- Extra! Extra! Fullmetal Alchemist volta à Central para ajudar a resolver a onda de assassinatos suspeita que aterroriza a cidade!

- Um jornal, por favor – disse Lie, jogando algumas moedas na mão direita do garoto que anunciava.

Ele pegou um exemplar e entregou a ela.

- Aqui está, senhorita. Tenha um bom dia.

- Igualmente.

Ela voltou até o beco onde os outros estavam, passando os olhos pelo jornal.

- Droga, o Baixinho-san vai ajudar o exército – comentou.

- Isso não é lá novidade, é? – Envy comentou, bufando e passando o braço pela cintura de Lie quando ela se aproximou.

- É, mesmo assim – murmurou. – Ele não pode fazer alquimia, no que será útil?

- O irmão dele pode – Lust falou. – E aonde um Elric vai, o outro vai atrás, não é?

- Eu conheci o Edward-kun – Pandora disse, balançando as pernas enquanto se sentava sobre uma lata de lixo. – Os medos dele são muito óbvios! Pan achou muito fácil colocá-lo num pesadelo que o aterrorizasse.

- O problema dele é que ele quer proteger a tudo e todos – Lie murmurou. – Apesar de que não é realmente um problema, se ele não fosse assim nem eu nem o Envy estaríamos vivos.

Envy soltou um suspiro.

- Ahh, não gosto de pensar que devo minha vida àquele baixinho. É tão humilhante...

Lie deu-lhe uma cotovelada nas costelas.

- Não seja mal agradecido.

- Eu não sou. Você é que é agradecida demais!

Ela revirou os olhos.

- Está na hora – disse Pandora. – O sol está começando a se pôr. Vamos, senão a Juno-sama vai começar sem nós!

- Hm? – Envy franziu o cenho. Ele era o único que não ficara sabendo do evento da noite, embora Lie também não soubesse exatamente do que se tratava. – Começar o quê?

- A reunião – Lust explicou, embora suas palavras não tivessem sido lá explicativas.

As duas começaram a andar na frente – Pandora, saltitando e Lust revirando os olhos para ela – enquanto Lie e Envy ficavam para trás e se entreolhavam. Lie aguardou que houvesse uma boa distância entre ela e os demais.

- E então – perguntou, começando a andar com Envy ao seu lado. – Você está gostando?

- Do quê?

- Da nova vida, idiota.

- Ah, claro! É bom conversar com a Lust depois de tanto tempo... E a Pandora é legal, apesar de ser muito, muito, muito infantil.

- Ela me chama de onee-san – Lie riu baixinho.

- Ela se apegou muito a você e muito rápido.

- Está com ciúmes?

Ele sorriu e apontou com o polegar para o próprio peito.

- Ela nunca vai ser eu, então isso me tranquiliza.

Lie riu e lhe deu um tapa no ombro.

- Convencido!

Ele passou o braço por seu pescoço e lhe plantou um beijo nos lábios. Eles andaram em silêncio por algum tempo e então Envy perguntou:

- Mas e você, está feliz?

Ela deu de ombros.

- Se você está feliz, eu estou feliz – mentiu. A frase em si não era uma mentira, só a parte de que ela estava feliz que não era completamente verdade.

Ele ficou em silêncio, sem saber o que dizer.

Quando chegaram ao prédio, entraram no elevador com Pandora e Lust e subiram até o ultimo andar. Juno estava sentada impacientemente em sua poltrona.

- Posso começar? – perguntou, irritada.

Pandora correu até ela.

- Desculpe-nos, Juno-sama! Nós trouxemos notícias – disse e pegou o Jornal das mãos de Lie, entregando a ela. – Parece que o Edward-kun vai ajudar o Mustang-kun.

- Hmm – ela disse, lendo. – Quem são Lightning Alchemist e Health Alchemist?

- Lightning? Não é a tal de Kirii Kylie, que capturou a gente, Lie? – Envy perguntou.

- Sim... Mas não deu para ver o rosto dela, infelizmente.

Juno posou os olhos em Lie por um momento e bufou, jogando o jornal de lado.

- Que inútil – murmurou e se ergueu, indo até o centro da sala. – Bem, o que vocês vão ver a seguir é a coisa mais simples do mundo para mim. Embora para olhos supostamente experientes – ela olhou para Lie. – Possa parecer extraordinário demais.

Lie estreitou os olhos. Juno ignorou e virou para a parede que ficava entre a porta de seu quarto e a do banheiro.

- Troca Equivalente? – murmurou, unindo as mãos e projetando-as na parede. – Até parece.

Iluminação vermelha tomou conta do recinto, como se alguém tivesse acendido uma luz. Uma linha tênue partiu do chão, fincada à parede, e formou nela um retângulo, que se dividiu em dois e materializou a porta de pedra trabalhada, como da última vez. Juno se afastou muitos passos, começando a rir maliciosamente em voz baixa.

O Portão se abriu. Por um segundo, nada aconteceu. A imensidão que havia lá dentro era escondida por sombras e escuridão. Alguns segundos depois, três figuras começaram a sair do Portão. O primeiro, Gluttony, como sempre, gordo e com um sorriso abobalhado no rosto enquanto a língua pendia para fora da boca. Em seguida, Wrath, com o habitual tapa-olho, mas sem o sobretudo de Führer, apenas uma camisa branca. E por último, o gigantesco Sloth, que parecia capaz de dormir ali mesmo.

- Bem vindos, homúnculos – disse Juno, ainda com um leve sorriso no rosto. Entretanto, este logo se dissolveu quando seus olhos contaram a quantidade de homúnculos presentes depois que o Portão se fechou e sumiu em luz vermelha novamente. – Faltam dois.

- Ah, sim, faltam mesmo – Lust comentou. – Onde estão Pride e Greed?

- Provavelmente voltaram para os corpos nos quais morreram – Lie murmurou. Embora ainda estivesse um tanto surpresa com o que acabara de acontecer, era capaz de manter a linha de raciocínio. – Pride deve ter ido parar na casa de Madame Bradley.

- E Greed no corpo daquele estrangeiro de Xing – Envy rebateu.

Num lugar muito distante de onde eles estavam, o imperador de Xing, Ling Yao, desfrutava de um jantar delicioso. Antes que usasse os hashis para colocar mais uma porção de macarrão na boca, parou. Sua cabeça se ergueu enquanto seus olhos puxados se arregalavam.

- Mestre? – perguntou La Fan, aparecendo do nada. – Algum problema?

Um sorriso começou a crescer no canto do rosto de Ling.

Juno soltou um suspiro.

- Droga, não esperava por essa – comentou. – Mandarei que venham até aqui.

- Como, Juno-sama? – perguntou Lust.

- Juno-sama pode fazer qualquer coisa! – disse Pandora. – Pan já recebeu mensagens dela! A voz de Juno-sama ecoa na cabeça de Pan dizendo o que ela deve fazer!

Juno assentiu.

- Gluttony, Wrath e Sloth, eu quero que cuidem respectivamente dos primeiros três andares do prédio. Não deixem ninguém que não seja nosso aliado entrar.

Os três assentiram.

- Sim, Juno-sama – Wrath murmurou enquanto os três começavam a caminhar para o elevador.

Lie ponderou se suportaria o peso de Gluttony, mas resolveu não se preocupar. Ela baixou os olhos por um minuto, contendo a surpresa. Ok, talvez Juno fosse capaz de trazer de volta alguns homúnculos, mas isso não significava que ela fosse Deus, não é? Apesar de que... Ela abrira o Portão sem pagar nada em troca e sem fazer nenhum círculo de transmutação...

- E então, Lie? – perguntou Juno, lançando ao homúnculo um olhar afiado. – Foi o suficiente para convencê-la?

Lie sentiu os olhares de todos focando-se nela. Baixou o rosto, constrangida por um momento, então soltou um suspiro forte e dirigiu-se às escadas, já que o elevador já estava quase no andar de baixo. Não lhe faria mal descer alguns andares a pé.

Um sorriso nefasto cobriu o rosto do pequeno homúnculo enquanto ele observava o corpo que jazia à sua frente. O corpo de Madame Bradley, deitado numa poça de sangue. Se Wrath tivesse voltado também, provavelmente não ficaria muito satisfeito. Mas no momento Pride não dava à mínima. Olhou para o lado, num espelho pendurado na parede. Estava mais alto do que da última vez. Começou a se perguntar quanto tempo se passara desde...

Uma enchente de memórias correu por sua mente até o momento de sua morte. Quando morrera pelas mãos de... Ah, claro. Edward Elric e Lie. Ele trincou os dentes, zangado.

“Venha até aqui” disse uma voz em sua cabeça. No minuto seguinte, uma imagem de um edifício fora impressa em sua mente. “Fui eu quem o trouxe de volta à vida, sua obrigação daqui em diante é me servir. O que eu faço eu também posso desfazer”.

Por um minuto, ele duvidou. Mas de que outra maneira teria voltado à vida?

- Ei, há quanto tempo – murmurou uma voz atrás dele.

Pride se virou e viu Lie apoiada no batente da porta que dava para a sala de estar.

- Gostaria de dizer o mesmo, mas para mim o que houve foi como se fosse ontem – murmurou com uma expressão de ódio no rosto. – E então, se veio aqui por conta própria é porque está ansiosa para morrer, não é?

- Você não pode me matar. As circunstâncias agora são bem diferentes. Um ano se passou desde que o Pai morreu.

Os olhos de Pride se estreitaram.

- Um ano. E o que houve com você e o Envy? O FullMetal matou vocês também?

- Não, andamos vivendo por aí. Eu ajudei o Edward a te matar, ele não ia acabar comigo depois. Mas eu estava doida para vir aqui e matar seu recipiente para que não sobrassem lembranças da sua fútil existência.

- Veio no momento errado, não?

- Teria vindo se agora eu estivesse aqui para te matar.

Eles se encararam por alguns minutos e Pride suspirou, abrindo um sorriso conformado e erguendo os braços ao lado do corpo.

- Bem, então não entendo por que veio atrás de mim. Agora que tenho minha vida de volta não tenho que obedecer a mais ninguém.

“Tem que obedecer a mim” a voz em sua cabeça enfatizou. Ele baixou os braços e estreitou os olhos com o cenho franzido.

- Ela já está na sua cabeça? – Lie perguntou. – Fico curiosa para saber como deve ser, mas parece que ela não consegue penetrar na mente de quem não passou pelo Portão graças a ela. Isso é bom, imagine só como seria não conseguir mentir para alguém que lê minha mente?

Pride a encarou e Lie sorriu amigavelmente.

- Quem é essa voz?

Lie olhou para o chão.

- Seu nome é Juno e ela se intitula Deus, mas eu não sei se acredito muito nessa denominação, apesar de ela fazer coisas com alquimia que até o mais experiente alquimista duvidaria.

- Foi ela quem me trouxe de volta, certo?

Lie assentiu.

- Ela se importaria que eu te matasse para me vingar agora?

Lie pensou por um momento, então deu de ombros.

- Acho que sim, mas não seria tanto trabalho para ela.

Pride ouviu um suspiro em sua mente e começou a rir.

- Acho que ela se importaria – murmurou dando de ombros. Ele ficou sério novamente. – O que te fez se juntar a ela?

Lie suspirou e virou de costas para ele, começando a ir em direção à porta. Parou ao chegar ao batente.

- Envy.

Um sorriso malicioso cresceu no rosto de Pride.

- Eu te avisei.

O olhar dela desviou um milímetro para ele.

- O que quer dizer?

- Lembra-se de quando eu te falei que essa relação não ia ter futuro?

Lie trincou os dentes.

- Está tendo futuro.

- É o que você pensa – Pride continuou. – Quando você está feliz, ele não está. Quando ele está feliz, você não está.

Ela se virou para ele, com ódio no olhar.

- Isso não é verdade! Cale a boca!

Pride limitou-se a sorrir. Ele lhe lançou um olhar convincente e passou por ela, saindo da Mansão Bradley.