Gold Eyes 2
9 Capítulo 8
Me colocaram novamente numa maca metálica. O frio do metal contrastava com força contra o calor de meu corpo. Gilbert deitou-se a maca ao lado da minha, me lançando um olhar corajoso. Mas percebi um segundo tarde demais que aquele sorriso era somente uma distração. Jonathan prendeu depressa minhas pernas e pulsos, passando em seguida para meus ombros e minha cintura. Com agilidade, ele fizera o mesmo com Gilbert.
- O que é isso? — perguntei, incrédulo.
-Medidas de segurança — o doutor respondeu, sem olhar para mim. Toda a sua atenção estava direcionada agora às seringas e equipamentos ao redor de nós.
-Para o caso de tentarmos atacar — Gilbert murmurou.
-No caso, se virarmos zumbi?! — acrescentei, pálido.
-Exatamente. Mas, pense comigo... Shiro... Já estamos infectados, certo? E, como os zumbis, também precisamos ser curados. Agora me responda, meu caro: como seremos curados então?
Demorou um minuto assombroso para eu conseguir enxergar a verdade.
-Quando virarmos zumbis também. Assim que nos transformarmos num deles...
E, então, sem mais uma palavra, o pesadelo começou:
Senti o sangue ser arrancado depressa de mim, as agulhas enfiadas em meus braços e pescoço doendo também.
-Relaxe, Shiro — Jonathan advertiu, calmo e direto — Precisamos de mais sangue de vocês para colocá-los em cada uma de nossas armas. Pontas de arco e flecha, balas dos revólveres... Tudo precisa estar com a essência de vocês, que é a única arma que irá aniquilar essa mutação nos genes dos mortos-vivos.
-As bombas já estão todas prontas com nossa... arma surpresa e o sangue, células e tudo mais que colherem de nós agora — Gilbert continuou — Irá mesmo para as armas que ainda restam do nosso pessoal que está ali fora.
-Temos que ser rápidos. Não sei por quanto tempo mais aqueles portões aguentarão as investidas dos zumbis...
Eu escutava os dois falando, escutava suas vozes chegando até meu cérebro, mas parecia cada vez mais difícil compreender tudo aquilo. Embora houvessem mortos-vivos fora dos muros do Convento, havia um dentro de mim que eu precisava emergencialmente combater também.
Quanto mais tiravam meu sangue e todas as defesas de meu corpo, mais meus músculos ficavam tensos e, meus atos, ferozes.
-Acabei! — ouvi um grito súbito e imaginei que só podia ser do Dr. Jonathan.
Não sei o que ele estava fazendo com as novas amostras nossas que colhera, porque meus olhos estavam cada vez mais difíceis de serem mantidos abertos, restando unicamente a mim usar os ouvidos para compreender o que se passava ao meu redor.
Escutei uma campainha e uma porta a ser aberta de repente. Várias vozes cercaram o doutor e imaginei que ele só podia estar entregando "a cura" aos líderes combatentes que iriam proteger nossos muros. Passos subiram as escadas, até que, tão rápido quanto o barulho surgira, ele desaparecera também.
Mas somente por um curto espaço de tempo.
Mesmo preso entre as paredes do porão, escutei um barulho que soava como hélices, girando com enorme fúria e velocidade do lado de fora.
-Chegou nossa ajuda! — ouvi alguém gritar, contente, e enfim descobri que a arma secreta deles era só podia ser um helicóptero.
Escutei o barulho das primeiras bombas a caírem poucos instantes antes de soarem os tiros.
Lutei para abrir os olhos quando ouvi o grito de Gilbert ao lado de mim. Pude escutar ele se mexendo depressa na maca, seus urros altos demais para serem equivalentes aos de um humano. Então, Gilbert estava sendo o primeiro a se transformar.
Meus músculos tremiam diante dos gritos grotescos dele e do barulho da batalha que estava sendo travada ali do lado de fora. Temi pelos meus amigos, com medo de algum deles vir a se perder ali; eu queria estar com eles, arriscando cada parte da minha vida para defender cada um deles. Forcei de repente meus braços e pernas, mas as amarras me prenderam. Abri os olhos com força, minha respiração ficando interrompida por um instante.
Abri a boca para dizer ao doutor que me tirasse dali, que eu precisava ajudar meus amigos, mas apenas um grito animalesco saiu de minha garganta. Lutei para soltar meus braços e pernas mais uma vez antes de me dar conta que a escuridão estava começando a tomar conta de mim. Um último grito humano desesperado saiu de minha garganta, sufocado pela sensação da aproximação do monstro. Me joguei com força contra a maca, uma rara e única lágrima escapando pelo canto de meu olho direito.
Eu não estava só perdendo a consciência, eu estava me transformando num zumbi também.
E, tão de repente que mal pude acreditar, tudo se silenciou. Agora, eu era parte das trevas.
Notas finais
Último capítulo a seguir!
Fale com o autor