Seus olhos puxados se abriram lentamente e ele deu de cara com uma bela paisagem passando rápido ao amanhecer. Os campos verdes indicavam que já estavam em Amestris, provavelmente muito próximos da Central. Ling embarcara no primeiro trem logo depois do jantar e de uma ligação rápida para sua meio-irmã do Clã Chang. Ele se lembrou vagamente da conversa que tiveram.

- Hmm, alô, garota... eh, May, não é? É o Ling.

- Ah! O que você quer, Ling Ya... agh, quero dizer, Imperador?

- É um tanto constrangedor pedir isso, mas tenho que ir para Amestris imediatamente. E envolve os Elric. Você tomaria conta das coisas por um tempo...? Mas é só por um tempo hein!!

- O quê?! Por quê? Quero saber se é algo que envolve o Alphonse-sama!!

- Vou pedir uma ajuda para eles, mas não te interessa. Só me responda. Você é a mais... uhm, menos desconfiável, dentre todos os nossos outros irmãos...

Ela pensou por um momento.

- O que ganho em troca?

- Ah! Já não é o bastante a oportunidade de ser imperatriz por no máximo uma semana?!

- Você que conviveu com o homúnculo Greed, Ling Yao.

Ele suspirou.

- Te dou uma passagem para Amestris sempre que quiser visitar o Alphonse.

Ela pareceu dar um grito de felicidade ao telefone. Como era fácil agradar aquela garota...

- Já está acordado? – perguntou La Fan, sentada em frente a ele no trem.

- Uh? Ah, sim, La Fan.

Ela assentiu e baixou o olhar, pensativa. Ling não dissera nada sobre o motivo repentino de querer vir à Central e isso a deixara muito preocupada.

- Mestre, por favor, diga-me o que está acontecendo – ela disse por trás da máscara.

Ele suspirou. “Conte a ela, idiota” Greed murmurou em sua mente.

- Não posso – disse ignorando o homúnculo. – Não agora, mas prometo que vou falar logo.

“Por que essa hesitação toda? Ela só vai proteger você. Que custa deixa-la a par do que está havendo?”

- Só não quero que se preocupe mais ainda – murmurou Ling, respondendo à pergunta de Greed, mas direcionando-se a La Fan.

Ela corou por trás da máscara, mas assentiu.

- Confio em você, jovem mestre.

Eles chegaram à estação minutos e Ling não perdeu tempo: seguiu direto para o Quartel General da Central. Lá, felizmente encontrou a Tenente Riza Hawkeye.

- Uh! – exclamou Riza quando o viu. – Ling Yao. Nossa, mas que surpresa. O que faz por aqui?

- Olá – disse Ling seriamente. – Poderia me dizer onde estão os irmãos Elric, por favor? É uma emergência.

Ela franziu o cenho.

- Para vir de Xing para cá, deve ser mesmo. Acompanhe-me.

Hawkeye o guiou até o escritório do Führer Mustang, pois era onde os irmãos Elric estavam naquele momento.

- Não consigo acreditar nisso! – Edward gritava, erguendo-se da cadeira. – Simplesmente não consigo! Preciso ver com meus próprios olhos! Onde estão Kirii e Mi-Cha?! Já estão sabendo disso?

- A senhorita Mi-Cha foi examinar o corpo de Madame Bradley. Parece que o crime não tem relação com os outros assassinatos que estamos investigando.

- Claro que deve ter! Tem alguma coisa acontecendo, mas você não quer abrir os olhos para isso! – Edward gritou.

- Onii-san – Al repreendeu.

- Aquele outro homúnculo, Pandora! E é óbvio que Madame Bradley foi morta pelo Pride! Como pode acreditar que ele foi sequestrado?!

- Você mesmo matou o homúnculo Pride, Do Aço! – Mustang se levantou para encarar Edward. – Como pode acreditar que ele voltou?!

A porta do escritório se abriu e as três cabeças giraram para ver quem entrava.

- Com licença, Führer – Hawkeye falou. – Ele disse que era urgente.

- Ling?! – Edward exclamou.

- Ling-san! — Alphonse disse. – O que está fazendo aqui?

Ele entrou. La Fan já não estava com ele, mas observava toda a situação da janela. Hawkeye prestou continência e retirou-se da sala, voltando a seus afazeres.

- Edward. Alphonse – ele cumprimentou com um aceno de cabeça. – Führer.

- Boa tarde – Mustang disse, sentando-se novamente.

- Ei – Edward falou. – O que houve para você vir até aqui? Não imagino que seja uma visita de cortesia.

Ling balançou a cabeça.

- Não, naturalmente. Eu preciso contar a vocês uma coisa que aconteceu ontem à noite.

- Pode dizer – Alphonse murmurou, convidativo.

- Bem, ontem, durante o jantar, eu senti uma presença familiar. Sabem que eu posso sentir a presença dos homúnculos, mas não foi bem isso, até porque La Fan não notou.

A garota estreitou os olhos do outro lado da janela.

- Como ela não comentou nada, resolvi não falar também. Na verdade, achei que algo poderia estar acontecendo e resolvi vir até aqui para falar com você, Ed – ele soltou um suspiro. – O Greed voltou.

La Fan, Mustang e Alphonse arregalaram os olhos. Mas isso não foi inteiramente uma surpresa para Edward. Ele assentiu seriamente e virou para o Führer.

- Você precisa de mais provas? – Edward perguntou. – Sei que quer que tudo esteja bem, mas essa não é a realidade. Mais e mais pessoas vão morrer se você continuar fechando os olhos a tudo o que está acontecendo.

Os olhos do alquimista das chamas baixaram para suas mãos.

- Talvez tenha sido por isso – Ed falou. – que a Verdade tomou sua visão daquela vez. Para te mostrar que se fechar os olhos, as pessoas ao seu redor vão continuar morrendo! Como foi que se sentiu quando viu que não podia nos ajudar a derrotar o Pai?

Edward encarou Mustang por alguns segundos, mas não insistiu. Virou-se para Ling.

- O Greed sabe como ele voltou?

Ling franziu o cenho e ia começar a perguntar, mas de repente baixou a cabeça nas mãos, como se estivesse com uma dor muito forte. Em sua mente, Greed tentava assumir o controle e gritava “Deixe-me falar com ele! Deixe-me falar com ele, Ling!”.

- Argh! – rosnou. – Não pode simplesmente me dizer??

“EU quero falar com ele!”

- Argh! Ele quer falar com você, Ed!

Edward franziu o cenho, sentindo-se impotente por não poder ajudar. No minuto seguinte, depois de um grunhido agourento, Ling sucumbira e Greed tomara o controle do corpo.

- Ah, bem melhor – murmurou, depois olhou para os dois. – É bom ver vocês de novo!

- Greed – Alphonse falou. – Responda, por favor!

- Como você voltou? – Ed insistiu.

Greed ficou momentaneamente em silêncio.

- Eu não sei ao certo. Eu simplesmente apareci de novo na cabeça do Ling e depois de um tempo ouvimos uma voz nos dizendo para vir para cá. Foi um dos motivos também.

Edward arregalou os olhos.

- Uma voz...

- É, uma voz feminina, jovem, levemente frustrada...

- Será que... – Al murmurou. – Onii-san! Será que não foi a mesma voz que você disse que ouviu quando Pandora te fez desmaiar?

- Acho que sim... – ele murmurou. – A mesma voz... que ela chamou de Deus.

Não que houvesse algo que pudessem fazer naquele momento, uma decisão que pudessem tomar àquela altura, já que pouco sabiam a respeito dos incidentes ocorridos nos últimos tempos, mas quando saíram da sala do Führer alguns momentos mais tarde, Edward sentiu uma terrível frustração tomar conta de sua alma. Como não conseguira nada depois de quase uma hora batendo boca com o ex-Coronel? A não ser pelo fato de terem descoberto que Greed estava, embora graças a circunstâncias inacreditáveis e por hora desconhecidas, vivo novamente.

- Onii-san? Você está bem? — Alphonse perguntou quando viu que o irmão não se movera nem um milímetro de onde parara ao sair do escritório.

- Sim — mentiu o mais velho. — Só queria saber o que se passa na mente desse cabeça-dura! Há pessoas morrendo, droga!

- Estão falando da série de assassinatos que tem ocorrido, certo? — Greed intrometeu-se.

- Lembro-me de ter visto de relance o jornal de um homem na estação falando sobre o assunto... O negócio não está nada bom, não é mesmo?

Edward limitou-se a baixar o rosto.

- Ele nos chamou para ajudar, mas parece que não quer nossa ajuda.

- Huh – Greed fez, parando um pouco para pensar. – Ahn, o Ling disse “Pode contar comigo para qualquer coisa que você precisar, Ed. Estou nessa com vocês”.

- Obrigado – Edward respondeu, assentindo.

Eles escutaram passos apressados virando o corredor e quando olham, avistam Kirii andando apressadamente enquanto folheia um documento. Ela ergueu os olhos e parou instantaneamente por alguns segundos, então sorriu e veio mais lentamente em direção a eles.

- Olha só, Elric! Como vocês estão, garotos?

- Kirii-san! Que bom vê-la de novo – disse Alphonse.

Edward, por outro lado, lançou um olhar a Kirii e se dirigiu a um corredor, distanciando-se bruscamente. Não estava com cabeça para conversar com ela agora. Os demais ficaram olhando por um minuto.

- O que ele tem? – Kirii perguntou. – Brigou com o Mustang-kun de novo?

- Provavelmente – Greed respondeu, cruzando os braços. – Aqueles dois não se dão de jeito nenhum.

Kirii voltou sue olhar para o homúnculo, avaliando-o de cima abaixo e sorriu.

- Então, Al, não vai me apresentar seu amigo?

- Ahh, desculpe! – exclamou Alphonse. – Kirii-san, este é L... Greed. Greed-san, esta é Kirii Kylie, a Lightning Alchemist.

Greed ergueu as sobrancelhas, surpreso.

- Hm, não esperava que fosse uma alquimista.

- Ah, bem, acontece – ela estendeu a mão para apertar a dele, mas em vez de apertá-la formalmente, Greed pegou-a e beijou as costas de sua mão. Kirii ficou levemente encabulada e sem saber o que dizer ou fazer pela primeira vez em muito tempo.

- É um prazer conhecê-la – disse com um tom galanteador na voz.

- O prazer é meu – ela murmura, rindo um pouco e soltando a própria mão enquanto Greed recuperava a postura.

“Você não perde tempo, hein, Greed...” Ling murmura na cabeça do homúnculo em tom de desdém.

Um sorriso disfarçado apareceu no rosto de Alphonse até que ele percebeu outra pessoa se aproximando. Ou melhor, duas pessoas: La Fan vinha carregando uma pequena montanha chorosa de cabelos cor-de-rosa.

- Jovem mest... Uh, digo, Senhor Greed – ela falou, erguendo Mi-Cha com uma sobrancelha erguida. – Essa garota parecia estar espionando.

Greed franziu o cenho, olhando para as duas. Kirii soltou um suspiro alto.

- Mi-Cha, você estava me espionando?

Os três olharam de Kirii para Mi-Cha.

- N-N-Não, Kirii-sama! – exclamou, choramingando. – Eu s-só estava esperando que terminasse sua conversa para relatar as novidades ao Mustang-s-san.

- Uh, vocês se conhecem? – perguntou Greed enquanto La Fan soltava a garota.

Kirii assentiu.

- Digamos que ela é minha protegida.

Os olhos de Mi-Cha brilharam.

- P-Protegida? – ela pareceu nas nuvens por um momento. – Ahh, Kirii-sama!

Kirii sorriu para Mi-Cha e disse:

- Ok, por que você não brinca um pouco com o Alphonse-kun?

- M-Mas eu deveria...

- Podemos falar os resultados para o Mustang-san daqui a pouco, cinco minutos não farão diferença.

Ela arregalou os olhos de felicidade e assentiu, indo conversar com o mais novo dos Elric. Greed olhou para Kirii.

- Protegida?

Ela sorriu enquanto olhava para Mi-Cha.

- Digamos que ela é parte do que eu preciso para alcançar meus objetivos.

- Não são amigas?

Ela deu de ombros.

- Não exatamente, embora eu ache que é isso que passa pela cabeça dela.

Um sorriso sombrio passou pelos olhos de Greed.

- Isso é um tanto cruel, não acha? – perguntou ele. – Eu diria que é praticamente usá-la.

Kirii ergueu as sobrancelhas e olhou para Greed com uma expressão intrigada no rosto.

- Até onde você iria para alcançar seus objetivos, Greed-san?

Um sorriso sombrio passou pelo rosto do homúnculo. “Ih, acho que ela faz bem o seu tipo, não é?” Ling perguntou, rindo.