Notas iniciais
Aparentemente Shura pareceu sobrevir ao primeiro dia, mas a vida continua e os dias também... E assim ele terá que enfrentar seu novo dia a dia.

Tudo para mim era novo! Além de novo, entedioso! Eu não queria de jeito nenhum ficar naquele lugar horrendo, sem graça, sem gosto e sem sequer combinar comigo! Eu ainda me sentia um peixe fora do aquário e isso me dava cada vez mais repulsas e a vontade de fugir começava ainda mais ser enfocada. Mas eu não podia! O final de semana chegou e junto com ele, o representante do estatuto, querendo saber sobre meu rendimento escolar. Aquela senhora dizia que estava tudo muito bem! E não tinha nem três dias de estudo naquele lugar e tudo parecia... Bem?

Não se demoraram muito, algo em torno de 5 minutos, no máximo, aquele homem do estatuto não quis me fazer perguntas, apenas conversou com aquela mulher, preencheu um papel e entregou-lhe um envelope. Eles se despediram e eu fiquei. Aquele homem saiu, para dar lugar a uma chuva constante e fina, que não deixava apenas aquele sábado cinzento, como o meu sábado em si. Estava na janela do meu simples e antiquado quarto. E assim foi meu dia todo... Um enorme marasmo, que eu particularmente ignorava qualquer coisa que tocasse em mim!

O sábado passou e o domingo entrou do mesmo jeito. Parecia que o dia representava todo o meu eu... Algo sem graça, sem gosto e vontade. Aquela senhora, que se intitulava minha “parenta”, me chamava diversas vezes... Ela parecia me alegrar, perguntava se eu queria um videogame, como as outras crianças de minha idade, ou se queria ir num fast food... Nada me fazia sair daquele estado mentalmente vegetativo que eu me encontrava.

O fim de semana acabou e em seguida a ele, veio a terrível segunda feira, juntamente com o iniciar de uma enjoada semana! Assim como os outros dois dias, aquela segunda era completamente o meu espírito manifestando de forma tangível! Aquela mulher me entregou o único guarda chuva da casa... Algo antigo, um pouco quebrado, parecendo coisa de mulher idosa. Eu tinha vergonha de ir com aquilo! Pobre, de mulher e ainda por cima, idosa, quebrado... Eu tinha jogado aquilo ao chão, com raiva, após passar 2 quadras daquele local que eu estava.

— Vergonha! Nunca me senti tão humilhado! – Esbravejei.

— Shura, é você?

Eu estava com tanta raiva, que não percebi que havia pessoas atrás de mim. Apenas percebi quando ouvi meu nome ser chamado e imediatamente virei a cabeça para o lado.

— Mu... Shaka? Desde quando estão aqui?

Apenas vi aqueles dois rapazes e o loiro chegar mais próximo de mim, pegando o guarda chuva. Ele levantou e ajeitou aquele objeto.

— Acho que você vai precisar muito disto, não? – Falou Shaka, em seu pleno momento de calmaria.

— Mas isto... É... Tão...

— Deprimente? – Completou Mu. – Acredito que este guarda chuva seja o único da pessoa que te entregou! Pense... A pessoa lhe passou a única coisa que tem para se locomover na chuva, para que você possa estudar! Mesmo quebrado, velho e não ser apropriado para você, ele está apto para proteger tanto você, quanto a pessoa que lhe emprestou!

As suas palavras entraram em minha cabeça como uma pancada. Eu segurava aquele guarda chuva e os dois se foram. Eu olhei para tudo a minha volta, eu comecei a me sentir um tanto estranho e a chuva foi cessando, ficando apenas um tempo cinzento com nuvens carregadas, como se a qualquer instante iria chover forte. Assim sendo, eu cheguei praticamente em cima da hora na escola, com aquele guarda chuva no saquinho protetor para não molhar a sala de aula e corredores, colocando ao meu lado, na minha carteira, ainda naquele lugar, ao fundo da sala.

Passou o dia inteiro de aulas teóricas, chatas e monótonas, eu queria olhar para a janela e viajar em pensamentos loucos e ao mesmo tempo, alegres, para fingir que estou bem. As aulas percorreram tão cinzentas quanto o dia lá fora. Havia chovido varias vezes e naquele instante, o céu ainda estava cinzento, como se em qualquer momento iria desabar aquela chuva! O sinal da saída bateu e eu, como sempre, esperei todos saírem para eu levantar, mas naquele instante, eu senti alguém ao meu lado.

— Eu estava te olhando e... Gostaria que ficasse com isto! – Era Aphrodite, estava com algumas notas de dinheiro na mão. – É para você comprar um guarda chuv...

Não deixei que ele terminasse, achei aquilo um enorme desaforo que cheguei a esbravejar em cima dele.

— Eu não preciso de esmola! Nem sua e nem de ninguém! Eu não preciso da piedade de vocês! Eu não preciso de na... – Quando eu iria dizer mais coisas, apenas senti meu ombro ser praticamente jogado para trás, junto com o meu corpo contra a parede.

— Olha aqui cara, se contenha! – Era Mephisto, o rebelde que fica com Aphrodite. – Não queremos te dar esmola alguma! É apenas um presente e você vai... – Ele me ameaçava, até que aquela voz suave cortou tudo.

— Eu... Apenas quero te dar um presente, Shura. Não é por que este guarda chuva seja velho ou inadequado para você, por mim, eu trocaria contigo, mas me parece que não é seu e... Seria tão legal se você tivesse algo seu!

Eu olhei para o guarda chuva e depois para o dinheiro. Me lembrei que aquela senhora poderia querer sair e não tinha com o que se proteger da chuva, já que eu levei seu único elemento de proteção. Eu olhei para aquela dupla, onde o mais delicado, sorria para mim. Ele abriu minha mão e colocou o dinheiro.

— Até amanhã! – Despediu-se de mim.

Eles saíram e eu fui caminhando. Não chovia, para meu alivio. Caminhei pela rua e passei pelo comércio, justamente numa loja de guarda chuva. Tinha um guarda chuva, que era exatamente o valor do dinheiro que eu tinha em mãos. Ele era a minha cara e acabei comprando. O vendedor pediu o antigo para jogar fora e eu reclamei, não queria entregar. Cheguei em casa e expliquei tudo o que aconteceu. Aquela senhora sorriu, dizendo que aquele guarda chuva era de sua avó, que ela teve a mesma reação que a minha e ficou feliz em saber que não descartei o objeto.

A noite transpareceu apenas com nuvens, escondendo o brilho do luar. Naquela noite, foi a primeira que eu jantei calmamente com aquela mulher. Adormeci, com um sorriso nos lábios. Jamais tinha sentido algo tão completo, desde que começou o meu pesadelo. E assim, a terça amanheceu e eu sentia um pouco de dor de cabeça, o nariz fungando e pequenas tremedeiras. Ao me sentar para o café, aquela senhora percebeu que eu estava muito diferente.

— Shura, você me parece gripado... Não é melhor você ficar em casa?

— Eu estou bem, senhora Nagawa! Não posso me ausentar da aula!

Peguei meu novo guarda chuva e segui para o colégio. O dia estava limpo, poucas nuvens, mas com um sol tímido e o tempo fresco. Segui normalmente para a sala, ao pisar naquele lugar específico, o meu humor mudou, lembrei-me que ainda me encontrava naquele pesadelo e me sentei em minha costumeira carteira. Em questão de minutos, comecei a ver a sala mudar, eu enxergar pouco, o som ficar diferente.

— O que está acontecendo comigo?

Eu não sabia o que era, apenas sabia que a tudo ficava turvo e minha cabeça ficava cada vez mais pesada. Do nada, a sala e meus colegas começaram a girar. Apenas vi alguém se aproximando de mim, alguém que possuía cabelos verdes-água e uma mão muito fria, muito antes de tudo enegrecer em minha frente. A luz voltou aos meus olhos, não sei há quanto tempo, após abri-los e me encontrar em meu quarto naquele casebre. Ergui o corpo e estava com uma toalha úmida na testa?

— Como vim para aqui?

— Ah acordou! Très bien (Muito bem)! – Falou uma voz que ecoou na porta.

— Camus? O que faz aqui?

Bien (Bem)… Alguém tinha que ficar para saber notícias suas! Moi (eu) me dispus, pois eu sei as matérias mesmo... Você desmaiou, estava com muita febre. Moi et (Eu e) Aldebaran trouxemos você para cá e agora que você acordou, posso ir embora. Vou ligar para o Milo, dizer que je vais à ma maison (eu vou à minha casa)!

Aquele rapaz sacou um celular e começou a discar algo. Eu me assustei, tudo era aterrorizador. Eu segurei no lençol que me cobria e fui enchendo de perguntas.

— Como assim? Por que me trouxe para cá? Como sabe que eu moro aqui? Quem disse para você?

Camus parou o que estava fazendo e virou o olhar para mim. Seu olhar era frio e de todos, ele tinha um olhar congelante.

— Tivemos que ir na diretoria. Não queríamos chamar a madame (senhora) que vive nesta casa. Quando eu soube do endereço, percebi que você é meu vizinho praticamente! Moi (eu) moro no condomínio após à praça!

Ele olhava para fora e um barulho foi ouvido, era a porta de meu quarto, que parecia ranger. Desta, saiu aquela mulher, que olhava para nós dois.

— Como está? – Dizia ela com aquela voz trêmula e preocupada.

Très bien (Muito Bem). Acordou um pouco confuso, como se esperado!

Ela veio até a mim, erguendo sua mão e tocando em meu rosto. Ela parecia ver minha temperatura de meu corpo, de repente, do nada ela me abraçou e vi aquele rapaz saindo, indo embora, dando apenas um breve tchau para mim. Eu não sabia ao certo como reagir, aquela mulher falava para mim, como se não quisesse me perder.

Após tantos abraços calorosos e palavras de consolo, eu comecei a perceber que eu era importante àquela senhora. Com isso, eu a abracei e aceitei tudo o que ela me indicou. Um médico veio até a casa e me diagnosticou, eu estava com uma virose forte e precisava de muito repouso. Disse que iria entregar um atestado, para eu ficar em casa nos próximos dias e voltar apenas na semana seguinte. Eu não sabia se isso era um alívio ou mais uma tortura.

A semana passou como um jato, a febre ia e voltava, conforme o tempo não ajudava. Mas foi na sexta que tudo começou a mudar! O céu ficava cada vez mais limpo, um azul celeste tímido, com poucas nuvens. Shura estava na janela do seu quarto, olhando tudo ao redor. Os pequenos pássaros ciscando e passando por entre as poças de água. Tudo era bucólico. Sua febre quase extinta.

— Se sente melhor? – Perguntou aquela senhorinha.

— Sim! Muito obrigado!

O sábado amanheceu mais brilhante. O sol despontava no horizonte, amarelo, dando os ares de que o dia seria mais aquecido. Aquele rapaz estava bem melhor. Parecia até mais disposto, quando, umas 11h, tocou a campainha daquela casa.

— Shura, você tem visitas. – Anunciou a senhora.

— Visitas?

Shura, que estava em seu quarto, levantou-se de sua cama e seguiu para a entrada, foi então que viu toda a sua turma lá, com alguns mimos nas mãos e sorrisos largos nos rostos. O menino não sabia ao certo onde se enfiar. Apenas estava atônito com a surpresa.

— Viemos lhe visitar, você fez falta esta semana! – Dizia Mu, de um jeito sereno e bem tranquilo.

Ao ver aquilo, Shura começou a mudar a sua visão de sua turma. Eles não eram tão ruins como se imaginava. Apenas ele precisava conhecer melhor seus novos amigos e aceitar que eles são seu mais novo futuro.

Notas finais
E assim ele resistiu por uma semana, além de começar a mudar um pouco as suas visões àqueles que os cercam e receber melhor as "novidades" para a sua vida. Será que ele aguentará por muito tempo?