Godless Soul
10 Realidade impossível
Distúrbio de múltipla personalidade? Foi o que o médico disse. Quanto às pessoas daquela pequena vila, diziam que um demônio invadira seu corpo e ela necessitava um exorcismo. Já o padre disse que duas almas habitavam o mesmo corpo e lutavam pelo mesmo espaço: uma boa e uma má, e apenas o tempo decidiria qual haveria de permanecer.
De todas as pessoas que já haviam examinado a pequena Hara, o padre foi o que chegou mais perto. Entretanto, o que ele não previu era que a outra alma que habitava o corpo da garota era Deus. Ninguém poderia adivinhar.
Nem mesmo Hara sabia. Ela só tinha consciência de ouvir uma voz falando com ela todas as noites desde que ela nasceu. A voz fingia ser boa com ela, mas a garotinha não sabia de suas verdadeiras intenções. Ela não notava, mas todas as noites, nos momentos em que estava dormindo e sua mente ficava mais fraca, essa outra alma tomava posse de seu corpo e saía pela vila para matar uma pessoa.
E só quando as outras apareciam e começavam a sacudi-la, perguntando por que fizera aquilo, Hara acordava sem saber onde estava nem o que estava havendo.
- Eles não entendem que você não fez nada – dizia a voz. – Todos querem te acusar. Todos estão contra você, Hara-chan.
- Por quê?! – choramingava a menina de volta para a voz. – Por que todos me odeiam?!
- Eles querem o seu mal. É por isso.
Os assassinatos começaram por volta de seus sete anos. Poucas pessoas conseguiam acreditar que uma garota dessa idade poderia matar tanta gente. Não havia uma noite em que alguém não saísse pelo menos ferido.
Uma vez, a mãe de Hara resolveu observá-la durante a noite. Foi logo depois disso que começaram a levar a garota a todos os médicos, terapeutas, psiquiatras e padres nas cidades próximas.
- Hara, onde está indo, minha filha? – perguntou a mãe.
A garota olhou para ela. Em seus olhos azuis não havia a costumeira compaixão. Estavam completamente frios e desprovidos de amor.
- Não sou Hara – ela disse. – Nem sou sua filha.
Assustada, a mãe chegou perto de Hara, perguntando o que estava acontecendo. Mas a menina soltou-se dela e correu para a cozinha, pegando uma faca e tentou machucar a mulher. Quando conseguiu fincar a lâmina na perna dela, por sorte, Hara acordou, começando a chorar, desesperada, pedindo desculpas...
- Não foi sua culpa, Hara-chan – disse a voz em sua mente. – Você só se lembra de ter ido dormir.
— É minha culpa! – soluçava. – É minha culpa! Desculpe!
Depois desse evento a menina entrou em depressão. Afinal de contas, ninguém na vila chegava perto dela, nenhuma das crianças brincava com ela, e todos eram apavorados demais para sequer olhá-la nos olhos. Quando ela completou 14 anos, a depressão chegou ao ápice.
- Não quero mais viver! – ela choramingou, trancada no quarto, certa noite. – Todos têm medo de mim, mas ninguém entende que eu não faço nada! Não consigo me lembrar de como chego aos lugares, nem nada disso. Eu quero morrer!
- Não diga isso! – a voz protestou. – Estou aqui com você, lembra-se?
- Você não é de verdade – Hara protestou. – É apenas uma “rota de fuga” que meu cérebro encontrou. Foi o que o médico disse quando comentei sobre você.
- Eu não sou nada disso. Não sou fingimento. Conhecemo-nos desde que você nasceu, não é?
- Isso não importa. Você só sabe falar na minha cabeça! Eu quero morrer, assim não vou sofrer mais e nem vou causar sofrimento a ninguém!
A voz ficou em silêncio por um momento, até que perguntou:
- Hara-chan – disse. – Você não quer mais seu corpo?
- Não, não quero.
- Então – prosseguiu devagar. – Por que não o dá para mim?
A menina ficou quieta, erguendo o rosto dentre as mãos, confusa.
- Hara-chan – a voz falou. – O que acha de trocar de lugar comigo?
Houve uma longa pausa de silêncio profundo. Hara abriu a boca para responder, mas inicialmente não saiu dela som algum. Ela tentou novamente.
- Sim – disse num sussurro.
Minutos depois, a porta do quarto da mãe de Hara abriu-se repentinamente. A mulher ergueu-se da cama num átimo e olhou para ela, notando o que carregava: um pedaço de madeira pontudo com pregos mal martelados. Ela tirara aquilo da armação da janela de seu quarto.
- Filha, o que houve?!
Os olhos azuis dela estavam avermelhados pelo choro e seu rosto molhado e quente. Mas isso não a impediu de sorrir. Um sorriso demoníaco. Maravilhado, mas ao mesmo tempo terrível e sádico.
- Não sou sua filha, eu já disse – sua voz soava tão aterrorizante quanto sua expressão. – E não sou Hara. Sou Juno. E estou finalmente livre!
Um grito ecoou pela noite e as poucas pessoas que se atreveram a abrir as janelas para tentar localizar de onde viera, foram as últimas a ver a pequena garota naquela vila enquanto ela deixava o local de nascimento com um pedaço de madeira com pregos, completamente ensanguentado.
Lie fitou Juno, completamente estupefata. Envy a observava com os olhos arregalados também. Entretanto, ele não possuía o conhecimento de alquimia da namorada, então era mais fácil acreditar.
- Está me dizendo – Lie perguntou. – que você é a encarnação de Deus?
Ela assentiu levemente.
- Não completamente. Sou a encarnação de apenas parte da Verdade.
- Deus não deveria supostamente ser bom com as pessoas? – Envy perguntou. – Só o que você tem feito parece ser matar.
- Você fez a pergunta que eu queria. Eu sou a parte renegada, revoltada e obscura Dele, aquela que Ele jurou esconder para que nunca descobrissem a quem, na verdade, os humanos saíram a imagem semelhante.
- E a outra parte?
- Está completamente furiosa comigo, mas continua tomando conta do outro lado do Portão para receber os humanos burros que tentam a Transmutação Humana.
- Isso é impossível – Lie comentou, abismada. – De todas as teorias, os tabus, as histórias e as lendas que já ouvi ou li sobre alquimia... Nada é tão assustadoramente impossível!
- Bom, a mentirosa aqui é você, não eu – Juno falou.
Envy estreitou os olhos. Então Juno dirigiu-se a ele.
- Quanto a você, Envy, acho que já está conosco, não é? Sua irmã, Lust, contou-me como você é útil. Seria ótimo tê-lo ao nosso lado – ela franziu o cenho. – Mas algo me diz que sua namorada será um pequeno problema. Como vamos convencê-la?
Envy pareceu desconfortável ao ter que decidir, mas Lie soltou um som de desprezo.
- Eu vou onde Envy for. Nunca houve dúvidas quanto a isso.
Juno ergueu as sobrancelhas e juntou as mãos num estalo. Naquela posição, com a postura reta e as mãos juntas, parecia até angelical. Como se estivesse rezando.
- Ooh, que bom! Isso já facilita muito as coisas, você sabe. Eu não queria ter que usar Pandora contra você, uma arma igualmente formidável.
Lie reprimiu um rosnado. “Arma”, pensou.
- Se for para que Envy fique feliz, faço qualquer coisa – murmurou, desviando o olhar.
Envy soltou um sorriso malicioso e a abraçou, plantando um beijo caloroso em seus lábios.
- É a minha garota que não tem medo de quebrar uma promessa.
- Só para o caso de você não ter notado – ela disse friamente, olhando para ele. – Até a promessa que salvou sua vida.
Ele franziu o cenho e parou de sorrir, parecendo levemente irritado.
- Isso significa que agora voltamos a ser uma família – Lust comentou num tom de leve desgosto. – Que ironia.
- Pois é, são os primeiros momentos como minha cunhada, Lust. Seja feliz – Lie sorriu com falsa amabilidade para ela.
- Pelo contrário...
Pandora jogou-se no pescoço de Lie, abraçando-a.
- Lie-onee-san! Que bom! Que bom! Agora somos da mesma família!
Lie deu risada, abraçando Pandora.
- É, não é? Acho que sim.
Juno observou Lie por mais alguns segundos e então se levantou.
- Já está tarde, vou dormir. Ao contrário de vocês, homúnculos, este corpo necessita de horas diárias de descanso.
- Seria uma boa ideia procurar por um novo recipiente, não, Juno-sama? – perguntou Lust.
- Não. Este é o suficiente por enquanto. Vou me preocupar com isso mais tarde. Não tenho pressa.
- Juno-sama, mais alguém que quer que Pandora mate? – Pandora perguntou. – Não consegui matar a moça loira, quer que eu tente outra vez?
- Hmm, não por enquanto. Descobri que ela tem uma relação forte com o Führer. Se tivermos o Führer, teremos o país. E já é um bom começo.
- Para que quer o das Chamas? – perguntou Envy.
- Meu objetivo principal é dominar o mundo que minha outra metade se diz proprietária. Depois que eu conseguir isso e ela não tiver mais controle de nada, imagino que vá sucumbir ao meu poder.
- E se não o fizer?
Ela sorriu diabolicamente.
- Eu a forçarei a fazer – ela passou os olhos, satisfeita, pelos demais, e então disse: — Boa noite.
Com isso, retirou-se.
- O QUÊ?!? – gritou Kirii. – ELES FUGIRAM? COMO? E POR QUE NINGUÉM ME ACORDOU PARA ME DIZER?!
Hawkeye pareceu extremamente desconfortável e lançou um olhar a Mi-Cha, que se escondia atrás de suas pernas, com medo da mestra.
- Desculpe – a oficial prosseguiu. – Mas foi muito corrido. Tivemos que socorrer os feridos, não houve tempo para perseguições.
- Argh! Mas agora eles sabem que estou atrás deles, com certeza vão se esconder melhor! – exclamou, enraivecida.
Kirii ainda trajava seu pijama cor-de-rosa – que, junto com seu cabelo, a deixava um tanto monocromática, mas pior seria se fosse com Mi-Cha -, embora fosse por volta de dez horas da noite. Elas estavam na porta de seu quarto do hotel e como a ruiva só aparecera no Quartel General de manhã, não ficara sabendo de absolutamente nada do que acontecera. Ao contrário de como pessoas com estado de sanidade normal fariam, Kirii chegara ao hotel na madrugada anterior, após levar Lie e Envy para o Quartel General, jantara, e fora beber e jogar no bar. Mi-Cha se fechara no quarto e fora dormir enquanto isso.
Ela deveria estar de ressaca, se fosse uma pessoa normal. Mas Kirii tinha algo muito estranho em sua personalidade: mesmo que ficasse dias sem dormir, não aparentava sono ou cansaço, e coisas como dores de cabeça, ressaca ou enxaquecas não surtiam efeito com ela. Unida a Mi-Cha, formavam uma dupla muito excêntrica.
- Kirii-sama – disse Mi-Cha por trás de Hawkeye. – Ouvi dizer que Alphonse E-Elric também estava lá. Por que não perguntar a ele? T-Talvez tenha alguma pista de para onde os homúnculos foram...
Ela franziu o cenho, pensativa, e então arregalou os olhos e apontou para o teto, entusiasmada.
- Já sei! Se Alphonse Elric estava presente, eu poderia perguntar-lhe se tem alguma pista de onde os homúnculos foram! – ela bateu um punho fechado na palma da outra mão. – Isso!
Hawkeye e Mi-Cha se entreolharam.
- M-Mas foi o que ela acabou de dizer... – Riza comentou.
Mas Kirii não escutara. Ela se virou para Mi-Cha e a puxou pelo pulso, começando a correr na direção da saída, ainda de pijama.
- Vamos! Não temos tempo a perder!
Hawkeye ficou observando, atônita, enquanto ouvia Mi-Cha gritar:
- M-M-Mas Kirii-samaa! Primeiro troque de roupa, por favooor!!
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