–Não estou interessado — disse a Gilbert, de uma maneira quase brusca.

Vi uma de suas sobrancelhas levantar, em interrogação e dúvida.

–Prefiro cuidar só da proteção do Convento, talvez Scorpio se interesse em ajudar a procurar suprimentos, só que eu não.

–Você não está gostando da nossa hospitalidade, Shiro? — de repente, Gilbert me lança essa pergunta, sua voz grossa, aveludada e cheia de pesar decepcionada comigo.

Pisquei, confuso. Abri a boca e senti minha garganta extremamente seca.

–N-não quis dizer isso — gaguejei — Devemos nossas vidas a vocês.

O homem a minha frente ficou em silêncio, mas percebeu a sinceridade em minhas palavras.

–Está certo — ele disse, virando-se subitamente e lançando um último olhar a mim — Cuide da parte leste hoje, tem muitos infectados vindo dessa direção.

Assenti com a cabeça, esperando Gilbert se afastar dali. Infectados... era assim que ele chamava aquelas criaturas. Ri, zombadeiro, antes de me dirigir rumo à direção apontada. Como se algum dia fossem conseguir encontrar uma cura...

Passando com pressa pela cantina, senti o cheiro do delicioso almoço sendo preparado na cozinha. Meu estômago protestou contra a falta de alimentos que eu o estava negando nos últimos tempos. No entanto, não era exatamente culpa minha. Por mais que eu estivesse me alimentando quando era preciso, de nada parecia adiantar. Era como se não fosse esse o tipo de comida que meu estômago quisesse...

–Shiro! — Nagisa apareceu ao meu lado, seus olhos estavam brilhantes e felizes. — Vai praticar tiro-ao-alvo com a gente hoje?! Minene é ótima, e eu estou ficando cada vez melhor também.

Tentei mostrar um sorriso de desculpa para ela.

–Hoje não... Preciso ir cuidar do setor leste.

–Ah... — o sorriso dela se apagou — A gente se vê depois então.

Concordei, em seguida caminhando em silêncio até a guarita dos altos muros do leste.

Subi as escadas, me escondi atrás da pequena proteção de concreto. O sol agora havia sumido, escondido por trás de enormes nuvens escuras. Uma chuva em breve viria, mas pelo menos agora, desde que minha pele insistia em querer descascar, eu não teria motivos para me preocupar com nenhuma insolação caindo sobre mim...

Preparei minhas armas e esperei, no entanto, havia algo de estranho ali. Gilbert disse que aquele era o lado com mais zumbis à nossa procura, só que por mais que eu estudasse e procurasse em volta, não encontrei morto-vivo algum. Onde é que eles tinham ido parar?! Esperei as primeiras gotas de chuva caírem antes de seguir para dentro do convento, onde meus amigos e um delicioso almoço me aguardava.

A chuva seguiu por toda a tarde e noite, diversas trovoadas assustando tanto as crianças como alguns dos mais receosos do Convento. Sabíamos que estávamos no alto do morro, porém nenhuma chuva afastava os zumbis por tanto tempo assim, o máximo que podia acontecer era eles terem seus sentidos confundidos, quando o cheiro da chuva misturado ao vento os impedia de perceber onde havia carne humana por perto.

Se por um lado não podíamos enxergar direito tudo o que acontecia ao nosso redor, por outro havia também a desvantagem para os próprios mortos-vivos. Então, diante daquela chuva, era como se estivéssemos empatados, esperando apenas o fim daquela tormenta antes de iniciar uma nova e sangrenta caçada.

Naquela noite, deitado sozinho em minha cama e ainda escutando o barulho da chuva dançando ali fora, quase não consegui dormir. Eu coçava um dos meus braços, que agora não parava de descascar, e mesmo na escuridão eu vi as camadas da minha pele se soltando de mim. Fiquei com medo, aquilo não era normal. Quando finalmente consegui mergulhar num mundo túrbido de sonhos, eu sentia que alguma coisa terrível me aguardava no dia seguinte. O que eu ainda não sabia era que essa coisa já estava dentro de mim.

Notas finais
Algo de errado não está acontecendo, já aconteceu...
O que ainda os espera?!