Gold Eyes 2
4 Capítulo 3
Os olhos da noite pareciam me encarar, escondidos em todos os cantos do teto translúcido. Eu suava e arfava; quase não conseguia respirar. Na minha impotência, enquanto meu corpo tentava lutar contra algo que eu ainda não sabia o que era, meus sonhos brincavam comigo. Imaginei um zumbi entrando ali, sorrateiro e silencioso, caminhando diretamente até mim. Eu tentava me mexer, mas nenhum músculo me obedecia — era como se aquele corpo não fosse mais meu. Eu via ele se aproximando, e teria sido devorado vivo se não tivesse conseguido me libertar da minha mente, daquele pesadelo que tomava conta de mim...
Eu não tinha certeza do que tinha, mas eu precisava de ajuda — e só tarde demais me dei conta disso.
Somente quando os primeiros raios de sol atravessaram minha janela e iluminaram o quarto, foi que consegui reunir todas as minhas forças e me levantar. Caminhei tonto até o banheiro e me encarei no espelho. Tenho certeza que grito que dei em seguida foi ouvido por todos dentro do Convento.
Pisquei, trêmulo e confuso e me encostei na parede. Meus joelhos pareciam gelatina, querendo me jogar ao chão. Esfreguei os olhos e voltei a encarar meu reflexo no espelho. Sim, mesmo que eu quisesse me enganar com um não, o que eu via era mesmo verdade. Do dia para a noite, meus olhos castanhos haviam mudado de cor. Agora, eles estavam dourados, exatamente como os de Gilbert, exatamente como os de um zumbi.
Me joguei ao chão, ambas as mãos enterradas, protegendo minha cabeça. Senti as primeiras lágrimas caindo quando abriram a porta do meu quarto de repente.
-Shiro?! — era meu amigo Kobashi que aparecera ali.
Fechei os olhos, ele não podia ver o que estava acontecendo comigo.
-Saia daqui! — gritei, assim que Kobashi apareceu na entrada do banheiro.
Notei o choque e o medo o cobrirem por um instante. Me observando caído no chão, ele se esforçou para dar um passo a frente, só que um vulto escuro aparecera atrás dele subitamente. Abri os olhos a tempo de ver um pano molhado a tampar-lhe a boca antes de meu amigo cair inconsciente no chão. Havia mais de uma pessoa com o vulto, sendo este segundo quem tirou o Kobashi das minhas vistas e o levou para longe de mim.
-O que vão fazer com ele?! — gritei, lutando para ficar de pé.
O vulto saiu das sombras, me encarando fria e diretamente dentro dos olhos.
-Gilbert... — murmurei, incapaz de me mover mais.
O dourado dos olhos dele pareciam chamar por mim, e eu não consegui recusar seu pedido assim que ele proferiu essas poucas palavras:
-Venha comigo, e depressa, Shiro. Não pode deixar que ninguém te veja assim.
E eu obedeci, ambos acelerando o passo e correndo para longe das vozes que agora enchiam o corredor atrás de nós. Seguindo Gilbert às cegas, chegamos numa parte do Convento em que eu não tinha conhecimento ainda: o escondido e desconhecido porão.
Sei que devia ter perguntado algo, qualquer coisa, antes de permitir que eles mo jogassem numa sala escura a vazia. Eu não tinha certeza em como eles iam me ajudar (ou como fariam isso), só que eu não me dei conta do que estava acontecendo até eles me arrastarem para uma salinha repleta de grades e barras de proteção ao redor de mim.
-Você vai ficar bem — disse Gilbert, tentando me acalmar — Você é exatamente como eu.
Mas eu não tive forças para responder. Quando dei por mim, estava trancado, sozinho, dentro de uma jaula para aqueles seres que não eram considerados mais humanos. Olhei para mim, para minha pele e corpo que se tornavam cada vez mais desfigurados.
Eu era mesmo um monstro.
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