JAKE

Ainda não estava convencido se a noite passada foi a sua melhor noite de amor com Ada, mas com certeza, foi uma das melhores. Jake estava fascinado com a entrega dela, com a paixão que queimava feito lava quando os dois iam pra cama, com a reação do corpo dela a cada toque... Ele gostaria de saber se ela era sempre assim, ou se era culpa dos hormônios somado aos litros de sangue extra que ela tinha circulando no corpo.

Gostaria de saber se ela era mesmo sempre tão voluptuosa, sem reservas e aberta ao prazer como ela vinha se mostrando. No inicio era Jake quem se segurava e ficava cheio de limitações, porque tinha medo de fazer mal a ela e ao bebê... mas quando o medo foi embora e as reservas acabaram, suas noites com a espiã ardiam como nunca aconteceu com ele antes, e Jake acreditava que nunca seria igual com outra mulher. Ele a amava de todas as maneiras que um homem podia amar uma mulher.

Noites como a anterior o enchiam de orgulho, Jake não sabia que era capaz de satisfazer uma mulher daquela forma. Ada foi a única que terminava exausta, suada, ofegante na cama e com a mais completa expressão de satisfação no rosto, quase incapaz de falar ou se mexer indo dormir exatamente naquele estado de êxtase. Agora, a espiã dormia calma ao seu lado, mas tais lembranças já deixaram Jake completamente duro e pronto para acorda-la, ele sempre ficava assim quando se lembrava dela, ou da voz dela gritando o seu nome. Jake frequentemente ficava enciumado pensando como ela era com outros homens... especialmente com “O outro...”, mas era quando o nome dele – J-a-k-e — ou – J-a-k-o-b — rolava tão gostoso na boca dela, especialmente quando visivelmente saia bem mais alto do que ela planejou, as inseguranças de Jake iam embora.

Olhou para o corpo nu da chinesa ao seu lado, orgulhoso como se ela fosse um prêmio. “E aí babaca... alguma vez você conseguiu fazê-la gritar?” Jake esperava nunca fazer tal pergunta para “O Outro”, muito menos receber uma resposta. Mas tinha certeza que não.

O ombro dela estava encostado em seu peito, ele a envolveu nos braços e afundou o rosto contra o pescoço dela aproveitando o toque aveludado e macio daquela pele. Os seios que não eram enormes, mas estavam bem mais fartos, subiam e desciam no mesmo ritmo da respiração de Ada, normalmente a respiração dela era calma durante o sono, estava calma há um minuto... mas agora... as sobrancelhas negras e bem feitas franziram, os lábios dela tremeram. Jake pensou que ela fosse acordar, mas não, ela virou de lado e continuou a dormir, ela estava sonhando, e pelo visto um sonho ruim.

Aquilo era estranho, Ada tinha um sono leve, o normal dela seria estar acordando agora, e não se deixando levar por um pesadelo a essa hora da manhã. Talvez fosse o cansaço da noite anterior... Jake sorriu, mas seu sorriso foi embora quando viu os ombros de Ada tremer suavemente enquanto ela envolvia a barriga com os braços, Jake achou que ela estava acordada, uma lágrima rolou no rosto delicado dela, mas não, ela ainda estava dormindo... Ela estava mesmo tendo um pesadelo.

Então, com aquela expressão de sofrimento, de fazer cortar o coração, segurando a barriga, ela sussurrou, com muita dificuldade, mas Jake conseguiu escutar cada sílaba – “ – Leon...”

E naquele momento Jake percebeu que quem estava tendo um pesadelo, era ele.

“Leon...”

“Um dia eu falhei miseravelmente em uma missão, e o enchi de vergonha e fui abandonada lá, pra morrer. Em Raccoon City.”

“seu pai me ofereceu socorro para que eu me recuperasse dos meus ferimentos e também me ajudou guardando um segredo meu... ... Uma pessoa, alguém que o meu pai mataria.”

“...Missão clara e objetiva – roubar o vírus. Porém algo inesperado aconteceu, durante a missão ela se envolveu com um dos sobreviventes e por causa dele Ada se desviou da missão e fugiu com ele, me traindo outra vez. Você sabe quem é esse homem, Jake Muller?... ... a ultima onda de radio interceptada de um Agente chamado Hunk, dizendo que Ada Wong foi morta tentando salvar o policial...”

“...Ele não era meu namorado. Nem meu amante... eu não sei dizer o que nós éramos. Era menos do que isso. Mas por outro lado, era mais do que qualquer denominação que exista para qualquer tipo de relacionamento. Nós nos conhecemos muito jovens, e sempre estivemos em lados opostos na maioria das vezes. Passávamos meses e até anos sem nos vermos, ou termos qualquer contato. Mas como ele mesmo sempre insistiu em dizer... era como se fossemos parte um do outro, por mais que tentássemos, não podíamos simplesmente... esquecer. Ele é um homem bom, justo e muito integro... eu tenho certeza que nada nesse mundo o afastaria daqui, se ele soubesse...”

Lembrou das crianças mongóis que encontrou na tribo de nômades, toda aquela mistura entre a raça amarela oriental, hunos e turcos e russos, quando viu aquelas criancinhas, algumas de etnia tipicamente mongoloide, outras tipicamente chinesas, outras criancinhas com traços orientais mas olhos e cabelos claros deixando obvia a miscigenação oriental e caucasiana, e ao ver uma menininha de olhos pequenos, cabeço escuro e olhos verdes, perguntou se o bebê nasceria parecido com ela... ela concordou, mas também mostrou um menino mongol, com os olhos pequenos, mas não muito, a pele branca mas levemente acobreada, olhos claros e um cabelo louro.

“ – Pelo menos não vai nascer ruivo.”

“ – Hn... não sei. Talvez. Tem muitos ruivos na família do pai, praticamente a maioria. Ele próprio tinha um cabelo louro avermelhado, mas o vermelho foi perdendo a força conforme ele foi ganhando idade. O cabelo foi ficando um louro escuro.”

“ – Então você conheceu a família dele?”

“ – Não, estão todos mortos. Eu pesquisei.”

“ – Russo? Escocês? Galês? Irlandês?”

“ – Jake, você está muito curioso.”

“ – Desculpa.”

Lembrou da noite que passaram na varanda.

“ – E o pai do bebê... é alguém importante assim, tipo... Cabeça de Dragão... por isso você guarda tanto segredo?”

“ – Nunca. O pai do meu filho é um bom homem, um pouco ingênuo é verdade... Mas é corajoso, honrado e muito honesto. Contudo ele tem uma visão muito romantizada de certo e errado... você nunca o veria metido em algo assim.”

Jake lembrou da gargalhada gostosa da espiã quando estavam no Cazaquistão e ele chamou o canalha de “David Beckham”... lembrou da primeira noite em que fizeram amor, em que ela o provocou e depois fugiu... foi também a noite que ela recebeu a noticia que aquele palhaço estava casado...

Eu sei quem ele é. Leon Scott Kennedy, eu não gostei dele desde o primeiro segundo em que o vi. O tipo de cara bonito que usa roupas bacanas, que teve todas as oportunidades na vida, que nunca passou fome ou frio, que provavelmente teve seu lindo papai e sua linda mamãe todos os dias na mesa do café como num comercial de margarina. Que ia para a sua linda escola de americanos riquinhos onde ele e os amiguinhos ostentavam seus carros e roupas de bacana, sem saber ou nem se preocupar que do no resto do mundo, pessoas passavam fome. Que tem o discurso politicamente correto, que sai por aí bancando o herói e justiceiro se achando no direito de julgar os outros como errado. Eu conheço muito bem o tipo... Era por causa de Leon estar sempre por perto, que para Sherry nunca, absolutamente nada do que eu fazia era bom o bastante. Sempre tratando-a feito criança, como se tivesse o direito de mandar nela, sempre se achando o sabichão.

Jake lembrou de quando estavam olhando as roupinhas do bebê, ele não teve certeza por que foi muito rápido, mas teve a impressão que Ada tinha chorado depois de passar tempo de mais segurando uma blusinha com o escudo da policia...

Leon Scott Kennedy – O Herói – o perfeito, o que nunca fazia nada errado... era ele o pai do bebê da espiã Ada Wong. Era por causa do “Heroi”, que o pivete ia nascer sem pai e a mãe dele chorava escondido. E por quê? Por quê Ada não podia contar com o apoio dele, se ele era um homem tão bom assim? Por quê eles terminaram, aliás, nunca nem começaram? Hipócrita! Era isso que Kennedy era! Bandidos são bons, se tiver uma bela bunda e um belo par de peitos. A bandida Ada Wong é boa para comer de vez em quando, mas não é boa para ser amada, assumida, ou para ter um relacionamento sério, muito menos para ser a mãe de seu filho. Ada tinha toda razão, o lugar dele não é aqui, ele que se misture com os dele... porque definitivamente ele não é merecedor, nem dela, nem do pivete.– Lembrou do pai, que aos olhos de gente como Leon, era a escória da humanidade, mas para Jake, não tinha nenhuma diferença. — Quem esse Kennedy pensa que é para julgar alguém?

O ex-mercenário sentia uma raiva profunda, como não sentia há muito tempo, mas ao mesmo tempo nunca sentiu tanto amor pelas duas pessoas de quem ele vinha cuidando nos últimos meses e ao mesmo tempo tanta pena e tanta vontade de protegê-los. Saber que quem fez isso com Ada foi um homem como Leon, so o revoltava ainda mais, só o fazia sentir ainda mais raiva dos que se dizem “certinhos”. Abraçou a espiã com cuidado entrelaçando os dedos com a mão que ela tinha sobre a barriga. O pivete chutou, Jake sabia que Ada acordaria em breve.

LEON

Manuela estava linda no vestido estampado que ela escolheu com Sherry, bem, era uma moça magra e alta, cabelo bonito e grandes olhos verdes, era difícil algo não ficar bom nela.

Aquele não era um jantar para ser divertido, para falar a verdade, foi com a esposa num verdadeiro ninho de cobras e coiotes velhos, todos prontos para dar o bote uns nos outros. Mas com a situação tensa na eurásia, armas biológicas sendo traficadas só deus sabe da onde, uma reunião como aquela acabava sendo não apenas útil, como obrigatória.

A timidez de Manuela era o álibi perfeito para ambos não trocarem um beijo na frente daquelas pessoas, e embora tímida, Leon descobriu que ela era inteligente e que sabia lidar com aquelas pessoas complicadas, mesmo falando pouco. Foi engraçado ver como ela sabia desviar das alfinetadas e inconveniências daquelas senhoras que pareciam ter prazer somente e serem desagradáveis enquanto Leon foi praticamente arrastado para longe dela depois do jantar para o lado dos homens, onde infelizmente, acabou bebendo uísque demais... outra vez.

Helena já o vinha alertando que ele estava bebendo mais do que o de costume. Foram poucas as vezes que isso aconteceu... e nessas poucas vezes, assim como agora o motivo foi Ada. Leon achava que dessa vez, depois de uma decepção tão grande ser confirmada, ele conseguiria esquecê-la. Mas não foi assim. As vezes, tudo o que ele queria no mundo era enfiar a mão no peito e arrancar o coração fora, quem sabe assim a dor sarava. Como isso não era possível, os dias foram passando e a capacidade de Leon recusar mais uma dose, também.

Nas horas mais inconvenientes se flagrava pensando nela, em tudo o que passaram juntos, de quando estiveram na Bélgica, de todos os planos feitos... de toda a vida que ele imaginou ao lado dela mesmo sem ter qualquer ideia de como seria. E no entanto a essa hora, ela devia estar ás portas de ser mãe... com Jake Muller.

Leon tomou uma ultima dose aquela noite, quando já estava bem tonto, deu boa noite a todos e saiu com Manuela. Na portaria esperavam um motorista que os levaria para casa, as janelas grandes do salão onde acontecia o jantar dava uma visão direta para a área externa onde ficava a portaria, a brisa fria da noite soprou fazendo Manuela tremer. Foi por isso que a abraçou... sim, ele estava bêbado... e ela era cheirosa e o corpo dela se encaixava muito bem ao dele, era gostoso... ela era linda é verdade, mas Leon não sabia dizer porque finalmente a beijou. Por um momento pensou que seria uma boa oportunidade se serem vistos tendo um contato íntimo, teriam testemunhas para confirmar a veracidade do casamento caso um dia precisem, depois tudo o que sentia era raiva e mágoa, afinal... Ada não estava sozinha, só ele estava. Por fim, lembrou que nunca pensou em Manuela dessa maneira, nunca nem ao menos imaginou como seria o beijo dela, mas agora que o fez, descobriu que era bom, era muito bom. Ela definitivamente não tinha nenhuma prática com beijos, frequentemente seus dentes batiam de forma atrapalhava, mas mesmo assim, ela era delicada e suave, a língua dela era morna e doce como uma fruta selvagem... e ele, embora bêbado sabia que tudo o que ele tinha era hálito de álcool...

A desculpa de um beijo falso acabou quando continuaram a se beijar mesmo depois do motorista não estar mais lá, o porteiro ter ficado pra trás. Quanto entraram no apartamento, o mínimo de lucidez voltou a Leon quando ele viu o sofá onde vinha dormindo... foi quando se afastou.

A decepção nos olhos de Manuela era tão grande que doeu em Leon também, mas ele tinha que parar aquilo mesmo assim.

“ – Me perdoa. Eu bebi demais.” – Que ótimo Leon, muito esperto! Aí você diz que só a beijou porque bebeu, com certeza isso a fará sentir melhor!

“ – Desculpa... eu...” – Manuela tinha olhos assustados e estava envergonhada.

“ – Não!” – Leon teve pressa em se retratar. – “ – Você é tão linda... e eu... eu estou tão sozinho, mas eu não posso me aproveitar de você. Eu pensei só em mim, isso não voltará a acontecer.”

Agora ela estava em dúvida. “ – Se aproveitar de mim, por que? Eu quis. E embora seus votos não tenham sido honestos e eu saiba o único motivo de você ter casado comigo, sim... eu sei, ainda assim você é o meu marido, aos olhos dos homens e ao olhos de Deus.”

“ – O meu afeto por você é outro.” – Leon tentou fugir.

“ – Eu sei, e eu não ligo. Pra mim é o suficiente.” – Ela estava apavorada, Leon sentia, mas buscava coragem para se expor. – “ – é um começo...”

“ – É um começo que vai acabar mal, porquê eu vou te magoar.”

“ – Não vai. Você não pode me magoar porque eu sei a verdade. Eu sei também que existe outra pessoa... você fala o nome dela enquanto dorme, e até isso eu amo em você, Leon. Eu te amei desde o primeiro momento em que eu estive nos seus braços, eu estava feliz em saber que Deus foi bom para mim me deixando conhecer o que era o amor antes de morrer. E é por isso que é impossível você me magoar, porque nada que venha de você pode me ofender.”

Leon não se lembrava de algum dia ter recebido uma declaração de amor tão incondicional. Mas quando lembrava que Manuela até arriscou a vida por ele, tudo o que lhe vinha a mente era que Ada também o fez. Ele não percebeu que Manuela se aproximou outra vez até ela beija-lo outra vez, abraçou-a forte e correspondeu o beijo, sua mente estava confusa com a rejeição da única mulher que realmente amou, que seria capaz de tudo por ela, o amor louco que o estava empurrando direto pro abismo, e do outro lado estava Manuela que podia ser seu bote salva-vidas. Poderia ser feliz com ela, não? E se ele não fosse feliz, poderia quem sabe fazê-la feliz, já era grande coisa. Já era algum sentido pra sua vida que agora parecia tão inútil.

O corpo dele já reagia e já desejava o dela como não desejou nenhuma outra mulher nesses dois anos que esteve só com Ada. Ele não estava escondendo isso dela, e a falta de jeito que Manuela tinha para participar da coisa toda desde o primeiro beijo até agora já deixava mais do que óbvio que ela era virgem. Leon se perguntou se o fato dela ser virgem era o motivo para desistir, afinal, se ela não fosse, isso não diminuiria a canalhice dele em absolutamente nada. Chegou a conclusão que não... o motivo era a mulher de vermelho... e a maldita bebida. Leon chorava quando se afastou dela outra vez.

“ – Você merece no mínimo um homem sóbrio, Manuela!”

“ – Quando você estiver sóbrio as minhas chances serão significativamente menores.” – ela lamentou.

Leon não imaginava o que faria Manuela pensar isso de si mesma, então lembrou... das cicatrizes. Estava bêbado, alcoolizado o suficiente para não conseguir organizar as suas ideias, mas estava consciente o suficiente para saber que se transasse com Manuela, não seria porque estava bêbado, muito menos por pena. E p melhor jeito de provar isso, era estando sóbrio.

“ – Isso você vai ter que pagar pra ver.” – Respondeu em tom firme. E sem saber exatamente por que fez isso, tirou o paletó e a camisa na frente dela... também não estava bêbado o suficiente para perceber a expressão dela, um misto de surpresa e horror, as cicatrizes que ele tinha no corpo. Um tiro no ombro que ganhou salvando a Ada, um corte grande que ele tinha no peito por causa da foice de um ganado onde ele perdeu muita pele e fez uma cicatriz bem larga e mais de dez centímetros de cumprimento, tinhas perfurações nas costas que ganhou lutando contra Simmons, mais de treze e por fim, um rasgo graças a uma fratura exposta de duas costelas.

Dessa vez não foi para o sofá, deitou na cama, mas lá, não fez nada com Manuela além de dormir.

ADA

Não eram nem oito da manhã quando chegaram no hotel onde Shi Chao e a esposa estavam. Ela, Jake e Alexei usavam muito protetor solar e óculos escuros, pois mesmo cedo, o sol era forte.

Caminharam juntos até a portaria, onde descobriram que o casal deixou as chaves do quarto para eles e um bilhete dizendo que não demorariam, e que ela subisse e os esperasse lá dentro.

Era um hotel luxuoso e a suíte era muito boa, com uma sala só para refeições e um pequeno escritório privativo. Ada não fez cerimônias em começar a abrir todas as pastas e ir ligando o notebook e hackeando a senha antes mesmo do anfitrião chegar. A maior parte do material encontrado era sobre as armas biológicas que estavam sendo traficadas para o Cazaquistão, Afeganistão e Turcomenistão, além de provas que a Al Zhein estava ciente que era investigada pela Organização... plus, dossiês e teorias não comprovadas de que o grupo recebia apoio de membros remanescentes da Familia.

Faria todo o sentido... com a morte de Simmons a Família de desfragmentou e vendeu – ou até mesmo cedeu — as informações que sabia sobre ela e sobre a organização para algum grupo terrorista com dinheiro e interesse para um ataque. O resultado, foi a morte de Syaoran. Mas algo ainda não estava encaixando. Tanto ela, quanto o irmão estavam preparados para algo do tipo... a Al Zhein precisaria de alguém “de dentro” para ter acesso a Syaoran, por mais estúpido que ele fosse...

“ – Você e o seu irmão eram próximos?” – Perguntou Jake.

“ – Eu gostava de fugir para brincar com ele quando eu era pequena, e a mãe dele não fazia qualquer objeção a mim, inclusive nossas mães chegaram a ser amigas. Quando ele tinha 12 anos meu pai o enviou para estudar em Londres e ele só voltou para a China depois da Faculdade. Depois disso nós estávamos sempre ocupados, sempre viajando... a ultima noticia que eu falei com ele, foi quando ele me ligou para dizer que tinha ficado noivo. Idiota...”

“ – Por quê idiota?”

“ – Ele devia ter só embuchado ela em segredo, e contado tudo depois que a criança nascesse.”

“ – Pera aí, Ada...” – Começou Alexei. “ – Você realmente acredita que foi a sua madrasta?”

“ – Claro Alexei! Meu irmão casando e formando família o elevaria a substituir o meu pai. E pra completar a moça era filha única de uma família igualmente poderosa política e financeiramente...”

“ – Então pode ter sido o próprio Long-Meng, ou algum “amigo” que se sentiu ameaçado com o seu irmão tendo tanto poder. Se sua madrasta fosse querer matar Syaoran poderia ter feito isso no berço!”

Ada tinha uma resposta boa para aquilo, mas foi interrompida pelo abrir da porta, era Shi Chao.

“ – Wong, você puxou mesmo seu pai... acha que pode ir entrando e vasculhando as coisas dos outros antes de pedir.” – Disse o velho, embora estivesse de bom humor.

“ – Você mandou vir cedo... e saiu.” – Ela respondeu mal humorada. – “ – Eu estava preocupada, pensei em ir logo atrás de vocês.”

“ – Preocupada com o que?”

A espiã preferiu não dizer, achou melhor apenas colher todas as informações restantes e colocar aquele casal de velhos pra ir embora o mais rápido possível.

“ – Eu só preciso que você me diga a lista completa dos informantes, eu gostaria de interrogar um à um pessoalmente.”

“ – Não confia em mim?”

“ – Oh, você fez todo o trabalho pessoalmente?”

“ – Não, meus espiões fizeram, mas eu só recrutei os melhores.”

Ada revirou os olhos. “ – Eu sou a melhor. E não brinco de telefone sem fio, eu quero checar as informações pessoalmente.”

“ – Alguns estão na Russia, outros no Cazaquistão... olha o tamanho da sua barriga, você acha que o seu pai vai te deixar viajar nesse estado?”

Definitivamente, ela estava sem paciência para a falta de cuidado e a teimosia daquele velho incompetente. “ – Eu só quero saber da porra da lista dos...” Não terminou de falar, apenas arregalou os olhos quando viu o sangue espirrar contra o rosto de Shi Chao ao mesmo tempo que o vidro da janela se quebrava. Foi uma questão de segundos, mas Ada pôde ver tudo em câmera lenta... a Cabeça da senhora Chao explodir espirrando sangue e pedaços de cérebro contra o rosto do marido, depois caindo em câmera lenta nos braços dele que olhou imediatamente para a janela antes de receber um tiro de fuzil na testa e ter o mesmo fim da esposa. Como num reflexo Ada tentou se jogar contra o notebook afim que apanha-lo antes de fugir, mas não foi possível, pois durante esses breves segundos foi arrastada por Jake enquanto homens de preto invadiam o quarto pelas janelas pendurados em cordas.

Ela viu, eram só três. Ela, Jake e Alexei eram três... podiam com eles, só por alguns minutos, só até resgatar algumas provas. Puxou a pistola e tentou se desvencilhar dos braços de Jake sem sucesso, então lembrou o quanto ele era forte. Alexei ficou para trás gritando que iria atrasa-los para que Jake ganhasse tempo para correr com ela.

Eles não escutavam o que ela dizia, não davam ouvidos aos seus protestos, Ada não lembra de alguma vez ter perdido a calma com alguém e gritado como ela estava gritando agora, esperneando e tentando se soltar. Mas os gritos dela eram abafados pelos gritos de Jake e o barulho dos tiros que não cessavam. Jake já fazia tanta força para segurá-la que estava machucando. Nunca, em toda a sua vida, ela se sentiu tão fraca.

Bateu a cabeça contra a janela do carro quando Jake a jogou lá dentro. Não eram três, eram quatro... afinal o sniper que atirou no Senhor e na Senhora Chao ainda estava posicionado em algum lugar no prédio da frente, ele quase acertou Jake duas vezes e ele só escapou por que se movia rápido feito um borrão, se fosse ela ou Alexei...

Jake não parou de dirigir, em altíssima velocidade o veículo blindado até que estivessem de volta a propriedade de Long-Meng. Foi quando percebeu o motor finalmente desligar.

“ – Você está bem?” – Perguntou Jake enquanto saia do carro e abria a porta do banco traseiro onde ela estava.

Ada passou a mão na cabeça e viu que tinha um corte, estava sangrando. Jake fez menção de chegar perto, mas ela deu-lhe um tapa. “ – Por que não me obedeceu?”

“ – Meu trabalho não é te obedecer, é te proteger!”

“ – Nós podíamos com eles! Eu só precisava de um minuto!”

“ – Eu não ia arriscar. E você também não deveria! Se não liga pra sua vida, pensa na que você ainda carrega!”

A espiã trincou os dentes até fazer barulho, aquele garoto já a estava tirando o sério. “ – Muller, fique sabendo que cada passo que eu dou é pensando na segurança do meu filho! E ele está muito mais em perigo agora que eu perdi Shi Chao e todas as provas!”

“ – Do que você está falando?”

Uma multidão já se juntava em volta dos dois, em algum momento, um dos homens de seu pai apareceu com toalha e gelo, dizendo que era para a cabeça. Depois de limpar o sangue, Ada usou a toalha para fazer uma bolsa de gelo e pressionou contra a têmpora cortada.

Reconheceu a voz do home que ia abrindo espaço na multidão. Era Long-Meng. “ – Ela está bem?” – Ele perguntou. “ – Alexei entrou em contato, me contou o que houve. Ela está sangrando! Como isso aconteceu? E o menino? Levem ela até a casa principal... chamem um médico. Agora!”

Ada atirou a toalha contra o peito de Jake. Os cubos de gelo quicaram no chão. Olhou para o pai e para o ruivo com desprezo. “ – Fiquem longe de mim. Os dois.” – e caminhou sozinha até a residência que foi de sua mãe.

JAKE

Não sabia dizer porque aceitou o convite de Alexei para ficar ali com os outros homens. Funcionários, capangas e chefes de segurança de Long-Meng. Todos bebendo em volta da uma fogueira. Talvez porque não dava mais para ficar naquela casa olhando pro teto enquanto Ada ainda se comportava como se o odiasse.

Ela foi fria com ele a tarde inteira, recusando qualquer tentativa de conversa. Jake não entendia o motivo dela estar tão frustrada. Ele só estava pensando no bem dela, e no do pivete. Não merecia ser tratado assim. Alexei estava sentado ao seu lado, e bebia uma garrafa de vodca no gargalo.

“ – Eu sei que tromba é essa Muller. Confessa, está sofrendo pela Ada?”

Jake não respodeu. Mas o Agente continuou.

“ – Estava demorando. É sempre assim... Ada é independente demais, ela reage muito mal quando alguém começa a participar muito de suas decisões ou pior... tomar as decisões por ela, e foi justamente o que nós fizemos hoje. Mas relaxa Litle Jake... ela gosta de você e ao que tudo indica, você encontrou o tal do ponto “G”... ela vai te perdoar.”

Alexei ofereceu a garrafa para Jake e ele aceitou, deus dois longos goles sem fazer cara feia. “ – A pergunta é... por quanto tempo?”

“ – Até você provoca-la outra vez.”

Não sabe porque decidiu dividir uma garrafa de vodca com Alexei. Provavelmente por raiva, por frustração... por descobrir que o engomadinho era o pai do pivete e ter brigado com Ada no mesmo dia. Jake nunca se sentiu tão inseguro quanto agora. Já podia sentir que estava bêbado, era muito fraco para bebida, embora Alexei parecia não ter bebido uma única gota.

“ – O cara... o sujeito que engravidou ela... o que ele teria feito se estivesse lá?” – Jake sabia que a essa altura, era a vodca falando, não ele.

“ – Ah, aquele um... é um príncipe encantado, teria feito a mesma coisa. E a reação dela teria sido a mesma. Então fique tranquilo, se ele não conseguiu domar a megera, você também não conseguirá.”

“ – Por quê, “se ele não conseguiu”... por acaso ele é mais do que eu?”

“ – Eu não estou dizendo isso... é porque a historia deles é antiga... só isso. Honestamente, Jake, o que você espera do seu relacionamento com a Ada?”

A fogueira crepitava quando Jake jogou a garrafa vazia no fogo, fazia muito tempo que não se sentia tão triste, sem saber por que, decidiu fazer uma confissão que ainda não teve de fazer nem a própria Ada. “ – Eu a amo. De todo o coração. Eu espero estar ao lado dela todas as noites e todas as manhãs, eu quero estar ao lado dela quando o pivete nascer, eu quero botar ele nos braços, quero ver ele crescer. Eu quero fazer parte da vida dos dois, quero cuidar deles. Pela primeira vez na vida eu sinto que a minha vida faz algo sentido, eu não consigo me imaginar longe dela. Eu quero dar o meu melhor para que a Ada nunca mais nem lembre desse... almofadinha!”

Alexei riu alto. “ – Jake Muller. Eu sinto pena de você.” – Jake não sabia o que aquilo tinha de tão engraçado, sentia vontade de bater no Agente. “ – Se bem que... nessa altura do campeonato, esse menino já nadou em tanta porra sua que talvez ela até acredite que o filho é seu.”

Aquilo foi demais. Quando deu por si já tinha cravado as duas nãos no pescoço de Alexei, com tanta força que teria quebrado se não fosse a joelhada que recebeu no saco. Por uma fração de segundos, soltou o pescoço do Agente o que foi o suficiente para que ambos se atacassem igualmente aos murros e pontapés. Foi a hora que Jake mais lamentou ter bebido, sabia que estava bêbado e trocando as pernas, seu reflexos estavam ruins... o que deu vantagem a Alexei, alem do fato do outro se tratar de um Agente extremamente bem treinado e perigoso.

“ – Filho de uma puta arrombada!” – Gritou Alexei.

“ – Viado! Chupa Rola! Eu vou te matar!” – Gritou Jake quando percebeu que já tinha sido jogado no chão e tinha Alexei por cima disparando uma leva de murros em sua cabeça e na sua cara.

Depois de muita poeira e de rolar no chão de terra com Alexei por quase meia hora, sem conseguir abrir o olho e com o lábio cortado, finalmente desmaiou quando recebeu o soco final. Quando voltou a si, estava sendo arrastado por Alexei e esse tocou o sino na porta de entrada da casa que foi da Ada.

A espiã estava sonolenta e olhou para os dois, ligeiramente incrédula. Alexei também estava machucado mas exibia um sorriso de vitoria.

“ – Que porra aconteceu aí?” – ela perguntou.

“ – O seu garotão resolveu defender bravamente a sua honra depois de eu derruba-lo com uma garrafa de vodca. Ainda assim, devo confessar que ele deu trabalho.”

“ – Vocês estão de brincadeira. Resolveram tirar o dia pra acabar com o meu sossego?”

“ – Oh minha linda, eu não podia perder a oportunidade de provocar o grandão um pouquinho, faz muito tempo que eu não arrumo uma boa treta com alguém do meu tamanho.”

Jake firmou os próprios pés no chão e se soltou de Alexei empurrando-o para longe. Fez alguma menção de ataca-lo novamente mas descobriu que ainda estava tonto, e provavelmente não era por causa do álcool, mas por causa de tanta porrada na cabeça. Evitou o olhar de Ada que ele não sabia que era de pena, de desprezo, se ela ia começar a rir ou as três coisas juntas. Evitou olhar o espelho para não ver o próprio estado deprimente. Lembrou de sua falecida mãe, e dos comentários dela sobre bêbados briguentos. Se arrastou até a cama de casal aos tropeços depois de se livras das roupas sujas de terra e sangue. Com o olho bom, observou a sombra da espiã entrar no quarto. Ela não disse uma palavra, apenas deitou de costas para ele, era algo bom, estava com medo dela o colocar pra fora.

Contou um minuto e então a abraçou por trás, temeroso. Só voltou a respirar quando teve certeza que ela não iria chuta-lo para longe dela. Jake chegou mais perto e sentiu o cheirinho bom do cabelo dela outra vez.

“ – Ada...”

“ – Cala a boca Jake. Não fala nada.”

Mas ele disse mesmo assim. “ – Eu amo você.”

Continua...