God of Mischief | Loki
33 Capítulo 30: Punição
Notas iniciais
Loki entrou mancando pela Sala do Trono. Frigga vinha a sua frente os olhos focados no marido. Assim como os do deus da trapaça que o encarava com o escárnio pronunciado. Ele mal continha o sorriso de deboche. O ódio que fervia, ele continha bem. Farbauti e Frigga quase haviam suplicado para que não colocasse tudo a perder. Para que pensasse no que tinha a perder. Ninguém precisava o lembrar. O tempo estava correndo.
Parou diante do trono do Pai de Todos. A mãe subiu os degraus e parou ao lado dele, com uma expressão tensa. Era cômico como a mulher certa dobrava um homem. Ele estava ali porque Frigga jamais perdoaria Odin se o banisse ou qualquer coisa pior. Ela era sempre sua advogada e sua barganha.
Thor estava do outro lado. O irmão moveu os lábios formando uma palavra. Reverência. Loki poderia ter arrancando Mjolnir de suas mãos e acertado a cabeça dele até seu cérebro voltar para o lugar. O rei o olhou de cabeça erguida. Ele sentiu a bile subir até a garganta. A deusa franziu as sobrancelhas, quase pedindo.
Por fim o moreno curvou-se. Lentamente. Sem, no entanto abaixar os olhos ou a cabeça. A expressão de escárnio permanecia. Escarnecia-se do gesto de reverenciar àquele homem. O fazia por conveniência. Os fins justificavam os meios.
– Loki Laufeyson. – O velho disse numa voz retumbante. Frigga desviou o olhar quase como se ele a tivesse batido. Detestava ouvi-lo ser chamado assim. Há muito ele tinha deixado de se importar. – Retorna a minha presença após clara desobediência a seu rei. O que tem a dizer em sua defesa?
– Nada. – Respondeu como Frigga tinha tão insistentemente lhe dito para fazer. Não entanto sem conseguir esconder uma expressão de indiferença. – Mesmo por que não faria a menor diferença. – Deixou escapar, com um sorriso maroto a brincar nos lábios. A situação era absurda, mas ele debocharia da autoridade daquele homem enquanto pudesse.
– Sem nada a dizer em defesa e espera que eu o receba de volta em meu reino? – Questionou o alfinetando. Loki respirou fundo. Sorriu contraindo o rosto em um gesto irônico.
– Exatamente.
– Você deve ser capaz de entender que já excedeu em muito tudo que eu poderia tolerar. Tudo que Asgard poderia tolerar. Você precisa e será punido.
– Meu rei... – A mulher chamou com urgência. A expressão do homem tornou-se suave, enquanto se virava para olhá-la. Uma doçura que Loki raramente tinha visto em sua direção. Talvez quando muito pequeno.
– Você sabe que ele vem quebrando mais regras e ordens do que podemos contar. Tudo tem um limite... – Ele dizia ponderado, até ser interrompido pela mulher que se atirou a seus pés, agarrando-lhe a capa. Sem nenhum pudor. Despindo-se de honra ou dignidade. Um gesto simples de humilhação e súplica. Loki e Thor desviaram os olhos. O moreno tremia. O velho se levantou de um salto a pondo de pé pelos ombros. A olhava horrorizado. A envolveu em um abraço, beijando-lhe a têmpora. – Não assim... – Pedia. Parecia outro homem quando falava com ela.
– Eu vou morrer se fizer isso... por favor... – Ela choramingava, o rosto escondido no pescoço do rei. Os irmãos se entreolharam. Ambos tinham expressões duras como rochas. Custava-lhes não intervir. Mas ela havia dito para não fazerem isso. Estavam ali para argumentar. Tinham como objetivo apaziguar a situação tanto quanto pudessem. E se Frigga achasse oportuno, falaria sobre trazer Liana. Nunca tinha falado com ela sobre a possibilidade, mas sabia que a ruiva concordaria. De qualquer forma Odin jamais permitiria que ele saísse de suas vistas novamente. Ainda mais com ela a seu lado. Estava atrelado a Asgard de uma maneira muito definitiva. Loki fechou as mãos em punhos.
– Olhe para mim, minha rainha. – O rei pediu, erguendo o rosto dela pelo queixo. Não ordenou. Nunca a tocava com ordens. A mulher tinha uma expressão sofrida no rosto. Vergonhoso. Mas perscrutava os olhos de Odin em busca do futuro. Um vislumbre que fosse. – Não vou puni-lo como teme. Mas ele será punido. – Falou firme. O rosto dela se anuviou, demonstrando confusão. Incerteza. E nada de bom podia vir da incerteza de quem vê o futuro.
Esperavam que houvesse algum castigo, mas pretendiam amenizar a situação tanto quanto fosse viável. Odin tinha tendência à tirania quando se via contrariado. O Pai de Todos virou-se para o bastardo.
– Sua humana cometeu muitos crimes. Mais do que eu imaginaria possível para alguém com tão poucos verões. Quantos ela tem? – Questionou num tom indiferente. Loki baixou a cabeça levemente, erguendo os olhos na direção do velho. Um gesto de desconfiança claro. Que rumo aquilo estava tendo? Liana não era o foco que deviam manter. Pelo menos não agora.
– Ela tem vinte e dois. – Respondeu numa voz calculada. Odin suspirou, sentando-se novamente no trono, embora ainda segurasse a mão da esposa.
– Como são efêmeras essas criaturas. – Comentou, olhando de relance para Thor. O loiro se fez de surdo. O pai sempre o alfinetava por Jane. – Ela perderia muito mais da metade de sua vida se fosse ser pun...
– Isso não está em questão. – Loki cortou frio, num rosnado. Se ele a ameaçasse, temia que pudesse perder a calma.
– Ela pertence à Midgard. Deve responder pelas leis deles. – Thor disse de um jeito mais suave que o irmão, tentando trazer o pai de volta ao que realmente importava no momento.
– Midgard tem leis falhas. Ela tem quem a coloque acima da lei. Eu deveria intervir... – Falou quase reflexivo. Frigga olhou apavorada para os filhos. Algo estava errado. O velho parecia mais interessado em punir Liana do que a Loki. Era quase como se ele nem estivesse ali. Se tentasse. Se pensasse. O deus da trapaça o mataria. De algum jeito. De qualquer jeito.
– Não. Toque. Nela. – O moreno rosnou, sua voz soando muito mais grave que o normal. Ele tremia de ódio. Imaginava quão prazeroso seria estripá-lo ali mesmo. Isso se tirasse a mãe do lugar primeiro.
– O que você estaria disposto a fazer a respeito? – O velho questionou. Loki ergueu o rosto em um gesto orgulhoso. Frigga acenava veementemente para que ele se calasse, para que engolisse o orgulho. Mais uma vez.
– Qual sua sentença? – Perguntou, tentando trazê-lo de volta a questão.
– Onze anos a serviço de Skuld para você. – Falou por fim, com a tranquilidade de quem comenta o tempo. Os olhos de Loki se arregalaram, para em seguida estreitarem-se em incredulidade. Frigga precisou se apoiar ao primogênito para não desabar. Onze anos em Valhalla. Seria a única criatura realmente viva. A única criatura que poderia realmente morrer. Lutaria por sua sobrevivência todos os dias. Sem tempo sequer para comer. A noite, durante as festas, estaria tão exausto que não faria nada além de engolir algo e dormir. Não era exatamente uma sentença de morte, tampouco exílio, já que ao fim da pena poderia regressar. Também não era prisão. Mas uma punição muito pior. Ele o estava sentenciando a menos tempo. Ainda menos do que o pouco que lhes restava. Loki preparou-se para argumentar. Preparou-se para lutar novamente. Preparou-se até mesmo para fugir. Engoliria o orgulho como cacos de vidro. No entanto não teve tempo de nada antes que Odin complementasse o que tinha a dizer. – Para Liana serão outros onze com Skeggjold. – Concluiu finalmente.
–Não! – Loki se ouviu gritando com Frigga e Thor a lhe fazerem coro. Onze anos. Quase uma vida para ela. Era humana. Era frágil. Quanto tempo daquela rotina poderia durar? Um mês? Ela enfraqueceria. Definharia. Se falhasse em defendê-la morreria ainda mais rapidamente. Ainda estaria com uma Valquíria diferente, o que não garantia que teria sequer a chance de protegê-la. Era uma guerreira, mas aquilo era demais para ela. Se seu corpo não sucumbisse, sua mente o faria. Quanto tempo a mente humana pode resistir a uma loucura como aquela? A noite poderia estar ferida e ele não saberia o que fazer. Ela não se recuperava rápido como ele. A sentença dela era de tortura e morte. Liana estava morrendo diante de seus olhos novamente.
Odin o olhava levemente surpreso. Talvez por não ter explodido. Não havia sentido. Precisava mais do que nunca de sua racionalidade. Frigga, puxava o marido pela roupa tentando lhe chamar atenção. Chorava copiosamente falando tão engasgada que mal se ouvia sua voz. Thor estava aos berros. Era quase impossível, entender o que falava por sua voz grave. Ou talvez os pensamentos do deus abafassem os sons ao seu redor. Eles conheciam a dimensão daquilo. A situação estava saindo de controle. Para muito, muito longe do planejado.
– Ela tem as leis de Midgard. Eles podem puni-la. Eles... – Loki dizia agitado, seu autocontrole beirando o fracasso. O velho bateu uma vez com Gungnir no chão. O silêncio se fez de imediato.
– Não confio nas leis midgardianas. – Constatou com frieza. – Mas se houver alguém disposto a ocupar o lugar dela... Algum campeão que se proponha... Posso permitir. A questão é servir como exemplo. – Acordou. Frigga tentava falar, ainda mais desesperada, mas o velho simplesmente a olhou numa ordem clara. Não a ouviria agora. Bastava de romantismo para ele.
Loki poderia ter rido. Thor jamais faria isso. Seria pedir demais. Ele tinha Jane. Frigga certamente faria, mas ninguém permitiria. Aquilo era um golpe. Odin havia planejado para que fosse daquele jeito. As sentenças formavam a idade dela. Um lembrete de sua juventude. De sua brevidade. Um requinte de crueldade. Aquilo era um golpe contra ele. A punição nunca tinha envolvido Liana. Mas envolveria se não fizesse como ele queria.
Lutar seria suicídio, viveria nem que fosse pela vingança. Negociar não funciona quando uma das partes não tem interesse. A fuga não era mais uma opção. Para onde ele a levaria? Odin atravessaria os Nove Reinos atrás deles e nenhum dos dois tinha nascido para uma vida como aquela. Poderia tentar explicar a ela... E a ver seguindo-o ao inferno com um sorriso no rosto. Não. Liana não. Odin sempre tinha sido problema dele. Ao final daquilo era muito óbvio que o plano do moreno voltava a ser o inicial. A ruiva teria sua vida de volta. Seguiria adiante sozinha. Uma casa, um marido, alguns filhos. Era o que a maioria chamaria de felicidade. Apesar de ouvir no fundo de sua mente que ela há muito tinha deixado de ser parte da maioria, era o melhor que poderia oferecer. Teria que bastar. Então se ouviu selar a própria sentença.
– Eu serei o campeão dela. – Loki disse por fim. Quem além dele, levantaria armas por ela numa situação como aquela? Ele estava salvando sua vida e a mulher jamais saberia. Não importava.
– Não! – Frigga berrou a plenos pulmões. O moreno a olhou com frieza. Temia por ela, apesar do amor visível que aquele monstro nutria. No fundo sempre havia acreditado que o homem jamais faria algo contra ela, mas nos últimos tempos vinha duvidando até mesmo disso. Ele se via numa situação em que não poderia proteger todos os envolvidos. Não podia permitir que ela se expusesse.
– Não, mãe. – Disse simplesmente. O velho o olhava sem se alterar. Fez um gesto simples para que Thor levasse a mulher dali. O loiro o encarou.
– Pai... – Arriscou, tentando chamar sua atenção. Queria ponderar. Trazê-lo a razão. O velho repetiu o gesto. Não haveria negociação. A sentença estava dada. O loiro nada pode fazer a não ser apoiar a mãe. Ele e Thor trocaram um olhar que poderia dizer mil coisas, enquanto ele saía da sala. Odin havia chegado a sua irredutibilidade. Nada o faria mudar. Ele tinha Gungnir. Ele tinha poder. Ele era o Rei. Quem lutaria por ele, um príncipe sem título? Não importava. Ela estaria em casa.
Seriam vinte e dois anos. Ela teria quarenta e quatro. Ele não poderia deixá-la esperando tanto. Liana faria alguma bobagem antes disso. Como tinham chegado aquilo? Ele poderia planejar uma fuga. Nem que fosse apenas para... para o que? De qualquer forma com Valquírias patrulhando seria loucura. Jamais daria certo.
Odin ainda o encarava. Superior. Impassível. Loki sempre soubera que aquilo era como tornar outra pessoa sua fraqueza. Ele havia cometido o erro que sempre jurara que não faria. Repetido o erro de Thor. Agora precisava arcar com sua falha. Por que tinha deixado aquela mulher se embrenhar nele daquela forma? Não fosse isso... ela... faria uma loucura. Qualquer uma.
– Quanto tempo? – Perguntou sem se afetar.
– Skuld chegara em breve. – O rei afirmou com tranquilidade, levantando-se de seu trono. O moreno saiu sem o reverenciar. Saiu de cabeça erguida, lhe dando as costas. Se ela chegaria em breve era claro que tudo estava previamente planejado. Nunca tiveram chance de negociar. Assim que as portas se fecharam Frigga se jogou em seus braços surgindo de um corredor lateral. Thor vinha mais atrás. Chorava de maneira muito discreta.
– Eu vou matar ele! – Ela dizia tremendo pela fúria. Loki riu.
– Quem é você e o que fez com a minha mãe? – Perguntou numa sombra apática de seu humor. A mulher o abraçou ainda mais apertado. Estava tão desesperada que o assustava.
– Olhe para mim, menino. – Pediu com urgência. Suas sobrancelhas se franziram e ela soltou um gemido sofrido com o que viu. Nada bom. Aquilo o fez abraçá-la em resposta. Olhou para o irmão, por sobre a cabeça dela.
– Leve o elmo a ela. Diga que morri pelas mãos de Odin. Diga que lutei bem. – Pediu numa voz oca. Fazendo isso ela teria que se conformar. Teria que seguir adiante. Minaria qualquer esperança que pudesse ter nele, para que ela pudesse encontrar novas.
– Irmão... – Ele começou, mas Loki o interrompeu erguendo a mão. Thor o puxou em um abraço. Dramático. Como sempre.
– Pode fazer isso? – Questionou, apertando a mãe que soluçava. O loiro hesitou. O réu o puxou pelo braço exigindo resposta. Por fim Thor assentiu. O elmo estaria no quarto dele quando subisse. – Mãe? – Chamou num tom gentil. A mulher levantou o rosto inchado. Ele não precisava dizer. Ela sabia.
Uma mãe luta por seus filhos. Ela havia feito de tudo por eles. Não se arrependia. Faria mais. Faria pior. Uma mãe pode ser uma criatura de forças e poder incontroláveis. A deusa entre elas mostraria o que significava sua alcunha. Traria seu filho de volta. Amava o marido, mas seus filhos estavam acima de qualquer coisa. Mesmo dele. Odin havia criado um monstro. E no momento em que Skuld entrou pelos portões e levou seu menino para longe, com um pedido triste de desculpas por não gostar do que fazia, o monstro que ela era gritou como um animal ferido. Gritou em fúria. Gritou em dor. Em desespero. Mas um desejo pulsante lhe escapava dos berros desesperados e das lágrimas ardidas.
Existiam duas pessoas que ergueriam armas a seu lado. O destino não é fixo. Assim como ela moldava fatos para garantir que acontecessem, poderia moldá-los para evitar algo. Quando uma mãe não pode proteger seu filho, todos os sentimentos se vão. Todos, de uma única vez. Com exceção de um. Vingança.
–---------------------------------------------------------------------------------------------------------
Steve não falava comigo desde aquele dia. Eu não podia obrigá-lo, mas admito que me sentia incomodada com a situação. Acho que eu tinha pegado pesado demais. Ele realmente achou que tinha tentado o suicídio. Não se jogou atrás de mim, apenas por ter me visto desaparecer no ar. Pelo menos foi o que ele disse a Tony. A S.H.I.E.L.D. nunca soube o que aconteceu. A casa tinha isolamento acústico eletrônico para as festas e testes de Tony não chamarem mais atenção do que o necessário, então qualquer som acima de uma faixa de frequência era abafado. E isso incluía o explosivo com que destruí a cerca da varanda. Mas Steve sabia bem o que eu tinha feito. Ambos sabíamos que mais cedo ou mais tarde ele relevaria aquilo. Mas ainda não parecia o momento.
Jane estava em New York há mais de duas semanas. Não passava um único dia sem que eu fosse ao laboratório na Stark Tower. Era um dos poucos lugares onde agentes não me seguiam. Ela não se importava. Trabalhava avidamente. Estava realizando pesquisas com ‘’ fontes de energia renovável’. Me explicava as etapas e cada cálculo que realizava. Eu quase não entendia, mas adorava ouvir. Me dava a sensação de que as coisas andavam mais depressa. Selvig, Darcy e Ian eram presença constante. Eu gostava deles, apesar de Selvig ter certo medo de mim. Às vezes Bruce aparecia para uma pequena consultoria. Anong costumava vir junto e me trazer desenhos ou doces. Eu e me velha mania dos cupcakes a retribuíamos.
Eu e Jane nos dávamos bem. Muito bem na verdade. Era cômico que isso pudesse ser possível. Conversávamos banalidades com frequência. Falávamos de assuntos mais sérios, apenas quando estritamente preciso. A preocupação estava sempre no fundo de nossas mentes, não precisávamos trazê-la à tona. Estávamos ficando muito amigas apesar das diferenças. Quem nos entenderia melhor além de nós mesmas?
O problema eram as horas fora daquele laboratório. Minha rotina de treino estava bem mais suave passadas as Olimpíadas. Em compensação, as pessoas pareciam achar que eu tinha virado modelo. Em duas semanas devo ter feito sete campanhas que iam desde tênis esportivos, o que sempre tinha sido comum, a marca de sabão em pó, o que definitivamente era esquisito. Acho que a mentira sobre o coma, combinada ao ouro e meu sobrenome me tornaram mais popular que o normal.
Quando não estava treinando ou fazendo campanhas, me dedicava a um novo hobby. Eu nunca tinha imaginado que poderia gostar tanto de violino, mas eu gostava muito. Não era como um arco, mas eu estava pegando o jeito. Talvez um dia aprendesse a fazer aquilo realmente bem.
Era assim que eu vinha preenchendo aquelas duas semanas. Ou quase. Sempre sobrava um tempo. Os minutos no chuveiro. Aquela meia hora angustiada antes de pegar no sono. Eu ainda precisava dos remédios que Banner tinha me indicado. Continuava estranhando a falta da cicatriz na perna. E a sua falta me lembrava de uma muito maior. Tão infinita quanto seu tempo.
As notícias de seu estado de saúde chegavam a mim diariamente. Geralmente em um pergaminho com uma letra garranchosa e palavras breves. Deduzi que era a letra de Farbauti. Sua mão era muito grande para permitir que segurasse algo similar a uma pena de escrever. Eu imaginava que devia ser uma pena, pelo menos. Mas desde o dia anterior eu não recebia nada. Nenhum ‘’está bem’’. Nenhuma letrinha. Nada. E aquilo acabava com meus nervos.
Odin estava lá fora, apenas querendo um motivo para quebrar o pescoço dele. Como eu poderia ficar tranquila? Jane tinha me dito que talvez ele tivesse regressado a Asgard e por isso as mensagens tivessem parado. Eu duvidava. Se ele tivesse regressado alguém teria dito. Se nada chegava era por que algo estava acontecendo. E por isso eu vinha me preparando. Acho que estava ficando ainda mais louca do que certamente já era.
Aquela manhã não fui treinar. Ao invés disso fui ao quarto e peguei minha mochila de metal que se abriu no arco e aljava metalizados. Puxei e a corda de luz azulada se mostrou com perfeição. Tirei todas as flechas e as verifiquei. Arranhadas e alguns cartuchos explosivos vazios, tornando-as projéteis comuns. Precisava recarregar com Tony.
Me sentei no sofá com Jinggles se enroscando em meu colo e teimando em deitar em cima das flechas, enquanto eu polia e ajeitava tudo. Assim que terminei, guardei-as e coloquei a mochila nas costas. A deixaria no porta-malas do carro. Por mais que viesse até mim se a invocasse usando as pulseiras, preferia que estivesse o mais próximo possível. E depois de romper a lataria de um avião eu imaginava que a de um Jaguar seria muito mais simples.
Acariciei meu gatinho que me espreitava com seus grandes olhos verdes. Achei que ele quisesse comida, mas não prestou muita atenção quando servi a ração úmida em seu pote. Continuava me encarando. Sorri para aquela bolinha preta, enquanto saía.
– Eu sei. – Disse fechando a porta. Ele gostava de Loki. Era um gato esperto.
Os agentes não se esforçavam mais para serem discretos. Me seguiam descaradamente, falando em seus celulares e vez ou outra me ajudando a carregar compras ou alguma coisa pesada. Uma vez vi o rapaz que tinha me ajudado entre eles. Ele sorriu para mim quando percebeu meu olhar em sua direção. Teria sido uma pena matar ele.
Era mais um dia como qualquer outro. Mas eu continuava inquieta, enquanto cumprimentava Happy na portaria. Mal ouvi a secretária me cumprimentar na recepção. Aquele não era o prédio dedicado à filantropia e patrocínios e sim o centro administrativo e de pesquisas da empresa. O que significava que ao invés de atletas por todos os lados havia empresários que, em teoria, trabalhavam para mim e insistiam em me cumprimentar como se a simpatia forçada fosse lhes conseguir uma promoção ou algo assim. Aquilo me deixava louca para chegar à tranquilidade do laboratório.
Porém a última coisa que eu encontraria era tranquilidade, embora ainda não soubesse disso. Jane já estava lá, medindo frequências magnéticas e verificando dados de satélites. Deixei o chá gelado que sempre trazia para ela sobre a mesa e me sentei no lugar de sempre.
– Aconteceu alguma coisa? – Ela perguntou, bebericando o chá. Minha seriedade devia deixar bem claro.
– Ainda não recebi nada.
– Já pensou que... – Darcy, a única da equipe que estava presente, começou a falar com impaciência, quando ouvimos gritos no corredor. Por um segundo achei que pudessem ser agentes. Nos entreolhamos caladas e ficamos encarando a porta de vidro. E então para o choque geral Thor entrou no laboratório em sua armadura completa, com Happy aos gritos correndo atrás dele. Me perguntei como ele tinha saído da Bifrost, chegado à porta do prédio e passado sem ser notado pelos agentes que ficavam me aguardando. Bom, ele era um Avenger e isso devia bastar. Mas não para Happy.
– Não pode subir sem um crachá! Volte a recep...
– Cala a boca, Happy! – Eu e Jane gritamos em uníssono, correndo em direção ao loiro. Tive a impressão de que o segurança tentou falar algo, mas ouvi nitidamente quando Darcy o mandou cair fora. Jane se jogou nos braços do deus que se conteve em dar um beijo na cabeça dela. Os olhos azuis estavam fixos em mim, cheios de seriedade. Ele trazia o elmo de Loki nas mãos e nada do martelo. Acho que devo ter empalidecido uns dez tons porque senti Darcy me colocar sentada novamente.
Quando a cientista pareceu perceber a situação se afastou, olhando de mim para ele. Thor tinha uma expressão dolorida e cansada. Como se lhe custasse estar ali. Ele se aproximou de mim, estendendo o elmo. Eu o segurei com ambas as mãos trêmulas, encarando os chifres dourados e a decoração que reproduzia um touro. Ergui os olhos para o deus, sentindo o ar me faltar. Eu não era idiota. Sabia o que aquilo representava. Aquilo representava tudo desmoronando na minha cabeça. Outra vez.
– Como? – Foi a única coisa que fui capaz de perguntar. Não conseguia sequer chorar, apenas tremia tentando afastar o significado daquele elmo em minhas mãos. Minha voz não soava como deveria. Parecia abafada e estrangulada. Eu devia ter um grito desesperado a entalando.
– Não pudemos fazer nada... – Thor dizia num timbre oco, com olhar similar a voz. – Quando ele usa Gungnir... – Ouvir o nome do cetro me fez ganir como um animal ferido, finalmente me permitindo chorar tanto que me faltava o ar e eu mal enxergava, apertando o elmo nas mãos. Darcy, apertou meus ombros. Jane parecia incapaz de me olhar. Eu tinha estado certa. – Me desculpe. – Ele disse enfim.
Ergui os olhos para ele desejando seu sangue em minhas mãos. Como podia ter falhado? Ele estava ferido, como podia não o ter ajudado? Eu queria o sangue de Odin acima de tudo. Eu queria ouvir seus gritos ecoando acima dos que minha alma dava. Queria lhe destruir não apenas fisicamente. Queria que a dor não o deixasse jamais. O queria louco. O queria morto. O queria quebrado como eu. Queria o sangue de qualquer um que tivesse permitido isso. Onde havia estado Thor? Heimdall? Sif? Qualquer um! Onde havia estado Frigga?!
Me fazer aquela pergunta fez com que me silenciasse repentinamente. Onde estava Frigga? Depois de tudo aquilo... Depois de todas as lutas, todo o sangue derramado, depois do caos em que tinham me jogado, ela não vinha trazer essa notícia a mim? Eu não merecia o mínimo de esforço? Não merecia partilhar a dor?
Olhei atentamente para Thor. Ele encarava o chão com sua expressão dolorida... preocupada. Séria. Ele vinha ali com o elmo, me dizer que seu irmão estava morto. O irmão que ele havia protegido em batalha milhares de vezes. O irmão pelo qual ele tinha cometido traição ao lutar conosco. O irmão que havia crescido ao seu lado por muito mais tempo do que meu cérebro era capaz de atinar. Porém me dizia isso sem derramar uma única lágrima. Sem hesitar ou vacilar. Via eu me debater e nada. Nem um abraço. Uma mão no ombro. Nada.
Levantei e cambaleei na direção de Jane, deixando o elmo sobre uma bancada. Meu cérebro corria em dezenas de direções distintas. Talvez eu tivesse enlouquecido de vez. Era mais do que provável. Me apoiei ao lado dela, na segunda bancada, lágrimas grossas pingando do meu rosto. Eu tinha um raciocínio torpe em minha mente, fiado em uma lógica falha. Encarei Thor. Meu olhar era completamente doentio e eu tinha certeza disso.
– Me diga a verdade. – Pedi chorando, porém firme em minhas palavras. – Por favor me diz a verdade. – Insisti me aproximando dele. Ficando tão perto que tinha que olhar para cima. – Diga... olhando nos meus olhos... – Eu dizia tentando coordenar as palavras e a respiração. As lágrimas desciam em gotas grossas pelo rosto. Se ele estivesse dizendo a verdade eu estava acabada. – Diga para mim. Diga... que você viu seu irmão morrer... que você não fez nada.. que não sente nada. Me diga que Frigga não fez nada! Diga para mim! – Comecei a gritar. – Por favor me dê um motivo para odiar vocês. Me dê um motivo real! Mas não me deixe numa mentira. Me deixe odiar... – Ele ergueu os olhos para Jane, como se pedisse ajuda. – Thor! – Gritei por fim. Ele abaixou os olhos novamente para mim. Eu abaixei o tom de voz. Quase um sussurro. Beirava o calculismo e racionalidade que sempre via Loki usar, falando do mesmo jeito pausado dele. – Me diga a verdade. Me faça acreditar. Onde ele está?
Minha pergunta foi seguida pelo silêncio do loiro. Seus olhos, duas joias azuis, me encaravam esquadrinhando meu rosto molhado e meus olhos, dois buracos negros que refletiam a dor e o ódio. Ele tinha as sobrancelhas franzidas e parecia desconcertado. Fez menção de erguer os olhos para Jane, mas eu acertei um tapa com a mão espalmada em seu peito, exigindo sua atenção. E se seu silêncio significasse que ele estava me dizendo a verdade e eu concluindo coisas baseada no desespero? Os humanos tem a péssima mania de terem esperança.
Ele abriu a boca duas vezes como se quisesse dizer algo e a voz lhe faltasse. Estava escondendo algo. Eu sabia. Por fim fechou os olhos com força, por longos segundos. Eu mal respirava.
– Ele foi mandado a Valhala. – Falou a contragosto. Me deixei sentar numa cadeira depois de ouvir isso. Fechei os olhos por longos segundos, sentindo o alivio me percorrer como a cura de uma doença, o ar saindo em arquejos dos meus pulmões. Eu poderia matar Thor, por aquele susto, mas me aliviava tanto saber a verdade que minha propensão maior era a de dançar com ele.
Loki já tinha me falado daquele lugar antes, mas eu não sabia quase nada sobre. E foi então que a preocupação me atingiu novamente. Se o elmo estava ali, seu dono o tinha entregado. Se a mentira foi contada, alguém ensinou o que devia ser dito. E qual o motivo de um absurdo desses?
Thor aproveitou para se sentar em um banquinho perto de Jane. Ela tinha as mãos nos ombros dele que tocava uma delas com a própria, sem trocarem nenhuma palavra. Como eu os invejava. Darcy pigarreou.
– Café para o viajante das galáxias, chá gelado para a cientista apaixonada e para a arqueira descontrolada...? – Questionou tirando o jaleco. Ela sairia dali nos deixando à vontade para conversar. Apenas acenei para ela com displicência. Não queria nada. A não ser respostas.
Assim que a porta se fechou limpei meu rosto com as mãos. O deus me olhou seriamente. Jane segurou minha mão, com expressão penalizada.
– Me explique tudo. – Pedi firme.
– Liana, você não pode fazer nada. – Ele começou num tom gentil. Podia lhe dar um tapa. – Ele próprio não quer...
– Não me diga o que eu posso ou não fazer. – Disse o interrompendo. Estava cansada de todos me jogando de um lado para o outro conforme suas vontades. Eu não era um brinquedo. – Agora que eu sei que tem algo errado, não pode esperar que eu me deite e tire um cochilo. – Disse a ele de um jeito ponderado.
Então ele, com um suspiro longo, iniciou sua narrativa sobre os acontecimentos em Asgard. Finalmente eu estava sendo atualizada de tudo. Eu e Jane o interrompíamos com perguntas e ele as respondia sem tentar se desviar. Havia desistido de ocultar a verdade. Nos explicou sobre o retorno de Frigga, sobre a luta de Loki e Odin, sobre seu julgamento e por fim a sentença. Eu não sabia o que dizer. Não sabia direito nem o que pensar. Valhala era um dos piores lugares para alguém vivo estar. E por vinte e dois anos. A crueldade disso era palpável. O que eu faria? O que eu podia fazer? Como eu poderia me opor a Odin em algo assim? Pela primeira vez eu não via saída. Os humanos tem a péssima mania de terem esperança. O problema era que eu não fazia ideia de onde a minha tinha ido parar.
Thor encerrou sua fala me explicando o que Loki havia feito. Eu precisei fechar os olhos por longos minutos, para conseguir absorver a magnitude daquilo. Eu havia sido usada contra Loki. Eu era sua sentença e a arma que a executava. Senti vontade de me encolher no chão e chorar até me desmanchar. Eu teria ido com ele. Teria atirado flechas pelos próximos onze anos se pudesse fazer isso o tendo ao alcance da minha mão. O deus tinha me protegido. Ambas as alternativas que Odin havia oferecido o agradariam. Loki havia escolhido aquela em que considerava que eu sairia menos ferida.
Aquele velho havia largado a fera que eu mais temia em cima de mim. Era como ser atacada pelo Tempo novamente. Os minutos correndo na pressa de me levar para longe dele e perto da morte. O que ele tinha feito... Quem faria aquilo por mim? Mas a pergunta mais importante agora era o que eu poderia fazer? E com esse pensamento abri os olhos.
– Jane? – A tirei de seus próprios devaneios. A mulher trouxe os olhos castanhos aos meus. – Você consegue Valhala? – Perguntei fazendo o casal me olhar como se eu fosse maluca. Eu era.
– Eu precisaria refazer cálculos, precisaria de tantos dados... Deus... E o que você faria lá? – Questionou enfim. Desviei os olhos. O que eu faria?
– Fugir. – Disse como se algo se pressionasse contra minha garganta. A ideia me soava horrível. Não importava. – Não sei, Jane. Qualquer coisa.
– Qualquer coisa? – Ouvi uma voz suave dizer ao meu ouvido, num sussurro. Eu sabia a quem pertencia no mesmo instante. Thor e Jane pareciam tão surpresos quanto eu. Após um segundo de choque, um sorriso se formou em meus lábios.
– Qualquer coisa, Frigga. – Confirmei. Algo como uma sombra, um espectro enevoado e embaçado do que ela era se fez presente. Os cabelos loiros estavam livres dos complicados penteados, chegando abaixo dos quadris. Mesmo estando desfocada, suas olheiras era visíveis. Parecia cansada e, me atrevo a dizer, estranha. Bélica. E isso não era algo que eu pudesse imaginar que combinaria com ela. Mas combinava. Muito.
Aquela aura de poder que eu sempre tinha sentindo emanar dela parecia diferente. Estava livre de toda doçura maternal. Era como uma fera enjaulada querendo sair e se banquetear de seus captores. Frigga era, naquele momento, a mãe que via sua cria exposta. Eu não me arriscaria a ficar no mesmo lugar que ela se tivesse parte naquilo. Certamente ela devia ser a criatura mais ameaçadora nos Nove Reinos. Pelo menos assim eu a sentia. E assim ela me inspirava.
Levantei e caminhei até seu espectro. Não era uma viagem astral, pois estávamos acordados. Mas não era material tampouco. Devia estar em Asgard, sem poder sair e havia encontrado esse meio. Loki tinha tido em sua mãe, sua mentora. Frigga me encarou com seus olhos ferinos e eu sustentei seu olhar com o meu próprio. Depois de meses nos reencontrávamos. Ela havia planejado para que fosse assim. Tempos atrás eu a teria culpado por destruir minha vida. Hoje não precisávamos falar nada para saber que éramos aliadas.
– O que pretende fazer? – Questionei-a.
– O mesmo que você. Invadir Valhala.
– Eu pretendo mais do que isso. – Disse com um olhar de advertência. Se tivesse chance mataria Odin. Ela sorriu com suavidade, mas não me contradisse.
– Jane querida. – Falou virando para a mulher. A cientista e Thor haviam se posto de pé no momento em que ela se materializou, e agora ela se aproximou. – Se recebesse os mapas corretos, não os de Midgard, os corretos. Com precisão, com todos os dados, os cálculos que precisa e todo resto. Quanto tempo levaria para terminar seu experimento? – Perguntou. Os olhos da morena brilharam ao ouvir aquelas palavras. Aquilo poderia significar apenas boas notícias.
– Eu não sei... – Disse indo agitada a uma tela táctil e abrindo dúzias de abas. Ela as trocava, lendo trechos curtos, copiava fórmulas em um pedacinho de papel. – Tudo? – Perguntou perplexa. A rainha assentiu, fazendo a cientista voltar a seus cálculos. Alguns minutos inquietos se passaram. Thor olhava com atenção o que ela fazia, embora parecesse tão confuso quanto eu. Jane fez uma careta e começou a apagar tudo. – Não pode...estou errada..
– Jane! – Gritei impaciente. Cada minuto gasto ali era um minuto a mais dele em Valhala. Era um minuto a menos. A morena ergueu os olhos.
– Liana, eu estou errando os cálculos. Não pode estar certo! – Afirmou agitada, remexendo as abas na tela.
– E por que não? – Thor perguntou com gentileza.
– Porque, com base nesses cálculos, e tendo absolutamente tudo... Eu levaria um mês, talvez nem isso... Não pode ser. – Ela afirmou parecendo confusa. A deusa sorriu. Soltei o ar em arquejos pelos pulmões, me virando para olhar Frigga. Ela estava tornando possível o que achávamos impossível.
– Quando estivermos em Valhala, vai precisar ser rápida. – A deusa começou a dizer. Eu assenti. – O lugar é uma bagunça e você não vai querer se expor tempo demais. Entramos, o achamos e saímos.
– E vamos para onde? – Thor questionou. O olhei surpresa. Ele me ofereceu um meio sorriso. Estávamos falando de seu irmão afinal. O deus ajudaria.
– De volta a Asgard. – Frigga respondeu, fazendo com que Jane, que ainda insistia no erro de seus cálculos, levantasse os olhos tão surpresa quanto eu. Vendo nosso choque a deusa se apressou a esclarecer. – Quero minha família onde ela deveria estar. Em casa. E não se escondendo como animais.
– Mas Odin... – Comecei a questionar até ser interrompida por um gesto dela. Ela se aproximou de mim, olhando-me fixamente. Não sorriu como eu gostaria que tivesse feito, porém sua expressão tampouco parecia negativa.
– Cada coisa a seu tempo. – Disse simplesmente. Ela tinha um plano. Eu confiava nela. – Jane providencie tudo. Heimdall não pode ser envolvido e vamos precisar que dê certo. Thor querido, você deve manter seu pai ocupado com o reino e os exércitos. Algum caos seria bom, para que ele não tivesse tempo de reparar nas minhas atividades.
– E como vou fazer isso mãe? – Rebateu exasperado. Ela lhe deu um olhar de descrença.
– Você é irmão de Loki, vai arrumar alguma ideia. – Ela disse simplesmente. Não pude conter uma risadinha, que fez com que olhassem para mim. Por fim os outros três riram também. Loki era uma má influência. E estava nos unindo, embora não soubesse disso.
– Preciso de uma armadura. – Disse simplesmente. Eu tinha meu arco e ele me bastava como arma, mas precisava de defesa. Sabia que podia morrer nisso, mas enlouqueceria se não tentasse. O mínimo era ter uma boa armadura. Frigga assentiu.
– Quando tudo estiver pronto, avise a Heimdall. Ele vai me dar notícias. Vou esperar vocês com tudo que vão precisar. – Falou de uma maneira que me deixava cada vez mais confiante. Eu não sabia como lidaríamos com Odin. Mas ela sabia e isso me bastava. — O mais importante: Não demonstrem fraqueza. Sei que podem sentir medo, mas não deixe que ele note. Imponham-se. Intimidem da melhor forma que puderem. – Ela falou olhando fixamente para mim. Eu assenti lentamente, embora um arrepio me percorresse a espinha. Jane olhou incerta para Thor, que lhe ofereceu um sorriso. Ela era a mais indefesa entre nós. Daríamos um jeito. Não lutaríamos sozinhos. Aquilo me fez franzir as sobrancelhas. Não... Claro que não. Definitivamente não precisávamos lutar sozinhos. Odin não sabia o problema que tinha comprado.
– Frigga, eu preciso de uma coisa. – Pedi chamando a atenção. Ela se virou com certa curiosidade, um pouco do ar maternal de volta a seu rosto. Senti vontade de a abraçar. – Preciso que encontre uma pessoa e diga a ela o que vamos fazer. Diga que adoraria lutar ao lado dela mais uma vez. O resto ela vai providenciar. Pode fazer isso?
– Claro... – Respondeu um pouco confusa. – Heimdall, pode achar qualquer um. Quem é essa pessoa?
– Chama-se Haya.
– A Harpia. – Frigga concluiu dando um nome a raça da mulher-ave. Assenti. – Vou dizer a ela. Até que chegue o dia mantenham-se discretos. Vou mandar o que precisa ainda hoje Jane. Por favor, minha querida... – ela começou a pedir, antes de sua voz falhar. Pressa. Era o que queria pedir. Que Jane tivesse pressa. A cientista sorriu em resposta.
– Thor. – Chamei-o, entregando o elmo de Loki a ele. O deus franziu as sobrancelhas. – Não tem serventia para mim. Diga isso ao dono. – Pedi seriamente. O loiro sorriu o aceitando.
– Ele vai me matar. — Comentou, nos fazendo rir.
Nesse momento, Darcy retornou da rua e parou chocada ao ver o espectro de Frigga. Olhou para todos nós, por alguns segundos.
– Eu não comprei nada para ela! – Disse como desculpa. A deusa sorriu, seu espectro desaparecendo. A estagiária deu de ombros. – Ah então tudo bem.
Jane acompanhou Thor, até uma área aberta onde Heimdall pudesse levá-lo. Estávamos prontos. Logo tudo acabaria. De um jeito ou de outro. Odin mal sabia o que o aguardava.
–---------------------------------------------------------------------------------------------------------
Ele acertou um homem alto e musculoso com uma lança fina e correu subindo uma escadaria de um prédio em ruínas, ao redor o campo aberto era arriscado demais. Ali o espaço restrito tornava impossível um ataque de grupo ou que o pegassem pelas costas.
Estava suado e dolorido. Sua boca gritava por um pouco de água, mas não havia nada ali. Os suprimentos que recebia chegavam em seu alojamento no palácio das Valquírias, mas não se arriscaria a entrar durante o dia, com corredores apinhados de guerreiros. A noite poderia comer e beber e então retornaria aquelas ruínas para dormir. Não era seguro dormir dentro do palácio, já que pela manhã seria quase impossível sair sem perder a cabeça. Em quatro dias já odiava aquele lugar.
Dois guerreiros subiram as escadas. Um correu contra ele, um machado de duas mãos empunhado. O homem o arremessou, errando o rosto de Loki por alguns centímetros. O deus o empalou junto ao segundo homem que ainda armava uma besta. Lentos. Ambos se levantaram sorrindo, fizeram uma reverencia e desceram as escadas. Nunca se insistia num adversário. Se fosse derrotado deveria procurar outro.
O deus se encostou a parede, sentindo o estômago protestar. Afastou os cabelos do rosto suado, quando ouviu passos subindo a escada. Respirou fundo, repetindo aquilo que sabia que seria seu mantra nos próximos anos. Ela estava em casa.
Preparou a lança e quando se posicionou para receber o atacante, o som de um trovão invadiu o lugar fazendo as ruínas estremecerem. Apenas uma pessoa poderia fazer isso.
Thor subiu a escadaria aos pulos. Empurrou Loki para dentro do cômodo. Não havia telhado ou mobília ali e uma parede havia desabado parcialmente, deixando a luz do dia entrar. O moreno já havia aprendido a acordar com o sol em seu rosto o pondo em alerta.
Os irmãos se olharam por alguns segundos. Thor tinha um filete fino de sangue escorrendo na testa. Rapidamente tirou um odre que trazia amarrado a cintura, junto a um pacote com pães e os entregou ao mais novo, voltando a entrada para vigiar. Loki não questionou. Sentou-se no chão e encheu a boca com pão, enquanto ouvia o som de uma martelada.
– Você não era tão sentimental assim, Thor. – Comentou, antes de beber um longo gole. – Nem uma semana aqui e já vem me visitar? Vou começar a achar que amoleceu.
– Cala a boca e come. – Thor respondeu da escadaria, embora sorrisse. O som de metal contra metal se fez ouvir, seguido por um urro do deus e uma risada do adversário.
– E nossa mãe? – Perguntou dando mais uma mordida. Se preocupava em deixá-la sozinha. Na verdade não estava sozinha, mas depois da última vez que ela havia dependido do pai e do irmão ele não conseguia ficar tranquilo.
– Bem. Foi ela quem mandou...- O som de metal, um grito e risos. – ... o pão. – Complementou.
– Digno de um príncipe asgardiano. – Comentou com desdém. Mulher tola. Era a melhor refeição que tinha em quatro longos dias.
– Se não gostou eu levo de volta.
– Ah, eu jamais faria uma desfeita dessas com ela. – Rebateu, terminando com a água. – Mas você não veio aqui apenas para se divertir.
– Não. – Confirmou, voltando o corpo para dentro do lugar. Jogou para ele um dos círculos de sua armadura. Aquilo era símbolo de títulos e honras militares, mas o que ele trazia havia sido claramente transmutado por Frigga. Loki o manuseou por alguns segundos e com um floreio simples, o objeto se revelou à sua vontade. Expandiu-se e alargou, moldando-se como metal quente em forja, mudando totalmente seu formato e tornando-se dourado. Seu elmo. O deus o olhou perplexo por alguns segundos. Levantou-se e foi ao corredor, encontrando o irmão abatendo dois homens e uma mulher. Todos traziam lanças. O loiro se virou vendo sua expressão. – Ela disse que não tinha serventia para ela.
– Ela mandou ficar para você? – Perguntou num tom oco achando que ela tinha simplesmente se desfeito daquilo.
– Não, ela mandou te devolver. Disse que serviria melhor a você. – Concluiu simplesmente. Então tudo se fez claro. Liana sabia.
Antes que o loiro soubesse o que estava acontecendo foi atingido por um soco de Loki, que o fez cambalear. O moreno investiu novamente sendo rebatido por um chute na altura do tórax. Ambos se interromperam por um segundo para despachar um samurai e então voltaram a se socar.
– Se eu não contasse, nossa mãe teria feito! – Thor disse, se desviando de um golpe fluido. Sua sorte era a arma do irmão não permitir muitos floreios em um ambiente fechado como aquele. – Ela chegou pouco depois! – Esclareceu, fazendo Loki se refrear.
– O que ela vai fazer? – Perguntou, num tom baixo. Thor recuava nas escadas.
– Precisamos que esteja pronto para deixar Valhala, no final desse mês. – Disse. Loki franziu as sobrancelhas.
– O que? Como... Não! Ela não pode vir aqui! – Falou alarmado. Tentou correr atrás do irmão, mas ele estava do lado de fora a céu aberto. A luz colorida o envolveu. – Thor!
Precisou recuar apressado para o interior das ruínas. Haviam chamado muita atenção. Sua cabeça parecia um turbilhão. Entre um golpe e outro agora ficaria remoendo o que aquela louca inconsequente faria. Sua mãe tinha estado com ela. E Thor estava envolvido também. O que poderia vir disso? Ele havia confiado que poderia mantê-la em segurança e agora o quê? Ela viria até ali? Liana era atrevida, impulsiva, corajosa ao ponto da inconsequência. E ele não mudaria nada. Não poderia impedi-la de fazer o que quer que estivesse planejando. Ainda mais com Frigga envolvida. A única coisa que poderia fazer era estar preparado para quando viessem. Fosse para protegê-las. Fosse para morrer ao lado delas.
Fale com o autor