JAKE

“ – Jakob.” – A voz doce, feminina e sedutora sussurrava em seu ouvido, mas Jake não queria acordar. “ – Jakob.” – chamou outra vez. Deu-lhe um beijo nos lábios. Ele estava sempre com os lábios secos, era maravilhoso sentir a umidade da boca dela, macia e morna.

“ – Hn?!” – Ronronou, ainda de olhos fechados, puxando-a pela braço, fazendo-a cair em cima de si e abraçando-a.

“ – É hora de acordar.”

“ – Não. Vamos ficar aqui.” – Afundou o rosto contra os seios dela, sentindo o calor e o perfume. “ – Está melhor aqui... não está?”

Ada o beijou na testa. “ – Abra os olhos, Jakob.” – Beijou-o em cada uma das pálpebras. “ – Dorminhoco.” – Ela riu enquanto cobria o rosto dele de beijos, nas bochechas, na ponta do nariz, no queixo. “ – Olha pra mim.”

“ – Humm...”

Beijou-o no boca outra vez. “ – Jakob.” – E de novo “ – Abra.” – E de novo. “ – Os olhos!”

Foi então que um frio horrível lhe correu a espinha, e todo o calor que sentia, foi embora. As mãos delicadas tocaram-lhe o rosto, antes eram macias e quentes... agora estavam geladas e úmidas, um cheiro de podridão e terra tomou conta do ar...

“ – Acorda, Jake!”

Abriu os olhos ao mesmo tempo que sentia uma dor violenta no peito ao respirar, olhou assustado em volta, sem reconhecer onde estava. A luz forte incomodava os olhos. As paredes eram brancas e impecavelmente limpas, o cheiro familiar de hospital se misturava ao cheiro de terra podre que ele sentia, um cheiro que vinha... de dentro. Olhou assustado para o próprio corpo deitado e coberto por lençóis brancos, duas mulheres de jaleco se aproximaram.

“ – Senhor Muller.” – elas falavam russo.

Jake as ignorou, olhou para o braço esquerdo onde estava o acesso venoso e o soro contínuo, sem pensar muito, arrancou-o do braço com o esparadrapo e tudo. As mulheres diziam qualquer coisa que ele não deu ouvidos. Levantou da cama, mesmo tonto.

“ – Ada!” – Chamou. Percebeu que o peito doía também quando falava.

“ – Senhor Muller, tente se acalmar.”

“ – O que aconteceu? Aonde ela está?”

“ – O senhor engoliu muita água, água suja de terra, se afogou... está muito machucado. Precisa descansar. Depois, quando estiver bom, nós lhe damos noticias sobre qualquer pessoa está bem?”

A mulher tentou coloca-lo de volta na cama, e pela porta entrou um enfermeiro de tamanho considerável com uma seringa em mãos, Jake sabia qual era a intenção deles, e não iria permitir. Com um único movimento de braço, as duas mulheres foram jogadas contra a parede mais próxima, o enfermeiro que vinha em sua direção chegou a se aproximar, mas Jake o socou e o derrubou no chão. Quando se preparava para sair, uma figura conhecida ocupava quase toda a porta, um homem forte que ele conhecia bem.

“ – Chris?!”

O Capitão estava bem sério quando entrou no quarto. “ – Nos deixem a sós, eu coverso com ele.” – Disse em inglês.

“ – Mas a paciente...” – respondeu no mesmo idioma.

“ – O garoto não vai sossegar até uma santa alma conversar com ele! Depois nós voltamos para os cuidados médicos, ok?” – Ele disse com a voz firme.

As duas mulheres e o enfermeiro então deixaram o quarto.

“ – O que você está fazendo aqui?” – Perguntou Jake. Eis ali outra pessoa que ele definitivamente não gostava!

“ – Tropas foram enviadas para a região desde que o tráfico e desenvolvimento de B.O.W’s foi confirmado. Estávamos a caminho da montanha, por coincidência, a minha tropa foi a mais próxima do acidente.”

Acidente...

“ – Cadê ela? O Kennedy... ele conseguiu resgatá-la?”

“ – Leon está sob cuidados médicos nesse mesmo andar, foi encontrado desacordado e afogado, assim como você.”

As pernas de Jake ficaram bambas e o desespero começou a tomar conta. “ – Não...”

“ – Ainda não temos nem sinal de Ada Wong.”

Alexei. Ele conseguiu. Ele conseguiu chegar até ela!

“ – Eu não fico aqui mais nenhum minuto.” – caminhou pelo quarto abrindo os armários, procurando suas roupas.

“ – Seja racional rapaz. O que você pode fazer nesse estado?”

“ – Ficar aqui parado olhando pra sua cara é que não dá!” – Berrou.

Chris bufou. “ – Certo. Eu vou mandar buscar suas coisas e vou te levar até a base da tropa de resgate. Mas tanta ficar frio, ok? Perder a calma não vai ajudar em nada.”

“ – Olha quem fala.” – Jake resmungou.

O capitão sorriu de leve e ofereceu o caminho para que Jake saísse primeiro.

Conforme o prometido, lhe devolveram suas roupas e todos os objetos pessoais encontrados. Estava tudo ainda úmido e sujo de terra, mas isso era o de menos. O radio estava quebrado e o celular também. Não sabia até eu ponto isso era uma boa notícia, afinal eles poderiam ter vasculhado informações e chegado até a Organização enquanto ele esteve desacordado, mas por outro lado, precisaria encontrar outra forma de buscar contato e verificar se eles tinham alguma noticia de Ada e Alexei.

Só precisava encontrar um aparelho de telefone para dar um sinal, eles que mandassem um outro agente ou algum contato até ele. Porque sair daquela base, nesse momento, também estava fora de cogitação. Precisava encontrá-la.

“ – Há quanto tempo eu estou aqui?”

“ – Sete dias.”

“ – O quê? Sete dias?” – Isso era péssimo! Péssimo! Depois de tanto tempo, já era para a própria Organização ter enviado uma notícia... Se houvesse alguma noticia a dar ...

Jake sentou por um instante, a cabeça rodava e o peito ainda doía. Mas nada disso incomodava mais do que o medo. Jake nunca sentiu tanto medo quanto agora, nem há muitos anos, quando era um adolescente, quase um menino, na Edônia.

Faz muito... muito tempo que tal lembrança lhe invadia a mente provocando tanta dor, mas hoje, ela voltou. Sua mãe estava doente, tuberculose... uma doença perfeitamente tratável, se você tomar os remédios certos e ter uma boa alimentação, mas mortal se o seu país vive em guerra te falta comida, te falta uma casa descente para te proteger do terrível inverno edonês pois volta e meia o país inimigo lhe corta o gás, e nem o dinheiro para o médico ou os remédios você tem. Ela lutou bravamente, mas criando sozinha o filho único como duas pessoas honestas, sendo uma tuberculosa sem conseguir trabalho e o dinheiro era todo proveniente do trabalho do menino, a comida nunca era boa, a casa caía aos pedaços e ela acabou interrompendo o tratamento varias vezes – um erro que hoje ele sabe que foi fatal – foi quando Jake aceitou o seu primeiro trabalho não convencional, deu o seu primeiro passo para se tornar um mercenário... era um dinheiro tão bom, ela nunca soube de onde veio. Sua mãe não era burra, longe disso, ela desconfiou que ele estava fazendo algo errado, mas estava tão fraca que não teve condições de recusar. Jake alugou um lugar melhor, limpo, seguro e aquecido, ela passou a comer melhor, voltaram a pagar as consultas medicas e comprar os remédios. Ele tinha certeza que mesmo tão debilitada, ela daria a volta por cima, ela era uma mulher forte, não era tarde demais... Então ele saiu em uma missão de seis dias, e quando voltou, encontrou a casa gelada, a calefação estava desligada e até a lareira estava apagada. Um cheiro ruim estava no ar, mas Jake a principio não desconfiou do que se tratava. Chamou a mãe algumas vezes sem escutar resposta e quando entrou no quarto dela a encontrou morta na cama. Segundo o laudo que veio depois, morta há quatro dias, provavelmente de algum vírus ou outra bactéria oportunista, uma febre que subiu de repente durante a noite ou algo assim. Jake deitou ao lado do cadáver dela, que estava magra há tantos meses, abraçou-a tão forte como podia e ali mesmo chorou por muitas horas, ele nem sabe quantas, ate finalmente ter coragem de chamar alguém.

Depois disso, ele estava absolutamente sozinho no mundo e quando finalmente teve alguém de novo, seu pior medo era o de ficar sozinho outra vez. Não estava preparado para se envolver com Sherry, por mais que ela só tenha lhe feito bem, mas se tivesse ficado sozinho, não teria sofrido tanto. E agora Ada e o bebê... era muito mais do que ele merecia, quem ele pensou ser para acreditar que dessa vez, seria feliz?

Ninguém o procurou... se Ada estivesse mesmo viva, ela teria avisado.

Os olhos de Jake já estavam rasos d’água e só não caiu aos prantos porque ainda não estava pronto para admitir a morte dela, por mais que fosse óbvia. Esperança... a maldita esperança ainda persistia.

A porta se abriu novamente e através dela, outro moribundo entrou, era Leon. Jake apertou os olhos. Confiou nele! Ele era o herói, não era? Salvar pessoas e terminar a tarefa por mais que seja difícil não era justamente o que ele fazia? Então por que Leon não voltou com Ada e o bebê sãos e salvos? Como ele ainda tem a coragem de aparecer ali de mãos vazias?

“ – Eu não devia ter confiado em você. Heroi.”

“ – Ada?” – Leon perguntou.

“ – Eu abri a porta pra você passar, eu segurei até o último segundo. Tudo o que você tinha que fazer era salvá-la!”

“ – Eu vim atrás de você porquê achei que você já tivesse noticias dela!” – O loiro ainda tinha a voz calma, mas estava visivelmente confuso.

“ – Por quê eu teria noticias dela, se VOCÊ foi quem cruzou aquela porta para salvá-la?!”

Leon sacudiu a cabeça, o olhar dele ficou vazio. “ – Algo ou alguém me acertou... eu não me lembro, quando eu acordei já estava aqui, com os pulmões cheios d’água.”

Jake ficou de pé e rosnou. Chris estava em alerta, como se pudesse prever que uma briga ia começar ali. “ – Você falhou! Você falhou heroizinho de merda! Nós já estamos aqui há sete dias, você acha que se ela estivesse viva não teria me procurado?” – gritou chamando a atenção de todos que passavam no corredor. Só depois percebeu que sua voz falhava, não apenas pela falta de ar mas também pelo choro.

“ – Exatamente! Ela não te procurou porquê você estava inconsciente! Você não a conhece, moleque! Eu sim, eu a conheço muito bem! Eu passei quase metade da minha vida vendo essa mulher escapar depois de ser dada como morta. Eu tenho certeza absoluta que ela está viva!” – Leon andou de um lado para o outro do quarto, ele carregava o próprio soro. Respirava com dificuldade e tinha um corte enorme na testa. “ – Você ainda tem muito o que aprender! Muito!”

Tudo o que mais queria no mundo era que Leon estivesse certo. Talvez exista sim um bom motivo para ela ainda não ter feito contato. O almofadinha tinha razão, ela não podia falar com alguém que estava dormindo, certo? Um chamado seco de Leon o acordou novamente. O louro lhe oferecia um aparelho celular.

“ – Tenta contato. A linha é segura, pode quebrar o aparelho depois se preferir.”

Era obvio que Leon poderia estar mentindo, aquela ligação poderia ser rastreada. Ada o faria em pedaços. Mas dadas as circunstâncias, Jake preferiu arriscar. Existia sim, um numero para contato em caso de emergência. Discou os números e esperou ser atendido. A voz masculina foi imediatamente reconhecida.

“ – Czar sobrevivente, o Kremlin ainda está de pé?”

“ – Czar, todos os Romanov estão felizes em saber que está vivo. E Anastácia?”

O coração de Jake falhou uma batida. “ – Pensei que ela estava em casa.”

“ – Negativo. Ainda não temos sinal da princesa.”

Jake encerrou a ligação com as mãos trêmulas. Não se preocupou nem ao menos com o destino do aparelho, apenas deixou que ele fosse ao chão. “ – Ela não voltou.”

Leon ainda estava calmo. O bastardo estava muito calmo para quem não sabia onde Ada estava!

“ – Talvez...” – O loiro começou – “ – Talvez ela tenha os motivos dela para não voltar. Ada é geniosa e nunca conta os planos dela para ninguém. Não procure entender o que ela faz, ela sempre decide sozinha e não partilha com ninguém.”

“ – Pare de falar dela como se a conhecesse!” – Jake berrou. “ – Você pensa que a conhece, mas não é verdade! Eu fiquei sete meses ao lado dela, todos os dias, vinte e quatro horas por dia. Eu dormi e acordei ao lado dela, até os sonhos dela eu escutava! Nós fazíamos absolutamente tudo juntos. Ela confiava segredos a mim! Problema seu se com você foi diferente, mas eu tenho certeza que nunca sumiria sem me dizer para onde!”

Ela me disse os planos dela. Voltar para a Mongólia, para o nosso canto, nosso lago, nosso bosque. Para esperar o bebê nascer.

“ ... já posso imaginar, Albert tirando suas noites de sono, te mordendo, cagando e vomitando em você. Depois o Albert adolescente, te desafiando, gritando com você e dizendo coisas como ‘você nem é meu pai’ ‘não fode’ ‘eu te odeio’ e etc. Eu simplesmente não posso perder essa oportunidade.”

Leon apertou os punhos e engoliu em seco. Então uma outra figura conhecida chegou, a moça de cabelos e olhos castanhos que estava com ele em Lanshiang, a moça que até onde Alexei o informou, é a agente federal Helena Harper, amante do Kennedy.

“ – Helena!” – Leon pareceu aliviado em vê-la.

Patife!

“ – Leon...” – a mulher tinha a voz embargada, olhos trêmulos e parecia não apenas escolher bem as palavras mas também criar coragem para dizer alguma coisa. Ela estava miseravelmente covarde, desviando completamente o olhar do louro mas foi quando a moça encarou a Jake, completamente apavorada é que o mercenário entendeu, suas pernas ficaram tão bambas que precisou sentar outra vez. “ – encontraram dois corpos...” Não. “ – Um homem e uma mulher grávida, já em algum estado de decomposição.” Não! Por Favor, não!

“ – Eu quero vê-la, cadê ela?” – A voz de Jake saiu com muita dificuldade.

“ – Me leve até os corpos, imediatamente!” – Disse Leon, quase inabalado. A falta de emoção naquele imbecil fazia Jake querer matá-lo... mas fez uma promessa...

Helena tinha a voz tremula.

Vadia imunda, não finja que se importa!

“ – Leon, não há mais nada para ver. Estão deformados. Restou o reconhecimento por impressão digital, arcada dentaria ou DNA, mas nós não temos tais dados disponíveis sobre ela. Depois que ela revelou o plano mórbido do Simmons e a experiência com Carla Radames, haviam sim, naqueles documentos todos os dados necessários mas eles estão classificados como ultrassecretos e precisamos de uma autorização especial para termos acesso, vamos demorar meses até nos entregarem isso, e consequentemente demorar até confirmar a identidade da mulher a não ser que...” – Ela olhou em direção a Jake novamente.

“ – O que?” – O ruivo perguntou

“ – Identifiquemos a identidade do bebê através do seu DNA. ”

LEON

Aquela situação era tensa. Leon estava muito mais nervoso do que aparentava estar, o que era uma grande idiotice. Jake Muller pode lhe esfregar muitas coisas na cara, mas se tem uma coisa no mundo que Leon conhecia muito bem era a sagacidade de Ada Wong. Uma mulher como aquela nunca morreria num acidente tão corriqueiro. Ela já sobreviveu a situações piores, muito piores e Leon testemunhou quase todas elas. Já chegou ao cúmulo do absurdo de tê-la morta nos braços e ainda assim, ela estava viva! Mais viva que nunca, sempre aparecendo para lhe virar o mundo de cabeça para baixo.

Isso foi quando ela não carregava uma gestação de sete meses. – Pensou. E tal pensamento lhe provocou calafrios. Por isso não pensaria nisso mais! Enquanto não chegasse o dia em que tivesse a prova cabal da morte dela em mãos, ela estaria viva! Ela não morreu! Ada Wong não morreu, e ponto final! Patético era ver a reação daquele moleque, sentado todo encolhido naquela cadeira, com todo aquele tamanho, chorando feito um menino. Um estúpido, um menino burro e desesperado... se ele conhecesse mesmo a Ada, não se desesperaria com tão pouco. Jake estava quase roxo de tão vermelho, esfregando os cabelos violentamente.

“ – Hey garoto, se acalme.” – Chris chegou perto tocando-o no ombro e em troca ganhando um violento tapa.

“ – Cala a boca!”

Digno de pena.

“ – Me diga uma coisa Kennedy, alguma vez você realmente se importou com ela? Só um pouquinho? Como pode estar assim tão calmo?”

“ – Eu já disse, se você realmente a conhecesse, esperaria por mais provas. Pelo visto, eu acredito muito mais na Ada no que você.”

“ – É mentira!” – Jake conseguiu gritar outra vez, mesmo com tanta dificuldade para respirar, por causa do choro e por causa do afogamento. “ – Você não a conhece! Nunca a conheceu! Muito menos acredita nela! Nunca a amou também!”

Definitivamente, não iria discutir sua relação com Ada com aquele descontrolado.

“ – Se você amasse e acreditasse nela, se a conhecesse tão bem quanto diz, nunca teria duvidado dela, nunca a teria abandonado, nunca teria acreditado que ela te traiu e nunca... NUNCA teria duvidado que o filho era seu!”

Por um segundo, Leon precisou ter certeza que não escutou errado, seus joelhos dobraram de fraqueza. E Jake continuou.

“ – Estava nos olhos dela. Ela só olhar pra ela para ver o quanto ela te amava! A Ada nunca teve olhos pra mim ate você estragar tudo! Eu estava ao lado dela pra ver, quanto ela se arriscou e o quanto era feliz de ter o bebê só porque ele era um pedaço seu. Eu estava ao lado dela e eu vi! Como você pôde? Como você pôde estar perto dela outra vez, conversar com ela, olhar nos olhos dela e não perceber algo tão óbvio?”

Leon não sentiu um incômodo, mas sim uma dor, uma dor forte como se tivesse recebido um soco no estômago. Lembrou de seu ultimo encontro com Ada, das coisas horríveis que disse a ela, inclusive sobre o bebê, do beijo forçado, dela lhe mandar calar a boca, do tapa... lembrou do encontro que ela pediu e ele a rechaçou beijando Helena. Então percebeu que Jake estava errado... no fundo Leon sempre quis acreditar nela, não o fez porque estava cego de ciúme, porque estava inseguro e estressado porque finalmente tinha tomado a decisão de largar tudo para ficar com ela... e quando graças a Helena teve a ideia de procura-la para conversar, Jake estragou tudo.

Sempre foi um homem controlado, mas ao mesmo tempo, nunca sentiu uma raiva tão grande. Jake estava sentado quando Leon o atacou, chegando até a esquecer que tinha um soro fincado na veia. Só sabe que caíram juntos no chão. Doeu o punho quando esmurrou a cara do ruivo a primeira vez, a dor não o impediu de dar o segundo, nem o terceiro, nem o quarto... e para cada murro, Leon soltava um soluço. Um choro por ter sido tão imbecil, por ter deixado que algo tão precioso lhe fosse roubado dessa maneira. Chris tentou puxa-lo e Leon deu-lhe uma cotovelada na boca, depois voltando a esmurrar Jake, o Capitão tentou novamente e Leon esmurrou Redfield no nariz. Jake não reagia, permanecia imóvel no chão, até um momento em que ele simplesmente segurou os punhos de Leon, com tanta força que o louro achou que fosse quebrar, e então disse:

“ – Eu não vou te bater, por mais que você mereça. E você sabe porquê? Porque ela me fez prometer que te deixaria em paz. E não só por isso, mas também porque o simples fato de você continuar vivo, já é castigo o suficiente. Eu abri a porta pra você passar e salvá-la e você falhou, você também duvidou dela, a abandonou e não deu a ela nem mesmo a chance de se explicar. Agora está aí com raiva, mas que tipo de homem julga tão errado uma mulher que diz conhecer, que tipo de homem prefere acreditar num estranho como eu do que buscar ao menos ouvir a verdade da própria mulher que você dizia amar. Eu não vou reagir, porque eu sei que até para um almofadinha energúmeno feito você, não tem castigo pior que saber que aquela mulher e o seu filho morreram por culpa sua!”

A boca de Jake Muller estava cortada e quando ele cuspiu no rosto de Leon, cuspiu sangue. Dessa vez Chris conseguiu puxa-lo, e Leon estava tão destruído, que se Chris não o tivesse segurando, teria caído no chão.

“ – Calma parceiro, calma.” – Chris o abraçava, segurando-o nos braços. Helena correu até Jake ajudando-o a ficar de pé.

Leon ao poucos voltou a sentir as pernas de novo, esfregou o rosto com as mãos para limpar, então empurrou Chris mais uma vez. Queria gritar mas não podia, queria morrer mas nem sabia como. Então a dor ficou pior e com ela veio o primeiro jato de vômito.

HELENA

Passou numa delicatessem depois do trabalho para comprar alguns bombons finos de presente. Hoje era aniversário de Leon, e por mais que a situação fosse horrível, não poderia deixar de vê-lo hoje. Dois meses após o incidente no Cazaquistão, Leon se encontrava em licença médica... por tempo indeterminado. Manoela estava completamente perdida, sem saber o que fazer com o marido, os amigos se revezavam, sempre arrumando desculpas esfarrapadas para visitar o casal ou telefonar. A questão era... medo de deixá-lo sozinho. Leon era um homem não apenas respeitado por muitos, mas também muito querido e amado.

Tocou a campainha do apartamento e rapidamente Manuela a atendeu. Ela tinha olheiras de preocupação e pareceu muito aliviada em vê-la. Para a coitada dessa moça, sobrou a responsabilidade de cuidar o dia inteiro daquele que era algo de preocupação de tantos. Ela, Ingrid, Claire, Sherry...

“ – Helena, que bom que veio.” – Disse cansada, fechando a porta depois que Helena entrou.

“ – Oi.” – Correu os olhos pela sala de estar verificando se estavam mesmo sozinhas. “ – Como ele está?”

Manuela cruzou os braços como se um frio repentino tivesse invadido a sala. Assustada. “ – Eu não sei mais o que fazer. Eu faço a comida mas na maioria das vezes ele joga fora e finge que comeu, eu tento fazer de conta que não sei, mas... com muito custo consigo fazer ele tomar uma sopa ou comer uma fruta. Ele bebe o dia inteiro, bebe até cair ou vomitar. Se a bebida acaba, ele não dorme fica vagando pela casa feito um fantasma até o dia chegar. Quando dorme bêbado sempre tem pesadelos.” – Uma lágrima escorreu pelo rosto delicado e abatido. “ – O Doutor receitou anti-depressivos... mas ele se recusa a tomar. Eu não sei se fico preocupada ou aliviada, porquê eu sei que ele não vai parar de beber e se misturar, pode ser perigoso.”

Era recente, foram apenas dois meses. Nem Helena acreditou que pudesse ser verdade, Leon ficou destruído quando o teste de DNA do feto morto deu compatível com o dele. Helena lembrava muito bem do resultado: 99,999...% de compatibilidade, confirmando então que ele era o pai, e aquela mulher só poderia ser a Ada. Não foi só Leon que ficou abalado, ela também ficou. Porque desde o inicio achou toda aquela estória tão estranha... talvez Jake tivesse razão, bastava olhar nos olhos dela... E mesmo com um pressentimento tão forte, mesmo se metendo na vida amorosa do amigo além da conta, Helena não conseguiu evitar que uma tragédia assim acontecesse.

“ – Aonde ele está?” – Perguntou.

“ – Na varanda.”

Helena não tinha certeza se a varanda de um nono andar era o melhor lugar para Leon estar, muito embora tivesse uma forte convicção que suicídio não era algo que apetecia o seu amigo, por pior que ele estivesse. Mas ao mesmo tempo sabia que a doença que acomete Leon podia ser mais forte do que qualquer razão.

Chegando na varanda viu o amigo, talvez dez quilos mais magro, barbudo enrolado num cobertor, escorado no peitoril e observando os carros passarem.

“ – Leon?” – Precisou chamar três vezes para que ele escutasse.

“ – Oi. Helena.”

Não seria hipócrita em desejá-lo um feliz aniversário, apenas parou ao lado dele a abriu a caixa de bombons, pegando um e oferecendo-o o resto.

“ – Ah... obrigado, Helena. Mas, eu não estou muito pra chocolate hoje.” – Ele respondeu com sua voz calma, sempre melodiosa. Mas tinha um olhar vazio. Os olhos azuis de Leon, agora eram cinza, sem nenhuma vida. Ele permaneceu ali, calado, observando a rua.

Helena deixou os bombons em cima da amurada e o abraçou, Leon cheirava a suor e uísque. Depois beijou o rosto peludo dele, a barba loura e mal cuidada. “ – Você sabe que eu te amo, não sabe?”

Leon deu um sorriso, mas não era o sorriso engraçado, bonito ou até mesmo safado que ele costumava dar. Era um sorriso tão sem emoção e frio que a assustava. “ – Eu também te amo, gatinha.”

“ – Eu estou falando sério.” – Ela o tocou no queixo e o forçou a olhar para ela. “ – Eu não tenho família, eu nem tenho outro amigo. Eu só tenho você. Eu preciso de você. Você me abandonaria?”

Ele ficou tenso, aliás, em dois meses apareceram nele tantas rugas de expressão que parecia ter passado anos. “ – Do que você está falando?”

“ – Você sabe muito bem do que eu estou falando. Se você continuar assim... pode acabar ficando muito doente. Você precisa reagir, Leon. Se não for por mim, pense em Manuela, ela também depende de você, e te ama muito. Você sabe muito bem o que acontece com ela se você falhar... não sabe?”

Era um golpe baixo. Ele carrega a culpa pela morte de Ada e do filho, e agora Helena usa isso para chantagea-lo. Mas era a única maneira que ele encontrou de fazê-lo não desistir. Ele pode sentir que falhou antes, mas se esforçará para não falhar outra vez, pelo menos até que Manuela esteja fora de perigo de ser deportada.

“ – Do que você tem medo, Helena? Que eu me mate?” – Ele perguntou ofendido.

“ – Não Leon, até porque isso seria uma traição com todos aqueles que algum dia te salvaram a vida!” – E ele sabia muito bem de quem ela estava falando. “ – Eu tenho medo que você desista de viver. Eu sei que é tudo muito recente, mas existem pessoas que precisam de você, esperando você voltar.” Ela sentiu que ele soluçou baixinho.

“ – Helena, você... você sempre teve razão, eu... eu devia te escutar mais, eu sei.”

Abraçou-o mais forte. “ – Pode descansar, pode tirar as suas férias do mundo, tome o tempo que precisar, mas por favor, promete que volta pra mim.”

Sentiu o coração apertar ao perceber que ele não estava tão concentrado assim na conversa quanto fingia estar. O mesmo olhar perdido, olhando para o nada. Ele a abraçou, com as mãos frias, sem nem ao menos ousar olhar para ela.

“ – Prometo.”

Leon era um homem forte, não era inquebrável, mas era bem forte. Ela tinha certeza que ele ficaria bem.

Próximo capítulo: EPÍLOGO.