Golden College
16 Do Opposites Attract?
Notas iniciais
CAPÍTULO 16 — GOLDEN COLLEGE
Do Opposites Attract?

Assim que Aiolia e Mu saíram do bar, DeathMask seguiu resmungando para o banheiro masculino com o intuito de lavar o nariz ensanguentado, enquanto Shina foi atrás dele para convencê-lo a ir embora. Já Milo e os outros sentaram-se próximos do balcão e deram início a uma conversa sobre vários assuntos aleatórios. Depois de alguns minutos, os outros foram se dispersando e somente Milo permaneceu por ali. Ele pediu um refrigerante e, enquanto aguardava, pegou o celular e digitou uma mensagem para Camus.
“Cadê vc?”
Não demorou muito para receber a resposta.
“Sinto muito. Tive uns contratempos com o meu projeto. Estou no laboratório de Física”.
Milo ficou decepcionado. Camus havia lhe dado esperanças de que iria à festa, nem que fosse para dar uma passadinha rápida. Por esse motivo, Milo sequer bebera, procurando se manter sóbrio enquanto esperava pelo ex-namorado. Entretanto, apenas iludira-se mais uma vez.
Chateado, pediu uma cerveja ao garçom e resolveu beber um pouco sozinho, observando as pessoas dançarem feito loucas na pista. Não se deu conta de que também estava sendo observado.
Lune estava de olho em Milo desde que o vira chegar à boate. Deu um sorriso de satisfação por, finalmente, encontrá-lo sem companhia, deixou Valentine falando sozinho e foi até ele. Só que, ao tentar atravessar o ambiente, foi abordado por Faraó.
— Ei, calouro! Preciso que vá até o bar, compre umas bebidas e traga para mim. E rápido!
Lune fez uma expressão de nojo ao olhá-lo de cima a baixo, resmungando um xingamento e seguiu seu caminho. Faraó ainda tentou retrucar, mas foi ignorado.
Até parece! Pensou Lune. Já havia sido muito ele ter se sujeitado às loucuras de DeathMask ao fantasiar-se de doméstica para ir à festa. Os Ômega Chi deveriam dar-se por satisfeitos com isso, pois era o máximo que conseguiriam dele.
— Ainda estou esperando pela sua revanche — falou ao aproximar-se de Milo e fez um gesto para o garçom pedindo uma bebida. — Ou está com medo de perder outra vez?
— Nem vou responder isso! Sabe muito bem que eu estava bêbado demais naquele dia.
— Bem, hoje você não está bêbado...
Milo não estava com muita vontade de jogar sinuca, tampouco passar algum tempo com um babaca Ômega Chi, mas como não tinha nada para fazer mesmo, e aquela festa estava muito chata, deu de ombros e resolveu aceitar o desafio.
Os dois seguiram até o final do bar, onde ficava a mesa de sinuca. Por sorte, havia uma que acabara de ser desocupada. Eles pegaram seus tacos, estabeleceram algumas regras e deram início à partida.
Algumas jogadas depois, Milo estava ganhando fácil.
— Eu admito que sou um péssimo jogador de sinuca, mas sou muito bom em outras coisas — Lune pronunciou a última frase num tom malicioso, que Milo preferiu ignorar. — De qualquer forma, foi engraçado ver você perder para mim no outro dia.
— Se você sabia que iria perder hoje, por que insistiu em jogar? — Milo questionou, depois de acertar uma tacada e encaçapar mais uma bola. Faltavam apenas duas.
— Não é óbvio?! Eu estou interessado em você — Lune foi direto, fazendo Milo tossir e errar a segunda jogada. — Apesar de meio bobo com algumas coisas, o seu jeito me agrada. E a sua aparência também.
— Olha, não vai rolar... — Milo também foi direto, passando um giz no seu taco, enquanto esperava a vez de Lune fazer a jogada dele.
— Por que eu sou um Ômega Chi?! Por favor, isso não faz o menor sentindo.
— Isso faz todo o sentido. — Milo mirou sua última bola, era sua vez novamente. — Ômega Chi e Sigma Tau são rivais desde outras gerações, é uma espécie de tradição entre nossas fraternidades, que ficou pior por conta de rixas pessoais entre alguns membros de sua fraternidade e alguns membros da minha. Sendo assim, cada um defende o seu lado, o que nos torna incompatíveis.
Lune balançou a cabeça.
— Você leva essas brigas de fraternidades muito a sério. Eu não defendo os Ômega Chi. Para ser sincero, eu nem me identifico com eles.
— Não?! — Milo franziu o cenho. Se Lune não se identificava com sua fraternidade, por que então a escolhera? Ele fez essa pergunta.
— Porque era fraternidade do meu pai — mentiu, aproveitando-se da tradição de parentes entrarem para uma mesma fraternidade. — Mas lá não é como o meu pai me dizia, não é exatamente o que eu esperava.
Milo sorriu largo.
— Bem. Eu já sabia que os Ômega Chi era uns perdedores, mas ter essa confirmação vindo de um de vocês não tem preço. De qualquer forma, você pode sair e entrar para outra fraternidade; ainda dá tempo. Talvez possa se candidatar à Sigma Tau. — Segurou o taco em pé com a mão esquerda e colocou a outra no queixo, numa expressão pensativa. — Até que não seria uma má ideia roubar integrantes dos Ômega Chi. Radamanthys já nos roubou um integrante uma vez, mas o idiota não nos fez falta.
— As coisas não são tão simples. Meu pai ficaria chateado comigo. Além disso, duvido que os Sigma Tau iriam me aceitar.
— Isso é verdade. Sua lealdade teria que ser provada muitas vezes antes disso acontecer.
Lune deu um sorrisinho sarcástico.
— Você coloca muita fé nos seus amigos Sigma Tau, não é? Acha que são todos realmente leais?
— Claro! Somos como irmãos. Esse negócio de conviver sem ter laços só acontece com vocês, Ômega Chis.
— Será mesmo?! Eu não teria tanta certeza.
— O que você quer dizer com isso?
— Deixa pra lá — Lune jogou o taco sobre a mesa de sinuca. — Eu não tenho provas...
— Provas de quê? — Milo ficou intrigado.
— Algumas coisas que ouvi. Mas não adianta te contar, pois você nunca vai acreditar em mim, afinal, é a palavra de um Ômega Chi contra a palavra de um irmãoseu. — Pronunciou a palavra irmão de modo irônico.
Milo fez cara feia.
— Odeio quando alguém começa a contar alguma coisa, ou faz suspense e não termina. Não deveria ter começado se não iria contar...
— Está bem, deixarei que você decida se acredita em mim ou se continua fazendo papel de bobo.
— Vamos logo com isso, Lune! — Milo já estava impaciente. — Sei que está louco para me contar...
— Lembra do desafio de BeerPong? — Depois de receber um aceno positivo, Lune continuou. — Então, naquele dia eu me afastei para fumar e acabei ouvindo um Sigma Tau dizendo que tinha colocado sonífero na água do quarterback do time de futebol para que ele dormisse durante o jogo. E me pareceu que essa pessoa estava planejando armar novamente. Mas eu não fiquei para terminar de ouvir a conversa.
Milo estava de olhos arregalados e boca aberta, ainda atônito com o que acabara de ouvir. Então o desmaio de Aiolia fora armação de alguém?! Mas quem? E por quê?
— Quem? Quem você ouviu falando isso?
— Eu não sei. Se escutei o nome, não me lembro. E também não consegui ver o rosto.
Ainda com esperanças de que não fosse um de seus irmãos, Milo questionou:
— Então como pode ter certeza de que foi um Sigma Tau? Poderia muito bem ser um Ômega Chi, afinal, alguns ali têm inveja por não terem entrado no time.
— Porque eu não conheço os Sigma Tau, mas conheço todos os Ômega Chi e tenho certeza de que não era a voz de nenhum dos nossos — Lune omitiu o fato de que Paul estava participando da conversa, pois aquilo fugia dos seus propósitos. — E só tinha nossas fraternidades lá, então... Bem, como eu disse, você pode não acreditar em mim. Mas eu não teria motivos para inventar isso. Além do mais, por que os Ômega Chi iriam prejudicar um único jogador do seu time? Um calouro ainda por cima? Se fosse briga de fraternidades, teriam colocado o sonífero na água de todos vocês ou apenas na sua, que é o líder deles.
— As coisas podem não ter saído exatamente como foi planejado...
Milo se recusava a acreditar que algum de seus companheiros seria capaz de algo tão sujo.
— Se realmente acredita nisso, é mais tolo do que eu pensava. Olha, mesmo que tenha dedo de algum Ômega Chi, ele não teria como agir sozinho. Precisaria de alguém próximo de vocês. De qualquer forma, já fiz minha parte em te ajudar, dando a informação. Cabe a você decidir se abrirá os olhos para os seus “tão leais” — fez sinal de aspas — companheiros, ou não.
Pela primeira vez, Milo não soube o que falar, aquela informação tirou o seu chão. Apesar de, no fundo, não querer acreditar nas palavras de Lune, o que ele dizia fazia todo o sentido. Já desconfiava de que aquele desmaio de Aiolia não era uma coisa natural. Além disso, essa denúncia que o time recebera também fora algo muito estranho.
Lune aproveitou-se do momento de reflexão do líder Sigma Tau para colocar mais lenha na fogueira.
— Sabe, Milo, existem pessoas de todos os tipos em qualquer lugar. Nem todos os Sigma Tau são verdadeiros com você. Do mesmo jeito, não é porque sou de uma fraternidade diferente que não sou alguém que mereça sua amizade. Eu sou legal, acredite...
— Eu realmente espero que não esteja mentindo! — Milo cortou aquele papo de bom moço de Lune. — Porque se estiver, isso vai dar merda. Você deve saber que essa é uma acusação muito grave, e não estou falando apenas de rixas de fraternidade. Estou falando do time de futebol da Golden College. E tem mais, Aiolia é meu primo, e essa briga é meio que familiar também.
— Eu sei disso. Além do mais, por que eu inventaria uma coisa dessas? Não ganho nada em fazer intriga entre você e seus amigos. Só te contei porque eu gosto de você e quero abrir os seus olhos... — Lune falou com a voz sedosa, aproximando-se mais e tocando no rosto de Milo, que acabou se afastando do toque.
— Me desculpe, Lune, eu disse que não vai rolar...
Lune suspirou, contrariado.
— E se eu te provar que não sou como os outros Ômega Chi?
— Não é só pela fraternidade...
— E é por que, então?! O que exatamente em mim você não gostou?! — Lune não entendia. Ele era tão lindo, rico, inteligente, bem relacionado. Por que alguém em sã consciência o rejeitaria?
— Eu sou apaixonado por outra pessoa.
Dito isso, Milo encerrou o assunto, jogou seu taco em cima da mesa e saiu deixando um Lune contrariado.
* * *
Quando Milo se juntou aos seus colegas de fraternidade, Afrodite — que se aproximara para perguntar notícias de Mu, já que ele não estava onde o deixara — havia acabado de se afastar, e os colegas pareciam se divertir com alguma coisa.
— Sabia que o Debas agora tem apelido novo...? — Mime foi logo falando, mas deixou a frase morrer, assim que percebeu o semblante pensativo de Milo. — Está tudo bem com você?
— Tudo na paz! — Milo tentou disfarçar, ainda que seu desejo fosse brigar para descobrir na bruta quem era o traidor. Mas não podia. Ele era o líder do grupo e precisava agir com parcimônia. Afinal, ser líder de uma fraternidade ia muito além de simplesmente organizar festas e trotes.
— Parece que viu alguma coisa que não gostou. — Foi Ikki quem fez o comentário.
— É que essa festa está um saco! — Milo respondeu, dando uma observada em Ikki. O calouro havia sido convidado para a fraternidade a pedido de Mime, mas nunca demonstrara muito interesse em fazer parte do grupo. Era distante, fechado e um pouco antissocial. Não usara nem uma fantasia para ir à festa. Isso não faz dele o traidor, Milo! Repreendeu-se em pensamento. Droga! Odiava desconfiar de seus amigos. E, naquele momento, todos eram suspeitos. — Acho melhor eu ir embora?
— Se estiver com coragem para ficar horas esperando um táxi! Porque o nosso responsávelmotorista levou o carro de Mime — Aldebaran estava chateado com Aiolia, mas não exatamente por ele ter levado o carro e, sim, por ter levado Mu.
— Eu só espero que os dois pombinhos se resolvem de vez. Não dou conta desse chove não molha deles... — Mime comentou, enquanto mexia no elmo de sua fantasia.
— Nem eu... — completou Milo, antes de se despedir e dirigir para a saída.
* * *
Já pelo lado de fora da boate, Milo escorou-se na parede, tentando proteger-se de algumas gotas de chuva que começavam a cair. Ficou mexendo no celular enquanto esperava por um táxi. Olhou as horas, não estava tão tarde, era ainda pouco mais que uma hora da madrugada. Acabou mandando outra mensagem para Camus.
“Ainda no laboratório?”
Dessa vez, não recebeu resposta.
Suspirou e guardou o celular quando viu um táxi passando. Fez sinal, mas o táxi estava cheio e passou direto.
— Quer uma carona?
Ouviu a voz conhecida de Lune e nem se virou para responder:
— Não, obrigado. Logo passa outro.
— Não vai passar outro táxi tão cedo. Você sabe como as coisas funcionam por aqui em dias de festas... — Lune falou. Havia saído da boate para fumar um cigarro, mas quando vira Milo acenando para o táxi resolvera aproveitar a oportunidade. — Vem, eu te dou uma carona.
— Você é insistente, heim... — Não havia grosseria na voz de Milo. Até se identificou com Lune de certa forma, afinal, ele também era insistente quando queria alguém. A diferença era que Milo somente insistia quando a outra pessoa demonstrava algum sentimento recíproco, o que não era exatamente o que acontecia com ele em relação a Lune. — Você é um cara bonito, Lune, pode ficar com qualquer outro garoto que você quiser nessa festa, mas eu já te falei que eu quero outra pessoa.
— Mas eu só te ofereci uma carona, criatura! — Lune se fez de desentendido. — Olha, você gosta de outra pessoa, tudo bem, eu respeito isso, o que não significa que eu não possa te dar uma carona. Eu estou indo para minha república, que fica no mesmo quarteirão que a sua, e você poderia aproveitar se não fosse tão teimoso. Mas tudo bem se você prefere ficar aí aguardando na chuva — disse e fez menção de ir embora.
— Lune, espera... — Milo o chamou. De fato, os pingos estavam aumentando cada vez mais e, bem, talvez Lune fosse realmente uma pessoa legal, pensou. — Aceito sua carona.
Lune sorriu gentilmente para ele, e os dois caminharam lado ao lado até o estacionamento, dando início a uma conversa amigável. Quando chegou próximo de seu carro, Lune destravou o alarme, fazendo o veículo luxuoso destacar-se.
— Uau! É um belo carro! — Milo falou enquanto abria a porta do passageiro.
— Gostou? — Lune inflou o peito, vaidoso, ao mesmo tempo que outro veículo estava sendo estacionado na vaga ao lado.
Milo sequer prestou atenção em Lune porque estava de queixo caído ao reconhecer de quem era o outro carro que acabara de estacionar.
— Vamos, antes que a chuva engrosse... — Lune disse, entrando no carro e esperando que Milo fizesse o mesmo. Mas Milo ainda continuava lá, parado, segurando a porta e com um sorriso de orelha a orelha no rosto. Lune bufou, reconhecendo o ruivo que vira na república dos Sigma Tau saindo do outro carro, e começou a insistir para Milo entrar logo.
Milo o ignorou, fechou a porta e foi até Camus.
— Achei que não fosse vir.
— Eu disse que vinha, não disse...? — Camus olhou para Lune de cima a baixo em avaliação ao perceber que ele havia saído de seu carro e se aproximado também. Não gostou dele, nem daquele seu olhar predador em cima de Milo. — Bem, você estava indo para algum lugar, eu não quero atrapalhar isso...
— Eu estava indo embora porque achei que você não vinha. Lune iria me dar uma carona.
— Eu sou o Lune. — Balançou a mão gentilmente para Camus, com um sorriso teatralmente simpático no rosto e um olhar avaliativo.
— Olá — Camus respondeu, blasé, percebendo que o outro estava sendo falso. — Bem, eu também não vou ficar aqui, já está tarde. Só passei porque eu havia dito que vinha e não gosto de não cumprir com minhas promessas.
— Foi um prazer te conhecer, Camus. Nós também já estamos de saída, vamos Milo... — Lune falou, abrindo a porta do passageiro novamente para Milo entrar.
Camus não conseguiu manter a sua expressão de paisagem, nem fingir que não se sentiu incomodado com aquela situação. Por isso, respirou fundo e, sem falar nada, abriu a porta de seu carro e entrou. Milo não esperou ser convidado, despediu-se rapidamente de Lune e sentou-se no banco do passageiro antes que Camus desse a partida.
— Vai acabar perdendo a sua carona, o Luke está com pressa — Camus ainda deu uma última olhada em Lune pelo retrovisor.
Milo riu largo, achando o máximo aquela cena.
— Não é Luke, é Lune. E eu prefiro ir com você. Ou a gente pode voltar para festa se você quiser.
— Eu não quero — disse, já ligando o carro e saindo. — Quem é esse cara? — Camus não entendia muito bem por que motivo se sentira assim, tão incomodado com aquele garoto. Geralmente não era ciumento. Só que havia algo em Lune que o fazia se sentir ameaçado.
— Um conhecido apenas — Milo respondeu.
— Hum... — Camus se limitou a expressar, incomodado com aquele sorrisinho convencido e besta que estava estampado no rosto do ex-namorado.
— Por que você demorou tanto? — Milo perguntou, mudando o assunto.
— O professor Saga me ligou mais cedo, tive que ir ao laboratório resolver uns detalhes do meu projeto, acabei não vendo a hora passar. Só me dei conta do horário quando recebi sua mensagem. Então voltei para o dormitório para vestir essa fantasia ridícula — disse, parando num sinal vermelho.
— Você ficou bem de Drácula...
— Na verdade, a minha fantasia é de Lestat... Ah, tanto faz! É tudo vampiro mesmo...
— Confesso que fiquei surpreso por você ter vindo.
— Eu disse que viria, não disse? Você me conhece. Sabe que, para mim, dar a palavra significa uma obrigação. Ninguém é obrigado a fazer nada até garantir a alguém que vai fazer, então passa a ser um compromisso. E eu não deixo de cumprir com minhas palavras ou meus compromissos.
— Eu sei. — Milo sorriu de canto. — É só que quando mandei a mensagem, e você disse que estava no laboratório, acabei perdendo as esperanças. Ainda mais depois que você nem visualizou minha última mensagem...
— Estava dirigindo — Camus informou, laconicamente, ao mesmo tempo em que o sinal de trânsito ficava verde.
— Só você mesmo para passar a noite de sexta-feira, em plena festa de Halloween, sozinho num laboratório de Física.
— Não estou mais no colegial, Milo. Estou na faculdade, minhas prioridades aqui são minhas pesquisas. O meu curso me exige dedicação total se eu quiser ser um bom cientista. E se para isso eu tiver que passar noites a dentro num laboratório de Física, eu passarei...
— Mas não podia ter resolvido isso amanhã cedo? Era melhor que ficar sozinho...
— Eu não estava sozinho, o professor Saga estava comigo — acrescentou, fazendo Milo bufar exasperado.
— Mas o que diabos ele estava fazendo lá com você?!
— Ele é o meu professor orientador, ora essa. Além do mais, eu ainda não te disse, mas terei que agilizar algumas coisas, pois a faculdade está interessada em patrocinar o meu projeto, independente do resultado do concurso. — Camus virou o carro na direção de um atendimento rápido de Burguer King. Estava com fome, havia passado muito tempo no laboratório e se esquecera de comer.
— Ele deu em cima de você?!
— Ah, não seja ridículo! — Camus estalou a língua, enquanto entrava na fila do atendimento. Por sorte, havia poucos carros em sua frente. — O professor Saga é um homem sério. — Não contou a Milo que Saga havia ido embora bem mais cedo, e que ficaram pouco tempo juntos no laboratório. Já que Milo o havia provocado com o tal do Lune, ele daria o troco também.
— Não acho certo você e ele ficarem sozinhos, presos num laboratório noite adentro. Você devia ter me ligado e me chamado para ficar com você, afinal, sou seu assistente no projeto.
— Você estava ocupado com seu amiguinho Luke. E que fantasia ridícula era aquela? Se ele não estivesse tão desengonçado naquele vestido eu teria pensado que era uma mulher.
Milo deu uma risadinha.
— Ele é um candidato, tem que fazer o que os veteranos da fraternidade mandam se quiser ser aceito no grupo...
— Ah, claro! Os tais rituais de iniciação... — Chegou a vez deles, e Camus parou ao lado do aparelho que ouvia os pedidos. Perguntou a Milo o que ele queria, fez o pedido dos lanches, um copo grande de Coca-Cola para Milo e um suco de uva para ele. Enquanto aguardava o lanche ficar pronto, ele voltou ao assunto. — Não entendo o que se passa na cabeça de vocês em achar que esse tipo de coisa é divertido.
— Os trotes são divertidos sim, e os garotos gostam...
— Não. Esses trotes são cruéis, desnecessários e perigosos.
— O que aconteceu com o seu tio foi uma fatalidade, Camus.
Há dez anos, quando Camus ainda era uma criança, o seu tio, irmão de sua mãe, fora encontrado morto dentro da sede de uma fraternidade. A causa da morte fora determinada como parada cardiorrespiratória causada por intoxicação de álcool. Na noite anterior, ele e outros calouros haviam sidos obrigados a tomar diversas doses de vodca em um período de menos de duas horas, como parte do ritual de iniciação.
— O que aconteceu com ele foi um crime. — Nesse momento, Camus recebeu os lanches, e eles seguiram em direção a fraternidade de Milo.
— Os garotos que embebedaram o seu tio eram uns idiotas e foram presos pelo que fizeram. Isso não significa que todo garoto de fraternidade seja um idiota. Existe gente de todos os tipos em todos os lugares — lembrou-se da fala de Lune. — De qualquer forma, a fraternidade deles foi extinta e hoje os trotes do ritual de iniciação são leves, trotes como aquele não são mais permitidos...
— Não são permitidos, mas acontecem clandestinamente. E você sabe muito bem que eu estou falando a verdade.
— Não na minha fraternidade. Mas tudo bem, não vou discutir com você sobre fraternidades, acho melhor mudarmos de assunto.
Milo virou o rosto para a sua janela e suspirou. Eles terminaram o caminho até a república em um silêncio chato.
Quando Camus estacionou em frente à casa dos Sigma Tau, Milo praguejou.
— O que foi?
— Não estou achando minhas chaves. — Milo procurava por sua chave, que havia encaixado na sua fantasia. — Acho que perdi... E não tem ninguém aí, estão todos na festa.
Camus ficou em silêncio, apenas observando Milo revirando-se para encontrar a chave. Por um momento, achou que era mentira dele.
— É, não tem jeito — disse Milo, desistindo de procurar. — Terei que esperar alguém voltar da festa. Você me faz companhia?
— Não posso, estou cansado. Também não é bom ficar dentro de um carro estacionado na rua até essa hora.
— Tudo bem, ficarei aqui deitado nessa calçada até alguém chegar, o que provavelmente só vai acontecer quando o dia já estiver claro... — Milo fez uma carinha de cachorro abandonado, que Camus, mesmo sabendo que era teatro, não conseguia ignorar. Então, Camus ligou o carro e seguiu em frente. — Para onde estamos indo? — Milo perguntou.
— Meu quarto. O Calvin vai dormir com a namorada em algum lugar, como costuma fazer todo final de semana. — Milo deu um meio sorriso malicioso e Camus acrescentou. — Não vai acontecer nada além de dormir, então pode desfazer esse sorrisinho besta ou vou te deixar aqui na calçada.
— Ok! Parei! — Milo virou o rosto para esconder o sorriso, assim como escondera a chave.
* * *
Nesse mesmo tempo, Afrodite ainda estava na festa tentando aproveitar o restante de sua noite, mas os seus atuais parceiros pareciam ocupados demais com outras coisas. Tétis, por exemplo, mal conseguia se mover para dançar em sua fantasia de sereia, já Valentine estava emburrado por alguma coisa que só Deus sabia o que era, Radamanthys, por sua vez, conversava com sua ex- (que tudo indicava que voltaria a ser atual) namorada, e Julian havia saído, vestido na sua fantasia de Poseidon, para buscar bebida.
Afrodite, que estava se esbaldando na pista de dança, desistiu de dançar sozinho, chamou os colegas de chatos e decidiu ir embora. Ainda deu uma volta pelo salão, procurando pelo motorista designado de sua fraternidade, entretanto, tudo o que encontrou foram alguns casais se pegando furiosamente, o que o fez se lembrar de ele poderia estar na mesma situação, só que havia sido abandonado pelo idiota do Shura. Chateado, desistiu da busca pelo motorista e resolveu voltar para casa, ele mesmo dirigindo. Chegou à conclusão de que não estava assim tão ruim a ponto de não conseguir dirigir até o seu dormitório, mesmo que tivesse tropeçado em suas próprias pernas uma ou duas vezes naquele salão. Decidido, traçou uma reta até a porta e saiu da boate.
Um vento frio subiu pelas suas pernas descobertas quando estava do lado de fora. Cruzou os braços e tentou andar rápido em direção ao seu carro, para se proteger da garoa fina, e isso o fez tropeçar algumas vezes. Deu graças a Deus por ninguém estar olhando. De qualquer forma, o tempo fechado deixava tudo ainda mais escuro e a atmosfera sombria da decoração pareceu meio assustadora naquele momento. Ele não queria permanecer sozinho ali nem mais um segundo.
Ainda bem que não demorou muito para encontrar o seu carro. Quando entrou, ligou o aquecedor e pegou o celular para ligar novamente para Shura. Aquela seria a última vez! Garantiu para si mesmo. Se não fosse atendido, nunca mais olharia para o professor, por mais gostoso que ele fosse. Estava decidido até mesmo a não frequentar mais a disciplina de Espanhol. No próximo semestre se matricularia na aula de alemão. Sim, alemão seria uma ótima opção, porque o professor era velho e feio, assim ele não correria o risco de ser seduzido. O telefone tocou duas vezes até que alguém atendeu, para o alívio de Afrodite. Ele nem ouviu o alô direito e já começou a despejar.
— Achei que você nunca fosse atender esse telefone! O que deu em você para sumir assim? Eu estou te procurando há horas, criatura! Onde você está e o que você está fazendo? Onde você se enfiou?
Ouviu apenas um ruído do outro lado da linha, parecendo a de alguém que estava meio assustado ou surpreso com aquela enxurrada de reclamações. Afrodite imaginou que Shura estivesse acompanhado de outras pessoas.
— Está em algum lugar que não pode falar?
— Hum... Hum...
O lugar era um pouco barulhento, ouvia-se uma música de longe, e ele também ouvia vozes distantes de outros garotos.
Espera aí?! Shura está numa festa?! É isso mesmo?! E outra festa, claro. Já que Afrodite havia procurado pelo professor por todo o Sanctuary e não o encontrara. Afrodite apertou a sua mandíbula com força. Ah, mas aquilo não iria ficar assim! Shura iria ver o que era brincar com “peixes” de ascendente em “escorpião’.
Então, mesmo que o correto a fazer fosse dizer ao professor para esquecê-lo, para que nunca mais o procurasse, e que estava tudo acabado, resolveu brincar com ele, antes de dispensá-lo, ou apenas dar um gelo nele. Iria fazer Shura se arrepender de não estar ao seu lado. E, ao mesmo tempo, iria fazê-lo ficar constrangido na frente de Deus sabe lá quem estava com ele.
— Que pena! — disse, mudando a voz de brava para sedutora rapidamente, como quem apenas trocava a sintonia do rádio. Tinha herdado o talento da mãe, afinal. — Eu tinha planejado tanta coisa para nós esta noite. Você quer saber o que eu havia planejado para nós dois?
— Hum... Hum... — Ouviu a expressão positiva do outro lado da linha.
— Primeiro, eu iria te dar um beijo bem gostoso, enquanto minhas mãos estariam por todo o seu corpo, te acariciando — falou devagar e sensual. — Da boca, eu iria logo para o seu pescoço, para beijar bem devagar, com mordidinhas de leve, até você sentir arrepios. — Afrodite percebe que o barulho da festa havia ficado mais distante, e ele deduziu que Shura havia entrado em algum banheiro. — Eu iria tirar a sua roupa toda, peça por peça, usando apenas a minha boca... E depois, eu iria lamber e chupar cada parte do seu corpo, deixando marcas pelo caminho, até encontrar a parte mais deliciosa dele. Aquela parte que você sabe que eu adoro. E eu iria lamber todinho, e depois chupar bem devagarinho...
Alguém gemeu do outro lado da linha, parecendo que havia iniciado uma masturbação, e Afrodite continuou a sua narração erótica.
— Você iria me agarrar pelo cabelo e me pedi para ir mais rápido, e eu obedeço... faço tudo que você deseja...
De repente, a pessoa gemeu o seu nome.
— Ah... Afrodite!
Oi?!
Por mais bêbado que Afrodite estivesse, ele nunca iria confundir aquele sotaque italiano.
— Que Delícia!
— DeathMask?!
— Isso, geme o meu nome e continua. Continua falando o que você vai fazer comigo...
Afrodite desligou o telefone imediatamente. Colocou a mão na boca e olhou na sua lista de chamada, para conferir. Sim, ele havia ligado errado. Discara a última chamada não atendida, ao invés de última chamada discada, como planejava. Ah, eu quero morrer!
O telefone começou a piscar em sua mão, DeathMask ligando de volta, mas, obviamente, Afrodite não iria atender. Antes mesmo do celular parar de piscar, Afrodite ouviu batidas no vidro do carro e olhou para o lado.
Quase desmaiou quando o rosto de Jason Voorheesapareceu na janela. Como se não bastasse o Jack Estripador o observando durante toda a festa, agora, outro psicopata o seguira até ali. Começou a gritar desesperado, enquanto o outro lá fora fazia sinal para que ele saísse do carro. Tentou dar a partida, mas Jason se colocou na frente do veículo, e Afrodite ficou meio perdido sem saber o que fazer, porque ele nunca que iria atropelar um cara. Ainda que fosse um possível psicopata.
Então, no rompante de coragem, ele pegou um guarda-chuva em um dos compartimentos do carro e saiu do veículo.
— Eu não tenho medo de você!
— Afrodite, sou eu... — a pessoa tentou falar, mas era tarde demais. Afrodite já o havia acertado com o guarda-chuva.
— Ah, meu Deus! Porque não disse antes! — Afrodite tentou ajudar Shura a se levantar, assim que reconheceu sua voz. — Eu sinto muito, eu não sabia que era você... — Ele tirou a máscara do professor.
— Não, alguém vai me reconhecer... — Shura tentou impedir, e entrou no carro imediatamente. Lá dentro, ele tirou a máscara e alisou a sua cabeça, onde Afrodite o havia acertado em cheio.
— Mas, por Deus! Por que essa fantasia assustadora? — Afrodite começou a rir, enquanto beijava a cabeça do professor.
— Foi a única fantasia com máscara que encontrei na loja perto do meu apartamento...
— E por que precisava de máscaras? Não queria que ninguém te reconhecesse por que você é professor? Mas eu vi outros professores na festa...
— Nenhum deles está saindo com um aluno. — Shura tentou afastar Afrodite, olhando para fora do carro, querendo ver se havia alguém por ali os observando. — Bem, não que eu saiba...
Afrodite, então, mudou o tom de sua voz para irritado.
— E posso saber onde o senhor estava, para só dar o ar da graça agora?! Por que não atendeu minhas inúmeras ligações?! — Cruzou os braços e encarou o professor, as sobrancelhas franzidas de modo interrogativo.
— Eu estava em um hospital e tive que colocar o celular no silencioso. — Passou a mão novamente no galo que se formou em sua cabeça. Aquilo estava dolorido. — O meu amigo, aquele que divide o apartamento comigo às vezes, teve uma crise de esofagite bem quando nós estávamos nos arrumando para vir para cá. Por isso não atendi suas ligações.
— Poxa! Sinto muito pelo seu amigo. Ele está bem?
— Está sim, não se preocupe. Já foi devidamente medicado, e está descansando agora.
— Hum... Você bem que podia ter me mandando uma mensagem, fiquei louco aqui, imaginando mil e uma coisas...
— Me desculpe. Foi meio corrido... — Shura falou. — Eu saí do hospital e fugi pra cá, queria te fazer uma surpresa. Mas, então, quando eu parei no bar para comprar uma bebida, eu vi você saindo e te segui. Tentei ligar, mas seu telefone parecia ocupado...
— Ah — Afrodite lembrou-se da ligação para DeathMask. — Eu estava tentando ligar para você... — Afrodite subiu no colo de Shura e começou a depositar beijos no pescoço deles.
— Acho melhor sairmos daqui. — Shura segurou Afrodite pela cintura e o colocou no banco do passageiro.
— Ninguém está nos vendo! Relaxa!
— Me entregue a chave, não vou deixar você dirigir bêbado desse jeito. — Olhou para o loiro com reprovação. — À propósito, não acredito que você iria dirigir nesse estado! Também não acredito que esteja tão bêbado, francamente, Afrodite...
Afrodite revirou os olhos, entregando as chaves para ele. E lá iria começar mais um sermão.
— Amanhã conversaremos sobre isso — Shura falou, para alívio de Afrodite. Afinal, o professor sabia que bêbado daquele jeito, Afrodite não só ignoraria suas palavras, como, provavelmente, também nem se lembraria no dia seguinte. Sem contar ele tinha outras coisas para resolver naquele momento. Olhou para as belas pernas de Afrodite, de fora naquele vestidinho curto, e deu um sorriso malicioso. — Primeiro, vamos resolver outro probleminha.
Ligou o carro, e seguiram para o motel mais próximo.
* * *
Enquanto isso, em seu quarto, Camus tinha acabado de comer o seu lanche junto com Milo.
— Cara, eu estava com tanta fome que seria capaz de comer um boi inteiro — Milo comentou, enquanto sugava o último gole da Coca-Cola, antes de entregar o copo vazio a Camus, que recolhia as embalagens para jogar na lata de lixo.
Depois, Camus abriu uma das gavetas do seu armário, pegou dois conjuntos de pijamas e entregou um deles a Milo, que já estava despindo-se de sua fantasia.
— Tome... — Fez um sacrifício para não olhar para o corpo bem definido do ex-namorado.
— O quê?!
— Um pijama para você se vestir... — Não resistiu e deu só uma espiadinha discreta.
— Já se esqueceu que não gosto de dormir vestido? — Milo rejeitou o pijama que Camus o entregara. — Além do mais, você sabe que suas roupas ficam apertadas em mim, e isso incomoda um pouco...
Não era que Camus não se lembrava de como Milo gostava de dormir, era que ele realmente preferia que o ex-namorado, com aquele seu corpo perfeito, estivesse vestido naquele momento. Onde eu estava com a cabeça ao trazê-lo para cá?!
— Não ficam mais apertados do que essa sua fantasia... — O calor começou a incomodar Camus, que teve que ligar o ar condicionado numa temperatura bastante baixa.
— E é por isso que eu não vou dormir com ela — Milo contrapôs, jogando a fantasia de qualquer jeito em cima da mesinha de computador. Recebeu um olhar enviesado de Camus e a pegou de volta, dobrando nos mínimos detalhes, de forma um pouco teatral, e colocando sobre a cadeira.
Camus respirou fundo, tirou suas lentes de contato, pegou o seu pijama e se dirigiu ao banheiro para tomar uma ducha bem gelada. Ele realmente precisava disso.
Depois do banho tomado, dentes escovados e pijama vestido, Camus voltou para o quarto. Encontrou Milo deitado em sua cama, encolhido.
— Cara, achei que você não fosse mais sair do banheiro — Milo reclamou, já saindo da posição e levantando-se. — Estou apertado. E esse quarto está gelado.
— Quem mandou tomar tanto refrigerante...
— Preciso de uma toalha, também quero tomar um banho.
— No armário do banheiro tem toalhas limpas — Camus informou, enquanto mexia no guarda-roupa para pegar roupas de cama.
— Está bem, volto já. Meu banho é rápido, não sou como certas pessoas... — Deu uma olhadinha acusadora para Camus, mas foi ignorado.
Milo realmente foi rápido no banho, escovou os dentes com a escova de Camus e voltou para o quarto. Encontrou Camus já deitado em sua própria cama, enquanto a de Calvin estava arrumada para que ele dormisse. Milo suspirou, arrancou a toalha, que estava enrolada em sua cintura, estendendo-a na cadeira, apagou a luz e se dirigiu até a cama de Camus, enfiando-se debaixo do cobertor.
— Ei... — Camus reclamou, quando sentiu o colchão afundar e o corpo quente de Milo muito próximo ao seu. Virou apenas o rosto em direção a Milo. — Tem outra cama nesse quarto!
— Eu não vou dormir na cama do seu colega! Sei lá... Nem conheço o cara direito.
Camus estalou a língua, jogando as cobertas para o lado.
— Tudo bem! Eu durmo na cama de Calvin, e você dorme na minha... — fez menção de se levantar, mas foi impedido por Milo.
— Ah, Camus, para de ser chato! Ou você está com medo de não ser capaz de manter as suas mãos longes de mim?
— Até parece! — Camus bufou. Porém, era exatamente por esse motivo mesmo.
— Então qual o problema de dormirmos na mesma cama? Está fazendo muito frio aqui nesse quarto e assim a cama fica mais aquecida.
Como Camus não estava disposto a desligar o ar condicionado, pois gostava de dormir com a temperatura do quarto mais fria, mas também sabia que o ex-namorado gostava da temperatura mais quente, resolveu deixá-lo dormir por ali mesmo. — Se está com frio deveria vestir uma roupa. Vá vestir sua cueca, pelo menos.
— Não vou tomar banho e vestir cueca suja?
— Na terceira gaveta, à direita, tem cuecas limpas. Pega uma lá... — falou, e Milo fez um muxoxo. — É isso ou vai dormir na outra cama. — Camus virou o corpo para o lado da parede, tentando se esconder. Quando Milo se levantou, ele deu um suspiro demorado. Aquilo era testar demais o seu autocontrole, que já estava por um fio.
Milo pegou uma cueca qualquer na gaveta de Camus e a vestiu. Em seguida, voltou a se enfiar novamente no cobertor, fazendo Camus se contorcer para mais perto da parede.
Só de saber que Milo estava deitado na mesma cama já fazia Camus perder o sono. Há quanto tempo eles não ficavam tão próximos assim? Lembrou-se de alguns momentos bons da época de namoro. Definitivamente não fora uma boa ideia ter levado Milo para o seu quarto. Droga! Estava indo tão bem no controle da situação!
Milo remexeu-se na cama, ficando de barriga para cima. Olhou de soslaio para o lado. O quarto estava um pouco escuro, apenas uma luz vinha da rua, entrando pela janela parcialmente aberta, mas dava para ver os contornos do rosto de Camus.
— Então, o que está pesando na sua listinha de contras? — Milo conhecia Camus o suficiente para ter certeza de que ele havia feito uma lista de prós e contras sobre eles. — Eu sei que as coisas que você acha que fiz no passado te magoaram muito. Mas... Por Deus, Camus! Por que não pode me dar uma chance para que eu possa consertar tudo? O seu orgulho é tão grande assim que não pode me perdoar?
— Não é nada disso — Camus respondeu. — Já me desapeguei das coisas que aconteceram antes, você deveria fazer o mesmo — A verdade é que Camus não tinha realmente certeza se havia superado os problemas no passado. Ele virou-se na cama. Milo percebeu e repetiu o gesto, ficando um de frente para o outro. — Não é por culpa do passado. É o presente. É o futuro. Não quero um relacionamento de curtição...
— Curtição?! — Milo o cortou, revoltado. — Acha que eu teria escolhido estar aqui com você, tendo essa conversa ao invés de estar na festa com meus amigos se fosse só curtição?!
— Sim, você me escolheu essa noite. Mas quantas noites eu fui a segunda opção?
— Você nunca é a segunda opção... — Milo balançou a cabeça e riu para si mesmo.
— Será que você estaria aqui se tivesse algum compromisso da fraternidade?
— Então isso tudo é por causa da fraternidade, não é? É ela que te incomoda tanto?
— Milo, não é só por conta da fraternidade — Camus sentia que Milo não o compreendia por completo, e isso lhe deixava impaciente. — Acho improvável que nosso relacionamento dure por conta de nossas diferenças.
Milo bufou, irritado.
— Pois eu acho que é justamente o seu jeito diferente que me encanta. Não dizem que os opostos se atraem?
— Se atraem. — Camus concordou. — Mas não se entendem. Pessoas muito diferentes vivem brigando, e nós não temos absolutamente nada em comum.
— Como não temos nada em comum? O sentimento não conta?! — Milo o encarou. — Ou será que estou errado em achar que você ainda sente alguma coisa por mim? Bem, porque eu acho que você sente, ou então não teria ido à festa depois de trabalhar a noite todo no seu projeto, e não teria me trazido para cá.
Camus não respondeu nada.
— Você ainda sente alguma coisa por mim, Camus? Porque se você disser que não sente nada, eu juro que te deixo em paz.
Camus virou-se, ficando de barriga para cima, olhando o teto. Como ele poderia dizer a Milo que não o amava, se aquele sentimento sufocava seu peito de tão intenso?! E aquilo o perturbava tanto! Porque Camus nunca sonhara com paixões avassaladoras como a que sentia por Milo. Mesmo na época do colegial, sempre fora um garoto centrado, com propósitos definidos e um plano bem estabelecido para sua vida. Desde de que se descobrira gay, sempre se imaginou com um companheiro que compartilhasse de seus interesses, visões e personalidade. Estar em um relacionamento era muito mais do que estar apaixonado, era preciso que houvesse afinidade, cumplicidade, discernimento, entre outros sentimentos sólidos. E, então, a partir desses sentimentos o amor poderia florescer. No entanto, por uma ironia do destino, Camus acabou se apaixonando justamente por uma pessoa de visões e temperamento tão antagônicos aos seus. Mas o amor não era o bastante para sustentar uma relação, e, por isso, ele não podia se deixar levar por esse sentimento. Ou podia?
— E então? — Milo cobrou uma resposta.
Camus suspirou e fechou os olhos.
— Eu não vou negar que ainda te amo. — Os olhos de Milo brilharam. — Mas eu já tentei me adaptar ao seu estilo de vida uma vez, Milo, e não consegui. Sei que não conseguirei novamente e só iremos nos machucar mais. Nossas diferenças em algum momento vão nos fazer brigar feio, começar aquele processo de um tentar mudar o outro, e eu não quero isso. Não quero que você mude, não quero que você perca a sua essência, mas também não consigo lidar com nossas diferenças. É um paradoxo, eu sei... É complicado...
Camus suspirou novamente. Não queria ter dito isso, evitou há muito tempo expor tão abertamente o que o seu interior mais desejava, mas a conversa o levou àquele ponto. Agora não iria mais voltar atrás, tampouco arrepender-se. Não era do seu feitio se martirizar.
— Quando duas pessoas se amam, elas conseguem lidar com as diferenças... Por que você não me deixa te provar que posso ser a pessoa certa para você?
Milo não aceitava o ponto de vista de Camus. Para ele, o amor vinha sempre em primeiro lugar. O amor era a motivação, era o início e o fim de tudo. E, por mais que ele também já tivesse refletido sobre suas diferenças, ele não estava disposto a abrir mão desse sentimento, que ele tinha certeza ser forte e verdadeiro, algo que julgava raro hoje em dia.
— Já tentamos uma vez, Milo. — Camus fechou os olhos. Será que valia a penar dar uma nova chance a eles?
— Mas Camus...
— Milo, eu preciso dormir, o sono me deixa confuso e amanhã cedo tenho que voltar ao laboratório. Preciso estar descansado.
— Tudo bem... — Milo inspirou fundo. — Posso ao menos te fazer um cafuné?
Milo era tão insistente quando queria! Mas Camus não teve forças para negar esse pedido.
— Eu me lembro da primeira vez que eu fiz cafuné em você. — Milo sorriu, com o ar nostálgico. — Você estava com insônia, se lembra? Não estava conseguindo dormir porque tinha um trabalho importante para apresentar no dia seguinte. Aquela típica ansiedade dos calouros. E, você, para variar, sofrendo por antecipação.
— Eu não sofro por antecipação, sou uma pessoa precavida. É diferente. — Camus justificou.
— Nós nem tínhamos nos beijado ainda, estávamos naquela fase da conquista — Milo continuou a falar, ignorando o comentário de Camus. — Depois desse dia, você só conseguia dormir se eu fizesse cafuné em você.
Droga! Por que diabos Milo ficava se lembrando dessas coisas?! Camus demorou tanto para acostumar a dormir sem os cafunés de Milo.
— E eu não conseguia dormir se não fosse de conchinha. Era um inferno quando a gente brigava — Milo acrescentou, observando Camus suspirar. — Me deixa dormir abraçado com você hoje?
— Não acho uma boa ideia, Milo.
— Por favor. Não vou conseguir dormir com você tão perto de mim, sem te abraçar.
Camus fechou os olhos com força, pensando nas consequências de aceitar aquele pedido. Praguejou logo depois de permitir que Milo o abraçasse.
Milo o puxou com força para junto de si e deu um beijo no topo de sua cabeça, antes de falar:
— Eu sinto tanta falta disso. — Depois enterrou o rosto no pescoço de Camus.
— Eu... acho que não consigo fazer isso, Milo — Camus cerrou os olhos com força. — Não consigo fazer isso.
— Então não faça — Milo disse, com a boca encostada na pele de Camus. Depois começou a depositar beijos ali. — Me dá mais uma chance.
Camus tentou se afastar, mas a pegada de Milo era tão firme que impedia qualquer possibilidade de fuga.
— Eu nunca vou amar alguém como amo você, Camus.
— Milo, eu já te expliquei... — Camus inspirou, vacilante.
— Você fala de futuro, então deveria entender que a fraternidade, as festas, tudo isso é um período passageiro. Daqui algum tempo só vou ter lembranças dessas coisas. Mas se eu tiver que largar tudo isso agora para ficar com você, eu largo, Camus, porque eu quero ficar com você. Eu não consigo nem imaginar o meu futuro sem que você esteja nele...
Então, o inesperado aconteceu.
Camus virou-se, de repente, segurando o rosto de Milo e o calando com um beijo forte. Um beijo cheio de desejo reprimido, de saudade, de amor.
O beijo foi ficando mais intenso, e logo Milo já havia arrancado o pijama do corpo de Camus. A partir dali, Camus sabia o que aconteceria. E ele estava disposto a continuar. Naquele momento, ele deixou de lado a decepção, as diferenças, a determinação teimosa e deu uma chance aos seus sentimentos.
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