Godless Soul
11 Passado
Tudo lá embaixo parecia mais melancólico do que de costume e aquilo estava deixando Lie completamente louca. Vagar na rua sozinha tornava-se sem sentido já que Envy não estava com ela. Na verdade, tudo se tornava sem sentido quando eles não estavam juntos. Quando ela saíra para andar àquela manhã, ele preferira ficar no refúgio do último andar daquele prédio contando as novidades para Lust e conhecendo melhor Pandora – que começava a chamá-lo de onii-san.
Enjoada de tanto zanzar sem caminho pelas ruas, ela voltou ao prédio do antigo hotel e se dirigiu ao último andar. Quando abriu a porta do elevador pôde ver os demais conversando enquanto Juno ainda dormia – como seu corpo era de uma garota que praticamente era uma criança, ela necessitava de mais horas de sono. Ela sentiu uma pontada de ciúmes quando notou Envy contando entusiasticamente, com aquele sorriso sádico tão característico do mesmo, sobre as coisas que aconteceram depois da morte de Lust.
Lie deu um passo para trás, hesitante. Seria impressão ou eles mal davam por sua falta? Nessa esquiva, ela olhou para o lado e viu uma porta que não tinha reparado antes. Voltou o olhar para os demais e depois de novo para a porta. Deu de ombros consigo mesma e abriu.
Depois de um baque oco da porta abrindo, havia uma escada. Lie subiu curiosa para saber o que havia lá em cima.
A verdade era que, apesar de ser considerado o último andar alcançável pelo elevador, aquele em que Envy e os outros estavam não era o último andar. Ainda havia uma cobertura, mas sem nenhuma parede ou teto, nem nada. Apenas o alçapão que dava para a escada e uma vista inacreditável de toda Cidade Central. Ventava muito, mas Lie ignorou. Era bom sentir o vento – era como se alguém não se importasse de tocá-la. Ela se sentou na beirada, contra o vento, já se sentindo um pouco melhor.
Mal ouviu quando o alçapão se abriu de novo levemente, mas escutou da primeira vez em que Pandora a chamou.
- Lie-onee-san?
- Hm? – ela olhou para trás. – Ah, oi Pan. Ei, você não estava lá embaixo ouvindo a história do Envy?
Ela sorriu e deu de ombros, sentando-se junto com o outro homúnculo.
- Perde a graça rápido. Pan não sabe de algumas coisas de que eles estão falando nem conhece algumas pessoas sobre quem conversam.
- Lust disse alguma coisa sobre mim? – perguntou Lie.
- Hmm? Não, não disse. Mas eu posso ver que vocês não são muito amigas.
Lie assentiu.
- Odiamo-nos desde o primeiro momento em que nos vimos! Ah, é tão lindo.
Pandora sorriu. Parecia ser incapaz de não fazer isso.
- Lie-onee-san, como vocês se conheceram? Você e o Envy-onii-san, quero dizer.
- Ah – ela disse. – Do mesmo jeito que eu e a Lust. A princípio ninguém gostou de ninguém, mas eu e o Envy acabamos passando mais tempo juntos e aprendendo a nos aturar, até que não suportamos mais ficar separados – Lie soltou um riso da própria descrição, mas depois suspirou. – Entretanto, ultimamente temos estado distantes. Ele não parece feliz com a vida que temos levado, mas não comentou nada comigo, e me sinto culpada por isso.
- Lie-onee-san, você ama o Envy-onii-san?
Lie sorriu, hesitante, pois Pandora parecia uma criancinha curiosa fazendo perguntas sobre a vida pessoal dos outros sem entender que era constrangedor.
- Sim, eu o amo – respondeu mesmo assim. – Ele é a pessoa mais importante do mundo para mim.
Pandora de repente parou de sorrir, levantando-se. Lie notou o movimento e olhou para cima, sem entender.
- O que foi?
- Agora entendi – ela murmurou, lançando um olhar triste para Lie. – Eu não estava conseguindo detectar qual é o seu maior medo – porque essa é minha habilidade, detectar medos e torná-los realidade – e agora entendi o motivo.
- Como assim...?
Ela não pareceu à vontade para responder.
- Quando Pandora não consegue detectar o medo de alguém, só pode haver um motivo para isso: esse medo ou está acontecendo ou já aconteceu – ela respondeu. – Pan pede desculpas por concluir isso, mas Pan acha que o maior medo da Lie-onee-san é se distanciar do Envy-onii-san...
Lie engoliu em seco e abraçou os joelhos, apoiando o queixo neles e olhando para o horizonte.
- Não tem problema – ela respondeu quanto ao pedido de desculpas. – No fim é isso mesmo. Meu maior medo é perdê-lo, me distanciar dele, ou qualquer coisa... O fato de ele não ter me contado sobre o que sentia quanto ao nosso modo de viver me fez sentir que estamos mais distantes do que eu imaginava.
Pandora sentou-se ao lado de Lie.
- Desculpe, onee-san – falou. – Não queria fazê-la sofrer.
Lie riu da ingenuidade dela.
- Ah, não tem problema, Pan. Sofrer faz parte da vida. Se escolhemos viver, escolhemos sofrer.
- Não gosto de sofrer – murmurou Pandora. – Já sofri antes de conhecer a Juno-sama.
- Sofreu?
- Uhum – ela resmungou, mas endireitou-se para começar a história. – Foi assim... Há 210 anos, que é minha idade, um alquimista federal foragido saiu do país com várias pesquisas inacabadas e se escondeu em Drachma. Quase sem saber bem no que ia dar, ele acabou criando um homúnculo... e foi assim que Pandora surgiu.
- Uh, você também foi um experimento – Lie murmurou.
- Uhm – ela disse, continuando. – Pan fugiu desse alquimista porque ele começou a maltratá-la e se escondeu, mas ele sempre a encontrava e ela sempre fugia de novo. Então um dia ele resolveu espalhar cartazes na cidade dizendo que Pandora era uma assassina e tinha que ser pega logo... E fez com que as pessoas começassem a procurar alguém com uma tatuagem de ouroboros no pé – ela apontou para o próprio pé, onde na lateral do calcanhar estava desenhada a cobra que mordia a própria cauda. – Mas o ruim para ele foi que uma pessoa de Amestris viu os cartazes e reconheceu o nome do alquimista foragido escrito neles e avisou ao governo e todos começaram a procurá-lo também.
“No dia em que ele me encontrou, os militares o encontraram também. Estávamos cercados de gente e então começaram a atirar. Ele começou a fazer alquimia para se proteger, mas ao mesmo tempo ele também queria que eu morresse e começou a tentar me matar também. Para todo o lado que eu ia, só via mais gente me machucando... E não conseguia entender nada. Como tanta gente podia odiar Pan só por Pan existir? Era muito injusto...
“Então eu caí no chão, já sem forças para lutar mais e ele caiu ao meu lado, já esgotado por tiros também. Pan então começou a chorar, pedindo que parassem e uma mulher cigana solidária entrou no meio do fogo cruzado, mandando que parassem... Não entendi como a ouviram, mas obedeceram. Ela se abaixou e sorriu, perguntando meu nome...”
- Ela te salvou? – Lie perguntou.
- Tentou.
- O que quer dizer?
- Ela morreu. O alquimista foragido, usando suas últimas forças, uniu as mãos e as pôs no chão e uma estaca de pedra saiu de lá, atravessando tanto o peito da moça que estava sentada de costas para ele quanto o meu.
“Pan virou o rosto e conseguiu encarar os olhos dele. Era só egoísmo. Ele não queria que ninguém chegasse aonde ele chegou, criando um homúnculo... Só que na época eu não entendi isso”.
- Mas se você morreu... como...?
- Juno-sama me ressuscitou! – ela exclamou, voltando a ficar entusiasmada. Sorriu, feliz. – Ela me deu outra chance! E quando Pan contou do que se lembrava, ela explicou tudo sobre os homúnculos, o que Pan era e tudo mais. Juno-sama é incrível ainda que Pan tenha muito medo dela!
Lie franziu o cenho para Pandora e voltou a olhar para o céu azul. Será que, afinal de contas, Juno não era alguém tão ruim assim? Nenhum homúnculo que Lie conhecera tivera – ou tem – uma vida muito feliz, como as vidas dos humanos. Ela olhou para baixo, vendo as pessoinhas seguindo suas vidas medíocres sem nem notar que ela as observava. Talvez Juno só quisesse dar uma chance aos homúnculos.
Ou talvez só fosse muito gananciosa mesmo.
Lie soltou um sorriso. É, Envy tinha razão, era boa a sensação de estar de novo numa aventura. Mistérios aguçavam a curiosidade e apesar de tensas, situações de perigo eram estimulantes.
E no fundo, até que ela estava gostando de ter matado aquele homem quando eles fugiram do Quartel General.
- Onee-san? – Pandora murmurou.
- Hm?
- Você não gosta da Juno-sama, não é?
Lie mordeu o lábio antes de responder.
- Não é que eu não goste, Pan. Só não consigo acreditar direito que ela é Deus e tudo mais. É meio inacreditável, sabe? Eu conheço alquimia, e em minha opinião, a Verdade encarnar num corpo humano é impossível.
- Mas é verdade! – Pandora falou. – E a Juno-sama disse que ia te provar isso quantas vezes fosse preciso. Ela disse que esta noite seria a primeira tentativa.
- Esta noite?
- Sim.
- O que ela pretende fazer?
- Hmm, Pan não sabe... – ela levou o dedo aos lábios, pensativa. – Mas acho que ela vai abrir de novo.
- Abrir o quê?
- O Portão.
- Elas estão atrasadas... – Edward comentou, impaciente.
Alphonse sorriu e assentiu de leve, olhando para os lados da rua. Eles estavam sentados à uma pequena mesa com um guarda-sol branco, na frente de um pequeno café. Era calmo e havia poucas pessoas, o lugar perfeito para conversarem sobre aquilo. Principalmente depois que Kirii chegou ao quarto deles no hotel passando das dez horas da noite, de pijama, arrastando Mi-Cha e querendo saber o que acontecera quando Lie e Envy fugiram. Mi-Cha conseguira convencê-la a acalmar os ânimos e a curiosidade para que se encontrassem ali no dia seguinte.
- Era de se esperar – Edward continuou. – Que a curiosidade delas ontem à noite servisse de estímulo para chegarem na hora.
- Kirii-san não parece ser mais velha que nós – Alphonse comentou rindo. – Ela age como se fosse uma adolescente imprudente e apesar de Mi-Cha-chan ser bem nova, parece que ela quem a põe na linha.
- A Mi-Cha-chan parece uma criança petulante.
Alphonse olhou para o lado, fingindo que estava distraído.
- Não vou te contar quem ela me lembra!
- Ei! – protestou o irmão.
Uma sombra das nuvens passou por cima deles, bloqueando o sol e deixando tudo ligeiramente mais fresco.
- Ei! Elric! Olhem aqui! – gritou uma voz feminina em algum lugar.
Eles olharam ao redor.
- Ué, de onde vem essa voz? – Al perguntou-se.
- Não! Aqui em cima! – gritou de novo. – Olhem para cima!
Edward e Alphonse ergueram as cabeças e arregalaram os olhos.
- QUÊ? EI, O QUE VOCÊS PENSAM QUE ESTÃO FAZENDO?! – gritou Edward, pois Kirii e Mi-Cha estavam a cerca de 10 metros do chão, flutuando num balão a gás que voava perigosamente baixo.
Kirii riu alto do espanto do loiro.
- Ah, o que é isso? Está bem! Vou descer!
A princípio esperava-se que ela jogasse uma escada e começasse a descer. Entretanto, Kirii jamais faria algo assim. Ela e Mi-Cha subiram na amurada do balão, agradeceram o homem que as dera a carona e pularam. Elas posaram pesadamente no chão, com vários olhares das pessoas que passavam sobre elas.
Edward e Alphonse ergueram-se da mesa e saíram correndo até elas.
- O que estavam pensando?! – Edward rosnou. – Poderiam ter machucado alguém aqui em baixo!
- Ah, relaxa, Elric – Kirii disse revirando os olhos. – Não ligo que alguém se machuque. Mi-Cha está aqui para isso! Por que acha que ela é a Health Alchemist?
Edward cerrou os punhos.
- Ora, sua...
- Bem, de qualquer forma – Kirii continuou, com um sorriso pretencioso plantado no rosto. – O nosso carro ficou sem gasolina e pegamos uma carona com o cara do balão por menos de 600 Cenz!
Alphonse riu um pouco.
- Kirii-san, você é adora entradas triunfais, não?
Ela deu um sorriso e uma piscadela para o garoto.
- Fazemos o que podemos!
Caminhou então até a mesa, acompanhada por Mi-Cha e elas se sentaram. Os garotos hesitaram, mas também foram. A conversa progrediu rapidamente e logo Kirii e Mi-Cha sabiam de tudo o que acontecera no dia anterior. Entretanto, houve uma parte que as intrigou.
- N-Não contar para o Mustang-san?! – perguntou Mi-Cha, surpresa. – Mas por quê? E-Ele é o Führer!
- É verdade – Edward disse. – Mas eu escondia coisas dele quando o desgraçado era um simples Coronel. Não é porque ele subiu de cargo que vou deixar de lado meu antigo hábito.
Kirii deu uma risada alta, concordando.
- Certo, o Mustang-kun não vai saber de nada – ela disse, recostando-se na cadeira. – Mas qual é o plano?
Edward sorriu.
- Por enquanto, tentar descobrir o máximo possível sobre como a Lust voltou e quem é aquela tal de Pandora. E se o Envy e a Lie estão envolvidos com ele. Ela me deve alguns favores ainda e duvido que deixe isso de lado, então parte da informação já está garantida. Só precisamos dar um jeito de nos infiltrar.
- Quanto à infiltração, pode deixar comigo – Kirii soltou um sorriso malicioso. – Já tenho uma ideia.
- Ótimo! – Edward levantou-se. – Então nos encontraremos assim que descobrirmos mais coisas!
Os outros três se levantaram também, felizes. Eles se despediram e começaram a ir embora. Haveria bastante trabalho dali para frente, mas era quase como se tivessem voltado aos velhos tempos.
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