Golden College

17 Accidentallyn in love


Notas iniciais
Olá, pessoal Olha só quem reapareceu depois de tanto tempo. Pois é, muitas coisas aconteceram, achei que iria dar certo atualizar antes do ano novo, acabou que não deu. Mas enfim, cá estou eu com um capítulo novo e enorme. E não posso deixar de agradecer a Sarah, beta linda, que mesmo atarefada e tendo saído da liga das betas, continua betando essa fanfic de capítulos cada vez maiores. ❤ Agradecimentos também aos queridos e queridas que deixaram um comentário no capítulo passado. Reneev, Nane yagami, Sheilinha, Lichan, Suh Domingues, Mirajane, Orphelin, Juniper Cronos, Juliabelas, Suh, CameronG Hipnos, delencei, Jenferr e AngelMu, obrigada meus amores. ❤ E aí, prontos para sentir um pouquinho de vergonha alheia? Hahahah... Então vamos lá *respira fundo* Boa leitura para vocês, nos falamos nas notas finais.

CAPÍTULO 17 – GOLDEN COLLEGE

Accidentallyn in love

Quando Mu acordou naquele final de manhã de sábado, ele tinha certeza de que estava morrendo. Tentou abrir os olhos, mas suas pálpebras instantaneamente se fecharam, rejeitando a luz do sol que entrava pelas frestas da persiana semiaberta. Sua boca estava seca e com um gosto amargo. Como se não bastasse, ainda sentia náusea e um mal-estar terrível e só não vomitava porque o seu estômago estava completamente vazio. Oh, Buda, o que que está acontecendo comigo? Ficou por algum tempo tentando se “sintonizar”, ainda dividido entre o sono e a realidade; e a dor de cabeça que lhe atormentava não estava ajudando muito.

Foi então que ele percebeu um braço em volta da sua cintura. A confusão fez o seu coração começar a bater rápido, e ele abriu os olhos, se deparando com um braço musculoso, cujo dono ele conhecia muito bem. Perguntas se aglomeraram em sua cabeça. Por que ele estava dormindo na cama com Aiolia? Ambos vestidos apenas uma cueca? E pior, ele naquele estado deplorável.

Ainda que a sua mente estivesse um nevoeiro, alguns detalhes da noite passada começaram a vir como flashes em sua memória e, então, o pânico o dominou.

Eu não fiz essas coisas! Eu fiz?

Tudo o que Mu desejou naquele instante foi afundar-se no travesseiro e esperar pelo momento em que entraria em coma profundo ou tivesse uma morte súbita e indolor. No entanto, como sabia que nenhuma das duas coisas aconteceria, e ele não queria que Aiolia acordasse e o visse naquele estado, esfregou os olhos e fez um esforço para se levantar, tomando cuidado para não acordar o colega, que ressonava baixinho. Lutando contra a tontura residual e a fraqueza nas pernas, foi até o armário, pegou uma toalha, enrolou-a em sua cintura e se dirigiu para o banheiro.

Ao chegar lá, pôde conferir no espelho que a sua aparência estava tão assombrosa quanto os seus sintomas. Notou olheiras que nunca tivera antes, e o seu cabelo era uma bagunça de fios se soltando de um coque malfeito.

Escovou os dentes e gargarejou com antisséptico bucal umas duas vezes para tirar aquele gosto ruim da boca, antes de entrar no chuveiro. Escorou-se na parede e deixou que a água quente caísse em seu corpo, tentando relaxar um pouco, enquanto mais algumas cenas soltas surgiam em sua memória.

Seu coração bateu mais forte quando se lembrou que havia sido Aiolia quem dera banho nele na noite passada. Fez uma careta quando recordou do motivo desse banho: Mu havia vomitado durante quase toda a madrugada. Isso também explicava porque o seu cabelo estava emaranhado daquele jeito. Fora Aiolia quem fizera o coque mal amarrado para que Mu não vomitasse no cabelo.

A que ponto você chegou, heim, Mu? Falou consigo mesmo, balançando a cabeça enquanto mantinha uma mão apertada contra a testa. Por que ele tinha que se lembrar desses acontecimentos? Cadê a tão famosa amnésia alcoólica? Ele desejou não ter uma memória tão boa e, naquele momento, chegou à triste conclusão de que a ressaca moral era muito pior do que aqueles sintomas físicos.

Eu nunca mais vou beber em toda a minha vida! Se fez essa promessa.

Demorou uma eternidade no banho, de propósito. Não sabia mais como reagir perto de Aiolia. Não depois de todo o espetáculo que fizera na festa e no pós-festa. Ainda por cima depois de eles terem se beijado. Droga! Eu acabei estragando o momento.

Mu só saiu do banheiro quando os outros garotos, com quem dividiam a suíte¹, começaram a cobrar que também precisavam de banho.

Quando voltou para o quarto, suspirou aliviado ao perceber que Aiolia ainda estava dormindo. Vestiu rápido a primeira roupa que encontrou no armário, pegou um analgésico na sua caixinha de primeiros socorros, sua carteira, o seu celular sobre a mesa, e saiu, digitando uma mensagem para Afrodite.

* * *

Nesse mesmo tempo, DeathMask também acordava, sentindo-se não muito diferente de Mu. Só que aquela não era nem de longe a sua primeira ressaca, e ele já estava familiarizado com os inevitáveis sintomas que vinham depois de uma noite pesada de bebidas. Só não entendia aquela dorzinha no nariz.

A luz do quarto ardeu em seus olhos, mas ele fez um esforço para mantê-los abertos ao notar aquela bela ruiva de corpo escultural em frente ao espelho, penteando o cabelo aparentemente recém lavado. Sua mente instantaneamente pesquisou por memórias da noite anterior, no entanto, nada apareceu. Ele sabia que em algum momento elas viriam, ainda que algumas costumassem demorar um pouco, por isso não se importou muito. De qualquer forma, bastava aparentar que tinha tudo sob controle, só porque ele não estava disposto a lidar com os chiliques da garota, caso ela percebesse que ele não se lembrava de ter passado a noite transando com ela. Sim, porque, obviamente, eles tiveram uma noite quente regada à sexo. É claro que era por isso que ele estava ali, deitado naquele colchão no chão, num quarto que só agora notara não ser o seu. Por qual outro motivo seria?

— E então, gatinha? — Ele direcionou um sorriso cafajeste para ela.

Marin virou-se na direção dele e arqueou a sobrancelha em interrogação.

Ela é gostosa! — pensou. Era mesmo uma pena não se lembrar de nada. Mas ele resolveria esse probleminha agora mesmo. Embora uma latência poderosa estivesse esmagando a sua cabeça, ele não poderia sair daquele quarto sem mostrar a ela o quanto era viril, afinal, tinha uma reputação a zelar.

— Volta pra cá... — Ele bateu a mão no colchão em que estava deitado. Provavelmente colocaram aquele colchão no chão porque os dois deviam estar fazendo muito barulho na cama e não queriam acordar as garotas do quarto vizinho. Ele costumava ser barulhento mesmo quando se empolgava. — Estou pronto para outra.

Ela piscou duas vezes consecutivas antes de se dar conta do que estava acontecendo.

— Oh, meu Deus! Você acha que nós transamos!

— E não transamos?! — Ele coçou a cabeça, confuso.

Ela revirou os olhos, colocando a escova em cima da penteadeira, ao mesmo tempo que olhava para algum ponto atrás dele.

— Eu disse para você não trazer esse imbecil para cá...

DeathMask ouviu a risada de sua prima e se virou na direção dela. Shina estava sentada na cama, digitando alguma coisa no notebook em seu colo.

— Eu te trouxe ontem à noite para dormir aqui. — Vendo a confusão nos olhos dele, ela se explicou melhor. — Você estava bêbado demais, falando um monte de besteiras e sem nenhuma condição de voltar sozinho para casa.

— Por que não me levou para a república...?!

— Porque achei mais prudente trazê-lo para cá.

— Shina, eu estou indo lá encontrar com o amigo do qual te falei. — Marin cortou a conversa dos primos.

— Dá uma passadinha no quarto do Evan primeiro, daqui a pouco eu apareço lá também. Ele me mandou outra mensagem, o coitadinho está desolado porque teve que contar tudo para os pais e eles estão vindo para cá buscá-lo.

— É um absurdo o Evan ter que se transferir de faculdade para fugir das ameaças desse idiota que já deveria estar preso.

— Estão falando do viadinho que está caluniando o Paul?! — DeathMask quis saber.

— Caluniando?! Você está de sacanagem, não é?! — Marin se indignou. — Esse Paul é um marginal, e não entendo por que ele ainda está solto. Mas tenho certeza de que ele não ficará impune por muito mais tempo...

— Vocês não sabem o que estão dizendo, o Paul é um cara legal, bem relacionado, tem status... E esse viadinho só está querendo se aparecer às custas dele... — DeathMask bufou. — Por isso não suporto esses viados filhos da puta!

Marin gargalhou de modo irônico.

— Deve ser achar muito hétero, não é, DeathMask?

— Claro que sou! — DeathMask ficou branco de repente, indignado com o comentário de Marin. — Ficou maluca?!

— Mas é bem típico desses enrustidos mesmo bancar o machão homofóbico...

— Marin, não! Por favor... — Shina tentou interferir.

— Blá, blá, blá... Você é homofóbico, só pode ser um enrustido... — DeathMask tentou fazer um imitação grotesca da voz de Marin, depois sorriu debochado. — Sempre te julguei inteligente, Marin, para você vir com esse clichê de merda, de achar que só porque eu tenho nojo de viados, eu seja um viado enrustido.

— Não, meu caro DeathMask, eu não acho que todo homofóbico seja um gay enrustido. A orientação sexual nada tem a ver com o grau de babaquice de alguns seres humanos que não sabem lidar com as diferenças. Eu acho que você é um enrustido bancando o homofóbido porque passou a noite toda gemendo o nome de outro homem, enquanto fica gritando pelos cantos que odeia a homossexualidade...

— O quê?! — DeathMask sentiu tudo girar ao seu redor e se levantou subitamente.

— Marin! — Shina colocou as mãos na cabeça. Pronto! A guerra estava declarada.

— Desculpa, Shina, eu perdi a paciência com esse otário.

— Como ousa inventar uma mentira dessas? Shina, diz que é mentira! — DeathMask olhou para sua prima, apavorado, esperando que ela interferisse a seu favor. Ela, porém, apenas o olhou de volta e encolheu os ombros. — Shina, você vai deixar essa maluca me caluniar?!

— Você realmente chamou por Afrodite algumas vezes durante a noite, Mask...

— O quê?! — Agora sim, DeahtMask quase teve ataque cardíaco. Era possível isso ter acontecido?! Olhou para Marin, que sorria, vitoriosa. — Eu não gritei o nome de ninguém, e se eu gritei o nome dele alguma vez foi de raiva, porque eu odeio esse garoto, todos sabem disso...

— Vamos fingir que é isso mesmo — Marin falou irônica.

— Qual é o seu problema, garota?!

— Quem está com problemas aqui é você! Você é tão contraditório em suas falas e ações que sinto pena. Mas o que esperar de um cara que tem vergonha do próprio nome...

— De onde você tirou que eu tenho vergonha do meu nome, sua maluca?!

— Se não tivesse, não o esconderia de todo mundo, enquanto fica se apresentando com esse apelido ridículo. Tenho pena de pessoas assim como você, que vivem na hipocrisia de se sentirem o máximo, mas são apenas pessoas inseguras que precisam de autoafirmação para se acharem melhores.

— Sua intrometida! Eu sou não te dou um soco no meio da sua cara porque você é uma mulher, mas se você continuar insinuando que eu sou gay, eu não vou me segurar...

— Até parece que tenho medo de você. Mas quer saber? Isso não é da minha conta e eu tenho coisas mais importantes para me preocupar do que as suas frustrações sexuais. Se você quer ficar aí se enganando, o problema é seu que vai viver reprimido. Mas seu eu fosse você, me jogava para fora desse armário logo, porque a porta dele está escancarada e a qualquer momento você tropeça e sai sem querer.

Shina jogou o notebook para o lado e correu para frente de DeathMask para evitar que ele partisse para cima de Marin.

— Sua vaca!!! — Ele gritou por cima do ombro de Shina, apertando os punhos e soltando fogo pelas ventas. — Eu não sou gay! Você que é uma maluca frustrada, porque até que é gostosinha, mas é chata demais para alguém querer te comer... Eu devo ter te dado um fora ontem, é por isso que está aí falando essas coisas...

Marin gargalhou ironicamente, caminhando até a porta, fingindo indiferença e se segurando para não pegar uma cadeira e quebrá-la na cabeça de DeathMask. Ela estava atrasada para o seu encontro e ainda tinha que passar na casa de Evan.

— Quando eu voltar, quero esse imbecil fora do meu quarto — ela ainda disse, antes de fechar a porta e sair.

Shina deu um tapa na cabeça de DeathMask.

— Para com isso, minha cabeça está doendo... — ele se queixou.

— Eu quero te ajudar, mas assim fica difícil...

— Essa garota fica inventando coisas sobre mim. Se ela continuar falando essas coisas por aí, Shina, eu não me responsabilizo pelos meus atos.

Shina revirou os olhos, caminhou até o armário, pegou uma camiseta masculina e jogou para ele.

— Toma, esquece isso e vai tomar um banho que você está podre. E seja rápido, para não chamar muito atenção. A chata da nossa Resident Assistant² implica quando trazemos homens para cá. E ela deve ter acordado soltando fogo pelas ventas hoje, porque ontem, enquanto voltávamos da festa, vi algumas garotas vomitando na porta do quarto dela.

— Por que você tem roupa de homem no seu guarda-roupa? — Ele a olhou analiticamente, coçando os cabelos bagunçados.

— Nas férias de primavera desse ano eu viajei com o Derick, e essa blusa dele acabou vindo parar na minha mala, não me pergunte como. Pode jogar fora depois...

— Derick é o carinha...

— Você está proibido de tocar nesse assunto! — Ela apontou o dedo para ele, com a mandíbula apertada.

DeathMask não falou mais nada, tinha amor à sua vida. Ele se lembrava desse tal Derick. Era um ex-namorado de Shina, pelo qual ela era obcecada, até o dia em que ela o pegara com outra garota e cravara as unhas no rosto dos dois.

DeathMask aceitou a blusa e rumou para o banheiro. Escovou os dentes com os dedos mesmo, deu uma olhada no espelho e confirmou que seu nariz estava machucado. Será que tinha brigado com alguém ontem? Deu de ombros, resolveria isso depois, tinha outras preocupações no momento. Não conseguia parar de pensar nas palavras de Marin. Será que ele realmente ficara chamando por Afrodite enquanto estava dormindo? Será que Marin iria contar isso para alguém? Foi com desespero que ele se lembrou de que ela trabalhava no jornal da faculdade, e que o jornal tinha uma coluna de fofocas. E se ela publicasse aquilo?! DeathMask sentiu um frio no estômago. Ele preferia morrer.

Tomou um banho rápido e saiu do banheiro, enxugando o cabelo com uma toalha. Assim que entrou no quarto, foi logo falando para Shina, que já estava novamente entretida no notebook enquanto comia um cupcake.

— Você não devia ter me trazido para cá, devia ter me deixado ir para a república... Agora essa vaca vai ficar me caluniando, e ela trabalha no jornal da faculdade. Se ela publicar alguma mentira sobre mim...

— É disso que está com medo?! — Shina deu uma risada. — Relaxa! A Marin não vai iniciar nenhuma campanha “hashtag Mask sai do armário” no jornal da faculdade.

— Eu arranco a cabeça dela se ela fizer isso!

— Primeiro, quem gosta de publicar fofocas naquela coluna lixo é o seu amiguinho Radamanthys, segundo, a Marin tem mais o que fazer.

— Eu acho bom! — Ele deu uma última esfregada no cabelo com a toalha, estendendo-a, logo em seguida, no encosto da cadeira. Roubou o cupcake da mão de Shina para comer. Ela não se importou e pegou outro na bandeja. — Onde se viu, eu... sonhando e gemendo o nome de Afrodite enquanto estou dormindo... — Estalou a língua de modo desdenhoso.

— A verdade é que não foi exatamente quando você estava dormindo...

Ele franziu a sobrancelha.

— O que quer dizer com isso?!

Ela suspirou.

— Foi por isso que eu te trouxe para cá, ao invés de deixá-lo ir para sua república. Eu encontrei com você saindo do banheiro, totalmente obstinado em encontrar Afrodite, falando algo sobre ele ter te ligado e te deixado maluco. Como você estava muito bêbado, tropeçava nas próprias pernas e falava essas bobagens, eu não deixei você sair sozinho e te trouxe para cá. A Marin foi muito legal com você, me ajudando a te trazer e, principalmente, deixando te trazer para o quarto que também é dela.

DeathMask não deu importância para essa fala, sua mente agora estava focada numa vaga lembrança — que mais parecia um sonho — dele falando com Afrodite ao telefone. Ficou chocado! Estava tão louco que se masturbara no banheiro de uma festa por causa de Afrodite?

DeathMask começou a sentir um princípio de dor de barriga, por conta do nervosismo.

— Eu já percebi que você anda estranho ultimamente e que tem uma obsessão com Afrodite desde que o conheceu.

— Eu devia estar delirando... — Ele tentou desconversar.

— Sei que você ficou abalado por beijá-lo achando que ele fosse uma mulher, mas acho que já deu para superar isso. Ninguém mais se lembra dessa história, só você que não esquece. O fato é que não tem como você negar que existe algum sentimento aí nesse coraçãozinho...

— É claro que existe. Eu o odeio!

— Você não o odeia e sabe disso. Ninguém quer ficar o tempo todo perto de alguém que odeia. Sua namorada terminou com você ontem, e você nem se importou. Tudo o que você faz e fala ultimamente tem que ter Afrodite no meio. Não sei se você acabou se apaixonando sem querer, mas... acho que deveria pensar sobre isso.

— Apaixonado por Afrodite?! Você enlouqueceu?! Mas que merda você está dizendo?! Também está insinuando que eu sou viado, por acaso?! Você, que é sangue do meu sangue. — Bateu a mão na veia do pulso.

— Não seja tão dramático! E quer saber, eu nem sei se isso faz de você gay.

— Como assim?! — ele ficou interessado.

— Sei lá... Afrodite é diferente dos outros caras. Até eu me confundo às vezes com a aparência andrógina dele. Além do mais, esse negócio de hétero, gay, esses rótulos não fazem diferença para mim. É como comer chocolate — ela disse. — Tem gente que prefere chocolate ao leite, outros preferem chocolate branco, alguns já preferem o amargo, tem gente que come de todos os tipos e ainda existem os que não gostam de chocolate. Simples assim...

— Às vezes acho que você é adotada, não pode ter nascido na mesma família que eu.

— Eu não sou a única da nossa família a pensar assim. Olha o Al, por exemplo. Enfrentou todo mundo para assumir sua homossexualidade e hoje ele está ótimo, vivendo plenamente feliz. Falei com ele esses dias, e ele até perguntou por você...

— Eu não quero saber como está esse ztrozzo³. — DeathMask sempre se sentia mal quando o nome do primo era mencionado em alguma conversa.

Shina revirou os olhos. Essa implicância de DeathMask com o primo era irritante, principalmente porque ela recordava do quanto eles eram amigos quando crianças. Os dois viviam sempre juntos, partilhavam tudo; ela até ficava com ciúmes e invejava amizade dos dois.

O que Shina não sabia era que tudo havia mudado em um dos feriados em que os pais de Alberto viajaram e deixaram o menino na casa dos tios. No meio da noite, Alberto fora ao quarto de DeathMask, subira na cama e dera um beijo nos seus lábios. Mas o pai de DeathMask chegara no exato momento e os flagrara, castigando severamente os dois garotos. Daquele dia em diante, DeathMask nunca mais falara com o primo. Alguns anos depois, Alberto se assumiu homossexual e foi expulso de casa; DeathMask passou a odiá-lo ainda mais, sempre fazendo de tudo para mostrar ao pai que ele não era gay como o primo.

— Ele é a vergonha da família...

— Você está falando igual ao tio... — Ela ficou meio impaciente. — Só que o seu pai é velho, foi educado num colégio tradicional, numa época onde as coisas eram bem diferentes. Além disso, ele passou a vida toda convivendo com pessoas que tiveram quase a mesma criação preconceituosa e arcaica que ele, é até compreensível que ele não mude. E veja que eu disse compreensível, não disse que era correto. Mas você... Você é um garoto que saiu da barra da calça do seu pai e veio estudar numa faculdade no exterior, com pessoas de diferentes histórias, gostos, situações... Você tem a obrigação de ser alguém de mente mais aberta e deixar de bancar o homem das cavernas. É até ridículo para você agir desse jeito, sabia?

— Eu não tenho culpa se toda vez que vejo um viado eu tenho vontade de socar a cara dele.

— Olha, você e sua turma são os caras mais homofóbicos dessa faculdade. Sempre colocaram o terror, sempre destilando o preconceito pelo Campus. Mas um de vocês está sendo acusado de estuprar e assediar garotos, e você, o líder deles, não para de falar em outro homem. Bem, acho que isso quer dizer alguma coisa...

— Acho que você está ficando louca, isso sim. Deve ser a convivência com a outra lá, deveria arrumar outra colega de quarto, viu. E quer saber, é melhor eu ir embora daqui. — Ele levantou-se, pegou mais um bolinho e se dirigiu para a saída, mastigando.

— Ninguém manda nessas coisas, Mask... — ela falou, e ele mostrou o dedo do meio para ela. — Apaixonamos sem querer...

— Vai se fuder...

— Lembre-se: mentir para si mesmo é sempre a pior mentira. — Ela ainda gritou, só para implicar, antes de ele bater a porta e sair.

DeathMask seguiu praguejando, enquanto caminhava em direção à sua república.

Quem aquela intrometida da Marin pensava que era para lhe dizer aquelas coisas?! Ele NÃO era gay! NÃO ERA!

Então... por que ele pensava em Afrodite o tempo todo? Por que ele não conseguia tirar aquele maldito beijo da sua cabeça? Por que nada em Afrodite lhe parecia nojento? Muito pelo contrário, tudo naquele maldito loiro o atraía de uma maneira como nunca se sentira atraído por uma garota antes.

“Eu nem sei se isso faz de você gay” — Lembrou-se da fala de sua prima. “Afrodite é diferente dos outros caras”

Sim, Afrodite era diferente com sua aparência mais delicada. Mas isso não mudava o fato de ele ser um homem, e ele ainda fazer questão de jogar isso na sua cara o tempo todo...

Mas e se ele experimentasse só para ter certeza?

Que porra de pensamento era esse?! Claro que não faria isso. O que o seu pai diria? O que os seus amigos diriam?

Mas e se ninguém ficasse sabendo? Se fosse só uma vez para ele saciar logo esse desejo antes de tirá-lo de vez da sua cabeça?

Essa merda de bebida deve ter transformado o meu cérebro em lama, só pode ser isso. Balançou a cabeça e chutou algumas folhas no chão que estavam em seu caminho, voltando a caminhar.

Em determinado momento, parou em frente à belíssima Memorial Church, a imponente igreja do campus. Não era que ele fosse religioso ou estivesse pensando nessas questões naquele momento. Ele só se sentiu bem diante daquela visão. A enorme torre branca reluzia ao sol e ajudava a compor uma paisagem fenomenal. Seria ainda mais bela se as árvores estivessem com folhas, mas, com a chegada do outono, elas tinham desaparecido completamente.

DeathMask evitava que as pessoas soubessem, mas ele adorava observar paisagens bonitas. E aquela era linda. Sua beleza só perdia para beleza de Afrodite.

De repente, o sorriso encantador de Afrodite apareceu em sua memória, e ele suspirou.

Oh, Deus! Quanto tempo mais levará para curar isto?

* * *

Mu tinha acabado de entrar na fila do Starbucks do grêmio estudantil quando viu Afrodite se aproximar, usando óculos escuros enormes quase escondendo seu rosto. Mu deu graças a Deus. Estava se sentindo meio deslocado ali sozinho, com a sensação de que todo mundo olhava para ele.

— Por Deus! Olha o tamanho dessa fila! Você realmente precisa desse café? — Afrodite exclamou, assim que já estava perto do amigo.

— Pelo amor de Deus, não grita! Minha cabeça está desse tamanho... — Mu se queixou, fazendo Afrodite dar uma risadinha. Era engraçado ver o amigo, que sempre tinha uma aparência tão serena, com aquela cara de ressaca. — E sim, eu preciso de uma dose caprichada de cafeína, ou não conseguirei ficar de pé... E você, recusando café? Isso é novidade.

— Eu já tomei café hoje com “você sabe quem”, dormimos juntos. Eu estava com ela agorinha, mas vim embora assim que recebi sua mensagem.

— Ah, eu não sabia, me desculpe por atrapalhar...

— Não esquenta. — Afrodite abandou a mão. — Já estávamos vindo embora mesmo... Além disso, eu estou morrendo de curiosidade para saber os detalhes da sua noite. E então? Como foi? Vocês finalmente se acertaram? Se pegaram? Hum... conte-me tudo e não esconda nada.

Mu soltou um muxoxo desolado.

— Não me diga que não rolou! Ah, não! Não acredito nisso! Se você está tão a fim desse garoto, agarre-o logo. Ou então esqueça logo de uma vez, criatura! Não aguento mais esse chove não molha.

— Na verdade, nós nos beijamos...

Afrodite bateu as mãos comemorando, mas depois parou ao perceber a fisionomia desolada de Mu.

— Então por que essa cara de quem comeu e não gostou? — Afrodite fez uma expressão de espanto, parecendo se dar conta de que algo terrível havia acontecido. — Espera?! Não vai dizer que tudo aquilo é propaganda enganosa, que ele é do tipo lindão, mas ruim de pegada?! Nossa! É horrível quando os caras não correspondem às nossas expectativas... Já aconteceu comigo uma vez...

— Por Buda! Não é nada disso! — Mu revirou os olhos. Na verdade, o beijo de Aiolia era ainda melhor do que ele esperava. E olha que ele já esperava bastante. — Eu... eu é que estraguei tudo.

— Como assim estragou tudo?

Mu respirou fundo antes de começar a contar para Afrodite as suas terríveis lembranças da noite passada. Afrodite o ouviu atentamente e, quando Mu terminou de narrar os fatos, ele falou:

— Estou esperando chegar na parte onde você estragou tudo.

— Eu acabei de te contar...

— Não. O que você me contou foi que ele cuidou de você a noite inteira e ainda teve o bônus de dormirem de conchinha. Isso é o mínimo que se espera de um amigo, ainda mais de um amigo que suponho estar interessado em algo a mais que amizade. E você não devia ter saído correndo sem conversar com ele hoje cedo...

— Na hora em que acordei, eu fiquei sem saber como agir. Não estava com coragem de encarar Aiolia naquele momento...

— Por Deus! Você nunca tomou um porre antes?!

Mu fez que não com a cabeça.

— Então relaxa! Que logo você se acostuma.

— Não! Nunca mais vou beber na minha vida. Quando acordei me senti mais perdido do que a Katy Perry no clipe Last Friday Night. E não quero repetir a dose, isso não é para mim.

— Bobagem. Tomar um porre de vez em quando não mata ninguém. Embora eu seja obrigado a concordar que talvez nós tenhamos exagerado um pouquinho mesmo ontem à noite. Acordei com uma ressaca daquelas e ainda levei o maior sermão de você sabe quem por eu ter pensado em dirigir bêbado.

— Dite! Você tentou dirigir bêbado?! Isso foi muito imprudente!

— Ah, não. Por favor! Não começa você também não. Já basta ele com os ataques de sermão. Deus! Parecia que eu tinha acordado com o meu pai.

— Mas você mereceu...

— Que seja! — Afrodite voltou sua atenção para a fila do Starbucks. — Nossa! Essa fila não anda, já tem um bom tempo que estamos aqui. — Afrodite começou a se aborrecer com a demora, inclinando-se para verificar quantas pessoas ainda estavam à frente deles. — Ainda tem quatro pessoas na nossa frente! E mais duas esperando as bebidas! Quem diabos são todas essas pessoas? Elas poderiam simplesmente desaparecer.

O garoto na frente deles os olhou por cima do ombro, esnobe. Afrodite fez uma careta para ele e mostrou a língua. Mu bateu a mão em sua cabeça, sentindo o rosto pinicar. Teve certeza de que o seu amigo tinha algum problema mental sério. Já Afrodite estava achando graça da situação, até ouvir garoto comentar com o outro que estava com ele:

— Já não me surpreendo com a nugacidade dos garotos daqui...

— Ei! Eu ouvi o que você disse... — Afrodite berrou, batendo no ombro do garoto, fazendo-o se virar em sua direção, com um olhar de quem não havia gostado de ter seu espaço pessoal invadido.

Agora sim, Mu implorou para que o chão se abrisse e o sugasse para o outro lado do mundo. Tornar-se o garoto invisível também não seria má ideia. Entretanto, desde que pintara o cabelo e começara a andar com Afrodite e Aiolia, passar despercebido havia se tornado uma tarefa impossível. Os dois amigos já se destacavam só por ser quem eram: Afrodite, o garoto andrógino, filho de artistas; e Aiolia, o quarterback bonitão do time de futebol. E, como se isso já não fosse o bastante, ambos também eram pessoas aparecidas por natureza, que adoravam chamar atenção por onde passavam.

— Olha aqui, eu não sei o que é nugacidade, mas eu não gostei do seu tom — Afrodite retrucou, cruzando os braços de uma maneira que desafiava o garoto.

— Isso não me surpreende — o garoto falou, mantendo-se calmo e sereno. Sua voz imponente contrastando com os traços delicados de seu rosto. Mu não deixou de reparar.

Na verdade, Mu já havia reparado no garoto assim que entrara na fila. A sua beleza exótica havia lhe chamado atenção. O garoto era loiro, de cabelos tão lisos e longos quanto os seus. Mas o que mais havia atraído a atenção de Mu fora o estilo dele, que usava uma túnica indiana e uma echarpe, além de possuir um Bindi no centro de sua testa, próximo às sobrancelhas. Ele também usava no braço uma pulseira de japamala budista.

— Olha aqui, seu antipático...

— Oh, nos desculpe por isso, o meu amigo fica um pouco agitado quando está com fome — Mu interrompeu Afrodite para tentar contornar a situação. Não queria que aquilo rendesse mais. E também não queria fazer papel de ridículo perto daquele garoto, que parecia tão inteligente e sério.

Foi então que o garoto desviou o olhar em sua direção pela primeira vez. Mu sentiu-se sendo analisado e corou. Por um instante, achou que o garoto fosse dizer alguma coisa, mas ele apenas deu um meio sorriso esnobe e virou-se para frente.

— Antipático! — Afrodite repetiu o xingamento, fazendo Mu bater a mão em sua própria testa.

Algum tempo depois, finalmente chegou a vez deles na fila.

— Próximo? — Era Ikki quem estava no atendimento. — E vocês, o que vão querer?

— Um grande café Americano com bastante creme — Afrodite pediu, e Mu quis o mesmo.

— Tudo indo bem hoje, Mu? — Ikki perguntou, enquanto passava o cartão dos garotos e entregava de volta com o recibo.

Mu não entendeu o porquê daquela pergunta de Ikki.

— Acho que deveríamos voltar a ter as aulas de artes marciais, para você descarregar sua energia. Eu não teria acreditado que você fez aquilo se eu não tivesse visto o vídeo.

— Vídeo?! — Mu franziu o cenho. — Que vídeo?!

— Também fiquei curioso. Que vídeo é esse? — Afrodite igualmente quis saber.

— Tem um vídeo rolando no Youtube. Você partindo para cima daquele idiota Ômega Chi de apelido estranho. Eu ouvi uns clientes aqui comentando mais cedo e corri para conferir.

Então era por isso que todo mundo estava olhando para mim! — Mu arregalou os olhos, sentindo que iria começar a hiperventilar

— Não... não acredito nisso!

— Está falando do DeathMask?! — Afrodite chegou a tirar os óculos do rosto e deixá-los sobre a cabeça.

— É esse mesmo. Vocês ainda não viram? Dá uma olhada lá — Ikki falou. — Agora preciso atender o próximo cliente, que a fila está grande.

Mu sentiu suas pernas ficarem meio bambas, enquanto se dirigia para o outro lado do bar, para esperarem pelo café. Assim que receberam seus pedidos, os dois correram à procura de uma mesa, ansiosos para ver o tal vídeo.

— Oh, meu Deus! Não acredito que perdi essa cena! Isso foi que horas? Quando fui ao banheiro? Gente, eu só quero ver a cara de DeathMask!

— Chega, não quero mais ver isso... — Mu choramingou.

— Vou dar uma olhada no face, ver se tem alguma coisa e... Ah, meu Deus! — Afrodite gritou, quando viu a quantidade de fotos nas quais havia sido marcado. — Quem são esses garotos vestidos de Tico e Teco?

— Eu não sei... — Mu estava desolado. A ressaca moral só aumentava.

— Gente, olha a quantidade de curtidas e comentários?!

Afrodite começou a ler os comentários e acabou se irritando com um comentário homofóbico que receberam. Por conta disso ficou nervoso e, sem querer, bateu a mão no copo de café do colega, derramando tudo.

— Oh, me desculpe, Muzinho!

— É a lei de Murphy — Mu deu um suspiro, observando que o café havia derramado em sua camisa. E o pior, ele nem tinha bebido nada ainda, envolvido em ver o vídeo, e seu estômago estava completamente vazio. Já sentia até o seu corpo meio tremendo.

— Sabe, isso me lembra de quando derramei café na camisa de Shura...

— Vou ao banheiro lavar isso... — Mu se levantou, olhando para a sua camiseta manchada. Não era uma mancha grande, mas, naquele momento, também não estava interessado em ouvir Afrodite falando sobre Shura.

— Eu vou pegar outro café para você — Afrodite falou, olhando com desagrado para a fila.

Mu se dirigiu cabisbaixo para o banheiro. Deu graças a Deus por encontrar o lugar praticamente vazio. Isso era bom, porque assim ele não precisaria lidar com olhares e cochichos em sua direção. Suspirou e começou o processo de tentar tirar a mancha de café de sua camisa. Permaneceu por algum tempo de cabeça baixa, concentrado nessa tarefa. Quando terminou e levantou a cabeça, sentiu-se zonzo. Seus batimentos cardíacos aumentaram e veio um calor dentro do peito junto com um suor gelado.

— Você está bem? — Alguém que havia acabado de entrar no banheiro perguntou ao notar sua palidez e seu semblante apático.

Mu não chegou a escutar. Sua visão ficou turva de repente, e então ele desmaiou

* * *

Não demorou para que Mu recobrasse a consciência. Ao abrir lentamente os olhos, a primeira coisa que viu foi uma parede. Percebeu que estava deitado num banco, com a cabeça virada para o lado e as pernas no colo de alguém.

Então, lembrou-se da tontura e da sensação angustiante que sentira antes de perder os sentidos e, mesmo que estivesse ainda zonzo e com pontadas de dor de cabeça, tentou se levantar.

— Calma, não levante rápido ou vai desmaiar outra vez.

Ele reconheceu o garoto que discutira com Afrodite na fila do Starbucks.

— Eu... Eu estou bem — falou, ainda meio desorientado. Levantou-se devagar e se sentou, com a cabeça baixa, evitando contato visual. O garoto o havia levado no colo para lá? Sentia-se tão constrangido por aquela situação. O que mais de embaraçoso faltava lhe acontecer hoje?

— Parece que foi apenas um susto! Você recobrou a consciência rapidamente. De qualquer forma, talvez seja bom visitar um médico e fazer alguns exames para ter certeza de que está tudo bem. Não é bom ignorar essas coisas...

— Provavelmente tive uma crise vagovasal por conta de uma possível hipoglicemia, já que fiquei muito tempo sem me alimentar.

— Estudante de Medicina ou é daquelas pessoas que tem mania de ficar pesquisando doenças na Internet?

Mu seu um sorriso tímido e enrolou uma mecha de seu cabelo no dedo.

— Estudante de Medicina — respondeu, ao mesmo tempo que viu o garoto tirar algo de dentro de sua bolsa e lhe oferecer. Era uma barra de cereal.

— Coma. Vai se sentir melhor... Eu costumo trazer na mochila, porque nem sempre consigo interromper a leitura na biblioteca para ir à lanchonete.

Mesmo constrangido, Mu não recusou o lanche. Precisava dele, já que aquela tremedeira só iria passar depois que comesse alguma coisa. Talvez devesse adotar essa ideia de carregar um lanche na mochila também, pensou.

— Obrigado, hum... como é mesmo o seu nome?

— Shaka — o garoto respondeu.

— Obrigado, Shaka. Eu sinto muito pelo incomodo e pela cena lá na fila... E o meu nome é Mu.

Shaka apenas assentiu. À primeira vista, havia tido uma má impressão de Mu, só que, agora, conversando com ele assim tão perto, o achara encantador. E muito bonito também, principalmente quando corava. Talvez fosse um bom garoto que andava com as pessoas erradas.

— Bem, Mu, você está se sentindo melhor?

— Ah, sim. Estou sim... — Mu se levantou devagar e ficou de pé, querendo mostrar a Shaka que já estava bem.

— Ótimo. Então eu já posso ir... — Shaka também se levantou ficando de frente para Mu.

— Oh, claro... Não quero tomar o seu tempo por isso. E obrigado mais uma vez!

— Só fiz o que tinha que fazer — Shaka disse e logo em seguida se retirou.

Mu ficou observando Shaka partir, admirando a sua elegância. Quando finalmente se deu conta de que parecia um idiota observando outra pessoa, se repreendeu e deu o primeiro passo para ir embora. Mas parou quando pisou em alguma coisa. Olhou para baixo e viu que era a pulseira que tinha visto no braço de Shaka. Abaixou e pegou a pulseira, guardando-a no bolso. Foi atrás dele, mas não o viu mais. Será que algum dia eles se encontrariam outra vez para que pudesse devolvê-la? Esperava que sim.

Estava pensando nisso enquanto caminhava de volta. Foi então que viu Aiolia e Afrodite discutindo e, de repente, todo o pensamento que estava focado em Shaka mudou para Aiolia e isso fez seu peito se agitar.

Fechou os olhos, suspirou e caminhou até eles.

* * *

— Você é um péssimo amigo e uma má companhia para Mu... — Aiolia estava falando com Afrodite quando notou que Mu havia se aproximado. Rapidamente mudou o foco de sua atenção. — Está tudo bem, meu pequeno gafanhoto? Você está pálido.

— Até que enfim! — Afrodite exclamou, antes que Mu pudesse responder algo. — Você demorou demais. Só não fui atrás, porque a fila estava daquele jeito e quando consegui sair, esse idiota chegou aqui e mal me viu já veio procurando confusão.

Aiolia teria revidado o “idiota” se não estivesse mais preocupado com a fisionomia abatida de Mu.

— Agora estou bem. Só preciso de um pouco de café — Mu respondeu para Aiolia, apontando para o copo nas mãos de Afrodite, que rapidamente o entregou.

Ok. Aiolia havia o chamado de pequeno gafanhoto e continuava preocupado com ele. Isso era bom, ao menos, as coisas aparentemente não haviam mudado muito, Mu pensou.

Os três se sentaram à mesa para tomar o café, até que Afrodite percebeu, pela expressão de desagrado de Aiolia, que estava sobrando ali e decidiu deixá-los. Combinou com Mu de se encontrarem depois, o que não agradou muito a Aiolia.

Quando Afrodite saiu, Mu se sentiu ainda mais nervoso. O que era aquilo? Aiolia era seu colega de quarto, já estava mais do que acostumado a ficar sozinho com ele, então por que isso agora? Por que essa sensação de primeira vez ao lado dele? Bem, a verdade é que, de fato, era a primeira vez que estava ao lado de Aiolia depois de eles terem se beijado, e ele estava inseguro em relação aos sentimentos do outro. Será que Aiolia se arrependera? Será que seria melhor fingir que não se lembrava? Será que Aiolia estava prestes a começar um discurso sobre não estragarem a amizade ou sobre ele não ser gay? Será que ele...?

— Você tem creme no seu lábio — Aiolia falou, interrompendo as conjecturas de Mu.

Mu tentou limpar, mas não teve sucesso.

— Deixa que eu faço isso — Aiolia passou o polegar no lábio do outro. Sua vontade era limpar com a própria boca, mas seria melhor ir com calma. — Por que você não me acordou?

— Você parecia estar dormindo tão tranquilo, eu não quis incomodar — respondeu, com a voz baixa.

— Pois eu tive a impressão de que você estava tentando fugir de mim — Aiolia foi direto. Ele podia até demorar para decidir as coisas às vezes, mas, quando decidia, não tinha porque ficar fazendo mais rodeios.

— Eu sinto muito por ter dado tanto trabalho para você ontem à noite...

— Você se lembra?! — Aiolia arqueou uma sobrancelha, achando aquilo interessante, porque ele normalmente não se lembrava. Mu balançou a cabeça positivamente. — Tudo mesmo?

— É um efeito colateral da minha ótima memória fotográfica — Mu tentou parecer descontraído.

— Isso facilita algumas coisas — Aiolia sorriu. — Nesse caso, você se lembra do que me prometeu ontem, não se lembra?

Mu o olhou de modo interrogativo, tentando buscar em suas memórias o que havia prometido para Aiolia. Não se lembrou de nada.

— Você disse que, a partir de hoje, você me chamaria de mestre e realizaria todos os meus desejos.

Mu revirou os olhos, divertido.

— Eu tenho certeza de que não prometi isso.

— Claro que prometeu. Isso significa que você não se lembra de tudo. De qualquer forma, se prometeu, tem que cumprir.

— Aiolia, esquece essa obsessão. Eu jamais farei isso.

Aiolia sorriu, bebendo um gole de seu café, antes de voltar a falar:

— E tem mais. Prometeu também que aceitaria ser meu namorado.

Namorado?! Mu sentiu um solavanco no estômago. E, desta vez, não era por falta de comida.

— Aiolia, isso é sério? Você está mesmo me pedindo em namoro? — Mu questionou, inseguro. — Tem certeza de que você realmente quer isso?

É claro que ele tinha certeza! Que pergunta! Ele não teria beijado Mu se não tivesse certeza de seus sentimentos.

— Eu gosto de você, Mu, e quero muito tentar, se você também quiser. Bem, eu acho que você quer, porque você me deu esperanças ontem... Ou entendi tudo errado? — Será que Mu queria apenas uma amizade colorida como a de Mime e Ikki?! — Olha, eu sei que sou um cara cheio de defeitos, sou briguento, ciumento...

— Aiolia, você não entendeu errado. Eu também quero isso... — Mu abriu um largo sorriso.

Aiolia segurou forte a mão de Mu e suspirou, aliviado.

— Olha, não posso te prometer que serei um namorado perfeito, mas eu juro que vou fazer de tudo para que você seja feliz comigo, só que você também vai precisar me perdoar de vez em quando... — Ele deu um beijo demorado na palma da mão de Mu.

Aiolia era tão fofo! Mu alargou ainda mais o sorriso. De repente, ele percebeu que aquele não era o melhor lugar para terem aquele tipo de conversa.

— Acho melhor terminarmos essa conversa no nosso quarto...

— Hum... Nem terminou o café e já está doidinho para colocar suas mãos em mim — Aiolia piscou de uma maneira maliciosa que fez Mu corar como nunca tinha corado antes.

— Aiolia!

— Não se preocupe, eu também estou louco para colocar minhas mãos em você... — Aiolia tentou beijá-lo.

— Não é nada disso, seu safado! — Deu um empurrão fraco em Aiolia, fazendo este achar graça.

Aiolia tentou beijar Mu novamente, que rejeitou outra vez.

— O que foi? — quis saber o motivo.

Mu respirou fundo.

— Olha à nossa volta. Não reparou? Está todo mundo olhando para nós dois, como se fôssemos animais de zoológico.

— Devem estar com inveja!

— Você sabe que não é nada disso...

— Você tem vergonha de assumir que está gostando de mim, Mu? Você quer que a gente finja para as pessoas que somos apenas amigos? Porque eu já te aviso que sou um péssimo ator.

A prova disso é que todo mundo percebia que Aiolia havia se apaixonado por Mu, até mesmo quando ele negava. E, agora que aceitara, ele não estava interessado em ficar se reprimindo toda vez que sentisse vontade de abraçar ou beijar o seu namorado, só porque alguém que ele nem conhecia achava aquilo errado. Queria ter com Mu a mesma liberdade que ele teria se namorasse uma garota. Afinal, suas escolhas eram problema dele e não de outras pessoas. Não precisava dar satisfações a ninguém. Quer dizer, tinha Aiolos e seus pais, mas aí era outra conversa, era outra coisa para se resolver em outro momento. Sobre os colegas da faculdade ou do time, ele já havia pensado em todas essas questões antes, ponderando, analisado, se questionado, já havia apelado até para o Doutor Love. Agora, uma vez que tomara a decisão, não tinha mais por que ficar fingindo. No entanto, se esse fosse um desejo de Mu, faria um sacrifício para respeitar a vontade do outro até ele se sentir confiante.

— Não. Eu não quero fingir nada... — Mu falou, para o alívio de Aiolia. —É só que... Eu sei lá... Eles já estavam olhando para mim antes, provavelmente por causa do vídeo.

— Vídeo?! Que vídeo?! — Aiolia franziu a testa, e Mu contou a ele. — Ah, não esquenta sua cabeça com isso não. As pessoas comentam por algum tempo, depois esquecem. Aparecem novas histórias, com novos personagens...

— Só o preconceito que eles não esquecem. E eu tenho mais receio por você do que por mim... — Aiolia ficou sem entender, e Mu explicou: — Tenho medo disso influenciar na sua carreira como jogador de futebol...

— Mu, não vamos deixar pessoas que não são importantes em nossa vida estraguem tudo, está bem? Se eu não puder ser quem eu sou para jogar futebol, o futebol vai perder a graça. Não se preocupe com isso agora, se preocupe apenas com nós dois...

Mu fechou os olhos e suspirou.

— Você está certo. Não vou deixar que estraguem a nossa felicidade. Vou tentar ignorar esses olhares...

Aiolia ficou observando Mu por um instante, depois olhou para as pessoas que os encaravam.

So she said what's the problem, baby? — Aiolia gritou, chamando a atenção de todos para si.

Mu arregalou os olhos, pasmado.

— O que você está fazendo?!

Aiolia sorriu, dando uma piscadela, e levantou-se, tocando uma guitarra imaginária e balançando a cabeça ao som de um ritmo que só tocava em sua mente.

Mu colocou a mão na boca. Ah, não!

Aiolia o olhou sorrindo, como se dissesse: “Ah, sim!” E então começou a cantar:

So she said what's the problem, baby?

What's the problem I don't know...

Well may be I'm in love

Think about it every time...

I think about it...

Can't stop thinking 'bout it...

As pessoas ficaram olhando para ele, espantadas. Mu não sabia se saía correndo, se procurava um buraco para se enfiar ou se achava graça das caras e bocas que Aiolia fazia, enquanto cantava, usando o punho cerrado como microfone.

How much longer will it take to cure this

Just to cure it cause I can't ignore it if it's love.

Makes me wanna turn around and face me but...

I don't know nothing 'bout love... ooh...

Come on, come on... — Aiolia ergueu a mão-microfone bem alto quando começou a cantar o refrão.

Algumas garotas começaram a bater palmas no ritmo da música. Ele se empolgou e subiu na mesa, fazendo Mu abrir a boca e as garotas darem gritinhos, aumentando as palmas a até o ajudando a cantar. Mu balançou a cabeça, se perguntando se tinha morrido e acordado no Glee. Olhou em direção a Ikki e suspirou quando viu o colega caindo na gargalhada.

Turn a little faster...

Come on, come on...

The world will follow after

Come on, come on...

'cause everybody's after love — Ele se virou e apontou para uma mesa onde alguns garotos Ômega Chi estavam sentados, olhando tudo, de cara emburradas.

Depois disso, alguns garotos Sigma Tau que estavam por ali começaram a interagir também, dando apoio, talvez achassem que fosse uma provocação de fraternidades.

So I said I'm a snow ball running...

Running down in to the spring that's coming all this love...

Melting under blue skies...

Belting out sunlight...

Shimmering love...

Quem passava por perto, parava e se aproximava para assistir à cena, e Mu ainda viu algumas pessoas gravando o "show" com seus celulares.

Well baby I surrender...

To the strawberry ice cream...

Never ever end of all this love...

Well I didn't mean to do it..

But there's no escaping your love...

Oh oh...

Aiolia se virou e cantou de frente para Mu, no microfone imaginário.

These lines of lightning...

Mean we're never alone...

Never alone, no, no...

Ele mexeu os quadris e as garotas assobiaram e gritaram, entusiasmadas. Então ele abriu seus braços musculosos para elas, que voltaram a cantar junto com ele, e Mu ficou pensando que até quando estava pagando mico Aiolia conseguia ser charmoso e atrair outras pessoas.

Come on, come on...

Move a little closer

Come on, come on...

I want to hear you whisper

Come on, come on...

Settle down in side my love

Come on, come on...

Juamp a little higher

Come on, come on...

If you feel a little lighter

Come on, come on...

We were once, upon a time in love

Aiolia pulou no chão e parou em frente a Mu, pegando-o pela mão e o obrigando a se levantar, ficando os dois de pé, um de frente para o outro. Mu não sabia onde enfiava a cara de tanta vergonha, mas se deixou levar por Aiolia, que parecia todo empolgado.

We're accidentally in love...

Accidentally in love....

Accidentally in love....

Accidentally in love....

Accidentally in love....


Accidentally

As palmas aumentaram e garotas ficaram fazendo a segunda voz.

I'm in Love, I'm in Love...

I'm in Love, I'm in Love...

I'm in Love, I'm in Love...

Accidentally

I'm in Love, I'm in Love...

I'm in Love, I'm in Love...

I'm in Love, I'm in Love...

Accidentally

Come on, come on

Spin a littletighter

Come on, come on

And the world's a little brighter

Come on, come on

Just get yourself inside her

Love...

Aiolia se aproximou ainda mais perto de Mu, segurou seu lindo rosto e cantou baixinho, sorrindo e sem fôlego:

I'm in Love...

(Eu estou apaixonado)

E, por fim, deu um beijo na testa de Mu antes de se virar para a “plateia”, fazendo uma reverência. Jogou um beijo para as meninas em agradecimento. Elas assobiaram e gritaram. As demais pessoas se dividiram entre as que aplaudiram e as que olharam torto, achando aquilo um absurdo. Depois todos se dispersaram e voltaram para os seus afazeres.

— Por que você fez isso? — Mu perguntou. Sentia o coração querendo sair pela boca. Ainda que quase tivesse desmaiado outra vez, só que agora de tanta vergonha por conta do show de Aiolia, não poderia negar que, no fundo, bem lá no fundo mesmo, tenha gostado de tudo aquilo. Principalmente quando Aiolia cantou aquela parte que dizia que estava apaixonado. Tudo bem, foi um pouco exagerado, existia várias maneiras mais sutis de Aiolia fazer isso, mas... era Aiolia, afinal. O seu colega de quarto de muito charme e nenhuma compostura. Mu ainda se lembrava de como havia ficado temeroso com ele assim que o conhecera e, na ocasião, chegara a acreditar que seria impossível que a convivência entre eles fosse dar certo. No entanto, lá estavam eles agora, acidentalmente apaixonados.

Sim, Mu também estava muito apaixonado por Aiolia. E sentiu vontade de dizer isso a ele, só que não conseguia falar sobre essas coisas com a mesma naturalidade que o outro.

— Bem, eu apenas dei a eles uma desculpa para ficarem olhando para gente — Aiolia respondeu.

— Você é maluco... — Mu sorriu ainda mais e, dessa vez, mesmo constrangido, não recusou o beijo que Aiolia lhe deu, ali, na frente de todo mundo. Afinal, o que era um beijinho perto daquele show.

* * *

Notas finais
NOTAS DA AUTORA: Éh... definitivamente, discrição e uma palavra que não consta no vocabulário de Aiolia. kkk Mas ele fez isso para chamar a atenção para si e tirar o foco do Mu, então vamos dar uma chance ao nosso mais amado rei da selva; no caso, rei da faculdade. Ao menos é o que ele parece achar. Hahaha... No final, vou deixar aqui o link com uma das traduções que encontrei da música que Aiolia canta. Não foi a que eu mais gostei, mas a variação e mínima mesmo. A música também é conhecida, ela é a música tema de Shrek e Fiona. Não teve Camus e Milo dessa vez, porque o capítulo já estava bem grandinho. :-( Mas no próximo capítulo eles já têm presença VIP confirmada. :-) Obrigada a todos que continuam pacientemente acompanhando essa fic e, principalmente, aos que sempre procuram deixar um comentário. Isso tem feito toda a diferença para mim. É por vocês que também continuou por aqui. Ah, quero aproveitar o espaço para agradecer ao pessoal que deixou um comentário na fic do desafio, obrigada pelo apoio nessas minhas loucuras, acho que nunca mais invento uma dessas, hahaha. Logo respondo aos comentários de vocês. Então é isso. Beijo no coração de cada um de vocês e até o próximo capítulo. NOTAS DO CAPÍTULO: suíte¹ - Eu já havia explicado no 1 cap (quem se lembra!) como funciona as suítes nos dormitórios. É uma espécie de salinha com banheiro que atende a dois ou três quartos. Resident Assistant é uma espécie de supervisor de dormitório ou andar, que tem como função garantir que as regras estabelecidas para moradia naquele ambiente fossem cumpridas, mantendo a ordem. Geralmente são alunos do último ano. Bindi – é aquele sinalzinho na testa usado pelos indianos.. Pulseira japamala - conhecido também como rosário de orações, é um objeto antigo de devoção espiritual, composto por 108 contas. Glee - seriado musical americano. Links: Música que Aiolia canta com tradução: https://www.youtube.com/watch?v=B45_npZf9Ig Clipe oficial da música: https://www.youtube.com/watch?v=QUypt2nvorM Fanfic do desafio concluída (caso alguém tenha curiosidade): https://fanfiction.com.br/historia/721345/Desconfiar_e_pior_do_que_saber/