Goddess and Monster - Part 1
8 Capítulo 8 - A fazenda na planície
Notas iniciais
Sansa percebeu que ruborizava logo nas primeiras horas da manhã, quando os raios solares bateram em seu rosto. O sonho que tivera naquela noite não era muito decente para uma lady. Ela sonhara com Sandor e com Amina. Não se lembrava do sonho, apenas que eles apareciam nus e beijavam Sansa em muitos lugares do corpo. Ela percebeu que suas partes íntimas estavam molhadas e se perguntou se havia urinado ao dormir. Não era mais criança para isso e o fato de estar morrendo de vontade de urinar a fez perceber que não o havia feito enquanto dormia.
Ela pensou se poderia perguntar para o Cão, mas não confiava nele. E tinha certeza que ele a zombaria. Decidiu deixar pra lá.
A manhã estava começando a esquentar e Sansa sentiu necessidade de tirar sua capa. Mas sabia que Sandor iria proibi-la. Ele a esperava perto de Estranho com uma maçã na mão, que foi oferecida a Sansa, quando se aproximou. Ela pegou a maçã, enquanto Sandor a colocava em cima do cavalo e subia atrás de si.
Ele nada falou. Nem um cumprimento matinal, nem um resmungo. Sansa desejou que a viagem continuasse assim, mas queria saber qual era o próximo destino. Ainda faltava muito para Winterfell e o clima nem começou a ficar gelado.
Foi quando o sol começou a se fortalecer que ela percebeu que odiava o calor. Sentia falta de sua casa sombria e gelada e se perguntou porquê ela tinha ido para Porto Real. Fazia tanto tempo que ela começava a se esquecer de determinadas situações. O ódio que começou a sentir de Joffrey, depois que o menino rei decapitou seu pai, a fez bloquear todas as razões e felicidades de ter ido para aquele inferno na Terra.
Joffrey. Sim, tinha ido para Porto Real por causa de Joffrey. Como fora tão tola de se deixar seduzir por aquela criança? Ele nem o achava mais bonito. Ela o achou bonito na primeira vez? Não sabia mais dizer.
Sansa olhou para o rosto de Sandor. Estava virada para o lado bom. Ainda Bem. Raios solares escapavam por entre as árvores iluminando a pele suada do homem. Ele tinha barba espessa e seus cabelos pareciam sedosos. Ou oleosos. Seus olhos cinzentos eram profundos, tristes e raivosos. A pele não era tão clara quanto a dela, que parecia porcelana.
Ele parecia... bonito. Não bonito do jeito que ela gostava. Mas aceitável para uma lady. Se ele não fosse tão grosso e ogro e aliviasse sua expressão, ele poderia mesmo se casar com uma dama.
Sansa se perguntou se ele já havia se apaixonado, se já havia estado com uma mulher. É claro que sim, ele sempre ia para os bordéis e nunca mentiu sobre isso. Mas ela tinha curiosidade de saber se ele não teve nenhum amor quando jovem, se não teve a oportunidade de se casar.
Ela não conseguia vê-lo casado e com filhos. Imaginava que ele nunca o faria, já que se entregou para a Guarda Real. Ele não podia ter uma família, era inteiramente do rei. Mas agora... Ele fugira com ela. Poderia reconstruir sua vida com alguém. Com uma mulher amável que pudesse amaciar seu gênio. Não em Westeros, talvez. Ele não se importava com terras e nem teria como conseguir um título depois de ter fugido da batalha. Seu nome estava manchado.
Sandor percebeu que ela o fitava e seus olhares se cruzaram. Sansa desviou os olhos, envergonhada de ter sido flagrada. Não queria que ele pensasse que ela estava voltando a confiar nele. Não queria que ele pensasse em nada de bom para ela. Queria apenas que ele a deixasse em paz.
– Perdeu alguma coisa, Passarinho? – sussurou Sandor, fazendo Sansa revirar os olhos. A voz dele não tinha malícia, apenas curiosidade.
– Não. – respondeu, cruzando os braços, inquieta.
Ele não falou mais, para o alívio de Sansa. Mas ela ainda tinha curiosidade de saber para onde eles estavam indo.
Foi quando Sansa percebeu que a floresta começava a se dissipar e uma grande campina se abria. Eles saíram da floresta para sentir o sol queimando por sobre o tecido e armadura. Sansa decidiu tirar a capa sem pedir permissão. Sandor não mandava nela.
Havia uma brisa fresca que passava pela campina verde. Era tão imensa que Sansa achava que era infinita. O vento batia em sua pele se misturando com o calor do sol. Estava começando a suar, a testa úmida.
– Coloque a capa de volta. – ordenou Sandor naquele tom de voz tão firme.
Sansa o olhou. Ele também suava, a armadura deveria ser extremamente quente.
– Não. Sinto calor. – respondeu cheia de si.
Sandor não resmungou.
Mais a frente, havia um lago e Sansa percebeu que sentia muita sede. Seu odre de água estava vazio há algumas horas.
– Por favor, vamos parar naquele lago. – pediu Sansa, com a delicadeza e educação costumeira.
– Não pararemos em porra de lago nenhum. – rosnou Sandor.
Sansa se irritou. Cruzou os braços.
– Sinto sede e meu odre está vazio! – disse, perturbada por ter seu pedido negado. – Você também precisa se hidratar. E lavar este rosto. Está fedendo!
Sandor soltou um grunhido raivoso. Ela conseguira atingi-lo.
– Não vamos parar. Acostume-se com meu cheiro. – disse Sandor, ainda raivoso. Seu rosto estava vermelho, além de úmido.
– É assim que você quer me levar para Winterfell? – provocou Sansa. – Eu preciso me hidratar, me cuidar. Ou você pretende levar apenas o meu corpo morto para lá?
Sandor resmungou. Ele puxou as rédeas do cavalo e começaram a cavalgar em direção ao lago. Quando se aproximaram, Sansa percebeu que havia uma pequena ilha no meio do lago. Ela achou aquilo interessante.
– Não vamos demorar, menina. – avisou Sandor.
Ele desceu do cavalo, ajudando Sansa a descer também. Sansa foi até a margem do lago, lavou as mãos e as colocou em formato de concha para beber água. Sandor se sentou no chão, encostado em uma pedra. Tinha as mãos no cabo da espada, preparado para qualquer acontecimento.
Sansa olhou para o lago, enquanto enchia o odre. A ilha parecia pequena e mais a frente. No outro lado da margem, era possível ver um pequeno ponto preto. Estava muito longe, mas foi o suficiente para Sansa perceber onde estavam.
– Sor? – chamou Sansa.
– Não sou nenhum sor – rosnou Sandor. Ela virou o rosto para ele, um pouco preocupada e Sandor percebeu que ela precisava de algo. – O que foi menina?
Sandor se levantou e se aproximou, se pondo de pé à margem e ao lado de Sansa. Ela olhava para o horizonte e Sandor fez o mesmo. Não precisava analisar muito para saber onde estavam. Era a razão de não querer parar ali. Ela o olhou, seu rosto pedindo uma resposta de confirmação.
– Estamos...
– Sim, menina. Estamos em Harrenhal. – afimou Sandor. Sansa mudou o rosto preocupado para um rosto sem reação. Aquele era o Olho de Deus.
Sansa não sabia se devia se preocupar com o fato de estarem tão perto de Harrenhal. Sandor voltou para a pedra que estava encostado.
– Quem cuida de Harrenhal? – perguntou Sansa.
Sandor demorou para responder e quando o fez, estava desgostoso.
– Gregor Clegane.
Sansa sentiu o coração disparar. Estavam perto do perigo. Perto de serem reconhecidos. Ela se levantou de supetão, olhos arregalados e andou até Sandor.
– Vamos embora. – concluiu, esperando que Sandor se levantasse e a levasse para longe dali.
Mas Sandor olhava para o horizonte, pensativo demais. Sansa tinha medo de que ele cometesse alguma loucura. Sandor tinha um olhar odioso que assustava Sansa.
– Vamos embora, sor. Percebo que errei em pararmos aqui – cedeu Sansa, desesperada para ir embora. Tinha medo de Gregor Clegane. – Podemos ser reconhecidos aqui a qualquer momento.
O desespero em sua voz era tão visível que Sandor a olhou de forma cuidadosa.
– Não tenha medo. Matarei qualquer um à nossa frente. – garantiu Sandor, o ódio vazando de sua voz.
– Vamos embora, Sandor. – pediu Sansa, lembrando-se de usar o nome correto do Cão. Achava que isso lhe atingiria.
Sandor pareceu não escutar.
– Talvez... – começou Sandor, seu olhar se tornando desorientado. – Eu pudesse ir até lá. E matar Gregor.
Sansa gelou. Não queria que ele cometesse nenhuma loucura que pudesse atrapalhar sua chegada a Winterfell.
– Sandor, você não irá matar ninguém! – Sansa quase gritou, se ajoelhou ao seu lado, segurando a mão de Sandor, puxando-o – Vamos embora.
– Se eu o matasse, o mundo estaria livre de uma podridão.
Sansa estava mais desesperada que antes.
– Sandor, não podemos ficar aqui – ela colocou a mão nos ombros dele, quase sacudindo-o. – Olhe para mim! – e Sandor o fez. – Vamos embora! Você não pode matar ninguém, vamos ser reconhecidos e mortos!
– Não se ele morrer primeiro – concluiu Sandor. Sansa tinha medo de ele estar delirando. Reparou que o cantil de vinho estava nas mãos dele. Ela o pegou e reparou que estava vazio. Claro. Ele estava bêbado. – Se ele morrer primeiro, não morreríamos.
– Se ele morrer primeiro, seus homens nos matariam! – disse Sansa, esperando que seus olhos pudessem passar um pouco de noção ao homem. Se perguntou quando foi que ele ficou totalmente bêbado, quando que o cantil acabou. Ele bebia durante toda a viagem, mas ele não falou nada e ela não percebeu que seu estado de bebedeira estava chegando. – Sandor, não nos arrisque.
Sandor baixou o olhar.
– Não me importo. Não mais. Não me importo de morrer depois dele. Pelo menos, eu o terei matado – ele estava desgostoso e triste. – Não tenho mais nada nessa droga. Morrer seria o de menos.
Aquilo foi como uma facada no coração de Sansa. Ele não se importava com mais nada. Nem com ela. Ela não entendeu porque deveria se preocupar com isso, não ligava para ele, mas aquilo a atingiu mesmo assim. Saber que ele estava desistindo de levá-la para casa para morrer mostrava que ela era totalmente insignificante. Seus olhos lacrimejaram ao pensar que ela estava prestes a ter seu único caminho para casa destruído. Se não for com Sandor, ela nunca chegará salva. Ela olhou para a própria mão. Uma lágrima pingou de seus olhos e Sandor percebeu, olhando-a. Sansa aproveitou para levantar a mão e lhe mostrar uma vermelha cicatriz recém-formada.
– Você ainda tem um pacto para cumprir. Ou você irá desonrar isso também? – perguntou Sansa, se esforçando para não chorar, apesar de silenciosas lágrimas caírem. Ela mantinha o rosto duro como pedra.
– Você não confia mais em mim, passarinho – respondeu Sandor. Ele tinha o olhar calmo e triste, tão diferente do olhar raivoso que ele sempre tinha. – Esse pacto não serve para nada se você não confia em mim.
Sansa não falou. Não confiava mais em Sandor. Ele concluiu certo. Mas não podia deixar que ele desistisse dela desse jeito.
– Não – confessou, firme de suas palavras. – Não confio mais em você desde que me bateu. Você me disse que nunca me machucaria e mesmo assim o fez. Tenho vontade de fugir, mas eu ainda dependo de você.
Sandor ainda a olhava com expressão de tristeza.
– Eu preciso de você. – sussurrou Sansa, com vergonha de suas palavras, de sua confissão. Era uma fraqueza, mas precisava expô-la para que Sandor desse atenção a ela. Era sua última esperança.
– Eu sei. – concordou Sandor, deitando a cabeça na pedra e fechando os olhos.
Sansa aproveitou a deixa para pegar seu odre de água e, delicadamente, despejar o conteúdo por sobre a testa de Sandor. Ele se assustou, arregalando os olhos e tentou levantar a cabeça, mas Sansa evitou que ele o fizesse colocando uma mão em sua testa, massageando e espalhando a água por sobre seu rosto. Ela jogou um pouco de água por sobre a queimadura de Sandor, receosa de tocá-lo ali. Mas ela o fez. Tocou-lhe a face queimada, espalhando a água e limpando-o da poeira. O corte que ele tinha ali estava começando a ficar bom e Sansa agradeceu pelo efeito da pomada.
Ela mantinha o rosto sério e duro. Não queria demonstrar nenhuma afeição por aquele homem. Não queria demonstrar que precisava dele, apesar de ter confessado e não queria ter que demonstrar desprezo, que era o que ela mais sentia quando estava perto dele. Não queria fazê-lo fugir, nem se aproveitar dela.
Sandor pegou a mão de Sansa, fazendo-a parar de acariciar. Ele levou a mão dela para o nariz, fungando seu cheiro e olhou para a palma dela. A cicatriz estava ali, vermelha, ainda recente. Ele levantou a mão que continha a sua cicatriz e fechou sobre a mão da menina, apertando-a, mostrando que o pacto ainda estava selado.
– Vamos embora. – disse Sandor, finalmente, se levantando.
***
Eles ficaram bem longe das margens de Olho de Deus, mas por entre as planícies, era possível vê-lo. Sansa se perguntou para onde estavam indo. Eles realmente não tinham para onde ir e estavam próximos de serem reconhecidos.
– Para onde vamos? — perguntou a menina inquieta.
– Winterfell.
Sansa revirou os olhos. Que resposta óbvia. Sandor viu seu revirar de olhos e suspirou, demorando para responder, novamente.
– Não sei, menina. Estamos numa zona perigosa – explicou Sandor, sua voz ligeiramente preocupada. – Não há estalagens confiáveis por aqui. E precisamos buscar informações de onde está seu irmão.
O estômago de Sansa se embrulhou ao ouvi-lo falar de seu irmão. Só de pensar que poderia estar perto do seu irmão, sua família, ficava mais aliviada.
– Dormiremos ao relento de novo? – perguntou Sansa, parecendo uma menina birrenta.
Sandor revirou os olhos e resmungou. Não voltou a falar.
Eles cavalgaram por um bom tempo. O vento ficando cada vez mais gelado, levando embora o calor que sentiam. Sansa recolocou sua capa, com medo de ser reconhecida por seus cabelos chamativos. Sandor tentou esconder o manto entre os dois.
Eles pararam à margem de um pequeno bosque ao leste de Harrenhal. O sol estava começando a por. Sandor pediu para que Sansa não demorasse em suas necessidades. Ele sentia falta do vinho e precisava beber água para se hidratar. Maldição!
Sandor pegou a adaga em suas botas, deixando o odre de lado. Quando Sansa voltou, ele ordenou que ela pegasse sua própria adaga. Ela o fez, um pouco confusa e receosa.
– Treinaremos aqui? – perguntou Sansa.
– Apenas por alguns minutos antes do sol ir embora. – explicou Sandor, já assumindo posição de luta.
Sansa continuava parada, estática, tentando entender o que Sandor queria. Não discutiu, apesar de ter medo de alguém aparecer e os reconhecer.
Ela tentou fazer a mesma posição que ele fazia, esperando que ele a atacasse.
– Você precisa perceber quando pode me atacar, menina – disse Sandor, andando de lado, na espreita. – Precisa perceber quando estarei distraído.
– Você nunca está distraído.
– Tente aproveitar as deixas, menina – explicou Sandor, chegando mais perto de Sansa. – Tente perceber meus pontos fracos.
Sansa não era moça de ataque. Não sabia aproveitar as boas situações que poderia atacar. Não sabia segurar uma adaga com firmeza e nem sabia quando poderia atacar e se defender. Ela se sentia um passarinho fora do ninho. E ela era exatamente isso.
Qual era o ponto fraco de Sandor? Sansa se perguntou. Ele não iria deixá-la ganhar.
Ela queria tentar pensar nos pontos fracos, mas não teve tempo para isso. Sandor não a deixou raciocinar e partiu para cima dela, tentando atacá-la pena perna, rasgando um pedaço de seu vestido com a faca. Por pouco, não rasgou sua pele também. Ela tomou um susto e prendeu a respiração.
– Está muito mole, menina. – zombou Sandor.
Sansa, raivosa, correu para atacá-lo, faca estendida. Mas Sandor se desvencilhou e aproveitou para pegar o pulso dela, enrolando-a em seus braços, fazendo-a ficar de costas para ele.
– É mesmo um passarinho perdido, não é? – Perguntou Sandor, com a adaga no pescoço de Sansa, imobilizando seu pulso e apertando, fazendo a menina soltar sua adaga. Ele aproveitou que ela estava desarmada para colocar a mão em sua cintura e Sansa estremeceu. Torceu para que ele não tivesse percebido. – Precisa aprender muitas lições, menina. Você sabe o que um homem fará se a tiver assim? – Sandor subiu a perigosa mão, pousando no pequeno seio da menina. Ela queria se desvencilhar, mas estava presa e tinha medo da adaga machucar sua garganta. Sandor não iria matá-la de verdade, iria?
A mão de Sandor apertou o seio de Sansa e desceu, passando novamente pela cintura e, finalmente, nas partes íntimas da ruiva. Ela moveu os quadris, tentando se afastar, mas isso só piorava a situação. Ele a empurrava com seu próprio quadril, enquanto a mão dele se apertava contra seu sexo por cima do tecido do vestido. Ela sentiu um certo calor pelo seu corpo e percebeu que isso era muito errado.
– Por favor, me solte. – pediu Sansa com delicadeza.
Sansa se surpreendeu quando ele obedeceu de prontidão, jogando-a para longe e chutando sua adaga.
– Pegue a adaga. Vamos tentar de novo. – disse Sandor.
Sansa pegou a adaga, lentamente. E antes que o fizesse, Sandor correu para atacá-la. Seu reflexo foi pegar a adaga rapidamente e se desvencilhar, se jogando no chão. Sandor se virou para ela, sorrindo com sabedoria.
– Muito bem, menina. Conseguiu se afastar a tempo – Sandor elogiou. – Tente me atacar agora.
Ela sabia que ele não a deixaria atacar facilmente. Pensou com calma. Teria que arranjar um jeito. Se ela o atacasse pela esquerda, poderia tentar se desvencilhar em cima da hora e ir para a direita. Será que ele perceberia?
– Só iremos embora quando você conseguir me dar um golpe, menina – avisou Sandor. – É perigoso ficarmos aqui, nas planícies abertas, não acha?
Ela correu para ele, enquanto o homem ainda falava, apontando a faca para o braço esquerdo de Sandor, mas se desvencilhando em cima da hora e indo para a direita. Ela conseguiu atingí-lo na mão, já que não tinha a armadura. Outro corte na mão de Sandor. Ela não sabia como conseguira isso.
Ela se afastou, ofegante. Sandor tinha um sorriso vitorioso no rosto. E ela não entendeu o porquê. Ele não tinha vencido.
– Ganhei mais um corte em minha mão – afirmou Sandor. – Não é o suficiente para matar, nem para seu adversário, mas é o suficiente por hoje, menina. Conseguiu se lembrar de minha lição de nunca olhar para onde irá atacar.
Sansa esboçou um leve sorriso. Não queria demonstrar que estava satisfeita com o elogio dele, não queria dar essa liberdade. Mas gostou de sua vitória e sorria por isso.
Sandor guardou a adaga nas botas e Sansa fez o mesmo. Iriam sair dali, finalmente. Eles subiram no cavalo e partiram, iluminados por um sol laranja que se escondia por trás das planícies.
***
Eles estavam se aproximando de cercas de madeira e Sansa conseguiu visualizar algumas casas isoladas pela campina. Era uma fazenda com quatro casas, um celeiro e um estábulo. Havia um número pequeno de cabeças de gado, vacas, bois, cavalos e alguns porcos. Houviam o cacarejar de galinhas à medida que se aproximavam e um galo estava dormindo sobre um poleiro perto da cerca mais alta.
– Vamos nos aproximar? – perguntou Sansa, receosa.
– O suficiente para conseguir um lugar para dormir.
Eles se aproximaram das cercas, se escondendo atrás de algumas vacas e bois. As casas estavam longe, mas era possível ver fraca iluminação pelas janelas.
Já era noite e Sansa estava começando a sentir fome e cansaço. Ela não sabia qual era o plano de Sandor, mas desceu do cavalo quando ele ordenou. Eles ficaram escondidos por entre o gado.
As pessoas estavam dentro da casa, mas um homem fechava o celeiro e o estábulo. Ele entrou em uma das casas, fechando a porta.
– O que faremos? – perguntou Sansa, observando o lugar com atenção, o mesmo que Sandor fazia.
– Esperaremos.
Eles conseguiam ouvir ruídos vindo da casa. Pareciam animados. Sansa e Sandor estavam sentados juntos da cerca, apenas esperando. A lua começava a iluminar fortemente a campina e Sansa tinha medo de que ela os denunciasse. Ela acabou adormecendo com a cabeça apoiada na cerca de madeira.
Não sabia quanto tempo se passou, mas Sansa acordou com um leve tapa no rosto por Sandor. Ela fechou a cara por ele ter encostado nela mais uma vez, mas o tapa nem havia doído. Ele tinha a carranca exposta pela luz da lua e parecia preocupado.
– Vamos, menina. As luzes se apagaram. – anunciou Sandor se levantando e levando o cavalo, silenciosamente, para perto dos estábulos.
Quando chegaram lá, Sansa, sonolenta, viu que a porta estava fechada. Sandor amarrou o cavalo numa cerca por perto e pediu para Sansa fizesse o menor barulho possível. Ele tentou abrir a porta, trancada com correntes, mas não foi possível. Ele soltou um resmungo baixo e se virou para Sansa, olhando em volta.
Ao lado do estábulo, havia um amontado de feno solto e espalhado. Sandor se aproximou, juntando o feno espalhado, para que ficasse um monte maior que já havia. O homem jogou seu manto da Guarda e jogou por cima do feno.
– Fique aí, não faça nenhum barulho – sussurrou Sandor. – Se aparecer alguém, se esconda.
Sansa assentiu, não gostando muito da ideia de ficar sozinha jogada no feno. Sandor se afastou e a menina se sentiu estúpida por não perguntar aonde ele iria. Seu sono não a deixava pensar e esfregou os olhos para que despertasse.
A ruiva se jogou sobre o manto, assustada pela escuridão, apesar do luar. Ela conseguia vislumbrar silhuetas dos animais adormecidos e de Estranho. Sentia-se calma por ter a companhia do cavalo de Sandor.
Passado alguns minutos, Sandor voltou, com uma pequena trouxa e um odre nas mãos. Ele se sentou ao lado de Sansa, sobre o manto, e abriu a trouxa. Havia um pão inteiro, um pedaço de queijo e três coxas de frango frias. O odre estava cheio de água.
– Onde conseguiu isso, Cão? – perguntou Sansa, um pouco apreensiva.
– Dentro da casa.
– Você roubou? – Sansa estava assustada. Não queria que os descobrissem ali.
Sandor resmungou e revirou os olhos.
– Você não pode roubar comidas pessoas, Clegane! Isso é errado! São pessoas honestas! – repreendeu Sansa.
Sandor lançou um olhar furtivo para ela.
– Você queria que eu pedisse licença? Usasse suas cortesias? – Sandor esnobou. – Podem saber quem somos, menina. Podem nos entregar. Não podemos confiar em ninguém.
– Isso não lhe dá direito de roubar!
Sandor fechou a trouxa e se virou para a ruiva. Pelo luar, Sandor percebeu que ela tinha os olhos arregalados, a pupila dilatada.
– Você prefere passar fome? – perguntou Sandor, tentando não gritar e se manter calmo. – Não sabemos quando vamos encontrar outra estalagem, nem quando vamos nos alimentar direito. Você não vai aguentar ficar comendo só frutas.
Sansa abaixou o olhar. Ela sabia que ele dizia a verdade e seu estômago roncou durante toda a viagem. Não duvidava se Sandor escutou os resmungos de sua barriga. Não se sentia bem de comer comida roubada, mas não podia se dar ao luxo de recusar. Aquela pouca comida era tudo o que Sandor havia conseguido para ela e deveria estar grata.
Ela assentiu, deixando que Sandor percebesse que ela não iria relutar. Ele abriu a trouxa de novo, cortou o pão e o queijo em vários pedaços pequenos. Sansa pegou queijo e Sandor atacou uma das coxas. Comeram silenciosamente, Sansa tentando manter sua postura, apesar de comer no chão e com as mãos. Ela comeu uma das coxas de frango. Estava fria, mas temperada. Não queria sujar as mãos e nem reclamar que a comida não era fresca. Comeu sem resmungar. Sua fome era tanta que estava começando a não se importar com a postura. Sansa percebeu que Sandor tirou um cantil de vinho da cintura.
– Roubou vinho também? – perguntou Sansa, observando o homem dar um longo gole. Ele não respondeu, apenas deu um sorriso de lado e um riso baixo.
Sobrou uma coxa de frango e alguns pedaços de pão. Sandor pegou a coxa, estendendo para Sansa.
– Pode ficar com o último pedaço. – deixou Sansa.
– Não vou comer o último pedaço. Você tem fome e não sabemos quando vamos comer de novo. É melhor que coma bastante agora. – avisou Sandor, ainda oferecendo a coxa.
– Você também sentirá fome. – disse Sansa, aceitando a comida e comendo com gosto, enquanto Sandor bebia outro gole de vinho.
– Não se preocupe comigo. – sussurrou Sandor. Ela sorriu em agradecimento. Tinha fome e Sandor deixou de comer a última coxa de frango para que ela se alimentasse.
Quando terminaram de comer, Sandor deixou de lado o trapo que serviu de embrulho, bebeu um gole do vinho
– Está frio – comentou Sansa. – As noites tem ficado mais frias, enquanto os dias, mais quentes.
Ele ofereceu o cantil de vinho para Sansa. Temendo que ele a obrigasse a beber como da última vez que ele o fez, ela aceitou o vinho. Bebeu alguns goles que desceram ardendo em sua garganta.
Desajeitada com o álcool, deixou que uma gota vermelha lhe escapulisse dos lábios e escorresse por seu queixo. Ela entregou o cantil para Sandor, que fitando aquela gota, aproximou o polegar calejado e o limpou, chupando o dedo para não desperdiçar nenhum resquício. Ele deu um sorriso malicioso para Sansa, que se sentiu sem graça.
– Deite-se. Temos que dormir – ordenou Sandor. – Iremos embora à primeira luz do dia.
Sansa se deitou sobre o feno, de costas para o homem. Ela ouviu o ruído de Sandor se deitando. Apesar de estar com a capa, ela tremia de frio. Preocupou-se, já que não estavam perto de Winterfell. E se perguntou como que fariam quando estivessem perto das terras geladas e tivessem que dormir ao relento.
Sandor percebeu a tremedeira da menina e se aproximou mais um pouco. Ele colocou uma das mãos sobre o braço de Sansa, que levou um susto com o toque. O homem se aproximou mais, a centímetros do corpo de Sansa. A menina podia sentir a armadura fria atrás de si.
– O que está fazendo? – perguntou Sansa, preocupada com o homem atrás de si.
– Você tem frio, se ficarmos perto, podemos nos esquentar com o calor de nossos corpos.
Sansa ficou pensativa.
– Você está de armadura – lembrou Sansa. – Ela é gelada.
Sandor bufou. Sansa nem se virou para ele. O homem se aproximou mais, sem encostar o corpo no de Sansa, mas o suficiente para deixar sua mão sobre o ombro dela.
Sansa não evitou, nem reclamou. A mão dele estava quente e só aquele toque era suficiente para ajudá-la a não sentir tanto frio. Ela se ajeitou e se encolheu mais dentro da capa. Por um lado, seria bom se ele a abraçasse, pois estava frio e queria saber se o que ele falou era verdade. Se o calor do corpo dele esquentasse o seu, então ela já não precisava mais se preocupar tanto com os próximos acampamentos na terra gelada do Norte.
***
À primeira luz do dia, Sandor abriu os olhos, enquanto o galo a plenos pulmões. Ele se levantou no susto e percebeu que o céu ainda estava acinzentado e a luz solar nem era tão visível assim sobre as planícies. Ele olhou a sua volta, se levantou e suspirou aliviado que a casa ainda estava fechada e não havia indícios de movimentação.
Sandor se ajoelhou ao lado de Sansa, sacudindo a menina levemente.
– Vamos, menina. Está na hora. – sussurrou à menor menção de lucidez de Sansa.
Sansa só conseguia ouvir o galo cantar e os movimentos de Sandor. O sussurro dele foi sutil aos seus ouvidos, mas suficiente para que ela acordasse e tentasse se manter alerta. Ela se levantou, esfregando os olhos, percebendo que o céu estava tão cinza quanto os céus de Winterfell e se perguntou se já haviam chegado ao seu lar. A visão das vacas e porcos provava que não.
Antes que ela se esticasse, Sandor a colocou sobre o cavalo e partiram da pequena fazenda na planície. Ele lhe deu algumas folhas de hortelã para mascar.
Sansa esperava que encontrassem uma estalagem em breve.
– Qual o plano do dia? – perguntou Sansa.
Sandor resmungou.
– Arranjar comida para as próximas horas – respondeu o homem, com a voz mais rouca que o normal. – Com fome, Passarinho?
A barriga de Sansa roncou a menção da palavra. O pouco que comeram no dia anterior não foi suficiente.
– Seria bom se tivéssemos algumas frutas.
Após alguns minutos, Sandor parou para as necessidades fisiológicas e arrumar algumas frutas. Quando voltaram a cavalgar, comiam algumas peras para enganar a fome.
Sandor sempre envolvia seus braços ao redor da cintura de Sansa para agarrar as rédeas ou apenas para segurá-la. De certo modo, aquilo a incomodava e quando ele colocava as mãos em sua cintura, era sempre com força. Não queria que ele a encostasse, sentia nojo.
– Você poderia me soltar? – pediu Sansa, com delicadeza, colocando a mão sobre a mão dele em sua cintura, tentando empurrar.
– Se eu te soltar, você irá cair. – avisou Sandor, apertando a mão sobre o tecido do vestido.
– Não sou estúpida! Não irei cair!
Sandor soltou uma daquelas risadas que pareciam um rosnado. Ele não soltou a mão da cintura de Sansa e ela desistiu.
Ela não queria ter que se render a Sandor, mas também não queria brigar com o homem. Seu maior desejo naquele momento era fugir das garras do Cão, mas sabia que seria estúpida se o fizesse sem se planejar. Teria que esperar uma chance muito boa para conseguir fugir. E além de tudo, também precisava aprender a enganar Sandor. Ele sempre enfatizava que não gostava de mentirosos e ela teria que aprender a ser uma boa mentirosa.
Sansa pensou em todas as lições que ele lhe dera. Todas as vezes que ele tentou ensiná-la com a adaga. Ele dizia para encontrar um ponto fraco em seu adversário. Se Sandor fosse seu adversário, qual seria seu ponto fraco? Ele era alto, forte, um grandalhão de dois metros que assustava qualquer cavalheiro nobre. Não tinha medo de nada. A não ser... do fogo.
Ponto 1: Fogo.
Sansa anotou mentalmente. Fogo era seu ponto fraco. Mas não poderia usar fogo para fugir. Não poderia usar foto para atacá-lo. Não faria sentido algum. Ela pensou melhor em Sandor. Ele tinha queimadura, mas falar de sua aparência não parecia ser um problema para ele.
Sansa observou Sandor dar um gole em sua bebida. Vinho. Um ponto fraco. Outro ponto fraco. Ele não vivia sem vinho e ficava rabugento. Talvez, ele ficasse até mais fraco sem o vinho. Ou não. Ela passava a maior parte do tempo com o Sandor embriagado, mas teria que descobrir melhor os pontos fracos do Sandor bêbado e do Sandor sóbrio.
Ponto 2: Vinho.
Deveria ter algum outro fator que pudesse ser o ponto fraco do Cão de Caça. Ele parecia uma pedra que não se atingia facilmente. O que Sandor fazia no Castelo além de beber e lutar?
Ponto 3: Mulheres.
Será que Sansa poderia considerar as mulheres um ponto fraco? Ela nunca viu Sandor com outra mulher. Só se lembrava de Sandor olhando para outra quando era si mesma ou Amina. Nas festas do Castelo, ele estava sempre impassível. No bordel, quando fora lhe salvar, ele nem demonstrou um pingo de interesse para aquelas mulheres seminuas. Mas ele sempre a olhava de forma diferente. Sempre fazia piadas e sempre a agarrava pelos cantos.
A Rainha Cersei lhe dissera que o poder de uma mulher estava entre suas pernas. Sandor a tocou naquelas partes lhe dizendo que era o que um homem queria.
Sandor era um homem e ele queria, claro. Mas não era qualquer mulher que o agradaria. Sansa fez uma careta de nojo com o pensamento, mas sabia quem podia agradá-lo.
***
Sandor voltou para a Estrada do Rei, o que era extremamente arriscado àquela altura. Sansa colocou seu capuz e pediu aos Sete para que os protegessem.
E não demorou para que encontrassem uma alma viva. Por um momento, Sandor pensou em correr pelas campinas, mas decidiu arriscar para buscar informações.
À princípio, ouviram apenas cascos de cavalos, mas logo, os ruídos de rodas apareceram. Era um velhote em uma charrete com dois cavalos puxando. Carregava sacos e mais sacos na carroça.
Sandor desacelerou Estranho e se posicionou no meio da Estrada, para impedir a passagem do velho.
– O que está fazendo? – perguntou Sansa, preocupada.
Sandor não respondeu. Estava costumeiro Sandor responder às perguntas de Sansa apenas com resmungos e bufos. Antes que o velho se aproximasse mais, Sansa arrumou o cabelo de Sandor, para que caíssem mais sobre a queimadura e isso fez o homem afastar suas pequeninas mãos.
Quando o velho reparou no bloqueio, ele puxou as rédeas do cavalo para que parassem. Esboçou um leve sorriso e franziu os olhos, para afastar o sol de seu rosto, tentando enxergar quem estava a sua frente.
– Bom dia! – cumprimentou o velho. – Precisam de ajuda?
Sandor desceu do cavalo, enquanto Sansa tentava esconder a capa da Guarda Real. Esperava que o velhote não reconhecesse Sandor.
– Bom dia, senhor! – resmungou Sandor, de forma falsamente simpática. – Para onde está indo?
– Porto Real, meu filho – o velho tinha o rosto enrugado, a pele queimada de sol, os cabelos brancos e ralos. – Faço minhas entregas quando posso. Mas com esses tempos difíceis...
Sandor ignorou o comentário e tentou observar o que tinha na carroça. Estava tudo envolto de sacos.
– O senhor teria alguma comida para que eu pudesse oferecer à minha jovem esposa? – perguntou Sandor, com uma gentiliza inacreditável. Sansa se perguntou como ele conseguia ser gentil. Sandor era o tipo de homem que tomava comida dos velhotes. Não estava acostumado a pedir.
O velho olhou para Sansa, que tentou abrir um sorriso tímido, esperando que ele sentisse alguma compaixão por ela. Ela sorriu de volta e saiu da carroça, procurando por entre as sacolas.
– Tudo o que tenho precisa ser cozido, meu filho – explicou o homem. – Tenho apenas carne crua e legumes. Há uma estalagem próxima daqui, onde poderão comer carne assada.
Da carroça, ele tirou algumas cenouras, batatas e berinjelas. Sandor ajudou Sansa a sair do cavalo. O homem deu os legumes para Sandor e Sansa e os dois comeram como se não vissem comida há algum tempo. Sansa se sentou sobre uma pedra, enquanto Sandor comia em pé.
O velhote soltou uma risada tímida, estava impressionada com a fome do casal.
– De onde vocês estão vindo, crianças? – o velho tinha um olhar sábio, mas não parecia desconfiado. Sansa estava começando a simpatizar com ele.
Sandor não respondeu. Não queria responder perguntas a desconhecidos. Sansa se sentiu obrigada a fazer por ele.
– Estamos fugindo de Porto Real, meu senhor.
Sandor deu um olhar raivoso para Sansa, que se obrigou a calar e voltar a comer.
– Um casal tão jovem... A guerra foi ruim para vocês – filosofou o velhote. Ele observou Sandor de cima a baixo. – Usa uma armadura muito importante, sor.
– Não sou nenhum sor. – esbravejou Sandor.
– Você lutou em Black Water?
Sandor não respondeu, mais uma vez.
– Vou tomar isso como um sim. Sua esposa disse que estão fugindo, já imagino do quê. – afirmou o homem. Sansa começava a sentir menos simpatia. Ele estava ameaçando seus disfarces. Sandor também percebeu e sua face carrancuda poderia matar uma pessoa.
– Creio que o senhor não devemos respostas par... – começou Sandor enraivecido, jogando o ramo da cenoura no chão, mas Sansa o interrompeu, se levantando.
– Senhor, estamos cansados e daremos alguma recompensa por sua comida. – ofereceu Sansa, lançando um olhar significativo para Sandor, que apenas ignorou.
– Bom, aceito alguns veados de prata para compensar e vocês podem levar metade da melancia. – disse o homem, dando um sorriso simpático para Sansa.
O velho se aproximou da carroça para cortar a melancia ao meio. Sansa voltou a se sentar na pedra e comeu uma batata crua, fazendo uma careta pelo gosto de terra. Sandor a olhava com certa antipatia e sabia que ele bateria nela se fosse possível.
– Se vocês estão fugindo, acredito que não saibam o que os esperam pelas terras acimas. – disse o velho, pegando uma adaga e começando a cortar, com lentidão, a melancia.
Sansa lançou um olhar ansioso para Sandor. Tinha curiosidade de saber onde estava sua família.
– Se o senhor puder nos dar informações para não entrarmos em terras erradas. – pediu Sansa, com delicadeza. A gentileza de Sansa surtia algum efeito no velho. Ela se sentiu vitoriosa por poder usar suas cortesias quando Sandor as desprezavas.
– Está tudo uma confusão, minha senhora – começou o homem. – O senhor Lannister, o irmão da Rainha, foi solto e vaga por Westeros, sabe lá onde. Dizem que isso enfraqueceu o exército Stark
– Por que o soltaram? – perguntou Sandor, desconfiado da história.
– Não o soltaram. Dizem que a Lady Stark o soltou e exigiu que ele fosse levado para fazer uma troca pelas suas filhas, em Porto Real – ele se virou para o casal. – Vocês sabem, as meninas Starks que estão no castelo desde que o Lorde Stark morreu.
– Ele foi assassinado. – corrigiu Sansa, recebendo um olhar furtivo de Sandor.
– Ah sim, claro, era um traidor. – voltou a cortar a melancia.
Sansa fez menção de se levantar e esbravejar, mas Sandor segurou seu ombro, obrigando-a a continuar sentada.
– É compreensível o que Lady Stark fez – ele parou de cortar a fruta e olhou para o céu, soltando um longo suspiro. – Apenas vingança. É difícil, para uma mãe, perder seus filhos jovens.
Ao ouvir aquela frase, o coração de Sansa gelou. Sandor percebeu que a menina elevou a postura e apertou o ombro dela.
– Perdão, senhor. Como? – perguntou Sansa, não podia ser verdade.
– Vocês não ficaram sabendo? – perguntou o homem, terminando de cortar a melancia e se virando para o casal. – Winterfell foi invadida pelos Greyjoy e aquela criança que foi criada por Lorde Stark assassinou os dois Starks mais novos.
Sansa arregalou os olhos, a frase entrou por seu ouvido, se repetindo num eco. Seu coração parou por um breve instante, sua espinha gelou e seu estômago se revirou, fazendo todos aqueles legumes voltarem por sua garganta.
Antes que Sandor pudesse fazer alguma coisa, Sansa se virou para o lado, levantando o capuz e vomitou tudo o que comeu. Sandor tomou um leve susto, e correu para ajudar a menina, segurando seus cabelos vermelhos. O velho olhou desconfiado, mas sem entender.
– Sua esposa não parece bem... – afirmou o velho.
– É claro que ela não está bem! – gritou Sandor. – Sua comida não a fez bem.
O velho se ofendeu, fechando a cara.
– Meus legumes são muito bem cultivados, senhor! Como pode ser tão ignorante? Não vê que isso são sintomas? – defendeu-se o idoso.
– Sintomas?
– Oras, claro! Ela acabou de comer e botou tudo para fora! – disse o homem como se fosse óbvio. – Está claro que ela está de barriga!
Sansa queria se intrometer na conversa, mas ao ouvir aquilo, vomitou mais ainda. Grávida? Do Cão?
Sandor, por outro lado, queria rir da teoria do velho homem.
– Prenha... claro. – apenas disse, tentando evitar a risada. Ele decidiu que já era hora do velho tomar seu caminho, e pegou alguns veados de prata de dentro de sua bolsa pendurada na cintura. — Tome, suas moedas. Siga seu caminho.
O homem pegou as moedas e colocou no bolso, mas antes que partisse, Sandor o pegou pelo colarinho.
– Você nunca nos viu! – ameaçou Sandor e o velho não se abalou, mas assentiu. Ele voltou para a carroça e seguiu caminho pela Estrada do Rei.
Sandor voltou para Sansa. Ela parou de vomitar, mas ele ainda segurava seus cabelos oleosos e desgrenhados. Encontrou pedaços de feno nos fios e retirou com cuidado. Ela não emitia som algum, nenhum choro, nem vômito, nem gritos ou gemidos. Ele soltou os cabelos dela, pegou um velho trapo que tinha em sua bolsa no cavalo e uma folha de hortelã e se ajoelhou ao lado dela. Sansa tinha o rosto endurecido e os olhos arregalados. Estava curvada, com os braços na barriga. Ela não pegou o trapo e ele limpou seus lábios sujos com delicadeza, como na vez que ele limpara seu sangue quando Sor Meryn a estapeou. Ela não se esquivou, mas também não se moveu.
– Sansa, vamos – Sandor nunca a chamava pelo nome e isso fez com que a menina o olhasse. – Vamos embora. Tem uma estalagem aqui perto, precisamos sair daqui.
Sandor tinha certa urgência na voz. Ele empurrou a folha de hortelã contra os lábios de Sansa, que aceitou. Ela não queria se mover. O homem se sentiu obrigado a tomá-la em seus braços, as pequeninas mãos de Sansa envolvendo seus ombros. Colocou-a sobre o cavalo, subindo atrás dela. Sansa olhou para o horizonte e ele sabia que ela estava triste, mas tentava ser forte. Tentava ser forte na frente dele. E, percebendo que ela não emitiria reação alguma por não confiar nele, pegou sua cabeça e deixou que a repousasse sobre seu peito.
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Cenas do Capítulo 9 (Favor ler como narrador de novela mexicana)
Sandor não sabia lidar com mulheres chorosas. A menina ruiva estava jogada no chão, chorando copiosamente, em frente à lareira. Ele não queria ter que consolá-la, mas ela estava sozinha e já não confiava nele. Se ele fugisse, ela teria motivos de sobra para nunca mais ter sua confiança.
Ele se aproximou dela, ajoelhando-se. Afagou o cabelo dela, afastando-o do rosto. Tomou-a em seus braços, levantando-a. A menina envolveu seus braços, e deitou seu rosto no pescoço dele, Sandor sentindo sua respiração e lágrimas. Ele se sentou na poltrona de frente à lareira, colocando-a em suas pernas, ajeitando-a em seu colo. Sandor nunca fora tão gentil assim com uma mulher. Mas Sansa não era uma mulher, era uma menina. Ele acariciou o rosto dela, sentindo-se seduzido. Ela tinha os olhos marejados, o rosto molhado.
Os olhos triste de Sansa se transformaram em olhos sedutores e ele se perguntou quando que ela se tornou tão mulher. Onde ela aprendera a fazer aquele olhar. E teve medo que a inocência de seu Passarinho, que tanto almejava proteger, estivesse escapando de seus dedos.
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