Gold Eyes
22 Capítulo 22
Não sei descrever a cena que encontramos no Morro no instante em que chegamos àquele lugar escuro e sombrio. Se eu podia definir numa palavra? A verdade era que não havia palavra o suficiente para traçar a imagem que meus olhos captavam diante de mim.
Ainda longe o suficiente para não ser percebido por eles, freei o carro, e tudo o que consegui fazer de imediato foi ficar imóvel. Por trás da chuva, uma quantidade de zumbis que eu nunca vira antes caminhavam todos numa única direção: os portões do Convento e das Sete Capelas. Se aquela figura que todos chamam de Deus realmente existe, só podia ser ele ali, invocando os mortos-vivos na direção de seu Reino. Mas, se até este imaculado lugar fosse dominado por eles, o que restaria para a humanidade? Essa foi a pergunta que latejou dentro da minha mente, enquanto minha respiração ofegante começava a tomar conta de mim.
Ainda segurando firme no volante, eu tentava em vão levar meus olhos para o que acontecia à frente dos zumbis. Não havia sons de explosões nem qualquer barulho humano ali, no entanto, o que tanto atraía a atenção daqueles seres, então?
A resposta veio até mim e meus amigos instantes antes de eu sequer poder pensar uma qualquer hipótese estranha e sem sentido. Mesmo ao longe e presos dentro do Amarok, pudemos sentir o impacto. Acreditem ou não, mas o primeiro tiroteio começou de um carro escondido em algum canto da mata atrás de nós. Pude sentir minha respiração parando quando o veículo passou por nós, nos enxergando porém nos ignorando. Escutei meus amigos acordando assustados atrás de mim, só que eu não conseguia olhar para trás, toda a minha atenção hipnotizada demais naquilo que acontecia a minha frente.
Ainda imóvel, ouvi as vozes gritantes antes da primeira explosão. O calor da bomba aniquilando os zumbis podia ser sentido por cada um de nós, mesmo que estivéssemos dentro do Amarok. Era como se a chuva, que dominada os céus outrora, houvesse se transformado numa massa infernal de pólvora e corpos de zumbis estilhaçados. E a matança continuava.
Do alto do Convento pude ver por entre o alto das árvores o brilho das armas e de suas balas a metralharem os zumbis. Eles soltavam seus gemidos de mortos-vivos, esticavam as mãos aos céus e abriam as bocas enquanto presenciavam seu fim. Mais dois carros de repente pararam ao lado do Amarok. Não sei de onde eles vieram, mas isso não importava mais agora.
-Uma ajudinha aí?! — o motorista gritou para nós, sacudindo a metralhadora que tinha em mãos.
Somente nesse instante, nesse único instante, senti todo o meu sangue e meu ser respondendo que sim. Com um asseno afirmativo com a cabeça, peguei às pressas minha mochila até retirar dali todas as armas de longo alcance que eu possuía. Com o canto dos olhos, pude perceber meus amigos, mesmo confusos, a fazerem o mesmo.
Com os gestos, aqueles outros sobreviventes disseram para permanecermos no carro, abrindo apenas as janelas para atirar nos zumbis que vinham agora até nós. Não eram muitos, porém, mesmo assim fizemos a nossa parte. Era indescritível a sensação de poder que tomou conta de mim quando vi que eram com as armas em minhas (em nossas) mãos que destroçariam aqueles seres. Nós recuperaríamos o controle do mundo, voltaríamos a ser a espécie dominante. Na minha mente, a vitória era só uma questão de tempo.
Em meio à fumaça, aos gritos e cada vez mais explosões, o número de zumbis diminuiam cada vez mais. Nós tínhamos um plano, uma estratégia; os mortos-vivos não tinham nada. E era nisso que eu pensava quando notei mais um carro a se aproximar de nós, só que dessa vez com alguém acenando para que parácemos de atirar. Duas pessoas desceram dali, um sombrio homem vestido de terno e óculos escuros e ao seu lado um garoto com o sorriso mais convencido do mundo.
-Não acredito — ouvi Scorpio dizer atrás de mim, seus olhos também fixos naquela pessoa.
Ouvi Nagisa soltar uma exclamação, antes de xingar aquele que se aproximava de nós.
Kobashi tinha o sorriso mais genuíno no rosto assim que se aproximou da minha janela e me estendeu a mão para me cumprimentar.
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