Notas iniciais
Shura aprendeu a dar um pouco de valor as coisas de sua nova vida, mas por quanto tempo ele conseguirá ficar aceitando as diferenças? Ou será que ele aprendeu a conviver com elas?

Após aquela semana, eu percebi o quanto eu era querido. Camus me chamava para a casa dele, ele morava sozinho, num apartamento, pois era um intercambista, ou melhor, era um estrangeiro, mas tinha uma parte da família que morava no Japão e aquele apartamento era de seus pais. Ele tinha uma empregada, que limpava e fazia sua comida, mas trabalhava para os tios que moravam no mesmo condomínio, com isso, ele dizia que não vivia sozinho, as vezes Milo o fazia companhia. Ele me ensinava tudo da semana que eu perdi. Ele parecia um instrutor, quase acadêmico, não conseguia entender como alguém daquele porte estaria fazendo num lugar como aquele.

Após ter essas pequenas aulas do “crânio” do grupo, eu fiquei atualizado nas coisas do colégio e preparado para um pequeno teste que fiz na semana seguinte, para depois as provas. Achei estranho, pois me parecia que estavam a pouco do bimestre.

— Não, não! — Disse-me Milo na hora do intervalo.

— Estamos com o horário escolar adiantado. – Completou Camus. – O velho Kido sempre valorizou o natal e em dezembro, temos um período maior que as outras escolas.

— Interessante! Mas com aquelas aulas, eu consegui aprender bem! Obrigado, você é um excelente professor, Camus!

Merci!

— Hã? – Indaguei.

— Ele disse obrigado na língua natal dele, Shura! – Era Shaka, que surgiu do nada, juntamente com Mu.

— Vejo que está se entrosando com os outros, Shura! Nem tem quase um mês e você já se encontra conversando conosco! – Falou Mu, que me dava sorrisos.

— Não, não é bem isso! Eu... – Comecei a ficar vermelho e engolia a seco.

— Aaaaaah! Pare com isso, Shura! – Milo veio para perto de mim e deu um tapinha em minhas costas. – Quando você estava tendo aulas na casa de Camus, você parecia bem à vontade! Pensei que iria perder meu melhor amigo!

De repente, apenas vi Milo esbugalhar os olhos. Camus tinha dado um breve empurrão.

— Menos Milo! – O outro dava-lhe sorrisos amarelos.

Conversamos até o sinal tocar e todos voltavam para seus lugares. Ah, e por falar em lugares, eu ainda estava naquele lugarzinho, perto do velho armário. Não por encontrar um lugar melhor, mas sim, por te me acostumado. Aliás, estava me acostumando com todos ali, todos mesmo! Eu realmente conversava mais com os outros, respondia algumas questões e levantava o braço para tirar dúvidas. Mas de todos, eu só não conseguia me sentir bem com aquele rapaz mais velho... O tal Mephisto.

Por que a sua presença me incomodava? O Aphtodite, o rapaz de feições mais delicadas, sempre me ajudava em alguma coisa e toda a vez que eu me exaltava, aquele cara vinha para cima de mim, quase querendo me trucidar. Mas era só o mais delicado falar macio, que o outro já mudava, ficando mansinho, como um filhote. E isso me irritava.

As provas vieram, uma semana intensa e estressante da mais pura das agitações. Álgebra, gramática, redação, historia, geografia e ciências... Cheguei a pensar que não iria mais conseguir nada! Nem acreditei quando acabaram! Parecia um alívio jamais sentido! Eu suspirava na manhã seguinte após o último dia de prova, que era um sábado.

A segunda era dia das divulgações de notas. Uma tabela foi colocada no mural do corredor e aqueles alunos se amontoavam e acotovelavam para olhar num papel branco de pequenas letras negras. Eu não conseguia ver com muita perfeição, pois havia muita gente naquele lugar. Até que, do nada, ouvi um murmúrio saindo daquele bolo e se revelarem em Milo e Camus. O estrangeiro estava com seu semblante neutro o outro revoltado.

— Como assim você tirou em história 9,9? Isso é um absurdo! Mande eles reverem essa nota! – era Milo, que estava revoltadíssimo.

— Milo, eu devo ter escrito de um jeito que não aceitaram. Mas isso não fez com que descesse minha posição. Ainda sou o número um!

O amigo parecia inconformado, então cheguei perto deles, tentando quebrar o gelo.

— Ah, parabéns! Ser excelente em tudo não é para qualquer um!

— Pode ter sido excelente, mas não foi perfeito! – me respondeu o amigo.

— Milo, acalme-se, oui (sim)? Eu ainda sou o Camus, o super aluno!

Ele estava se conformando, mesmo não tendo aquela expressão de “aceitei”. Parecia tudo bem, quando ouvimos uma baque, parecia ser um soco muito forte dado na parede. Aquilo não assustou apenas eu e os dois amigos, assim como algumas pessoas que olhavam as notas.

— Se contenha! Por favor! – Era uma voz doce. E eu sabia de quem era aquela voz. – Isso não é o fim do mundo! Phiphinho!

— IDIOTA! – Berrou alguém que fez todos assustarem de novo. – Não vê como é importante?

— Mas... – A voz doce tentava ser doce e suave.

As pessoas pareciam ficar com medo. A voz irritadiça era tenebrosa e forte, fazendo com que todos se afastasse, revelando Aphrodite e aquele rapaz, o Mephisto. Percebi que aquele bruto iria violentar o mais delicado a qualquer momento, pois os olhos pareciam fumegar de raiva.

— Pare com isso, seu bruto e insolente! — Impedi-o.

— Não se meta, cara! Não vê que eu estou conversando? – Disse aquele bruto a mim.

— Isso não é conversa! – Continuei

Nós dois ficamos brigando, como dois pivetes e o outro apartando, até que ele, levantou a mão, com a palma aberta e apenas senti o vento cortar na minha frente. Ele iria me bater com toda a força, mas eu esquivei, fazendo com que o tapa pegasse em Aphrodite.

O “ai” foi ecoado, o que fez o mais velho de nós se afastar com a cara mais desesperada. Ele andava para trás e respirava ofegante.

— Você viu o que fez? – Ditei a ele.

— Cale-se! Você que é o culpado! – ele apontava o dedo para mim e depois olhava para Aphrodite que estava em meus braços. De repente, ele começou a correr.

— Covarde! – Eu levantei, já indo no pique.

— Não Shura, deixo-o ir... – Falou o belo rapaz, que parecia se esconder.

— Mas ele foi grosso com você!

— Ele só estava chateado...

Aphrodite se escondia e eu tentava acudi-lo. Fazia de tudo para me transformar em educado. Até que eu citei mais uma vez o ocorrido.

— Mas ele te bateu e ainda foi covarde!

— Ele nunca me bateu! E ele não usou de covardia! Pois não era para mim, mas sim para você, aquele tapa, Shura... Covardia foi você que o ameaçou! Espero encontrá-lo! – Ele meu deu bronca e andou na mesma direção que o outro.

— Mas...

Aphrodite estava chateado comigo, por algo que eu fiz! Eu me sentia mal e queria me desculpar, mas eu não sabia como reagir. Milo e Camus estavam perto de mim e depois veio Mu e Shaka, olhavam para aquele belo rapaz que corria. Eu não sabia onde me enfiar, eu estava arrependido do que fiz, queria ajudar.

— O que houve? Por que o Aphrodite correu? – Indagou Mu.

— Eu... – Comecei. – Pensei que Mephisto iria agredi-lo e quando impedi, ele bateu sem querer no Aphrodite. Então ele correu e eu não sei como ajudar.

Eu estava tão chateado, que eu não senti uma mão me tocando, mas o estranho calor, era Shaka.

— Mephisto costuma ficar na ala 3 do colégio... – Eu ia interrompê-lo, mas foi ele que me interrompeu. – Sim, o galpão abandonado. Ele vai lá, sempre quando ele e Aphrodite não estão bem.

Eu sorri e agradeci. Corri naquela direção dita. Eu não via o belo rapaz, mas em compensação, consegui achar Mephisto. Ele estava... Fumando? E ainda por cima, no telhado local. Eu consegui chegar até ele, só que ele me notou primeiro.

— Como me achou? Tsc... isso é o de menos! O que tá fazendo aqui, inútil?

— Er... Mephisto. Quero te pedir desculpas, eu não sabia...

— CALE-SE! – ele levantou do lugar irritadiço. – Eu nunca bati no Aphrodite e você me fez bater! Você acha que desculpas vão apagar isso?

— Eu sei que não! Mas eu vim...

Quando eu estava falando, o local que eu estava, usado para chegar até ele, começou a ruir e eu me desequilibrei. Parece que ele ouviu e me segurou. Eu olhava para ele assustado.

— Já sei... Desculpa... – Disse ele a mim. – Olhe para baixo, você acha que se desculpar vai recuperar as caixas?

— Eu... É que... – Quando eu estava me explicando, ele me ergueu, me colocando no telhado. – Se você está chateado comigo, por que me ajudou?

— O chão não merece seu sangue e nem sua carne espalhada. Venha... Há uma escada bem ali!

Caminhamos com cuidado e chegamos ao local. Descemos e eu ainda queria saber como ele ainda queria me ajudar.

— Mephisto...

— Shura... Esquece, ta? Eu sei que aquilo que disse no primeiro dia é mentira. Você não vai com a minha cara e eu não pedi para ir com ela mesmo! Apenas não quero que perturbe... O Aphrodite...

Ele parecia me contar tudo o que tinha para contar, mesmo ele dizendo com aquele tom ameaçador que ele sabia de mim e que eu “mentia”, algo o cortou, pois eu via que ele mudou de expressão.

— Você está aqui, como imaginei! E... – Era Aphrodite, ele olhou para mim e para o outro. – Vocês não brigaram, ne?

— Não... Ele quase caiu do telhado...

Mephisto deu as costas para mim e o belo rapaz, caminhando em direção ao complexo principal. Eu o chamei a atenção, fazendo que ele me olhasse de soslaio.

— Obrigado pela... Mãozinha!

Ele não sorriu, apenas teve o belo rapaz caminhado consigo. Já eu, bem, eu caminhei em mesma direção, mas afastado dos dois. Aphrodite aproximou-se do mais velho, conversando baixo.

— O que houve? Você não era assim! Você teria deixado ele, no mínimo, com um braço torto!

— Aphrodite, ele tem um passado mais oculto do que o meu. Esse garoto, ou melhor, esse playboyzinho, não está aqui por viagem dos pais! É só ver na fuça dele que há um desgosto!

— Você acha...

— Deixa... Um dia ele vai soltar!

Dava para ver que os dois conversavam, aquelas bem paralelas e pareciam cochichar. Deviam estar falando de mim! Como eu imaginei, eles me odeiam, ainda mais pela cagada que eu fiz. Não sei como corrigir... Como Mephisto disse, dizer desculpas não reconstrói caixas... Mas pode reconstruir amizades! Um dia ainda vou reconstruir essa amizade!

Notas finais
Shura aprendeu a valorizar não apenas seu novo dia a dia, como também suas novas amizades. Será que ele vai reconstruir essa amizade que "estragou" com Mephisto e Aphrodite?