God of Mischief | Loki
34 Capítulo 31: Despedidas
Notas iniciais
Aquela manhã eu não perdi a hora. Costumava estar de pé as sete, mas aquele dia acordei duas horas antes. Por pura ansiedade apesar de que era algo claro e certo para mim. Era natural que fosse daquele jeito. Como poderia ser diferente? Hoje eu deixaria Midgard.
Tomei meu café, deixando os olhos passearem pela cozinha, ouvindo Jinggles ronronar enquanto eu esfregava o pé descalço na barriguinha gorda.
Tomei um longo banho quente. O inverno finalmente tinha chegado. Ele não deveria precisar de água quente. Me perguntei se já estaria de pé. Se já estaria lutando. Hoje eu acabaria com aquilo. De um jeito ou de outro. E isso me deixava confiante. Isso me deixava ansiosa.
Peguei minhas pulseiras e as coloquei em seus devidos lugares. Usava uma calça jeans escura e rasgada e uma camiseta de manga longa preta, com um cachecol vermelho me adornando o pescoço. O bracelete estava escondido pelo tecido. Eu trocaria de roupa novamente depois e, por hora, não precisava de mais do que isso. Me preocupei em escovar os cabelos e me maquiar. Uma vaidade boba que eu achava que tinha perdido. Mas o dia de hoje merecia um pouco mais de atenção. Eu iria o encontrar. Eu iria lutar. Eu tremia de ansiedade quase borrando o contorno dos olhos. Tanto tempo e hoje eu encerraria a distancia. Porque eu não podia ser contida.
Invoquei meu arco, num último teste. Eu o tinha tirado do carro no dia anterior para uma última checagem. Voou à perfeição, com todas suas flechas recarregadas e reparadas. O coloquei em uma mochila preta. Tony sabia o que eu faria e tinha me ajudado. Isso depois de surtar. Disse que me deserdaria. Desistiu disso apenas quando o lembrei de que para onde planejava ir, não precisaria de dólares. Por fim Pepper, que mal conseguia falar entre as lágrimas, disse que sempre haveria uma casa para mim. Que eu deveria fazer visitas se não a quisesse louca. Eu sempre teria para onde voltar. Eles eram minha família. E eu nunca poderia ser grata o bastante.
– Jarvis tranque a casa quando eu sair. – Dei minha última ordem. Esse pensamento me soava nostálgico e com um toque de morbidez.
– Claro, senhorita Stark – Confirmou. E pensar que meses atrás eu o teria corrigido por usar aquele sobrenome e não o correto. Mas Stark era tão correto quanto Schroeder. Eu sabia disso agora.
Eu era livre para usar o nome que quisesse. Era livre para ir aonde quisesse. Para estar com quem eu desejasse. E hoje mostraria isso a eles. A todos que haviam me prendido em correntes. Que nos tinham prendido em correntes. Físicas ou não. Hoje mostraria que não podíamos ser contidos. Hoje todos veriam que éramos livres. Éramos os únicos donos de nós mesmos. Livres.
Caminhei para a porta, jogando a mochila por sobre os ombros, e me deparei com uma bola preta de grandes olhos verdes me encarando acusadoramente. Me abaixei e o peguei pela barriga. Nunca havia sido uma opção o deixar para trás. Mas ele parecia temer, já que eu tinha estado ausente com frequência. Nas poucas vezes que Frigga havia voltado a Midgard para nos orientar, havia me garantido que Jinggles seria invisível em Valhala. Não era um lugar para animais de estimação e por tanto sequer o notariam.
O coloquei na bolsa de transporte, joguei a mochila por sobre os ombros e desci pelo elevador. O sol mal aquecia e o tempo estava nublado. Parecia refletir meu humor. Não demoraria a nevar. Iria de taxi ao prédio, já que não teria como trazer o carro de volta depois.
Assim que saí um agente veio ao meu encontro. Típico. Pelo menos hoje seria o último dia que eu os encontraria. Logo não precisaria mais ser vigiada. Logo não poderiam mais me vigiar.
– Bom dia, senhorita Schroeder. – Ele cumprimentou. Era um homem de meia idade, com grandes entradas nos cabelos e rugas que lhe davam um ar simpático. Tinha bonitos olhos azuis e um dos olhares mais gentis que via direcionado a mim nos últimos meses. Ele me fez sorrir. Merecia um prêmio por isso.
– Bom dia, agente...?
– Phillip. – Respondeu, olhando a caixinha do gato e assobiando baixo. Jinggles veio espreitar. Era o primeiro a me dizer seu nome e não apenas o sobrenome. – Me perdoe a indiscrição, mas a senhorita vai aonde com ele?
– Vou passar na torre para assinar uma papelada e depois veterinário. – Repeti o que tinha planejado. – Vacinas de rotina.
– Sim, tudo bem. E o carro? – Perguntou em dúvida.
– Ele fica agitado, preciso ficar dando atenção. Vou ter que ir de taxi. Pode me ajudar? – Questionei com minha expressão mais dócil. Ele estreitou os olhos para mim.
– Senhorita, podemos leva-la em um dos nossos carros.
– Ou podem seguir o taxi. – Rebati. – Como sempre. — Ele sorriu de um jeito que me deixou a vontade.
– Justo. – E então pressionou um pequeno comunicador que trazia a orelha. – Agente Hill, pode providenciar um taxi e deslocar uma escolta? Obrigado. – Disse num tom seguro, virando-se para Jinggles e acariciando a pontinha da orelha que aparecia para fora. Ele era um gato com bons instintos apesar de se vender por muito pouco. Mas se gostava do agente, ele ganhava um ponto a seu favor. O taxi chegou em minutos. Um milagre que apenas a S.H.I.E.L.D. poderia providenciar numa cidade como aquela. A escolta vinha logo atrás. Phillip abriu a porta do carro e me ajudou a acomodar a bolsa a meu lado. Era um homem tão gentil quanto eu tinha suposto. – Bom dia, senhorita.
– Para você também, agente. – Respondi com toda boa vontade que pude reunir, apesar de saber que após meu sumiço o dia dele se tornaria num caos.
Em pouco tempo estava em frente ao edifício. Parecia que alguma coisa viva se enroscava em meu estômago. Um agente da escolta veio abrir a porta, mas foi rechaçado por um olhar de Banner que me vira chegando. Ele abriu a porta para mim. Paguei o taxista e sai com um sorriso grato a ele.
– Pronta? – O cientista me questionou com um meio sorriso. Sorri em resposta. Era óbvio. Estava apenas nervosa e ansiosa, mas, sem dúvida, pronta.
– Steve vem? – Me ouvi perguntar. Ele não me constrangeu com nenhum olhar acusador. Eu era infinitamente grata por ser um homem tão discreto. Era apenas curiosidade. Não queria ir embora ainda brigada com ele.
– Ahn... não. – Falou me olhando de lado, com a cabeça meio inclinada. – Desculpe, mas parece que é um pouco demais para ele. Mas ainda assim me pediu que cuidasse de você. E que socasse a cara de Loki se tivesse chance. – Confidenciou. Aquilo me fez franzir as sobrancelhas, penalizada. Era um tolo adorável.
Chegamos ao andar da pesquisa. Assim que entrei me deparei com todos a nossa espera. Quase todos. Darcy, Ian e Selvig não podiam se complicar com a S.H.I.E.L.D. e por isso não estariam ali. Na verdade estavam em um Congresso de Ética e Ciência debatendo sobre como seria antiético por em teste uma abertura espaço temporal artificial sem as devidas precauções e sem informar as autoridades. Era um bom álibi. Os outros não precisavam de nada assim, por serem heróis nacionais ou apenas porque estariam longe demais para serem punidos.
Thor ria de alguma coisa que Tony, em sua armadura sem máscara, havia dito. Jane e Pepper conversavam olhando cálculos. Frigga e Haya estavam olhando pela janela e pareciam falar algo sobre as construções. Todos se viraram ao ouvir a porta abrir.
O sorriso da harpia chegou a seus olhos, quando ela atravessou a sala com uma batida suave das enormes asas, fazendo algumas folhas de anotações voarem ao redor. Nos abraçamos sem trocar nenhuma palavra.
– Achei que estivesse morta, minha senhora. – Falou daquele seu jeito formal.
– Já percebeu que tem a tendência a achar que vou morrer e isso nunca acontece? – Questionei bem humorada.
– Então ficaria feliz se disser que acho que vai morrer hoje? – Perguntou de um jeito doce. Um arrepio me percorreu a espinha antes de sorrir.
– Muito mesmo! – Comentei num tom que pretendia tranquilo. Minha voz soou uma oitava mais aguda. Para meu choque ela afastou o bico do rosto, com um sorriso que estava oculto. Riu diante da minha expressão. Eu sempre tinha achado que aquela coisa era fixa, como parte da anatomia dela. Agora via que era um tipo de arma. A harpia tinha um rosto muito delicado que combinava com os olhos afiados. Como eu nunca havia reparado na beleza de Haya? Era exótica e chamativa. Com sorte teria muito tempo para poder descobrir mais sobre ela e sobre sua origem e seu povo. Agora tínhamos coisas muito mais imediatas e eu não podia me permitir ficar emotiva. Sabia que precisava de calma, mas a pressa começava a ferver em mim. – Os outros?
– Nos encontrarão em Valhala. – Me informou. Assenti e virei-me para Frigga por fim, após soltar um gato impaciente da caixa de transporte.
A mulher me olhou com olhos firmes. E naquele instante não havia mais suavidade em mim. Na verdade acho que nunca tinha havido. Eu estava apenas tentando me convencer de uma tranquilidade e calma que não tinha. Tentando não surtar. Estava nervosa e agitada. Estava ansiosa e com medo. Poderíamos morrer hoje. Poderia morrer sem nem sequer o ver. O que quer que acontecesse hoje seria definitivo. E minha máscara de calma veio por terra. Eu estava apavorada. Frigga havia me detalhado diversas vezes como era aquele lugar. Como funcionava. Eu o entendia a fundo agora. Perguntei por que não poderíamos ir à noite. Durante as festas, sem o risco de sermos atacadas. A resposta havia sido tão breve que não havia porque discutir. Se fossemos a noite, Skeggjold nos notaria de imediato. Sua lança atravessaria minha garganta assim que Loki pusesse os olhos em mim. De dia as chances de morrer em um pouco menores. Um pouco apenas. Estávamos brincando com o futuro.
Por isso os Avengers foram chamados. Precisaríamos de toda ajuda. Eles aceitaram de imediato. Acho que Pepper mataria Tony se ele cogitasse recusar. Banner insistia em uma dívida de gratidão comigo. Thor iria de qualquer jeito. Quanto a Steve... seria demais pedir seu apoio agora. Ele sabia pelos outros o que faríamos. Se quisesse poderia ter vindo. Eu não o culpava. Frigga tinha me avisado que não precisaríamos esperar por ele.
–Odin? – Questionei.
– Acha que estou com Freya. – Afirmou. Tony deu uma risadinha e todos se voltaram para o olhar.
– O marido sempre é o ultimo a saber! – Afirmou com a expressão de inocência mais fingida do mundo.
– E é melhor que seja assim. – Pepper rebateu, o que deu a Tony a expressão mais indignada do mundo, fazendo todos rirem. Para minha surpresa mesmo eu e Frigga rimos.
– Que repassar tudo, mãe? – Thor interpelou trazendo a seriedade de volta a conversa. Ela assentiu e começou a falar.
– Heimdall não pode transportar Liana sem ser acusado de alta traição. – Explicou aos outros. Eu já sabia de tudo aquilo de tanto que havíamos repassado o plano. — Jane vai abrir o portal, como combinamos. Haya vai ser a primeira a passar. Invocar o exército e retroceder para avisar que temos caminho aberto. Ela será a escolta de Liana. – Afirmou. Eu e a harpia assentimos em entendimento. Pepper se enroscou em meu braço apoiando a cabeça em meu ombro. Chorava em silêncio. Precisei piscar várias vezes, encostando minha cabeça à dela. Não havia tristeza em mim. Havia... eu não sei. – Achem Loki e voltem à entrada. Deem o sinal e segurem firme até que voltemos. Então ativamos o portal e saímos.
– Eu e o verdão podemos manter a briga na entrada para que elas possam circular mais fácil. – Tony ofereceu solícito. Era exatamente o que tínhamos em mente, mas era ótimo que estivessem pegando o espírito da coisa. Adversários como eles chamariam atenção e desviariam muito do foco dos guerreiros. O que, em teoria, abria caminho. Todos concordamos.
– Thor e eu, vamos cuidar das Valquírias. Ou de tantas quanto pudermos. – Frigga continuou. – Se por acaso encontrarem alguma delas, ajoelhem e larguem as armas. Não as testem. – Falou olhando fixamente para Bruce. Ele deu um sorriso constrangido e assentiu.
– Tecnicamente eu não tenho como largar as armas. – Tony falou olhando ao redor com uma expressão um tanto quanto cínica.
– Elas entenderão isso. – A deusa garantiu sem maiores preocupações. – Mas vamos esperar que consigamos mantê-las longe de todos.– Concluiu. Um nome não havia sido citado. Um nome que preocupava a todos.
– Jane. – Chamei sua atenção. Ela assentiu. Parecia levemente assustada.
– Tudo bem. Eu consigo. – Falou numa voz fininha. Dependeríamos dela para nos tirar da Valhala. Se algo acontecesse a Jane estaríamos perdidos. E ela era quase indefesa.
Frigga com um gesto da mão fez com que a roupa da cientista fosse substituída de seu vestidinho de lã e meia calça para um vestido azul marinho até os joelhos, sobreposto a uma calça de couro preta e finalizado por uma armadura prateada completa por cima de tudo. Cada ponto vital coberto e protegido. Uma espada fina pendia de sua cintura. Tony soltou um assobio longo. A deusa se aproximou e segurou a mão da morena. A levou ao próprio pescoço. A mulher a olhava insegura.
– Se precisar se defender, espete aqui. – Indicou o espaço exato. — Toda armadura tem fenda no pescoço para mobilidade, mesmo com capacete a fenda fornece um bom espaço. – Explicou com calma. Como uma mãe faria. Ela a ouvia como se cada sílaba pudesse ajudar. Como quem recebe dicas antes de uma prova. – Atrás dos joelhos, vai achar outra fenda. É um bom lugar para incapacitar, se não conseguir matar no primeiro golpe. Não ataque a esmo, procure o ponto certo porque não pode se alongar numa luta. Não grite ou vai chamar atenção. Recue contra a parede. Não deixe as costas expostas. Se esconda e ataque apenas como defesa. – Jane assentia nervosamente. Ela devia achar um lugar onde se proteger e esperar o sinal. Esperávamos que não precisasse seguir nenhuma orientação além de se esconder. A deusa sorriu com bondade a olhando nos olhos. – Você vai conseguir querida.
– Vai ficar tudo bem. – Thor afirmou a beijando na testa. Tive a impressão de ouvir algo como um ‘’oown’’ vindo da direção de Tony.
– Acredite, eu chamo muita atenção. Ninguém vai notar você. – Banner falou com um sorriso constrangido, tentando animar. Ela conseguiu um sorriso fraco.
A deusa enfim se virou para mim. Sorriu com doçura para Pepper. A ruiva esfregou o dorso da mão no rosto ocultando as lágrimas enquanto se afastava. Preferi não a olhar.
– Minha menina. – Falou com tamanho carinho que eu poderia a abraçar. Era uma mulher de olhar firme e caráter justo e forte, mas ainda assim uma pessoa muito gentil e amável. – O destino muda conforme as escolhas das pessoas mudam. Eu tinha visto outras possibilidades para você. Uma vida longa em Midgard. Mas parece que sua escolha foi tão somente sua, que não pude ver que seguiria meu filho. Não até o fim. Nunca vou ser capaz de agradecer. Nunca. Deixe-me ver seus olhos. – Pediu. Eu instintivamente os mantinha baixos sempre que olhava para ela. Devia ter algo a ver com a Benção. Era natural me proteger.
– Eu prefiro não saber. – Afirmei baixinho. Ela sorriu com bondade. Frigga costumava respeitar decisões. Decisões mudavam destinos. Por menor que fossem.
– Vamos jantar juntas hoje. – Me confortou. – Jane pode começar a prepara as coisas? – Pediu. A morena assentiu e se dirigiu a enorme máquina nos fundos do salão. Jinggles estava deitado bem no centro, de forma que ela precisou o empurrar para o lado.
As conversas lentamente reiniciaram. Pepper parecia um pouco mais tranquila agora e isso me deixava muito mais feliz. Tamborilei os dedos na bancada distraidamente.
– Pode vir aqui querida? – Frigga pediu me chamando a um canto. – Preciso vestir você. – Informou, enquanto eu a seguia. – Você fica bem de vermelho. – Comentou mexendo em meu cachecol. Em seguida sua voz baixou para um sussurro. – Seja rápida. O que vi para Jane é ambíguo.
– Eu serei. – Devolvi no mesmo tom. E então subi a voz. – Eu gosto de vermelho.
– O encontre e volte depressa. Quanto mais rápido melhor. – Sussurrou com uma expressão de alerta. Então trouxe sua voz de volta ao normal. – Vamos ver o que acha.
– Vou conseguir. Ela vai ter alguém escondido por perto não vai? – Questionei naquele tom discreto. A deusa assentiu. Jane não saberia disso. As pessoas tendem a confiar demais nas outras e não podíamos nos dar ao luxo de permitir que ela cometesse esse erro. Ela precisava se esconder e se proteger com toda dedicação. Precisava acreditar que estaria de fato sozinha. Seu empenho precisava ser total, caso sua guarda falhasse.
– Obrigada por tudo. – Frigga agradeceu me chamando de volta do meu devaneio. Parecia preocupada, movendo as mãos num floreio, um vestido vermelho surgindo sobre meu corpo. Era longo e sem graça. – Tudo que você fez... Você é mais do que eu poderia desejar a ele.
– Obrigada. De verdade. – Respondi em um tom alto, sorrindo. Todos poderiam julgar que eu falava do vestido. Devia estar tão vermelha quanto ele. Era estranho que eu ainda soubesse corar.
– Não combina com você... – Afirmou alto, trocando meu vestido por um muito curto e decotado.
– Nem pensar! – Tony gritou do outro lado do laboratório. Nós rimos, enquanto ele voltava sua atenção a Thor que desenhava um mapa da Valhala em um papel.
– Se acontecer algo. O tire de lá a qualquer custo. – Voltei a sussurrar. A deusa sorriu.
– Eu sei. – Ela disse num tom alto, mexendo no tecido. Sua voz desceu vertiginosamente. – Ele é meu filho. – Garantiu com suavidade. Ela jamais o abandonaria. Poderíamos todos tombar em batalha, mas ela tiraria seus meninos de lá. – Assim como vocês duas. – Aquilo me fez sorrir. Eu a teria abraçado naquele instante se ela por fim não tivesse achado a roupa de batalha ideal.
Um vestido vermelho e justo na cintura, com um decote quadrado pequeno, mas bonito. Tinha mangas curtas até os cotovelos e era todo decorado em arabescos com a minha ave em um dourado suave. Por baixo uma calça de couro preta como a de Jane ocultava as pernas que o tecido expunha a partir dos joelhos. Uma armadura dourada e simples se sobrepunha ao abdome e ao braço do arco. Peguei minha mochila preta e tirei a de metal, que se dividiu em arco e aljava. Fiz alguns movimentos para testar minha mobilidade e tudo parecia em ordem. Sorri grata para ela.
– Tony, você trouxe a fonte de energia? – Jane se virou perguntando alto para meu irmão, chamando nossa atenção. Ele fez a expressão mais culpada do mundo. Reviramos os olhos, impacientes.
– Já volto. – Falou saindo pela porta, a armadura retinindo. Típico. Se Pepper não o lembrasse ele não devia nem comer. Frigga sentou-se ao lado dela. Ambas engataram algum assunto qualquer quase que imediatamente.
Me aproximei da máquina e vi Jane e Bruce verificando cálculos e mexendo aparelhagens, além de consultarem painéis. A mulher me viu os observando e veio para perto de mim. Segurou minhas mãos. Eu via alegria, ansiedade e vislumbres de medo nos olhos dela. Sabia que ela via obstinação e nervosismo em mim. O medo eu havia empurrado para algum canto discreto.
Finalmente sua pesquisa concluída. Por um interesse particular meu. Talvez ela nunca pudesse ir a congressos científicos ou nunca ganhasse um Nobel por aquele trabalho. Mas ganharia o direito de ter Thor a seu alcance. E isso parecia bastar a ela. Sorri nervosamente. Éramos duas loucas
– Não vamos parar em alguma terra desconhecida não é? – Indaguei me lembrando de Lugar Nenhum. Certamente deviam existir lugares como aquele aos montes. Ela sorriu confiante.
– Pode ter certeza que não. – Me garantiu. — Teria levado muito mais do que eu tinha pensado inicialmente para conseguir a precisão desses mapas e dos cálculos que Frigga me trouxe. Isso é... fantástico. – Falou desviando os olhos para disfarçar a emoção que sentia. Eu a abracei.
– Quando chegarmos a Asgard as coisas estarão entregues nas mãos de Frigga. Não sabemos como Odin vai reagir. – Sussurrava para ela que assentiu brevemente. – Se a coisa sair do controle... Se algo der errado. Siga seus instintos. Abra o portal e salve sua pele.
– Liana, você não é a única que tem alguém em Asgard. – Me lembrou olhando com doçura e se afastando. – Quando comecei a pesquisa era apenas por mim... pela minha ciência. Mas depois do Novo México... depois de ficar tanto tempo sem saber de nada... Eu entendo você. – Disse com um sorriso. — Não estou fazendo um favor. Eu também quero ir. Não existem outras opções boas o bastante não é? – Interpelou, voltando os olhos para o cientista que mostrava valores que, para mim, pareciam incompreensíveis. Ela assentiu confirmando qualquer coisa que não ouvi. Aquilo me deu tempo de enxugar uma lágrima sem que ela visse.
– Mesmo assim obrigada... – Agradeci no instante em que Tony retrocedia ao laboratório. A morena sorriu abaixando os olhos, corada.
– Achei que tivesse fugido apavorado, meu amigo. – Thor o alfinetou com um sorriso falando daquele seu jeito meio pomposo.
– Eu nunca fugiria de uma boa festa, Shakespeare. – Rebateu passando por ele com um sorriso irônico. – Eu só precisava ir ao banheiro. Tem noção de como seria ruim se eu precisasse ir enquanto estivesse no nosso passeio? – Questionou enquanto o loiro ria de pura descrença. Meu irmão alcançou a Jane o que ela havia pedido. Um reator Arc parecido com os que ativavam a armadura. A cientista assentiu em agradecimento e colocou a única parte faltante na enorme máquina. Provavelmente ela tinha planejado provocar um pequeno e discreto apagão em alguma cidade, antes de receber nosso patrocínio.
Aquela coisa me lembrava um pouco a própria Bifrost. No centro uma grande plataforma de metal circular, onde deveríamos subir. Jane conectou o reator ao centro daquilo. Ao redor havia quatro largas pilastras onde luzes agora, acendiam e apagavam em todas as setes cores do arco-íris. Um zumbido muito baixo escapava daquela coisa.
– Ai se não fosse a filantropia... – Tony falou tamborilando os dedos de metal numa bancada. Eu ri e o abracei com armadura e tudo. Acho que ele não esperava. – Ah tá... tudo bem... Vamos logo, você ainda quer ir atrás da rena que jogou seu irmão pela janela. Que péssima irmã você é! Eu devia arranjar outra!
– Vai ficar emotivo? – Perguntei imitando seu tom de voz, sorrindo para ele.
– Jamais! Eu tenho uma reputação a proteger! – Respondeu num tom artificial, desviando os olhos para Peps que sorria. Ele se afastou de mim, não sem antes beijar minha testa, um sorriso fraco em seu rosto.
Não havia mais nada pelo que esperar. Tudo estava como e onde deveria estar. E logo ele também estaria. Jane ligou a transportadora que se acendeu completa e gradativamente. Suas luzes incidiam sobre o centro de metal com tanta intensidade que tudo que víamos era o ponto de convergência iluminado. Todos observamos por um segundo. Era possível ouvir gritos e risos. Era possível ouvir o retinir de armas. Tudo muito abafado, mas perfeitamente audível. Eu sorri. Senti o medo me percorrer num calafrio. Ele estava ali, do outro lado. O sorriso se ampliou em meu rosto.
Haya se adiantou sem hesitar, colocando no chão Jinggles que havia se isolado em seu colo depois de ser expulso da máquina. O gato veio se enroscar em meus pés. A mulher trouxe o bico curvo para diante da boca de lábios finos. Ele se fixava sozinho, com bastante firmeza. Agora, olhando com atenção, eu podia imaginar como aquilo direcionava sua voz. Ao mesmo tempo em que devia ser afiado, embora aparentasse não ser metálico e sim de algum material orgânico. A harpia fez uma breve reverência a mim e a Frigga. A olhei com firmeza. Mil palavras ditas ali. E em seguida subiu na plataforma sendo envolvida pela luz e desaparecendo. Silêncio.
Não nos atrevíamos a falar embora Peps tivesse se enroscado novamente em meu braço. Tudo que ouvíamos eram os sons de batalha comuns. Nenhum ruído de Haya. Nada. Fechei os olhos com força. Jane segurou minha mão livre. Tremia. Não sei se ela ou eu.
Após longos minutos começamos a nos entreolhar incertos. Não podia ter dado errado. O que poderia ter acontecido a Haya? Estaria viva? Teria sido fatiada por aquela experiência? Jane soltou minha mão e foi à máquina. Ela e Bruce olhavam valores e anotações. Resmungavam agitados. E então um grito como de mil almas invadiu nossos tímpanos, atordoando apenas momentaneamente devido ao abafamento que a distancia causava. O alivio se espalhou por nossos rostos.
Alguns longos minutos se passaram e por fim Haya voltou para nosso lado. O sorriso chegando aos olhos. Jane começou a rir e chorar ao mesmo tempo. Thor ria a abraçando. Bruce a parabenizou com um sorriso. A alegria dela se espalhou por nós. Sua pesquisa funcionava. Com ajuda externa, verdade, mas todo seu trabalho era real. A parabenizamos brevemente. Agora tínhamos algo maior a caminho.
– Como está o outro lado? – Frigga perguntou.
– O caos que esperávamos. Os soldados já estão colocando todos os guerreiros para fora do palácio, mas são muitos e pode ser que não deem conta. De qualquer forma podemos passar quando quiserem. – Explicou, estalando os dedos que eram adornados com afiados anéis pontiagudos. Como garras de águia. Aquilo devia cortar como bisturis.
– Quem vai primeiro? – Perguntei, puxando uma flecha e a colocando no arco, sem o armar. Frigga e Thor se adiantaram. Ele envolvia Jane pela cintura, num gesto protetor. A mulher pegou um aparelho do tamanho de uma caixa de bombons e o segurou com firmeza. Aquilo ativaria o portal por dentro e reprogramaria o local de saída, já que quando todos passassem Pepper deveria desligar e garantir que nada de lá resolvesse passear. Os três assentiram e atravessaram sem dizerem mais nada. Não havia o que ser dito. Eu sentia minhas mãos tremendo. Esperamos alguns minutos passarem, os sons se distanciando.
Banner desabotoou a camisa com calma, tirou o relógio de pulso e os sapatos sociais. Tony levantou uma sobrancelha, antes de beijar a testa de Pepper e permitir que a máscara descesse sobre seu rosto.
– Me espera para jantar? – Meu irmão perguntou a ela em um tom tranquilizador. Peps apenas assentiu, tentando sorrir e conseguindo um esgar.
– Vou esperar vocês dois. – Soluçou baixinho para ele e Banner. – E você vai levar a Anong.
– Posso buscar ela em casa. – O cientista concordou com um sorriso gentil, no mesmo tom de Tony. E dito isso atravessou.
– Olha eu chegando atrasado! – Tony exclamou correndo atrás dele. Um rugido se fez ouvir após longos minutos. Me sentei ao lado de Pepper, segurando sua mão enquanto aguardava minha vez. Haya se sentou perto da janela as longas asas apertadas contra o vidro.
– Minha senhora? – Chamou, nos fazendo voltar os olhos para ela. – O felino?
– Ele estava... – Comecei olhando ao redor. Merda. Me levantei e dei a volta na bancada. Ergui os olhos para ela, completamente alarmada. Meu gatinho tinha passado sozinho.
– Vai ficar bem. – Ela disse simplesmente. Minha preocupação era o achar antes de dar o fora de lá. Eu devia tê-lo deixado fechado na bolsa, mas algo poderia acontecer. Agora não tinha ideia de onde estava. Maravilha. Era tudo que eu queria. – Vamos? – Chamou me trazendo de volta a realidade. E fazendo Peps soltar um ganido baixo. Senti meu coração se encolher ao tamanho de uma ervilha. A abracei me permitindo chorar. Haya desviou atenção para a janela.
– Eu volto... eu venho visitar...
– E se você... não puder? – Questionou expondo o mesmo medo que eu tinha. Achei força para rir dela, uma risada fungada.
– Quando foi a última vez que me viu obedecendo alguém? – Rebati com alguma firmeza a fazendo rir em arquejos.
– Teimosa... Desde o primeiro dia...
– Ah pare... minha maquiagem não é à prova d’água. – Afirmei rindo. Beijei-lhe a testa. Não podia me alongar ali. Não podia me deixar ferir assim. Ele estava do outro lado. Eu voltaria. Enlouqueceria se ficasse. A noite ela teria companhia para a consolar.
Trocamos um último olhar e um sorriso, então segurei a mão de Haya, com cuidado por causa dos anéis.
– Vamos – Chamei confiante. Muito mais do que me sentia de fato. Mas ele estava ali. Quase ao meu alcance. O som de um raio chegou aos nossos ouvidos. Nos entreolhamos apreensivas. Valquírias.
Haya não me permitiu dar um último olhar a Peps. Provavelmente era melhor assim. Aquilo já a deixava em frangalhos e eu precisava de concentração. Eu estava fazendo aquilo por ele. Eu não falharia. Não vacilaria. Hoje à noite eu dormiria nos braços de Loki. Hoje tudo ficaria como devia ser. E assim fui puxada pela harpia, atravessando o portal.
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