Chapter 4: noite de perigo.

Edward e Alphonse prestaram continência em sincronia com Hawkeye e com Mustang. Eles estavam parados num corredor próximo ao laboratório do Quartel General da Central.

— Obrigado por trazê-los, Armstrong – o Führer agradeceu.

— Por nada, senhor! – disse e, em seguida se retirou acompanhado por Havoc.

Os demais ficaram em silêncio por um tempo, até que Edward resolveu falar.

— Então, Führer. Faz bastante tempo.

Mustang assentiu, sorrindo.

— Pois é, faz mesmo, Do Aço. Como foi a viagem?

— Tratando do assunto, eu também gostaria de falar sobre isso. Mas primeiro, diga-me por que nos trouxe aqui.

- Eu realmente não esperava ter que te contatar depois de quase um ano, até porque você não pode mais usar alquimia. – Mustang notou Edward enrijecer ao se lembrar. – Mas de qualquer maneira acho que seu cérebro pode nos ser útil.

Alphonse franziu o cenho.

— Pode nos dizer logo o que está acontecen...

Entretanto, ele foi interrompido, pois a porta do laboratório abriu repentinamente e vários cientistas que ali trabalhavam saíram enraivecidos, seguindo pelo corredor. A próxima a passar pela porta foi Kirii Kylie, fechando-a atrás de si com um sorriso satisfeito.

- Eu disse a eles que Mi-Cha precisa trabalhar sozinha. Ter cientistas de nível inferior pegando em seu pé é realmente importuno. – ela bateu as mãos na roupa, como se para afastar a poeira. E então notou os dois loiros parados junto ao Führer. – Ora, ora, ora, o que temos aqui?

Mustang suspirou, começando a acostumar-se com as atitudes petulantes da alquimista.

- Este é Edward Elric, o FullMetal Alchemist, e este é Alphonse Elric, seu irmão mais novo.

— Os irmãos Elric! Ah, é um prazer conhecê-los! Sabem que ouvi muito sobre vocês lá em Briggs não é? Pena que na temporada que passaram lá eu estava numa expedição de estudo em outro país! Teria sido interessante se eu pudesse tê-los ajudado a combater aquele homúnculo que por lá apareceu.

Edward e Alphonse se entreolharam quando a tagarelice acabou.

— Huh... Desculpe. – Alphonse perguntou. – Mas quem é você?

— Ah! Nossa, nem me apresentei, sinto muito! Eu sou a Lightning Alchemist, Kirii Kylie!

- Lightning Alchemist?

— Kylie-san fez o teste no ano seguinte que você, no entanto, ela tinha dezenove anos. – Hawkeye respondeu.

Kirii deu uma piscadela para Edward.

- Eu não consegui ser tão prodígio quanto você.

Edward deu risada.

— Ah, é, acontece!

Ela assentiu.

— Ah, bem, eu preciso ir – ela disse. – Mi-Cha deve estar terminando o exame, enquanto isso, eu vou tentar localizar aqueles dois patifes que o senhor pediu, Führer.

- Como assim ela já deve estar terminando? – perguntou Hawkeye enquanto Kirii se distanciava. – Entrou ali há menos de dez minutos.

A ruiva, entretanto, continuou andando, mas virou-se de costas, rindo.

- Para Mi-Cha demorar numa análise, o mundo precisa estar acabando! Ela nunca precisou de mais do que isso, nem em seu caso mais difícil!

Quase como se tivesse ouvido suas palavras, quando Kirii virou no corredor, Mi-Cha abriu a porta do laboratório, olhando ao redor um tanto hesitante.

- Err... Poderiam me acompanhar? Tem algo que eu gostaria de mostrar.

Eles a seguiram, mas quando os irmãos Elric foram entrar, a garota os barrou.

- Uhh, perdão, mas quem são vocês?

- Sou o FullMetal Alchemist e este é meu irmão, Alphonse.

- Pode deixar que eles entrem, Kyoung-san. – Hawkeye falou. – Eles trabalharão junto conosco nessa missão.

- Ah, entendo! Desculpe-me! – ela disse, abrindo passagem. – Sou Mi-Cha Kyoung, a Health Alchemist. Estava fazendo a análise do motivo da morte desta mulher.

Eles entraram. Mas o barulho da porta se fechando atrás deles mal foi ouvido, pois Ed e Al estavam surpresos demais com o corpo que estava sobre a maca.

- Essa é a Segundo Tenente Ross?! – Alphonse ousou perguntar.

- Sim. Ela foi encontrada morta há algumas horas. – Mustang respondeu, entregando algumas fotos para os Elric. Eles observaram as fotos de todos os assassinatos em comum que ocorreram, onde deixaram uma marca de ouroboros ao lado.

- E quanto a sua análise, Kyoung-san?

- Bem – ela disse, subindo num banquinho ao lado da maca, para ficar alta o suficiente. – Não encontrei nenhum resíduo tóxico, como veneno ou qualquer coisa do tipo. Ela foi encontrada com este corte – Mi-Cha indicou o corpo –, mas tenho bastante certeza de que ela foi morta antes disso. Receio que o assassino só quisesse usar o sangue para desenhar o ouroboros, mesmo. C-Como uma espécie de assinatura...

Um calafrio percorreu todos os presentes.

- Entretanto... hum... – ela murmurou. – Quero dizer, apesar de ela ter morrido sem nenhum motivo aparente, o corpo dela estava em estado de transe.

- Como assim? – Mustang perguntou.

- Era como se ela estivesse hipnotizada, ou dormindo. Consegui detectar isso pelas ondas e vibrações retardatárias em seu cérebro mesmo depois da morte. – ela começou a balançar a cabeça. – Errr! A-A explicação científica é muito complicada, e não acho que tenhamos tempo o suficiente para discutir em termos eruditos!

Edward então deu alguns passos à frente, entregando as fotos de volta ao Führer.

- Ei – ele disse. – Acho que sei quem está por trás de tudo isso.

Lie se espreguiçou, distraída e olhando para a lua. A noite estava bonita, mas o céu era um tanto melancólico com tantas estrelas indicando que talvez houvesse a esperança de um dia seguinte no que dizia respeito à onda de assassinatos que percorria tortuosamente a cidade. Pelo que o homúnculo percebera, havia quase um padrão: uma pessoa teoricamente importante a cada três aleatórias. O autor – ou autora – dos homicídios parecia não se importar nem um pouco com a quantidade de pessoas que iria matar.

Claro, a classificação de importante era o fato de que essas eram pessoas que participaram ativamente dos acontecimentos do ano anterior, quando o Pai tentara acabar com o país inteiro.

Envy revirou os olhos quando viu que a namorada estava perdida em seus pensamentos novamente.

- Hey, podemos continuar, fracote? – perguntou em alto e bom som.

Isso despertou a atenção dela e seus olhos castanhos se voltaram para ele, entretanto, sem abrir nenhum sorriso. Ela estreitou os olhos e pôs-se em posição de batalha.

- Fracote é a vovozinha. – rebateu. – Vamos logo com isso, estou ansiosa para ganhar.

- Como ganhou das últimas vezes? – ele retrucou.

Ela sorriu.

- Owh, meu amor, eu precisava te deixar vencer de vez em quando, não é?

Envy pareceu realmente incomodado com isso.

- Vai se arrepender dessas palavras, Lie. – rosnou. Seu braço transformou-se numa lâmina afiada e longa e ele começou a correr em direção a ela.

Envy investiu, atacando por baixo, mas Lie saltou, literalmente pulando por cima do ataque e tomando impulso nos ombros dele para dar outro salto e cair às costas do homúnculo. Ela se virou impulsivamente e chutou as costas de Envy que cambaleou, mas antes que Lie chegasse por trás com suas adagas, ele se virou pela direita e, ainda com a lâmina projetada no braço, lançou-a contra ela. Lie preocupou-se em desviar, e isso deu a Envy a chance de lhe socar no estômago.

— Ugh!

Ela pulou para trás e eles pararam para respirar um pouco, avaliando cautelosamente um ao outro. A mão de Envy voltou a se transformar novamente e uma gota de suor escorreu por sua testa. Ele avançou, mas quando chegou perto de Lie, ela sorriu de modo sombrio e desapareceu, deixando no ar uma leve fumaça negra.

- O quê?!

Envy arregalou os olhos e parou, começando a olhar ao redor a sua procura. Quando ela usara a técnica de trocar de lugar com uma de suas cópias? Ele não poderia ter-se distraído tão facilmente. Entretanto, ela não podia ter ido muito longe. Ele trincou os dentes, tentando ouvir qualquer som, qualquer barulho que denunciasse sua posição.

Cleck.

Entretanto, era tarde demais. Ela já estava a centímetros dele e lhe dera um soco no abdômen quando ele se virou, de modo que ele caiu para trás e, puxando seu braço, a levou consigo. Lie caiu em cima de Envy e depois de alguns segundos se encarando, eles começaram a rir.

- Ganhei de novo. – ela riu, rolando para o lado e deitando sobre o peito dele.

Ele colocou as mãos para trás a fim de apoiar a cabeça.

- Só dessa vez.

- Pare de ser tão convencido!

Envy ficou em silêncio por algum tempo e Lie voltou seus olhos castanhos para ele, estranhando.

- O que foi?

- Nada. É só que... Isso lembra os velhos tempos. – comentou com um suspiro.

- Velhos tempos...?

- Quando Lust, Gluttony, Pride, o papai... todos estavam vivos.

Lie olhou para o céu, seguindo com o olhar um pássaro que passava voando.

- Você sente falta das coisas como elas eram?

Ele se sentou, empurrando-a de leve.

- Não é só questão de sentir falta.

Ela se sentou também.

- Continue.

Ele a olhou e soltou um som de desgosto.

- Eu gostava de matar humanos, você me entende? Sinto falta disso também. Sinto falta de missões arriscadas, de aventuras, de baixinhos pensando que podem ganhar de mim e tudo mais!

- Você não gosta da nossa vida de agora? – ela perguntou repentinamente séria.

Ele reconheceu aquela expressão.

- N-Não é isso, Lie, eu só sinto falta das coisas de antes.

- Mentira. – ela detectou.

Envy abriu a boca para protestar, mas então franziu o cenho e fechou a boca novamente. Era inútil discutir. Ela saberia quando ele contaria mentiras, sempre.

- Pensei que eu fosse o bastante para te fazer feliz. – ela murmurou, levantando-se.

Ele a olhou.

- Isso que você está falando é besteira. – ele disse erguendo-se também. – E sei que você sabe que estou te falando a verdade. – ele puxou o rosto dela para que o olhasse nos olhos. – Lie, eu amo você, sabe disso.

Ela afastou a mão dele e deu um passo para trás.

- Não o suficiente para se contentar, não é? – disse com uma voz mais dura.

Um movimento alheio interrompeu a discussão. Ambos os homúnculos perceberam e Envy começou a procurar atentamente enquanto Lie se virava. “Foi como se alguém passasse bem atrás de mim” pensou.

Uma porção de raios alquímicos surgiu, cobrindo parte do chão e uma estaca de terra lançou os homúnculos por metros.

Pandora voou para trás com o tapa que a mestra lhe dera.

- Não acredito que foi tão burra, não me contou desse encontro com os dois homúnculos da última vez! – rosnou.

- Desculpe, Juno-sama, por favor! – choramingou, sentando-se no chão e passando a mão na bochecha dolorida.

- Se omitir mais alguma coisa de mim de novo, vai apanhar ainda mais. Quem sabe eu não te devolva para lá?

- AH! Não! Não, por favor! Pan já disse que Pan esqueceu! Não foi minha culpa!

- Esquecer-se foi sua culpa. – murmurou enquanto se virava e começava a caminhar pelo recinto mal iluminado, acariciando seus longos cabelos negros.

Juno era até menor que Pandora, mas ainda sim lhe exercia completa autoridade. Os cabelos contrastavam com uma pele clara, mas bronzeada, lábios finos e olhos grandes e azuis num tom escuro. Ela parecia uma criança de algum aspecto, mas sua expressão era madura e adulta e ela quase nunca sorria a fim de expressar emoções que beirassem a felicidade.

- O que mais aconteceu? – perguntou distraidamente, enquanto parava à janela para observar a paisagem.

- N-Nada demais. Voltei e entreguei o jornal a ela e depois atravessei a rua e fui embora.

- Você disse seu nome.

Pandora ficou calada. Não era uma pergunta.

- Você disse seu nome. – Juno repetiu com voz mais firme e se virou para Pandora, lançando a ela um olhar duro e ditatorial. – Como você pode ser tão estúpida, Pan?

- Não é culpa de Pan, ela perguntou...

- Você não deveria ter dito! Que fingisse que não ouvira ou então que mentisse e... – ela parou repentinamente de falar, arregalando os olhos enquanto um pássaro passava bem à sua frente na janela. À medida que o pássaro sumiu, as curvas de seus lábios reclinaram-se minimamente para cima. Ela se virou para o homúnculo, já séria novamente.

- Sabe, talvez seja realmente este o ponto. – Juno comentou. – Precisamos de alguém que saiba mentir, já que você não faria isso nem que sua vida fosse dependente da ação.

Pandora se levantou e inclinou a cabeça para o lado.

- Como assim?

- Já sei o que vamos fazer. Prepare uma recepção calorosa. – disse dirigindo-se à parede, unindo as mãos e depois as pressionando contra a superfície. Faíscas vermelhas serpentearam pela parede e uma tênue linha de luz abriu um retângulo alto quase até o teto. Depois, ele se dividiu em dois e tomou a forma de um grande portão negro desenhado. – E seja bem vinda... Luxúria.

Os portões se abriram e uma mulher alta com um longo vestido negro, luvas, cabelo escuro e enrolado e um jeito pomposo saiu de lá. Seus olhos roxos brilharam e ela colocou as mãos na cintura, pretenciosa.

- É bom estar de volta. – Lust murmurou por trás de um meio riso.