era ir para um lugar com tanta gente, onde ele não conhecia absolutamente ninguém e ainda teria que dividir o quarto com algum desconhecido que sabe lá Deus quais hábitos tinha.

Além disso, ele não conseguia nem imaginar como seria sua vida longe do pai. Como filho único por doze anos, crescera recebendo todos os tipos de cuidados e mimos que se podia imaginar. A coisa não mudara muito depois que o seu irmão Kiki nascera, há seis anos. Ao contrário, Mu fora cercado ainda mais de agrados e carinho para evitar que ele se sentisse desprezado ou ficasse com ciúmes. Isso foi bom e ruim ao mesmo tempo. Nunca tinha arrumado a própria cama e agora estava indo morar sozinho por quatro anos, ou talvez para o resto da vida.

Respirou fundo novamente e, antes de cruzar o campus — aliviado por seu casaco bege e simples não se destacar na multidão —, pegou um elástico marrom no bolso de sua calça e amarrou o cabelo. Ele tinha um cabelo loiro claríssimo, bem liso e que chegava até a cintura de tão comprido. Em seguida, passou os dedos pela sua franja, para se certificar de que ela cobria perfeitamente as duas pintinhas rosadas que ele tinha bem no meio da testa. Mu não gostava muito daquelas pintinhas, mesmo sendo um sinal de família. Não era como se elas fossem realmente muito feias ou esquisitas; era só que sempre chamavam atenção, coisa que procurava evitar.

O campus era enorme e cheio de prédios imponentes. Boa parte desses prédios eram os dormitórios dos estudantes que residiam na universidade. Quando um aluno entrava no Golden College, ele era designado para um dos dormitórios, também chamadas de residential colleges, onde deviam obrigatoriamente morar durante, pelo menos, o primeiro ano de faculdade. Cada dormitório tinha suas facilidades, que iam desde um refeitório até sala de teatro, sala de ginásticas, sala de tutores, sala de música, biblioteca, quarto de jogos, entre outras coisas.

Mu havia sido enviado para o Aries Memorial Hall, um dos maiores prédios do campus. Ele andou em direção ao hall de entrada e se dirigiu até a recepção, onde uma moça simpática entregou-lhe um cartão de identificação e o número do seu novo quarto. Em seguida, entrou pelo portão grande e seguiu pelo corredor, que se encontrava vazio. Repentinamente, uma das portas se abriu e por ele passou um garoto de toalha amarrada na cintura, escovando os dentes. O rapaz o cumprimentou, levantando a sobrancelha na maior informalidade, e entrou no quarto da frente, onde dois ou mais garotos falavam alto e davam risadas.

Todos os quartos do dormitório eram configurados como suítes americanas¹: uma sala pequena com banheiro, cercada por três quartos. Assim que chegou em frente ao seu, Mu suspirou, antes de abrir a porta. Ansiava por arrumar suas coisas e preparar tudo para o início de sua vida acadêmica, não via a hora de começar.

O quarto era pequeno e composto por um armário de madeira antigo e duas camas, também de madeira. Uma das camas estava desarrumada. Roupas e meias estavam jogadas em uma cadeira e na escrivaninha que ficava em frente à porta. Olhou com reprovação para a bagunça, contudo, já havia imaginado essa situação, na pior das hipóteses. Foi então que percebeu que tinha alguém mais no aposento, provavelmente seu colega de quarto. Ele virou-se na direção do ruído para cumprimentá-lo, mas não foi possível...

Mu quase teve uma síncope.

Um homem enorme e pelado tentou agarrá-lo.

Merda! Aiolia ficou realmente preocupado quando percebeu que o rapaz que ele agarrara por engano estava hiperventilando. Aiolia segurou o garoto pelos ombros, entretanto essa atitude só fez com que Mu entrasse ainda mais em pânico.

— Eu... Eu achei que fosse outra pessoa. Eu não queria te agarrar...

— Você pode, por favor, me soltar e vestir a suas roupas — Mu falou tão baixo que Aiolia quase não escutou. O rosto de Mu estava totalmente vermelho e ele sentia todo o seu corpo formigando.

— Ah, claro! Me desculpa... — Aiolia pegou uma toalha que estava jogada na cama e rapidamente a enrolou em sua cintura, estapeando-se mentalmente pela mancada.

Foi esse o momento em que Mu aproveitou para fugir do cômodo, o mais rápido possível, quase trombando com uma moça que entrava.

— Quem era esse garoto que saiu correndo daqui? — Megan, que acabara de entrar, perguntou.

— Acho que é o meu colega de quarto... — Aiolia respondeu, coçando a cabeça, ainda sem compreender direito o que tinha acontecido.

Na noite anterior, ele estava muito animado em sua primeira festa no Sanctuary, o principal pub frequentado pelos universitários da Golden College. A faculdade era famosa pelo rigor acadêmico exigido de seus alunos, mas Aiolia já havia sido alertado pelo seu primo Milo de que a máxima de lá era: estude muito, divirta-se mais ainda. As festas promovidas pelas fraternidades eram grandes e famosas. Tinha sempre alguma coisa para fazer de quinta a sábado e, ainda que não fosse membro das fraternidades, era possível frequentar as festas promovidas por elas.

E Milo não estava errado. A festa havia sido animada e regada de muitas bebidas. Claro que Aiolia teve que usar uma identidade falsa, assim como a maioria dos colegas, pois nos Estados Unidos o álcool era permitido apenas para maiores de vinte e um anos.

Foi nessa tal festa que Aiolia conseguira ficar com Megan, uma loira gostosa e peituda, que despertava a atenção da maioria dos homens da faculdade. Aiolia passara toda a semana de orientação dos calouros cercando a garota, desejando pelo momento em que a levaria para o seu quarto. E ele tinha conseguido.

A noite havia sido quente e agitada, e Megan acabara dormindo com ele. Assim que acordara, Aiolia já estava pronto para outra rodada, mas percebera a loira se levantando e saindo do quarto. Sabia que ela não tinha ido embora, pois sua bolsa gingante e seus sapatos de salto alto ainda estavam no mesmo lugar. Quando Aiolia notou passos se aproximando, lembrou-se de uma cena que viu num filme antigo, quando ainda era um garoto e espiava pelos cantos o que o irmão andava vendo. Ele não se recordava do título, mas não se esquecera da cena em que o galã agarrava a mocinha, logo que ela entrava, e a penetrava por trás enquanto ela se apoiava na parede. Satisfeito com excitante ideia, tirou a única peça de roupa que estava vestido e se escondeu atrás da porta, esperando pelo momento em que Megan entraria e ele reproduziria a cena hollywoodiana. Ficou duro só com o pensamento. Foi então que a porta se abriu e Aiolia colocou o seu plano em prática.

Só que não era Megan.

Era o seu colega de quarto, que escolheu justo esse momento para entrar. Merda!

Aiolia não entendeu muito bem por que o cara entrara em pânico daquele jeito. Afinal, ele também era um adolescente cheio de hormônios e, com certeza, já devia ter passado por situações como aquela. Tudo bem, talvez não exatamente como aquela. Mas não era motivo para tanto. Foi apenas um mal-entendido e Aiolia nem chegou a encoxá-lo na parede, pois percebera a tempo o equívoco. E daí que o cara o viu pelado? Aiolia não tinha nada que ele também não tivesse, embora duvidasse de que aquele garoto tímido fosse tão bem-dotado quanto ele.

* * *

No dia seguinte, o corredor da faculdade estava lotado e, por todos os lados, era possível observar os estudantes caminhando pelo campus, correndo para as suas aulas, ou combinando com os colegas de se encontrarem para estudar. Entre eles, conseguia-se nitidamente destacar os calouros assustados, tentando passar despercebidos, longe dos veteranos.

Afrodite era um desses calouros. Só que ele não conseguia se passar por invisível e podia sentir todos os olhares maliciosos o analisando como se ele fosse uma mercadoria a ser adquirida. Que patético! — pensou. Mas já estava acostumado. Sua figura esguia, cabelo dourado — gentilmente ondulando até o meio das costas —, sorriso doce e olhar hipnotizante, tornavam muito difícil acreditar que ele não era uma menina. Apesar disso, estava animado para o seu primeiro dia de aula na faculdade, ao contrário do que sua mãe jamais imaginaria depois de anos e anos o empurrando cama abaixo para ir à High School. Agora ele era independente e queria provar para ela que já sabia se cuidar.

Distraiu-se, tentando se localizar pelo mapa, e acabou trombando abruptamente com alguém, deixando seu fichário, seu horário e seu celular se espatifarem no chão, espalhando-se em vários ângulos diferentes.

— Desculpa! — gritou o garoto com um tom de voz que mais dizia saia do meu caminho, seguindo de modo apressado, parecendo atrasado para algum compromisso.

Afrodite murmurou uma maldição e abaixou-se depressa para pegar suas coisas. Foi quando percebeu que alguém havia se abaixado também para ajudá-­lo. Preparou-­se para agradecer, mas, ao erguer os olhos, o agradecimento ficou entalado na garganta.

Ele se deparou com um homem maravilhoso, e seus olhos percorrem-no num perfeito Raio-X.

Os cabelos do homem eram castanhos, curtos, escuros e ligeiramente arrepiados. Apesar de estar usando uma roupa social, dava para perceber os contornos dos músculos, enquanto ele os mexia para ajudar a recolher os objetos. Seu maxilar simétrico emoldurava um sorriso perfeito. Afrodite não pode deixar de notar as covinhas que apareciam quando ele sorriu, e que o deixava ainda mais charmoso.

Que homem é esse?!

— Esses garotos do time de futebol vivem com pressa — o homem comentou, tirando Afrodite de seu estupor.

— Sim, são uns vândalos... — Afrodite se levantou, jogando seus cachos loiros para trás com as costas das mãos. O homem também se levantou, entregando-lhe suas coisas que havia recolhido do chão. — Obrigado pela ajuda! Hoje é o meu primeiro dia de aula, e eu estava tentando me localizar no mapa, mas agora acho que vou me atrasar até ligar isso novamente...

— Para qual aula você está indo? — o homem perguntou. — Eu conheço tudo por aqui, e talvez eu possa te ajudar.

— Preciso ir para a aula de Espanhol. Se não me engano, fica no segundo andar desse prédio.

— Sim. Estou indo para essa direção... Venha comigo — O homem foi andando e Afrodite o seguiu, aproveitando para dar mais uma conferido no nele.

— Depois de ter sido quase atropelado no meu primeiro dia, só espero que a aula não seja chata e que eu não tenha vontade de bater a cabeça do professor contra o quadro negro — Afrodite resolveu puxar papo, e homem riu. — Perdi a conta de quantas vezes desejei isso intensamente, quando tentei estudar francês e duas outras línguas muito inúteis, que tenho vontade de chorar por perder meu tempo estudando. Não que eu realmente ache que espanhol vai ser útil pra mim. Na verdade, só o escolhi entre as outras opções de língua estrangeira porque minha mãe ficou falando que estava na lista dos idiomas mais falados no mundo e blá, blá, blá... E daí que muita gente fala espanhol? Por Deus! Quando é que eu falarei em espanhol pra essa gente? Eu não sei! Talvez quando eu receber algum prêmio Nobel, for eleito para algum cargo político, que são coisas que realmente estão nos meus planos...

— Parece que você não está muito interessado em aprender um novo idioma...

— O problema nem é o idioma, são os professores.

— Qual o problema com eles? — O homem quis saber, realmente interessado.

— Os professores de línguas que tive eram muito ruins e eu odiava ser tratado como uma criança. Eles pareciam ter parado na década de sessenta. Mas o que mais me irritava mesmo era quando eles ficavam tentando impor a agenda deles, me dizendo o que ler ou que partes da cultura eram importantes, quando o que eu queria era apenas aprender a língua de tal maneira que eu pudesse me comunicar de modo eficaz. Que livros ler e a maneira como eu vou entender a sociedade e a cultura, eu reservo o direito de escolher de acordo com a minha agenda.

— Realmente alguns são assim, mas não são todos...

— Não acredito que esse professor de Espanhol seja lá muito diferente — disse, revirando os olhos, fazendo charminho, e o homem riu novamente. — Deve ser algum senhor com seus cinquenta anos e seus métodos tradicionais. Já estou até vendo...

Quando enfim, chegaram à sala, Afrodite suspirou. Não queria ter que se despedir tão rápido. Pensou em fazer mais uma horinha no corredor, mas já estava atrasado e teria que entrar para assistir à aula. Então, apenas despediu-se, agradeceu mais uma vez e finalmente entrou, sem olhar para trás.

Constatou como era tolo por não ter perguntado o seu nome, de onde era, o que estudava. Droga! Aquele sorriso dele e o seu jeito viril derreteu o meu cérebro. Agora teria que aguardar o final das aulas para, com sorte, trombar com ele de novo pelos corredores da faculdade. Mas o homem parecia mais velho, devia ter entre vinte e dois a vinte e cinco anos, provavelmente era algum estudante de PhD e poderia não querer perder tempo com um calouro. Droga! Na melhor das possibilidades, receberia dele um desinteressado oi, em um possível encontro aleatório pelo campus.

Absorto em suas conjecturas, Afrodite sentou-se na última cadeira vaga da sala, arrumou seu material na mesa e quando tomou ciência da situação à sua frente, ficou branco!

Lá estava o homem, escrevendo alguma coisa em espanhol no quadro antes de se virar para frente e parar no meio da sala.

— Olá, turma, meu nome é Shura González e sou o professor de Espanhol.

— Oh, meu Deus! — Afrodite murmurou, em tom dramático. Inegavelmente, ele sempre fora propenso a escolher mal os assuntos para iniciar uma conversa, só que dessa vez tinha se superado. — Ah, eu quero morrer!

— Está tudo bem com você? — um rapaz de voz suave, que estava sentado na cadeira ao lado, quis saber, prestativo.

— Está tudo bem sim. É só que tenho certeza de que já estou reprovado nessa matéria. — Fez um muxoxo e virou-se para ver quem era o colega que tentava animá-lo. — Eu deveria ter escolhido alemão.

O rapaz de longos cabelos claros, com carinha de bebê, sorriu com doçura do jeito desesperado e claramente dramático do outro, e ficou aliviado em saber que não era o único que estava se sentindo perdido.

Afrodite também sorriu de forma amigável para o garoto e, do mesmo modo, ficou feliz em saber que ele não era o único de traços delicados naquela faculdade, embora o rapaz ao lado não fosse tão andrógino quanto ele.

Eles não renderam conversa e resolveram prestar atenção em cada palavra do professor. Afrodite estava com uma expressão incrivelmente interessada e evitando olhar nos olhos de Shura. A verdade é que não sabia onde enfiar a cara.

De fato, Shura não era um professor chato e, com sua eloquência e carisma, prendia facilmente a atenção de todos, especialmente das mulheres, que eram maioria na turma. Contudo, enquanto explicava a matéria, ele não deixava de reparar em Afrodite com seu rosto de proporções gregas e um olhar de mulher, perturbador. Shura, inclusive, havia demorado para perceber que ele era um homem.

Ao término da aula, enquanto Afrodite tentava atravessar rápido o corredor de cadeiras querendo alcançar um colega, Shura o acompanhava com os olhos, rindo e ainda sentado na mesa dos professores, cercado por três entusiasmadas alunas. Ele normalmente não se sentia atraído por rapazes, havia ficado apenas com um amigo na adolescência por pura curiosidade. No entanto, Afrodite era uma criatura terrivelmente linda e sedutora e o havia atraído desde o primeiro olhar.

Afrodite se apressou porta afora e atravessou o corredor, garantindo uma distância segura entre ele e o professor, para evitar um constrangimento. Quando conseguiu alcançar o garoto simpático que sentara ao seu lado na aula, o abordou.

— Oi — disse, com empolgação. Afrodite adorava fazer novas amizades e se enturmava fácil. — Você também é calouro?

— Sou sim... — O garoto sorriu timidamente. — Está mais tranquilo, agora? O professor parece ser bom... Acho que não será tão difícil aprender espanhol.

— Não tenho tanta certeza. Sinto que corro o risco de ser reprovado nessa matéria e ainda perdi a oportunidade de flertar com um homem maravilhoso. Droga! Por que fui falar mal dos professores? Mas eu não tinha como supor, não é mesmo? Eu não percebi nenhum sotaque em sua fala, o inglês dele era perfeito! — Afrodite desabafou mais para si mesmo, depois de suspirar, e o garoto levantou as sobrancelhas, sem entender. — Tô aqui falando feito um louco e nem sei o seu nome...

— Mu — ele respondeu, enquanto conferia se sua franjinha cobria suas pintas.

— Uau! É nome mesmo ou apelido? É tão pequeninho... O meu é Afrodite.

— O nome da deusa?! — Mu achou aquele nome estranho.

— Ah... — Afrodite fez um gesto de descaso com a mão. — Meu pai é meio fissurado com esse negócio de mitologia grega. O nome do meu irmão mais velho é Adônis.

— Entendi...

— Droga! — Afrodite exclamou ao constatar que havia perdido o seu mapa — Preciso de ajuda para encontrar minha próxima aula. Por Deus! Como serei um bom médico desse jeito?!

— Eu também pretendo fazer Medicina — Mu comentou empolgado, com um sorriso que Afrodite julgou meigo. Era bom conhecer alguém que faria o mesmo curso que ele. Ainda que nos Estados Unidos o aluno só declarasse o curso a partir do segundo ano, podendo mudar de ideia no decorrer das aulas. — Estou indo para o laboratório de Ciências.

— Mentira! — Afrodite ficou extasiado. — Essa é minha próxima aula também. Por Deus! Acho que isso é o destino! Sabe, Mu, tô sentindo que seremos ótimos amigos e que vamos nos dar super bem... — Afrodite entrelaçou seu braço ao do novo colega, não se importando com a expressão de surpresa e estranheza do outro diante do seu gesto, e seguiu puxando-o pelo corredor da universidade enquanto tagarelava sobre se candidatar ou não a uma fraternidade e quais lhe pareciam mais interessante.

* * *

Conforme as horas passavam, os alunos entravam no refeitório e as cadeiras ao lado de Milo e Aiolia iam ficando cheias de membros do time de futebol americano. Aiolia ainda era um calouro, mas já estava escalado para o jogo que aconteceria no final de semana. Todos já tinham conhecimento sobre suas excelentes habilidades como jogador.

Milo era primo e amigo de Aiolia. Os dois conversavam animadamente sobre as expectativas do jogo, quando Aiolia escutou uma discussão entre os colegas de time. Eles analisavam o gênero de um calouro que acabara de entrar no refeitório.

— Olha para o rosto dele, é claro que é uma mulher! — falava Aldebaran com convicção.

— Eu acho que é um homem. Não está vestido como uma garota e ele não parece o tipo de mulher que se veste de homem, está mais para o contrário disso. Nunca assistiram Boys Don't Cry? — Mime inquiriu.

— Não posso afirmar que é um homem, a não ser que eu o veja pelado — Milo se inseriu na conversa, observando com atenção o alvo da discussão. — Pra mim não faz diferença se é homem ou mulher. Eu gostei. Seja lá o que ele tem no meio das pernas...

— Tenho certeza de que é um homem... — disse Paul Jenks, que estava na mesa ao lado, aproximando-se e pegando uma batata frita no prato de Milo.

— Você já o viu pelado? — Milo questionou, com uma expressão carrancuda para o intrometido. Não gostava dele. O cara era um babaca e havia rumores de que já cometera abusos sexuais, embora ninguém tivesse provado.

— Não — Paul respondeu. — Só que eu o vi de perto o suficiente para observar seu corpo. Ele está na minha turma de espanhol.

— Mas tem cara de mulher — Aldebaran disse e voltou a atenção para o prato.

Aiolia escutava os colegas, contudo, não se metia na conversa. Na verdade, ele nem estava prestando atenção no loiro andrógino; estava mais preocupado em observar a pessoa que acabara de chegar timidamente no refeitório, que também tinha cabelos claros e traços delicados, e que não parava de enrolar uma mecha dos cabelos entre os dedos.

— Estou adorando esses novos calouros... Veja o outro que acabou de entrar — Aldebaran comentou, atraindo a atenção de Aiolia.

— É o meu colega de quarto — Aiolia revelou, enquanto observava o loiro andrógino acenando para o seu colega se sentar com ele. — Qual é o problema de vocês?! Vão ficar agora analisando todos os calouros?

— Somente os bonitinhos, Aiolia... — Milo respondeu. — Isso significa que você não precisa se preocupar.

— Até porque a gente já analisou você, quando chegou na semana de orientação... — Mime disse e alguns jogadores riram. Aiolia teve a súbita vontade de mostrar a língua para os colegas, mas conseguiu resistir ao impulso infantil.

— Cara, que sorte você tem! — Aldebaran exclamou, sem tirar os olhos do colega de quarto de Aiolia. — Mal chegou e vai dividir o quarto com uma coisinha linda daquela. Eu sou obrigado a dormir ao lado desse feioso do Algol.

— Eu é que sofro, sem conseguir dormir à noite por causa do teu ronco — Algol retrucou e então se virou para Milo. — Você ficou de ver a minha situação, agora que é o presidente da fraternidade.

— Eu já disse que vou te trocar de quarto, Algol. Tenha paciência... — Milo suspirou.

— Aiolia, por que você não chama o seu colega e o amigo dele pra virem se sentar com a gente? — Aldebaran sugeriu, animado.

— Ele não é de muita conversa — respondeu Aiolia, reparando no jeito constrangido como o seu colega ficou ao perceber que estava sendo analisado.

Merda! Ele ainda nem tinha desfeito a má impressão do primeiro encontro e lá estavam os idiotas do time tentando fazê-lo passar vergonha de novo.

Claro que ele já sabia que o seu quieto colega de quarto chamava atenção, principalmente daquele bando de homens bissexuais. Mu era bonitinho, acanhado e com uma delicadeza de menina. Foi a segunda coisa que notou sobre ele, assim que o viu. A primeira foi que ele era muito nervoso e facilmente assustado. Aiolia fez uma careta quando pensou naquele episódio.

A questão é que o seu colega ainda não tinha dado a ele uma chance de explicar direito a situação. Depois desse acontecimento, Mu evitava conversa a todo custo. Sempre que Aiolia puxava papo, seu rosto ficava praticamente vermelho e ele apenas murmurava algo. E quando Aiolia estava muito perto, Mu encontrava uma desculpa para se mover. Aiolia não conseguia se lembrar de outra pessoa que desgostasse dele tão rápido e intensamente antes. Era estranho dormir no mesmo quarto com alguém que mal falava com ele. Precisava urgentemente desfazer essa má impressão. Afinal de contas, ele não era um idiota tarado. Não de propósito. Não na maioria das vezes.

Seus pensamentos foram interrompidos por um dolorido tapa nas costas. Aiolia estava tão concentrado lembrando-se da chegada de seu colega que nem notou que as cadeiras do refeitório estavam ficando vazias.

— Aiolia, estou indo para a aula do turno da tarde. Você vai ficar aqui? — Milo quis saber.

— Não. Também tenho aula agora. — Aiolia fez uma careta.

— Tá achando que isso aqui é só farra? Os professores daqui não pegam leve com ninguém não. E se quiser jogar no time de futebol, tem que ter boas notas.

— Tô sabendo... — Fez um muxoxo.

Não era como se ele não gostasse de estudar. Era um rapaz inteligente e disciplinado, mas sua vocação mesmo era o esporte. E essa sua habilidade fora decisiva para que ele fosse aceito na faculdade, que tinha estruturas esportivas incríveis e dava todo o suporte necessário para seus atletas. Além disso, desde que o treinador o vira jogar e dissera que ele poderia virar um jogador profissional, esse passara a ser o objetivo de Aiolia.

Milo se despediu com um aceno e seguiu para a sua aula de Ciências Políticas. Algumas garotas o acompanharam, dando risadinhas e passando os dedos nos cabelos na tentativa de chamar sua atenção. Milo abriu a porta para elas, que quase gritaram de prazer.

Aiolia observava aquilo, rindo de lado. Sabia que o primo ficava com algumas garotas, às vezes, mas que era apaixonado mesmo por outro cara, embora tentasse o tempo todo fingir que tinha esquecido o ex-namorado. Como se ele conseguisse fingir alguma coisa.

Milo era o tipo de cara que não conseguia disfarçar os sentimentos. Era muito transparente nas emoções. Para ele tudo tinha um sentido muito profundo e isso acabava afetando sua personalidade e aparência. Se estava feliz, ria do nada, se divertia com qualquer coisa, expressava tanta felicidade que chegava a contagiar. Se estava chateado com algo, ficava mal humorado e insuportável. Apesar disso, era o cara mais popular da faculdade.

As garotas acompanharam Milo até a sua sala, cantarolando e suspirando em harmonia. Todas queriam estar perto do capitão do time de futebol americano e presidente da Sigma Tau, considerada a melhor fraternidade do campus. Metade delas já haviam passado pelo quarto dele antes mesmo do segundo ano, por mais que soubessem que Milo também dormia, esporadicamente, com homens.

A campainha tocou e Milo entrou na sala, praticamente se jogando em uma mesa na primeira fila. Sentiu alguém brincando com os seus cachos loiros e sussurrando o seu nome com uma voz pretensiosa. Ele sorriu ao conhecer a voz. Era Evan, um garoto bonitinho da equipe de natação, com quem havia trocado olhares algumas vezes. Nem bem se virou para falar com o garoto e Milo notou, na outra fila, uma pessoa que fez seu coração palpitar muito além do normal e um bolo se formar em sua garganta...

Nesses dois anos de faculdade, era a segunda vez que ele e Camus estavam na mesma turma. A primeira fora quando ainda era um calouro e eles estavam namorando. Recordar-se do desfecho do namoro ainda era doloroso. Suspirou lentamente e voltou sua atenção para o professor. Entretanto, agora era impossível para Milo se concentrar na aula.

* * *

Notas finais
O filme que Aiolia faz referência é "Invasão de Privacidade" com Sharon Stone. A imagem encontrei no site http://belier.aries.blog.uol.com.br/. Não sei quem é o artista. A suíte americana é quando um banheiro atende a dois quartos, ou seja, os dois quartos tem portas voltadas para o mesmo banheiro. Normalmente temos a bancada da pia independente da área do banho e do vaso sanitário. *** Infelizmente, não posso garantir atualizações rápidas enquanto eu não terminar O Plano Perfeito, sem contar o trabalho, namoro, família, coisa e tal... tal e coisa... Mas tbm não pretendo ficar uma eternidade para atualizar, coisa de um mês, no máximo. De qualquer forma, isso aqui ainda é um teste, vou postando aos poucos e acompanhando as reações de vcs. Eu serei sincera em dizer que, mesmo escrevendo pelo prazer que isso me proporciona, a opinião dos leitores é muito importante para mim. E então, o que vcs acharam do capítulo? Gostaria muito de saber a opinião de vcs. Beijos e até mais.