Goddess and Monster - Part 1
7 Capítulo 7 - Conversa fiada para passarinhos curiosos
Notas iniciais
Já era manhã quando Sansa sentiu-se despertar. Ela não fez questão de abrir os olhos, pois os raios solares batiam em seu rosto. E não queria ter que dar de cara com Sandor.
Foi quando se lembrou da noite passada e de todos os acontecimentos. De ter sujado sua honra de ter comprado uma prostituta para seu protetor, de ter apanhado de Sandor, de ter fugido e quase ter passado maus momentos novamente. Sorriu ao lembrar da garotinha suja e desgrenhada que se aproximou para consolá-la. Sorriu ao lembrar que ajudou a defendê-la e soube fazer isso.
Ela nunca pensou que pudesse se defender, de atacar alguém com uma adaga. Nunca pensou que seria capaz de fazer uma machucado a um ser vivo. Mas seu instinto de sobrevivência falou mais alto. E mais que isso, sua vontade de não deixar que nada acontecesse com aquela pequena garota falou mais alto. Quase como um ato de fraternidade que nunca teve com sua irmã.
E nunca teria.
Arya, provavelmente, estava morta. Era o que diziam. Mas, no fundo, Sansa acreditava que Arya era esperta demais para se deixar ser morta. Era duro ter que assumir que sua irmã era inteligente e ter que atribuir qualidades a ela. Mas era a verdade.
O laço de fraternidade que Sansa teve, nos poucos momentos, com aquela menina ontem à noite, era um laço que gostaria de ter com a irmã Arya. E esperava que, um dia, ela a encontrasse para que pudesse lhe abraçar e dizer que a amava apesar de tudo.
Ela iria fazer brincadeiras bobas com Sansa e tirar sarro dela por assumir seu amor. Era típico de Arya. Mas ela não se importava.
O fato de sua irmã estar sozinha pelo mundo se defendendo sozinha a fez lembrar que ela mesma não estava. Que ela necessitava de um protetor. E lembrou-se de Sandor.
Perguntou-se onde estaria o homem que julgava ser seu protetor. Provavelmente, saíra para vender as joias. Ou teria fugido. Por um segundo, desejou que ele tivesse fugido. Teria feito isso com suas joias. Não se importava. Pelo menos, ainda tinha dois dragões de ouro. Não que valesse muito, mas já era alguma coisa.
Sansa ouviu barulho de água e uns resmungos masculino. Ela abriu os olhos, reparando que o quarto era invadido pela claridade forte do sol. Ela protegeu os olhos com a mão, esfregando-os e bocejando. Levantou-se devagar, saindo da cama ainda sonolenta.
Foi aí, então, que reparou que Sandor não estava na cama ao lado.
Foi aí, então, que viu que Sandor estava parado em pé, em frente à banheira, pingando água e totalmente nu.
Foi aí, então, que Sansa sentiu como se o rosto fosse explodir de tanta vermelhidão.
Ela queria desviar os olhos, mas seu susto não a deixou que fizesse de imediato. Ficou sem reação. Apenas observou o corpo másculo e várias linhas finas e brancas e pêlos por seu peitoral e coxas.
E... havia algo entre o peitoral e as coxas. Sansa sabia o que era. É claro que sabia. Era o que todo homem tinha. Mas ela nunca tinha visto um. Já vira seus irmãos pelados, uma ou duas vezes, e os pequeninos, diversas vezes, quando ajudava sua mãe a banhá-los ou trocar as fraldas. Não se comparava o tamanho disso aos seus irmãos. Ela vira crianças nuas. Mas nunca tinha visto um homem nu.
Ela só teve coragem de desviar os olhos quando o Cão reparou que ela estava desperta, em pé e o olhava. Seus olhos se encontraram por segundos antes que ela desviasse os seus.
Sansa sentiu que Sandor se aproximava. Ela olhou de relance e ele tinha um ligeiro sorriso no rosto. Ela não queria que ele chegasse perto.
– Perdão, sor, eu...
– Eu não sou nenhum sor. – rosnou Sandor.
Quando chegou bem perto de Sansa, Sandor pegou seu queixo, fazendo-a olhar para ele. Ele analisou o rosto da menina. Sansa ainda tinha o lábio cortado e o sangue seco por conta do tapa do dia anterior. Ele passou seu polegar calejado sobre o ferimento e Sansa soltou um pequeno gemido e tentou se afastar como reação.
Antes, os olhos de Sandor estavam maliciosos, agora, sérios.
– Eu te fiz isso? – perguntou o homem, se referindo a ferida.
Sansa não respondeu. Ela tinha ódio nos olhos e esperava que Sandor reparasse nisso.
– É claro que fui eu. – respondeu Sandor a si mesmo. Ele tirou a mão de seu rosto e seus olhos tornaram a ficar maliciosos. – Passarinho já viu um homem sem roupa?
Sansa continuou calada. Olhava para frente, para o peitoral de Sandor. Ele era musculoso, apesar de Sansa não ter muita referências, seus pêlos cobriam parte do peitoral e havia muita cicatrizes. Uma cicatriz grande, feia e repuxada ocupava parte do peito direito de Sandor. E parte de seu ombro esquerdo tinha a pele queimada.
– Aproveite, Passarinho – Sandor soltou uma risada maliciosa. Sansa rezava para que ele não a tocasse.
Tomando coragem, a menina se afastou do homem, indo para uma sacada minúscula que dava para a praça central de Altheia.
– Fique à vontade para se vestir. Não irei atrapalhar. – disse Sansa, se apoiando no parapeito.
– Não fique na sacada! – Sandor quase gritou, indo atrás de Sansa e a puxando pelo braço, trazendo-a de volta para o quarto. – Seus cabelos vermelhos chamam muita atenção. Podem te reconhecer.
– Eu não me importo se me reconheçam. – disse Sansa, se desvencilhando do aperto em seu braço. Ela não gostava de olhar para o rosto dele. E tampouco, queria olhar para o corpo dele. Teve que desviar o olhar e ela sabia que isso não agradava Sandor.
– É claro que não! Está doida para fugir daqui, fugir de mim – ele riu. – Acha que conseguirá chegar sozinha à Winterfell.
– Eu não estou pensando nada – garantiu Sansa. Na verdade, ela pensava sim. Pensava em fugir dele. Não confiava mais no homem depois daquele tapa e de todas as grosserias que ele lhe fez. – Eu vou sentar aqui e esperar o senhor se aprontar. Estou com fome! – reclamou Sansa, se sentando na cama e olhando para suas pernas através daquele vestido. Cruzou os braços e sabia que estava parecendo uma menina birrenta.
Sandor não disse nada, mas ela conseguiu ouvir os ruídos de metal e tecido se roçando. Ele, finalmente, estava colocando a roupa.
– Eu vou descer e pedir que lhe tragam seu desjejum – disse Sandor, abrindo a porta e nem olhando para Sansa.
– Eu vou descer com você! – avisou Sansa, se levantando da cama e indo atrás. Ele se virou para ela e Sansa parou de andar. Não queria olhá-lo, nem encostá-lo.
– Não quero que você desça e seja reconhecida! – disse Sandor.
Sansa não entendeu. Ela sentou com ele ontem para jantar. Que diferença fazia?
– Eu vou vestir minha capa.
Sansa pegou a capa, sem esperar respostas de Sandor. Ele também não falou. Não iria discutir com uma criança.
– Não faça nada estúpido. – ameaçou Sandor.
– Não farei, sor. – garantiu Sansa, sem olhar para ele e passando pela porta.
***
Ela comia, em silêncio, ovos e pedaços de pão fresco. Ela agradeceu aos deuses por terem parado em uma estalagem com boa comida. Estava cansada de frutas e não queria que Sandor caçasse outro animal selvagem.
Sandor bebia vinho. Claro.
Mesmo de manhã, ele não largava a bebida.
A taberna estava lotada, mas sem a algazarra e as mulheres. Os homens estavam apenas solonentos demais para fazerem algum barulho.
– Deveria tomar suco, sor. – sugeriu Sansa. Não queria ter que dirigir uma palavra a ele. Mas também, não queria ter que aguentá-lo bêbado por toda a viagem até... Nem sabia qual era a próxima parada.
– Não sou nenhum sor – rosnou Sandor sem olhar para ela.
Sansa não o olhou mais. Não queria ter que olhar para aquele rosto desprezível. Não queria ter que sentir aquele hálito alcoolizado. Nem ter que encostar seu corpo naquela armadura suja e impura. Nem sentir aquelas horrorosas mãos em torno de si.
Ela teria que ser mais esperta se quisesse fugir. Mais esperta que ele. Mas Sansa sabia que isso não era possível.
Ou era?
Será que Sansa era tão ou mais esperta que Sandor para enganá-lo e fugir? Ela tinha educação, lera muitas livros, era sabida. Ela poderia arquitetar um plano muito bom para fazer isso. Era mais inteligente que Sandor.
Por outro lado, Sandor tinha experiência. Uma adaga. Uma espada. E um cavalo.
Antes que pensasse em algum plano, Sandor se levantou, deixando algumas moedas em cima da mesa.
– Eu vou sair, passarinho – avisou Sandor e Sansa teve ânsia ao ouvir o apelido. – Vou vender a joias. Vá para o quarto depois de comer.
Sandor se afastou antes que Sansa falasse alguma coisa. Ele falou com a dona da taberna, apontando para Sansa e saiu do lugar. Sabia que ela seria vigiada agora.
Quando Sansa terminou, ela saiu da taberna e observou as pessoas que andavam em busca de seus destinos e afazeres. Algumas carroças e cavalos sendo puxados, crianças brincando, cavaleiros andando com passos largos e firmes. O sol estava escondido por nuvens pesadas e cinzentas. Não queria que chovesse.
Ela se lembrou da noite anterior e procurou os homens que a atacaram. Estava de capuz, protegida, mas não podia arriscar. Não os vira na taberna e nem na praça central. Esperava que eles tivessem ido embora. Mas não era garantido e precisava voltar ao quarto.
O sentimento de ir para o quarto e de fugir correndo dali eram divididos. Ela poderia aproveitar a chance para fugir. Mas não tinha um plano.
Ela voltou para o quarto, trancando a porta e tirando o capuz. Olhou-se no espelho. O vestido verde era bonito, afinal. Mas o tecido fino lhe mostrava mais do que gostaria e não via a hora de ter outro. Este estava sujo de terra e sangue. Será que Sandor lhe arranjaria um vestido novo ou limpo?
Escutou uma batida na porta. Seu coração saltou. Não esperava que Sandor fosse tão rápido.
Ela se aproximou da porta, sem destrancar.
– Quem é? – perguntou.
– A estalajadeira – disse uma voz feminina abafada pela madeira da porta.
Sansa decidiu abrir para ver o que a moça queria. Mas, para sua surpresa, não era a senhora dona da taberna, mas sim, a moça de vida fácil do dia anterior.
Ela tinha um sorriso no rosto, seu olhar ainda sedutor. Usava um vestido vermelho e decotado. Sansa nunca vira um vestido tão decotado. Seus seios estavam ligeiramente expostos e Sansa sentiu-se ruborizar com isso.
– Você não é a estalajadeira. – disse Sansa.
– Bem, não – confirmou a mulher. – Mas trabalho aqui quando necessário.
Amina adentrou o quarto sem ser convidada e Sansa achou aquele comportamento muito abusado. Não era assim que uma lady agia. Mas lembrou-se que ela não era uma lady.
Sansa suspirou e fechou a porta, virando-se para a mulher. Ela tinha um pequeno pote de metal nas mãos.
– Ursula me disse para lhe entregar. – disse Amina, entregando o pequeno pote para Sansa.
– Ursula?
– A dona da estalagem e da taberna. – Amina revirou os olhos.
– O que é?
– Eu não sei. Foi você quem pediu – ela deu de ombros, andando pelo quarto.
Sansa se lembrou que havia pedido ervas e medicamentos para a mulher. Para os ferimentos de Sandor. E se sentiu tão estúpida por ter se preocupado com aquele monstro.
Ela abriu o pote e o cheiro de ervas invadiu o quarto. Não era desagradável, mas não cheirava a flores. Era verde claro e pastoso.
Amina se aproximou, olhando o conteúdo. Ali, Sansa percebeu que ela não era tão mais velha assim. Devia ter a idade de seu irmão Robb.
– Erva baleeira. Bom para ferimentos. – disse Amina, olhando para Sansa e reparando na pequena ferida no lábio inferior.
Sansa se sentiu desconfortável.
– Obrigada – agradeceu, abrindo a porta. Esperava que ela percebesse e fosse embora.
Amina fez menção de sair, mas parou na frente de Sansa. Lhe entregou um dragão de ouro. Sansa não entendeu.
– Não quero.
– Você me deu para um serviço ontem, lembra? – perguntou Amina, percebendo a expressão de confusão da menina.
Como Sansa poderia ter se esquecido?
– É um pagamento, é seu. – insistiu Sansa.
– Eu não fiz nenhum serviço, mocinha – Amina pegou a mão vazia dela e colocou a moeda na palma. – Mas ele quase o fez. Se isso lhe interessar, acredito que você desperta algo nele. Não eu.
Sansa não se interessava. Ou se interessava?
Amina não saiu do quarto. Continuou parada na frente de Sansa.
– Eu vi tudo ontem. O tapa, a briga.
Sansa não se impressionou. Tinha a vaga lembrança de tê-la visto parada no corredor.
– Ele não podia ter te batido. A erva é para o seu ferimento? – perguntou Amina.
Sansa não queria responder nada àquela mulher, mesmo que ela estivesse sendo amável.
– Não... Mas pode servir. – confessou Sansa.
Amina pegou a porta da mão de Sansa, fechou-a e colocou a menina sentada na cama. Sansa não pestanejou. Estava cansada demais para retrucar. Amina pegou o pote de suas mãos, abriu a tampa, empapando o dedo com a erva pastosa.
– Quem é ele? – perguntou Amina, virando a cabeça de Sansa, e passando um pouco de erva no lábio de Sansa. Ela sentiu uma ardência aguda, mas logo aliviou. O lugar parecia um pouco anestesiado.
Sansa não respondeu a pergunta. E nem iria.
– Não importa – disse Amina, massageando o local com o dedo. Seu toque era suave e leve. – Ele não é seu marido. Não me parece. Nem seu pai. Você parece bem nascida. Ele tem armaduras.
– Ele não é ninguém. – respondeu Sansa.
– Ele é seu protetor – disse Amina, terminando de massagear e colocando o pote de lado. – Não se passa muitas donzelas com cavaleiros por aqui. Mas se passam muitos homens como ele. De armadura, brutos. Ele não te sequestrou. Você parecia bem agradecida a ele ontem. Acredito que não tem mais o mesmo sentimento.
Sansa abaixou os olhos, mas Amina a segurou pelo queixo.
– Eu não sei quem você é, mas imagino – os olhos de Amina eram intensos e Sansa se incomodou com sua aparência tão familiar a ela. Era como olhar para si mesma. – Os boatos correm. E sei que você e ele estão em perigo.
O coração de Sansa bateu acelerado. Ela sabia quem Sansa era?
– Os boatos de sequestro, fuga depois da Blackwater. Sei quem você pode ser. Sei quem ele pode ser. E depois da sua postura ontem, eu tive certeza.
Um calafrio passou pelo corpo de Sansa. Se Amina sabia quem eles eram, todos sabiam.
– Eu não vou contar a ninguém – garantiu Amina. – E eu acreditava que aquele homem lhe protegia. Eu briguei com ele depois que você saiu. Disse-lhe que não podia fazer isso a uma moça. Ele me ameaçou também. Mas não tenho medo desses homens. Quis te procurar, mas não te achei. Pensei que tivesse fugido e gostaria que tivesse feito.
– Eu não fugi. Eu me escondi por um tempo. – Sansa omitiu os acontecimentos negativos da noite anterior.
– Ele me parece perigoso. Todos sabem quem ele é. A cicatriz não mente. Mas ninguém vai fazer nada. Todos o temem – Amina saiu de perto de Sansa para ir até a sacada, deu uma rápida olhada para a rua e voltou. – Você também me parece temer. Deveria ficar aqui.
O coração de Sansa se encheu de esperança. Mas antes que ela pudesse responder, a porta do quarto se abriu e Sandor entrou com um saco de moedas na mão. Ele parou quando viu Amina parada perto de Sansa e seu olhar carrancudo se intensificou, se isso era possível.
– Saia daqui – rosnou Sandor. Amina fechou a cara e saiu do quarto. Mas antes deu uma olhada cúmplice para Sansa.
Só quando a porta se bateu que Sansa percebeu que Sandor carregava um pedaço longe de tecido no ombro. Ele lhe deu o pedaço verde e Sansa viu que era um vestido.
Outro vestido verde. Mas com tecido grosso, que poderia proteger-lhe do frio e de olhares maldosos. Também tinha um vestido de algodão para colocar por baixo. Ela não se importou como ele lhe arranjou um vestido novo, estava feliz demais por, finalmente, ter roupas limpas.
– Vou deixar que se vista, me avise quando estiver pronta para podermos ir embora. – disse Sandor, saindo do quarto.
Sansa ficou tão feliz que nem trancou a porta. Tirou o vestido verde sujo e tratou de se vestir com o novo. Ela nem descalçou as botas. Quando terminou, percebeu que tinha dificuldades para trançar o vestido às suas costas. Sempre tivera ajuda para isso.
Teria que pedir ajuda para Sandor, mas se pedisse, ele a levaria embora. Pensou no que Amina lhe falou. Que ela poderia ficar ali. Era a chance que tinha de fugir de Sandor, mas não poderia fazer isso debaixo do nariz do homem.
Cedendo, abriu a porta para que o Cão entrasse.
– Você poderia me ajudar a trançar o vestido? – pediu Sansa se virando de costas, afastando o cabelo.
Sandor ficou parado olhando para as costas de Sansa. Estavam cobertas pelo vestido de baixo. Ele não sabia muito bem o que fazer, mas imaginava. Se aproximou de Sansa, pegando os laços do vestido e apertando o as amarras cruzadas. Ele estava muito perto de Sansa. Conseguia ver os pelos fininhos e vermelhos de sua nuca. Conseguia ver pedaço da pele de suas costas.
Sansa se sentiu arrepiada com o toque. Ele nem encostara em sua pele, mas ela o sentiu. Amaldiçoou-se pelo arrepio. Deveria odiá-lo.
Quando Sandor terminou de trançar e enlaçar, Sansa se virou para ele. O encarou nos olhos.
Sandor parecia intimidado e, incerto, pegou uma adaga de sua cintura. Sansa se afastou, arregalando os olhos. O que ele faria com aquele objeto?
– Eu não vou te machucar! – disse Sandor, percebendo que ela entendeu aquilo de forma errada. – Devo isso a você. – disse o homem, colocando o objeto sobre as duas mãos e entregando para ela.
Sansa não sabia se devia pegar ou não.
– Você não me deve nada.
Sandor não respondeu. Apenas ficou com a mão estendida, o olhar suplicando para que aceitasse o pequeno presente. Sansa pegou o objeto pelo cabo.
– Por que está me dando isso?
– Eu comprei para você, passarinho – respondeu Sandor, começando a pegar as coisas para ir embora. – Você tem que aprender a se virar sozinha. A se livrar do perigo.
– Consigo me livrar de você com isso? – perguntou Sansa, apontando a adaga para Sandor. Ele parou e olhou-a.
– Você não irá fazer isso. – Sandor disse com firmeza, de frente para ela, desafiando-a. Sansa suspirou. Não, ela não iria fazer isso. Ela não mancharia sua honra matando uma pessoa. Nem mesmo o Cão de Caça. Ela Abaixou a adaga.
Sandor se virou para ir embora, com os pertences nas mãos. Sansa guardou a adaga em sua bota e foi atrás. Quando desceram as escadas, Estranho já estava na porta da taberna, um pouco inquieto, enquanto um rapaz tentava segurá-lo. Sandor arrumou o cavalo, rosnando para que o garoto se afastasse.
Enquanto Sansa esperava, ela viu a pequena menina loira correndo para dentro da taberna. E lembrou-se que não agradeceu-a. Teve uma ideia.
Ela foi até a bolsa de Sandor que ficava sobre o cavalo, enquanto o homem a olhava desconfiado, pegou a boneca que seu pai lhe dera. Ela feita de pano e tão simples quanto a menina que iria presentear. Deu um beijo na boneca e fungou seu nariz, tentando encontrar algum resquício do cheiro de seu pai. Não havia. Estava grande para brincar de boneca, mas gostaria de dar para sua primeira filha. Seu futuro era tão incerto que nem sabia se teria um casamento, quem dirá, filhos.
Sansa suspirou, sob o olhar curioso de Sandor, e entrou na taberna. Ignorou o chamado do Cão.
Sansa procurou pela menina loira, que estava agachada perto do balcão de bebidas. Ela se agachou na frente da menina. Não sabia o nome dela. Mas, talvez, não precisasse falar nada. A menina tinha olhos grandes e curiosos.
– Meu pai me deu esta boneca – disse Sansa. – Gostaria que ficasse com ela – deu um sorriso gentil, entregando a boneca.
A menina não disse nada. Seus lábios pálidos se abriram num sorriso tímido, iluminando aquele rosto encardido. Os olhos dela brilharam. Ela pegou a boneca com delicadeza e agarrou-se nela.
Sansa acariciou os cabelos desgrenhados da menina. Será que, um dia, teria filhos tão pequenos e espertos como aquela menina?
– Obrigada por me ajudar. – sussurrou Sansa no ouvido da menina antes de dar um beijo na cabeça loira e se levantar para ir embora. A menina se levantou e agarrou-se nas pernas de Sansa. Deu um sorriso aberto e Sansa sabia que aquele era seu agradecimento.
Sansa reparou que Sandor observava tudo da porta de entrada. Ele aliviou seu rosto carrancudo. E quase sorrira. Talvez, estivesse sorrindo por dentro. Seus olhos se cruzaram. Sansa não sorriu e o Cão se virou.
A menina largou as pernas de Sansa e saiu correndo para uma porta perto do balcão. Certamente, ela iria brincar com o novo presente. E Sansa sentia-se aliviada e satisfeita por dentro. Não queria ter que dar a última lembrança de seu pai, mas sabia que estava em boas mãos. Aquela menina poderia ser o mais próximo de um filho que Sansa teria. Não tinha uma amizade com ela. Não passaram tanto tempo juntas. Mas a menina a protegera tanto quanto Sansa fizera o mesmo. E, naquele momento, aquele único momento em que passaram juntas foi suficiente para que Sansa percebesse que havia pessoas boas no mundo. Que havia pessoas por quem lutar. E se Sansa podia lutar por crianças que não tinham laços de sangue, ela o faria.
Sansa saiu da taberna, se aproximando de Sandor. Ele já estava andando com o cavalo, Sansa ao seu lado, pela praça central. Algumas pessoas olhavam para eles, curiosos. Sansa estava com a capa e levantou o capuz, escondendo os cabelos ruivos. Quando chegaram à uma pequena campina, antes que voltassem ao bosque, e longe o suficiente da civilização, Sansa ouviu passos e sentiu alguém agarrando-lhe os braços.
Ela tomou um susto, mas aliviou-se ao ver que era Amina. Sandor estava com a mão no cabo da espada, quase desembainhada. Ele lançou um olhar carrancudo para a mulher e rosnou para ela. Amina não tinha medo.
– Está tudo bem, senhor. – Sansa tentou acalmá-lo como se acalmasse um cachorro raivoso. Amina a carregou para alguns poucos metros longe de Sandor.
– Você tem certeza de que vai embora com ele? – perguntou Amina. Parecia desacreditada
– Sim.
– Você confia nele ainda?
– Não. Mas ele ainda tem uma promessa a cumprir. E eu confio nisso – disse Sansa, um pouco incerta de suas palavras.
– Você pode ficar aqui. – insistiu Amina.
– Obrigada – agradeceu Sansa. – Mas eu não conheço você tanto quanto eu gostaria, Amina, sinto muito. Aquele homem, eu conheço.
Amina soltou o braço de Sansa e acariciou-o. Ela tinha o rosto triste, mas deu um sorriso singelo. Ignorando o olhar carrancudo de Sandor, que estava próximo às duas, Amina se aproximou, abraçando Sansa e sussurando em seu ouvido:
– Cuide-se, Senhora Stark.
E antes que se afastasse, ainda abraçada, deu um pequeno beijo rápido no canto dos lábios de Sansa.
Sansa sentiu-se ficar vermelha. E não afastou a mulher. Os lábios dela eram macios e gelados, apesar de apenas sentí-los no canto de seus próprios lábios. Olhou para o Cão de relance e ele tinha uma das sobrancelhas levantadas, com uma expressão curiosa e ao mesmo tempo, maliciosa.
Amina sorriu ao se afastar. Tinha o sorriso mais amável que Sansa já recebera. Mas perdeu o sorriso quando olhou para Sandor e se virou para ir embora.
Sansa esperou que seu rosto deixasse de ficar vermelho para voltar para Sandor. Mas não conseguiu. Se aproximou dele, Sandor percebendo que ela ainda ruborizava e abriu um sorriso malicioso. Antes que ela pudesse dizer alguma coisa, o homem a segurou pela cintura, colocando-a sobre o cavalo. Ele subiu atrás dela, envolvendo seu corpo com os braços para segurar as rédeas.
Em pouco tempo, estavam de volta ao bosque, se afastando da pequena vila de Altheia.
Sansa ainda estava pensativa com o quase beijo da mulher. Não fora exatamente um beijo nos lábios, mas deixou-se assustada. Ela ruborizou novamente e se perguntou quantas vezes o sangue subiria ao seu rosto naquele dia.
Cavalgavam lentamente, os raios solares passando entre os galhos de árvore. Paravam, às vezes, Sansa bebia água, Sandor, vinho. Era a única forma que ele tinha para se hidratar. Comeram algumas frutas que Sandor conseguira. E Sansa percebera que não iriam conseguir outra estalagem naquela noite.
Algumas horas se passaram. O sol já não estava tão forte quanto antes e o bosque começava a escurecer. Sandor lhe disse que precisava caçar. Ele aprontou o acampamento em uma clareira minúscula que mal dava para fazer uma fogueira sem se queimar. Talvez fosse bom ter uma fogueira tão perto. O frio começava a aparecer.
Sandor amarrou o cavalo, deixou o manto da Guarda Real com Sansa e saiu para caçar. Ela sabia que ele não iria tão longe. Ainda não estava totalmente escuro e aproveitou para colher frutas que estavam ao seu alcance.
Quando o Cão voltou, ele tinha um coelho nas mãos. Sansa sentira ânsia de novo. Ela juntou galhos e gravetos e montou uma fogueira, mas deixando que o homem acendesse o fogo. Depois que ele limpou o coelho, ajoelhou-se perto de Sansa e lhe ensinou a acender o fogo, colocando um pedaço de madeira no meio do ninho de galhos, deixando que a menina manuseasse os gravetos e os esfregasse para criar atrito. Isso faria o graveto se queimar contra o pedaço de madeira e faiscasse, fazendo o fogo subir e queimar os galhos de árvore. Ela não conseguiu por um bom tempo e Sandor teve que envolver suas grandes mãos nas mãos pequeninas dela, ajudando-a com os gravetos. Quando o fogo acendeu, Sansa deu um ligeiro sorriso por ter conseguido, mesmo que com a ajuda de outra pessoa.
Sandor colocou o coelho para assar. A noite estava cada vez mais escura, e a fogueira era o único ponto de iluminação.
– Venha, menina. Pegue sua adaga – chamou Sandor, enquanto Sansa continuava ajoelhada ao lado da fogueira. Ela não entendeu o que o Cão queria.
– Perdão, milorde?
– Não sou nenhum lorde – disse Sandor em seu habitual rosnado. Ele levantou uma das pernas e tirou sua própria adaga da bota. – Levante-se, vou te ensinar a se defender.
Sansa se levantou. Ela tirou a capa, limpando o vestido.
– Isso é perigoso, Clegane. – disse Sansa. Não queria aprender a usar a adaga. Não com Sandor Clegane. Ele não iria se preocupar em cortá-la se precisasse.
Antes que Sansa pudesse pensar, Sandor se aproximou dela de supetão. Agarrou seus ombros, fazendo-a ficar de costas para ele, puxando-a para que seus corpos ficassem colados. Segurava os braços da menina, evitando que ela saísse e colocou a adaga na garganta dela.
Sansa sentiu o frio do aço da adaga em sua garganta. Poderia até sentir que sua pele rasgava. O frio rasgava. Ela engoliu em seco.
– O que está fazendo? – sussurrou Sansa, nervosa demais para gritar. Tinha medo que ele a cortasse se ela gritasse.
– Você acha perigoso eu lher ensinar a usar uma adaga? – perguntou Sandor ao pé de seu ouvido. A voz rouca deixando-a arrepiada. – Eu acho perigoso você ter uma adaga em suas botas e não saber usá-la. Não acha?
Sansa não se moveu. O braço dele apertava seus seios e ela tinha dificuldade de respirar fundo.
– É isso que acontece a meninas bonitas como você. Fácil de ser pega. – ele sussurrou. Sansa podia sentir a respiração dele em seu ouvido.
– Não sou fácil de ser pega! – esperneou Sansa com voz aguda.
Sandor a soltou, jogando-a longe e apontando a adaga.
– Mostre-me.
Sansa o olhou. Não queria ser desafiada e não gostava disso. Mas precisava seguir os conselhos do homem. Apesar de todas as grosserias, ele tinha razão.
Sansa, rapidamente, pegou a adaga enfiada por dentro de sua bota. Ela apontou para ele, um pouco incerta e temorosa.
– Não é tão fácil quanto uma espada, menina – explicou Sandor. – Mas nenhum cavaleiro irá desafiá-la com uma adaga. Ela é apenas para suas emergências.
– O que devo fazer? – perguntou Sansa. Por que ele queria ensiná-la se acabara de falar que não era tão fácil e útil quanto uma espada?
– Tente me atacar.
Sansa chegou perto, em posição de ataque. Respirou fundo, olhando para o braço que ele segurava a adaga. Ela tentou atacar esse braço, mas ele se afastou rapidamente.
– Não deve olhar para onde vai atacar, menina tola! – disse Sandor, rindo da estupidez de Sansa.
Ela não gostou da risada. E sem olhar para onde iria atacar, ela o fez. Atingiu a faca na outra mão de Sandor. A adaga fez um pequeno corte.
– Nada mal para um passarinho. – elogiou Sandor olhando para o corte em sua mão. Ele parou de rir.
Sandor se aproximou em passos largos da menina. Sansa apontou a faca, atacando-o no peito. O aço fez um clanck. Ele estava de armadura, nada iria acontecer por mais que ela o atacasse várias vezes. Ele se afastou apenas por reflexo.
– Você está de armadura, não vale! – disse Sansa.
– Tudo é válido – disse Sandor ainda andando em passos largos. Sansa não conseguiu reagir e Sandor a agarrou pela cintura, puxando-a bem perto para si. Ele chegou a levantá-la um pouco, fazendo com que Sansa tirasse os pés do chão. – O que fará agora?
Ela tinha a adaga em mãos, e dessa vez, ele não prendia seus braços. Sansa apontou a adaga bem próxima ao pescoço dele.
– Fácil demais, lento demais, menina – disse, se defendendo com sua própria adaga e atirando a adaga de Sansa para o chão. – E agora?
Sansa não tinha mais ideia. Ela não tivera nenhuma oportunidade de atacá-lo.
– Eu me rendo. – disse Sansa, suspirando pesadamente.
Ele a soltou bruscamente e Sansa acabou caindo no chão.
– Você me decepciona, Passarinho. – disse Sandor, tristemente.
O coração de Sansa se apertou. Decepção. Não queria decepcionar ninguém. Mas desde quando se importava com o que Sandor sentia? Ele era apenas um Cão e tinha que obedecê-la. Mas ela não queria passar imagem de fraca para ninguém. Principalmente, para o Cão. Ela não podia mostrar que era fraca e precisava de cuidados. Só assim, ela conseguiria fugir.
– Se você quer tanto fugir de mim, terá que treinar.
Sansa se levantou, tirando a terra de seu vestido. Sandor se aproximou da fogueira, verificando se o coelho já estava assado.
– Venha comer. – chamou Sandor, jogando-se na terra e cortando um pedaço de carne para ele e Sansa.
Sansa se sentou sobre o manto estendido e comeu. Com nojo, mas comeu. A carne não era tão ruim. Estava sem gosto, sem tempero. Mas era o que tinha para comer. Ela se esforçou para empurrar toda a carne para o estômago.
Quando o coelho foi devorado, Sandor deixou que Sansa bebesse um pouco de vinho de seu odre. Ele já havia bebido quase tudo e já estava naquele estado meio bêbado que Sansa odiava.
Ele se levantou e Sansa fez o mesmo. Ele se afastou para mijar, enquanto Sansa colocava a capa sobre seus ombros. Sansa não ouviu quando ele voltou.
– Não sabia que tinha intimidades com a puta. – Sansa ouviu a voz de Sandor. Ele não tinha nenhum sorriso maldoso, mas sua voz tinha uma pitada de malícia.
– Não tenho intimidades com Amina. – obrigou-se a dizer, lembrando-o que ela tinha nome. Por que ele resolveu tocar nesse assunto?
– Sabe até o nome da puta. Você também pagou para que ela te fodesse? – perguntou Sandor.
Sansa se virou para o homem, com a mão levantada, pronta para estapear o rosto machucado dele. Mas o reflexo de Sandor foi mais rápido e ele segurou o pulso de Sansa antes que ganhasse um rosto ardido.
– Nunca faça isso! – ameaçou Sandor. Por um momento, Sansa não teve medo. Manteve a cabeça erguida, olhando-o naqueles olhos cinzas. Não gostava de olhar para o rosto dele, mas se obrigava a fazer sempre que ele a desafiava.
– Você não tem direito de falar dessa forma com uma lady! – defendeu-se Sansa.
– Lady? Ladys beijam putas? – perguntou Sandor, soltando uma risada alta parecida com um rosnado de cachorro.
– Ela não me beijou! – insistiu Sansa. Sem sucesso, pois ela sabia tanto quanto ele que a Amina a beijara. Ou quase.
– Se eu te beijar como ela, você vai deixar? – perguntou Sandor.
– Não? – perguntou inocentemente. – Mas, segundo você, foi apenas um beijo inocente, não é?
– Me solte! – Sansa puxou o braço para que ele soltasse seu pulso. Estava farta daquela conversa. Sentou-se sobre o manto, enquanto Sandor se jogava em uma árvore bem longe do fogo.
Sansa pensava sobre o assunto. Sobre Amina. Ela não a beijara de verdade. Foi apenas sem querer. Um pequeno acidente. Por que ela a beijaria?
Mulheres não podem beijar outras mulheres. Ou podem? Nunca ouvira falar nisso. Apesar de que não era impossível. Mas Amina falara sobre ensinar coisas à Sansa. E Sansa sabia ao que ela se referia. Mulheres não podiam fazer o que casados faziam numa noite de núpcias.
Ou podiam?
Sandor saberia. Ela o olhou, o fogo iluminando todo parte do rosto dele. Parte do rosto bom.
– Aproveite o fogo, pois logo, irei apagar. – avisou Sandor.
Sansa decidiu arriscar. Sabia que ele a zombaria, mas estava curiosa demais.
– Foi um acidente. – disse Sansa.
– O quê?
– Foi um acidente – repetiu. – Aquele beijo.
Sandor soltou uma risada rosnada.
– Não foi um acidente. O beijo.
Sandor sorriu para ela, malicioso.
– Ela te beijou nos lábios. Foi de propósito. Não viu como ela te olhava? – perguntou Sandor, como se fosse a coisa mais lógica.
Sansa não respondeu. Apenas se lembrou da ruiva tentando seduzí-la.
– É uma mulher gostosa... Essa Amina. – disse Sandor. – Se você não tivesse me vendido tão fácil, eu a foderia com gosto.
Sansa ruborizou com as palavras do homem. Odiava quando ele falava palavrões.
E ao mesmo tempo, ruborizou quando lembrou-se que Amina era muito parecida com ela.
– Eu não te vendi. – defendeu-se, livrando seus pensamentos de Amina.
– Não? Tem certeza? – Sandor estava sendo irônico. Era o bêbado atacando. – Por que você não comprou os serviços dela? Essa puta parecia interessada em você.
Sansa se perguntou se devia falar para ele o que Amina tentara fazer, além do beijo.
– Ela me disse algumas coisas...
Sandor parou de sorrir, levantou uma sobrancelha e endireitou a postura.
– Disse?
Sansa sentiu-se ruborizar.
– Ela disse que poderia me ensinar coisas.
Sandor voltou a gargalhar.
– Viu? Você deveria ter comprado os serviços dela. – disse sarcástico.
Sansa fechou a cara. E deixou que a curiosidade vencesse.
– Eu não poderia comprar os serviços dela, milorde! Eu não sou um homem! E ela é uma mulher! – explicou, indignada, se perguntando porquê isso não era óbvio.
Sandor entendeu a frustração da moça. Entendeu o por quê de ela não entender determinadas coisas. É claro, ela era uma lady. Aprendeu sobre casamentos, filhos. E não sobre o sexo. Ela não sabia nem metade do que acontecia no mundo.
– Sansa, — Sandor começou, tentando parar de rir internamente e respirando fundo para explicar lentamente. Sansa não se lembrava se ele já havia chamado-a pelo nome. – Você sabe o que é sexo?
Sansa ruborizou com a pergunta.
– É claro que sei! Isso não é pergunta que se faça para uma lady! – respondeu frustrada.
– Então você deveria saber que as pessoas não esperam o casamento para fazer sexo – explicou Sandor. – Algumas mulheres não esperam.
– São... – interrompeu Sansa. – As moças de vida fácil.
– As putas, as protituras, as rameiras – consertou Sandor. – Elas fazem de tudo, menina. Coisas que você nem deve imaginar.
Sansa não gostava do rumo da conversa. Mas parte de si, tinha curiosidade e continuava desperta.
– Vamos supor uma coisa, tudo bem? – sugeriu Sandor. Esperava que ela não desse ataques por estar ofendida. – Lembra quando você foi levada para aquele bordel? E se você ficasse lá? E se você virasse uma puta?
– Eu não sou uma! E nem virei! – disse ofendida. Sandor revirou os olhos. Tentou sem paciente.
– É uma suposição. Com quem você acha que iria aprender sobre sexo? Sobre dar prazer à um homem? – perguntou Sandor.
Sansa não respondeu, mas ficou pensativa.
– Acha que lá tem aias para ensiná-las? Elas aprendem com as outras prostituras. Você teria aprendido com outras putas.
Sansa estava começando a entender. Mas não conseguia encaixar a história.
– Você quer dizer que... – tentou dizer, pensando e ruborizando ao mesmo tempo. – Mulheres podem fazer sexo com outras?
– Você nunca ouviu falar nisso, menina tola? – perguntou Sandor.
Ela já ouviu falar em algumas coisas. Lembrava-se de quando Theon Greyjoy zombava de seu irmão bastardo, Jon Snow. Chamava-o de “beija rapazes”. Era como uma ofensa, Jon nunca dera atenção a Theon, mas Robb sempre tentava brigar com ele. Ela entendia que dois homens se beijando era algo inacreditável. Uma ofensa. E se era uma ofensa, era algo proibido.
– Você nunca ouviu sobre o irmão do Rei Robert? O mais novo. – perguntou Sandor.
Ele falava de Renly Baratheon. E ouvira entre as criadas algumas histórias maldosas sobre Renly. Sobre o fato de ele beijar rapazes. Ela achara isso ofensivo demais para o irmão do rei. Não entendi como que as criadas não foram levadas para terem suas cabeças cortadas. Mas se Sandor afirmava o mesmo... Isso quer dizer que Renly beija rapazes. E faz amor com rapazes.
Isso quer dizer que mulheres também podem fazer sexo com outras mulheres. Mas isso não era possível. Ou era? Sua Velha Ama lhe ensinara o que era sexo. Como era o ato em si. Ela não conseguia entender a possibilidade entre duas mulheres
– Mas... Como? – perguntou, inocente, antes que percebesse que estava aprofundando demais o assunto.
– Como? Menina, você acha que sexo é só para procriação? – perguntou Sandor. – Você sabe mesmo o que é isso?
– Não... – ruborizou ao tentar se defender e mostrar que não era tão ignorante sobre o mundo. Mundo sujo demais para ela. – Sei que as pessoas fazem por... diversão.
– É para isso que servem as putas, menina – rosnou Sandor. A voz dele denunciava diversão. Ele parecia sempre prestes a sorrir. Se esforçava para ficar sério. Sansa se irritou ao reparar isso. – As mulheres também fazem isso por diversão.
– Mas... Como? – repetiu Sansa. Ela não sabia se queria a resposta. E se arrependeu de perguntar.
Sandor entendeu o que ela queria dizer.
– Oras! Com a língua, com os dedos – riu Sandor. – Dedos podem ser usados para diversão. Você já usou seus dedos, Passarinho?
Ele estava malicioso. E Sansa se ofendeu com a pergunta, mesmo que não tivesse entendido. Ofendeu-se apenas com a malícia.
– Dedos?
– É, Passarinho. Na sua boceta. Você já se tocou? – perguntou Sandor, malicioso demais, divertido demais.
– É claro que não!
Sandor soltou outra de suas gargalhadas que pareciam um rosnado de cachorro.
– É claro que não... – afirmou Sandor. – Você é lady demais para isso.
O assunto acabou. Ela não iria se arriscar a fazer mais perguntas. Queria apenas terminar com a conversa.
Depois de alguns minutos, Sandor voltou a falar.
– Vou apagar o fogo.
Sansa assentiu. Mas então, se lembrou de um detalhe.
– NÃO! – gritou antes que ele jogasse terra sobre o fogo. Ele a olhou assustado. Ela se levantou, foi até a bolsa sobre o cavalo, procurando por um pequeno pote de metal.
Sansa não deveria estar fazendo isso. Ele fora repulsivo demais com ela. Mas ao observá-lo sobre o fogo, não pôde deixar de se lembrar e sentir pena. Sandor tinha um corte por cima da queimadura. E ela estava mais feia e arroxeada que antes. Se é que sua cicatriz poderia ficar mais feia ainda.
Ela se ajoelhou perto dele, abrindo o pote.
– O que é isso? – perguntou Sandor, desconfiado.
– É erva para curativos – explicou. – Posso passar em seu corte?
Apesar de tudo que ele fizera, Sandor ainda lhe arranjara um vestido, uma adaga e se esforçara para que ela aprendesse a se defender. Ele lhe devia muitas desculpas. Mas ela poderia engolir o orgulho e ajudar a curar o corte. Não poderia negar ajuda a ele, quando tinha ervas para curativos nas mãos.
Sandor assentiu e Sansa molhou os dedos no creme pastoso. Ela deslizou os dedos sujos de erva sobre o corte de Sandor. A queimadura era esquisita, dura e mole, parecia um pedaço de pão mofado e velho. Sandor não se afastou e Sansa se perguntou se ele sentiu alguma dor ou ardência. Ele parecia forte.
Passou por todo o corte, desejando que ficasse menos roxo na manhã seguinte. Pegou a mão grande do homem, a mão que cortara com a adaga. Ela também passou a erva pastosa sobre o corte, que estava com sangue seco e não parecia profundo.
Sem que Sansa esperasse, Sandor colocou o dedo indicador na erva pastosa. Segurou o rosto de Sansa e passou um pouco do creme sobre o machucado em seus lábios. O machucado que ele havia feito com o tapa.
O dedo dele era calejado, sua palma era grossa. Tão diferente da pele suave de Sansa. Ele tinha olhos cinzentos, puxados para o castanho. Mostravam um sentimento de culpa. E Sansa percebeu que aquele toque era o máximo que teria de seu perdão.
Sansa fechou o pequeno pote depois que Sandor terminou de lhe passar a erva. Sandor mexeu na bolsa de moedas que estava pendurada em sua cintura. Abriu e tirou o anel prateado dos Starks de dentro. O anel de lobo. O anel que Sansa havia dado para Amina.
– Isso é seu. – disse Sandor, entregando-lhe o anel. Sansa o pegou, olhando o pequeno anel que tinha um resquício de sangue. Seu sangue. Ele lhe estapeara com o anel em seu dedo. E fora o anel que machucara a boca de Sansa. Ela se lembrava do metal gelado batendo em seu lábio.
Sansa se levantou, colocando o anel em seu dedo anelar direito. Sandor começou a jogar terra sobre o fogo.
– Espero que esse fogo não tenha atiçado ninguém – disse Sandor. – Não quer dar recompensa nenhuma pra esses tolos.
Sansa se virou.
– Recompensa? – perguntou a menina.
Sandor chutava a terra.
– Recompensa. Há uma recompensa para que nos entregar. Vivos ou mortos – explicou Sandor. – Joffrey nos quer vivos, mas enfatizaram que não se importariam de receber apenas nossas cabeças.
Sansa engoliu em seco. Uma recompensa pela sua cabeça. Ela estava em perigo e seu coração acelerou. Agora, mais do que nunca, não poderia se afastar de Sandor, seu protetor. Ela sabia que não tinha chance sozinha no mundo. Ainda mais com uma recompensa dessas pelo reino. Ela quis chorar, mas engoliu o nó em sua garganta.
E antes que se deitasse para dormir, o fogo se apagou, deixando-os completamente na escuridão.
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