Golden College

8 How to balance fun, love and study?


Notas iniciais
Como conciliar diversão, amor e estudos?

— GOLDEN COLLEGE —

How to balance fun, love and study?



Milo bocejou enquanto ele e Camus passeavam por entre as prateleiras da livraria. Ainda era muito cedo para estar fora da cama, mas aquele havia sido o horário que Camus escolhera para acompanhá-lo, argumentando que possuía uma lista de tarefas para concluir mais tarde. Milo desconfiava de que o objetivo do ex-namorado era fazer com que ele desistisse de ir. Só que era claro que isso nunca aconteceria.

— Aqui — Camus disse, assim que pegou o livro que procurava. — Alice no país da Física Quântica. É um livro muito bom para introduzir o assunto a leigos como você.

Camus não entendia toda aquela empolgação de Milo em aprender Física Quântica, só sabia que era fogo de palha; porém, resolvera não implicar. Daria corda a ele se assim ele queria. De qualquer forma, estava sendo prazeroso vê-lo se interessar por algo além da fraternidade e do futebol.

Milo pegou o livro da mão de Camus, dando-lhe um beijo rápido nos lábios.

— O que foi isso? — Camus se afastou instintivamente.

— Selinho de amigos. Foi você que começou... — Milo riu da expressão de indignação de Camus, antes de seguir de modo tranquilo para a fila do caixa. Ele já estava pegando sua carteira quando Camus o conteve.

— É um presente.

Milo não se opôs, ao contrário, exibiu um sorriso de orelha a orelha. Parecia que as coisas entres eles, finalmente, iriam dar certo. Nos últimos dias ele tinha certeza de que Camus começara a perdoá-lo. Graças a Deus! Porque ele não achava que aguentaria mais essa história de somente amizade. Não beijar e não tocar Camus era simplesmente errado.

— Tudo bem. Eu vou ao banheiro — Milo falou ao notar o jeito nada discreto como uma moça, que estava a sua frente na fila, o encarava. Ele achou melhor se afastar para não dar motivos para Camus ficar com ciúmes, e aquilo acabar estragando tudo. Não queria correr o risco. — Te espero na saída então.

Camus concordou, e, poucos minutos depois de Milo se afastar, a garota o abordou.

— O seu amigo é o Milo, o presidente dos Sigma Tau e capitão do time de futebol, não é?

— É sim — Camus respondeu, parecendo entediado. A garota provavelmente era caloura para ter aquelas dúvidas.

— Nossa! Ele é mesmo lindo como dizem. Você sabe me contar se ele está saindo com alguém?

Camus a olhou de modo indiferente.

— Por que não pergunta a ele? Assim você pode convidá-lo para sair.

— Você acha que tenho chance? Tenho medo de levar um fora... — ela confessou.

Camus passou os olhos pela garota. Pele bem cuidada, esbelta, pernas compridas, cabelo vistoso, usava uma camiseta com as letras da Delta Beta Delta e uma saia curta, o tipo de garota que combinava com o presidente de uma fraternidade.

— Claro que tem chance. Além disso, Milo gosta de mulheres com atitude — Camus a estimulou, sem ironia em sua voz. Milo estava se comportando com um verdadeiro amigo nos últimos dias, o que deixava bem claro que aquela aproximação não fora com segundas intenções, como pensara a princípio. Talvez fosse hora de aceitar isso, pensou com desgosto.

— Acho que vou convidá-lo para ir a um show esse final de semana. De que banda ele gosta?

— Milo é do tipo que prefere cinema, pipoca e amasso num primeiro encontro.

Ela sorriu de modo simpático, pagou o seu livro, agradeceu a dica e seguiu em direção à saída, onde Milo estava parado, esperando o “amigo”.

Camus respirou fundo enquanto observava a garota abordar o ex-namorado. Sim, aquilo seria melhor. Ele estava saindo com Christian, não tinha motivos para ficar criando expectativas com Milo. Ainda que aquilo lhe doesse até na alma.

Alguns minutos depois Camus pagou o livro e encontrou um Milo emburrado, roendo a unha, escorado na porta da livraria.

— Tome. — Camus entregou-lhe o pacote, que foi jogado longe. Ele arregalou os olhos. — Ficou maluco?! Por que você...?

— Diz que você não acabou de tentar arrumar um encontro para mim?! — Milo queria torcer o pescoço do ex-namorado.

Camus respirou fundo.

— Eu não tentei arrumar um encontro para você. A garota me pediu ajuda e eu apenas a incentivei, dizendo que ela teria chance com você.

Engolindo em seco, Milo questionou:

— E você não se importa? Não... não tem ciúmes de mim?

— Não — Camus respondeu sem hesitar. — Somos apenas amigos, não somos?

Tudo ficou claro para Milo naquele momento. Estava se iludindo. Não tinha nenhuma chance com Camus. Ele não o amava mais. Se é que amara algum dia! Então, com os dentes trincados, respondeu:

— Não somos mais...

— Milo, espere... — Camus ainda tentou chamá-lo quando o viu sair em passos rápidos, com aquela expressão que misturava decepção e raiva.

* * *

O professor Shura caminhava por entre as carteiras enquanto falava, fazendo os alunos rirem de vez em quando, e Afrodite pensava no quanto o seu professor de Espanhol era encantador.

Em certo momento ele passou pela mesa de Afrodite e deixou cair um pequeno papel, sem que ninguém visse. Afrodite procurou-o com o olhar para confirmar se o bilhete era, de fato, para ele, mas Shura o ignorou, continuando a dissertar. Impaciente, Afrodite abriu o papel, onde estava escrito um número de telefone e a frase: “Para combinarmos nosso jantar”. Afrodite sorriu e guardou o bilhete em sua mochila.

Quando a aula acabou, ele não gostou nem um pouco de ver algumas colegas se aproximarem da mesa do professor e ficarem de papo furado com Shura. Pensou em ir até lá para colocá-las para correr, mas achou que daria muita bandeira e Shura poderia não aprovar. Era melhor deixar as coisas acontecerem com calma. Então ele saiu ao lado de Mu, trocando olhares discretos com seu professor e balançando seus cabelos ao vento.

— Tudo bem com você? — Afrodite questionou ao notar que amigo estava cabisbaixo.

— Só estou um pouco cansado, não tenho dormido direito. E o pior é que nem poderei descansar, pois o senhor Heller passou um trabalho de Anatomia com cem questões para entregar até amanhã sobre o assunto que ele sequer explicou. Agora preciso fazer algumas pesquisas para conseguir responder e ainda tenho as reuniões da fraternidade.

— Não sei por que você escolheu essas matérias tão complicadas no primeiro período, poderia deixar para fazê-las mais tarde.

— O meu curso, que, inclusive, é o mesmo que o seu, exige total dedicação. Além disso eu não esperava entrar para uma fraternidade... Como você faz para conciliar as duas coisas?

— Na verdade, não tenho mais certeza se farei mesmo Medicina, estou vendo outras possibilidades. E foi justamente por isso que não peguei essas matérias específicas no primeiro período, conheço bem essa minha mania de mudar de opinião com facilidade...

Os telefones de ambos apitaram ao mesmo tempo e eles, imediatamente, leram suas mensagens.

— Preciso ir — disse Mu. — Estou sendo convocado pelos Sigma Tau.

— E eu pelos Ômega Chi. Nos vemos mais tarde na lanchonete? Tenho algumas novidades para te contar...

Afrodite ainda não havia se encontrado com Mu fora da sala de aula desde que marcara o encontro com Shura e estava louco para contar a novidade para o amigo, única pessoa em quem confiava para desabafar algo tão complicado. Afinal, Shura era um professor e Afrodite não tinha certeza se era permitido esse tipo de relacionamento naquela faculdade. Por Deus! Nem saímos e já estou achando que temos um relacionamento!

— Acho que hoje não vai dar, Dite. Assim que eu sair da república, vou para a biblioteca me dedicar a terminar o meu trabalho.

Afrodite suspirou longamente, de um jeito teatral.

— Estou precisando de um amigo mais atencioso, sabe. Quando não sou trocado pelo quarterback do time de futebol, e nessa situação eu até entendo, sou trocado por um tedioso trabalho de anatomia.

Mu mordeu o lábio, tentando conter uma risadinha pelo jeito dramático do amigo.

— Mas eu te ligo assim que terminar, estou mesmo querendo saber por que você passou toda a aula de Espanhol suspirando.

— Tudo bem, então. — Afrodite fez beicinho. — Boa sorte com seu trabalho.

Eles se despediram e cada um se dirigiu à república de suas respectivas fraternidades, curiosos para saber o motivo de estarem sendo convocados no horário de aula.

* * *

Quando Mu entrou na casa dos Sigma Tau, logo avistou Aiolia sentado de modo despojado no sofá, com uma garrafa de Gatorade na mão. Mu suspirou bobamente quando seus olhos se encontraram e deu um sorriso doce antes de ir até o colega e sentar-se ao lado dele, ainda que tivesse ficado incomodado por Aiolia não ter lhe retribuído o sorriso com o mesmo entusiasmo que costumava fazer. Ao contrário, Aiolia parecia mais preocupado em olhar para Abel e Algol que davam risadinhas.

Não entendeu muito bem aquilo, assim como também não entendera porque, ontem, Aiolia não fora fazer o trabalho de Biologia como haviam combinado, preferindo sair com os garotos do time de futebol. Entendera menos ainda o motivo de ter se sentido tão chateado com isso. Principalmente porque era sempre mais fácil estudar quando Aiolia não estava por perto, já que o amigo tinha a mania de ficar sem camisa, e isso sempre lhe tirava um pouco da concentração. Para ser sincero, isso lhe tirava totalmente a concentração.

— Oi — cumprimentou o colega, passando a mão pela sua franjinha, como de costume.

— Cheguei atrasado na aula hoje por sua culpa — Aiolia foi logo acusando, ajeitando-se no sofá e se inclinando na direção de Mu. Teve que se controlar para não socar um dos garotos que estava de cochicho e risos, atrás deles. — Você saiu e não me acordou.

— Eu tentei duas vezes, mas você jogou seu travesseiro em mim e voltou a dormir.

— Você sabe qual é a nossa rotina, tem que continuar me chamando até que eu seja obrigado a me levantar...

— Achei que quisesse continuar a dormir, já que chegou bem tarde ontem à noite. — Mu nem percebeu o tom de censura em sua fala. — Fiquei te esperando para fazermos o trabalho.

— Ah, me desculpe... — Coçou o pescoço, meio sem jeito. — Estava rolando uma competição no Sanctuary ontem e a galera colocou pilha para eu ir...

Os garotos insistiram tanto nessa ideia de que Aiolia estava namorando Mu, que ele resolvera ir para a festa com eles, na tentativa de acabar com o assunto. Só que se arrependera amargamente. A companhia de Mu teria sido muito mais interessante do que passar a noite num lugar lotado de garotos bêbados e desesperados pelas meninas que desfilavam com a camiseta molhada. Não que Aiolia não tivesse gostado de ver os seios delas. O problema foi que ele não teve como fugir do assédio da garota que ganhara o campeonato. Ela se insinuara tanto para ele na frente de seus amigos que se ele a dispensasse daria mais motivos para continuarem implicando com sua amizade com Mu. Por que essa idiotice de que homem não podia dispensar mulher bonita? Caramba, ele não tinha que estar interessado só porque os outros caras estavam babando por ela!

— Não tem problema. O trabalho é para a semana que vem ainda, podemos fazer no sábado — Mu disse.

— Na verdade... — Aiolia coçou a cabeça e, com a voz baixinha, parecendo não querer ser ouvido, falou: — Eu marquei de estudar Biologia com a Lyfia no final de semana.

Mu teve a sensação de ter levado um soco no estômago.

— Você não vai ficar chateado, vai?

— Oh, claro que não! — Tentou disfarçar aquela expressão de cachorro que caiu da mudança, se perguntando por qual motivo sentira um mal-estar depois de ouvir aquilo. — De qualquer forma, me lembrei que tenho aula de artes marciais com Ikki no sábado.

— Como é que é?! — Aiolia se exasperou. — Você vai fazer as aulas de artes marciais comigo! Isso já foi decidido!

— Você vai estar ocupado demais estudando com a Lifya, não quero atrapalhar — Mu respondeu com um pouco de cinismo não intencional na sua voz. Depois respirou fundo, sem entender o que estava acontecendo consigo. Não se reconhecia. Oh, Buda! O que é que eu estou pensando?! Seu amigo era o garoto mais bonito, charmoso e forte daquela faculdade, uma hora ele iria sair com alguma garota. Devia estar preparado para isso.

Aiolia, indignado, já ia retrucar, quando Milo pediu a atenção de todos.

— Depois conversamos sobre essa traição... — resmungou entre os dentes. Queria trucidar alguém naquele momento.

— Estamos reunidos aqui por um motivo muito sério — Milo anunciou, andando de um lado para o outro, o semblante circunspecto, como que deixando claro que aquilo se tratava de algo realmente muito importante. — Nossos candidatos foram desafiados!

— Por quem, Milo? — Aldebaran quis saber.

— Pelos idiotas dos Ômega Chi. — Cerrou os punhos, lembrando-se da conversa que tivera mais cedo com DeathMask.

Milo havia saído da livraria chateado com Camus e acabara esbarrando em DeathMask na entrada do refeitório. Eles se desentenderam, como sempre acontecia quando se encontravam, e, depois de discutirem por algum tempo, o assunto mudara de “você é um babaca idiota” para “qual fraternidade era a melhor e quais candidatos eram mais obstinados”, o que resultara num desafio entre eles.

— Vamos acabar com esses bastardos! — Mime gritou.

— Qual é o jogo? — um calouro quis saber.

— Algo justo, algo clássico, o velho favorito de gerações e gerações de gregos... — informou Milo. — Pingpong de cerveja.

Todos vibraram, exceto Mu.

— Não se preocupe com a bebida, eu dou um jeito de trocar os seus copos por refrigerante sem que ninguém perceba, sempre faço isso com os meus copos — Aldebaran cochichou no ouvido de Mu.

Mas que merda! Aiolia bufou sentindo vontade de espancar Aldebaran até ele entender que deveria manter distância de seu pequeno gafanhoto. Quantas vezes terei que repetir isso para esse imbecil?!

— E será hoje à noite... — Milo sentenciou.

— Hoje à noite?! — Mu arregalou os olhos, preocupado. — E se tivermos trabalhos para fazer?

— Essa competição é muito importante. Portanto, deixem tudo que tiverem que fazer para depois. Hoje, às sete horas, quero todos vocês aqui, na república. E aquele que não vier será punido. Se for candidato, já pode se considerar fora da fraternidade — o presidente dos Sigma Tau deixou claro. E ele estava com um péssimo humor.

— E aquela sua história de não ter festas com bebidas em dias de aula e treinos, Milo? — Aiolia tentou argumentar, temendo que Mu desistisse da fraternidade, pois sabia que ele era muito estudioso e seu curso exigia um pouco mais de dedicação. Tudo bem que estava chateado com a traição de Mu, mas isso não vinha ao caso agora, resolveriam depois.

— Aiolia, não ouviu o que eu disse?! É contra os Ômega Chi! É contra DeathMask! Acha que vamos correr de um desafio proposto por eles, acha que vamos dar esse gostinho a esses idiotas? — Milo cruzou os braços, olhando com firmeza para o primo. — Além do mais, amanhã não temos jogo.

— Não temos jogo, mas temos aula...

— Agora ele vai ficar a noite toda argumentando em defesa do namoradinho — um dos garotos disse, fazendo os outros rirem e Mu encolher-se com as bochechas pinicando.

Aiolia dirigiu um olhar ameaçador para o garoto e já ia partir para a briga quando sentiu o toque macio da mão de Mu em seu braço.

— Não vale a pena... — Mu disse com aquela sua voz suave que tanto agradava Aiolia.

— Você virá essa noite, não vira? — Aiolia quis saber do colega, colocando sua mão sobre a dele.

Mu suspirou, sentindo que sua mão começara a formigar como sempre acontecia quando Aiolia o tocava.

— Eu darei um jeito... — Mu falou. Só não sabia como daria esse jeito. Além de estar se sentindo cansado pelas noites mal dormidas, Mu teria que terminar o trabalho hoje de qualquer maneira, pois não poderia ter notas ruins, o seu pai nunca entenderia; e ele também não queria isso, afinal, estudar sempre fora sua prioridade ali. Entretanto, também não queria sair da fraternidade. No final das contas, acabara se sentindo parte daquele grupo. Oh, Buda! Como conciliar diversão e estudos?

* * *

Na república dos Ômega Chi, depois de uma reunião parecida, Lune também ficara indignado com esse desafio, contudo, por motivos bem diferentes. Quando todos se dispersaram da reunião, ele foi tirar satisfações com o presidente da fraternidade.

— Radamanthys, você ficou maluco para permitir esse desafio?!

O líder dos Ômega Chi franziu a testa, não compreendendo a atitude de Lune, já que estavam acostumados com desafios regados a bebidas.

— Eu soube que a maioria dos Sigma Tau têm doenças venéreas — Lune esclareceu. — Escolhi essa fraternidade para não me aproximar daquela gente, eu não quero me misturar com eles!

— De onde você tirou essa ideia?! — Radamanthys estava de queixo caído. Por mais que os Sigma Tau fossem uns idiotas, eles eram atletas e tinham fama de serem bastante cuidadosos em seus relacionamentos, até mais que alguns dos Ômega Chi.

— DeathMask me contou quando me recrutou para a fraternidade — Lune respondeu. Aquele havia sido um dos motivos pelos quais havia desistido de se candidatar aos Sigma Tau. Além da oportunidade de ter um quarto só para ele claro.

Radamanthys sorriu de lado, dando-se conta do que havia acontecido.

— Não há com o que se preocupar, Lune. Está tudo tranquilo com os garotos, ao menos, é o que se sabe sobre eles.

— Então aquela conversa de DeathMask não passou de papo-furado ou você está de papo furado agora?

— Foi apenas um mal-entendido — disse. — Mas eu já esclareci tudo, fica tranquilo, inclusive informarei a DeathMask sobre isso.

— Está certo... — Lune bufou antes de sair. Aquela casa estava cheia de mentirosos. De qualquer forma, iria tirar isso a limpo.

Radamanthys balançou a cabeça em negação. Será que Lune era uma pessoa desinformada, que não sabia que DSTs não eram transmitidas pelo ar?

Não. Lune não era alguém desinformado, era alguém cheio de preconceitos, o que não deixava de ser curioso já que Lune pertencia a um grupo que muitas vezes lidava com atitudes discriminatórias por conta de sua orientação sexual. Mas algumas pessoas eram mesmo assim, julgavam mesmo já tendo sido julgadas, e aquilo não era problema seu, Radamanthys refletiu.

* * *

Pouco depois das sete horas da noite, os Sigma Tau, os Ômega Chi e algumas garotas da Delta Beta Delta se encontravam reunidos no quintal da república dos Sigma Tau.

— Senhoras e senhores — disse o presidente da casa no megafone —, bem-vindos ao primeiro torneio anual de PingBeer dos Sigma Tau contra os Ômega Chi.

Todos vibraram e gritaram em expectativa.

— As regras de PingBeer são muito simples. Dois jogadores, face a face, em seus respectivos lados, mira a bolinha dentro de um dos copos do adversário. Se acertar, o adversário terá que beber a cerveja daquele copo. E lembrem-se, todo mundo que for arremessar deve manter o cotovelo para fora da linha da mesa ou serão desclassificados. Os arremessos são feitos alternadamente entre os membros das equipes, ou seja, primeiro você, depois um adversário, depois seu companheiro, depois o outro adversário...

— Milo, já ‘tá bom... Eu acho que todos aqui sabem como jogar PingBeer — Aldebaran o interrompeu, revirando os olhos para o discurso do amigo, que nunca conseguia resumir a informação.

Milo o olhou emburrado, como uma criança que se vê contrariada.

— Por que você está sempre atrapalhando os meus discursos, Aldebaran? — reclamou, antes de voltar a falar para todos. — Certo, temos quinze candidatos de cada lado. A casa com maior número de vitórias, ou seja, aquele que beber menos, ganha. Alguma pergunta? — Ninguém se manifestou. — Tudo bem. Que comece o jogo! — Milo gritou, fingindo-se de empolgado. Ainda assim tinha gostado daquela disputa, era uma distração para não ficar repassando a cena que acontecera mais cedo na livraria. Aquilo ainda estava doendo.

Todos vibraram novamente e se dirigiriam para perto da mesa, que já estava arrumada para o campeonato. Em cada lado dela havia dez copos cheios de cerveja, arrumados em forma de um triângulo. Os primeiros candidatos a se posicionarem, pela ordem do sorteio, foram Lune e Aiolia.

— Está preocupadinho? — Lune provocou ao ver o semblante claramente apreensivo do seu adversário. — Já aviso que não vou pegar leve com você.

Aiolia apenas rosnou em resposta. Ômega Chi idiota! Ele estava preocupado sim, mas não era com o jogo. Ele era muito bom de mira e estava confiante na sua vitória. O que o afligia era outra coisa, muito mais importante: a ausência de Mu, que, até aquele momento, não havia chegado. Será que ele desistira da fraternidade? Porque até Ikki já estava ali! Aiolia se recriminou por ter saído do treino e ido direto para a república; deveria ter passado em seu quarto primeiro para arrastar Mu, garantindo sua presença. Onde você se meteu, meu pequeno gafanhoto?

Foi dado o sinal, e Aiolia arremessou a bola, que quicou entre os copos, entrando em um deles. Como havia a chance de fazer arremesso em sequência quando acertava, ele passou toda a sua jogada sem beber um gole sequer. Por sua vez, à medida que ia bebendo ficava mais difícil para Lune acertar o alvo. Não que ele fosse conseguir um resultado muito melhor se não tivesse bebido, Lune tinha consciência de sua péssima mira.

Ao final da primeira disputa, mais dois candidatos entraram na jogada. Aiolia afastou-se rapidamente, a fim de ligar para seu colega de quarto. Estava tão concentrado nessa tarefa que nem notou que Paul estava ali, entre aquele aglomerado de pessoas, observando-o a distância.

Paul espumava de ódio enquanto olhava Aiolia. Precisava fazer alguma coisa para vingar-se daquele babaca, e tinha que ser o mais rápido possível. Ele até já tinha uma ideia em mente.

Lune saiu do jogo, cambaleando um pouco e precisando com urgência de um banheiro depois da quantidade de cerveja que havia ingerido. Por sorte a fila não estava grande, havia poucas pessoas lá, entre elas, Afrodite. Depois de se aliviar, foi jogar um pouco de água no rosto e conferir o seu visual no espelho, arrumando seu longo cabelo loiro acinzentado. Franziu o cenho ao perceber, pelo reflexo, Afrodite escorado numa parede, inquieto, tentando incansavelmente uma ligação.

— Nossa! Que aflição é essa, criatura? — Lune questionou.

— Odeio quando ligo para alguém e o telefone está desligado!

— Deve ser alguém muito importante para ficar desse jeito, tão ansioso — Lune comentou com malícia.

— É sim, é o meu amigo Mu que até agora não chegou. Ele é candidato do Sigma Tau e não poderia faltar.

— Ah! — Lune exclamou com descaso. Achou que seria algum casinho de Afrodite.

A verdade é que Afrodite estava tentando ligar para duas pessoas, para Mu e para Shura. De que adiantava ter o número do celular do professor se ele não atendia o telefone?! Droga! Isso lhe deixava revoltado.

Nesse momento, Valentine entrou no banheiro.

— Você estava mal no jogo, heim, amigo — comentou com Lune, assim que o viu. — Não acertou uma bolinha e seu adversário acertou todas.

— Eu joguei contra o quarterback do time de futebol, você queria o quê? O cara é bom em arremessos.

— Verdade! E é um gato também — Valentine acrescentou.

— E por falar em jogador de futebol gato... Lune, você tem toda razão sobre o tal de Milo. Ele é mesmo um pedaço de mau caminho de deixar qualquer um louco — disse Afrodite, ao mesmo tempo em que DeathMask entrava no banheiro.

DeathMask cerrou os punhos com força ao ver os três ali e segurou-se para não socar a parede, ou, quem sabe, um deles. Isso não seria uma má ideia, pensou. Principalmente depois do comentário asqueroso que ouvira. Só faltava agora um casal formado pelos dois veados que mais odiava no mundo todo: Milo e Afrodite. Sem contar o absurdo daquilo. Milo não era tão bonito assim! DeathMask era muito mais charmoso, vistoso, mais forte e másculo também! Não que ele se importasse com quem Afrodite achava bonito ou deixava de achar, ele não fazia questão de ser admirado por aquele veado afetado. Mas Milo ser um pedaço de mau caminho?! Só faltava essa!

— O lugar de vocês é na fila, calouros — falou com sua voz forçosamente grossa —, esperando o momento de jogar, e não aqui, fofocando como três comadres. — Fez uma expressão de desprezo e saiu do banheiro. Nem pensar ficaria lá com aqueles veados, era melhor usar uma árvore.

Afrodite revirou os olhos.

— Só pedaço nada! — Aumentou o tom da voz, propositalmente, para que DeathMask ainda escutasse. — Milo é o mau caminho inteiro. E eu o percorreria todinho quantas vezes fosse preciso.

Ainda na porta, DeathMask estufou o peito, refletindo se revidaria ou não aquela afronta. Sim, ele se sentira afrontado. Mas resolveu que o melhor era ignorar, afinal, ele já tinha um plano para baixar a crista de Afrodite.

— Pode tirar o olho de Milo, que eu vi primeiro — disse Lune, assim que DeathMask sumiu de vista. Agora que sabia que Milo estava limpo, faria tudo para conquistá-lo, não perderia mais tempo!

— Não sei não, colega... não garanto nada! — Afrodite deu-lhe uma piscadela, fazendo Lune bufar.

— Nem pense nisso, queridinho — falou com arrogância. Lune era do tipo que não media esforços para tirar de seu caminho qualquer um que atrapalhasse seus planos.

Afrodite apenas sorriu e saiu do banheiro. Não era do tipo que se intimidava. Se ele quisesse Milo, não se importaria com Lune, mas ele tinha outra pessoa no alvo, o seu professor Shura.

Em seguida, Lune e Valentine também se retiraram do banheiro. Valentine voltou para perto da mesa, onde o pessoal estava reunido, gritando e vibrando com a competição, enquanto Lune foi para um lugar bem afastado, perto de algumas árvores.

Havia ficado intrigado e enciumado com o comentário de Afrodite sobre Milo, e isso sempre lhe despertava a vontade de fumar maconha. Só que ele não gostava de fazer isso na frente das pessoas, pois seu pai o obrigava a bancar o bom moço e ele nunca sabia quando alguém poderia filmá-lo ou coisa assim. Escorou-se numa árvore no fundo do quintal e, enquanto fumava, pensava em como poderia aproximar-se de Milo. Sabia que naquela noite não haveria jeito, já que ele estava totalmente envolvido na competição e não saía de perto daquela mesa por nada.

Foi então que ouviu um murmurinho. Curioso como era, resolveu aproximar-se e tentar descobrir do que se tratava. Apesar de bastante tonto pela quantidade de álcool que havia ingerido, conseguiu reconhecer a voz de Paul.

— ...Não, Abel, colocar sonífero na bebida dele não foi suficiente, eu quero fazer com que ele nunca mais jogue, eu o quero muito humilhado e ferido. Esse Aiolia vai me pagar!

Lune arregalou os olhos. Aiolia não era o garoto com quem ele acabara de jogar?! Colocar sonífero na sua bebida? Será que ouvira direito?! Será que aquilo não era fruto de seu estado alcoolizado? Resolveu aproximar-se um pouco mais, na tentativa de continuar ouvindo.

— Mas, Paul, ele já está no banco de reservas, e eu não quero ferrar com a saúde do cara!

— Mas você se beneficiou naquele dia, não foi? Está se destacando no time, não está? Agora não quer me ajudar? Você quer se dar bem sozinho, é?

— Mas o que você está querendo é perigoso! Eu fiquei preocupado com ele naquele dia, tive medo de ele morrer ou coisa assim, você disse que era somente um laxante, você me enganou.

— Relaxa, Abel, ninguém vai morrer. Ele só será expulso do time. Você sabe que ele só está levando um castigo porque o treinador acha que ele dormiu por conta de farras, você mesmo me disse isso. Logo a raiva do treinador vai passar, e esse Aiolia vai roubar o seu lugar outra vez. É isso que você quer?

Abel respirou fundo.

— Você garante que o cara não terá sequelas?

— Confia em mim!

— Tudo bem, então. Eu... eu vou pensar melhor sobre isso.

Lune percebeu que a voz estava ficando mais próxima, indicando que Paul e Abel se aproximavam. Preocupado em ser pego ali, jogou o cigarro fora e saiu rapidamente, voltando para onde os colegas gritavam e vibravam animados com a disputa.

Assim que se aproximou do grupo, viu Afrodite comemorar depois de arremessar a bola com um tiro direto e acertar o centro do copo de seu oponente.

DeathMask resmungou, achando desnecessário todo aquele entusiasmo. Mas a verdade é que havia ficado admirado. Esse era um arremesso mais complicado porque devia ser feito com certa força, mas não em exagero. O desgraçado é mesmo bom! — tinha que admitir, mas, obviamente, nunca faria isso em voz alta.

* * *

Enquanto isso, na porta da república, segurando na mão o livro que comprara mais cedo, Camus se questionava se aquilo havia sido uma boa ideia. Seus olhos correram pelo ambiente. O gramado da entrada estava coberto de ervas daninhas; a casa precisava de um trabalho de pintura sério, ou, pelo menos, que limpassem as lascas de tintas caídas no chão; sem contar todas aquelas janelas quebradas ou manchadas com tiros de paintball. Mon Dieu! Como alguém consegue viver numa bagunça dessa?!

Respirou lenta e profundamente, enquanto fazia uma massagem com os dedos indicadores na testa, como que prevendo uma dor de cabeça. Odiava aquela fraternidade, odiava aquela casa, odiava tudo que ela representava.

Tomou fôlego outra vez e entrou, aproveitando-se de que a porta estava aberta, para variar. Olhou com desprezo para algumas pessoas que riam alto e bebiam, esparramadas pela sala. Não adiantava! Por mais que Milo insistisse em afirmar que fraternidades eram espaços de sociabilidade, onde todos pregavam o respeito pelos irmãos, Camus só conseguia enxergar um monte de garotos idiotas e alcoolizados.

Revirou os olhos quando um garoto bêbado tentou lhe dar uma cantanda ridícula, enquanto outro recriminava.

— Não está conhecendo esse ruivo, não? Se Milo te ver mexendo com as coisinhas dele...

Coisinhas. De. Milo?! Camus bufou. Ele não era nenhuma “coisinha” de Milo! Definitivamente ter ido àquele lugar não havia sido uma boa ideia, nem lhe trazia boas recordações; entretanto, já que estava lá, não voltaria sem falar com o ex-namorado. Queria se desculpar por hoje mais cedo. Entendia que havia passado dos limites, é claro que não queria arrumar um encontro para Milo. Como se ele precisasse da ajuda de alguém para isso! É claro que sentia ciúmes.

Camus seguiu até o quintal, conhecia muito bem o caminho, pois tentara frequentar aquele antro no início do namoro com Milo, apenas para agradá-lo. Obviamente que isso fora um fracasso total e o resultado...? Ah... o resultado fora ainda mais doloroso do que quando saíra a notícia de que Plutão não era um planeta. E veja que, na época, Camus era uma criança e esse acontecimento havia realmente deixado o ruivo abalado. Plutão era seu planeta preferido, fora por conta dele que se apaixonara pela Astronomia.

Entretanto, seu amor por Plutão não chegava nem perto do que sentia por Milo. Ainda experimentava um friozinho no peito quando se lembrava do dia em que chegara no campus e, ao abrir a porta de seu novo quarto, deparara-se com aquele deus grego deitado despojadamente em uma das camas, lendo uma revista de esportes. Antes, Camus torcia os lábios para essa história de amor à primeira vista, mas tudo mudara naquele momento.

Por sorte, não demorara muito para que Camus descobrisse que o sentimento era recíproco, e o seu colega de quarto se transformar em seu namorado. Desde então, sua vida ganhara um brilho diferente. Camus se sentira completo, como se repentinamente tivesse sido erguido acima do nível do mundo comum...

Às vezes achava-se tão estúpido com tais percepções...

Mas sua alegria durara aproximadamente um mês. Foi quando Milo entrou para os Sigma Tau e sua vida pitoresca se transformou num pesadelo.

Ao logo de apenas seis meses, Camus lidara com Milo de cabelo azul, com Milo bêbado ou de ressaca, com Milo vestido de mulher, com Milo em bares de strip ou de cueca pelo campus, com pessoas invadindo seu quarto na madrugada, com competições idiotas, com garotas de irmandades infernizando sua vida... Mon Dieu! Nunca imaginara que algo pudesse interferir tanto em sua felicidade, mas aquela maldita seita que eles apelidavam de fraternidade fizera isso.

O que piorara ainda mais as coisas fora a quantidade de garotos e garotas que Milo, como jogador de futebol e garoto de fraternidade, tinha começado a atrair. Eram como abelhas atrás do mel, e Milo, claro, começara a achar que era o homem mais charmoso da face da terra, e ele não tinha nenhum problema usar o seu charme para ser alguém cada vez mais descontraído e popular, o que fizera Camus parecer ainda mais chato e esquisito aos olhos dos amigos de Milo.

Não precisou de muito tempo para Camus perceber o quanto Milo estava encantado com aquela vida, e que ele não teria como competir com aquilo, o que o deixava cada vez mais inseguro. Claro que Camus nunca desabafara sua frustração, não queria parecer desesperado, ainda que estivesse. Então, seguindo o velho ditado: se não pode com o inimigo junte-se a ele, Camus tentara fazer parte daquele universo que odiava, sem sucesso. Após os primeiros meses, ele tivera a prova de que seus esforços eram perda de tempo.

— Não me diga que a biblioteca pegou fogo? — Foi surpreendido por Milo, que estava escorado na porta, com um sorriso de lado, enquanto afastava um cacho de seu cabelo.

Aldebaran correra para o avisá-lo de que Camus estava na república, assim que o vira chegar, e Milo largara a competição urgentemente para impedir que Camus fosse até o quintal e visse alguns garotos bêbados nadando pelados na piscina.

— Festas em dia de aula, Milo? Francamente...

— Veio para me recriminar?

— Não. Queria falar com você, mas vejo que está muito ocupado... O que foi?! — Estranhou quando Milo pegou em sua mão e saiu puxando-o em direção às escadas. Milo flagrara um calouro olhando para a bunda de Camus e não ficara nada satisfeito.

— Vamos conversar no meu quarto, está muito cheio aqui...

Camus não se opôs, afinal, era realmente melhor uma conversa sem plateia.

Na porta, Lune franziu a testa ao ver Milo subindo as escadas, segurando a mão de outro cara. Antes, quando vira Milo se afastar, aproveitara a oportunidade para segui-lo a fim de falar com ele. Mas o que acabara de ver não lhe agradava nem um pouco! Quem era esse ruivo, e o que ele tinha com Milo?! Precisava descobrir.

* * *

Notas finais
Obrigada aos leitores que não desistiram e que continuam me acompanhando nessa aventura. Devagar e sempre, nós chegamos lá. Gostaria de agradecer especialmente a Automne Chemin, Sweet Selene, Sheilinha, nane yagami, reneev, Orphelin, Rosa Venenosa, Myrho, Suh, Shaketdiva e Jenferr por disponibilizaram um pouco do tempo de vocês para comentarem o capítulo anterior. Agradeço também àqueles que comentam sempre que podem. A interação de vocês com a história é minha maior motivação. Mas tenho certeza de que vocês já sabem disso. Me desculpem pela demora *acho que esse é o momento em que eu fujo para as colinas*. Beijos e até mais. *** NOTAS DO CAPÍTULO PingBeer – é um jogo muito comum em festas universitárias nos EUA. Gregos – no contexto do capítulo é como são chamados garotos que fazem parte de uma fraternidade. P.S.: Selene, também te agradeço pela indicação do livro Alice no país da Física Quântica.