LEON

Desde o dia em que se casou, as saídas com Manuela em público foram planejadas exaustivamente. Não que Leon não gostasse de sair com os amigos, e as vezes até os fazia, mas não lembrava de fazê-lo com tanta frequência. Normalmente gostava de ficar sozinho nos dias livres... para o caso dela chegar... Agora esses “eventos sociais” além de serem constantes, viraram algo necessário, era importante que ele e Manuela fossem vistos sempre juntos e felizes.

Estavam em um bom restaurante ao ar livre, Sherry, Helena, Hunnigan e Manuela conversavam animadamente enquanto ele aproveitava sua dose de uísque com gelo. Era um sábado agradável e relativamente ensolarado o que o obrigou a sair de camiseta e óculos escuros. Quando ele estava no trabalho, Manuela sempre ia almoçar ali com Sherry e depois caminhavam juntas no parque, o que rendeu a pobre Sherry maçãs do rosto bem vermelhas e a deixou inclusive muito bonitinha, e quanto a Manuela, pegou um ótimo bronzeado com uma rapidez invejável. Quando conheceu a moça ela vivia trancada graças aos tratamentos bizarros que era submetida, depois foi mandada para os Estados Unidos onde vivia reclusa, foi só agora, com a moça liberta e sob um sol relativamente constante, que todos puderam notar a maravilhosa cor morena e dourada da pele dela.

“ – Então. Eu estava pensando em ir com a minha Senhora Kennedy para o golfe na próxima semana.” – Disse depois que o garçom terminou de servir a comida.

“ – Olha, que importante! Você nunca gostou de se misturar nessas reuniões sociais com os outros chefões, Kennedy.” – disse Helena.

“ – Eu sei, mas antes eu não tinha uma bela esposa para exibir na piscina daquele Country Club. Vou matar todos aqueles babacas de inveja, a maioria só tem esposas gordas ou novinhas interesseiras. E então querida, essa semana ainda você pode sair com Sherry e comprar um bikini, hã?” — a verdade era que não podia falar em voz alta – e nem baixa. Mas ele sabia que todas elas pescaram o real motivo, quanto mais pessoas vissem o casal junto, confirmando a veracidade do casamento, melhor. Só não entendeu por que Manuela pareceu tão desconfortável.

“ – Você acha mesmo que isso é uma boa ideia?” – ela perguntou.

“ – E por quê não seria?”

“ – Eu... não sei se consigo. Deve ser muita gente e... eu nem gosto de piscina.”

“ – Tudo bem, a gente acha outra atividade por lá se você preferir.”

Sherry e Manuela se entreolharam por algum tempo, até que a morena pediu para ir ao toalete apenas alguns minutos depois. “ – Sherry, você pode vir comigo, por favor?” – Pediu Manuela.

“ – Claro, dê-me um segundo e vou logo atrás de você.”

Quando Manuela partiu Sherry apenas tocou a mão de Leon suavemente. “ – Leon, não toque nesse assunto outra vez, até eu poder conversar com você. Pode ser?”

Sem entender muito bem, mas confiando na loura, apenas concordou. No domingo foi ao supermercado com Manuela e depois foram ao cinema juntos. Beijar a moça na boca não seria um problema se ela concordasse, convenceria muito mais, mas por algum motivo, Leon se sentia desconfortável em fazer tal proposta. Talvez por medo de que ela entendesse que ele queria se aproveitar dela de alguma maneira, em especial quando não era só ele desconfiava – ou tinha quase certeza — que Manuela tinha sentimentos por ele. Sendo assim, limitavam-se a andar de mãos dadas e ele buscava demonstrar afeto de outras maneiras, como passar o braço em volta do ombro da moça, ou em volta da cintura, puxar a cadeira para ela ou abrir a porta deixando que ela passasse primeiro. Em troca ela também o abraçava e era carinhosa o tanto quanto era possível.

Segunda feira de manha recebeu um convite de Sherry para almoçar. Quando teve uma pausa para o almoço seguiu rumo ao local marcado, era uma carrocinha de cachorro quente relativamente distante da agência, ambos pediram suas refeições, com muito molho, muita mostarda e picles e foram caminhando até o quanto mais afastados dos outros transeuntes conseguiram. Até que Sherry começou.

“ – Manuela não está curada, Leon.”

“ – O quê?”

“ – O vírus não está inativado. Ela apenas o controla, e tem o domínio de tudo durante todos esses anos.”

“ – Por quê ela nunca me disse?”

“ – Ela nunca se sentiu realmente segura para fazer uma revelação dessas. Você sabe... as paredes tem ouvidos... Manuela tem uma capacidade de se regenerar melhor do que a minha... eu sei bem o que é isso, Leon... não querer que nos olhem como uma aberração. Principalmente quem a gente gosta.”

“ – Eu nunca a faria se sentir mal.”

Sherry sorriu. “ – Eu sei disso também. E ela tem muita sorte de ter você. Talvez um dia ela perca as reservas e te mostre do que o corpo dela é capaz... mas até lá, tenta não forçar a barra.”

“ – O que eu fiz?”

“ – Você quer leva-la a um clube... a uma piscina. Ela é muito tímida e tem vergonha de falar a respeito, especialmente com você. Mas Como você acha que ficou o corpo dela depois de tantos transplantes de órgãos? A capacidade de se reconstituir dela é melhor do que a minha, mas não é tão estética. Eu não ganho cicatrizes, mas ela, tem as velhas...”

Leon serrou os olhos e bateu na própria testa. Mas é claro. Até hoje ele lembra do vestido branco e ensanguentado daquela mocinha tão frágil que ele conheceu, das feridas abertas, daquele corpinho magro se esvaindo em sangue, lutando para não sucumbir ao poder do vírus. No fim, ele foi aceito e adaptado ao DNA dela, mas obviamente as cicatrizes antigas ainda estão lá.

“ – Eu não parei pra pensar. Tudo bem, eu vou tentar me redimir disso, de alguma maneira.”

Sherry o tocou no rosto com toda a doçura que muitas vezes só ela tinha. “ – eu sei que ela está em boas mãos. Não se sinta mal, você as vezes só é um pouco distraído..” – Ficou na ponta dos pés e se esticou o Maximo que pôde para beija-lo no rosto.

Leon não tocou mais no assunto do Golfe ou da piscina, ai invés disso comprou uma caixa de bombons importados para Manuela e quando chegou em casa disse que teve a ideia de ir com ela em um jantar da agência, ao invés de um bikini ela deveria sair para comprar um vestido, quem sabe passar o dia com Sherry e algum SPA de beleza. A moça argumentou que não tinha muita certeza se gostaria de ir num lugar assim afinal o cabelo dela é fácil de cuidar, e ela sempre fez as próprias unhas e maquiagem, quanto a massagem, ela reclamou de sempre sentir cócegas, mas Leon apenas respondeu que ela nunca saberia se é bom ou não sem nunca ter ido a um.

Em sua cabeça Manuela teria um longo dia a sós com Sherry para conversarem sobre o que elas quisessem, num lugar onde por pior que fosse, estava entupido de gente que passariam o dia inteiro tentando fazê-la se sentir mais bonita e depois eles apareceriam sim em publico, num evento noturno onde ela poderia escolher a roupa que a deixasse mais confortável.

Tinha certeza que com as dicas certas, conseguiria fazer a moça um pouquinho mais feliz.

ADA

Provavelmente todas as pessoas quando pensam “espião-assassino” tem em mente um serviço quase sempre braçal, com muitas lutas, muitas armas, muitas missões de campo ou apenas fofoqueiros disfarçados, Ada não lembrava de alguma vez algum filme ter mostrado uma única vez James Bond passando uma manhã inteira e boa parte da tarde apenas fazendo estudos de contabilidade, como ela e Jake estavam fazendo agora.

Acordaram bem cedo, tomaram um rápido café da manhã e partiram imediatamente para a pilha de serviço que os esperava em cima da mesa. Os inúmeros contratos d e Syaoran e de suas empresas, transações bancárias, todos os negócios declarados e não declarados, legais e ilegais, na China e no exterior. Era obvio que um dia inteiro não seria o suficiente, talvez nem mesmo um ano inteiro. O nome do irmão aparecia inclusive em alguns dados da Organização na investigação sobre as armar biológicas traficadas para o Cazaquistão. Era incontável o numero de pessoas que ficaria feliz em vê-lo morto, principalmente por causa de seu nobre pai, não seria nada inteligente investigar apenas as hipóteses mais óbvias.

Remexeu o quadris em cima da cadeira e tirou os sapatos colocando as pernas em cima das de Jake que estava sentado ao seu lado. O ruivo instintivamente usou a mão livra para massagea-la em um dos pés mesmo que sem tirar a atenção da pinha de documentos que ficou para ele checar. Aquilo era bom, nunca teve nada disso antes, mãos fortes para lhe esfregar os pés quando ela estava tensa ou cansada e melhor, sem precisar pedir.

Estava muito envolvida com problemas pessoais e de família desde que chegou, não dava a Jake a devida atenção durante esse tempo e ela sabia disso. A verdade era que sentia falta dele... observou os lábios finos e secos dele com o canto dos olhos, o nariz imponente, os ombros fortes e o peito desnudo do rapaz sem camisa por causa do calor. Foi quando percebeu que lambeu os próprios lábios mordendo o inferior em seguida. Jogou a caneta para o lado. Jake só tirou a atenção do trabalho quando percebeu que ela se esgueirou feito uma cobra para cima dele.

Ada de novo, não precisou pedir. Jake a puxou, colocando-a em seu colo e beijando-a em seguida. Jake não tinha lábios macios, eles eram secos e firmes, mas só o toque a deixava louca, ele não tinha qualquer tipo de cuidado ou delicadeza com ele mesmo, sua beleza se encontrava justamente na sua masculinidade pura, quase bruta, não usava colônia ou loção pós barba, Jake cheirava a homem! Em algum momento ela ouviu o rapaz abrindo um espaço por entre aquela papelada e em seguida sentando-a naquela mesa enquanto a segurava pelas ancas.

Levou as mãos até o cós da bermuda dele quando ele começou a trabalhar com o zíper de seu vestido... então o sino da porta tocou. Interromperam o beijo ofegantes. Ada pulou de volta ao chão enquanto Jake foi atender a porta. A duas senhoras idosas e uma mocinha pareceram envergonhadas de ver o grandão aparecer, sem camisa, de bermuda e chinelos, ele mesmo coçava o cabelo ruivo e revolto que começou a crescer um pouco sem jeito pela forma como elas o olhavam.

“ – Nós... trouxemos presentes... para o menino.” – Disse a mais velha.

Ada franziu as sobrancelhas num primeiro momento, depois foi até a porta checar. Todas carregavam sacolas de presentes, tudo muito bem embrulhado.

“ – O Senhor Wong anunciou a chegada de um menino, não podíamos deixar uma noticia tão bem afortunada passar em branco. É uma mulher de muita sorte.”

Todos os empregados eram tão fieis para com o seu pai, era praticamente impossível ao menos imaginar que o assassino de Syaoran tenha contado com a ajuda de qualquer um deles. Era uma verdadeira devoção.

“ – Obrigada.” – Foi tudo o que conseguiu responder. Apanhou as sacolas com Jake e fechou a porta.

Jake levou as sacolas todas para o quarto e Ada não sabe explicar bem como, ou quem começou, mas rapidamente estavam abrindo os embrulhos. Tinham muitos trajes típicos chineses, feito a mão com várias camadas se seda fina. Sapatinhos, chapeuzinhos, outras peças feitas com lã, já podia imaginar o seu bebê vestido como um principezinho chinês dentro daquelas roupinhas. Os comentários eras divertidos e até o bruto do Jake parecia um bobo pegando naquilo. Mas de tudo, o que fez o seu coração quase falhar, quando abriu uma sacola de camisetinhas simples de malha, daquelas que parecem ter sido feitas só para o nenê sujar com estampas bobas do tipo: “Salva-Gatas”, “Sou da mamãe”... e em uma delas, estava estampado o escudo da policia de Nova Iorque com suas iniciais “N.Y.P.D.” e embaixo “Police”.

Ada tomou a camisetinha entre as mãos com todo o cuidado, como se carregasse a coisa mais preciosa do mundo ali, e quando percebeu que brotaram lágrimas em seus olhos já era tarde demais, não pôde evita-las. Secou-as o mais rápido que pôde com a ponta dos dedos na esperança que Jake não visse e se segurou o Maximo, tão bem quanto só uma mulher como ela era capaz para que novas lágrimas não viessem, e não vieram.

“ – Ok. Chega de brincar. Tem trabalho esperando a gente.” – botou tudo de volta dentro das sacolas rapidamente e a guardou no armário. Jake pareceu não entender a mudança repentina dela afinal, ela sabia que antes das roupinhas ela demonstrou apenas que definitivamente não estava mais a fim de trabalhar. Mas tudo bem. Havia tantas coisas outras coisas ali que ele não podia entender, nem ele e nem ninguém.

JAKE

Por fora parecia uma simples reunião familiar e de negócios. Mas por dentro, Jake sabia que era uma missão. Tanto o é, que Alexei foi chamado de volta, para sua sorte, existia uma casa de hóspedes, não queria O Agente ali atrapalhando seus momentos à sós com Ada.

Terminou de se vestir e calçar enquanto Ada ainda estava terminando a maquiagem, sentada na penteadeira usando apenas um roupão de seda branco. Parece que não importa se elas são meninas, jovens ou velhas, não importa a raça, a cor, a nacionalidade, se são mulheres comuns ou super espiãs... todas elas demoram para ficar prontas.

Não que Jake estivesse reclamando, afinal o que poderia ser melhor que assistir Ada de arrumar? Sempre foi um show de entretenimento todos os dias, mas hoje em especial. Não tirou os olhos dela enquanto ela se secava e depois passava o hidratante – ajudou a passar o creme nas costas dela – depois ela vestiu o roupão e secou o cabelo que agora parecia mais negro, perolado e sedoso do que nunca, a pele parecia veludo, mas foi quando ela se despiu novamente para colocar o vestido que Jake percebeu o quanto ela era ainda mais deslumbrante. Assistiu sem perder um único detalhe das curvas dela que a cada segundo eram mais escondidas pelo tecido caro daquele cetim dourado, o vestido era decotado na frente e nas costas, os seios enchiam o decote perfeitamente, o cetim que ia até a altura dos joelhos delineavam o bumbum perfeito deixando de bônus uma parte das pernas de fora...

Podem falar o que quiser, Jake não a conhece a anos, mas ele sabia, tinh certeza que Ada nunca foi tão linda. Não só pelos hormônios que estavam agindo sobre a pele e o cabelo, mas pela gravidez em si. Existe algum momento na vida de uma mulher em que ela é mais mulher do que quando ela está grávida? Mais feminina? Era óbvio que não. Esse era o momento em que elas faziam aquilo que somente elas podem fazer e o resto que choramingue! Não adiantava qualquer homem pensar que tinha grande participação naquele fenômeno, quase um milagre... se ele mesmo for parar pra pensar, tudo o que sai de seu pau é porra. Eram elas que faziam toda a mágica acontecer. E seja lá quem foi o “doador” do “material” usado por Ada, com certeza é um infeliz. O sortudo privilegiado que estava assistindo aquele mulher fazer a sua melhor e mais memorável obra, ali, de camarote, era ele, Jake Muller.

Quando Ada tentava fechar o zíper nas costas, Jake percebeu que ela estava deslumbrante demais para simplesmente sair “a mostra” por aí. Esse momento era seu, não era pra ser dividido com mais ninguém. Sabia que isso não fazia o menor sentido, mas era exatamente o que sentia.

“ – Jake, me ajuda a fechar? Tá duro.”

“ – Eu também tenho uma coisa dura pra você.” – tinha a intenção de sussurrar mas sua voz saiu mais grave e mais alta do eu o planejado, quando a puxou por trás e encaixou os quadris dela aos dele, para que ela sentisse.

Enquanto praticamente arfava no pescoço dela, indo até a orelha, pôde perceber que ela ficou arrepiada, mas tudo o que ele ganhou foi uma cotovelada na barriga – de leve.

“ – É serio Jake. Por Favor.”

“ – Eu acho que você não devia insistir. Usa outro. Esse ficou pequeno.” – Um que você não fique assim, toda a mostra.

“ – Se você soubesse quem desenhou esse vestido e quanto ele custou você ia entender que ele TEM que entrar, não importa como!”

“ – Usa depois que o pivete nascer.” – Não, não use esse vestido nunca mais.

“ – Jake...” – Ela tinha um olhar assassino.

Ele apenas emburrou a cara, provavelmente estava até fazendo beicinho como um menino fazendo pirraça, mas obedeceu. “ – Respira fundo” – quando ela o fez, puxou o zíper todo de uma vez.

“ – Assim está bem melhor.” – Ela disse satisfeita enquanto de olhava no espelho. “ – Ah, vem aqui.” – A espiã passou algo nas mãos, um produto que ele nem sabia o que era e depois espalhou no cabelo dele, penteando-o com os dedos. Ela tinha um toque tão suave, o ruivo abaixou o olhar para o decote... Jake só queria enfiar o rosto nos peitos dela enquanto ela fazia aquilo para sempre. Então ela parou. “ – Pronto, tá lindo!” – Jake se olhou no espelho e seus cachos estavam domados em ondas suaves, tudo penteado para trás. Sentiu o perfume dela quando ela o espalhou com os pulsos, um embaixo de cada orelha. “ – Vamos Jakob!” — Mais uma vez assistiu em silêncio ela subir nos sapatos de salto e sair do quarto.

Alcançou-a á tempo e saíram de casa juntos. Ofereceu o braço para ela que aceitou de bom grado. Afinal nem era só pelo fato de formarem um casal, mas principalmente por causa do terreno irregular, da gravidez e do salto bem alto que ela usava. Contudo, a verdade, era que Ada se equilibrava muito bem se a ajuda dele.

A casa principal tinha um salão de festas de cair o queixo, com a arquitetura e decoração tipicamente chinesas. Todos muito bem vestidos, inclusive ele que ao contrário de todos ali, não usava um smoking, apenas um terno preto e uma camisa grafite sem gravata, mas ainda assim de acordo para a ocasião – Ada quem escolheu.

Para todos os lugares onde Ada ia, Jake ia atrás. Quem parava para conversar, ela o apresentava. Nunca como “meu namorado” ou algo do tipo, era sempre “Esse é Jake Muller.”. E assim como ele suspeitava que fosse ser, ela era constantemente alvo da atenção masculina naquele salão, dos mais jovens até os mais velhos . Tudo o que ele podia fazer, já que ela não falava nada, era demonstrar ao maximo que a dama estava acompanhada. Puxando-a sempre para si, abraçando-a e ficando sempre ao lado dela. Quando alguém a encarava, Jake encarava o sujeito de volta, olhando-o no fundo dos olhos com a expressão mais insatisfeita que podia fazer até o fulano desviar o olhar.

Ao longe uma senhora mas que nem de longe parecia ser tão idosa quanto Long-Meng mas ao lado dele, surgiu acompanhada de um homem com aproximadamente 50 anos.

“ – É a esposa do meu pai. E aquele é o marido da minha irmã.”

“ – E onde está a sua irmã?”

“ – Ela não sai de casa, nem ela nem as filhas. São duas.”

“ – Devemos ir lá falar com eles?”

Ada sorriu. “ – Eu não tenho status familiar para isso. Eu sou a filha mulher de uma das concubinas.”

Jake observou a infame senhora mais uma vez e percebeu que ela o observava também, especialmente os olhos daquela mulher caiam de forma quase odiosa em cima de Ada... e principalmente da barriga grávida que a enteada praticamente ostentava.

“ – Ela me odeia.”

“ – Sim, você é a filha do grande amor do seu pai.”

“ – Não. Eu sou a filha da Ejine e mulher que carrega o neto dele. Teoricamente, com a morte do Syaoran, meu pai não tem mais um herdeiro, só sobrou a filha legitima, que sendo mulher o lugar e o título do meu pai passa para o marido dela, Zhizhao. Mas aí, eu apareço grávida.”

“ – Pera aí, então o pivete será...”

“ – Nunca. Nem passando por cima do meu cadáver.” – Ela o interrompeu. “ – Mas a minha madrasta não sabe disso. De qualquer maneira o nascimento do meu filho ainda é mais baixo que o da filha dela. Por exemplo, em outros tempos, nem o sobrenome do meu pai eu poderia carregar, essa lei mudou, mas tradicionalmente eu sou ilegítima. Além dele ser meu filho, o pai dele é um ocidental desconhecido... enfim, meu pivete é um bastado por parte de pai e mãe. Para que o meu filho seja herdeiro legítimo do meu pai, minha irmã teria que morrer e até onde sei, ela é jovem e saudável. Mesmo assim, aquela senhora nos vê como ameaça.”

Jake a abraçou protetoramente, uma porque o olhar fuzilante daquela senhora o estava provocando arrepios, duas porque tampava pelos menos um pouco do decote que Ada tinha nas costas.

Então, chegou o que parecia ser a primeira coversa realmente importante da noite.

“ – Ada Wong” – Disse o senhor.

“ — Shi Chao” – Ela cumprimentou oferecendo a mão. “ – Esse é Jake Muller.”

“ – Nunca poderia nem ao menos imaginar, um dia te ver nesse estado interessante.”

Ada revirou os olhos e sorriu. “ – É A vida é uma caixinha de surpresas.”

“ – Bem vamos deixar de rodeios, me procure amanhã a tarde, hoje eu durmo aqui, depois minha esposa e eu voltaremos para o hotel na cidade, antes de anoitecer quero estar a caminho de Xangai, portanto não demore. Eu acho que tenho um material que possa te interessar. Algo que te leve até o assassino do seu irmão.”

Ada o puxou pelo cotovelo e num tom ameaçador disse: “ – Velho, você não devia sair dizendo isso por aí.”

Ele apenas sorriu de maneira arrogante. “ – Você acha mesmo que alguém aqui pode comigo? Até porquê, eu sei... o assassino não está aqui!”

“ – Se você tem tanta certeza.” – Ada o soltou de maneira suave, mas ela tinha um brilho estranho nos olhos. – “ – Te vejo amanha, o mais rápido que eu puder.”

Depois disso Jake foi arrastado por ela para outro canto do salão.

“ – Ada, o que houve?”

“ – Sabe Jake, a diferença entre ser um bom espião e um simples fofoqueiro de disfarce é conseguir ver além de todas as possibilidades. Guarde essa informação, se um dia precisar. Nem tudo é o que parece ser. E você deve acreditar que as pessoas são capazes de fazer o inimaginável. Consiga imaginar além da imaginação, e ninguém te pegará de surpresa.”

Jake não se atreveu a pensar que sabia do que ela estava falando, mas escutou atentamente. Porém uma coisa ele já percebeu, Ada desconfiava da madrasta e do cunhado! Seria possível? É tão clichê! Fong-Weng não parece homem de ser passado pra trás dessa maneira, ele saberia. Contudo, não disse uma só palavra, sabia muito bem que nem naquele salão, nem naquela propriedade havia um lugar seguro.

“ – Está aflita?” – Jake perguntou.

“ – Não. Só quero que amanhã chegue logo.”

Jake sorriu maliciosamente e chegou ao pé do ouvido dela. “ – Então vamos embora, a gente aproveita melhor a noite e faz o tempo passar mais rápido. Amanha vai chegar rapidinho.” – Essa era a sua deixa. A Deixa pra sair de uma festa chata, e mais importante ainda, a deixa para tirar Ada – e aquele vestido – daquele lugar e por fim deixa-la nua outra vez, e só ele poderia vê-la.

“ – Ah Jake, eu tenho saído tão pouco. É obvio que eu vou ficar mais e...”

Até que um alto “rrrassgg” de o tecido a silenciou. Ada levou as mãos até as costas e ficou vermelha. “ – Jake... meu vestido...”

O ruivo virou-a de costas pra ele e constatou o rasgo em toda a extensão do zíper até a bunda. Era só o que faltava, olhou emburrado em volta para todos os cidadãos circulantes certificando-se que ninguém estava olhando para ela, embora sentisse como se inúmeras câmeras de celular estivessem filmando a sua amada agora mesmo e amanha o bumbum da espiã estaria nos piores sites pornográficos. Tirou o paletó rápido, completamente esbaforido e jogou por cima dela.

“ – Jakob. Tente agir disfarçadamente!”

“ – Eu avisei que isso estava apertado!”

“ – É você conseguiu! Agora eu vou mesmo ter que ir embora.”

“ – Eu? Foi você que vestiu uma roupa dois números menor que o seu.”

Agora era Ada quem tinha um olhar fuzilante. “ – Diga mais uma vez que esse numero é duas vezes menor que o meu e será um homem morto!”

Talvez ela não estivesse brincando. Achou melhor apenas a abraça-la por cima do paletó e sair com ela daquele lugar o mais rápido possível.

Chegando na casa da falecida Ejine, Ada correu para o quarto. – era incrível como ela conseguia correr com aquele salto escadas à cima – quando Jake chegou a viu quase choramingando em frente ao espelho. E acima de tudo, linda, com o corpo ainda mais exposto. Jake não sabia, como deixou que ela saísse com aquele vestido.

“ – Droga, estragou. Nem tem mais como consertar.” – disse com a voz chorosa. – “ – ele era exclusivo! Custou uma fortuna...”

Jake poderia soltar fogos de artifício para comemorar se tivesse alguns. “ – Não fica assim. Você compra outro.” – Ah mas não compra mesmo! Aproximou-se dela tocando-a no rosto e se fazendo de compreensivo.

“ – Olha de novo pra mim? As vezes tem como costurar.”

“ – Claro.” – Disse com a voz mais calma do mundo, mas depois tudo o que se ouviu foi um rasgo violento que ecoou por todo o quarto, tão mais alto que o outro, que Jake desconfiou que os convidados lá na outra casa puderam escutar. Mais um rasgo na frente. Pronto, ela estava nua. E nunca mais usaria aquele vestido outra vez.

Ada tinha um olhar incrédulo e o queixo quase caído. Ela botou as mãos na cintura, como ela sempre fazia quando estava sem paciência. Mas tudo o que Jake fez depois de cheirar o tecido rasgado e atira-lo no chão foi dizer: “ – Viu? Consertei.” Deu o ultimo passo em direção a ela encarando o corpo quase nu diante de si. “ – Tá bem melhor agora.” – Enquanto tirava a camisa. E depois a puxou pela cintura.

“ – Isso foi desnecessário.” — os olhos dela ficaram escuros.

“ – E você gostou.” – Tomou um seio dela com a mão e apertou o mamilo excitado.

Foi ela quem o beijou primeiro. O beijo morno e cheio de paixão que eles não trocaram desde que chegaram naquele lugar. “ – Acho bom você se superar hoje, Jakob. E talvez eu te perdoe pelo meu vestido.”

Continua...