God of Mischief | Loki
35 Capítulo Final: O Voo da Fênix
Notas iniciais

Atravessar pelo experimento de Jane não era exatamente tranquilo. A sensação não era de passar pela Bifrost. Era de ser jogada num moedor de carne. Sentia meus ossos sendo comprimidos e depois distendidos como se fossem de látex. O sangue pulsava contra os tímpanos, tornando a pressão em minha cabeça um inferno. A pele parecia coberta de algo áspero como areia. Minha boca tinha gosto de bile. E tão rápido como essas sensações surgiram, desapareceram.
Cambaleei com o impacto da chegada, enquanto o portal se fechava às nossas costas. Haya me segurou para que eu não caísse. Mal tive tempo de me virar para ela e um homem desabou diante de mim. O pescoço aberto em várias linhas finas feitas pelos anéis da harpia. Para meu choque ele se sentou e sorriu. Assentiu para ela e se retirou.
Deixei meus olhos registrarem o lugar. Estávamos em um grande salão. Tudo que tive tempo de ver se resumia as longas mesas paralelas, um grande teto abobadado e castiçais por todo local.
Soldados lutavam por todos os lados. Era muito simples diferenciar os nossos dos inimigos. Eles pareciam estar encobertos por uma névoa, pouco sólidos, mas muito mortais. Os nossos eram de muitas raças distintas e estranhas. Atacavam aparentemente sem técnica, mas pareciam dar conta do recado.
Os homens e criaturas portavam clavas, machados de guerra, espadas dos mais diversos tipos, lanças, bestas e arcos, mas também traziam, arados, foices, facões, tesouras de poda e até mesmo espetos de carne. Eu não queria sequer imaginar como aquelas coisas podiam matar. Mas o cheiro de morte invadia minhas narinas, misturado ao suor e ao odor acre de sangue. Aquele cheiro vinha dos meus soldados. Eles estavam sendo abatidos.
– Vem, depressa! – Haya me chamou. A segui de perto, sem precisar disparar uma única flecha. Ela matava qualquer soldado espectral que entrasse em nosso caminho. Eu ouvia gritos de morte e o de espectros chocando suas armas contra escudos de diversos tamanhos, em incentivo e desafio. Meus soldados morriam por mim. Morriam por Loki. E por uma divida de gratidão, era eu quem lhes tomava a vida.
Ao longe vi uma criatura vermelha como as que havia visto em Musphelheim, tombar. Senti meu estômago embrulhar. Um pouco mais adiante um rapaz lutava. Parecia um camarão gigante. E eu o conhecia. Ele tinha me dado uma semente de Yggdrasil. Ele tinha salvado minha vida. Uma mulher jovem o atingiria pelas costas com um grande machado duplo, enquanto ele lutava com outra a sua frente. Aquilo me fez parar.
Armei o arco, sentindo o esforço dos músculos, a respiração hesitar no pulmão. E então disparei. Instintivo. Sem sentir, nem pensar. A seta voou certeira, se cravando acima do quadril, sendo seguida de perto pela segunda que a atingiu no lado esquerdo do corpo na altura do peito, atravessando a cota de malha com um estalo. A mulher desabou ao mesmo tempo em que o menino camarão derrotava sua adversária. Ele se virou surpreso com o som dela caindo. Seguiu com os olhos o provável caminho que a flecha fizera e por fim me viu. Aquilo devia ser um sorriso. Minhas flechas retornaram, enquanto as mulheres reverenciaram e escolhiam outros adversários. O Camarão ergueu uma clava acima da cabeça e um grito grave chegou aos meus ouvidos. Instintivamente ergui o arco gritando a plenos pulmões. Um grito sem palavras. Apenas um urro que soava gutural e chamava atenção. Haya ergueu uma das mãos com anéis afiados e gritou também em seu tom agudo. Apenas um grito, não uma canção. Um grito de guerra.
Os olhos de guerreiros se voltaram a nós. Armas se ergueram no ar. Gritos em diversos timbres. Armas retumbando contra escudos. Pés batendo no chão. Éramos antes de tudo um assalto sonoro. E o som deles era por mim. Era gratidão. E pela gratidão deles deixei minhas flechas voarem.
O som de trovões era bastante audível, enquanto eu avançava com Haya. Era abafado pelos sons de urros tão altos que faziam o chão tremer. E ressoava em uníssono com os disparos da armadura de Tony. Precisávamos chegar lá fora, nos campos aonde eles lutavam. Meus olhos encontraram os amarelos e astutos da harpia. Enfiei o arco de qualquer jeito na aljava, em meio às flechas. Passei os braços ao redor do pescoço dela e as pernas por sua cintura, como se fosse uma mochila. A mulher abriu as asas, as juntas visíveis, por uma fresta da armadura. Eu sentia a musculatura retrair, quando as asas se fechavam com penas roçando meu corpo, enquanto ela subia para perto do teto, nos facilitando passagem. Dali eu podia ver todo o salão. Nosso problema era um só. Os espectros não morriam. Seus números nunca diminuíam. Eles nunca cansavam. Aquilo era uma luta que teria baixas apenas de um lado. Precisávamos sair dali depressa. Éramos muito numerosos, muito mais do que eu tinha pensado. Só podia deduzir que não havia apenas aqueles a quem eu tinha socorrido. Suas famílias estavam ali, assim como seus amigos. Eu precisava ser rápida. Cada minuto eram vidas que se perdiam pela honra e gratidão.
Com esse pensamento Haya, passou pelo grande portal nos trazendo aos campos. O verde da grama não era visível. A neve cobria tudo com seu manto branco e gélido. Estava pisoteada em vários pontos, em outros manchas e salpicos de sangue ladeavam cadáveres. Armas caídas inertes. Via muito ao longe raios caindo, me indicando onde certamente Frigga e Thor tinham trabalho com Valquírias. Hulk socando tudo que podia atingir era visível ao lado de Tony que atirava para todos os lados e às vezes socorria algum soldado em apuros. Me questionei sobre onde Jane estaria escondida. Precisava confiar que ela poderia se proteger sozinha.
Minha prioridade era outra. Eu mal controlava minha ansiedade e a adrenalina pouco ajudava. Haya pousou comigo alguns metros afastada do caos que rodeava o Iron Man e seu assecla verde. Precisei de três flechas para parar o homem que subia a colina nevada. Minha pele estava arrepiada, não sabia se pelo frio ou pela expectativa. Começamos a avançar, pelo enorme campo. Haya voava cerca de cinco metros acima de mim de onde podia prevenir ataques, embora ficasse muito visível. Às vezes eu atacava alguém que vinha em nossa direção ou que disparasse flechas contra ela. Quando precisava ajudava algum soldado, derrubando seu oponente de longe.
Podia perceber que estávamos tomando uma direção perigosa justamente porque ouvíamos os raios de Thor cada vez mais altos o que significava que as Valquírias estariam naquela direção. O que significava que Loki estava naquela direção. Pelo menos era o que eu achava. Por que outro motivo elas guardariam aquele caminho?
Haya desceu sobre uma mulher que vinha com um florete em mãos, dilacerando-lhe o pescoço com o afiado bico. Eu não a vi chegar. Estava olhando desnorteada ao redor em busca dele. Aquilo poderia ter me custado a vida. Mal consegui assentir em gratidão.
– Minha senhora, deveríamos passar por entre as árvores. – Indicou um fragmento de mata bastante afastado, mas que visivelmente ladeava as colinas. Ali poderíamos nos ocultar das Valquírias e passar adiante. No entanto, Haya não poderia voar. E eu não poderia antecipar ataques de longes. Pensei por alguns segundos, enquanto ela matava alguns soldados. Olhei com atenção para a mata. Então a vi com seu capuz preto, um sorriso convidativo fazendo meu estômago dar um mortal. A Morte esperava a entrada da mata. Aquele caminho não era opção.
– Vamos continuar por aqui. – Decidi firme. Não tinha tempo para explicar qual a base da minha decisão, mas sabia que a harpia me ouviria. Precisaríamos passar pelas malditas guardiãs.
Avançamos em meio à neve, meus pés afundando onde estava mais alta. Eu podia ouvir os gritos e raios ecoando cada vez mais perto. Era capaz de vê-los no céu.
Um homem do tamanho de um urso e vestido com as peles brancas de um surgiu em meio à neve, exatamente a minha frente. Não tive tempo sequer de gritar, antes que ele me golpeasse com um soco. Eu caí no chão, o arco alguns metros à frente. Ele estivera camuflado e não fosse Haya eu estaria mais do que morta. A Morte riu ao meu ouvido me sobressaltando. Estava esperando que ele baixasse a clava. E então Haya cantou.
Senti minhas entranhas se liquefazerem, enquanto fiz a única coisa que podia. Gritar. Tentei tapar os ouvidos quando aquele som do inferno ameaçou me deixar louca. Ela nunca tinha cantado daquela maneira. Eu não a ouvia apenas com os ouvidos. A sentia reverberar, em meu coração, mãos, nervos, cérebro. Aquilo estava em toda parte. Eu queria que parasse. Quando pensei que fosse desejar a morte, o silêncio me envolveu.
Só então percebi que estava enrolada no chão, tremendo, o rosto e cabelos encharcados de suor e neve. Precisava controlar a náusea ou vomitaria. Não tinha forças para nada. Qualquer um poderia fazer o que quisesse comigo. Vi pelo canto dos olhos Haya dilacerando o pescoço do homem. Após alguns segundos caído, ele se levantou a reverenciou e saiu. A harpia se jogou sobre mim, me puxando do chão de qualquer jeito.
– Senhora! Senhora Liana! – Chamava apavorada apertando meu rosto nas mãos. – Me desculpe, por favor, ele era grande precisei de muito fôlego. Senhora, por favor, fale comigo. – Eu gemi baixo, meus olhos tentando focalizar. Haya olhava ao redor, apavorada que alguém pudesse vir. Eu sabia que precisava me levantar. Mas os músculos não pareciam entender. – Pharos! Irmão! Ajude aqui! – Ela gritou alto.
Um homem de enormes asas castanhas e olhos tão amarelos quanto os dela, pousou ao seu lado. Se Haya já era alta, ele era enorme. Me pegou dos braços da mulher como se eu fosse feita de pano. E eu me sentia dessa forma. Abriu meus olhos com delicadeza, apesar de usar os mesmos anéis de garra.
– Você lesionou o sistema nervoso dela? – Questionou agitado.
– Não! Eu cantei, mas ela estava perto demais. Se não cantasse o guerreiro a teria matado! Mas não fiz para lesionar. Só atordoar. – Respondeu acariciando meus cabelos. O homem chamado Pharos remexeu com uma das mãos nas vestes e puxou uma seringa com um liquido roxo. A harpia se apressou a tirar as coisas da mão dele e espetou a seringa no frasco a enchendo com o liquido. Suas mãos tremiam. Ele a pegou de volta, tinha mãos firmes e se realmente iam espetar aquela coisa em mim, eu preferia que fosse ele.
Não cheguei nem ao menos a sentir a agulha. Isso porque me senti amolecer ainda mais como se isso fosse possível. Eu devia estar me desintegrando. Derretendo, ou algo assim. E então tudo voltou ao foco.
Haya chorando nervosamente, olhando ao redor. Ninguém parecia estar vindo. Agora eu podia focalizar bem o rosto do homem. Era muito parecido com ela, os mesmos cabelos de degradê entre penas e fios. Tinha um rosto forte que combinava com o olhar.
– Senhora? – Ele chamou num tom gentil. Ergui um polegar num gesto afirmativo. Estava viva, apenas meio fraca. Aquilo fez a harpia rir nervosa. Ele fez coro a ela numa risada melodiosa. Pharos me ajudou a sentar. O arco veio a mim, com um gesto em sua direção. Apoiei a cabeça nas mãos. A sensação de peso estava passando.
– Perdão senhora. – Ela pediu, segurando minha mão. Balancei-a dispensando as desculpas. A guerreira fez o que julgou necessário e salvou minha vida.
– O que foi que injetaram? – Perguntei numa voz enrolada.
– Intensificador neuronal. Em resumo ele traz seu cérebro de volta. – Explicou de um jeito bem humorado. Eu assenti compreendendo. Era óbvio o motivo de carregarem aquilo. Tentei me por de pé e então pude ver o motivo de tanta tranquilidade. Dúzias de harpias em armaduras guardavam o perímetro nos garantindo segurança. Eles deviam ter sido atraídos pelo som de Haya.
– Pharos, pode levar seus homens ao interior do palácio? Eles precisam muito de ajuda lá. – Pedi, minha voz quase abafada pelo som de um raio no campo.
– Irmã? – Questionou Haya. Era estranho imaginar que ela tinha um irmão. E mais ainda que ele precisasse de permissão dela para algo. Eu realmente sabia pouco dela. A harpia assentiu concordando. Ele bateu continência e com um chamado baixo todos levantaram voo.
– Pharos! – Gritei do chão. Ele abaixou os olhos para mim. – Fiquem longe da floresta! – Alertei. Ele assentiu em entendimento e seguiram. – Obrigada Haya.
– Me desculpe senhora. – Repetiu constrangida. Eu sorri e imitei a continência. A mulher riu baixo. Um novo raio nos trouxe de volta a realidade. Precisávamos continuar correndo.
Tentamos contornar a colina e quanto mais avançávamos mais íngreme o chão se tornava, revelando pontas escarpadas em vários trechos. Aquilo reduzia nossa velocidade de forma impressionante e era um ponto propício para uma emboscada, mas era o único caminho que nos permitia passar e manter distancia da Valquírias.
A estrada seguia se afunilando por entre paredes rochosas cobertas de neve. Haya parecia angustiada, como se desejasse voar depressa para longe dali. Depois de sabe-se lá quanto tempo presa, eu não a culpava por não gostar de ambientes como aquele. Ela poderia voar me carregando, mas se eu estivesse certa, arqueiros nos abateriam como brincadeira de criança. Isso sem falar no esforço. Ao menos ali, podíamos nos esconder com as rochas e avançar aos poucos junto ao paredão, para garantir que não seriamos atingidas pelas costas.
Ela ia sempre à frente, abrindo caminho e me indicando meu próximo esconderijo. Quando avançava eu a cobria com o arco, apoiado sobre o rocha. Ela sempre parecia pronta a cantar enquanto eu corria, com o corpo abaixado. Perdi a noção do tempo na metade do caminho. Às vezes alguma flecha ricocheteava próxima a nós, mas não o bastante para atingir. Quem quer que atirasse sabia que estávamos bem protegidas e seria apenas desperdício de artilharia.
Após o que me pareceram horas naquele avanço lento chegamos a um enorme descampado. Observamos durante alguns minutos, antes de avançarmos para área aberta. E no segundo em que pensei em correr, uma coisa se enroscando em minhas pernas quase me fez enfartar. Jinggles me pedia carinho.
Como aquele bicho tinha chegado até ali eu não sabia. As patinhas estavam marcadas na neve pelo caminho mais curto, aquele pelo qual teríamos vindo por cima do desfiladeiro, mas encontrado as Valquírias. Para ele tinha sido uma simples volta no parque. Vira-lata esperto. Me achar ali tinha sido apenas questão de sorte. Ou não. Já que ao longe percebi dúzias de casas e construções em ruínas. Eu sabia que Loki devia estar próximo a um lugar assim. Jinggles apenas devia ter chegado primeiro.
Por fim saímos de nosso esconderijo. Meus olhos pareciam ver apenas o caminho a nossa frente, em direção as ruínas. Cada passo mais rápido. Meu coração querendo quebrar as costelas. Jinggles saltava usando minhas pegadas como trilha. Haya precisava voar em nossa cola. Alguns lanceiros surgiram pela esquerda. Nem sequer os olhei. A harpia podia dar conta disso. Eu precisava chegar a ele. Se pudesse controlar as mãos, seria de grande ajuda. Passei uma delas, pelos cabelos tentando os colocar no lugar. Que idiota. Estava me aproximando das ruínas e então a vi escorada a uma delas, me encarando. Parei bruscamente, armando o arco com a ponta para o chão. Haya estava de volta.
Ela percebeu que eu encarava o ponto. Olhou naquela direção parecendo confusa. Então percebeu que Jinggles se escondia atrás de mim, miando alto e olhando o mesmo lugar. Eu quase pude sentir a harpia se arrepiar.
– Senhora... pode ver? – Questionou num sussurro. Assenti. Haya segurou meu pulso. – Aqui não é um bom caminho.
– Só tem esse caminho. – Afirmei categórica. Era verdade. Não havia como contornar as ruínas. Precisaríamos passar. – O que tem lá dentro? – Questionei à Morte. Haya gemeu baixinho. Eu entendia aquele medo. Segurei a mão dela com firmeza. Ela não era menos valente por ter medo da Morte. Eu mesma sentia aquele terror que incapacita, que impede de tremer. Mas já não estranhava esses encontros. Precisava apenas falar antes que a voz me deixasse. Precisava agir antes que o próprio medo me matasse. Eu sabia que logo ela se tornaria agradável como sempre acontecia. No entanto ela apenas sorriu, sem me responder. E ao fazer isso o som de gritos, encheu meus tímpanos.
Jinggles correu em meio às ruínas. Eu estava pregada no chão. Era a voz dele. Alguns segundos passaram, meus olhos presos aos da Morte, enquanto Haya tentava me puxar. Não me mexi. Duas casas adiante, Loki surgiu correndo enquanto uma mulher vinha em um gigantesco cavalo em seu encalço, portando uma enorme espada.
Precisei de poucos segundos para registrar sua aparência. Muitos quilos mais magro. Tão abatido que parecia não dormir há dias. Carregava uma lança empenada que poderia se partir a qualquer golpe mais forte. Estava suado e cheio de pequenos cortes no rosto e nos braços. Sua roupa repleta de talhos deixava entrever feridas de armas na pele. Ainda assim seus olhos eram os mesmos. Astutos e traiçoeiros. Achei que meu coração tivesse parado quando armei o arco. Disparei contra a Valquíria, quatro ou cinco flechas, que ela desviou como se não fossem nada. A mulher devia ter a função de mantê-lo ali, cativo.
Vi os olhos dele me encontrarem e mil emoções tingirem seu rosto. Surpresa, alívio, choque, alegria, preocupação. Tudo tão misturado que era impossível definir o que estava mais presente. Haya levantou voo enquanto Loki corria em minha direção. Não disse nada, apenas agarrou meu pulso com os dedos longos e continuou correndo me forçando a o acompanhar. O que para mim era a maior das alegrias. Uma risada alta escapou da minha garganta ao ter a certeza de que ele realmente estava me mostrando o caminho.
Ouvi Haya começar a cantar muito atrás de nós. Loki me olhou como se temesse que eu pudesse desabar pela voz dela. O que quer que tivessem injetado em mim ainda circulava nas veias, porque não senti absolutamente nada. Ouvimos um grito estrangulado da harpia. Aquilo me fez parar e virar para olhar. O deus tentou me puxar, após alguns segundos. Onde ela estava?
– Liana... – Ele chamou, sua voz arrastada e silábica, me trazendo de volta com muita eficiência. Como eu sentia falta dele. Vi os olhos verdes esquadrinharem o céu procurando a harpia. – Ali! – Apontou quando a viu voando baixo. Pingava sangue de um feio corte na lateral do corpo, mas fez um gesto para que corrêssemos. Se ela ainda tinha condições de fugir, eu não discutiria.
Reiniciamos a corrida, eu sempre um pouco mais atrás, entrando por um caminho que eu não tinha visto ainda, mas que seguia em curvas irregulares por dentro de um vilarejo em frangalhos. Uma mulher baixinha surgiu de um beco com uma longa tesoura de poda e quase a passou em meu pescoço. Dei um grito agudo quando pulei para trás. Loki se voltou de olhos arregalados a tempo de vê-la tentar uma segunda investida, enquanto eu continuava recuando e tentando puxar uma flecha. Ele a degolou com a lança sem pensar duas vezes. Me olhou de alto abaixo trazendo a mão a lateral do meu rosto, procurando por ferimentos enquanto a mulher se regenerava ao seu lado. Sorri assentindo. Rápido como um tiro me puxou para dentro de uma das casas. O moreno acertou um menino no estômago, enquanto eu atingia dois homens no alto de uma escadaria. Eles reverenciaram e saíram.
Silêncio. Eu tentei recuperar o fôlego. Não tinha percebido o quanto minha respiração falhava. Ele era muito mais rápido que eu de forma que correr naquele ritmo era demais para mim. Estava tão concentrada na tarefa que não fui capaz de perceber isso. Ele, no entanto notou. Me entregou um odre de água e voltou vigiar a porta, me dando algum tempo para beber sentada em um degrau. Nada se mexia lá fora, o que era ainda mais preocupante. Quando você passa tanto tempo sendo caçado, aprende a desconfiar do silêncio.
Minha respiração voltou ao normal lentamente. Ele se virou para me olhar por sobre os ombros. Me olhava como se ainda duvidasse da minha presença ali. Como se eu fosse uma de suas próprias ilusões. Se aproximou me encarando com as sobrancelhas franzidas, os lábios entreabertos. Tocou meu rosto novamente, deslizando a mão para a nuca. Me puxou, pondo-me de pé, em um beijo cheio de desespero. Ouvi meu arco bater no chão sem nem perceber que o tinha largado, quando passei meus braços ao redor do seu pescoço, o correspondendo. Hoje não importava se morreríamos ou viveríamos. Nada importava. Estávamos juntos de novo. Ele tinha feito por mim o que mais ninguém teria feito. Havia escolhido aquele lugar e aquela vida para que eu pudesse estar bem. Loki havia me posto à frente de si próprio e eu nunca, mesmo que vivesse tanto quanto ele, poderia agradecer. Mas ele não precisava de agradecimentos. Eu estava ali por ele e a maneira como me beijava deixava claro que o deus sabia disso. Minha boca tinha gosto das lágrimas que escorriam pelo rosto, chegando aos lábios.
– Está ficando sentimental demais. – Murmurou com deboche, se afastando alguns milímetros de mim. Aquilo me fez rir engasgando com as lágrimas.
– Vai reclamar?
– Jamais. Humanos são assim. Posso conviver com essa fraqueza. – Respondeu, trazendo seus lábios aos meus novamente, reprimindo um sorriso irônico da minha expressão de falsa indignação. Eu teria ido aos confins do universo atrás dele. Talvez fosse estranho estar beijando-o, escondida numa casa em ruínas enquanto uma Valquíria louca nos caçava, mas para nós era perfeito. Tínhamos objetivo e sentido outra vez. Tínhamos inimigos em comum para derrotar. Tínhamos um ao outro e era tudo que eu queria. As mãos dele me trazendo mais perto me faziam desejar que pudéssemos gastar um pouco mais de tempo. Me afastei de sua boca a muito custo. Quando me encarou havia determinação e vingança estampadas nos olhos verdes, como em uma proposta silenciosa. Aquilo me fez sorrir e corresponder seu olhar na mesma intensidade, invocando meu arco de volta. Hoje Odin pagaria. Lhe devolvi o odre que ele enganchou na roupa sem despregar os olhos de mim. Havia muito para ser dito. Eu mesma não acreditava que aquilo estava acontecendo.
– Consegue continuar? – Me perguntou num sussurro, entreabrindo a porta para ouvir. Parecia que tínhamos despistado a mulher. Esperava que Haya tivesse tido a mesma sorte. Assenti, respirando fundo. Ele abriu a porta e saímos de volta às ruas estreitas. Desertas. Com exceção dela.
Loki fez menção de seguir para a direita, mas ela estava exatamente pelo lugar onde deveríamos passar. Eu o segurei pela cota de couro. O deus franziu as sobrancelhas me olhando como se eu fosse maluca. A mensagem era clara. Precisávamos continuar. Movi meus lábios sem fazer som.
– Ela está aí. – Afirmei. Vi pelo canto dos olhos a Morte sorrir. Loki olhou de mim para o que ele devia ver como vazio e de volta em minha direção. Seus olhos esquadrinharam meu rosto por alguns segundos. A segurança que eu transmitia devia bastar. Assentiu firme, sem me questionar. Ele entendia que depois de tudo que havia me acontecido eu pudesse vê-la.
Tomamos uma rua lateral e percebi que havia sangue no chão. E penas. Aquilo me causou um calafrio. Continuamos em passos apressados e então ao dobrar uma esquina no que pretendíamos chegar a campo aberto, vimos Haya findando dois homens corpulentos de meia idade. Ela se apoiou com dificuldade na parede. Sangue escorria do ferimento que ela tentava apertar.
Nem sequer senti minhas pernas se moverem. Quando percebi, já a apoiava com ambas as mãos para que não caísse. Haya sorriu em silêncio, mais um esgar que qualquer outra coisa, nos permitiu ver o estrago. Eu achei que fosse desmaiar. Loki soltou um longo suspiro, erguendo as sobrancelhas. Qualquer um entendia a gravidade daquilo. O corte era tão grande e lhe faltava um naco de carne. Seu problema era o quanto aquilo a incapacitava. Eu não entendia como a mulher ainda poderia estar viva. Seus intestinos eram muito visíveis. A verdade é que ela os segurava para que não rolassem pelo buraco do tamanho da palma da mão, por onde um fluxo lento e continuo de sangue escorria. Desejei que ela desmaiasse para que não precisasse sentir. Haya morreria.
– Vão logo. – Ela murmurou. Neguei veementemente. Loki era muito mais prático e frio nesse tipo de caso. Quantas mil vezes já tinha perdido companheiros em batalha? Apenas não seguia porque eu não pretendia seguir.
Segurei a mão da harpia e fiz com rasgasse a barra do meu vestido em duas tiras longas com as garras de metal, enquanto equilibrava o arco entre as coxas. Fiz um sinal para que a mulher abrisse a boca e enfiei uma das tiras com cuidado, ela parecia levemente confusa, mas Loki entendeu rapidamente e afastou o bico de metal do rosto da mulher para facilitar meu trabalho. Ele segurou ambos os braços dela, garantindo que ficassem longe de mim com suas garras. Por fim usei a segunda tira de pano, passando-a ao redor de sua cintura e fazendo um nó nas costas apertando firme. Quando o tecido pressionou o corte apertando ela gritou com o pano a abafar o som e tentou se afastar instintivamente, chorando. Eu chorei junto em silêncio, minhas mãos tremendo.
Assim que terminei, Loki a soltou após alguns segundos quando achou que tinha força suficiente para se manter de pé. Ela puxou o pano da boca tentando regular a respiração. Firmei o arco e olhei para ele quase em súplica. Ela não poderia continuar sozinha. O homem sustentou meu olhar, impassível. A mulher nos atrasaria. E isso significava que todos os outros estavam expostos. Jane estava exposta. Eu mataria Odin por me obrigar a uma decisão como aquela.
– Haya chame seu irmão. – Pedi num sussurro, enquanto via Loki lutar contra três homens com forcados a um canto, de forma a nos manter seguras. Ela me olhou com preocupação. Não porque sabia que assim que cantasse precisaríamos correr e a deixar para trás, mas porque se preocupava com o efeito que aquilo podia ter em mim. – Chame logo! – Insisti. Minha preocupação era ele. Eu ainda tinha aquele líquido nas veias. Ou assim eu esperava.
A harpia cantou. Primeiro num tom baixo e prosseguindo numa crescente, sua voz como sempre soando como o som de mil garras em um quadro negro, um lamento de dor e agonia em uma melodia lenta e chorosa. Ouvi um baque ao fundo e por segundo temi que fosse Loki sob efeito da voz dela, mas eram os homens que ele havia derrotado. O moreno se virou para mim, parecendo incomodado com a voz, se apoiando na parede com uma careta. Me olhou levemente de lado, pelo canto do olhos, a cabeça inclinada num gesto de avaliação, como se esperasse que eu desabasse. O olhei da mesma forma, de esguelha, preparando o arco. Então Haya silenciou. E o relinchar de um cavalo se fez ouvir várias quadras ao longe. A Valquíria estava vindo.
– Ele ouviu? – Perguntei apressada, sabendo que precisávamos ir. Assim que disse as palavras pude ouvir uma resposta alguns tons mais graves, mas na mesma melodia que ela. A olhei com firmeza. – Se a Valquíria chegar antes deles, se renda. Implore. – Disse a ela. Haya desviou os olhos. Engoli em seco. – Haya você me ouviu?
– Liana... – Loki me apressava, olhando apreensivo para as ruas nevadas.
– Haya! – Exigi resposta. Ela me fitou com seus olhos aquilinos.
– Isso seria desonroso, senhora. – Respondeu numa voz baixa. Revirei os olhos, exasperada.
– Liana. Vamos. – Loki insistiu soando firme e impaciente.
– Existe desonra em uma ordem minha? – Perguntei numa tentativa desesperada de manipulação. A harpia tentou um sorriso.
– Não, senhora. – Respondeu firme.
– Mantenha-se viva. – Ordenei enfim lhe dando as costas, correndo para perto de Loki. O vi assenti seriamente para ela, antes de seguirmos.
Corremos pelas ruas estreitas. Eu atirava nos poucos guerreiros que não estavam na luta principal antes que chegassem perto o suficiente. Algumas vezes alguns surgiam tão repentinos que eu poderia jurar que tinham se materializado do nada. Loki os ceifava como se fizesse isso sempre. Na verdade vinha fazendo mesmo.
Chegamos a um campo aberto com um número um pouco maior de guerreiros, mas a maioria entretida em suas próprias lutas. Atirei em duas mulheres com machados que corriam em nossa direção e as vi cair.
– Abaixa! – Loki gritou. Mal tive tempo de atender sua ordem me abaixando e girando para fora do caminho antes que ele cravasse a lança no solo, usasse o cabo para pegar impulso e atingisse em um chute com ambos os pés, o tórax de um homem com uma adaga que tinha se aproximado sorrateiro de mim. O homem caiu no chão, dando ao deus tempo de desencravar a lança do solo e a enterrar até o cabo no pescoço do guerreiro. Loki se virou para me olhar, mas eu já disparava flechas contra uma garota de uns doze anos que trazia uma enxada em mãos. Assim que ela desabou, o moreno me puxou pelo pulso conduzindo a corrida. – Atire! Atire! – Gritava os comandos. Ele não precisava dizer. Disparava três, dez, vinte, cem vezes, mas por mais que corrêssemos os guerreiros nunca diminuíam. Apenas conseguíamos o direito de avançar mais alguns metros.
O som retumbante de raios estourando nos campos chegou a nossos ouvidos. Achei que minhas pernas não me aguentariam até lá, mas ele seguia firme a minha frente. Eu não ia fraquejar.
– Loki de Asgard! – Uma voz feminina e alta se fez ouvir. Senti um arrepio em minha espinha, quando o vi estacar de forma que quase me choquei contra seu corpo. Nos viramos para olhar. Ele me puxando para trás de si.
– Skuld. – Cumprimentou com um breve aceno da cabeça, seus olhos se estreitando perigosamente. A bela loira vinha montada em um pégasus de quase três metros, os longos cabelos cacheados cascateando por cima da armadura completa. A Morte caminhava a seu lado. Senti vontade de chorar. Loki não demonstrava nada. Tudo que se via era sua expressão de desafio. – Me deixe apresentar, essa é...
– Liana Schroeder de Midgard. – A mulher completou, os olhos azuis me esquadrinhando. Eu assenti sem falar nada. – Me lembro bem da descrição da tua guerreira. Sabem que não posso permitir que sigam.
– Não estamos pedindo permissão. – Uma voz fria rebateu. Uma voz feminina. Nos viramos surpresos para olhar. Farbauti vinha acompanhada de dois gigantes tão altos como ela. Os três usavam os braços congelados como espadas. Ela sorriu para nós, entregando uma lança de bronze com uma grande ponta seguida por dúzias de dentes menores. O deus assentiu em agradecimento, testando o peso da arma nas duas mãos antes de se desfazer da velha e gasta.
– Nobre senhora Farbauti, eu tenho ordens diretas de Sua Majestade Odin e...
– E suas ordens não me interessam. – A mulher cortou com frieza. – Ele é meu filho. Aqui não é lugar para um príncipe. Ainda mais um ainda vivo. E eu vim para garantir que vai continuar não sendo seu lugar por muito tempo. – Falou. A Valquíria levantou ambas as sobrancelhas claras, parecendo surpresa com a ousadia da adversária. Deixei meus olhos passearem pelo campo. Havia lutas em vários lugares e os raios caiam ao longe. Aparentemente a luta de uma daquelas guardiãs devia pertencer somente a ela, de forma que os guerreiros menores não costumavam se intrometer. Precisávamos sair dali.
Loki me apoiou discretamente pela cintura e quando fez isso, senti aquela sensação pavorosa de ter a mente invadida. Balancei a cabeça agitada como se tentasse espantar algum inseto barulhento. Ninguém pareceu notar meu desconforto. Ele sabia o quanto aquilo era horrível para mim e por isso foi breve. Me fez virar o rosto para a esquerda. Havia uma trilha de terra batida que descia serpenteando na direção que deveríamos tomar. Jiggles caminhava tranquilo cheirando a grama. O deus me avisaria para correr, compreendi antes que me deixasse sozinha em minha mente. Fechei os olhos com alívio por alguns segundos.
– Vai ser minha adversária nobre senhora? – Skuld questionou. Farbauti ofereceu o mesmo tipo de sorriso irônico e repentino que Loki costumava exibir.
– Seremos. – Corrigiu indicando seus guerreiros. – Sozinha não duraria quinze minutos. E eu não vim planejando morrer. – Completou e tão depressa quanto a mulher compreendeu aquilo, as rochas se deslocaram no chão elevando Farbauti e os fechando em uma redoma de rochas e gelo.
– Vai! Vai! – Loki gritou me empurrando a sua frente. Passamos correndo por Jinggles que miou assustado e correu a nossa frente pela trilha estreita. Podíamos ouvir o som da batalha ficando para trás enquanto avançávamos aos tropeços.
Atirei flechas em espectros que surgiam nas trincheiras. Alguns não morriam, mas caiam diante de nós de forma que Loki as eliminava com a nova arma, em ataques ágeis e fluidos. Às vezes ainda precisava os derrubar, mas era tão ágil que o fazia com muita facilidade. Não precisávamos de combinação alguma para lutar lado a lado. Era quase instintivo. O lugar era estreito, então quando eu avançava o deus retrocedia me dando espaço e vice-versa. Era como uma dança em que os bailarinos conhecem bem os passos. Era simples combinar ataques e o cobrir.
Chegamos ao fim da trilha e Loki tomou a dianteira após matar um homem baixinho que carregava um machado duplo. O deus se abaixou espiando por trás de uma trincheira. Jinggles veio lhe pedir carinho como se fosse a coisa mais normal do mundo. O som de raios quase nos ensurdecia. Estávamos ao lado da batalha de Thor, Frigga e algumas harpias do exército de Haya contra seis Valquírias. Loki apertou a lança na mão livre ao ver que a mãe tinha um grande corte de espada no rosto, que havia errado por pouco o olho esquerdo. Thor tinha alguns ferimentos pelo corpo e sua armadura tinha uma grande rachadura no tórax.
O martelo do deus voava contra as guerreiras, lhe dando tempo de entre um golpe e outro dar suporte a mãe e aos outros guerreiros, além de socar qualquer parte das guardiãs que estivesse ao seu alcance. Frigga lutava usando uma espada curta e parecia dançar. Seu estilo de luta era muito similar ao de Loki. Girava e fluía em golpes rápidos e precisos com um olhar voraz que intimidava. A vi acertar uma das guerreiras com um golpe no pescoço. A mulher desabou e seu corpo se desfez em luz. O moreno estreitou os olhos em um meio sorriso ao meu lado.
– Ela morreu? – Sussurrei. Me parecia fácil demais. Ele me olhou pelo canto dos olhos.
– Temporariamente. Elas regeneram. – Me explicou num tom de desagrado. Aquele lugar era o inferno dos vivos.
Loki fez menção de criar suas ilusões, mas puxei seu braço para baixo antes que ele pudesse completar o movimento. O moreno me olhou em reprovação.
– Precisamos chegar à saída e dar o sinal para retornarem. Quando mais cedo chegarmos, mais cedo vamos embora. – Afirmei para ele. Loki olhou para a mãe e o irmão que a protegia de um golpe de lança e de volta para mim. O olhei de um jeito apressado. – Farbauti não vai segurar Skuld para sempre. Ajudamos mais abrindo caminho para tirar eles daqui.
– Por aqui. – Concordou por fim, voltando a me guiar.
O som de trovões foi ficando distante e o de urros e disparos se tornando mais audível. No entanto Loki me fez seguir por um caminho alternativo ao lado de uma muralha alta. Ao lado havia um grande lago de águas escuras. Alguns cadáveres dos meus soldados eram visíveis em todo trajeto. Eu não conseguia ver ferimentos neles. Nenhum corte de espadas, nenhum buraco de lança.
Quando estava prestes a comentar isso com o deus, ele me olhou em alerta reduzindo o passo, antes de dobrarmos a um canto. Se abaixou perto de um homem de pele verde. Então achou o local da ferida. Uma abertura pequena na nuca do homem. Eu nem sequer o conhecia, mas me senti a pior das criaturas. Ele tinha lutado por mim. Dei um passo atrás, me encostando na parede de pedra. Sorte minha. Uma flecha negra se cravou no ponto exato onde eu tinha estado. Loki se pôs de pé de um salto, se colocando a minha frente, protegendo meu corpo com o seu. Perto da muralha, o atirador não teria ângulo para nos acertar. Nos entreolhamos de olhos arregalados. Eu sabia quem era. Como pude não considerar que ele estaria ali? E que teria mãos? Aparentemente os guerreiros chegavam ali em plenas condições.
– Ele não gosta de mim e eu não sei por quê. – Loki falou me olhando com uma expressão dissimulada. Aquilo me fez rir baixinho. – E pelo jeito não gosta de você também.
– Por que será? – Ironizei, vendo a flecha desaparecer do solo. Pelo jeito as armas voltavam ao dono.
– Vou na frente caso tenha alguém no caminho. Você me segue e cobre. – Comandou com segurança. Assenti confiante. Hawkeye não nos derrubaria. Eu o mataria de novo e de novo. Quantas vezes precisassem.
O deus correu e eu o segui de perto. A primeira flecha do arqueiro acertou em cheio minha armadura nas costas, me fazendo cambalear. Me virei e disparei com precisão, teria atingido se ele não tivesse se abaixado atrás da amurada. Ver seu rosto fez meu estômago afundar. Aquilo era macabro. Continuamos correndo e os disparos se seguiam de ambos os lados. Algumas flechas ele dirigiu a Loki que as desviava com a lança. Então senti uma seta se cravar na minha panturrilha, atravessando o couro das botas longas e da calça. Cai no chão com um grito agudo me escapando. Ouvi o deus derrapar e voltar, colocando o corpo sobre o meu na hora que uma das flechas voou em direção ao meu rosto. Ele foi atingido no ombro, fazendo uma expressão de dor. Loki ignorou-a e tentou me pegar no colo, mas Hawkeye já havia disparado novamente de forma que o moreno precisou optar por desviar o projétil.
Senti medo. Morreríamos ali nas mãos espectrais daquele agente? Que tipo de ironia era aquela? Estávamos juntos sim, mas por mais que eu tentasse me convencer de que qualquer coisa bastava, morrer não estava nos planos. Escolhi a flecha com rapidez e armei o arco.
– Não erre. – O deus pediu com firmeza, me sustentando de pé.
– Não vou. – Afirmei esperando. Hawkeye apareceu por detrás da amurada e eu soltei minha flecha ao mesmo tempo em que ele soltou a dele, mas Loki a desviou com a própria lança antes de erguer os olhos e acompanhar meu projétil metálico passar muitos centímetros acima da cabeça do agente.
– Você já atirou melhor que isso Liana Schroeder! – O arqueiro gritou do alto, armando seu arco novamente. Loki me olhou indignado quase concordando.
– Vou ter o prazer de dizer a Natasha que repetimos a dose! – Gritei alto fechando os olhos com força quando vi a flecha se inclinar em uma parábola, atingindo a muralha de pedra. E então a explosão encheu nossos ouvidos, mandando espectro e rochas pelos ares. Loki me abraçou quando escombros caíram. Me olhou de esguelha um meio sorriso debochado. As flechas desapareceram de nossas feridas quase instantaneamente. Ele me ajudou a mancar para longe daquele lugar.
Nos escondemos atrás de umas carroça e ele rapidamente cortou a costura da perna da minha calça, a abrindo até o joelho usando sua lança. Rasgou aquele pedaço e o amarrou em volta da panturrilha ferida. Mordi o lábio sentindo a dor me percorrer, enquanto eu reprimia um grito. Ele ergueu os olhos para mim seriamente. Soltei a respiração entrecortada.
– Estava na hora de conseguir novas cicatrizes para mim. Elas são meu charme. – Comentei num tom baixo. Ele virou o rosto de lado numa repreensão.
– Pode ser difícil para você, mas procure não arrumar um par para essa daí. – Ironizou. Aquilo não podia me atrapalhar. O fiz virar de costas e vi o buraco fundo perto do ombro direito. Não havia como resolver aquilo agora, mas ele não parecia muito incomodado. – Vamos. – Chamou. Firmei minha perna e ela latejava suavemente. Achei que mesmo com o apoio fosse ser terrível pisar, mas era bem suportável.
Corremos mais alguns metros, comigo mancando de leve no encalço dele. Por fim entramos por uma porta lateral no palácio numa pequena sala com uma cortina que a separava do grande salão. Eu nem a teria notado aquela entrada se Loki não tivesse me mostrado. Ele tinha tido tempo de aprender bem os caminhos daquele lugar.
Olhei para baixo ao sentir algo pegajoso. O chão estava coberto de sangue e vísceras. O caos e a morte ali eram completos. O interior do palácio das Valquírias era o pior lugar de todos os Nove Reinos naquele momento. O cheiro ocre impregnava, misturando-se ao azedume de vísceras além do suor e das fezes que se espalhavam para fora de intestinos abertos. Precisei me apoiar a uma parede para não cair no chão. Achei que pudesse desmaiar. Ou vomitar. Loki segurou meu rosto com as duas mãos, segurando sua arma de qualquer jeito, os olhos verdes se fixando com urgência nos meus.
– Não olhe para o chão lá dentro. Não tem nada que vá querer ver. Respire pela boca. Vamos acabar com isso. Vamos embora. – Falou. Eu assenti, percebendo que tremia apavorada. Estava a ponto de ter um ataque histérico. – Liana, nós vamos conseguir.
– Eu sei... eu sei... – Repeti tentando manter meus olhos longe dos cadáveres. Então um grito agudo e feminino chegou aos nossos ouvidos, acima de todo som de batalha. Meu coração certamente deve ter parado uma batida quando reconheci. Jane.
Atravessei a cortina sem pensar. Não notei cadáver nenhum e nem o odor terrível daquele lugar. Mal percebi a Morte circulando entre os corpos e entre as centenas de guerreiros que ainda lutavam bravamente. Ela estava fazendo seu trabalho. Tudo que pude ver foi uma fumaça negra que vinha de um dos corredores.
– O que tem para lá? – Questionei disparando flechas nos espectros ao meu alcance, enquanto corria naquela direção. Minha voz soava aguda e descompassada. Eu tentava ignorar o gemido dos moribundos.
– Os quartos. – Afirmou confuso. – Quem está lá?
– Jane Foster! – Gritei alto. Ele atravessou sua lança no pescoço de um homem alto e se virou para me olhar chocado.
– O que ela es...?
– Jane abriu o portal e precisamos dela para sair daqui! – Gritei seguindo caminho. Vi os olhos de Loki se arregalarem em choque, antes que ele tomasse à dianteira. Guerreiros e espectros corriam no sentido oposto, sem se importarem em lutar, quase nos carregando de volta. O cheiro de fumaça ardia os olhos e a garganta. O final do corredor estava em chamas. Eu podia ouvir os gritos de Jane por ajuda, mas não sabia dizer de onde.
– Liana, volte e dê o sinal! – Ele gritou para mim. Loki pretendia prosseguir sozinho.
– Ficou maluco?!
– Vai logo! Dê o sinal, agrupe todos. Vai! – Repetiu com urgência.
– Não morra. – Pedi lhe dando um beijo breve nos lábios e retrocedendo. Eu tremia. Tentei não olhar para o chão e não pensar em coisas ruins, precisava de uma harpia para o sinal. Precisava me focar. Mas então o vi. O menino camarão. Seu tórax muito aberto. Ele agonizava. Me olhou quase suplicante.
Minha expressão era indescritível. Que lugar infernal era aquele? Que tipo de monstro era Odin? Eu o odiava tanto que o matar não bastaria. Eu o odiava tanto que gostaria que ele fosse algo possível de se apagar do universo.
– Obrigada. – Falei engasgada. Poderia ter dito mais mil coisas, mas a voz não saia. Armei o arco e mirei na cabeça do guerreiro. Eu sentia. Eu pensava. Não era natural. E eu o tirei de seu sofrimento.
Me encolhi num canto chorando compulsivamente, sem coragem de sair do lugar. Eu não conseguia sozinha. Me sentia suja e fraca. Me sentia derrotada. Loki tinha me protegido de tudo aquilo. Eu estaria pior do que louca se estivesse há tanto tempo ali quanto ele. Um grito de ódio escapou da minha garganta. Eu precisava dar o sinal. Eu precisava nos tirar dali, antes que mais morressem. Engoli em seco, passando as mãos no rosto. Levantei e voltei para o grande salão.
Atirei flechas nos espectros ao meu alcance. Se Haya estivesse comigo seria mais simples, mas eu sequer sabia se estava viva. Corri de um lado para o outro tentando me manter afastada dos grandes aglomerados. Enfim vi uma harpia, de cabelos negros que mudavam para penas cinza. Corri até ela que lutava contra um espectro de criatura chifrada. O abati e ela se virou para ver quem a tinha ajudado.
– Por favor, cante o chamado! – Pedi quase me pendurando no braço dela. A mulher pareceu surpresa por um segundo e então cantou. Sua voz era alguns tons mais aguda que a de Haya, mas nem por isso menos macabra. Senti os pelos na nuca se arrepiarem, embora soubesse que aquela musica não feriria ninguém. Ela me fazia desejar estar ainda mais perto.
Fiquei perto dela a defendendo de ataques. Aos poucos ouvi o sinal ser repetido por todo lugar. Logo todos estariam de volta ao Palácio e isso incluía as Valquírias. Eu não parava de olhar para o corredor em chamas. Onde eles estavam? Eu entraria lá se não regressassem depressa. Se não saíssem logo a fumaça os mataria. Mesmo ali onde eu estava o calor era possível de ser sentido. Ao menos o cheiro de fumaça disfarçava outro muito pior.
Ouvi um ruído estrondoso quando Hulk passou pela entrada, derrubando parte da parede, sobre espectros e soldados. Tony veio logo na sequencia ajudando a tirar as pessoas de baixo. Sua armadura estava muito arranhada, mas parecia o ter protegido bem. Suspirei um pouco mais aliviada. Voltei meus olhos para o corredor. Onde eles estavam? O que estava acontecendo?
– Lia, tudo bem? Está ferida? – Tony perguntou pousando ao meu lado enquanto disparava contra soldados romanos.
– Nada que vá me matar. – Respondi acertando com o arco no rosto de um menino que tentou pegar a harpia por uma das asas. Ela agradeceu, antes de dilacerar o pescoço dele. – Jane precisa de ajuda! O corredor lateral está em chamas, Loki foi procura-la, mas ainda não voltou.
– Vou atrás deles. Não saiam daqui e tentem não morrer. – Falou, voando em direção ao incêndio. Hulk se mantinha um pouco afastado acertando atacantes dos nossos soldados.
Pouco mais de dois minutos se passaram naquela confusão de flechas para todo lado, quando Pharos chegou com grande parte do exército de harpias. Pousou perto de nós, dois homens vinham mais atrás, trazendo Haya no que parecia uma porta que deviam ter arrancado. Por um segundo achei que estivesse morta, mas percebi que respirava. Tomaram o cuidado de a colocar perto a parede onde não podia ser pega pelas costas. Dois homens a guardavam. Pharos e alguns guerreiros tornaram a levantar voo e ajudar na briga. Meus olhos tornaram a ir dos alvos que eu insistentemente atingia para o corredor.
O problema de estarmos nos reagrupando era que os espectros consequentemente se agrupavam também, fortalecendo ainda mais a diferença numérica. Nossos soldados retrocediam para o interior do grande salão e eu comecei a me preocupar sinceramente se conseguiríamos sair dali. Meu braço doía do esforço repetitivo de atirar. A ferida na perna não me incomodava mais. O que me incomodava era a fumaça que começava a nos sufocar e ainda assim nem sinal deles.
Para meu choque Farbauti entrou deslizando em uma pista de gelo, que se formava a seus pés. Estava sozinha e bastante ferida, mas ainda parecia conseguir lutar. Hulk urrou sobressaltando a todos, mas era apenas uma demonstração de sua fúria. A jotum congelou guerreiros que o atacavam o fazendo a olhar com uma expressão de curiosidade, antes de pegar um homem pela perna e o usar como taco arremessando longe que vinha a atacar.
Corri até ela, matando tantos quanto eu podia. Hulk parecia dar conta do recado e com as harpias ali para pegar os desgarrados ao menos aquela parte do enorme salão não era terrível.
– Meu filho? – Ela me perguntou batendo o pé com força contra o chão, um caminho de gelo se espalhando e congelando espectros que Hulk quebrava como gravetos.
– Em missão de resgate. – Respondi, atirando uma flecha contra um homem que estava pendurado em uma harpia. Ele caiu seis metros. – Os guerreiros?
– Mortos. – Respondeu com frieza.
– Skuld?
– Morta. – Ela informou simplesmente. Duas a menos. E, por Deus, onde eles estavam?
Dei as costas a ela voltando ao final do grande salão. Acho que nunca disparei tantas flechas na vida. Usei o arco para golpear aqueles que estavam de costas e próximos demais. Quando me virei para continuar avançando, não vi de onde a mulher veio, algo pesado me acertou o rosto e quando percebi estava caída por cima de um corpo, ela vinha contra mim, carregando apenas uma adaga pequena. Não consegui nem gritar com o susto, apenas me encolhi e ouvi o golpe alto. E o urro estremecedor.
Abri os olhos e vi que Hulk tinha salvado minha vida. Me olhava com atenção. Tateei ao redor procurando o arco, me encolhendo por pura covardia. Ele era enorme. Quebraria meu pescoço apenas com um peteleco.
– Bem? – Perguntou numa voz grave e levemente rouca. Sorri relaxando. Assenti pegando o arco e levantando trêmula. Estava exausta do esforço físico.
– Bem. Obrigada. –Afirmei e corri como se não houvesse amanhã. Eles já tinham demorado demais.
Estava a apenas dez metros do corredor que brilhava com as chamas laranja a corroerem os móveis, quando o clarão de um raio iluminou todo o ambiente, abatendo dezenas de espectros de uma única vez. Frigga o seguia de perto, movendo os braços em movimentos amplos e suaves. Raízes grossas como canos, emergiam quebrando o piso e se emaranhando em guerreiros espectrais os esmagando até a morte. Três Valquírias os seguiam, sendo atrasadas por essas raízes que as envolviam até as cinturas com especial empenho.
– Loki! Tony! – Gritei para o fogo, sem entrar no corredor. Silêncio. Eu devia procura-los ou lutar? Todos já estavam ali reunidos esperando para irmos embora. Todos estavam lutando como podiam e com três Valquírias fechadas naquele espaço não duraríamos muito. Eu atirava de longe, o trabalho que se espera de uma arqueira. Me perguntei se conseguiriam manter Haya segura em meio ao caos.
E então Tony retrocedeu, pousando diante de mim e atirando contra uma mulher de traços indígenas. Olhei dele para aquele corredor e de volta para ele. Senti minha boca se abrir, o pânico se enroscando no meu estômago como algo vivo. A máscara da armadura arranhada subiu, revelando o rosto dele. Sorria. Franzi as sobrancelhas olhando dele para as labaredas gigantescas.
– Vou achar que quer que eu te carregue no colo também. – Meu irmão falou alto, disparando pequenas bombas contra as Valquírias ao longe. Frigga, Thor e agora Hulk, faziam o que podiam para mantê-las a entrada.
Loki surgiu em meio às chamas caminhando com passos firmes e seguros, o olhar sagaz que me questionava sobre meus medos. Trazia nos braços uma Jane Foster dona de um vestido chamuscado e muito chorosa. Ela tinha uma perna visivelmente quebrada, com a calça formando um calombo onde o osso havia se partido e pressionava a carne. Trazia a lança de Loki nas mãos, junto ao dispositivo que reabriria o portal. Fechei os olhos por um breve segundo, respirando aliviada, com o som de tiros de Tony, gritos de guerra e raios enchendo meus ouvidos.
Tornei a abri-los e olhei para Loki com apreensão. Ele não tinha nenhum ferimento aparente e respirava normalmente. Tinha bastante fuligem no rosto e nos cabelos. Jane também estava coberta. Era obvio que algo tinha dado muito errado. Sua escolta devia estar morta. Ela parecia estar morrendo de dor e sua respiração era muito barulhenta. Intoxicada pela fumaça.
– Jane tire a gente daqui e vamos cuidar de você. – Falei com gentileza, mas pressa. Ela assentiu e pôs-se a mexer em seu aparelho. Ergui os olhos para Loki que tinha uma expressão tensa, na direção da mãe e do irmão. Não podia tira-los de lá, enquanto não estivéssemos prontos. Jane estava com muita dor e precisava sair dali.
– Lia, coloque isso no chão e pressione o botão grande. E se afaste. – Ela me disse numa voz clara, mas baixa, me entregando o aparelho. Loki a mantinha firme nos braços, observando atentamente o que eu fazia.
Assim que terminei, o aparelho começou a zumbir muito alto. Corri para perto de Loki e Jane e ficamos observando atentamente. Apenas um gritO alto, nos fez desviar a atenção. Frigga e Farbauti tinha matado uma Valquíria. Loki sorriu maldosamente. Jane trouxe nossa atenção de volta, mostrando o portal que se abria em um aro de luz.
– Stark! – Loki gritou. Tony se virou para olhar, levando uma flechada na parte traseira da armadura, revirou os olhos impaciente e acertou um soco em um homem com uma besta em mãos, o jogando muitos metros longe. Virou-se novamente, sua máscara subindo outra vez.
– Para você é senhor Stark. – Falou levemente debochado, mas com expressão séria. O deus levantou a sobrancelha com indiferença, um sorriso debochado nos lábios.
– Traga os outros para o portal. Comece pelas Harpias. E pelos soldados mais ao redor. – Loki comandou seguro. Meu irmão me olhou como quem questiona se ele falava a sério antes de levantar voo.
Ficamos próximos ao portal, sentindo a pressão que ele exercia. Eu mantinha guerreiros desgarrados da luta principal afastados.
Pharos pousou diante de mim, com os guardas que o ladeavam carregando Haya, cada vez mais pálida. Ele assentiu para nós sem dizer uma palavra. No entanto quem falou foi Loki.
– A Sala de Cura fica na torre leste no segundo andar. Digam que tem ordens da rainha. Não devem discutir muito. Se discutirem vocês sabem como intimidar. – Afirmou detalhadamente. Pharos assentiu firme, visivelmente grato. – Não sejam pegos no caminho.
– Foi uma honra lutar com Vossa Alteza. Que outras batalhas venham. – Disse daquele jeito formal e atravessaram. Loki me olhou com uma expressão divertida.
– Gostei dele. – Falou breve. Jane riu baixinho apesar da dor. Um tratamento nobre era sempre da aprovação de Loki.
Os soldados continuavam recuando com homens os seguindo. Os abatiam como podiam, mas a coisa estava ficando pior. Cada soldado nosso que passava pelo portal era um a menos em combate e um oponente a menos para eles. Por sorte eles ainda se atacavam entre si, o que não tornava a situação crítica demais. Nosso problema era Jane, cada vez mais pálida. Parecia prestes a desmaiar.
– Você. – Loki falou para um homem alto com pele coriácea que estava prestes a passar. – Leve ela. Heimdall já deve ter mandado algum auxílio. Garanta que ela seja atendida, mas não deixe que a levem para longe. – Comandou, passando Jane com gentileza para os braços do homem. Ele parecia se sentir honrado com sua nova missão. O deus recuperou das mãos dela sua lança.
– Thor? – Jane perguntou baixo.
– Vai estar em Asgard com você logo. – Falei a ela com simpatia. Ela lhe deu uma última olhada e calou-se. Olhei para homem que assentiu seguro. – Obrigada. – Murmurei a ele que atravessou levando Jane.
Agora eu e Loki guardávamos o portal. Eu atirava tantas flechas quanto podia, ignorando a câimbra dos músculos que protestavam contra aquele excesso. Há quanto tempo estávamos ali? Seis horas? Mais? Menos? Eu não tinha a menor noção do tempo.
O deus criava réplicas as centenas que mantinham os espectros ocupados numa luta ilusória. Aquilo me fez rir alto ao perceber a genialidade envolvida. Desde que suas cópias não fossem tocadas, podiam seguir se desviando e simulando ataques falhos, nos garantindo segurança.
Nosso problema eram as duas Valquírias que ainda lutavam furiosamente. Se Frigga não fosse uma guerreira tão habilidosa e ágil, talvez já tivesse tombado. Thor arremessava raios contra elas, mas ambas portavam um escudo pequeno e detalhado com cenas de guerra que parecia dar conta da defesa. O papel do loiro era o de defender a mãe que as atacava com espadas e magias, além das raízes sob seu comando.
Me peguei pensando onde estavam Tony, Hulk e Farbauti quando os vi chegarem. Hulk vinha esmagando guerreiros espectrais. Alguns dos nossos soldados que tinham se afastado da luta principal pelos campos da Valhala ainda chegavam para ultrapassar o portal. Eu não sabia que eram tantos.
Abaixei os braços, exausta, quando vi Tony atingir mais alguns guerreiros errantes. Me virei para Farbauti e a vi abater uma garota nova. A jotun me encarou pelo canto dos olhos vermelhos.
– Não demorem. – Disse atravessando o portal. Assim que ela fez isso, outro grito agudo encheu nossos ouvidos. Restava apenas uma Valquíria. Frigga as estava liquidando, com a proteção de Thor e a ajuda de Hulk. Tony continuava conduzindo os guerreiros para os portais, enquanto Loki fazia mais e mais réplicas de si mesmo.
Meu irmão não tardou a retornar para perto do portal. Ele e Loki atacavam um pouco mais a frente com as armas que tinham, enquanto eu disparava flechas mais atrás.
– Tony! Hulk! Podem passar! Jane pode precisar de ajuda. – Gritei acima dos sons de raios. Eles me olhou por cima do ombro.
– E você vai ficar bem? – O Iron man perguntou com seriedade. Não pude evitar sorrir.
– Garanto que vai. – Loki rebateu com frieza, chutando uma mulher no tórax. Tony ergueu uma sobrancelha para ele. Pelo jeito não tinha esquecido a Batalha do Infinito. Meu irmão beijou minha testa e atravessou. Banner demorou alguns minutos e quando passou percebi que segurava uma bolinha de pelos pretos nas mãos. Sorriu para mim antes passar com Jinggles. Aquele gato não podia ser normal. Agora faltavam Frigga e Thor.
– Eles precisam de ajuda. – Gritei para o moreno. – Eu vou lá. – Avisei.
– Não. Você fica. – Falou firme. Ele iria. Senti meu estômago afundar. Discutir só nos faria perder tempo e eu sabia que o deus não cederia. – Se acontecer alguma coisa quero que atravesse. – Comandou. Fiz uma careta para ele. Loki não era idiota a ponto de achar que eu fosse obedecer aquilo.
O vi avançar em meio aos guerreiros e em pouco tempo o perdi de vista, quando se misturou a suas cópias. Frigga cruzava armas com a guerreira, ao mesmo tempo em que sua magia trazia as raízes para capturar a Valquíria. A guardiã continuava absorvendo os raios de Thor como se não fossem nada, então só restava a ele atacar atirando o martelo.
Continuei em meu posto disparando flechas como podia nos guerreiros que vinham contra mim. Vez ou outra os acertava com a haste do arco. Eu não conseguia manter meus olhos na luta deles e na minha. Apenas ouvia atentamente o som alto do que deduzi ser a lança de Loki. Ouvi gritos de comando da deusa e a resposta dele. Thor dizia algo também. Eu não conseguia entender. A guardiã ria e praguejava. Suas irmãs tinham sido derrotadas, mas ela não planejava cometer os mesmos erros.
Ouvi Loki gritar com o irmão e rir de algo. Aquilo estranhamente me tranquilizou. Ele não tinha medo. Estava seguro. E se ele estava confiante eu também estava. Ataquei com ainda mais ferocidade. Não morreríamos.
A luta se estendeu por mais algum tempo que não sei precisar. Poderia ter sido dez minutos ou quarenta. Não sei dizer. Mas ouvi claramente quando Thor soltou um raio que deve ter atordoado a mulher, Frigga a prendeu ao chão enquanto um grito gutural escapava da garganta de Loki. Me virei a tempo de vê-lo degolar a bela guerreira. Aquilo pôs um sorriso em meu rosto.
– Uma ajuda aqui? – Gritei alto. Estava abatendo tantos quanto podia, mas era demais para mim e eu só conseguia mantê-los longe do meu pescoço. Thor invocou um raio e os atingiu a todos.
Os três estavam cobertos de sangue. Loki apoiava a mãe pela cintura. Ela sorria e lhe beijava o rosto a despeito da dor que os ferimentos deviam lhe causar. Thor vinha abrindo caminho para eles.
Pararam diante de mim e sorriram. Todos estávamos feridos em maior ou menor grau, mas compartilhávamos o mesmo olhar determinado. Estávamos prontos para a próxima etapa.
– Jane? – Ele me perguntou.
– Passou na frente. Está ferida, mas vai sobreviver. – Eu não podia mentir. Os olhos dele se alarmaram e ele atravessou as pressas. Loki conduziu a mãe pela mão, a fazendo atravessar em seguida. E por fim passamos juntos.
A sensação era tão agradável quanto da primeira vez, mas o alívio chegou quando senti meus pés tocarem a neve macia de Asgard e Loki me apoiar para que eu não desse de cara no chão.
Estávamos no meio de um bosque. A ausência do som de armas e do cheiro de morte me pegou de surpresa. O cenário parecia um campo de refugiados. Haviam tantos soldados feridos, quanto soldados ajudando. Heimdall estava ali e trazia algumas curandeiras que trabalhavam em um ritmo acelerado. Jane estava numa maca que flutuava e parecia muito melhor, enquanto falava com um Thor cheio de aflição. Ela parecia falar animada do sucesso de seu experimento. Reconheci Fandral e Sif em meio às pessoas, ajudando os feridos. Senti o impulso de disparar uma flecha nela, mas então a vi ajudando uma harpia que parecia ter a asa quebrada. A mulher tinha trocado de lado, muito provavelmente por Thor.
Banner estava de volta a seu tamanho e personalidade normais. Ele atendia uma mulher que parecia estar com um braço quebrado. Um dos seis braços. Um guerreiro de aparecia felina colocou um cobertor por cima das costas nuas do homem, que agradeceu timidamente, pouco acostumado a gentilezas. Aquele guerreiro me fez procurar por Jinggles em meio às pessoas. Por fim o achei se enroscando nas pernas de Frigga que era atendida por uma curandeira. Definitivamente não era um gato normal. Mais tarde nos preocuparíamos com ele.
– E agora? – Perguntei à Loki.
– Agora Odin. – Respondeu, quando uma curandeira lhe alcançou uma toalha úmida. Loki limpou o sangue do rosto e das mãos, enquanto eu também recebia uma. – E sua perna? – Me perguntou, olhando pelo canto dos olhos.
– Está ferida senhora? – A curandeira perguntou.
– Nada demais. — Desconversei.
– Deixe ela ver, Liana. – Ele falou. Revirei os olhos impaciente e sentei no chão. Comecei a soltar a amarra da panturrilha quando Frigga chegou em uma roupa limpa, por baixo de sua armadura.
– A menina disse que está bem. Dê uma olhada nos outros, eu preciso falar com eles em particular. – Ordenou com firmeza. A mulher fez uma reverência e se retirou. – Assim que estivermos prontos vamos entrar no palácio. Odin não está preparado para o assalto, mas sejam firmes e não demonstrem medo. – Loki levantou as sobrancelhas com certo deboche ao ouvir aquilo. Mas o recado não era para ele. Assenti firme. Depois de tudo um velho caolho não me derrubaria. – Intimidem como puderem. Façam-se memoráveis, mas não cometam a bobagem de o atacar. Ele continua sendo o rei. – Completou.
Frigga com um floreio da mão pôs Loki em uma armadura de batalha completa. Feita de um metal muito leve e dourado, que subia por seu tórax, até o pescoço com poucos detalhes à exceção de quatro círculos que se destacavam da armadura. Ele deixou os dedos longos percorrerem os círculos e olhou para a mãe em dúvida. Ela deu de ombros. Aquilo devia significar algo que eu não entendia. Os braços do deus estavam protegidos por vambraços do mesmo metal decorado. Aquilo era completado por grandes ombreiras largas, sobre as quais uma longa capa verde musgo descia. O elmo finalizava tudo. Apesar da aparência abatida e dos ferimentos ele parecia mais do que nunca um príncipe asgardiano. E eu devia parecer uma tola o olhando.
Tão tola e embasbacada que não notei quando fui posta, em um vestido longo e vermelho, com um decote canoa que expunha minha clavícula de um jeito bonito. Tinha longas mangas que desciam justas até os cotovelos para depois se abrirem largas caiando até meus joelhos. Minha ave vinha bordada como se levantasse voo. Por cima disso uma armadura similar à dele, que subia se abrindo numa gola de metal ampla como um leque. Os vambraços eram placas finas de metal, sobrepostas a uma base. Pareciam muito com penas douradas. Eu não usava elmo, meu cabelo descia ondulado por cima da gola dourada. Vi Loki parecer agradavelmente surpreso com minha aparência. Meu rosto combinou instantaneamente com a cor do vestido. Ela realmente nos queria memoráveis.
– Linda. Parece uma pétala de rosa em meio à neve. – Frigga elogiou. Eu sorri.
– Ou uma gota de sangue. – Corrigi. O moreno apertou os lábios reprimindo um sorriso. A deusa me deu um olhar travesso.
Precisamos esperar por mais meia hora, enquanto todos se preparavam. O sol começava a se por quando começamos a rumar para o palácio, pelas ruas, atraindo olhares curiosos. Os feridos seguiam atrás, carregados em macas flutuantes. Jane era a única que vinha a frente, ao lado de Thor. Pharos se juntou a nós quase a entrada do palácio. Sorriu para mim, com uma breve reverência. Tomei aquilo como boas notícias. Haya devia estar na sala de cura, mas bem. Tony caminhava ao lado de Bruce e conversavam animadamente sobre a arquitetura opulenta de Asgard como se estivessem em um passeio turístico. Farbauti seguia mais atrás junto aos soldados e parecia bastante a vontade.
Uma tropa de soldados surgiu correndo parecendo terem finalmente notado a invasão. Sem Heimdall para dar o alerta a defesa de Asgard parecia despencar consideravelmente. Frigga tomou à dianteira e fez um gesto para que abrissem caminho. Ela era nosso ingresso.
Atravessamos os jardins e por fim entramos nos palácio. Eu tremia de puro nervosismo. Eu não poderia derrubar o próximo adversário com uma flechada. Loki me olhou, inclinando a cabeça levemente de lado num gesto que me pareceu bastante debochado. Aquilo me fez rir baixinho. Estávamos juntos ali.
Frigga abriu as portas para a sala do trono e Loki entrou a frente caminhando firme e imponente. Vi seus olhos se estreitarem e a boca se contrair num sorriso desafiador. Eu o segui a sua direita, um pouco mais atrás. Sabia que tinha a mesma expressão dele. Minha mão se fechou firme contra o arco. Frigga e os Avengers nos seguiam de perto, ladeados pelo exército. A sala do trono era gigantesca, mas não o bastante para todos. Muitos permaneceram nos corredores. Os poucos guardas do lugar recuaram assustados com nossos números.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!– Oi pai. – Loki cumprimentou numa voz carregada de desprezo e sarcasmo. Ele tinha um olhar assassino no rosto. – Sentiu falta do seu filho mais amado?
– Traição. – O rei respondeu em sua voz ponderada, seus olhos pousando em Frigga. Ela sorriu com certo orgulho. – Minha rainha cometeu traição? – Estava decepcionado. Magoado. Eu precisei reprimir uma risada.
– Você realmente esperava que eu deixasse meu filho em Valhala? – Ela revidou com certa indiferença.
– Se esta é a ordem de seu rei, sim. – Respondeu, visivelmente irado. Seu olhar percorreu atentamente nosso exército. Tantas criaturas diversas esperando para lutar. Uma falha dele bastaria. Poderia ter Gungnir bem a mão, mas não daria conta. Ele percebeu muitos de seus próprios súditos entre nós. Odin tinha uma insurreição bem debaixo de seu nariz e não havia mais como nos parar. Então seu único olho me encontrou, encarando-me de cima com indiferença. Sustentei seu olhar com firmeza. – Achei que zombasse de seu irmão por se misturar com mortais. – Comentou com Loki, como se falasse do tempo.
– Alguns valem mais do que certos deuses. – Rebateu com frieza. O homem ergueu a sobrancelha com indiferença. Eu quase podia ver como ele se sentia acuado, seu cérebro trabalhando numa saída para aquele problema que éramos.
– Que seja. Frigga quais são os termos? – Questionou, finalmente reconhecendo que não havia como dar um fim pacífico a nosso ataque. Estávamos impostos ali por nossos números. Não havia o que ele pudesse fazer para nos rechaçar que não fosse iniciar uma batalha nas ruas da cidade. Antes de seu orgulho ele era um rei e contávamos que pensasse no bem de seu povo.
– Jane Foster e Liana Schroeder viverão em Asgard como se aqui tivessem nascido. Nada vai faltar a elas. – A rainha começou a barganhar com firmeza e segurança. – Meus filhos terão suas honras restituídas pelas mãos do rei e viverão em paz com quem julgarem melhor. Todos os envolvidos ganham absolvição em todo e qualquer crime de seu histórico e garantia de segurança. Esses são os termos.
– E se eu me recusar? – Revidou rapidamente.
– Vamos somar um mais um, caolho. – Tony falou alto. – Se você se recusar eu e os amiguinhos da minha irmã vamos fazer uma grande festa e você, — apontou com uma expressão muito irônica. – vai ser o convidado de honra.
– Pai, pense nos asgardianos. Temos soldados dos Nove Reinos ao nosso lado. – Thor falou, segurando a mão de Jane.
– E das Terras Desconhecidas também. – Farbauti completou. – Odin não existe versão disso onde as coisas possam dar certo para você. Acabou. – Eu me mantinha quieta, tentando controlar um sorriso. Loki parecia ter a mesma dificuldade.
O velho por fim suspirou. Ele sabia que ter os Nove Reinos contra Asgard de uma única vez, não seria nada vantajoso. Seria derramar sangue asgardiano por puro orgulho. Encarou Frigga com firmeza, parecendo muito decepcionado, quase como se pedisse seu apoio. Ele estava sozinho. Por fim encarou Loki.
– Eu os receberei de volta a Asgard. – Iniciou, provocando ovações da multidão. O rei os silenciou batendo o longo cetro no chão. – No entanto ao menor deslize serão sentenciados a morte. Sem julgamento.
– Eu aceito. – Loki concordou, sua expressão de vitória muito clara.
– Ainda não terminei. – Alertou. — A Bifrost permanecerá lacrada para que nenhum habitante de outros reinos entre em nossas fronteiras. Se Heimdall possibilitar a passagem será executado sem julgamento. – Explicou. O guardião assentiu muito tranquilamente. Vi Banner falar algo em um sussurro a um Tony muito nervoso. Odin continuou a falar. — Loki jamais poderá ascender ao trono, mesmo que o primeiro na linha de sucessão abdique ou morra. – A expressão do moreno se alternou para o desafio e a raiva. A minha própria não devia passar muito longe disso. – Tampouco deverá deixar descendentes. Sua linhagem se encerra em você. – Afirmou. Loki me olhou pelo canto dos olhos. Eu dei de ombros com indiferença. Ele sorriu. Apesar de nossa conformidade Frigga e Farbauti pareciam ensandecidas. O velho as olhou com frieza fazendo-as calar. — Jamais deverão portar armas na presença do rei. E esses são os meus termos. – Declarou enfim, se recostando ao trono.
Sem armas estaríamos sempre indefesos diante dele. Mas os termos de Frigga deveriam garantir paz. Ele estava garantindo a própria segurança? Não parecia ser o caso. Queria nos intimidar. Loki estreitou os olhos, firmando a mão em sua própria lança antes de falar.
– Nós concordamos com os termos. – Concluiu enfim. O rei assentiu a contragosto. O salão explodiu em gritos de guerra e comemorações. Os meus próprios em meio aos deles. Me joguei nos braços de Loki, fazendo as armaduras retinirem com o choque. Ele me beijou, mas eu mal conseguia corresponder de tanto rir. Ele riu também.
– Liana Schroeder e Jane Foster. – A voz de Odin se fez ouvir novamente. Todos pararam e se voltaram para ele. Ergui a cabeça o encarando em desafio. – Digam, qual a natureza de vocês?– Questionou. Franzi as sobrancelhas e troquei um olhar com Jane sem entender. O que ele queria dizer com aquilo?
Frigga caminhou para perto de nós e parecia muito incomodada. Aquilo não podia ser boa coisa. Nos olhou firmemente e começou a falar.
– Elas nem sequer sabem o que isso significa. – Argumentou. Loki se aproximou de mim, parecia impaciente com sua habitual indiferença, assim como Thor que olhava o pai muito seriamente.
– Diga a elas então. Seus termos diziam que elas seriam tratadas como se aqui tivessem nascido. Quero saber a natureza delas. – Afirmou, num tom venenoso. Franzi as sobrancelhas olhando para Loki que me encarava de volta seriamente.
– Todos tem uma natureza que o define. – Frigga começou a falar, visivelmente a contragosto. Algo não parecia ir bem. — Odin, O Pai de Todos. Thor o deus da força e dos raios. Como uma alcunha, algo que as preceda. – A deusa explicava, de costas para o marido. Nos olhava em alerta. A resposta era importante e ela parecia estar indicando isso. — Que nos diga quem são. Assim é escrita a história de Asgard, por meio dessas alegorias ridículas. Algo bobo, ultrapassado e desnecessário. – Falou alteando a voz. – Qual a natureza de vocês?
Desviei os olhos para Loki quase num pedido de socorro. Não sabia o que dizer. Ele parecia não dar muita importância aquilo, mas Odin dava. As palavras de Frigga se misturavam em minha mente. Algo que me precederia. Era ultrapassado e desnecessário, mas me precederia. Era cultural. Que dissesse quem eu era. Quem eu era? Olhei para Jane e ela parecia estranhamente tranquila.
– Minha natureza é o conhecimento. – Afirmou em voz alta. Claro. A inteligência de Jane era muito acima da média. Era realmente a cara dela. Sua inteligência já a precedia. Os olhos da sala se voltaram a mim, pacientemente.
A rainha havia dito que deveríamos impressionar. Não demonstrar fraqueza. Como se sendo humana, era inerente a mim? Tínhamos apenas a palavra de Odin para firmar nosso acordo. Não havia nada que de fato garantisse que as coisas correriam como ele dizia. Eu precisava de algo que servisse de ameaça velada. Ergui os olhos para Loki e ele levantou as sobrancelhas. Ele não dava a mínima para aquilo. Por algum motivo isso me deixava mais a vontade. Loki era a trapaça. Quem eu era? Impulsiva? Explosiva? Senti a vontade estraçalhar Odin voltar por me colocar numa situação como aquela. Por ter feito tudo dar tão errado, vidas tinham sido descartadas pelo orgulho dele. Tínhamos sofrido. Todos nós. Eu poderia mata-lo por isso. Por tudo isso. Então me ocorreu. Como se eu sempre tivesse sabido. Eu sabia o que era inerente a mim. Era útil, marcante e memorável. Um aviso constante. Mesmo para Loki com sua natureza. Encarei Odin estreitando os olhos.
– Vingança. – Falei com minha voz alta e clara. – Minha natureza é a vingança. – Afirmei muito segura do que eu dizia. Ouvi Tony soltar um longo assovio admirado. O rei ergueu a cabeça me analisando atentamente. Vi um sorriso maldoso se formar nos lábios de Loki. Mesmo Frigga e Thor sorriam. Era clara minha ameaça implícita. Eu jamais poderia ser outra coisa. Tinha chegado até ali por amor, mas também por vingança. O rei assentiu com uma expressão rígida.
– Estão dispensados. Os não asgardianos devem deixar o reino imediatamente. – Odin afirmou finalmente.
Corri abraçar os Avengers e meus aliados. Agradecia a tantos quanto podia com toda atenção que eles mereciam. Odin era obrigado a assistir nossa alegria. Todos afirmavam que lutar ao nosso lado tinha sido uma honra. Que se novamente precisássemos estariam prontos para voltar ao combate. Em meio às conversas e risadas, começamos a rumar para fora da sala do trono.
Chegamos a Bifrost e Heimdall guiava os soldados em grupos de dez em dez. Aquilo poderia levar muito tempo. Vi Farbauti trocar duas palavras muito breves com Frigga, lançar um último olhar a nós que assentimos gratos e seguir junto com as outras pessoas. Tony e Banner não poderiam ficar muito mais. Eu os abracei sem falar nada. Não precisava falar. Meu irmão passou as mãos nos olhos e por fim, puxou a coberta de Banner secando o rosto.
– Escute Lia, isso foi fácil demais. – Ele falou me encarando. Eu assenti. No fundo tinha a mesma impressão. Loki ouvia atentamente. – Não se descuide perto de Odin. Evite ficar sozinha com ele.
– Eu sei... também achei estranho. – Afirmei. Odin podia ter se sentido acuado, mas concordar dessa maneira... Eu não confiava nele e a expressão de Loki me dizia que estava certa nisso.
– Ele não cedeu por simplesmente aprovar a ideia. O seu desafio a ele pode o tornar ainda menos agradável. – Banner acrescentou. Loki passou a mão pela minha cintura.
– Ele não vai chegar perto dela. – Afirmou. Tony pegou a mão dele e a afastou de mim.
– Esperem eu ir embora, por favor? Obrigado. – Ironizou me fazendo rir. – A questão não é ele chegar perto, mas você fazer alguma das suas e a expor. Só quero te lembrar que temos o Hulk. – Concluiu apontando para Banner que abaixou os olhos, envergonhado. O deus estreitou os olhos de uma maneira desafiadora com os lábios contraídos de deboche, mas nada disse.
– Ok irmãozinho, agradeço muito, você é um amor. Vai para casa logo. – Mandei o empurrando pela cintura. Bruce riu da expressão indignada de Tony.
– Vamos embora antes que ela me deixe emotivo. – Resmungou. Aquilo me fez rir.
– Eu vou visitar. Só preciso de um tempo... para entender como as coisas vão funcionar. – Murmurei para eles. Minha família estava em Midgard e eu não pretendia abandona-los. Era uma mudança e não um adeus.
– Dê um jeito de mandar notícias. Se perdermos contato por tempo demais, vamos invadir. – Banner disse no mesmo tom. Assenti grata. E então os deixei irem junto com os soldados. Um suspiro pesado me escapou, mas Loki colocou a mão em meu ombro afastando a melancolia. Foi inevitável sorrir.
Acompanhamos com o olhar durante muito tempo enquanto guerreiros atravessavam. Alguns acenavam antes de irem. Não havia como agradecer a todos, então eu simplesmente acenava em resposta. Estava tão envolvida naquilo que não percebi Loki e Frigga conversando mais afastados. Após alguns minutos eles vieram a mim.
– Sua perna? – O deus me questionou. Dei uma olhada distraída.
– Não dói mais.
– Mas precisa de curativo. – Afirmou. Era obrigada a reconhecer que sim.
– Jane já está na sala de cura com Haya. Seria bom que fossemos para lá. – Frigga disse. O corte no rosto dela, não tinha aquela aparência vermelha e sangrenta que teria em carne mortal, mas ainda assim precisava de alguma atenção, assim como eu imaginava que a flechada de Loki precisasse.
Começamos a nos dirigir para o palácio, passando pelas filas de guerreiros que ainda aguardavam sua vez de regressar. Meus olhos correram de todas aquelas pessoas de diferentes raças e reinos, para o abismo de onde o mar asgardiano terminava e pousando enfim na fachada da cidade e no enorme palácio. Eu nunca tinha tido tempo de realmente apreciar aquele lugar. Loki não reprimiu o sorriso ao notar minha admiração. Me virei sorrindo para ele, enquanto caminhávamos pela ponte.
Eu estava ali de verdade. Ele estava ali. Nada poderia me deixar mais feliz que aquilo. E nem mesmo a ordem que Odin daria horas depois decretando que nenhum cidadão asgardiano tinha permissão de ir a Midgard, poderia acabar com aquela alegria. Mesmo ele planejando nos fazer prisioneiras em Asgard. Eu estava com Loki novamente e lidaríamos com Odin, Fury, ou o que viesse quando viesse. Mesmo meu tempo. Era curto e breve, mas eu faria o melhor que podia com ele e Loki precisaria fazer o mesmo. Eu tinha feito coisas grandes demais para que algo tolo como o tempo, pudesse me tornar menos que uma lembrança e eu sabia disso. Trapaça e vingança. Estávamos juntos contrariando todas as possibilidades. E nada mais importava.
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