Going After Her
9 Capítulo 9
ADA
O cheiro do café fresco vindo da cozinha a acordou mais cedo que o de costume. A gravidez a transformou em uma dorminhoca, é verdade. Sempre viveu sozinha e preferia assim, mas agora, agradecia por ter Jake morando com ela, se não fosse pelos dotes culinários do rapaz ou pela barulheira que ele faz com os afazeres na casa, ela e o bebê provavelmente estariam subnutridos, pois não fariam outra coisa da vida além de dormir.
“ – Bom dia dorminhoco.” – Cochichou enquanto acariciava a própria barriga estufada de quase cinco meses. Quando olhava para ela, sentia uma pontinha de frustração, achava que sua barriga estava muito menor do que deveria estar. As vezes, olhava as mulheres grávidas em revistas ou na TV, todas elas exibindo um lindo barrigão, enquanto ela continuava com aquela coisinha mínima que ainda nem ficou redonda. Talvez fosse culpa da musculatura forte e trabalhada, muito difícil de ceder. “ – Espero que não esteja espremido aí dentro.”
Quando acordava, evitava ficar divagando, optando sempre por levantar o mais rápido possível. Era nesse horário e a noite antes de dormir, que ela sempre se flagrava pensando em Leon. Era quando ela trocava de roupa e ficava sozinha com o bebê, assistindo o próprio corpo mudar, e lembrando que ele não estava lá. Era quando via a barriga querendo crescer, os seios maiores e por fim a cicatriz enorme que ela tinha ali também... e que junto com o vazio que machucava o peito, a fazia perceber o quanto Leon a marcou, de todas as formas que um homem pode marcar uma mulher.
E para evitar que todos os pensamentos e questionamentos a respeito de Leon invadissem completamente a sua cabeça, e a machucassem ou a desviassem do seu foco principal que era dar a luz ao seu bebê em paz, sempre levantava rápido e buscava por Jake. Estar com o filho do Wesker era algo curiosamente bom, o rapaz tinha o dom de fazê-la esquecer da maior parte dos seus problemas.
Jake estava na cozinha quando ela chegou. Na mesa tinha torradas, geleia, manteiga, ovos, leite e claro... o café. Ada se serviu de tudo o que podia, afinal, agora comia por dois. “ – Bom dia, Jake.”
“ – Bom dia.” – Ele a observou com o canto dos olhos enquanto praticamente se escondia atrás de sua caneca. “ – Grávidas podem beber café?” – Perguntou ele.
“ – Hn... bem, não acredito que faça tão mal quanto dizem. E, provavelmente esse menino vai ter uma vida cheia de adrenalina... um pouco de cafeína desde que ele é feto, só pra ir se acostumando, talvez seja até um bem que eu faço a ele.”
“ – É... talvez.”
Por um segundo, Ada desconfiou que Jake a estava evitando. Não era de hoje... ela já tinha essa impressão há alguns dias. Sempre que ela acabava de chegar, ele a olhava nos olhos e parecia genuinamente feliz em vê-la, porém, não menos que alguns minutos mais tarde, ele começava a desviar o olhar e evitar ficar tão perto. Nesse exato momento, ele estava sentado do outro lado da mesa, quando antes, sempre comiam um ao lado do outro. Há uns dois dias, depois de correrem mais de dois quilômetros, ela parou em frente ao lago para nadar, como quase sempre fazia, e o chamou para entrar também... era um dia incomum, não tão fresco e sim, ensolarado, e ambos estavam encalorados. Ada pode perceber que ele estava vermelho e que o calor era algo que o deixava bastante incomodado, mas ele recusou, e com uma velocidade tão gritante, que ela se sentiu como uma testemunha de Jeová perguntando se podia entrar alguns minutinhos...
“ – Jake?”
“ – Sim?”
“ – Eu fiz algo errado, ou disse alguma coisa que você não gostou?” – Ela perguntou. Direta. Buscando os olhos dele insistentemente com os seus e não desviando deles quando os encontrou. Eram os mesmos olhos azuis pequenos e apertados do Wesker. Não haviam dúvidas de que Jake tinha muito da mãe, provavelmente o cabelo naquele tom de ruivo “vermelho fogo” e as sardas vinham dela, mas com certeza tinha muito mais do pai. Ele era todo o Wesker. Os mesmos olhos, o mesmo nariz grande, longo, fino e reto. O mesmo queixo quadrado. O mesmo rosto alongado. Os mesmos lábios finos, secos e sem nenhuma cor. Foram algumas vezes, em que Jake se aproximou de repente, e por um segundo, Ada até se assustou achando que era o próprio Albert Wesker surgindo à sua frente. “ – Tenho a impressão que você tem me evitado de uns quatro dias pra cá...”
Ele sorriu, e não parecia nervoso. “ – Ah, eu li sobre isso. Paranoia de grávida.”
Ada sabia que não adianta insistir. Ele era tão bom mentiroso quanto ela. Se quisesse saber a verdade teria que pegá-lo desprevenido. “ – Desde quanto você lê sobre grávidas?”
“ – Desde que virei guarda costas de uma.”
“ – Guarda-Costas, cozinheiro, faxineiro, caseiro, pedreiro, eletricista, encanador, carpinteiro, enfermeiro...”
“ – Justo. Pelo salário que eu ganho. É um empregão. Quando o bebê nascer, me avisa se precisar de uma babá.”
“ – Certo. Considerando as opções e as circunstâncias, digamos que você é o primeiro da lista.”
Era engraçado fazer planos com Jake. Ambos achavam graça e debochavam, pois ambos sabiam que o futuro era muito incerto, o dia de amanha poderia simplesmente nem acontecer.
“ – Eu quero te perguntar uma coisa. Mas não sei se devo. Quero te perguntar isso há muito tempo.”
“ – Desembucha Jake Muller.”
“ – Por quê você está fazendo isso sozinha? Por quê o pai não está aqui? Você contou pra ele? Ele é seu namorado, amante... quem ele é?”
Ada sabia que Jake não era simplesmente um contratado. Seria burrice da parte dela se achasse que o convívio deles era única e exclusivamente profissional. E atrevido como ele era, foi até surpreendente ele ter esperado tanto para perguntar.
“ – É... complicado.” – Foi tudo o que respondeu.
“ – Tudo bem, você mesma disse um dia desses, que eu era um gênio. Pode me explicar, eu vou entender.”
“ – É uma longa estória...”
“ – Vai a algum lugar? Tempo é o que não falta.”
Merda. Evasivas sempre funcionaram tão bem com Leon. Por quê não funcionam com Jake?
Respirou fundo. Não estava acostumada com nada disso. Conviver com outra pessoa vinte e quatro horas por dia, dividir sua intimidade com ela, fazer confidências... aquilo era uma loucura, Ada já não se reconhecia mais. Mais uma vez, tudo culpa do Leon. Se não fosse por ele, não estaria grávida e se não fosse por ele, não estaria nessa situação agora!
“ – Ele não era meu namorado. Nem meu amante... eu não sei dizer o que nós éramos. Era menos do que isso. Mas por outro lado, era mais do que qualquer denominação que exista para qualquer tipo de relacionamento. Nós nos conhecemos muito jovens, e sempre estivemos em lados opostos na maioria das vezes. Passávamos meses e até anos sem nos vermos, ou termos qualquer contato. Mas como ele mesmo sempre insistiu em dizer... era como se fossemos parte um do outro, por mais que tentássemos, não podíamos simplesmente... esquecer. Ele é um homem bom, justo e muito integro... eu tenho certeza que nada nesse mundo o afastaria daqui, se ele soubesse...”
“ – E por quê ele não sabe?”
Ada gostaria de ter certeza sobre suas respostas quanto a isso. Mas a verdade é que todos os dias, mesmo que por breves segundos, se perguntava se estava mesmo trilhando o caminho correto. Leon cansou de esperar por ela. Ele estava magoado, enojado e de saco cheio... caso contrario não teria feito o que fez. Ele levou outra mulher para o lugar onde seria o encontro dos dois. Ele queria que ela os visse. Ele não podia simplesmente conversar e dizer que acabou, não, ele quis feri-la. E conseguiu. Não se permitiu derramar uma lagrima por ele... não ainda. Mas a verdade era que estava sim, muito magoada. Talvez não tivesse o direito de estar, ela sabe muito bem que não foi uma mulher fácil e de todas as vezes em que ela o enganou, de todos os segredos que ela escondeu. Mas mesmo assim Ada se magoou.
A principio achou que se finalmente Leon cansou e decidiu coloca-la para fora de sua vida, depois desses dezessete anos, talvez ela devesse simplesmente acatar. Deixar que ele vivesse em paz, finalmente. Que ele pudesse levar uma vida normal... um filho com uma espiã, assassina, ladra e filha de um dos chefões da Tríade chinesa nunca lhe permitiria isso.
“ – Jake... são inúmeros os motivos para eu ter certeza de que aqui é o ultimo lugar do mundo onde o pai do meu filho deveria estar. Até porquê, ele não quer estar aqui. Eu não vou obriga-lo a mudar suas escolhas usando uma gravidez para persuadi-lo. Nós nos separamos, se é que algum dia estivemos juntos, nos magoamos... e o Bebê veio depois. Eu quero fazer isso sozinha. Ponto final.”
Jake desviou o olhar de novo, parecia tão pensativo. Depois de um tempo ele recolheu a louça em silêncio e foi lavar. Quando Ada saiu para o quintal a fim de fazer seus exercícios diários ele disse, sem se virar para ela. “ – Estava pensando... em irmos até a feira próxima daqui. Comprar algumas coisas que estão faltando.”
“ – Claro.”
Durante toda a manhã, Ada se exercitou, alongou e meditou. Estava muito frio, o que era esperado após dois dias de um calor incomum ter aparecido, e o que impossibilitava umas boas braçadas naquele lago tão lindo. Decidiu tomar um banho e se vestir com roupas quentes para sair com Jake. Estava sentada em sua penteadeira finalizando a maquiagem quando sentiu uma pontada estranha em seu baixo ventre. A princípio, parecia ser nada, mas então se repetiu, perto do umbigo. Então, Ada, incrédula e ligeiramente assustada, deixou que o lápis de olho caísse sobre a penteadeira enquanto ela imediatamente punha as mãos na barriga por baixo do casaco de lã, foi quando ela sentiu mais duas pontadas contra suas mãos e o bebê se revirando inteiro dentro dela.
“ – Merda! Merda! Merda! Merda!”
Ela se levantou enquanto tirava o casaco ficando só com uma blusa de botão que ela prontamente desabotoou até a altura do umbigo. E o bebê chutou de novo. Era inacreditável. Finalmente ela podia sentir, tinha uma criatura virando cambalhota dentro dela e ela estava ligeiramente eufórica com isso.
“ – Jake!”
Precisava contar pra alguém. Sim, ela mesma, Ada Wong tinha uma coisa, um treco, uma criatura, com...membros... chutando ela por dentro e se revirando inteiro. Correu até o quarto de Jake que ficava ao lado do seu, e bateu, umas três... quatro... talvez cinco vezes.
“ – Jake! Posso entrar?”
“ – Yeah.” – Foi tudo o que ela precisava escutar antes de abrir a porta. Seus olhos varreram o quarto e encontraram ele semi-deitado em sua cama, sentando-se devagar.
“ – Ele chutou.” – ela disse, de pé em frente ao ruivo. Ele tinha uma cara de sono, ainda despertando aos poucos.
“ – Como?”
“ – O bebê está chutando!”
Rapidamente Jake estava desperto. “ – Não brinca!” – Disse ele. No começo Ada ficou meio arrependida de ter acordado o rapaz, achando que talvez ele nem ficaria interessado, mas o sorriso idiota estampado no rosto dele provava que não. “ – Deixa eu ver!” – Não foi uma pergunta, e ela não estava esperando por isso, Jake simplesmente colocou as duas mãos enormes que ele tinha na barriga dela, tocando-a por todos os lados por baixo da blusa. “ – Cadê?! Cadê?!” – ele perguntava, aflito.
Passado o susto inicial, Ada apenas tomou uma das mãos dele entre as dela, delicadamente. “ – Calma...” – E depois o conduziu até o canto direito, bem abaixo do umbigo. “ – Aqui... silencio, e espera...” – Longos segundo depois, um chute.
“ – Puta Merda!” – Jake gritou. “ – Tem uma coisa viva aí dentro.” – Ele gargalhou. “ – Chuta de novo pivete!” – Disse ele colocando a outra mão. E o bebê chutou. “ – Porra! Ele é forte.”
Jake parecia divertido com a situação. Mas Ada empacou de repente, ficando um pouco desconfortável. “ – Hn.. Ja...Jake...”
“ – O quê?”
“ – A sua toalha...”. Ada viu o rosto do ex-mercenário ficar mais vermelho que seus cabelos quando ele percebeu. Parece que Jake tirava um cochilo com a toalha de banho enrolada na cintura, ela entrou com pressa, ele também acabou se empolgando com os chutes do nenê, e ninguém percebeu que a toalha simplesmente foi saindo do lugar, deixando-o com tudo a mostra.
O rapaz deu um pulo da cama, fazendo o chão tremer um pouco por causa do seu peso e tamanho, puxando a toalha junto com ele e se enrolando com ela novamente, o mais rápido que podia.
“ Ah. Desculpa por isso. Eu acordei e não lembrei que estava assim. Eu...”
Ada achava graça, não só da situação, mas também da reação de Jake. Não era a situação mais confortável do mundo, mas era quase bonitinho saber que ele era tão tímido.
Piscou com o olho esquerdo enquanto dava meia volta e saia do quarto. “ – Te espero lá em baixo, vou sair antes que o passarinho voe.” – Riu e fechou a porta atrás de si, tendo certeza que Jake ficou mais vermelho ainda.
JAKE
Tentava não pensar no sufoco que passou uma hora atrás. Foi por pouco. Era agradecido por Ada ter percebido o seu estado cedo o suficiente, quando ele ainda estava concentrado somente em sentir o nenê chutar. E se fosse um pouco mais tarde? E se fosse quando ele tivesse concentrado então em estar com a duas mãos em volta dela, por baixo daquela blusa semi aberta, tocando naquela pele macia, com ela tão perto que ele podia sentir o perfume... Quando ele estivesse num estado muito mais inapropriado? Como ela reagiria? E pior, como ele reagiria? Trapalhão como anda, talvez até tentasse uma besteira...
Idiota, ela o escorraçaria daqui antes que você terminasse de tentar.
Chegando na garagem, que ficava afastada do restante da casa, avistou Ada esperando por ele. Ela tinha as chaves do carro em mãos e estava escorada na porta do motorista. Nesse momento, por algum motivo que nem ele sabe dizer qual, Jake resolveu ser ousado e brincar com a sorte.
“ – Carro?”
“ – Quer ir a pé?” — respondeu ela.
Jake sorriu de lado olhando orgulhoso para a maquina que repousava dentro da garagem. “ – Que tal a minha garota?”
Ada não pareceu surpresa, pelo contrario, pareceu gostar da ideia.
“ – Ah sim. Pensei que você fosse ciumento, por isso nem cogitei a ideia. Tudo bem, vamos lá, me da a chave.”
Jake riu. “ – Te dar a chave? Não benzinho. Você vai de carona. Onde que eu ia deixar a grávida pilotar uma moto desse tamanho? E sim, eu sou ciumento!”
“ – É justamente por eu estar grávida que eu não subo em nenhuma moto que não seja eu mesma a pilotar!” – Ela tinha a mão estendida, insistindo em pegar a chave.
O ex- mercenário a segurou delicadamente pelo pulso caminhando até a moto, depois a olhou no fundo dos olhos e disse, com uma voz que saiu mais rouca do que ele esperava. “ – Escuta mulher, eu não sei o quão mal o seu ex-namorado dirigia pra te deixar assim desconfiada, mas eu posso te garantir que está pra nascer um piloto melhor do que eu.” – Colocou os óculos escuros e sorriu de lado mais uma vez. “ – Você pode conferir a minha ficha mais uma vez se quiser.”
Ada cruzou os braços. “ – Você é um puto convencido.”
“ – Sou.”
Ela bufou. “ – Não vai me deixar pilotar só porquê eu estou grávida?”
“ – Exatamente.”
Ela revirou os olhos e então desistiu. “ – Merda você tem razão. Mas se fizer qualquer gracinha no meio do caminho, eu te mato, escondo o corpo e fico com a moto.”
“ – Sim senhora.” – Jake tirou a jaqueta e entregou à espiã. “ – Use isso, vai ventar bastante.” – Depois, buscou em baixo do banco um capacete que ele só usava quando não tinha outra escolha, mas que agora, era mais do que apropriado que Ada usasse.
Subiu em sua Suzuki Hayabusa azul e esperou que ela fizesse o mesmo. Ficou enormemente satisfeito quando sentiu o corpo dela chegar tão próximo ao seu, o quadril dela encaixado a ele, as mãos dela segurando em suas costas...
“ – Qual é, Ada? Nunca ficou de carona antes não?” – Pegou as não dela e fez com que ela o envolvesse com os braços. “ – É assim...” – Estufou mais o peito quando ela o abraçou, queria que ela o achasse mais forte. “ – Pronta?” – Perguntou depois de dar a partida e fazer o motor rugir.
“ – Tá, exibido. Corre logo que eu já estou quase dormindo.” – Ada tinha uma voz verdadeiramente entediada.
“ – Essa é a minha garota.”
A velocidade nem estava tão alta enquanto ainda percorriam a estrada de terra, deixando um rastro de poeira e folhas secas para trás. Quando finalmente chegaram ao asfalto, Jake não perdoou... deu o primeiro arranque que obrigou Ada a abraça-lo mais forte e em seguida trocou marcha por marcha... queria mostrar a ela que falava serio quando disse que ia ventar...
Não demoraram até chegar em uma região quase desértica, com muito pouca vegetação, puderam ver passar uma manada de cavalos selvagens, que por mais que corressem, pareciam lentos graças a velocidade da moto, que a essa altura já passava consideravelmente dos 200km/h, Jake gostava de correr ainda mais, contudo tinha receio que Ada enjoasse ou ficasse tonta por causa da gravidez, mas não deixou de imaginar, como seria leva-la a um passeio onde corressem à 300 km/h, um dia, quem sabe. Aquele lugar era perfeito para isso... tão vazio, tão sem carros... uma rodovia inteira só para eles.
Logo ao lado surgiu uma lagoa, de uma água cristalina, azul feito o céu, de um lado, havia uma vila, os aldeões tinham algum gado e cultivo de grãos e outros vegetais, era lá que acontecia uma feira, também frequentada pela cidade vizinha, do outro lado do lago, havia uma tribo de nômades acampada, com seus cavalos e crianças correndo livres e suas tendas já armadas para o chegar do entardecer.
Jake diminuiu a velocidade consideravelmente, pois não tinha a intenção de chegar chamando a atenção, muito embora ele soubesse que com suas roupas, sua cicatriz e seu cabelo ruivo, lá por aqueles lados... isso seria algo difícil. Frear fez com que Ada o segurasse mais forte outra vez, ele gostou disso. Quando finalmente estacionou, sentiu o pesar de ter Ada se afastando e saindo da moto.
Ele tentou disfarçar que a encarava enquanto ela tirava o capacete e usava os dedos para pentear os cabelos negros. Ela era simplesmente linda. Era linda quando jogava os cabelos curtos de um lado para o outro e eles nunca embaraçavam. Era linda quando os olhos dela ficavam mais claros quando ela estava sob a luz, era linda com o vento frio fazendo seus lábios, suas maçãs do rosto e o narizinho pequeno ficarem vermelhos. Era linda quando estava ali tão pequena dentro da jaqueta dele. Era linda quando tirava a jaqueta e se mostrava toda esbelta ao mundo outra vez.
Ada o entregou-lhe a roupa outra vez e agradeceu, e Jake novamente desviou o olhar, afim de não dar bandeira. Não demorou muito para que os habitantes locais percebessem a presença dos dois. Jake já estava acostumado com as crianças pequenas se assustando quando ele olhava para elas. Era assim na Edônia, na Venezuela, na China, nos Estados Unidos... por quê seria diferente alí, num lugar tão isolado do resto do mundo.
Se adentraram por entre as barracas com seus cestos cheios de frutas, legumes, verduras e grãos. Outras vendiam quitutes e doces locais, por ultimo estavam as barracas vendendo carne salgada. Enquanto escolhia as compras com Ada, as vezes Jake fazia caretas para as crianças, as mesmas que fugiram dele lá no inicio, agora o seguiam, ainda assustadas, mas curiosas.
“ – Ada, olha...” – Disse ele apontando para uma menininha mongol. Ela tinha os cabelos pretos (não tão escuros quanto os de Ada, mas ainda assim, escuros) e os olhos claros, também numa cor indefinida que ele não sabia dizer se eram verdes ou cor de mel. “ – Que bonitinha. Parece com você.”
A espiã sorriu.
“ – Você acha que ele nasce parecido com uma delas?” – Perguntou Jake, apontando para as crianças que os seguiam. “ – Você sabe, chinesinho mas dos olhos claros.”
Ada os observou discretamente enquanto comprava um pouco de arroz, pareceu um pouco pensativa, e então respondeu: “ – Talvez. Vê aquele menininho ali?” – Ele tinha um cabelo castanho claro, quase louro, os olhos claros, a pele morena e os olhinhos puxados. “ – Talvez parecido com ele. Quem sabe. Mas acho que terá o cabelo preto, na família do meu pai, o cabelo preto sempre predomina.”
Jake ficou calado por um tempo. Parir um menino quase louro, sendo que na família da Ada o cabelo preto predomina... então o infeliz deve ser louro, e não deve ser daquela região, teria que ser um louro com carga genética forte, um ocidental. “ – Pelo menos não vai nascer ruivo.”
“ – Hn... não sei. Talvez. Tem muitos ruivos na família do pai, praticamente a maioria. Ele próprio tinha um cabelo louro avermelhado, mas o vermelho foi perdendo a força conforme ele foi ganhando idade. O cabelo foi ficando um louro escuro.”
“ – Então você conheceu a família dele?”
“ – Não, estão todos mortos. Eu pesquisei.”
“ – Russo? Escocês? Galês? Irlandês?”
“ – Jake, você está muito curioso.”
“ – Desculpa.” – ele entendeu que mesmo por um segundo, ela pareceu irritada com tantas perguntas. Jake escolheu umas maçãs, fazia algum tempo que não comia algumas. Já não esperava encontrar tal fruta nessa época do ano naquela região, mas encontrou, e elas estavam vermelhas e suculentas.
Com as compras feitas, Jake achou que Ada quisesse voltar direto para casa. Mas não, ela pediu para almoçar na beira do lago e aproveitar a tarde fora enquanto não chovia. Ele entendia, era uma oportunidade de mudar de ares, muito embora a propriedade em volta da casa fosse grande e com uma boa diversidade de coisas para fazer, como caçar e nadar, seriam longos meses ali. Não custava nada aproveitar mais o tempo enquanto estavam fora.
Caminharam juntos pela margem do lago, e aos poucos todos os moradores locais, e os nômades, foram ficando para trás. Quando estavam completamente sozinhos, perceberam ter chegado em uma área com vegetação mais abundante, inclusive com boas arvores para servir de abrigo. Sentaram-se ali e abriram as sacolas do que iriam comer. Tinha pão, frutas e leite. Talvez fosse a caminhada, talvez fossem os hormônios... Jake não sabia, mas Ada tirou o casaco de lã ficando novamente só com a blusa de botão, ela parecia encalorada – mesmo com o clima tão fresco – desabotoando os três primeiros botões da camisa.
Jake precisou disfarçar outra vez quando ela abriu os olhos e o encarou. Ele olhava o respirar lento que ela tinha enquanto ela descansava com os olhos fechados, a blusa aberta expondo uma boa parte dos seios que a cada dia ficavam mais fartos. Qual seria a reação dela se descobrisse que era vigiada a cada segundo em que ela não estava olhando? Qual seria a reação dela se descobrisse que tudo o que ele queria nesse exato momento era terminar de abrir aquela blusa, deitar por cima dela e beija-la inteira? Ela estava grávida de outro homem e ainda era apaixonada por ele. Ela lhe pagou uma nota preta para que ele a protegesse, dizendo que ela não tinha mais ninguém no mundo inteiro que pudesse fazê-lo. Ela confiou a vida dela e a do filho em suas mãos... O que ela faria se descobrisse que ele se apaixonou por ela, que ele cruzou os limites, que ele teve a audácia de desejar algo além?
Ada o colocaria para fora, provavelmente. E ele não queria isso. Não que por ela não valesse a pena arriscar, valia. Mas não agora. Ela precisava dele, como nunca antes precisou de alguém. Ele precisava se comportar ficar ao lado dela. Só isso. Depois que o bebê nascesse, aí sim, ele poderia jogar suas fichas e partir para o ataque. Afinal, o que ele teria a perder?
Então ela lhe lançou um sorriso... lindo. Ele não se lembra de algum dia ela já ter sorrido assim pra ele. “ – Tem maçã?” – Ela perguntou.
Jake escolheu a melhor maçã da sacola, foi até a beirada da lagoa e lavou-a bem, sentando-se novamente onde estava e entregando a fruta a Ada. A espiã agradeceu a principio, e então se deslocou para mais perto, abraçando e se escorando no braço dele. Jake lembrava muito bem a ultima vez em que ficaram assim, quando ela adormeceu em seu ombro. Ele era mais alto do que ela e dalí podia ver como que a boca pequena e os lábios macios devoravam a maçã lentamente, lá de baixo ela não podia ver que ele também devorava algo: a boca dela com os olhos. E que ele daria qualquer coisa para ser aquela maçã naquele momento.
Então Ada se ergueu, a princípio ele não entendeu quando ela lhe devolveu a maçã, depois sim... era para ele comer também. Jake preferiu justamente um local onde já estava mordido, parece idiotice, mas era onde os lábios dela já tinham tocado. Ela se moveu mais uma vez, ficando de frente para ele, com um olhar sombrio, quase enigmático,e dessa vez Jake não conseguia – e nem podia – desviar o olhar. Ela tomou a maçã de volta e deu a ultima mordida antes de atira-la longe.
Jake sentiu a boca ficar muito seca de repente, só depois percebeu que lambia os lábios enquanto assistia a chinesa terminar de comer. Ela estava tão perto, quase em cima dele, o hálito morno dela e com cheiro de maçã estava tão próximo.
Que porra é essa, por que ela tá me olhando assim?
“ – Ada... o quê vo...” – Ela o calou quando cobriu a boca dele com os lábios. Jake ainda tinha os olhos abertos, ele estava em estado de choque.
Ela me beijou.
Ela me beijou!
Por quê ela fez isso?
O que deu nela?
Ficou num estado tão lento e paralisado que não retribuiu o beijo e quase não aproveitou a maciez do beijo dela – que por sinal era muito mais macio que o outro que ele roubou – e quase gemeu quando percebeu que ela se afastou. Ainda estava paralisado, mesmo quando percebeu que ela esperava uma resposta. Que ele não deu. Então, ela suspirou e começou a dizer algo... como desculpa.. me enganei... ou qualquer coisa do tipo... Jake estava em choque, ele não escutava, mas sabia que ela ia “embora”... ele tinha que fazer alguma coisa.
Ada já voltava para o lugar de origem quando Jake a puxou com força, usando um só braço, e a jogando em cima dele. Imediatamente ele a beijou de volta, com a outra mão ele a segurou pela nuca, enroscando seus dedos longos no cabelo dela. A morena também pareceu surpresa mas cedeu ao beijo e nesse exato momento, mais nada no mundo importava para o ex-mercenário. O chão abaixo dele, ou o céu à cima, as plantas ou a lagoa, nada existia a sua volta. O universo se resumia a mulher que ele tinha nos braços e a boca doce que ele invadia com a língua. O que poderia ser mais perfeito?
Foi quando ela parou. Jake abriu os olhos quando ela se afastou, sem entender porquê. E Ada estava séria, com uma expressão forte de reprovação.
“ – Eu sabia.” – Disse ela. A frieza naquela voz feminina fez Jake congelar até os ossos.
“ – O que foi?”
Ela se levantou e vestiu o casaco de lã outra vez. “ – Eu já tinha percebido que você estava diferente... mas de todas as minhas suspeitas, a pior era essa, Jake Muller.?”
“ – Pera aí!” – Ele se levantou, transtornado. “ – Você planejou isso?”
“ – Como você se atreveu? Como você deixou isso acontecer?”
“ – Deixei acontecer? Quem é você pra me julgar? Você também se apaixonou!”
“ – Não é disso que eu estou falando. Como você deixou que os seus sentimentos interferissem na sua missão, Jake?! Sua missão é ser meu guarda costas, não meu amante! É pra você fazer a minha segurança, e não ficar suspirando atrás de mim, pela casa, pelo mato ou no diabo que te carregue!”
Aquilo foi como um soco no estomago. Ele não podia acreditar que ela estava de olho nele esse tempo todo, muito menos que ela teve coragem de fazer o que fez. “ – Como você consegue ser tão fria? Não te incomoda brincar com os sentimentos das pessoas assim?”
“ – Senhor Muller, eu to pouco me lixando para os seus sentimentos. Eu te contratei para um serviço, e você foi muito bem pago para...”
“ – Cala a boca! Come essa porra de dinheiro se você quiser! O que te faz pensar que eu não vou fazer o meu trabalho?” – Jake agradecia estarem bem afastados de tudo, pois ele já estava gritando tão alto que fazia até eco pela lagoa. “ – Eu me apaixonei por você. E é justamente por isso que eu sou capaz de qualquer coisa para manter a sua segurança e a do seu bebê. Nem que pra isso eu precise morrer!”
Nesse momento a valentia de Ada pareceu desaparecer. Ela parecia acreditar nele, mas algo ainda a deixava em duvida.
A mulher lamentou. “ – Eu sinto muito, Jake. Mas isso não está certo. Eu não posso te manter por perto. E eu não posso te envolver desse jeito.”
Jake sabia que era justamente isso que aconteceria. Não por que ela era uma má pessoa, mas justamente porque ela não queria tirar proveito dos sentimentos dele, que a propósito, não eram correspondidos. Mas ele não podia deixa-la ir, ela precisava dele, ele não podia simplesmente assisti-la ir embora e ficar a própria sorte com o filho.
Ada virava as costas para sair quando ele foi mais rápido e a tomou pelo pulso. “ – Aonde você pensa que vai?”
“ – Não te interessa.”
“ – Você não vai.”
“ – E o que você pode fazer pra me impedir?”
“ – Eu disse que vou cuidar de você, e eu VOU cuidar de você até o seu bebê nascer. Nem que eu precise te seguir até o ultimo canto do inferno e não importa o quanto você fuja de mim, eu vou atrás de você!”
Ela o encarou no fundo dos olhos e chegou bem perto. “ – Quer ter a sua garganta aberta enquanto dorme?”
Mas Jake não se intimidou. “ – Tenta! Tô pagando pra ver!”
Ada tentou soltar o pulso, sem sucesso. No fundo, Jake se sentia mal por ter que fazer isso, usar a força bruta pra segurar uma mulher, ainda mais, uma mulher naquele estado. Mas sob nenhuma hipótese, ele a deixaria ir. Foi quando ele viu algo se mover, algo que estava enroscado na arvore ao lado, um bote veloz como uma flecha, ele so teve tempo empurrar Ada para longe antes que a cobra a mordesse, porém com isso, ganhando ele mesmo a picada no braço.
Não era uma cobra grande, mas era forte, a mordida não doeu tanto quanto a dor ele lutando para fazê-la largar. Ela cravou as presas no antebraço dele e não largou até que inoculasse até a ultima gota de veneno. Quando conseguiu arranca-la, imediatamente ele arrancou-lhe a cabeça atirando o corpo dela partido ao chão. Ada estava caída do chão, quando ela se levantou, ambos assistiram o reptil ainda se movendo, mesmo morto e sem cabeça.
“ – Jake, é uma víbora!”
“ – Eu sei!” – ele respondeu ríspido.
“ – Me mostra o braço.” –ela pediu, ele percebeu que ela estava em pânico, mas ele também estava.
“ – Sai. Me deixa. Não foi nada.” – Ele escondeu o lugar da mordida com a manga da blusa que ficava puxada até o cotovelo, enquanto andava apressado rumo a vila.
Ada corria atrás dele. “ – Jake. Para de correr! Você tem que ficar quieto, quanto mais devagar o seu sangue circular, melhor.”
Jake não queria ouvir. Aquilo não poderia ficar assim tão sério. Afinal, ele tinha super anticorpos, certo? Ele sobreviveu a injeção do vírus C, porque não sobreviveria a picada de uma víbora?
“ – Eu já disse que estou bem!” – Dito isso, Jake sentiu o braço inchar, junto com ele, a garganta... respirar ficou muito, muito difícil.
“ – Jake!” – Ada o segurou quando ele finalmente se ajoelhou.
Queria falar que sentia falta de ar, mas percebeu que sua língua estava dura, pesada e provavelmente três vezes maior. Aquilo era irônico... Falava a verdade quando disse que morreria para proteger ela e o bebê se fosse preciso, só não pensava que fosse ser tão rápido. A visão escureceu, e de uma maneira muito confusa, ele escutava a voz de Ada, tão distante, gritando por socorro.
Continua...
Gente, é exatamente isso. Sem Leon esse capitulo. Ele precisa de uns diazinhos há mais...resolvendo umas coisinhas pra poder aparecer, sabe?...rs
Muito obrigado a todos pela força, todos que assinaram a petição. Infelizmente eu vejo tanta ignorância do povo a respeito disso... e pior, o seu ministro da educação ajudando a espalhar informação errada. Na verdade quando vc federaliza uma instituição privada, somente os alunos que prestarem os futuros vestibulares terão o diplome de uma universidade federal, e somente eles terão a gratuidade. Nós, alunos velhos, continuamos com o diploma velho e pagando mensalidade normalmente! A diferença é que o governo vai administrar, não um grupo privado. Essa é a única diferença. Enfim... por favor, quem ainda não assinou, POR FAVOR, assinem!
Muito obrigada mais uma vez!!!
Ah... o Jake com os bagulho de fora não foi ideia minha, uma cena muito parecida esta no seriado “Friends” entre a Rachel e o Joey..;)
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