God of Mischief | Loki

32 Capítulo 29: Confiança


Notas iniciais
Minhas florees! Como estamos? Ainda não respondi todos os reviews anteriores, mas juro que vou fazer o possível! Muito obrigada aos que sempre comentam e muito obrigada aos esporádicos tbm! Fantasmas eu amo vocês tbm viu? So por estarem por aqui! o/ Dedico este capitulo a Ayara Wolf que fez uma recomendação linda! Obrigada mesmo! Digo e repito: Se você ainda não entrou no grupo do face, venha para ele! Logo teremos o Spin Off do Bruce e algumas novidades e assim vocês garantem que vão ficar sabendo. O link aqui: https://www.facebook.com/groups/385064741636249/ Divirtam-se! ''So excuse me forgetting, but these things I do You see I've forgotten, if they're green or they're blue Anyway, the thing is, what I really mean Yours are the sweetest eyes I've ever seen''

Dezenas de entrevistas em um único dia. Minha cabeça zunia. Talvez fosse efeito dos socos. O interessante era que o roxo intenso que deveria levar dias para sumir era agora um tom feio de amarelo. Muitos tinham perguntado quem havia me agredido, mas eu apenas respondia com a resposta breve dada pela S.H.I.E.L.D. para me poupar de pensar em uma mentira. Eu conseguia apenas soltar respostas ensaiadas, enquanto minha cabeça vagava aleatoriamente revivendo as últimas horas. Às vezes eu sorria sozinha. Às vezes chorava. As pessoas pareciam interpretar aquilo como uma atleta emocionada pela vitória após uma fase difícil. Ele estava vivo. Eu reviraria os Nove Reinos se precisasse.

Tony e Pepper tinham procurado serem discretos. Me acompanharam durante as entrevistas, mas nada falaram. Alguns queriam entrevistar meu irmão que se recusou. Ambos haviam levado Jane ao aeroporto, ela quis deixar o país antes que resolvessem intercepta-la e saber sobre o que tínhamos falado. Após seguiram para um passeio turístico, enquanto eu era levada de volta a vila olímpica. Deixaríamos o Brasil no dia seguinte. Eu sabia que tinham agentes me seguindo o tempo inteiro, mas não fazia ideia de que eram tantos. Eles deviam ter um problema sério dentro da organização para precisarem me neutralizar dessa maneira. Ou eu era muito temida, ou a organização estava muito enfraquecida para permitirem que eu deslizasse.

Me deixaram no apartamento e eu vi quando Fury passou num carro logo atrás de mim. Natasha Romanoff estava dirigindo tranquilamente. Senti meu sangue ferver, mas precisava me manter controlada. Domada. Até que eu e Jane pudéssemos nos libertar.

Era uma benção estar de volta à privacidade do apartamento. Poderia tirar a máscara que me ocultava por mais algumas horas. Mas agora ela ocultava felicidade, saudade e determinação. Angústia e raiva eram parte constante do pacote. Nenhuma novidade até então. Nenhuma novidade até eu acender a luz da sala.

– Liana. – Thor se pôs de pé. Ergui meus olhos, assustada. Invoquei meu arco por puro hábito, derrubando o de competição no chão. O deus parecia muito agitado. Entrei e fechei a porta, antes que alguém passasse no corredor e nos visse ali. Ele havia me esperado no escuro para não levantar suspeitas sobre a movimentação do apartamento enquanto eu estava ausente. Corri até ele de olhos arregalados.

– O que você está fazendo aqui? Loki? – Disparei, segurando o braço dele como se temesse que fosse sair correndo antes de me responder. Ele parecia ter tanta pressa que poderia fazer exatamente isso. Eu tinha passado o dia preocupada sobre a represália que Odin devia ter dado ao deus.

– Está vivo. – Garantiu breve. Seu tom de voz me fez sentir as pernas fraquejarem, então recuei as cegas me sentando no sofá. – Ele e Odin lutaram. – Aquilo me fez perder o ar. Meu olhar percorreu a sala, atordoado. Tentei me lembrar que estava vivo. Eu não podia perdê-lo. Não outra vez. Não agora.

– Muito grave? – Eu soava tão trêmula quanto minhas mãos.

– O bastante. Mas agora ele está em segurança.

– Onde ele está? Com quem? Por que isso aconteceu? – Cuspi as perguntas contra ele.

– Minha mãe está tentando acalmar as coisas. Eu preciso ajuda-la, antes que Odin resolva ir atrás dele. Fique tranquila. Se Odin sonhar que estive aqui com você, só vou piorar a situação, mas posso procurar por Jane para que ela lhe mande notícias. — Falou sem responder a nenhuma de minhas perguntas.

– Você disse ‘’minha mãe’’? – Repeti em choque. Frigga estava morta. Mas eu também tinha estado. Eu não estava entendendo mais nada. A única coisa que tinha certeza era que Loki estava muito ferido e eu não sabia como poderia ajuda-lo. – Thor, o que diabos está acontecendo em Asgard? Onde está Loki? Me explique direito!

– Jane vai te explicar tudo. – Falou caminhando para a varanda. Senti a força voltar às minhas pernas, me impulsionando atrás dele.

– Espere! Você não pode simplesmente vir aqui e me dizer meia dúzia de informações desencontradas e ir embora! Me explique!

– Eu não deveria ter vindo aqui. Vim apenas porque pensei o que aconteceria se fosse eu no lugar dele. Eu gostaria que Jane soubesse. Se eu parar para te explicar tudo, vou dar tempo para Odin ir atrás de Loki. É isso que você quer? – Falava depressa, entre a irritação e a pena. Eu empalideci diante da ideia do Pai de Todos o seguir para onde quer que fosse. Neguei brevemente. Thor franziu as sobrancelhas, penalizado. – Confie em mim. Procure Jane.

– Me leve com você! – Pedi numa voz aguda. O loiro voltou-se.

– Odin não te daria tempo nem para armar o arco. – Falou num tom de quem se desculpa. – Heimdall. – Chamou, sumindo repentinamente em meio a luz colorida.

Voltei para dentro da sala. Meus olhos correram pelo espaço, desnorteados. Loki estava ferido. Não devia estar em Asgard. Mas onde estava? Com quem? Ele sobreviveria? Qual era a gravidade? E Frigga estava viva? Como assim? O que diabos estava acontecendo? Eu precisava chegar até ele. Um único pensamento me mostrava o caminho para isso. Encontrar com Jane Foster.

Corri para o quarto enlouquecida, atirei as poucas coisas que eu tinha tirado da mochila de volta ao lugar. Compraria uma passagem para o próximo voo para Londres. Ligar ainda não era seguro, ainda mais para uma conversa como a que devia estar a caminho. Eu queria respostas e as teria. Tirei a medalha dourada do pescoço e a enfiei de qualquer jeito dentro da bolsa. Joguei a mochila nas costas, ao lado da aljava de metal e saí para o corredor.

Haviam dois agentes conversando próximos ao elevador. Pareceram surpresos ao me verem ali àquela hora e visivelmente pronta para ir embora. Eu devia deixar o país no dia seguinte em um jatinho da empresa. Mas isso era o que eles achavam. Eu tinha outros planos.

– Senhorita Stark. Volte para o seu apartamento, por favor. – O mais alto pediu firmemente. Meus olhos foram dele, para a porta da escada de incêndio que ficava um pouco mais próxima de mim. Ele percebeu e ambos os agentes levaram as mãos às pistolas. Eu sorri. Precisava dissimular mais uma vez.

– Ahn... Tony está em Copacabana. Eu queria sair com ele. – Falei numa voz doce. Eles afastaram as mãos das armas.

– Podemos ligar para o senhor Stark e pedir que venha buscá-la. Sozinha não podemos deixá-la ir. – O mais baixo afirmou, pegando um celular do bolso da calça. Eu não discutiria. Era óbvio que depois de hoje a vigilância ficaria mais rigorosa.

– Posso ligar? – Pedi numa voz suave. Ele assentiu me estendendo o aparelho. Fiz menção de pegar com a mão que carregava o arco. Eles estavam desconfiados e com razão. Eu carregava

coisas demais para quem apenas queria ir fazer turismo noturno. Sorri grata. Acertei o braço dele, com o arco usando tanta força que o som de osso se partindo encheu meus ouvidos. Um grito agudo escapou de sua boca, enquanto o outro agente tentava sacar as armas. Puxei uma flecha e mirei diretamente na cabeça dele. Chutei o braço quebrado do outro agente, sem olhar, o fazendo gritar novamente e tombar de lado. – Descarregue.

– Você vai se arrepender. – O homem afirmou, tirando os cartuchos de suas armas e os largando no chão. Fiz um gesto indicando que ele devia fazer o mesmo com as do outro agente. Assim que os quatro cartuchos estavam aos meus pés, os chutei para a extremidade do corredor. Chutei as armas para a extremidade oposta. Recuei até a porta da escada de incêndio, ainda mirando neles. Abri-a com um chute, desarmei o arco e desatei a correr. Pude ouvir o agente chamando ajuda pelo rádio enquanto reunia as peças das armas para tentar me alcançar.

Eu pulava lances de escadas inteiros, descendo em disparada. Sentia o sangue pulsar de verdade em minhas veias, como há dois meses não fazia. Corria com o arco meio armado. Estava muito viva. Abateria se fosse preciso, mas desejava sair dali sem me complicar ainda mais. Entre o décimo andar e o térreo não encontrei ninguém. Eu não corria. Praticamente voava. Eu mesma não esperava sair àquela hora depois de um dia turbulento como aquele. Passei por algumas tenistas colombianas que me encararam como se eu fosse louca. Assim que saí do prédio notei que o mesmo rapaz que tinha dirigido o carro para me levar a prova estava de guarda como se fosse um funcionário do evento. Nos encaramos por um breve segundo. Ele já tinha as armas em mãos, avisado pelo agente do corredor.

– Eu preciso chegar ao aeroporto. Você não vai me impedir. – Afirmei.

– Senhorita, eu vou enfrentar um inquérito se deixar que vá. – Me explicou com gentileza. Eu poderia matá-lo ali mesmo. Ele era jovem e inexperiente. Eu tinha muito mais prática do que ele. O acertaria antes que ele sequer tentasse. Não queria fazer isso, mas faria se precisasse. O único problema é que não tínhamos tempo para troca de ameaças. Ou eu o mataria ou ele me deixaria ir. Se perdesse tempo, o agente do corredor me alcançaria. Mais agentes viriam. Ele era jovem e inexperiente. Impressionável. Valia à tentativa.

– Me leve ao aeroporto. Você vai saber que não vou aprontar nada até lá. Se fizer isso eu consigo um autógrafo do Tony para você. – Falei oferecendo minha barganha falha. Para minha surpresa ele refletiu por um segundo.

– Quero uma foto com todos os Avengers. – Afirmou. Eu sorri, correndo para o carro preto estacionado em frente.

– Só acho que a do Hawkeye não vai ficar muito boa. – Afirmei, entrando no veículo. Ele riu baixinho e arrancou. – Se tentar me enganar, vou acrescentar sua cabeça aos meus números de agentes.

Era tarde e o trânsito fluía bem. Eu estava visivelmente agitada. O rapaz me olhava pelo canto dos olhos com curiosidade. Ele devia estar cheio de perguntas, mas tentava se controlar. Meus dedos tamborilavam nervosamente na janela. Meu cérebro ficava trazendo os piores pensamentos até mim. A preocupação se espalhava por meu corpo como veneno.

– Você vai para onde? – Perguntou enfim.

– Acha mesmo que eu vou te dizer?

– Só acho que devia comprar mais de uma passagem. Uma só é como deixar um bilhete com o endereço. – Explicou. Olhei para ele admirada.

– Você quer as fotos autografadas? – Ele assentiu. Ri nervosamente. – Vai ter problemas no trabalho.

– Eles não vão duvidar quando eu disser que você me ameaçou e eu não tive escolha. – Era um rapaz inteligente e seguro. Dobrava ruas e rodávamos repetidas vezes pelo mesmo lugar. Estava despistando. Circulamos durante uma hora e meia pelas ruas do Rio de Janeiro. Mesmo a noite a cidade não parava, com dezenas de barzinhos, restaurante e boates. Por fim chegamos ao aeroporto internacional. Desci do carro e joguei meu celular para o rapaz. Eu não sabia seu nome, mas era melhor assim.

– Jarvis. – O aparelho acendeu em resposta. – Agende uma reunião com os Avengers para esse rapaz. Contrate um fotógrafo. Garanta que as fotos sejam autografadas. – Comandei. Acenei para ele e corri para dentro do aeroporto.

Fiz como o agente tinha me instruído. Comprei nada menos do que dez passagens para os mais diversos destinos, todas saindo na próxima meia hora. No entanto não consegui uma passagem para Londres. O voo estava atrasado e sairia apenas na manhã seguinte. Eu iria a New York e de lá pegaria um jatinho para encontrar Jane Foster. Me sentia doente de preocupação. Loki era forte. Eu precisava acreditar que ele ficaria bem. Logo eu teria minhas respostas e notícias dele. Logo eu entenderia o que estava acontecendo em Asgard.

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Dez horas de viagem pareceram demorar o dobro. Não comi, nem bebi nada. Apenas ficava olhando pela janela, tamborilando os dedos nervosamente e sentindo falta do meu arco que não podia ser trazido como bagagem de mão. Ele havia se tornado parte de mim novamente e era muito estranho não o carregar.

Meu cérebro estava sendo bastante cruel comigo. Eu pensava nas coisas mais absurdas. Cheguei a me perguntar se ele ainda teria os dois braços e as duas pernas. Chorei em silêncio, o rosto colado ao vidro. Ele era capaz de se defender. Eu mesma tinha testemunhado sua fúria uma vez. Thor tinha me garantido que ele estava em segurança. Precisava confiar nele.

‘’Senhores passageiros vamos realizar o pouso dentro de trinta minutos. No momento está fazendo 24 graus e sem previsão de chuva. America Airlines agradece sua preferência e deseja uma boa estadia a todos.’’

Aquilo me pôs em alerta. Eu sabia que agentes deviam ter sido mandados para me interceptar em cada um dos aeroportos para onde comprei passagens. Eu não podia ser pega. Tinha um plano arriscado em mente, mas precisaria servir.

– Boa noite. – Cumprimentei o senhor ao meu lado, com um grande sorriso. Ele me cumprimentou em resposta também sorrindo. – O senhor me faria uma gentileza? Meu celular descarregou e preciso ligar para que me busquem no aeroporto. Poderia me emprestar o seu, por favor?

– Você não é a irmã do Tony Stark?

– Ahn... Sou sim.

– A que ganhou medalha? – Questionou animado, me alcançando seu aparelho sem se lembrar que não era recomendado realizar chamadas. Eu assenti em resposta, sorrindo. Disquei apressadamente. O telefone chamou uma única vez.

– Alô? – Steve atendeu agitado do outro lado.

– Oi.

– Onde você está? – Perguntou nervosamente. A essa altura todos deviam saber que eu tinha fugido.

– No aeroporto internacional John F. Kennedy. New York. Tem alguém me esperando não é? – Interpelei, sem me referir diretamente aos agentes para não levantar suspeitas do homem ao meu lado.

– Claro que tem! Como você vai sair daí? – Ele estava agitado e preocupado. Pobre Steve. Ele realmente se importava comigo independente das minhas loucuras. Me peguei pensando que devia começar a tratar aquele tolo de uma forma mais agradável. Ele não era nada ruim. Apenas inocente como uma criança.

– Bom... eu posso ir pela porta da frente e pegar um taxi. – Respondi rindo nervosa. Aquilo não era uma opção.

– Se tentar fugir vai levar tantos tiros que vai ficar irreconhecível. As ordens são neutralizá-la a qualquer custo. – Engoli em seco. Tiros. Eu não gostava nem da palavra.

– Você poderia vir me buscar então. – Pedi com ansiedade. Foi a vez dele de rir. Me mantive séria, fazendo ele entender que aquela intenção era real. – Se você não vier, vou pegar um táxi. – Alertei.

– Vai morrer se fizer isso. – Sua voz era pura angústia. Aquilo me fez sorrir. Eu tinha ganhado.

– Eu sei. – Respondi simplesmente. Ele suspirou derrotado. – Meu voo é da America Airlines. Portão G.

– Misture-se aos passageiros. Chego em vinte minutos. – Instruiu por fim e desligou. Devolvi o celular ao homem, o agradecendo. Ele me pediu para tirar uma foto, que fiz de bom grado.

Cerca de quinze minutos depois o avião inclinou-se, iniciando o pouso. Eu tremia de ansiedade e preocupação. Quando estivesse fora dali invocaria o arco que estava dentro da minha mala, mas me preocupava que as paredes fossem espessas demais e não rompessem. Precisava confiar que Tony tinha feito o arco preparado para aquilo ou eu estava condenada a ficar desarmada.

Espiei pela janela, enquanto tocávamos o chão. Ele ainda não devia estar ali. Mas ainda tínhamos tempo enquanto o piloto manobrava. Eu podia ver os agentes na pista. Merda. Não tanto quantos poderiam ter sido se o rapaz não tivesse me dito o que fazer. Cerca de vinte homens e mulheres. Eu os reconhecia facilmente agora, mesmo que estivessem à paisana como de fato estavam. Seus movimentos eram rígidos e pouco espontâneos. Tinham olhares atentos e não conversavam entre eles. Concentrados. Trabalhadores normais não se comportavam assim.

Os passageiros começaram a descer por uma escadaria. Tentei me misturar a eles, andando curvada para parecer mais baixa. Deixei para trás a jaqueta da Stark Industries que tinha a bandeira americana estampada nas costas. Aquilo me denunciaria. Amarrei os cabelos em um nó apertado. Chamavam muita atenção em meio aos turistas brasileiros. Eu chamava tanta atenção quanto um painel de neon, na verdade. Não era tão simples uma ruiva, de um metro e oitenta passar despercebida.

Comecei a descer as escadas muito lentamente, seguindo o fluxo de passageiros. Os agentes se aproximavam da escada, mas eu não via Steve em lugar nenhum. Eu evitava olhar diretamente para eles e parecer agitada, mas se ele não aparecesse depressa eu estava ferrada. Não me renderia. Invocaria o arco e desejaria sorte.

– Ali! – Um agente gritou apontando para mim. Merda. Merda. Merda. Comecei a recuar as pressas para dentro do avião, mas os passageiros me empurravam de volta, querendo descer. Dois agentes se acotovelavam para subir atrás de mim. Invoquei o arco.

– Liana! – A voz de Steve se fez ouvir acima do tumulto. Ele vinha na moto, avançando em meio à pista. Vestia o uniforme de Capitão America. Ouvi um baque no metal. Eu podia ver a lataria do avião se distorcendo diante da pressão do arco contra a parede.

– Vamos. Vamos. – Eu murmurava encarando o relevo. Um segundo baque e a lataria rompeu, minha mochila se agarrou ao metal rasgando ao meio, libertando o arco, a aljava e uma profusão de roupas que se espalhou pelo chão. Minha medalha estava ali no meio, mas eu não me importava. Tive tempo apenas de apará-lo e atingir o primeiro agente com a haste. Olhei para baixo. Steve passaria ali. Eu teria que pular, mas não confiava nele como confiaria em Loki. Eu não podia hesitar. Pulei pela lateral, fechando os olhos e ouvindo os tiros ecoando atrás de mim, misturando-se aos gritos dos passageiros. Em segundos senti as mãos de Steve me apararem. Percebi que havia prendido a respiração. Ele me colocou sentada diante dele e dirigiu como um louco.

– Está bem? – Perguntou acima do som dos tiros que ricocheteavam no escudo que ele trazia as costas. Soltei um grito agudo ao ouvir aquele som. – Calma. Tudo bem. – Falou com gentileza. Não iam me atingir. Respirei e respondi enfim.

– Sim. E você? – Ele sorriu ao ouvir minha pergunta.

– Melhor agora. – Rebateu, sem desviar os olhos da estrada. O que era um alívio. A proximidade e a resposta me fizeram corar como um pimentão.

Entramos derrapando pelas ruas de New York. Logo teríamos agentes na nossa cola. Me perguntei se não traria problemas a ele. O Capitão devia estar plenamente consciente de seus riscos.

– Para onde Lia? – Perguntou circulando aleatoriamente.

– Para a sede da Stark Industries. Preciso de um jatinho. – Decidi sem dar muitas explicações. Ele fez uma careta de insatisfação, dobrando uma esquina, mas não me perguntou nada.

– Não podemos. Vai estar cheio de agentes. – Recusou num tom firme. Ele tinha razão. Ele estava sendo racional e eu não. Eu queria estar com Jane e aguardar informações. Queria chegar o quanto antes. Mesmo que isso não fosse trazer as informações mais rápido.

– Então me leve para casa do Tony. – Pedi incerta com a escolha. Como eu sairia dali, não sabia.

– Terão agentes te aguardando, não acha? – Rebateu. Não era ironia. Ele queria saber mesmo.

– Acho que sim. Mas no meu apartamento deve ser ainda pior. E ninguém pode me recriminar por estar voltando para casa do meu irmão não é? Isso agora é crime? – Perguntei virando para olhar para ele. Steve manteve-se encarando a estrada com muito custo. Ele assentiu breve, concordando comigo. Desviei o olhar antes que a situação se tornasse mais desagradável. – E se quiserem fazer qualquer coisa, vão ter que conversar com o Iron Man primeiro. – Aquilo fez o Capitão rir. E me fez lembrar que eu poderia usar uma das armaduras para ir a Londres. Era perfeito.

Corríamos como loucos pelas ruas da cidade. Ele tinha pressa em chegar a casa para que não fossemos pegos. Eu tinha pressa em chegar para poder seguir viajem.

Quase quarenta minutos depois eu podia ver a casa do penhasco. E diante dela dois carros. Segurei o arco e me preparei para armar. Steve apontou a flecha para baixo. Meus olhos foram da arma para ele, em confusão. O Capitão queria resolver isso.

Parou a moto ao lado do carro e uma agente morena de grandes olhos azuis, abaixou o vidro do motorista. Era a segunda vez que eu a via, embora para ela fosse a primeira. A mulher tinha comandado as tropas que haviam atingido Anong acidentalmente. Tinha uma expressão séria e me encarou demoradamente antes de focar o rosto de Steve.

– Oi Maria. – Ele a cumprimentou. A mulher assentiu brevemente em resposta. – Estou trazendo Liana Stark para casa.

– Por que você fugiu do Brasil, Liana? – Perguntou ignorando o Capitão. Ela era muito profissional. Eu precisava medir minhas palavras.

– Você sabe o que aconteceu lá... Foi demais para mim. Eu só queria ir para casa e não deixaram... Eu pedi tanto... – Falei num tom de inocência que eu sabia usar muito bem.

– Você quebrou o braço de um agente. – Afirmou calmamente. Steve me olhou exasperado. Acho que eu não tinha mencionado esse detalhe.

– Eu estava nervosa... – Dei de ombros. – Posso ir para casa? –Perguntei ainda naquele tom. Ela me encarou com severidade.

– Sua casa não é aqui.

– Eu sou uma Stark. – Afirmei fria. Ele me encarou durante alguns segundos.

– Entre. Capitão fique com ela. – Comandou, ligando o carro. – Os agentes vão ficar aqui para companhia. – Explicou, referindo-se aos homens no outro carro. Seus olhos nos acompanharam até Jarvis abrir a porta e entrarmos na mansão. Ali respirei aliviada e nos entreolhamos rindo. Até que recuperei a seriedade e a urgência do que estava fazendo.

– Obrigada, Steve! De verdade! – Falei, correndo sem pensar para a oficina. – Jarvis preciso de uma armadura para me levar a Londres.

– Senhorita, as armaduras continuam bloqueadas para o seu uso.

– É o quê?! – Eu gritei chocada. Steve desceu para ver se eu estava bem, mas eu já tinha dado meia volta. Estava perdendo tempo. Circulei pelo apartamento completamente perdida. Eu era um rato na ratoeira.

– Liana o que você quer? – O loiro me perguntou finalmente.

– Um jeito de ir a Londres. – Respondi revirando gavetas, como se esperasse que uma passagem aérea aparecesse do nada. Subi para o quarto com Steve na minha cola. Comecei a abrir portas.

– Tem alguma coisa que eu possa dizer para te dissuadir? – Eu parei tudo e o encarei em resposta. Ele levantou as mãos na defensiva e eu voltei a procurar o que quer que pudesse me ajudar. Eu não estava raciocinando. – Só acho que dentro do armário você não vai ach...

– Não acredito! – Gritei alto. Havia um pequeno papel ali dentro. Amassado pelas roupas largadas sobre ele.

Quando não puder mais caminhar, voe.

Eu comecei a rir, chocada. O loiro não parecia entender nada. Eu devia aparentar loucura eminente. Não importava. Aquilo era um sinal de Frigga. Tinha que ser. Eu não iria a Londres. Buscaria as notícias pessoalmente.

Olhei para trás. A varanda do meu quarto dava diretamente para o mar. Caminhei até a beirada e olhei para o céu que começava a clarear trazendo uma manhã apática.

– Heimdall... – chamei baixinho. – Por favor... eu preciso ir. Por favor.

– Com quem você está falando?

– O Guardião de Asgard. – rebati breve ainda encarando o firmamento. – E ele essa fingindo que não me escuta. – Resmunguei mal humorada. Steve parecia genuinamente preocupado com a minha sanidade. Ele não entendia. – Heimdall, por favor, eu preciso vê-lo. Ele está ferido. Preciso ajudá-lo. – Insisti num tom ansioso de súplica. Ele não me atenderia. — Heimdall! Eu preciso ir! Eu sei que está me ouvindo! Por favor! – Berrei a plenos pulmões, me agarrando no beiral.

– Liana... os agentes vão ouvir...

– E vão pensar que eu enlouqueci, exatamente como você pensa. – Rebati me sentindo ferver de raiva. Ele não negou. – Eles ainda devem te considerar capaz de lidar com uma mulher maluca...

– Ou tem medo demais de você para quererem entrar aqui... – Aquela frase, dita com tanta sinceridade me fez rir nervosamente.

– Heimdall! – Gritei batendo a mão livre na grade. Não adiantaria. A menos que eu o obrigasse. Ninguém me obrigaria a ficar quieta esperando, me remoendo de preocupação. Olhei para a água do mar se chocando contra as rochas vários metros abaixo.

Eu tinha um Toque do Destino e uma Benção de Frigga. Era uma protegida dela. Ela tinha posto sua marca em mim. Esperava que essa combinação bastasse para fazer o Guardião valorizar minha vida. Se não fosse o bastante esperava que Jarvis fosse rápido para me proteger. Afinal eu estava proibida de usar as armaduras, mas elas ainda deveriam zelar pela minha integridade. Disso eu tinha certeza. Havia apenas um problema. – Steve... Eu não vou conseguir não é?

– Sinceramente, acho que não. – Ele soava gentil. Podia me considerar excêntrica, mas não louca. Senti uma gratidão ainda maior por ele. E pena por eu estar prestes a enganá-lo. Acho que eu tinha convivido demais com Loki.

– Você pode ligar e comprar uma passagem para mim? O próximo voo? Se for você a ligar ninguém vai questionar...

– Eu não posso deixar você ir sozinha... – Refletiu olhando para o horizonte com uma expressão cansada. Eu era uma criança trabalhosa. E como toda criança mimada eu o convenceria a fazer minha vontade. Me virei de frente para ele e dei um passo em sua direção, o olhando nos olhos e deslizando minha mão livre por seu braço. Ele me olhou franzindo as sobrancelhas.

– Vem comigo então. Me ajuda. – Insisti, numa voz suave como seda. Eu era a pior das criaturas. O Capitão me encarou muito sério.

– Não brinque comigo.

– Desculpe... – Pedi, afastando a mão e corando violentamente. Não havia sentindo naquele jogo quando era tão claro que eu não sabia jogar. – Me ajude...

– Você sabe que eu vou ajudar você. – Respondeu em um tom reconfortante. – Só não me faça ver o que não existe.

– Desculpe. – Repeti me sentindo mal pela cena ridícula. Ele era correto e bom. Tolo. Mas adorável. E eu... eu era eu.

O loiro se voltou para dentro procurando um telefone. Eu aproveitei para me afastar alguns passos do muro de proteção. Puxei uma flecha explosiva. Armei o arco. Podia ouvir Steve falando no telefone.

– Heimdall... Eu vou fazer isso e você sabe que sim. – Disse num tom muito baixo. Ele me ouviria mesmo que eu apenas murmurasse. – Minha vida está nas suas mãos. Por favor, não me deixe morrer. – Uma pequena mentira, seguida por um disparo e um estouro. Ouvi passos em minha direção, mas antes que chegassem a mim desatei a correr contra o beiral exposto da varanda. Eu pularia e se Heimdall não me levasse, Jarvis mandaria uma armadura me resgatar. Pelo menos era o que eu acreditava. E esperava que os vinte metros que me separavam da água guardassem tempo suficiente para isso. O impacto contra a água e as pedras da encosta me colocariam no caixão que a S.H.I.E.L.D. vinha guardando para mim. Mas eu realmente acreditava no que estava fazendo, ou não teria feito uma loucura daquela. Eu era impulsiva, não louca. Apesar disso tremia de medo do que estava para fazer.

Os poucos metros que faltavam para pular me reservaram uma surpresa muito, muito assustadora. Foi como se o tempo desacelerasse. O que era muito provável.

A Morte estava escorada displicentemente no que havia sobrado do muro. Eu podia ver seu rosto perfeito muito claramente. Indescritivelmente linda. Me olhava com seus olhos violetas. Com carinho?

Senti o ar me abandonar. Eu poderia morrer de medo dela. O que seria bem irônico na verdade. A última vez que eu a tinha visto ela havia me carregado. Senti o pânico me dominar. Ouvi a voz de Steve gritar meu nome. Tentei interromper meu avanço, queria manter distância dela, mas eu já tinha velocidade demais para um trecho muito curto. Meus olhos não se desprendiam dos da mulher. O medo incompreensível gritando de cada célula do meu corpo. Terror em sua mais pura essência.

Por fim consegui parar. As pontas dos tênis sem a proteção do chão. Muito na beirada. Senti minha boca se abrir em choque. Meu corpo incapaz de tremer. O medo me dominava e paralisava. Ela era linda. Ela era assustadora. Sorriu. Achei que eu fosse desmaiar.

– Gostas de chamar minha atenção? – Perguntou em sua voz arranhada e melodiosa. Macabra. Achei que não fosse conseguir responder. Mas o tempo realmente havia parado e ela queria uma resposta. Ela gostava de brincar comigo. Ou talvez fizesse isso com todos.

– E-eu faço isso... com alguma frequência... – gaguejei sentindo meu coração falhar no peito.

– Tranquiliza-te, criança. – Disse com doçura. Apesar de achar que isso seria impossível, me senti tão bem que poderia deitar ali na beirada e dormir. Quase poderia abraçá-la e dançar. – Teu desejo atrevido comprou-te mais alguns anos de existência. Sempre escapando por entre meus dedos, atrevida como és. E como planejas voar para longe de mim e perto dele? – Questionou rindo a risada alta que me arrepiava. Eu não sabia o que dizer a ela.

A Morte me encarava esperando uma resposta. Olhar muito tempo para seu rosto doía. Me peguei desnorteada por um segundo. Olhei o mar e as rochas lá em baixo. Neguei efusivamente sem responder de maneira racional. Não queria voar. Um muxoxo surgiu em seu rosto perfeito. Aquilo não diminuía a beleza.

– Teu deus está ferido e ainda assim não vais voar? Achei que tivesses mais fibra. – Proferiu em um tom venenoso. Senti vontade de chorar. Eu iria atrás de Loki. Mas não era capaz de voar. E esse pensamento me trouxe a pergunta mais básica de todas. Se ela sabia que eu teria medo de pular, se sabia que eu desistiria e não daria brecha para que me levasse...

– Por que está aqui? – Questionei desconfiada. Ela sorriu com doçura.

– Para auxiliar-te.

– E por quê?

– Para lembrar a certo soberano que não divido meus brinquedos. – Falou simplesmente. Odin tinha tomado posse da joia do Ego. Era bem óbvio que ela não tinha gostado nada daquilo. Ainda mais se ele realmente tivesse cogitado a usar para dividir os Nove Reinos. Mas algo que eu ainda não compreendia tinha dado errado. No entanto eu não tinha tempo, coragem ou disposição para questionar essas coisas. Ao invés disso me ouvi falando outra coisa completamente diferente.

– Já dividiu comigo...

– Apenas porque tu és outro deles. – Comentou displicente. Era como guardar dois brinquedos juntos.

– Você gosta de me ver jogar não é? – Perguntei rindo. Era muito interessante estar ao lado daquela mulher. Após o medo vinha a paz. A tranquilidade de estar em sua presença. Me perguntei se era isso que os suicidas sentiam em seus momentos finais. Meu pai tinha se enamorado pela existência encantadora que ela era?

– Diverte-me vê-la jogar contra as regras e contra teus próprios instintos. Mas estás me decepcionando. — Afirmou num tom triste. Senti meu coração se encolher. – Não vais estender tuas asas até ele? Vais abandoná-lo? – A pergunta me atingiu como um soco.

– Claro que não. Eu só não sei como... – Falei me permitindo sentir o medo de não conseguir saber o que estava acontecendo. De que eu nunca mais fosse capaz de tocá-lo.

– Uma ave que não sabe voar... – Zombou. – Estavas chantageando o guardião, mas tens medo de tua própria ameaça? Bom, todo filhote precisa ser ensinado. Ensinarei a ti.

Ela disse isso com simplicidade. Eu senti o medo me dominar instantaneamente. O desejo de correr e a incapacidade para isso. Ouvi o mar voltar a se agitar abaixo de mim. Olhei para baixo, meus pés ameaçando deixar o chão. E antes que pudesse falar ou fazer qualquer coisa senti a mão gélida me tocar às costas.

– Voe. – Sussurrou. E me empurrou.

Um grito agudo escapou da minha boca, enquanto o vento golpeava minha pele, agitava os cabelos e o uniforme de treino e ensurdecia meus ouvidos. Eu não conseguiria soltar o arco nem se quisesse. Fechei os olhos e senti que ela me aguardava no mar abaixo. A queda foi rápida e intensa. Eu estava condenada. Heimdall não me ajudaria. Devia ter ordens para isso. Tinha feito uma chantagem tão tola quanto eu e agora a Morte me faria arcar por aquele rompante.

Ouvi uma das armaduras novas de Tony irromper pela janela. Ou pelo menos acho que ouvi. Eu estava aturdida demais para entender qualquer coisa.

E por fim o impacto. Muito menos doloroso do que eu esperava. Mas infinitamente mais frio. Eu não sei como não morri com a mudança violenta de temperatura. Mas era muito mais provável eu morresse pelo choque de não ter me ferrado infinitamente. Não que ainda não houvesse tempo para isso.

Heimdall tinha me atendido. Minha vida ainda era algo valorizado para um ou outro. E agora eu me encontrava no meu curtíssimo uniforme, largada em um lugar que sem dúvidas era Jotunheim. Nunca poderia supor que fosse outro lugar. Não com aquele frio que me congelava até a alma. Eu tremia convulsivamente e minhas pernas se tornaram arroxeadas, enquanto eu as obrigava a me sustentarem de pé. O que ele estaria fazendo ali era um mistério.

Olhei ao redor, sentindo os pelos do corpo se eriçarem numa tentativa inútil de me proteger. Se não estivessem congelados talvez servissem para algo. Meus cílios e sobrancelhas estavam congelados. Eu morreria congelada antes de o achar, a menos que me mexesse.

Caminhei alguns passos, tentando coordenar as pernas e a tremedeira. Eu me sentia ficar letárgica e desorientada, quando uma voz arrastada e eloquente me chamou.

– Liana de Midgard. – Eu me virei assustada para olhar. – Por aqui. – A mão azul, muitas vezes maior que a minha, tocou com gentileza o alto da minha cabeça expulsando o frio e o entorpecimento, mas não se afastou. Apenas nesse momento percebi que já não estava conseguindo nem ver direito. Porque só então percebi que era Farbauti diante de mim. Não senti medo. Ela sorriu ao me ver e virou-se avançando em meio ao gelo. Malditos tênis deslizantes. Ela me puxava gentilmente pelo braço. – Estava me perguntando quanto tempo levaria até nos vermos novamente.

Me indicou uma caverna, muito menor que a que tínhamos visitado anteriormente. Quando entrei, o chão tornou-se pedregoso o que me permitia caminhar sozinha. Reparei, para minha surpresa, em dezenas de berços gelados identificados com duas linhas de caracteres que eu não compreendia. Preenchidos por pequenos seres azuis. Um berçário.

– Como ele está? – Questionei sem muitos meneios.

– Vai ficar bem. Poderia estar morto, mas Frigga o aj...

– Frigga?

– Você não é a única que dança com a Morte. Na verdade você só dança porque é Frigga quem toca a música. – Afirmou caminhando à minha frente. Nada mais me surpreendia. Se eu estava viva, porque não a deusa?

– Ela planejou tudo isso não foi?

– Ela apenas prevê as coisas e tenta moldá-las da melhor maneira para impedir algo ou garantir que aconteça. Você já deve ter presenciado isso. Nem sempre funciona. – Notei mágoa na voz arrastada. – Mas no que concerne ao filho dela e ao meu é inegavelmente cuidadosa. Sou muito grata a ela por isso.

– Você o adora não é? – Questionei correndo para acompanhá-la. Que outro motivo teria para socorrê-lo e ter sido tão conivente conosco em nossa última visita? Cada passo da mulher eram quase três meus. Apesar de menor que a caverna anterior, esta ainda era muito extensa.

– Ele é meu filho. – Falou numa voz que pretendia livre de emoções.

– Por que então...? – Interpelei me referindo ao abandono. Ele sabia que tinha o amor de uma mãe em Farbauti?

– Ele era diferente. Laufey não o quis. Minha opinião era nada diante da de meu rei. – Sua voz soava tão fria quanto o ambiente ao redor. — Frigga viu que ele teria uma família. Como eu disse, nem sempre as coisas dão certo.

– Ele não está sozinho. – Me ouvi falando, antes de me reprimir. Ela me olhou pelo canto dos olhos.

– Então garanta que aquele homem pague por isso. – Falou afastando uma cortina branca. Ela não precisava se preocupar. Ele estava na minha lista.

A cortina ocultava uma cama de aparência muito dura, toda feita de gelo. E recostado sobre ela, Loki. Quase nem notei Farbauti sair. Eu havia voltado a tremer e isso nada tinha a ver com o frio. Meu coração estava planejando quebrar as costelas.

Parecia dormir a sono solto. Estava tão azul quanto uma vez havia se mostrado. Tinha um olho inchado a ponto de que eu duvidava que conseguiria abri-lo. Sangue seco se acumulava ao redor de um corte tão profundo que me causava náuseas. O osso era visível. Seu peito desnudo estava repleto de hematomas arroxeados destacando-se contra o azul. Uma ou duas costelas quebradas.

Larguei o arco no chão. Nem me lembrava de o estar segurando. Caminhei até Loki, sentindo o frio voltar a me golpear. Não importava. Nada importava. Me sentei na beirada da cama, sentindo o gelo ferir minhas pernas. Eu mal sabia como tocá-lo, agora que podia. Ele parecia tão machucado que senti medo de causar dor. Escolhi uma parte de pele intocada na lateral do rosto e o acariciei com cuidado. Eu não devia sorrir, mas foi incontrolável. Ele estava ao meu alcance outra vez.

O frio se afastou de mim novamente quando o toquei. Deixei minha mão pousada sobre a dele, mas eu continuava tremendo. Algo sempre dava errado quando nos aproximávamos. Ele estava tão machucado. Odin estava definitivamente na minha lista.

– Loki? – Chamei numa voz rouca, que poderia ter sido abafada pelo retumbar em meu peito. Nenhuma reação. Senti o terror me tomar. Procurei pelo pulso dele. O coração batia. Ele estava ali. Aquilo me fez rir alto como uma idiota. Histeria. Puro nervosismo. – Loki? – Insisti. Para meu choque seus olhos vermelhos se abriram instantaneamente a despeito do inchaço. Ele puxou a adaga que ainda estava atada a calça e a segurou contra meu pescoço. A outra mão se embrenhou em meus cabelos, me forçando a ficar parada. Eu arfei com o susto, mas não tive reação. Nos encaramos por um segundo e eu sorri. – Oi...

Seus olhos chocados percorreram meu rosto. As sobrancelhas se franziram em incredulidade. A adaga despencou retinindo no chão ao lado e ele me puxou de qualquer jeito em um beijo.

Um ano de dor e agonia naquele beijo sôfrego e desajeitado. Era ele quem estava ferido, mas eu que era tocada como se fosse quebrar. Eu já tinha me quebrado uma vez nas mãos dele. Talvez fosse isso.

Acariciou meu rosto com a mão, cheia de pequenos cortes nos nós dos dedos. Socos dele próprio. Grunhiu baixo quando me encostei em seu corpo. As costelas deviam ser um inferno. Ele não se importava, pois fiz menção de me afastar e tudo que tive em resposta foi ele me puxando ainda mais perto, apesar da careta que nos interrompeu por um breve segundo. Sentir sua ausência era doloroso. A dor finalmente estava me deixando. Seus olhos voltaram ao tom verde que eu amava, sua pele clara evidenciando ainda mais os hematomas. Loki se afastou de mim apenas quando respirar era estritamente necessário. Apesar disso mantivemos as testas encostadas por longos minutos, os olhares unidos. O silêncio nunca disse tanto aos meus ouvidos. Eu chorava silenciosa.

– Você está bem? – Me perguntou em alemão, sua voz soando rascante. Eu sorri, engasgando com as lágrimas. Ouvir seu timbre firme era a melhor coisa do universo.

– Inteira. – Aquela resposta não poderia ser mais verdadeira. Os dedos longos percorreram o contorno do meu olho. Procurando pelas marcas de soco. Em menos de um dia nenhum hematoma havia restado. Seus olhos acompanhavam com atenção, cada detalhe do meu rosto. Cada sarda. Cada poro. Mais uma vez estava me memorizando.

Eu não sabia bem como me comportar. Havia tanta coisa que eu gostaria de dizer a ele. Tanto a perguntar. Tanta coisa, que os pensamentos se amontoavam lutando por espaço. Se acotovelavam e misturavam, sobrepondo-se uns aos outros, me deixando confusa, mas um pedido forçou passagem.

– Me desculpe... – Pedi, deixando que uma lágrima solitária surgisse. – Eu estraguei tudo... – Ele me beijou breve e gentil. Não me culpava, embora eu o fizesse. Era tão grata por isso que não poderia expressar em palavras. Ele próprio parecia confuso. – Dói muito?

– Não.

– Porque lutaram?

– Porque eu não me submeto. – Respondeu numa voz gélida, cheia de amargura. Era claro que Odin devia tê-lo proibido de se aproximar de mim. O motivo ainda me era um mistério. Ou nem tanto. Como Pepper havia falado, éramos criadores do caos. Acariciei a mão ferida dele. Eu era o motivo daquilo.

Sentia minha alma se alimentando pelo ódio que ele tinha de Odin. O desejo de vingança fervendo em mim. Estava cansada de todos tentando nos domar.

– Ele vai pagar. Adoraria o encontrar e garantir que tenha o fim que merece... – Falei pensativa. – Poderíamos dar a ele um tratamento digno de rei. Você poderia me ajudar... ou prefere assistir do camarote outra vez? – Perguntei num vestígio de bom humor. Achei que fosse conseguir fazê-lo rir, mas ao invés disso os olhos verdes se arregalaram.

– Como você chegou aqui? – Questionou brusco. Seus olhos correram de mim para a cortina que bloqueava a visão da saída e de volta. Estava em estado de alerta.

– Ahn... Heimdall me trouxe... – Expliquei meio atrapalhada com o rumo repentino que conversa estava tendo. Que importava como eu tinha chegado ali?

Para minha surpresa ele se pôs de pé com todo esforço do mundo. Um grunhido baixo lhe escapando. Me inclinei para apará-lo. Ele não cairia, mas eu em minha burrice temia que isso fosse possível. Fiquei chocada quando ele deu um tapa na minha mão, afastando-a.

– Mortal tola. Suma logo daqui! – Rosnou num tom tão frio quanto o ambiente a nossa volta. Seus olhos me evitavam, como se eu tivesse algum tipo de doença.

– Espera... o quê?! – Rebati chocada, olhando ao redor. Ele estava falando com outra pessoa. Tinha que ser com outra pessoa. Eu já estava tremendo pela falta de contato com ele. Aquele lugar ainda acabaria me matando. O deus me olhou pelo canto dos olhos e franziu as sobrancelhas ao ver minhas pernas expostas se arrepiarem e as veias destacarem-se arroxeadas pela temperatura. Me segurou pelo pulso, expulsando o frio. – Eu não vou a lugar nenhum!

– Ainda me pergunto como humanos podem ser tão cegos! Não entendem a dimensão de nada! – Falou me encarando com incredulidade. Ele me puxou, me forçando a avançar contra a saída. – Vocês realmente fazem as piores escolhas sempre!

– Não esqueça que você está entre as minhas.

– Não esqueci. – Respondeu friamente. Aquele comportamento não era o que eu esperava. Definitivamente. – Farbauti! – Gritou para o corredor. Eu tentei me afastar dele, mas Loki tinha mais força.

– O que está acontecendo? – Questionei ainda tentando me soltar. A mulher surgiu atrás de mim. Pareceu confusa com a situação.

– Tire essa tonta daqui! Não deixe que volte.

– Loki, você vai me dizer o que está acontecendo ou não?! – Gritei invocando o arco. Acertei com a haste uma das mãos de Farbauti a afastando, mas a outra me segurou pela cintura me erguendo do chão como se eu fosse uma mala. Ela parecia tranquila. Eu era como uma criança pequena esperneando. – Loki!

– Leve-a de volta a Midgard, depressa. Garanta que ela não ponha os pés fora de lá. – Ele falava firme, sem olhar diretamente para mim. Se apoiou cansado a uma parede. Eu quase podia ouvir seu cérebro correndo em dúzias de direções, apesar do corpo ferido. Mas que merda ele achava que estava fazendo?

– Me diga o que está acontecendo. Achei que me conhecesse o suficiente para saber que não faço nada sem motivo. Nem mesmo o que você quer. Me dê um motivo para eu ir embora. – Desafiei com frieza. Eu merecia saber. Depois de tudo era meu direito. Ele me olhou por longos segundos. Suspirou irritado. Me conhecia bem demais para saber que se eu decidisse ele não encontraria docilidade em mim. Farbauti me pôs no chão novamente, tomando o cuidado de manter a mão às minhas costas.

– Odin quer a sua cabeça numa bandeja de prata tanto quanto quer a minha. Não ponha os pés fora de Midgard. Não se deixe vulnerável. Sair de lá pelas mãos de Heimdall foi uma péssima escolha. – Falou cuspindo as palavras. Meus olhos se arregalaram. O que quer que estivesse acontecendo em Asgard era grave. Se Heimdall tinha me tirado de Midgard, logo Odin saberia.

– E quanto a você? – Perguntei nervosamente. Ele me olhou como se eu fosse louca.

– O que tem eu?

– Você está exposto! Olhe o que Odin fez! – Afirmei, olhando dele para a giganta em busca de apoio. Ela tinha uma expressão muito similar a minha. Era incapaz de entender como Loki podia achar que eu ficaria em casa sendo uma boa moça, enquanto ele estava aqui fora com aquele velho querendo beber sangue no crânio dele. Esperando que ele despencasse em cima de mim, para beber sangue do meu crânio na sequência.

– Liana, me escute. Eu vou resolver isso. Você não confia em mim? – Questionou me manipulando claramente. Eu não ficaria longe dele. Não era uma opção.

– Uma vez me disse para não confiar. – Respondi num tom ponderado. Aquilo pôs um olhar irônico em seu rosto ferido.

– E adiantou?

– Não... – Respondi rindo. Ele me dobrava à sua vontade, de um jeito ou de outro.

– Fique segura. Eu vou resolver isso. – Falou agitado, seus olhos presos aos meus.

– Quando vou te ver de novo? – Questionei deixando as lágrimas escorrerem pelo meu rosto. Em que tipo de inferno vivíamos?

– Não sei. Preciso garantir que tudo vai dar certo. Preciso garantir segurança. Pode levar algumas semanas ou alguns anos. – Ele parecia ter um bolo na garganta. A voz soava pesarosa, embora ele tentasse soar no seu habitual tom de indiferença. Ainda estava apoiado a parede. Devia estar exausto e eu exigindo demais dele. Infelizmente não podia evitar. Era quase como se ele fosse sumir em definitivo.

– Eu não tenho esse tempo, Loki... – Disse olhando para o chão, envergonhada. Por quanto tempo eu ainda encheria os olhos dele? O coração? Mais vinte anos? Era por alguns segundos que estávamos lutando. Tudo havia desabado e o tempo era a única coisa que tinha restado. E ele sempre estava contra mim. Era curto e breve demais. Um urubu pairando acima da minha cabeça.

Loki pareceu confuso com a minha resposta. Passou as mãos pelos cabelos encarando o chão. Era um assunto que vínhamos protelando há muito. Uma ferida aberta que evitávamos olhar como se isso fosse fazê-la desaparecer.

– Eu não vou deixar acontecer de novo. Não mais. – Falou me olhando com tanta firmeza que me peguei sorrindo. Ele não me deixaria morrer, pelo menos não antes do meu tempo. Não precisava ser explícito para que eu entendesse. Eu confiava nele. Daríamos um jeito. Acharíamos uma forma. Talvez até uma forma de contornar essa questão.– Apenas me dê tempo.

– Se eu ficar sem notícias você sabe que vou colocar Asgard abaixo, não sabe? – Questionei, numa tentativa falha de soar engraçada e reprimir o choro. Ele me ofereceu um meio sorriso, entendendo uma das mãos como se fosse tocar meu rosto, mas pareceu mudar de ideia no caminho deslizando-a pelos cabelos, mais uma vez. Eu queria que me abraçasse, que me beijasse, mas ambos sabíamos que se fizesse isso eu não iria embora. Por fim assenti em resposta.

Farbauti me empurrou para a porta enquanto ele retornava para a dura cama de gelo. Eu queria ficar e cuidar dele. Tratar suas feridas, apagar a dor. Não apenas a física. A distância acabaria me matando antes da hora. O que tinha de tão absurdo no que sentíamos? Por que não podíamos escolher o que fazer de nossas próprias vidas? Eu queria estar com ele e era só. Nada que qualquer pessoa pudesse considerar recriminável. Antes de sair me virei repentina.

– Você se importa mesmo, não é? – Não era como se eu não soubesse a resposta. Eu apenas queria dizer isso a ele. Loki não estava sozinho. Ficaríamos mais um período longe, mas não sozinhos. Ao menos tínhamos certeza disso. Eu esperaria. Ele se virou para me olhar, um sorriso zombeteiro em seu rosto. Aos meus olhos parecia mais com um esgar.

– Fique bem. – Disse simplesmente. Assenti, eu própria tentando um sorriso e sai do lugar junto de Farbauti que alisava minhas costas num gesto muito bondoso, enquanto me levava de volta aonde Heimdall pudesse me buscar. Eu chorava em silêncio. Loki queria fazer as coisas do jeito dele e eu deixaria que tentasse. Ele tinha um ano para nos conseguir carta branca. Para garantir que não explodiríamos o universo. Não tínhamos as Joias. Que risco podíamos oferecer agora? Eu com meu prazo de validade prestes a expirar? Se em um ano não resolvesse a situação com Odin, eu iria pessoalmente fazer isso. Independente dos resultados. Loucura. Era uma mortal tola, afinal. Inconsequente. Em um ano o experimento de Jane estaria pronto. Em um ano eu estaria com ele outra vez. De um jeito ou de outro.

Notas finais
Não esqueçam do grupo do face! Link nas notas do autor! Reviews alegram a alma. u.u