Gold Eyes
17 Capítulo 17
Não sei que força foi aquela que me levou a dar um soco na face da menina, mas eu dei. O grito de dor e surpresa que ela soltou pareceu se espalhar por toda a casa. Só sei que, assim que consegui me afastar dela e correr para a sacada, a porta do quarto se abriu numa brutalidade tão assombrosa que achei que os zumbis haviam conseguido entrar ali.
-Jéssica! — uma voz masculina exclamou, adentrando cômodo adentro.
Só sei que não tive tempo de olhar para trás se quisesse sair dali. Quando coloquei os pés na sacada, no entanto, mãos femininas que mais pareciam garras, me arrastaram para dentro.
-Você vai pagar pelo o que fez com nossa filha! — a voz gritou, me jogando no chão.
-Mas de jeito nenhum — falei, tirando a primeira arma que encontrei em meu bolso — Olhem para ela, ela não é mais a filha de vocês! Ela já se foi!
E dizendo isso, vi nos olhos deles o quanto aqueles pais, tão cegos mesmo diante do caos, jamais cederiam àquela verdade. Quando Jéssica parecia estar em seus últimos momentos antes de se transformar definitivamente e seus pais correram ao seu encontro, eu tomei a única escolha que podia para ajudar aquela família.
-Me perdoem — murmurei, levantando a arma e dando um tiro em cada um deles — Que permaneçam juntos no outro mundo, por favor.
Não sei porque fiz aquilo, mas pensei que, se eu fosse aquele pai ou o filho que estivesse se transformando em morto-vivo, eu não quereria ter o destino que aquela família escolheu. Mesmo sujando minhas mãos de sangue, eu aceitei aquela escolha, esperando mesmo que eles voltassem a se encontrar num outro lugar...
-Shiro! — me gritaram, logo que pulei às pressas para o telhado de minha casa — O que aconteceu? O que foi aqueles tiros?!
-Era uma armadilha — falei, descendo pela calha até alcançar o chão — Estavam tentando me atrair para uma armadilha, e quase conseguiram.
-Mas você não devia ter disparado aqueles tiros — Minene disse, seus olhos escuros caindo sobre mim — A rua vai se encher deles de novo. Vamos ficar encurralados aqui.
-Não se fugirmos antes deles aparecerem — Yuri retrucou, esperançosa.
-É nossa única escolha... — Kobashi murmurou, encerrando de vez o assunto.
-Vou sentir saudade daqui — Minene sussurrou, correndo em seguida para dentro de casa para nos ajudar a pegar nossas coisas.
Um fato é certo quando se está correndo contra o relógio e contra zumbis que querem te devorar: quanto mais você se agarra às coisas que tem e às pessoas a sua volta, maior é a chance deles sentirem seu cheiro e te encontrar. Só que, mesmo diante disso, a verdade era que, unidos, nós éramos mais fortes contra eles, e sendo mais fortes, tínhamos mais chances de sobreviver.
Scorpio, sendo o primeiro a terminar de juntar tudo o que podia, correu para a frente da casa, porém teve uma surpresa quando chegou perto do portão e escutou os primeiros socos e vozes famintas ali do lado de fora.
-Pessoal — ele deu alguns passos para trás, olhando perdido para nós — Acho que eles já chegaram, não tem como sairmos daqui.
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