JAKE

Não precisou de muito tempo para tomar uma decisão, menos de 24 horas para falar a verdade. Se as intenções de Ada Wong eram tão nobres quanto ela dizia ser, Jake não sabia, com toda a honestidade, pouco lhe importava. Foi um mercenário durante tanto tempo, teve atitudes que o envergonhava até hoje única e exclusivamente por dinheiro, um serviço sujo a mais ou a menos não faria diferença. Não quando se tinha em mente um objetivo como o dele...

Ada Wong era o único elo vivo dele com o seu passado até então. E precisaria de algum tempo ao lado dela para arrancar o máximo de informação possível. Era por isso, que Jake estava ali.

Deixou o acampamento há mais ou menos duas horas. Ada e seus homens lhe deram armas, munição e todas as coordenadas. Jake observou o prédio em ruínas uma última vez antes de entrar em ação, era inacreditável como terroristas conseguiam se esconder quando queriam. Já estava no Cazaquistão há quatro dias, e nem sequer desconfiou ou percebeu algum movimento suspeito, mesmo tendo um olho clínico e vasta experiência no assunto. Mas no entanto, lá estavam eles... membros da Al-Zayn fortemente armados e possuindo B.O.W’s sob o teto daquele desapercebido prédio em ruínas, em meio a um campo desértico.

A missão parecia fácil, invadir o local com mais três agentes, os quatro conversando, se comportando e devidamente vestidos como soldados norte americanos, invadirem o local e abrirem fogo. A objetivo é provocar um conflito nos andares inferiores do prédio.. então Ada invadiria o local pelo telhado. Era dela a missão verdadeira, roubar arquivos e implantar um software nos computadores da Al-Zayn para que assim, pudesse continuar monitora-los a distância.

“ – E aí rapaz, preparado?” — Disse o homem tocando-o no ombro. Jake se virou para ele. Era Willian Cohen, mais conhecido como “Billy”, um homem quase tão alto quanto ele, mais velho, porém com a mesma atitude de “bad boy”, sua grande tatuagem que começava no ombro e percorria todo o braço foi escondida conforme ele terminava de vestir seu uniforme militar.

“ – Legal seu penteado novo, Billy!” – dessa vez foi Carlos Oliveira, um homem moreno e ligeiramente mais baixo que Billy. Tanto Billy quanto Carlos tiveram suas cabeças raspadas ainda essa manhã. Não esperavam ser pegos, mas caso o fossem, serem vistos sem suas mascaras e com penteados não militares, botaria tudo a perder.

“ – Me respeita, Oliveira. Afinal, agora eu sou o seu capitão.”

“ – Puff! Quem disse? Mudança de planos. Ada acabou de passar as novas ordens. Ele será o quarto agente em campo e o nosso capitão.”

Jake percebeu a mudança nos ares quando Carlos falou do quarto agente.

“ – Ele está aqui?” – Billy se tornou sério. – “ – É... parece que a chefa resolveu brincar sério hoje.”

O ruivo meneou a cabeça um tempo e finalmente perguntou. “ – Ei, vocês... posso saber de quem vocês estão falando?”

“ – O Agente, Jake Muller. O Agente.”

“ – Falou bem, Carlos. O Agente! Sabe Jake, durante anos a Ada sempre entrou sozinha em campo... sempre. Até conhecer... ele. É uma lenda viva, ninguém sabe muito sobre ele, exceto o fato de que é o ser humano mais próximo da Ada de que se tem noticia. Estão sempre juntos, conversam por horas e horas, muitas vezes dividem o mesmo quarto. Poucos já viram seu rosto, e sempre o vemos muito pouco, acho que só Ada sabe como ele é em detalhes.”

“ – É um filho da puta sortudo, isso sim! Nós trabalhamos com ela há 17 anos, e ela nunca escalou um de nós para qualquer missão em dupla... mas com ele foi diferente.” – Lamentou Carlos.

Jake ficou pensativo, por um momento quase chegando a conclusão de que conheceria o namorado ou o amante de Ada Wong muito em breve, quando finalmente, o quarto agente chegou. Ele usava uma máscara anti-gás e já trajava um uniforme completo do exercito norte americano. “ – Boa noite rapazes. Hn... Jake Muller, finalmente, é um prazer conhecê-lo.” – O agente mascarado estendeu a mão. Jake aceitou o aperto de mãos visivelmente a contragosto. “Alguém que não mostra o rosto não deveria se preocupar com apertos de mão.”

Os três terminaram de pintar os rostos, se vestir e colocar a máscara de esquiador. Empunharam suas armas e seguiram os comandos do agente mascarado, se aproximando do prédio na calada da noite. Quando ele deu o sinal, invadiram o local sem cerimônias, abrindo fogo contra os sentinelas no primeiro andar. Quase que imediatamente, o alarme tocou e junto com ele, uma chuva de B.O.W’s os seguiram.

“ – Jake, para o andar de cima!” – Mandou o mascarado.

Deixaram Carlos e Billy responsáveis pelos dois primeiros andares e começaram a abrir fogo a partir do terceiro. Era como se tanta pesquisa feita com o sangue de Jake dois anos atrás não tivesse tido resultado algum, o lugar estava infestado de Napad’s que se agitavam e urravam atacando-os com tudo o que tinham. Como se não bastasse, cada J’avo que matavam sofriam mutações transformando-se em Strelats.

Jake nunca foi muito paciente, mas neste dia em especial, sua impaciência já havia cruzado todos os limites. Pouco importava quem eram aquelas pessoas, Carlos, Billy, muito menos o tal agente mascarado. Jake queria estar com Ada, queria conversar com ela. Queria informações sobre o seu falecido pai, queria um motivo, e um bom motivo para sua mãe ter se envolvido com um homem como Wescker, ter escolhido viver uma vida de miséria e morrer da mesma forma, só para se esconder e proteger o filho dele. E quanto mais cedo essa brincadeirinha acabasse... mais cedo isso seria possível.

Seu pai tinha uma força sobre humana, e que de certa maneira, uma parte dessa força foi passada para Jake. Se injetou o vírus C, e ficou seis meses em cativeiro... e nada do que fizeram lhe fez qualquer mal... Mas Jake sabia que não era mais como os outros. Sua força física e seu estilo de luta eram bem particulares. Quase idênticos ao de do pai... é o que diziam.

Não precisava de armas agora. A maneira como se inclinava e corria, a velocidade que tomava, qualquer humano ou qualquer B.O.W. fica desconcertado com a rapidez e a destreza dos movimentos de Jake ao atacar e se desviar ao mesmo tempo. Era impossível prever seus movimentos. E por fim, os golpes... como o próprio Jake gosta de dizer... no “mano a mano” .

Após uma sucessão de corpos despedaçados e crânios esmagados no chão, os agentes finalmente escutaram o bater das hélices de um helicóptero. Os quatro correram até a cobertura e então viram o veículo, claramente identificado como um helicóptero do exército dos Estados Unidos. Quando as cordas foram jogadas, eles se penduraram nelas e partiram.

Já estavam na cabine quando escutaram o som de algo metálico cravar contra a estrutura da aeronave, segundos depois, viram Ada Wong entrar com um movimento quase acrobático, carregando uma Grapple Gun e a equipando com um novo gancho.

“ – Linda.” – Disse o mascarado quando ela entrou. Ada apenas sorriu de volta e sentou-se ao lado dele.

“ – Que bom que veio. Não pensei que fosse aceitar o convite para uma missão tão corriqueira.”

“ – E perder a primeira missão do Jake? Nunca!”

Jake observava a todos com um olhar extremamente crítico. Pareciam ser colegas, pareciam estar do mesmo lado, se mostravam simpáticos, mas nada disso convenceu o jovem mercenário. Trabalha com isso a anos, já acreditou ter um amigo, um mestre, quase um pai... o pai que nunca teve, já confiou antes, e foi traído. Aprendeu da pior maneira que nesse meio, não se confia em ninguém.

“ – Então rapazes, se aproximem, eu tenho algo a mostrar.” – Ada abria o notebook digitava as coordenadas apressadamente. “ – Em questão de segundos o software contaminou todos os computadores do prédio, linhas de telefone e cada rede que tivesse qualquer tipo de contato com a rede deles. Sendo assim, posso afirmar, sem sobra de dúvidas que a nossa missão foi bem sucedida. A partir de agora, podemos monitora-los.”

“ – E porquê? Vocês viram as B.O.W’s lá. Não seria o caso de acionar a B.S.A.A e captura-los?” – Perguntou Jake.

Ada o lançou um olhar desconfiado. “ – Ora Jake, a essa altura você já deveria saber que nem tudo é tão simples quanto parece. A Al-Zayn é um grupo de extremistas religiosos que vem expandindo na região entre o Afeganistão, Paquistão e já plantando algumas sementes por aqui no Cazaquistão e no Turcomenistão... mas utilizar de B.O.W’s nunca foi uma prática comum desses grupos. Ainda mais com a crise. Essas B.O.W’s escaparam da China e do Leste Europeu.. antes de tomarmos qualquer atitude, temos que desarticular todo o esquema. Como esse material escapou? Quem está comerciando esse tipo de armas com a Al-Zayn, e por quê?”

“ – Expandir território, conseguir mais fiéis?”

“ – Sim, claro. Mas expandir território para onde? Russia? China? Veja bem, eu disse que essas armas estão sendo traficadas do Leste Europeu – ainda sob forte influência russa – e da China. Quais são as fronteiras? Justamente Russia e China. Agora me responda Jake, por quê a Russia ou a China venderiam armas para favorecer um grupo que quer invadi-los, ou na melhor das hipóteses, destruir a influência desses dois países no país natal deles?”

O ruivo ficou em silêncio, e então mandou. “ – Então você trabalha para o governo Chinês?”

A mulher sorriu. “ – Essa é uma outra conversa. Senhor Muller.”

O grupo terminou a viagem acertando os detalhes como honorários e novos números de contato. Carlos e Billy foram deixados em um pequeno vilarejo próximo a fronteira com a China, enquanto Jake, Ada e O Agente seguiram de volta a Oskemen.

Não entraram novamente na cidade, montaram acampamento numa área natural e não habitada à alguns quilômetros da estrada principal. Naquela noite, Ada, sozinha e sem O Agente, chamou Jake até sua tenda. La dentro era aquecido, havia um gerador para fornecer energia elétrica e sinal de internet via satélite. Ela serviu duas xícaras de café e sentou-se ao seu lado, mostrando os últimos dados encontrados sobre o tráfico de B.O.W’s e como estava o movimento expansivo da Al-Zayn, tudo demonstrado com mapas e gráficos.

“ – Você tem bons agentes, Ada. Por quê quer me contratar?” – Perguntou Jake, desconfiado.

“ Um único motivo. Por causa do seu sangue, Jake. Ele o torna especial. Confie em mim, você não vai conseguir sozinho. Não precisa trabalhar comigo se não quiser, mas procure o seu lugar, pode ser até com a pequena Sherry e o David Beckham se preferir, mas sozinho você será pego, inevitavelmente. E independente de onde você for, te proteger também é o meu trabalho.”

Jake trincou os dentes. Queria gritar que não precisava de ninguém, que podia se virar muito bem sozinho, mas então se lembrou das duas vezes em que foi capturado, ele e Sherry. E que não houve nada que ele pudesse fazer para impedir.

“ – E quanto a Sherry... a Super Girl... o sangue dela... ela também...”

“ – Eu sei. Ela escolheu o caminho dela, mas mesmo assim é meu dever ajuda-la sempre que possível.” – Jake se viu sob o foco dos olhos dela outra vez, ela parecia sincera, mas mesmo assim, algo lhe dizia para não confiar. – “ – E o seu também Jake. E comigo, suas chances de ajudar são bem maiores.”

Essa mulher não era digna de confiança, ele sabia disso. Muito embora parecesse o contrario. Ada parecia honesta, mas Jake não era o tipo de homem que confia em alguém, principalmente alguém como ela. Para ele, todos são traidores, até que se prove o contrario. E com Ada, não seria diferente. Mas ela conheceu seu pai... Jake não se esqueceu de seu real objetivo, daquilo que de fato o levou até ali.

Ada pousou a caneca na mesa e lhe estendeu a mão.

“ – Então temos um acordo, Senhor Muller?”

Jake não hesitou e devolveu o aperto de mão com toda a firmeza, a encarando nos olhos. “ – Considere-me contratado.”

ADA

Tinha plena consciência de que Jake não confiava nela. E com o passado de ambos – dela e dele – isso não era nenhuma surpresa. Mas de qualquer maneira estava satisfeita, o plano corria dentro do esperado. Conseguiu um ótimo agente, algo realmente raro de se encontrar e de quebra, diminuiu consideravelmente as chances do rapaz cair em mãos erradas.

As semanas seguintes à missão no Cazaquistão foram calmas, pôde apresentar Jake ao primeiro superior da Organização, Wu Lee, era ele o supervisor geral naquele país em questão, e fôra ele quem articulou a missão seguinte. Lee e Willem Bosch, o supervisor geral na Bélgica.

O inferno provocado por Carla ainda era um fato recente, os Estados Unidos ainda não tinha saído da crise política provocada pela morte de Derek Simons e do Presidente, Ada tinha salvo conduto e a esmagadora maioria das acusações contra ela foram retiradas, contudo, manda-la até a conferência da ONU em Bruxelas era uma afronta. Ada não tinha certeza dos objetivos da organização com isso, mas por enquanto, só lhe restava obedecer.

Pior que isso, foi a escolha do seu acompanhante. Jake Muller. Mandar os dois, circularem livremente por um conselho de segurança parecia um recado direto para os Estados Unidos. Algo como, “Temos um bem precioso para vocês, exatamente aqui, do nosso lado, abram o olho.”.

Fora esses “pequenos detalhes”, o resto da missão parecia fácil. Chantagear, persuadir, convencer pessoas, e no tempo livre, colher informações. Ada fez o ultimo retoque em seu batom e se olhou no espelho uma ultima vez. O vestido longo cor de vinho feito exclusivamente para o jantar no Palácio Real de Bruxelas se adequou perfeitamente ao seu corpo, e o mais importante, apesar do decote nas costas e do rachado na perna esquerda, ela conseguia esconder o coldre que carregava uma pistola em sua coxa, e a faca escondida na outra.

Apanhou a bolsa e foi até a porta quando alguém bateu três vezes. Ao abri-la viu que era Jake. “ – Senhor Bond.” – Ela riu. Ele usava um smoking preto, e apesar da cabeça raspada e da enorme cicatriz no rosto, toda aquela altura e força somada ao par de olhos azuis quase selvagens que ele tinha, o deixavam com um aspecto... exótico, sim, mas nem por isso menos elegante. Uma rápida passada de olhos e ela já pôde identificar onde ele guardou a pistola, em um coldre de ombro esquerdo.

Jake a observou por alguns segundos, de cima a baixo, visivelmente sem saber o que fazer. Sem dizer uma palavra, apenas lhe ofereceu o braço. “ – Acho bom ir se acostumando com isso, Jake. Nem todas as missões de um agente se resolvem em um campo de batalha.” – Ela começou enquanto caminhavam de braços dados até o carro. O jovem abriu a porta para ela, esperando que ela entrasse e então fechando-a, depois assumindo o banco do motorista. “ – Eu diria inclusive que missões nesse tipo de reunião, costumam ser as mais difíceis.”

“ – Eu posso imaginar. Algo como... assassinar um ministro envenenado, ou plantar uma escuta em um presidente.”

“ – Por aí, Jake. É bem por aí. Mas pode fica tranquilo, nós dois temos rostos muito conhecidos para ganhar uma missão dessas. Pelo menos por enquanto.”

“ – Hn. Matar alguns políticos seria a única missão que eu realmente faria com gosto.” – Ele sorriu. Não era de sorrir muito, mas quando o fazia ficava assustadoramente parecido com o pai.

Quando entraram de braços dados no salão comum perceberam alguns olhares dirigidos a eles. Alguns os poderia ter reconhecido, sim, mas a grande maioria era apenas pela fato de serem uma dupla que fazia vista. Ambos não tinham uma aparência comum, discreta ou “apagada”.

“ – Hora de escutar alguns segredinhos podres de gente importante, Jake.”

“ – Eu nunca pensei que fosse dizer isso. Mas eu mal posso esperar, até valeu a pena me fantasiar de pinguim.” – Principalmente quando começar a falar do meu pai!

Ele a apertou encaixando melhor o braço dela ao dele.

LEON

Nunca entendeu direito para o que serviam essas malditas convenções. Nenhum país gostava de compartilhar informações secretas de segurança interna, isso era fato. Mas pior que isso, sob o pretexto de organizar uma ação anti-terror, os únicos resultados eram sempre os mesmos, tratados e bons acordos visando lucro, desvio de verbas que originalmente seriam destinadas a combate a pobreza ou medidas humanitárias, tudo para ser injetado na indústria bélica. Uma reunião de pessoas que fingiam se importar, e outras, como ele, que fingiam acreditar.

Com a confusão atual instalada na Casa Branca, talvez ele até conseguisse ter escapado de tal evento. Mas não o fez... foi a própria Casa Branca quem o informou que Ada estaria lá, não era segredo para ninguém, ela estaria entre os agentes recém recrutados para investigar o trafico de B.O.W’s nas regiões de fronteira entre China e Russia, com todo o aval e respaldo do serviço secreto chinês e da KGB.

Comparando esses dois último anos com todos os outros 15 anteriores aos últimos ataques, Ada e ele nunca se encontraram tanto. A última vez em que estiveram juntos foi há dois meses numa viagem à Espanha. Era melhor do que os seis, oito meses... um ano.... três anos que já ficaram afastados, mas ainda assim, para ele, parecia uma eternidade. Lembrava de cada momento, das viagens de carro pelo interior espanhol, vilas que os fizeram recordar da última missão que fizeram naquele país. Dos restaurantes típicos com musica flamenca e regadas e muito vinho, da casa que alugaram no campo e passaram dias sem querer sair, onde se amaram todas as horas do dia frequentemente esquecendo que também tinham que fazer outras coisas da vida, como comer, por exemplo. Da viajem de carro do campo até a praia, de ter aproveitado o verão espanhol ao lado dela, de cada curva do corpo dela dourando sobre a areia, de cada vez que se amaram dentro da água... de desfazer cada nó daquele biquíni vermelho co a boca, de secar cada gota de água salgada daquele corpo bronzeado com a língua... da adrenalina de fazerem amor na praia com um medo estranho de que a qualquer momento um espanhol ganado apareceria em suas costas e gritaria: Que carajo estas haciendo aqui?” “Un forastero!” “ Voy te hacier picadillo!” “Lárgate cabrón!”

Leon sacudiu a cabeça e riu. Cada segundo de terror valeu a pena graças a inúmeras vezes que Ada gemeu “Guapo” em seu ouvido. São dezessete anos de altos e baixos, dezessete anos que a amava de todo o coração, e durante esses dezessete anos, nesses dois útimos então, mais do que nunca, guardava para si o desejo enorme de confessar a ela o quanto era grande o que sentia. Que era simplesmente louco por ela, que seria capaz de tudo, qualquer coisa. Sabia que era isso o que sentia, mas nunca teve coragem de admitir nem para si mesmo até o dia em que apontou uma arma para a cabeça de Chris Redfield. “Eu ia atirar. Eu ia atirar nele. Deus, me ajude... eu saí de mim, se ele avançasse mais um milímetro eu ia explodir os miolos dele, ou morrer tentando...”. Tais pensamentos eram constantes, e sempre o deixavam aquecido por perceber o quanto a amava e ao mesmo tempo em pânico, pânico por não sabe qual seria a reação dela se soubesse. Ela não era uma mulher como as outras, e nenhum dos dois tinham uma vida normal, o que ela faria se ele dissesse: “Ada, eu te amo. Sempre te amei e te amo cada dia mais. Não tem um só dia que eu não durma e acorde pensando em você, que eu não trabalhe, caminhe, coma ou respire, pensando só em você. Já se passaram dezessete anos meu amor, fios brancos nasceram na minha cabeça e eu ainda te amo, até quando você pretende viver assim? Até quando vai me fazer viver assim? Estamos tocando a campainha da casa dos 40, o que você acha que sossegar ao meu lado... pra sempre? Se você ainda tem alguma dúvida que isso é amor, pense que já foram dezessete anos, mais de seis mil e duzentos dias, mais de cento e cinquenta mil horas, por favor, por tudo o que há de mais sagrado, não me faça ficar mais nem um minuto sem você.”. O que ela faria? Leon não temia a morte, nem zumbis, nem B.O.W’s, nem políticos poderosos, mas sempre segurou a língua, porquê tinha pânico que ela o rejeitasse. Que ela pisasse em seus sentimentos esfregando na cara dele uma realidade cruel onde nenhum de seus sonhos era possível.

Antes dos eventos na China e em Tall Oaks, ficava calado por achar que não a conhecia o suficiente, por medo de ser traído, por acreditar que estava do lado certo sendo um agente federal. Na China muitas verdades foram esfregadas na sua frente, o governo frágil e corrupto, a possibilidade de viver num mundo onde ela estaria morta, vê-la ser acusada por coisas que não fez... Até mesmo quando não tinha nenhuma prova de que ela era inocente, mesmo antes de saber que Ada na verdade era Carla, ele já estava disposto a protegê-la, a matar ou morrer por ela. Hoje, Leon continua calado, simplesmente porquê tem medo que ela diga “não”.

O Palácio era enorme e o jantas já avia sido servido à muito. Os instrumentistas tocavam e as pessoas bebiam e dançavam. Mas nenhum sinal dela. Leon pegou uma dose de uísque com gelo se isolando em um canto enquanto sorvia o liquido amargo. Quando apanhou o segundo copo, veio junto a melancolia da noite estar acabando, quando apanhou o terceiro, a musica já parecia mais alta que o necessário, e o lugar ainda mais irritante do que realmente era. Parou o garçom mais uma vez, apanhou o quarto copo, já engolia o primeiro gole quando viu o cetim vermelho rodopiar no meio do salão, por entre todas aquelas pessoas, seus olhos azuis percorreram o caminho de baixo para cima, do salto alto, as pernas longas, seguindo para o traseiro mais perfeito que ele já viu, as costas nuas entre o decote do vestido, ela tinha o braço de alguém envolto em sua cintura, continuou a subir o olhar, era Ada, como sempre – e sim, isso era possível – mais linda do que antes, dançava alegremente, se fazendo de distraída com o seu parceiro de dança que a propósito, era Jake Muller.

Leon piscou os olhos duas ou três vezes para ter certeza, não tinha bebido tanto assim – não para alguém como ele que já estava acostumado a esvaziar uma garrafa inteira, ou mais, numa só noite. – Sendo assim, não estava vendo coisas, era ele mesmo, o rapaz esquentadinho que ele conheceu na China. Alguém que Leon fez o possível para tentar ser agradável e ajudar, mas algo naquele menino o deixava alérgico a ele. Não precisava ser muito esperto para perceber que Jake o detestou logo a primeira vista e Leon nunca nem soube o porquê. Mas agora, nesse exato momento, a questão era: O que ele está fazendo aqui, com a Ada?

JAKE

“ – Agora que estamos sozinhos Jake, você pode me fazer mais perguntas. Eu sei que é isso o que você quer.”

O ex-mercenário ficou surpreso, se perguntou até que ponto era tão evidente que perguntas e respostas era praticamente o único e real motivo dele estar ali. Pensou por um instante. “ – Bem, não sei se aqui e a hora ou o lugar propicio para temas profundos... então vou começar com algo leve. Me conta algo bom do meu pai. Aliás, ele tinha alguma coisa boa?”

“ – O seu pai salvou a minha vida.” – Ela respondeu prontamente, o encarando no fundo dos olhos, sem sorrir e sem ironia. “ – Ele me tirou de Raccoon City quando mais ninguém queria fazê-lo.”

“ – E por quê ele fez isso?”

“ – Jake, você me pediu para contar uma coisa boa... deixemos a parte ruim para depois.” – Então ela voltou a sorrir – “ – Ele era um bom guardador de segredos e nunca usou as minhas fraquezas para me menosprezar... embora as vezes tivesse um prazer sádico em testa-las...”

“ – Como assim?”

“ – Cavalheiro, se importa de me emprestar a dama para uma dança?” — Jake se virou para o homem que chegou de repente, e então viu Ada cumprimenta-lo com um abraço e um beijo na bochecha. Ele não era tão alto quando Jake, tinha 1,80 cm, 1,85 cm no máximo, um cabelo tão louro que parecia quase prateado talvez por já possuir alguns fios brancos, cortado bem baixo como se tivesse sido raspado ha no máximo 15 dias, olhos verdes levemente puxados e não passava dos 50 anos.

Por um momento, Jake pensou ser mais um político, ou o representante infiltrado de mais uma empresa da poderosa indústria bélica. Foi quando o homem completou: “ – Ele não me reconhece, Wong.”

“ – Sim, ele não faz ideia de quem você é.” – Ela riu.

Então Jake soube. Era o Agente.

“Ótimo, agora eu faço parte do seleto grupo de pessoas que já viram esse rosto.”

“ – Deslumbrante como uma deusa.” – O agente disse enquanto rodopiava a espiã antes de puxa-la para si e começarem a dançar. “ – Vai comer ou beber alguma coisa garoto, já já eu te devolvo.”

Jake observou incrédulo aquele homem sair de perto a largos passos de dança, agora com uma musica bem mais animada, levando Ada para longe. A sintonia dos dois era evidente, por algum motivo ficou curioso para saber até que ponto ia a intimidade daqueles dois. “É um dançarino bem melhor do que eu” – então riu, saindo dalí em direção ao bar.

LEON

O filho de Wesker deu lugar a um outro homem, alguém com quem Ada parecia estar bem mais a vontade. Leon sentiu vontade de ir lá e tira-la para dançar também, já fazia muito tempo desde a última vez... na Espanha. Mas ela desapareceu!

Procurou novamente, em cada canto, seus olhos ávidos buscavam pelo borrão vermelho característico que era o vestido dela, se movendo com o vento. Sem sinal dela. Isso não o deixava triste, pelo contrario. Uma onda de eletricidade começava a percorrer cada centímetro de sua pele, podia sentir o coração bater mais rápido... ele sabia, foi visto! Tudo o que precisava fazer era aguardar o sinal.

“ – Perdão!” – Exclamou um homem ao trombar com ele ombro a ombro e então sair apressado, mas antes, lhe dirigindo um ultimo olhar. Era o homem de cabelo prateado que dançava com Ada agora a pouco.

Involuntariamente, Leon tocou no paletó, confirmando que o homem deixou o sinal, um envelope no bolso interno. Abriu-o avidamente e lá encontrou o cartão magnético para abrir a porta de um quarto de hotel. Nem conseguiu conter o gemido de ansiedade. Hotel Bruxelas, quarto 2507... 25º andar.

Sabia as regras, quando o convite era feito dessa maneira. Não olhar para trás, não falar com ninguém. Apenas desaparecer junto com ela. Não foi dirigindo o próprio carro, então deixou o Palácio a pé, tomando um taxi logo em seguida. Não pediu que o motorista o deixasse exatamente no hotel, mas umas duas quadras antes. Seguiu o resto do percurso a pé.

Normalmente os cartões são deixados na portaria quando o hospede sai. Mas uma vez que Leon já tinha o cartão, não precisou ir até a recepção ou apresentar qualquer documento. Botou as mãos no bolso e olhou para baixo, tentando não fixar o olhar em ninguém, caminhando rumo ao elevador.

Já era tarde, mesmo assim o movimento era assustadoramente fraco, pouquíssimas pessoas circulando no local, e mais ninguém rumo ao elevador além dele. Quando as portas do elevador se afastaram e ele dava o primeiro passo para entrar, sentiu um golpe forte no meio das costas, acabou tropeçando e batendo de peito contra os fundos da cabine... nem precisou se dar ao trabalho de virar para ver quem foi, ela o virou, agarrando a cola do seu smoking e puxando-o para si. A boca dele já estava aberta para receber a dela quando a mulher praticamente o atacou. As mãos ávidas do agente se agarravam as costas nuas expostas pelo decote do vestido grudando o corpo dela ao seu, enquanto se beijavam cheios de fome.

A saudade que sentia era tanta, que beirava o desespero. Leon a apertava tanto, sugava os lábios dela com tanta força que a fez gemer e puxar os seus cabelos, mas ele nem ligava. “Que puxe, que arranque todos eles eu não ligo, mas você não vai conseguir me afastar”.

Ada se alavancou para trás, escorando na outra parede da cabine e puxando Leon consigo. Leon não soube dizer exatamente como aconteceu, nem o quão rápido foi, a vontade de se tornar um só com ela era tanta, que os puxões em seu cabelo não doíam, sendo assim, não percebeu quando as mãos dela saltaram de sua cabeça e pularam direto para as suas calças. Não percebeu quando ela lhe abriu o cinto e a braguilha, nem mesmo quando já estava tudo arriado, até sua cueca no meio das coxas. Leon só percebeu tudo o que aconteceu quando gemeu alto reagindo ao toque dela, quando ele estava semi nu e duro na mão dela.

Afundou o rosto contra o pescoço magro, longo e perfumado, chupando-o e mordendo-o, com a mão direita apertava um seio por cima do vestido e com a direita buscava debilmente o botão do vigésimo quinto andar. Quando a porta do elevador finalmente se fechou, ela pediu: “ – Entra em mim, Leon. Agora...”

Leon olhou para o marcador enquanto subia o vestido dela com pressa. Estavam no segundo andar.

“ – Rápido.”

“ – Você é doida.” – Estavam no quarto andar quando ele empunhou a pistola que ela tinha entre as coxas e segurando-o contra a parede. As pernas dela já estavam afastadas e com ele entre elas. – sexto andar – Leon só precisou puxar a calcinha dela para o lado e escuta-la gemer quando ele finalmente o fez. Quem era ele para negar um pedido vindo dela? Ainda mais um pedido desses? Não era ninguém.

Oitavo andar

“ – Mais rápido... Leon... Ah! Assim.”

Não era o momento de cuidados ou delicadezas, muito menos para “firulas” sexuais. Ali só tinham dois amantes mortos de saudade com uma urgência quase animal de satisfazer os seus instintos mais básicos, quando ela estava assim, impaciente, ele sabia, nem adiantava fazer diferente.

Décimo... Décimo primeiro, Décimo segundo...

O loiro aumentou ainda mais a velocidade das investidas quando Ada cravou as unhas nas nádegas brancas dele. Ambos trincavam os dentes e emitiam sons entrecortados e incompreensíveis. Leon tentava esquecer que estavam em um local público, que a qualquer minuto alguém poderia chamar o elevador e eles serem flagrados no ato em algum daqueles andares, mas a verdade era que, pensar nisso só o estava excitando mais, de tal forma que ele sabia que não aguentaria por muito tempo.

Décimo sexto, décimo sétimo, Décimo oitavo...

Ada moveu os quadris em movimentos mais lentos enquanto todo o corpo dela se contraia em volta dele quando ela atingiu o orgasmo, e era só isso o que ele estava esperando para finalmente se derramar e se desmanchar inteiro dentro dela.

Estavam no vigésimo andar quando finalmente se afastaram. Leon ainda estava duro quando saiu de dentro dela, agora tentava se recompor o mais rápido possível erguendo as calças novamente e abotoando e afivelando tudo outra vez, escondendo a arma dela dentro do próprio bolso. Ele olhou para ela uma ultima vez antes do marcador mostrar o vigésimo quinto andar. A morena estava ofegante, as pernas bambas tentavam se equilibrar no salto alto, a face rosada e levemente suada e por fim, a imagem que fez Leon ficar completamente “aceso” outra vez, o rastro do gozo dele escorrendo pelas pernas dela e gotejando no chão.

Quando a porta se abriu, ele nem checou se havia alguém ali, ou até mesmo no corredor. “ – Vem.” – A pôs no colo, como se fosse uma noiva e a beijou outra vez enquanto a carregava para o quarto.

Se atrapalhou um pouco com a fechadura e o cartão magnético, quando conseguiu entrar, procurou logo pela única atração que um quarto, fosse ele qual fosse, poderia lhe interessar, a cama. Quando chegou aos pés da enorme king size, deixou que Ada caísse de seus braços ali.

Ela se espreguiçava e puxava as almofadas para si, fingindo estar com sono. Mas ele sabia que ela não estava. Leon não tirava os olhos dela, das curvas contornadas pelo cetim vermelho enquanto ele tirava a roupa e os sapatos. Agora nu, caminhou e fez menção de debruçar sobre ela, quando foi interrompido de uma maneira dolorida. Ada o parou com o pé em seu peito... o pezinho pequeno e delicado que ele amava, mas armado com um salto fino.

“ – Ai!” – Fingiu ter doído mais do que realmente doeu e tomou o pé dela entre as mãos, desafivelou-o devagar, depois retirando-o com toda a delicadeza. Tirou um tempo so para contemplar aquele pé, era para ela entender que era justamente ali o lugar dele, aos pés dela. Beijou dedinho por dedinho enquanto ela ria e reclamava das cócegas, depois pousando-o devagar contra o peito novamente e repetindo o mesmo ritual no outro. A partir dessa posição, afastou as pernas longas e deitou por entre elas. Livrou a amante dos coldres nas coxas, da faca... da roupa íntima, ergueu o vestido dela devagar, revelando primeiro a barriga, beijando-a, depois os seios, beijou-os também, quando ela finalmente o ajudou a terminar de tira-lo.

“ – Eu estava com saudades.” – Ela disse por entre o beijo.

“ – Muita ou pouca?” – Refutou enquanto descia aos beijos pelo vale entre os seios, depois na altura do estômago, umbigo, o ventre... sentiu ela se contrair inteira quando a lambeu a primeira vez entre as pernas... e outra vez ele não estava se importando com a força que ela puxava o seu cabelo. Estava ocupado demais provando o gosto dela misturado ao dele. Sim, ele estava ali, dentro dela, fazendo-a perder a pose e pedindo mais. E Leon queria repetir e sabia que ela também. Talvez, isso seja a resposta para a sua pergunta.

Ele a acompanhou, obedeceu quando ela o puxou pelos braços, deixou que ela o deitasse de costas e montasse em cima dele. Apoiou as mãos em volta da cintura dela enquanto ela se encaixava e descia, empurrando-o para dentro. Sentia os músculos da barriga dela se contraírem entre as suas mãos enquanto ela se movimentava, Leon não tinha uma parte daquele corpo que fosse realmente a favorita, amava ela inteira, e também a barriga.. talvez especialmente a barriga por causa da cicatriz que ela carregava no flanco. Podia ser estranho para alguns, mas para Leon aquela cicatriz enorme que começava nas costas e terminava quase no umbigo era a cereja do bolo, era o que no final, deixava Ada totalmente perfeita, talvez uma das características que ela tivesse de mais bela.

Leon finalmente ergueu o tronco e foi ate ela, ajudando-a a subir e descer mais rápido, beijando-a, abraçando-a forte, tentando colocar um seio inteiro dentro da boca, deixando escapar todas as declarações de amor mais vergonhosamente melosas que ele queria, mas nunca tinha coragem de dizer quando estavam apenas conversando, por medo do que ela fosse pensar. Por que sabia que enquanto eles estivessem ali, suados, prestes a gozar, com ele tão enterrado dentro dela que nem notavam mais onde terminava Leon e onde começava Ada, ela não o repreenderia, e se o fizesse, ele sempre teria a desculpa esfarrapada de que tudo foi dito no calor do sexo. E a melhor parte, era que ela respondia a altura e frequentemente conseguia ser até mais amorosa do que ele. Se segurou até ter certeza que ela já tinha chegado ao clímax, e só então deixou-se ir com ela, outra vez.

“ – Eu não posso ficar hoje.” – Disse a mulher ofegante quando ambos se deixaram cair deitados outra vez.

“ – Por quê?” – Não tentou disfarçar que estava decepcionado.

“ – Porque não.”

Ele aceitou o beijo de desculpas e o retribuiu, mas não aceitou as palavras. “ – Você pode ficar sim. Dá um jeito, mas fica essa noite, até amanhã...” – Puxou-a para si e a envolveu com os braços. “ – Por favor.” – Leon tentou caprichar ao Maximo no olhar pidão, já sabendo que normalmente isso nunca resolve, mas essa noite, ele não sabe por quê, ela o abraçou de volta e fechou os olhos descansando em seu peito.

“ – Tá certo... só para você não poder dizer que eu nunca atendo um pedido seu.” – sussurrou antes de finalmente adormecer.

Continua...