JAKE

Quando bebeu o ultimo gole de sua cerveja, o copo não ficou vazio. Jake não tinha o hábito de beber, cerveja era a única bebida alcoólica que lhe apetecia. Contudo, nunca bebia mais do que uma lata e tinha que estar sempre gelada, aquele maldito restinho no fundo do copo ficava sempre quente antes que ele conseguisse bebê-lo, e assim, sempre sobrando no copo.

O garçom perguntou se queria mais alguma coisa, Jake respondeu que não. Cresceu num país extremamente frio, com invernos rigorosos, dominado por russos por muitos anos... assim como pela vodca russa. Homens edoneses aprendiam a beber desde muito cedo, ainda adolescentes. A pobreza, a falta de emprego e a desesperança por si só já fazia da Edônia um país de alcoólatras, também tinha a influência do domínio russo – povo conhecido mundialmente pelas altas taxas de alcoolismo e a importância da vodca por motivos culturais – e tudo ficava ainda pior durante o inverno, quando a pobreza parecia ainda mais pobre, a tristeza ainda mais triste, era quando havia racionamento de comida mas a vodca estava sempre à mão...

Um país com um inverno tão rigoroso deveria ter reservas para os meses em que fosse praticamente impossível o cultivo de vegetais, guardar comida para alimentar o povo e o gado no inverno gelado... mas a Edônia estava mais ocupada demais fazendo guerras, sempre alvo de disputa entre Russia x Prussia, Rússia x Napoleão, Russia x Qualquer-Um... até que no inicio do século XX, os russos ficaram de vez. Depois, vieram os nazistas, daí os russos voltaram e os salvaram de Hitler, porém, voltaram para ficar... então teve a guerra fria, e aquele lugarzinho hoje chamado Edônia, sofreu como o minúsculo território pobre que quase nada tinha para oferecer a grande União Soviética... quando se deu a queda do comunismo, os edoneses acreditaram na promessa que tudo fosse melhorar, mas por mais incrível que pareça, as coisas só pioraram... E as guerras não pararam. Resumindo, todos brigavam pela Edônia, quando finalmente viram que lá não existia nada que alguém pudesse querer, foram todos embora, e agora, deixando um rastro de fome, guerra, destruição e edoneses que brigam entre si.

Jake não bebia. Nem na escola, nem no trabalho... mesmo vendo todos beberem. Mesmo com o álcool sendo empurrado constantemente em sua direção como a melhor maneira de esquecer a tristeza e a miséria que acometia a todos. Ainda era bem viva em sua memória a voz de sua mãe, todas as vezes em que ela, muito preocupada, lhe implorava para não beber, do pânico que ela tinha do filho acabar como o resto. “Você é melhor do que isso, você é forte, Jake. Eu tenho certeza que você nunca será como eles.”. Jake continuou não bebendo mesmo após a morte dela, nem mesmo quando percorreu o mundo como um mercenário, sempre cercado de homens que bebiam só por farra e alegria.

Nunca entendeu por que sua mãe insistiu em viver lá, sabia que o pai dela, seu falecido avô Jakob Mikael Muller, era alemão, e apenas sua avó e sua mãe eram edonesas. Logo, ambos tinham direito a dupla cidadania. Poderiam ter juntado dinheiro, ter ido embora dalí, a vida dos dois teria sido muito mais fácil na Alemanha, e 100% garantida com um passaporte alemão. Jake sugeriu a mudança pela primeira vez quando tinha dez anos, e insistiu na ideia até completar quatorze, quando já era tarde demais... Mas por algum motivo, sua mãe nunca aceitou. Lembrou das palavras de Ada... ao que tudo indica, parece mesmo que sua mãe escolheu o fim do mundo, literalmente, e o único objetivo era o de esconder o filho.

“ – Que cara é essa, garoto? Parece que chegou de um enterro.” – Disse o homem de cabelos prateados sentando ao seu lado.

“ – Só acho que não temos mais nada o que fazer aqui. Não gosto de festas.”

“ – Entregou o chip de memória para o cônsul da India?”

“ – Sim, e em troca ele me deu os arquivos para intimidar o cônsul do Paquistão.”

“ – E você já o fez?”

“ – Sim, inclusive ele dedurou o Vice-Primeiro-Ministro do Turcomenistão, só que ele não está aqui.”

“ – Melhor deixarmos o Turcomenistão quieto por enquanto, ainda não temos provas documentais. Você está certo, vamos embora.”

“ – Mas e a Ada?”

“ – Hm... ela ficou um pouco indisposta, teve que se retirar mais cedo.”

Jake ficou surpreso consigo mesmo, pelo fato de ter batido um certo desapontamento com a noticia de que ela já havia ido embora. Ele não era bom com sutilezas, talvez fosse sua altura, talvez fosse a enorme cicatriz que ele tem no rosto, rosto esse, sempre com ar de poucos amigos. Mas o fato é que as pessoas normalmente já se assustam só com a sua presença, e quando ele intimida alguém, na enorme maioria das vezes, a pessoa já espera por isso. Com Ada não era assim... sempre suave, educada, com sua fala macia e expressão despreocupada — quase angelical... foi enormemente divertido ver a expressão de choque, o terror na cara das pessoas cada vez em que ela dava um cheque mate. Era como se ninguém, por mais que a conhecesse, esperasse pelo “bote”. Mesmo depois de anos de carreira, mesmo depois do escândalo com Derek Simmons, Ada wong ainda era assustadoramente surpreendente.

O ex-mercenario simplesmente não tinha qualquer pretensão de algum dia conseguir algo ao menos parecido com isso.

LEON

Apesar do cansaço da noite anterior, Leon não dormiu. Não tinha tal direito, não se permitia isso. Para dizer a verdade, só a possibilidade de cair no sono lhe trazia pânico, lamentava por cada segundo que desperdiçava fechando os olhos quando piscava. Era arriscado por que podia acabar dormindo, e era desperdício por que eram segundos em que não podia vê-la.

Até o simples ato de respirar Leon fazia com cuidado, enquanto passava seus dedos longos por entre os cabelos negros da mulher adormecida sobre seu corpo, que caiam em cascatas de petróleo brilhante em seu peito. Piscou mais uma vez, nem meio segundo e quando abriu os olhos, ela estava acordada. Era mesmo uma gata... sempre acordava assim de repente, com aqueles olhos brilhantes de quem nem estivesse dormindo até meio segundo atrás.

“ – Quanto tempo eu dormi?” – Ela serpenteou o corpo por cima dele até alcançar a altura dos lábios e beija-lo.

“ – Pouco.” – Evolveu-a em seus braços, encaixando-a nele. “ – Ainda é cedo, pode voltar a dormir.”

Ada sorriu de lado. “ – Você sabe que nessa posição a ultima coisa que faremos e dormir.”

Leon gemeu conforme ela se movimentava, provocando-o. Era sempre assim, ela acordava num instante, e já no instante seguinte já estava acesa. Ele se deixou levar pela provocação, pelos toques ousados e suaves, os movimentos lentos e intensos. O sexo matinal era sempre devagar, era fazer amor delicadamente... nunca como os que faziam à noite, e o orgasmo sempre soava como adeus.

Quando terminaram, estava por cima dela, testa com testa, suas respirações se encontrando, quando tomou coragem.

“ – A noite foi boa?”

“ – O que você acha, Bonitão?”

“ – E acordar comigo? Você gosta?”

“ – Hmmm... você sabe que sim.”

“ – Sabe, eu estive pensando... Que deveríamos fazer isso mais vezes.”

Ada tinha os olhos fechados, ainda aproveitando a sensação boa do que tinham feito minutos antes. “ – Claro. Por que não?!”

“ – Deveríamos fazer isso todos os dias.” – Leon sentiu uma ponta de pavor quando ela abriu os olhos de repente em resposta ao que ele havia dito, mas não ia voltar atrás. “ – É isso mesmo que você ouviu. Nem precisa falar nada, eu não preciso da resposta agora, eu só preciso que você pense a respeito. Já esperamos dezessete anos e talvez precisemos de mais dezessete até podermos finalmente executar um plano, por isso, não tente encontrar uma resposta agora. Eu só queria finalmente te dizer, que é isso o que eu quero e eu estou disposto a aceitar os seus termos. Eu faço o que for preciso, mudar de país, mudar de emprego, qualquer coisa.”

Ela o empurrou delicadamente para o lado e pôs-se a pensar, depois de longos segundos de um silencio mortal, ela finalmente disse: “ – O que houve? O que mudou?”

“ – Eu poderia fazer uma lista, mas de todos os itens contidos nela, o que realmente importa é você. Você também é obrigada a concordar que, depois de tantos anos, já podemos chegar a conclusão que a estória das nossas vidas já se tornou uma só, e isso foi ha muito tempo, quando tanto eu quanto você tentamos à todo custo evitar. Então, o que estamos esperando?”

“ – Eu... eu não sei o que dizer. Ao longo desses dezessete anos, você pareceu só escolher os caminhos que mais te afastavam de mim.”

“ – É isso mesmo que você acha? Diga, de que maneira seria mais fácil esbarrar em você, ter noticias suas, descobrir mais a seu respeito e quem sabe até negociar sua anistia? Como um alto Agente do Governo ou como sei lá... padeiro?”

“ – Então foi por minha causa?” – Ela tinha um tom sarcástico.

“ – Não. A primeira oferta foi para ser Agente da CIA, e quando eu aceitei, nem sabia que você estava viva. Mas teve um motivo, eles me chantagearam, capturaram a Sherry... eu... eu não tive outra escolha.”

“ – Eu conheço essa parte, Kennedy. Eu estava ainda me recuperando, quase morta, mas pude acompanhar de perto. Mas não finja que depois você começou a gostar da coisa.”

“ – Eu fiz amigos lá, gente que precisava de mim. Adam...” – Leon fez uma pausa, era doloroso lembrar dele, o Presidente foi a sua primeira, única e ultima esperança de estar finalmente no caminho certo, fazendo a coisa certa e finalmente lutando por um ideal que valia a pena... “ – Ele me ajudou a cuidar da Sherry, e mesmo depois dela se tornar adulta, eu ainda me sentia responsável por ela, depois teve a Manuela, duas vitimas que eu salvei da morte e não podia simplesmente virar as costas e deixa-las na boca de outro lobo. Ao mesmo tempo tinha você... eu achei que o melhor caminho fosse aquele.”

Ada suspirou, então sorriu. “ – Leon, escuta, você não me deve explicações. Não existem cobranças entre nós.”

“ – Eu sei. E é isso que eu quero mudar. Eu quero brigas por que um de nós chegou atrasado, discussões por quê um de nós não foi legal com o outro, eu quero cara feia por causa de ciúme... eu quero saber aonde você está, o que você foi fazer, quando você vai chegar. Eu quero estar ao seu lado quando as coisas complicarem, como foi em 2013, eu quero saber sobre a sua infância, sobre os seus pais, se você já teve catapora, já foi gordinha ou usou aparelho nos dentes. Eu não estou pedindo uma casa no campo, oito filhos e um labrador... quer dizer, não que isso fosse ruim... O que eu estou dizendo para aceitarmos o fato que, nós dois fazemos parte da vida um do outro e, finalmente, começarmos a dividi-la e vivermos juntos da melhor maneira possível. Sem segredos, sem fugas no meio da noite, sem respostas evasivas.”

A espiã tinha um brilho diferente no olhar, a principio Leon achou que ela fosse espernear, pular para fora da cama e fugir dalí. Mas não, era algo bem mais “Ada Wong” ou seja, surpreendente, era um olhar muito parecido com o dela em Raccoon City, dela assustada com ela mesma. “ – Leon... eu... não sei o que fazer, eu nunca pensei... você nunca disse...”

“ – Me perdoa nunca ter dito nada disso antes. Mas se você ainda está aqui, então é por que não é tarde demais. Tarde demais... Você não sabe o que é esse sentimento, quando eu recebi a noticia da sua morte, que era o fim da linha, que tinha acabado, que eu teria que encarar tudo o que eu não te fiz, tudo o que eu não te disse. Era como ser um pedaço de carne ambulante, morto por dentro. Eu sei... Eu já esperei tempo demais.”

ADA

Olhou pela milionésima vez a interface de seu celular. “ Já estou com saudades...”

Aquilo chegava a ser mais desconfortável do que agradável. Nunca chegou a trocar mensagens de texto todos os dias com alguém, nunca trocou mensagens de texto nenhum dia com Leon. Não sabia explicar como isso aconteceu, ambos arrumaram linhas telefônicas “limpas” para ficar em contato. A parte ruim não era receber as mensagens, pelo contrário, na primeira semana até incomodou, mas conforme os dias foram passando, seu coração dava pulinhos cada vez que uma nova mensagem chegava. Foram vinte dias de contato diário, e agora, Ada nem consegue dormir antes de receber a mensagem de boa noite.

Mas tinha a parte ruim, que era responder. Ficava horas olhando a ultima mensagem, pensando no que deveria dizer, ainda mais depois da ultima conversa que tiveram em Bruxelas. Sabia que ele estava esperando uma resposta. É claro que ela queria aquilo, já tinha quarenta anos, ninguém pode trabalhar no ritmo em que ela trabalha para sempre... Bufou longamente, a verdade é que poucos se aposentam ou diminuem o ritmo de trabalho com a idade... a grande maioria simplesmente morre. Já esperaram tempo demais...

Eu aviso quando voltar a ter sinal.” – Ela digitou e enviou. Passaria uns dias numa base de treino da organização, e aquele lugar sim, mais do que qualquer outro no mundo, não era o mais seguro para manter aquela linha protegida. Uma nova mensagem chegou.

Certo. Estarei te esperando.”

Ada sabia muito bem disso. Saia que ele esperava não apenas uma mensagem, mas também o “comando”. Nunca imaginou que um dia ele fizesse uma proposta assim, que um dia ele simplesmente desistiria de tudo e a seguisse, mesmo ela ainda trabalhando como espiã para uma organização que ele nem conhece. O sujeito esperava uma solução, qualquer uma, mesmo que fosse ele simplesmente abandonar tudo e ficar em casa enquanto ela trabalha.

“Parabéns, Ada. Você já alcançou o topo do feminismo.” – Pensou.

E justamente por nunca esperar, sonhar ou sequer vislumbrar uma decisão assim por parte de Leon, agora encontrava-se num bloqueio completo, onde simplesmente não sabia o que fazer. Leon fez questão de simplificar tudo, mas de tão fácil, se tornou complicado. Como decidir tanto sobre a vida de outro alguém?

“ Eu preciso ir agora. Tchau.”

Um segundo depois: “ Te amo.”

Mais longos minutos encarando o próprio celular, ela finalmente respondeu: “Também te amo.”– E enviou.

Desligou o aparelho, apanhou a mala e correu até o Helicóptero. Estavam partindo de uma base aérea no litoral da Tasmânia, não gastaram mais que três horas até chegar a base subterrânea na Nova Zelândia. Lá chegando arrumou suas coisas em seu alojamento. Não interessa quanto tempo um indivíduo tenha na organização, nem o quão alto é o cargo que ele ocupe, os alojamentos são sempre iguais: Uma cama de campanha metálica, um armário de aço e uma pequena escrivaninha com gavetas, tudo isso disposto num cômodo de 6m² sem janelas. A intenção era lembrar que, não importa se você é recruta ou “general”... na base, o treinamento nunca termina.

Vestiu uma legging preta de malha e um top vermelho, calçou o tênis e apanhou suas luvas pretas. Gostava de chegar na academia da base exibindo sua cicatriz, hoje era uma das agente mais respeitadas – talvez a mais – de toda a organização, mas nem sempre foi assim. Nunca é fácil para uma mulher, principalmente uma mulher bonita. Era difícil treinar com um punhado de homens fortes, exibindo um corpo marcado ou um rosto mal encarado, sendo uma boneca de porcelana intacta. No fundo, era uma bobagem, mas Ada gostava de se exibir, e de ter uma cicatriz de guerra igual a todos eles.

Falando em cicatriz, mal chegou no local e já escutava os gritos do treinamento de Jake no ringue não muito longe dali. Alguns eram do próprio Jake, os kiai em cada explosão de força no fim de um golpe, outros definitivamente vinham de alguém bem machucado... Terminava de enfaixar e pregar os esparadrapos nas mãos enquanto caminhava em direção a bagunça. No ringue estava Jake, coberto de suor, descalço, vestindo somente uma calça de moletom preta, usava um par de luvas acolchoadas, mas ao que parece, eram mais para proteger o adversário do que a ele, enquanto o treinador secava o chão do ringue com um pano de chão.

Terminou de colocar as luvas e então teve uma ideia, era um teste que precisava ser feito já há algum tempo, porém nunca teve a oportunidade. Até que ponto ia o medo de facas do rapaz. Não sabia detalhes do ataque, mas sabia como ele foi pego, no dia em que ganhou aquela cicatriz e o próprio Jake confessou ter aversão a tal objeto. Ada escondeu um punhal pequeno no tornozelo por baixo da meia. Aqueceu, alongou e então foi até o ringue.

“ – Se divertindo, Wesker Junior?” – Desafiou subindo na pequena arena.

Jake riu, mas sutilmente, pareceu rosnar. “ – Você nunca vai parar de me chamar assim, não é?”

Ele tinha olhos azuis que eram sempre raivosos, eram pequenos e já tinha marcas de expressão. Graças a cicatriz, aos olhos, ao semblante sempre sério, os lábios finos e o queixo que ele puxou do pai , Jake parecia ter uns dez anos a mais do que realmente tinha, no mínimo. E o bicho era grande, quase tão forte quanto Wesker, quem o desafiaria só por brincadeira? “ – Eu paro... se você conseguir me derrubar.”

Quando Jake gargalhou, todos a sua volta permaneciam sérios, ele não demorou a perceber isso. “ – Como eu sou o único rindo aqui, julgo que você é famosa por lutar muito bem. Certo?”

“ – Muito bem? Quando ela luta com um braço amarrado, ela luta muito bem!” – Gritou alguém ao longe.

“ – Mesmo assim, eu não luto com mulheres.”

Ada revirou os olhos impaciente, e sem esperar por uma afirmativa de Jake, atacou. Ele não esperava e acabou levando um murro no queixo. O segundo golpe foi mais difícil, ele já estava na defensiva, desviou e bloqueou todos os golpes... essa era a intenção, apenas distraí-lo, para então escorregar por entre as pernas dele, e mesmo ele sendo alto, com uma cambalhota, aplicar-lhe uma chave de perna e derruba-lo no chão. Não se sentia orgulhosa pelo que fez, sabia que não tinha força para derruba-lo, só conseguiu fazê-lo por que teve a vantagem do elemento surpresa, e, julgando pelo rubor vergonhosamente visível do rapaz... por que ele ficou constrangido de estar com a cabeça entre as pernas dela. A espiã não conseguiu conter o riso.

“ – Hn. Que bonitinho.” – Pôs-se novamente de pé deixando-o no chão.

“ – Hã?!” – Jake ficou ainda mais vermelho e tentou se afastas dos golpes seguintes. Ada se movimentava rápido e sempre conseguia o ataque, contudo o rapaz era ainda mais rápido, bloqueando todos. “ – Eu já disse, eu não brigo com mulher!”.

“É agora!” – Ada sacou o punhal de repente, atacando Jake pelas costas, ela deu um salto, atacando com um golpe alto, com a lâmina na altura do rosto dele. Foi por um triz, ela pensou em se segurar quando sentiu de iria esfaquea-lo no olho... quando...

“ – PUTA!”

Foi o berro que ela escutou antes de ter o braço puxado com força, em seguida receber um golpe no estômago eu lhe tirou todo o ar e finalmente receber o golpe físico mas temido de Jake, quando ele cravou os dedos no seu pescoço, e com muita força a esmagou contra o chão.

“ – QUE PORRA É ESSA!!! TA MALUCA?”

Ada não sabia se foi por causa do golpe na barriga, ou por causa de ter sido atirada de costas contra o chão, mas o fato é que não conseguia respirar ou responder. Teve a faca arrancada de sua mão por um rapaz quase desesperado que a atirou longe. Quando o ar e a razão finalmente começaram a voltar, ela ergueu a cabeça por alguns segundos para encarar o ruivo que parecia mais assustado e confuso do que qualquer outra coisa, então, finalmente gargalhou. Jake definitivamente não quis machuca-la, se quisesse, agora, ela estaria morta. E sua cabeça não seria nada além de patê espalhado pelo chão.

JAKE

Já era noite quando Jake resolveu sair de seu alojamento. Passou a tarde inteira pensando no alvoroço em que provocou naquela tarde. Do susto que Ada o pregou, do teste idiota que ela fez. “ Ótimo, Jake tem fobia a facas, vamos ver como ele reage.”. Nem ao menos sabia responder como conseguiu se controlar no ultimo segundo. Ainda vinham os flashes da lâmina brilhando na altura de seus olhos... da Ada se contorcendo de dor sob suas mãos.

Levou as mãos a cabeça exasperado. Foi uma confusão depois daquilo. O ombro dela ficou completamente deslocado, e mesmo assim ela gargalhava alto. Os colegas suplicavam para que ela fosse até o centro médico, mas Ada insistia que colocar o braço no lugar ali mesmo, só não o fez porque não seria possível fazê-lo sozinha, indo praticamente amarrada – e aos risos – para a enfermaria.

Contou um segundo quando chegou à porta do alojamento dela, então bateu.

“ – Quem é?”

Pensou em dar meia volta e desistir da visita. “ – Ah... hn... Jake.”

“ – Entra.”

Jake entrou e fechou a porta atrás de si lentamente. Ada estava sentada em sua cama de campanha com o notebook ligado na escrivaninha, ela usava um roupão de seda branca estampado com borboletas vermelhas. O braço deslocado decansava numa tala improvisada com crepom, e o outro segurava uma taça de vinho. Numa cadeira, não muito longe Dalí, alguns remédios para dor, eram muitos.

“ – Eu vim te ver... digo... ver como você está.” – Era definitivamente péssimo com as palavras. “ – Por que diabos você fez aquilo?”

Ada encheu a taça novamente esvaziando a garrafa e o ofereceu.

“ – Eu não bebo vinho.”

“ – Anda, pega logo. Espera, espera... antes, abre aquela outra ali pra mim .”

Jake pegou a garrafa que estava embaixo da cama e a abriu com um canivete suíço que estava em cima da mesma. Ada tinha a taça estendida em sua direção... por algum motivo, pareceu rude recusar a oferta de uma mulher machucada... machucada por ele.

“ – Roberto... ele é um amor, infelizmente também é imbecil. Deixou todo esse vinho aqui para me agradar, mas só abriu uma garrafa. Eu não posso abrir o resto com uma mão só.” – Começou a beber o vinho na garrafa mesmo, não havia uma segunda taça. “ – Eu sei que eu fiz besteira, me desculpe. Acho que o outro lá tem razão, eu perdi a noção do perigo, talvez seja hora de me aposentar.”

“ – Que outro? Aposentar?” – Ada estava bêbada, definitivamente.

“ – Anda, bebe logo esse negocio pelo amor de Deus, eu to com tanta dor que vou acabar bebendo tudo isso sozinha.”

Não foi apenas um braço deslocado, foi o braço, foi o pescoço, foi a pancada na barriga, foi a pancada nas costas... até que ela está aguentando bem, Ustanak não aguentou... Jake deu um gole, era forte e amargo, ele não gostou. Ela fez sinal para que ele continuasse, e ele o fez até esvaziar a taça. E Ada a encheu outra vez...

“ – Desculpa ter te chamado de...”

“ – De puta? Ih nem esquenta, se eu ganhasse uma moeda cada vez que alguém me chama assim. Você nem foi original.” – Ela gemeu baixo. Eram as costelas, com certeza um punhado delas estavam quebradas.

Jake esvaziou a taça e Ada continuava a beber na garrafa. O ex-mercenário sentiu um frio estranho na espinha quando percebeu as marcas, agora roxas em volta do pescoço delicado dela e com certeza ela tinha marcas roxas no dorso também.

“ – Desculpa ter te machucado.”

“ – Eu que agradeço. Obrigado por não ter me matado.” – ela encheu a boca com um ultimo gole e então esmagou a garrafa contra seu peito. “ – Esvazia o resto, eu não aguento mais.”

Tudo bem, aquilo era horrível. Pior que dizem que os melhores vinhos eram os mais secos e mais amargos. Era detestável, chegou a conclusão que realmente não nasceu para ter gostos requintados. Mas não custava nada fazer a vontade dela. Finalizou a garrafa com grandes goles enquanto ela resmungava algo sobre a ultima remessa de armas que ainda não chegou, sobre a atuação pífia dos agentes encarregados de investigar o Vice-Primeiro-Ministro do Turcomenistão, sobre ela estar cercada de incompetentes e sobre terem lhe injetado morfina contra sua vontade.

Uma coisa era fato, Ada era uma mulher diferente das outras. E cada dia mais, se tornava ainda mais diferente da “gêmea má” que conheceu em 2013. Ela era simpática, era divertida, os colegas pareciam gostar e respeita-la. E ela era bonita... mesmo bêbada e sem nenhuma maquiagem... e cheirava tão bem...

“ – Ada, todas as pessoas que conheceram a Carla e acreditaram que ela fosse você, definitivamente, não te conheciam.”

“ – O quê?”

“ – Você é tão... tão diferente dela em tantos aspectos. Seria impossível estar com ela por mais de cinco minutos sem perceber que não era você.”

“ – Eu sei! Principalmente com aquele vestido cafonérrimo!” – Ela riu dando um tapinha em seu ombro, então ela suspirou de uma maneira quase triste. “ – Mas infelizmente não foi bem assim. Muita gente acreditou nela... gente que deveria me conhecer muito bem.” – Ela mordeu o lábio inferior por alguns segundos, parecia pensativa. Era uma boca pequena, lábios rosados visivelmente macios... “ – Droga, você bebeu tudo mesmo, eu queria mais um p — pou... oh!”

Foi o ultimo som que saiu dos lábios dela antes que Jake os tomasse com os dele. Ela não abriu a boca, nem fez qualquer menção de aceitar o beijo dele. De repente ele sentiu uma pessoa imóvel como uma árvore, paralisadas diante dele, e ele a estava beijando.

Assustado, ele se afastou. “ – Desculpa. Merda... eu... Des....desculpa...”

Jake viu a Ada Wong alegre e confiante até na hora da dor desaparecer completamente, dando espaço a uma boneca de cera de rosto impassível.

“ – Vai dormir, Senhor Muller. Você está bêbado.”

Ela soou gelada como um vento vindo da Sibéria, era como se todo o quarto fosse tomado por gelo. Pensou em pedir mil desculpas e depois, se desculpar mais uma vez. No fim, decidiu apenas sair dali o quanto antes. Quando fechou a porta e se viu no corredor, percebeu que estava tonto, e que mesmo fria com ele, os lábios dela eram uma delícia.

“Merda!”

Continua...