ADA

Abriu os olhos aproveitando o calor em baixo das cobertas. Sim, acordou muito bem aquecida para quem dormiu sem ligar o aquecedor e ela sabia muito bem por que. Estava deitada de costas para Jake e nesse exato momento, não teve coragem de virar-se para ele, foram poucas as vezes durante curtos períodos de sua vida que dividiu a cama com alguém enquanto dormia. E a sua própria cama, em sua própria casa, essa foi a primeira.

Por um lado sentia-se tão bem. Foi uma noite maravilhosa onde ela finalmente conseguiu jogar alguma água fria nas bombas de hormônios que vinham lhe queimando por dentro. No começo a gravidez era só enjoo e tontura, mas quando finalmente saiu do terceiro mês, todo o mal estar foi embora dando lugar as benditas mudanças hormonais, onde seus seios ficaram maiores e muito sensíveis, quando descobriu ter zonas erógenas em lugares onde antes pensava não ter, quando sua libido elevou a níveis alarmantes, como nunca antes. E durante todo esse tempo, permaneceu tentando a todo custo ignorar as qualidades do jovem ruivo, que exibia toda aquela altura e força, um bruto, bronco, arrogante e ao mesmo tempo capaz das atitudes mais doces... algo que ele só pode ter herdado da mãe. Claro, não podia esquecer esse detalhe, além de tudo, Jake era filho do Wesker! De uma certa maneira, Ada gostava disso, a fazia lembrar a Ada que foi um dia, aquela que Leon enterrou por tanto tempo.

E tinha também o outro lado, o lado do desconforto e da dor na consciência. Ada acariciou a barriga enquanto sentia o filho mexer lá dentro. Lembrou-se de todas as escolhas que fez desde que um certo policial, um louro bonitinho de olhos azuis, cruzou o seu caminho e quase a fez perder o rumo. E de cada uma das escolhas que ela tomou desde então, que a colocaram onde estava agora. Ela tinha o filho de Leon ali, virando cambalhotas dentro dela, e o gozo agora seco por entre as suas pernas, era de Jake.

E o que há de errado nisso, Ada? Você não está vendo nenhum Leon interessado em você, está?

Ela inclusive sabia muito bem onde Leon estava. Ele estava casado, e se o casamento for mesmo uma farsa (pelo menos por enquanto...) tudo bem, ele ainda tem a Agente Harper sempre ao lado dele para suprir qualquer necessidade que ele tenha e por ventura o casamento não o satisfaça. Não adiantava se lamentar, não adiantava ficar triste e desejar que as coisas fossem diferentes. Não iria mudar nada.

Ele não está aqui. Ponto final.

Finalmente virou-se para Jake e imediatamente, ele abriu os olhos. Ada sabia como era o sono de um mercenário, de um guerrilheiro, um rebelde, um assassino. Ele tinha que dormir o suficiente para estar saudável, bem disposto e pronto para o combate, porém tinha que ter o sono leve o suficiente para acordar antes do primeiro passo de um possível intruso que veio abrir sua garganta. Jake tinha o sono de um felino, um simples movimento, e ele abria aqueles olhos azuis como se nunca estivesse dormindo.

Ada fitou-o em silêncio. O cabelo ruivo e a pele tão branca o diferenciavam do pai, Wesker era um louro com a pele bronzeada. Jake era tipicamente ruivo, no inverno e outono da Edônia sua pele era de uma brancura imaculada, no Cazaquistão e até mesmo nos míseros dias que fez sol ali na Mongólia, as sardas típicas dos ruivos começaram a aparecer... e isso era o maximo que sua pele podia reagir ao sol, o rapaz não conseguiria se bronzear nem artificialmente, se quisesse. Ada ficou curiosa para saber como ele ficou quando esteve na selva na América do Sul.

Lembrava de só ter visto a cor natural dos olhos de Wesker uma vez na vida, um baile de confraternização da Umbrella que aconteceu na Flórida, antes dele ser mandado para Raccon City, onde ela compareceu como pesquisadora e namorada de John. A mãe de Jake pode até ter tido olhos azuis também, mas definitivamente, aqueles olhos eram do Wesker! Olhos sérios, como se fossem sempre raivosos, atentos a tudo, brilhantes como safiras... olhos de um felino cercando a presa. Ada sempre teve uma queda por homens de olhos azuis... Leon tem olhos azuis lindos e foi a primeira coisa que ela reparou nele quando o conheceu, mas eram diferentes, eram grandes olhos azuis, como janelas para o céu, angelicais, bondosos, ingênuos... ele nunca soube o quanto ela se perdia neles.

Jura que vai começar as comparações, Ada?

Ela se repreendeu, mas continuou. Jake tinha uma ausência completa de pêlos no peito e na barriga, nem mesmo nos braços ele era peludo. Leon não chegava a ser peludo, mas tinha uma pouca e fina camada de pêlos dourados no meio do peito, nos braços e abaixo do umbigo e ela adorava brincar com eles. Ada tocou o rosto de Jake, era um rosto extremamente masculino do tipo russo-troncudo, de traços fortes, o que inclusive o faziam parecer mais velho do que era. Não era de impressionar ele conseguir entrar nessa vida com somente quinze anos de idade, com aquele tamanho e com aquele rosto, poucos acreditariam ser um adolescente. Contudo, Ada duvidava que fosse fácil crescer alguma barba ali. Aliás, naquele homem, uma bela barba ruiva e algumas tatuagens, era só o que faltava para ele terminar de assustar os mais sensíveis.

Jake era lindo à sua maneira, mas ela entendia o porquê dele não compreender isso. De fato, ele não é o tipo de homem que agrada qualquer mulher, principalmente as da idade dele. E ela mesma não é ninguém para julga-las, quando tinha vinte e três anos, caiu de amores por um policial bonitinho de vinte e dois com carinha de anjo. O ruivinho, com aquele comportamento, aquele tamanho, aquela cicatriz e aquelas roupas com seus coturnos e cabeça raspada, deve ter assustado muitas menininhas...

“ – Bom dia.” – Disse ele serpenteando a mão em suas costas por baixo das cobertas e se aproximando.

“ – Bom dia.” – Ada tentou desviar o olhar e responder da maneira mais seca que conseguia. Ele sabia que estava sendo observado, a essa altura, sabia pelo menos um pouco do quanto ele a atraía, ou melhor... ateava fogo nela. Isso aconteceu a noite inteira. Se ela continuasse ali, olhando pra ele daquele jeito, deixando ele chegar perto... ela sabia muito bem como iam acabar, com as cobertas no chão e ela montada em cima dele, mordendo os lábios com força para não ter que passar a vergonha de gritar e deixando aquele moleque, que acabou de chegar, todo convencido. Desviou dele como pôde e pôs-se de pé vestindo um roupão o mais rápido que conseguia para esconder a nudez, não porque estivesse envergonhada, mas porque não queria botar mais lenha na fogueira e fazer o homem pular até ali.

Jake se ergueu um pouco, apoiando em um cotovelo, enquanto Ada terminava de amarar o roupão ela sentia os olhos dele varrendo cada parte de seu corpo. “ – Ainda volta pra cama ou levantou de vez?” – ele perguntou.

“ – Voltar? Deixa de ser preguiçoso, Muller.”

Ele deu o seu melhor sorriso de lado, daquele sem mostrar os dentes, que o fazia ficar quase igual ao pai, só que dessa vez, muito mais filho da puta que o Wesker. “ – Preguiça? Você acha mesmo que se voltar, é pra descansar?”

Ada sentiu o calor familiar subir pelo seu corpo inteiro. Você tem que sair daqui, Ada. Agora...

Virou as costas e deixou o quarto, rumou o mais depressa que pôde até a cozinha. Lá chegando, não sabia exatamente o que fazer. Ada sempre foi uma pessoa muito controlada, mas nesse exato momento, um sentimento estranho, um pouco parecido com a euforia, tomava conta dela.

Que merda eu estou fazendo? O que eu fiz?

Seus olhos buscavam algo para comer, então percebeu que não tinha fome. Talvez um chá fosse uma boa ideia...

Tá, eu transei com o Jake, foi isso o que eu fiz. E daí?

... Um chá. Chazinho para acalmar os nervos. Um chá pra ficar “zen” como todo bom oriental deve ser...

E daí que eu gostei! Gostei pra caralho!

Separou a folhas de chá Pu’er rapidamente enquanto procurava a chaleira. Era Jake quem arrumava a cozinha e fazia praticamente tudo ali, percebeu agora que tudo mudou de lugar e ela não sabia mais onde se encontravam as coisas.

Mas do que eu estou reclamando afinal, então era pra ter sido ruim?

Encontrou a chaleira na parte de cima do ultimo armário. Era por isso que não estava encontrando nada. Tinha um homem que 1,90 lavando, secando e guardando as coisas ali. Ada precisou puxar um banquinho para pegar.

Não é por isso. Não é porque trepei e gozei, mula! É porque eu gostei. Eu gostei...dele. É porque eu gosto dele.

Encheu a chaleira d’água, e quando finalmente a colocou no fogo sentiu novamente aquela pancada súbita na memória, aquele incômodo persistente, que sempre a persegue, que nunca a abandona. A batida na porta da frente.

Leon. Leon. Leon.

Por que gostar tanto daquele rapaz é um problema? Não seria tudo tão mais fácil? Tão mais fácil... Com Leon sempre foi tudo tão complicado, como um pássaro e um peixe apaixonados, se amavam mas simplesmente não tinham para onde ir... e agora, por fim, Leon se decidiu e foi buscar outro caminho. Então...

“ – Ada?” – A voz masculina de Jake, ali de pé na porta da cozinha a tirou de seus devaneios.

Ada o encarou, no fundo dos olhos, ela queria dizer algo no qual ela tinha certeza, porém agora, já não tinha mais. “ – Jake... eu não sei se é uma boa ideia deixarmos isso se repetir.”. Ela tentou parecer o mais firme possível ao dizer isso. O ex-mercenário ergueu as duas sobrancelhas, se ela desviasse o olhar ele ia saber que ela mente.

Ele caminhou uns dois passos na direção dela. Ada era obrigada a olhar pro alto para encara-lo, Jake era quase do tamanho da porta. Ele estava com o corpo quase todo exposto, por um momento os ombros e os braços dele pareceram tão grandes que ele seria capaz de quebrar um urso. Definitivamente, Jake não era do tipo que agradava qualquer mulher, em especial, aquelas que não sabiam o que fazer com um homem como ele, muito menos como aproveitar seus inúmeros benefícios. A espiã lembrou que nunca antes em toda a sua vida, teve um homem de cueca na sua cozinha... Jake olhava fixamente para o seu busto e Ada percebeu que seus mamilos a traíram novamente por baixo da seda vermelha de seu roupão.

Contudo, Jake não discutiu, chegou perto devagar e beijou seus lábios rapidamente. “ – Certo, se você precisa pensar mais um pouco. Eu espero.”

Por que um mercenário, assassino, sanguinário, arrogante, bruto, bronco e nervosinho tinha que ser tão certinho, cavalheiro e compreensivo nas horas mais inapropriadas para o sê-lo? Essa era a resposta errada. Muito errada!

Ada o puxou pelo pescoço com tanta força que ele quase tropeçou. O beijo dela foi faminto como se ela não o beijasse há séculos. Ela sabia que até agora, ainda não o tinha beijado assim. Ela sugava e mordia os lábios dele numa selvageria tamanha, que a essa altura, ela já não estava mais se importando tanto sobre ele saber, ou não, o quanto ele era capaz de fazer o seu sangue ferver. Ela escutou o barulho das fitas de seda de seu roupão serem desfeitas com toda a pressa e depois ela mesma deixou que ele fosse ao chão, agora as mãos de Jake finalmente percorriam todo seu corpo desnudo.

Jake saiu do beijo que até então não tinham interrompido para soltar um grunhido de prazer quando botou de uma só vez, dois dedos dentro dela. “ – Oh... tão molhada... eu acabei de chegar... e você já tá assim?”. A única resposta que ela deu a ele foi abaixar a cueca verde escuro até o meio da coxa num movimento só, torcendo depois para não ter machucado aquilo que já não estava nem cabendo mais lá dentro com seu movimento tão brusco. Ada choramingou em protesto quando ele retirou os dedos dela, para então ter toda sua frustração recompensada quando ele a ergueu pelas nádegas e a encostou contra a parede, e, finalmente penetrando-a de uma vez.

Ada queria gemer alto enquanto Jake entrava e saia dela fazendo seus quadris baterem de forma barulhenta, rápida e ritmada, mas não podia graças ao fato dele ter atacado a boca dela também com outro beijo tão selvagem quanto o primeiro. Ela gemia dentro da boca dele e agora, já nem tinha como saber em que volume aquilo sairia. A chaleira começou a chiar, mas ambos ignoraram, perdidos naquela parte secreta de um mundinho particular dos dois onde o resto do mundo não existia mais. O ruivo apertava suas nádegas com mais força enquanto se movia com mais pressa. Ada cravou as unhas, que ela sempre usou curtas mas agora estavam um pouco mais compridas nos ombros dele, de novo ela gemia na boca dele e ela fazia o mesmo na dela enquanto suas línguas brigavam uma batalha tão intensa quanto a de seus corpos, as unhas da espiã desceram cravadas naquela pele branca, sentindo o contrair de cada um daqueles músculos enquanto se arremetia mais forte, mais fundo, quando finalmente chegou nas nádegas, ela cruzou as pernas o mais forte que podia em volta dele... e gozou. Ela sentiu o próprio corpo sacudindo nos braços dele, enquanto ele pulsava e se derramava dentro dela.

Finalmente desfizeram o beijo buscando pelo ar que chegou a faltar além dos limites suportáveis. Quando Jake a pôs no chão, ela descansou a cabeça contra o peito dele deixando que ele ajeitasse seus cabelos desgrenhados e molhados de suor. Então ela escutou o barulho de um forte tapa e da chaleira indo parar do outro lado da cozinha. Ada riu baixinho, foi Jake silenciando aquela chiadeira, com toda a elegância que só ele tinha.

“ – Então...” – Ele começou, ainda ofegante. “ – O que você estava dizendo sobre isso não se repetir?”

Ada abraçou Jake, depositando suaves beijos no peito dele, então disse com sua voz mais inocente: “ – Eu não sei do que você está falando, Jakob.”

LEON

Leon dirigia com cuidado pelas ruas de Washington com um alívio estranho, uma sensação de dever cumprido. Ele olhava para Manoela sentada no banco do carona, completamente alheia a presença dele ali, concentrada apenas em olhar a paisagem e as ruas que passavam diante de seus olhos.

Normalmente essas determinações da justiça demoram a sair, mesmo quando se tem pressão popular, ativistas e autoridades do mundo inteiro agindo para que tudo ande mais rápido. Leon não esperava que em apenas uma semana após o seu casamento com Manuela estaria finalmente levando-a embora daquele lugar. Hoje se perguntava por quê nunca teve essa ideia antes... no fundo ele sabia, talvez porque no fundo, bem lá no fundo, ele acreditava que seu futuro não seria ali, mas num lugar longe... bem longe, com uma certa outra pessoa.

No entanto, foi essa a peça que o destino lhe pregou. Ele não teve sorte no amor. Paciência. Ada seguiu a vida dela como achou melhor e a ele so restou a vida que sempre teve, solitária e sem nenhum plano específico. Ou seja, tinha tempo de sobra para ajudar uma amiga. Deveria manter esse casamento por um breve período, cinco anos no máximo, e então Manuela poderia ser naturalizada e estaria livre, de todos... inclusive dele. O que ele faria depois disso, bem pouco importa. Amanha é outro dia... e o amanha, pode nem vir a acontecer.

Carregou todas as malas ele mesmo assim que chegaram ao prédio onde morava. Tomaram o elevador até o oitavo andar e então Leon apresentou sua humilde residência. Ele não podia reclamar do salário que tinha já há um bom tempo, há anos que ganhava uma quantia invejável ao ano, contudo nunca teve grandes sonhos de consumo. E como ficava pouco tempo em casa além de receber pouquíssimas visitas, nunca sentiu necessidade de morar em um lugar maior do que o seu apartamento de apenas um quarto.

Contratou uma faxineira um dia antes, a fim de preparar a chegada de sua nova...”hospede”, para não chocá-la com a capacidade que ele tinha de transformar qualquer ambiente habitável em uma pocilga num curto período de tempo. Lembrar disso fez com que um frio estranho percorresse sua espinha... Manuela não ficaria por dois dias... duas semanas ou dois meses, ela ficaria todos os dias e por anos... Leon morava sozinho desde... bem, desde sempre, definitivamente não estava pronto para dividir sua casa com alguém, principalmente uma mulher.

Sentiu o terror de ter que se lembrar se deixou ou não a tampa do vaso sanitário abaixada, se recolheu o lixo, se espalhou suas garrafas de cerveja pela casa... Sentiu uma tristeza profunda quando foi tomado por uma memória antiga... Ada ficou ali por dois dias, um fim de semana inteiro em que eles não saíram daquele apartamento, se amaram todas as horas do dia e faziam tudo juntos, tomar banho, escovar os dentes, comer, dormir... então, num daqueles afazeres em que ambos se recusavam a fazer com o outro olhando, Leon aguardava no quarto Ada voltar do toalete, tendo imaginações engraçadas sobre como seria a espiã sentadinha no troninho e fazendo pipi como uma princesa, quando se assustou com um grito dela... parece que ela foi lavar as mãos e se deparou com o que, segundo ela, foi a coisa mais nojenta que já tinha visto... milhões de pelos loiros, fazendo um tufo nojento no ralo da pia que acabou por entupi-la. Ada tentou desentupir e acabou descobrindo aquela... coisa... construída graças aos 7 anos que morava ali sem nunca limpar aquele ralo.

Ele lembra dela fazendo ânsia de vômito enquanto puxava todos aqueles cabelos e fios de barba emaranhados naquela gosma de lodo, pasta de dente, cuspe, água, catarro e bactérias e mais outras coisas que ele preferia nem saber. Uma espiã do nível dela, que já viu e matou toda espécie e qualidade de BOW com uma frieza sem igual, estava quase chorando por ter que limpar os pêlos de um ralo. Um momento tosco que acabou por se tornar inesquecível, simplesmente pelo fato de nunca ter visto Ada tão simplesmente humana, os dois estavam juntos, fazendo coisas comuns e resolvendo nojeiras comuns... Um aperto estranho tomou conta de seu peito, só de pensar que a uma hora dessas, ele podia estar com ela, em algum lugar, brigando por ele ter feito a barba na pia e não limpado, e o mundo não poderia estar mais perfeito.

“ – Leon?”

Era Manuela chamando-o de volta a Terra. Aquele mundo ingrato e entediante.

“ – Ah, me desculpe, eu me distraí aqui pensando numas coisas do trabalho, mas não tem problema, eu busco amanha.”

Leon mostrou a ela a cozinha, a geladeira que ele teve a preocupação de encher para a chegada dela, o banheiro e o quarto. Uma parte do armário estava vazia para ela, porém agora estava tarde para isso, amanha ela teria o dia inteiro para se organizar.

Pediram uma pizza e comeram com as mãos e guardanapos enquanto assistiam TV e conversavam sobre amenidades. Leon não queria tocar em nenhum assunto sério agora, não o primeiro dia dela longe daquele lugar. Quando finalmente chegou a hora de dormir, Leon pegou uma muda de roupa de cama e foi para o sofá, enquanto nenhum agente da imigração visse tal cena, estaria tudo em paz.

“ – Leon, por favor, eu posso dormir bem aí... vai para a sua cama.”

“ – Nós temos muito tempo pela frente pra discutir e até entrar em algum acordo de revezamento sobre quem dorme aonde, Manuela. Mas pelo menos nos seus primeiros dias aqui, deixa eu fazer de conta que sou um cara legal e te deixar ficar com a cama, está bem?” – Respondeu piscando um olho para ela.

“ – Você tem certeza?”

“ – Por hoje, Sim! Tenho!”

Ela sorriu divertida com ele. “ – Sendo assim, Buenas Noches.” – disse ela, dando-lhe um beijo no rosto e saindo.

“ – Buenas Noches, amore mio!”

“ – Amore Mio é italiano. Tonto!” – Ela riu antes de sumir no corredor.

Leon fechou os olhos, esperando o sono chegar, tentando não se preocupar como fato de ter que revezar sua cama e controlar seus maus hábitos de solteirão pelos próximos quatro ou cinco anos!

JAKE

Era dia de consulta médica da Ada com o obstetra, Jake esperava do lado de fora, embora dessa vez sentisse um incômodo horrível por estar do lado de fora. Hoje fazia sete dias que ele e Ada estavam juntos, muito juntos. Onde ela procurava por ele, por livre e espontânea vontade e não, somente ele a procurar por ela. Onde se amavam todas as noites até desmaiarem no sono profundo do cansaço, onde a porta do banheiro dela ficava aberta durante o banho, para que ele pudesse entrar e aproveitar com ela, onde agora, nadavam nus naquele lago após a corrida matinal, sendo assim, por quê ele tinha que esperar do lado de fora?

Além disso, era a primeira vez dela nesse médico, todo mundo sabe de casos de obstetras e ginecologistas que se aproveitam de suas pacientes e...

Droga Jake, o que você está pensando? É a Ada. Você acha mesmo que ela não sabe se cuidar numa consulta com um ginecologista?

No fundo, Jake sabia o motivo de tanto incômodo. Ou os motivos. Um, era o fato dele entender que ela lhe traçou limites... assuntos privados nos quais ele não deveria fazer parte, porém uma consulta médica para o pré-natal, significa que ela indiretamente disse que a saúde dela e do filho, não eram assunto dele. Pelo menos, foi assim que ele interpretou. O segundo motivo, era bobo e infantil... e ele sabia disso. Jake não gostava nada da ideia de outro homem estar sozinho com ela numa sala de exames, tocando nela nos lugares mais íntimos, onde só ele deveria ter acesso, e mais ninguém. Afinal, agora ela era sua, não era? Que pelo menos ele pudesse ficar la dentro, vigiando, para deixar isso bem claro.

Quarenta minutos de consulta, e finalmente ela voltou. Radiante. Jake não sabia explicar como isso era possível, mas Ada ficava mais linda a cada dia. Ele a entregou o casaco de sair quando ela chegou até ele e o beijou. Estava frio la fora.

“ – Como foi lá?”

“ – Bem. Está tudo bem.Tudo como deveria estar.”

Isso deixava Jake aliviado, como a ultima pá de cal para finalmente enterrar aquele medo bobo de machucar a ela ou ao bebê enquanto transavam.

“ – Que bom. E você gostou do médico novo?”

“ – Sim, ela me pareceu muito competente.”

Ela... Isso era outra ótima noticia. “ – Sabe, eu estive pensando. O que acha de aproveitar a cidade já que estamos aqui?”

“ – É uma boa ideia. Tem algo específico em mente?”

Jake sorriu quase que de maneira sádica. “ – Não acha que um lugar pequeno e pacato assim, é um convite a transgressão para pessoas como nós?”

Ada não tinha um espelho para se enxergar agora, mas sabia que seus olhos brilharam. “ – Jakob...” – Ela o advertiu com um sorriso igualmente sádico nos lábios. “ – O que você vai aprontar.”

“ – Me segue por enquanto... vamos dar uma aquecida, depois, o céu é o limite.” Saíram da clínica e entraram rapidamente na rua de trás, onde havia um minimercado. “ – Me espere aqui na porta, eu já volto!”

Quinze minutos depois, ele voltou pegando-a pela cintura. “ – Agora anda e tente não parecer suspeita.”

“ – O que você fez?”

Jake a ofereceu uma barra de chocolate barato, duas maçãs e um mentos. “ – Eu não paguei por nada disso.” – Gargalhou. Sua vez.

No começo ela pareceu confusa com aquela brincadeira. Jake chegou a temer por um segundo que ela fosse repreende-lo, mas então, ele viu o brilho do desafio passar pelos olhos lascivos da espiã.

“ – Amador. Parece uma criança.”

“ – Eu disse que estava só aquecendo.”

“ – Que sabe fazer direito, não precisa de aquecimento. Minha vez. Assista é aprenda.”

Duas quadras a frente, havia o único posto policial da cidade, com uma viatura parada em frente. Jake observou de longe Ada se aproximar deles. Não gostou da maneira que os dois policiais olhavam para ela, tudo bem que Ada era uma mulher linda e que estava visivelmente jogando charme para eles, mas aquele olhar era profundamente desrespeitoso. Jake sabia muito bem o que passava na cabeça deles, as inúmeras perversões pelo fato dela estar grávida. Aquela imaginação machista de que aquela barriga estufada que ela exibe sem nenhuma vergonha, era algum tipo de sinal que ela transou mais do que as outras não grávidas e não fazia questão de esconder isso e por esse motivo, merecia ser olhada ou tratada como uma... ele preferia nem pensar na palavra! Jake sempre teve vontade de esmurrar todo palhaço que ele já viu dirigindo aquele olhar ou soltando uma cantada infame – que na verdade era puro assédio – para uma mulher grávida.

Então ela voltou, rindo e satisfeita.

“ – O que você fez?”

“ – Quando estiver pensando em tocar o puteiro numa cidade, a primeira coisa a fazer é conseguir uma arma, grandão.” – disse a espiã entregando a ele as duas pistolas que ela roubou dos policiais sem que eles percebessem.

“ – Eu tenho uma arma e você também.”

“ – Não, Ada Wong e Jake Muller tem armas. Um casal de turistas como nós, precisa começar do zero. Agora vamos sair daqui, antes que aqueles dois idiotas deem por falta das armas.”

Ok. Roubar dois policiais em frente ao posto policial foi algo ousado para um aquecimento. “ – Sim senhora. E agora, o que o casal de turistas pretende fazer?”

Ada tocou o rosto dele com carinho, bem em cima da cicatriz que ele tinha na bochecha e o beijou. “ – Jakob, seu aprendiz de delinquente. Você ainda tem muito a aprender sobre transgressão. Eu vou te mostrar.”

Ela saiu na frente puxando-o pela mão, e Jake a seguiu, finalmente concluindo que ele nunca esteve tão bem acompanhado, por uma criatura tão maravilhosamente perfeita.

Continua...