Gold Eyes 2
10 Capítulo 9
Por trás da escuridão que cobria meus olhos, foi um brilho claro, imaculado, que pouco a pouco tentava me acordar. Eu só tive forças para voltar à consciência pois sentia que havia alguém ali comigo, alguma pessoa que esperava ansiosamente para que eu acordasse...
De início, eu podia ouvir os rumores, mas eles eram tão baixos que achei serem somente peças pregadas pela minha mente insana. Só que não demorou muito até os sons ficarem mais altos e distintos, chegando então aos meus ouvidos como se fossem música — uma música destinada exclusivamente para mim. Ainda preso nas trevas, no entanto, eu tentava mover meu corpo, tentava abrir meus olhos, mas por mais que eu me esforçasse, nada parecia surtir efeito. Foi só num determinado dia que a luz que iluminava onde quer que eu estivesse enfim conseguiu atrair minha atenção. Quando dei por mim, eu já estava abrindo os olhos. Pela primeira vez, depois de um tempo que pareceu ser longo e escuro demais, eu enxergava outra vez...
Inundado por uma brancura que quis me cegar, eu observava em volta, porém não distinguia nada. Foi apenas quando vi aquela única pessoa que eu jamais podia imaginar encontrar outra vez, que percebi que eu só podia estar no céu. Engraçado... no fim, o monstro que eu havia me tornado acabara justo neste lugar. Era quase uma piada macabra.
Consegui fixar meus olhos na figura da garota diante de mim. Seus cabelos estavam mais longos desde a última vez em que eu a vira, mas seu rosto continuava tão gentil e angelical quanto eu me lembrava. Sorri, abrindo a boca para sussurrar seu nome:
–Misuzu...
–Shhh — ela disse, aproximando-se ainda mais de mim e acariciando meu cabelo.
Por trás das lágrimas, eu via um sorriso radiante brilhando em seus olhos.
–Estou no céu? — perguntei baixinho, levando minha mão ao encontro da dela.
Ela riu, divertida.
–Claro que não. Olha em volta, Shiro. Você passou o último ano inteiro num hospital. Não sabem explicar exatamente o porquê de você e o outro Salvador, Gilbert, demorarem tanto tempo assim a voltarem ao que eram, mas, de mãos atadas, tudo o que podíamos fazer era esperar mesmo...
Encarei Misuzu, ainda confuso com a quantidade de tantas novas informações.
–Então como você pode estar aqui, bem na minha frente?
A garota sorriu, cheia de uma ternura que eu nunca vira em alguém antes.
–Vocês me salvaram. VOCÊ me salvou, Shiro. Obrigada, de verdade.
Então, aproximando-se de mim numa ansiedade inacreditável, Misuzu me abraçou, sua boca se encontrando veloz com a minha. Surpreso, não tive coragem de fechar os olhos, com medo de ficar preso nas trevas mais uma vez. Acariciei o alto da cabeça de Misuzu com minha mão livre, sentindo o cheiro de sua pele, de seu perfume, a me inundarem por inteiro.
–Eu ainda não estou acreditando em tudo isso — consegui pronunciar, o caos que vivi em todo o Fim ainda percorrendo minha mente como se fosse veneno.
–Se não acredita, basta olhar em volta, basta sair por esse corredor. Você não sabe o quanto as pessoas estão ansiosas para conhecer aqueles que as salvaram, que as trouxeram de volta à vida, Shiro. Você e Gilbert são como nossos deuses agora. Devemos esse mundo novo, essa nova chance de viver, a vocês.
Pensei nas minhas últimas lembranças no porão do convento. Elas ainda estavam tão nítidas na minha mente, tão vivas e doloridas, que era como se eu ainda estivesse preso a elas. Sacudi a cabeça, tentando eliminar esses pensamentos malditos, antes de encarar Misuzu mais uma vez.
Levei minha mão ao seu rosto, percorrendo devagar a curvatura de sua face macia. Sorri assim que Misuzu depositou sua mão junto à minha. Sim, quando aceitei ajudar Gilbert a salvar o mundo não imaginei que seu plano daria tão certo assim, na verdade, sequer fui capaz de acreditar que todo aquele desastre me levaria a ter um final como esse. Mas quando a Cura aconteceu e eu fiz mesmo parte daqueles que a criaram, nunca pensei que quando despertasse eu encontraria uma recompensa como essa, que a única pessoa que eu queria de volta nesse mundo realmente voltou para mim.
–Oh! — uma enfermeira exclamou de repente, parada em frente à porta e me encarando como quem encara a um deus. — Você acordou. Irei chamar o Doutor! — e saiu em disparada, quase aos tropeços, porta afora.
–Você vai ficar famoso agora e vai se esquecer de mim — Misuzu me lançou um olhar sério porém zombadeiro.
–Eu nunca te esqueci, nem por um instante sequer — falei, fazendo subitamente a garota corar por inteira.
Soltei uma risada, lentamente me sentando na cama. Sei que muitas coisas ainda me aguardavam pela frente, e muitos acontecimentos e histórias ainda precisavam ser contadas. Mas eu não me importava, porque eu estava inteiro de novo, caminhando cada mais certeiro em direção à luz.
Olhei para Misuzu, me inclinando para beijar de leve sua bochecha. Minha mão se encontrou à dela e eu não quis soltá-la nunca mais. Eu sabia que não tardaria até um tumultuo de pessoas tomar conta de meu pequeno quarto de hospital, mas desde que Misuzu estivesse ali comigo, eu não me importava com mais nada. Nos beijamos mais uma vez, o gosto de sua boca mais uma vez me fazendo ter certeza de que, sim, ela era mesmo real.
Fale com o autor