Gold Eyes
16 Capítulo 16
No telhado da minha casa, escondido pela imponente caixa d'água, eu estava de vigia mais uma vez. Era como se estivéssemos na floresta novamente, felizes até a chegada do caos. Quando amanheceu definitivamente, Minene veio se juntar a nós. Ela não nos deu detalhes de onde estava, ou o que estava fazendo, porém, alguma coisa na confiança de seus gestos e sua voz, sentimos que podíamos acreditar e aceitar ela. Não contamos a ninguém o ocorrido quando ela me encontrou, mas preferi deixar quieto mesmo — eu não queria que nenhuma desconfiança fosse criada entre nós, principalmente depois de tudo o que já havia acontecido.
Avisamos aos outros que precisávamos sair dali, só que ninguém queria abandonar a casa, não enquanto estivéssemos água e comida a nos abastecer ali. Olhando para a rua que ainda tinha a presença de poucos zumbis, tudo o que eu via eram as flechas de Minene a alcançar, certeiras, os mortos-vivos que se aproximavam da casa. Logo que achei não ter mais utilidade ali na vigilância, segui para o leste do telhado a fim de buscar um lugar para descer.
Acontece que foi uma voz feminina e infantil, tão baixa que quase achei ser coisa da minha cabeça, que atraiu minha atenção.
–Hey... — olhei para a frente, para a sacada da casa ao lado da minha, e encontro uma garota que eu nunca vira antes a sorrir para mim — Estava te observando... Você parecia tão sério e cansado, as outras pessoas daqui não costumam ser assim não...
Olhei em volta, mas não vi nenhum dos meus amigos ou outra pessoa qualquer a me observar ali em cima. Voltei minha atenção à garota, mas ela parecia concentrada demais com algo que acontecia ali dentro de seu quarto.
Seu rosto de perfil, tão intelectual e sereno, de repente me lembrou aquela pessoa.
–Você precisa saber de um segredo — subitamente, sua voz voltou a se dirigir para mim — Vocês sabem que não estão seguros aqui, né? Pule o muro e venha até aqui, aí posso te contar como vocês podem lidar com eles, exatamente como eu e meus pais fizemos...
Pisquei, realmente confuso com a gentileza daquela garota.
–O que você vai ganhar me ajudando assim? — perguntei, sério.
A desconhecida sorriu, e o sorriso dela me lembrou novamente aquela que eu não queria lembrar.
–Mais humanos vivos e mais zumbis mortos. É isso o que todos devem fazer, não? Só estou cumprindo a minha parte.
Fiquei em silêncio, absorvendo aquela informação. Mas se ela podia mesmo nos ajudar a permanecer ali, sem encrencas, que mal podia haver em ouvir o que a garota tinha a me dizer?
–Está bem — falei, colocando o revólver com cuidado no cinto em minha cintura e me posicionando para pular o muro.
Não foi difícil chegar até o quarto dela, uma vez que a distância entre o telhado da minha casa, o muro que nos separava e a sacada da casa dela não passavam de dois metros. Me posicionei ao lado dela e notei a garota sorrir, contente, antes de me puxar para dentro de seu quarto. Uma vez dentro daquele cômodo de paredes rosa e bichos de pelúcia por todo o lugar, a última coisa que eu podia imaginar foi aquilo o que aconteceu.
Me puxando para perto de si, a garota deu um beijo em minha bochecha antes de me beijar, felina, na boca.
–Te achei uma gracinha, sabia? — ela sussurrou em meu ouvido, mas alguma coisa em seus gestos trêmulos e sua voz pouco a pouco ficando cada vez mais alterada, me fizeram perceber que alguma coisa estava errada.
Foi somente quando os lábios e a língua dela percorreram meu queixo que eu vi que já era tarde demais. Os olhos daquela menina, ao longe tão normais e humanos, de perto eu pude ver qual verdade os envolviam. Aqueles eram olhos dourados, como os de um zumbi recém-criado.
Eu havia sido pego numa armadilha.
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