God of Mischief | Loki
17 Capítulo 16: As estrelas
Notas iniciais
Um teto. Foi a primeira coisa que vi quando abri os olhos. Eu estava confusa. Sedada, deduzi.
— Ela acordou. – Eu conhecia aquela voz. Virei minha cabeça que pesava uma tonelada e vi Steve de pé perto de uma porta. Ele usava calças cáqui e uma blusa branca justa. Banner entrou no quarto, seguido por Tony, Pepper e Jinggles. Eu devia estar mais drogada do que imaginava.
Tentei me sentar, mas Banner me empurrou gentilmente de volta pelos ombros. Meu gato subiu na cama e se aninhou aos meus pés ronronando satisfeito.
— Você conseguiu um corte bem feio. Vai ficar melhor deitada. – Ele disse num tom gentil. Steve se sentou em um banquinho ao meu lado e segurou a minha mão esquerda. Isso me fez sentar com um pulo.
— Meu arco! Meu arco! – Pedi exaltada olhando ao redor.
— Ficou na porta. Ninguém conseguiu pegar... – Steve disse, ajeitando o travesseiro para que eu pudesse me encostar. Respirei aliviada.
Levantei o lençol e quando vi minha perna deixei escapar um suspiro longo. Eu devia ter levado uns 15 ou 20 pontos. Pepper deu a volta na cama, sentou-se na beirada e me abraçou chorosa.
— Eu to legal. – Falei para ela com a voz enrolada. Minha preocupação era se outra pessoa estaria bem. Tony estava mais calado que o normal. – Acho que deixei você preocupados... – Murmurei em um tom de desculpas. Tony riu.
— Você deixou Pepper doida! – Ele falou em um timbre que tentava brincar, mas soava muito sério. Eu beijei a bochecha dela, que sorriu entre as lágrimas.
— A S.H.I.E.L.D.? – Perguntei em voz baixa. Eles se entreolharam sem me responder.
— Diga oi para os mais novos desertores. – Tony disse estendendo os braços, abrangendo a todos ali. Achei que tivesse esquecido como respirar. Meus olhos correram de uma para o outro, Banner ria olhando para o chão, Tony abraçava Pepper que estava um pouco mais calma agora e Steve simplesmente olhava para mim, um sorriso sem graça nos lábios.
— Isso é algum tipo de brincadeira? – Perguntei numa voz enrolada. Steve apertou minha mão e sorriu.
— Não concordamos com os métodos da S.H.I.E.L.D. – Steve falou firme. – Quando me acharam no gelo pensei que a organização tivesse o objetivo de proteger as pessoas e não de atacar civis com base em especulações. – Completou. Eu sorri.
— O problema é que tudo aponta para mim. – Falei levantando as mãos mostrando que até entendia o problema.
— Pode ser, mas eles resolverem capturar e interrogar é uma coisa. – Pepper disse. – Outra coisa é Fury resolver atirar primeiro e perguntar depois.
— Ele está preocupado com o que o conselho vai pensar. – Foi a vez de Banner falar. – Se eles acharem que a iniciativa Vingadores foi um erro e se lembrarem de que Fury desobedeceu ordens, podem ter certeza que o diretor vai estar em maus lençóis. O que Fury quer é neutralizar o problema do jeito mais rápido que puder. Não interessam os meios.
— Mas a iniciativa não falhou. – eu disse. – Vocês salvaram New York. Vocês salvaram a Terra!
— Pode até ser, mas com o Homem Rena passeando para cá e para lá, com um de nós como se estivesse de férias fica complicado para eles lembrarem desse detalhe. – Tony disse. Todos os olhos se voltaram para mim. Eles deviam saber que Loki tinha me tirado da floresta. Agora, quanto à parte sobre ser um deles eu não estava tão certa. Eu não era uma Vingadora. Era irmã de um e ... quase namorada de outro. E amiga do verdão. Bom talvez eu entendesse aquele ponto de vista.
Banner sentou do outro lado da cama e segurou minha outra mão. Sorriu de um jeito que deixava bem claro, que eu teria que esclarecer como as coisas tinham chegado naquele ponto. Todos haviam escolhido a mim, e com exceção de Banner, sem nem ter certeza da verdade. Eu usei o apoio deles como força para contar o que vinha acontecendo. Apesar disso, falei tudo encarando Banner. Eu não queria ver a expressão nos rostos dos outros.
— Você sai com ela e não foi capaz de deixa-la em casa?! – Tony perguntou exasperado, quando contei sobre a noite do teatro. Pepper alisava o braço dele tentando apaziguar. As discussões de Tony e Steve eram meio famosas, apesar deles terem aprendido a simpatizar um com o outro. Eu esperava que Steve aceitasse a provocação, mas ao invés disso ele apenas abaixou a cabeça.
— Eu devia ter insistido. – Falou abatido. Aquilo me fez olhar para ele, com uma expressão de desculpas no rosto, ele apertou minha mão em resposta. Tony deu dois tapinhas no ombro de Steve de maneira simpática. Eu continuei contando, dessa vez meus olhos fixos em Steve. Eu precisava que ele acreditasse em mim. Eu contei tudo até terminar na luta em Vanaheim. Me ouvindo falar parecia ainda mais fantasioso.
— Você não devia ter soltado Loki. – Pepper disse em um tom neutro. Era uma constatação, não uma acusação. Mesmo assim não pude deixar de me defender.
— E vocês esperavam que eu fizesse o quê? – Falei num tom agudo. – Que eu pegasse uma carona com Heindall e me entregasse a S.H.I.E.L.D? Que virasse o brinquedinho de poder do Fury? Se vocês não repararam, Loki pode ter todos os defeitos do mundo, mas dos poucos que ainda não apontaram uma arma para minha cabeça ele era o único acessível! – Esbravejei. Steve abaixou os olhos culpado. Me senti mal por falar aquilo, mas era a verdade. Não quis citar que Frigga tinha planejado tudo e que eu duvidava que fosse conseguir escapar do destino que ela havia criado.
Eu estava ligada a ele por uma trama justa e bem amarrada, e por mais que quisesse me convencer de que desejava essa trama arrebentada e minha vida livre daquela confusão, toda vez que pensava naquilo seriamente o nome de Loki me vinha à mente e pensar na total ausência dele me doía mais do que seria seguro admitir. A única coisa que desanuviava minha mente era o rosto preocupado de Steve.
— Vocês traíram a S.H.I.E.L.D. – Falei afastando aqueles pensamentos. – O que pretendem fazer?
— Provar a sua inocência. – Banner disse categórico. Aquilo levou lagrimas aos meus olhos. Eles eram as melhores pessoas do mundo! Mas havia um porém.
— E como vocês pretendem fazer isso?
— Ainda não sabemos... – Steve murmurou sério e preocupado. Aquilo foi como um soco em mim. Quando eu os vi, esperei que tivessem uma solução. Eles eram os heróis ali. Steve pareceu notar meu choque porque levou minha mão aos lábios. Em seguida, seus lábios encontraram a pele abaixo do meu olho, minha bochecha e por fim um selinho rápido. – Vamos dar um jeito, ta bem? – Falou seus olhos fixos nos meus. Tony revirou os olhos de um jeito cômico.
— É, é, vamos sim. Desgruda da minha irmã. – Disse fazendo um gesto com a mão para ele se afastar, fazendo todos rirem. Minha risada se prolongou em um bocejo.
— Acho que o anestésico ainda esta te deixando meio sonolenta. Vamos deixar ela dormir e podemos nos preocupar com isso depois. – Banner pediu, abrindo a porta e fazendo um gesto para os outros passarem. Quando Steve tentou levantar, eu segurei a mão dele com força o puxando de volta. Banner notou e sorriu saindo do recinto. Meus olhos se voltaram para Steve.
— Você acredita em mim? – Perguntei. Eu precisava saber aquilo com certeza. – A resposta dele foi um beijo, longo e doce, me segurando pela cintura.
— Onde estamos? – Perguntei meio sem fôlego.
— Uma sede abandonada da H.I.D.R.A, na Áustria. – Ele falou displicente. Senti meus olhos se arregalarem com a surpresa. Eu conhecia bem aquela organização, das aulas de historia de quando era pequena. Steve tinha lutado contra eles. Eu sabia que algumas das sedes tinham se tornado empresas, museus e monumentos. Poucos tinham sido realmente abandonados. Ele riu da minha reação. – É um lugar discreto, com condições habitáveis e tecnologia suficiente para Tony nos manter incógnitos. Vai servir por um tempo.
— E como eu cheguei aqui? – Quis saber enfim. A expressão de Steve se tornou pesada.
— Loki deixou você na porta. Estamos no interior de uma montanha e ele simplesmente ficou parado na entrada até que a Pepper viu vocês pela câmera de segurança. – Ele falou tenso. – Quando Tony chegou lá fora, você estava no chão sozinha.
— Entendi... – Falei pensativa. Ele não tinha me abandonado, muito pelo contrario me trouxe para quem poderia me ajudar. Eu queria vê-lo e isso me fazia sentir tanta culpa que me nauseava. – Você pode me mostrar a sede? – Pedi tentando me distrair.
— Acho que você deveria dormir...
— Por favor... – Insisti numa voz melosa, fazendo beicinho. Ele sorriu revirando os olhos. Me apoiou pelas costas enquanto eu ficava de pé. Minha perna latejava suavemente, uma dorzinha suportável. Saímos para o amplo corredor de paredes cinza. O lugar inteiro cheirava a mofo e parecia que alguém tinha tentado limpar um pouco, porque ao menos o chão não estava empoeirado. Achei aquilo a cara da Pepper.
— E Anong? – Perguntei me lembrando dela repentinamente. A ultima vez que a vi, ela tinha uma bala na perna.
— Não fale dela, perto do Robert. – Ele me advertiu tenso. Me apoiei na parede achando que fosse cair. Ela não podia... podia? – A S.H.I.E.L.D. a levou. – Ele disse quando notou minha expressão. – Na confusão Robert não notou quando a levaram... Ninguém sabe por quê. Ele só voltou ao normal quando dissemos que a temos como prioridade. Que ajudaríamos a tira-la de lá. Você pode imaginar que até chegarmos nele, não sobrou muito da vila. – Explicou. Aquilo era horrível. Absurdo. E tudo estava acontecendo porque Loki tinha feito uma única coisa decente na vida.
Passamos por varias portas, e cada uma delas era sinalizada com placas em alemão. Passamos pelo almoxarifado, pela sala de armamentos, pela sala de treinamento, pelos laboratórios, pela cantina, pelos banheiros, pelas cozinhas, pelos quartos, pelas caldeiras que estavam completamente destruídas, pela biblioteca e pela sala de controle. Era um lugar enorme e confuso. Eu demoraria para me acostumar com os corredores embaralhados e exatamente iguais. Algumas salas tinham recebido uma carinha emburrada desenhada na porta. Era o rosto de Tony.
— O que tem de diferente nessas? – Perguntei apontando a porta da biblioteca.
— Tony não consegue abrir. Podem estar destruídas do outro lado, ou o sistema não funciona. – Explicou. – Nem Jarvis está tendo sorte.
— Caramba... – murmurei como uma boba. Ele abriu uma porta usando uma placa de controle de Jarvis, para que eu passasse.
Entramos na sala de controle. Haviam dezenas de monitores antigos, mostrando locais dentro e fora da H.I.D.R.A. de vários ângulos diferentes, como os corredores, as arvores de uma floresta no lado de fora, uma cidadezinha distante, as caldeiras destruídas, a sala de treinamento e a entrada. Meus olhos passeavam distraidamente pelas telas quando eu o vi. Sentando tranquilamente em um galho alto de um cipreste, a cota de couro enfunada com o vento. Ele olhava fixamente para a porta de entrada.
Meus olhos correram dele, para Steve ao meu lado. O loiro comentava algo sobre as caldeiras, mas eu não ouvia. Ele não parecia ver Loki ali, quase dançando na cabeça dele. Coloquei meu corpo discretamente na frente da tela, apenas como garantia de que ele não o veria. Sorri para ele quando terminou de falar. Esperei que Steve não tivesse me feito nenhuma pergunta, mas para minha sorte ele sorriu de volta. Bocejei descaradamente.
— Acho melhor você dormir, não é? – Ele disse educado beijando a minha testa. Assenti e passei rápida pela porta o puxando pela mão. No caminho de volta a enfermaria, ele falava sobre a H.I.D.R.A. e sobre como a S.H.I.E.L.D. estava ficando cada dia mais parecida. Eu mal ouvia. Loki estava lá fora. Preocupado? Me esperando? Por que ele não havia ido embora depois de me deixar ali? Heindall o estava ignorando? Ou ele queria algo ali? Queria falar comigo? Por quê? Aquilo estava me dando um nó na cabeça. Mas uma coisa era certa. Ele ainda estava no meu destino e eu no dele. Me despedi de Steve na enfermaria reprimindo o pensamento de que desejava que aquilo não fosse apenas pela vontade de Frigga.
—----------------------------------------------------------------------------------------------------
Acordei às 5 da manhã como se não tivesse dormido. Me sentei na cama peguei um casaco fininho e sai pela porta. Torcia para que ninguém estivesse na sala de comando. Mas sempre haveria a desculpa de eu ter me perdido a caminho do banheiro.
Eu caminhava o mais rápido que minha perna remendada permitia. Ela não doía tanto, mas meu medo mesmo era estourar os pontos, se bem que conhecendo Banner ele devia ter feito aquilo com perfeição.
Tomei o cuidado de passar pela sala de comando para garantir que realmente não havia ninguém ali. Depois segui direto para a porta de saída. Não havia maçaneta, nem painel de controle. Eu não sabia como fazer aquilo. Olhei ao redor. Tony tinha colocado uma placa de ligação com Jarvis. Devia ter sido assim que abriram para entrar, mas eu sabia que se tocasse naquilo Jarvis teria um registro da minha circulação. Devia ter outro jeito de abrir.
Meus olhos foram para um grande e antigo painel com o mapa da Áustria atrás de mim e dali para as plaquinhas indicando o nome das salas. Tudo em alemão. Não haviam maçanetas em nenhuma das portas, todas as já abertas tinham a placa de Jarvis. Então me ocorreu.
— Ausgang offen. – Mandei que a saída abrisse. A porta grande correu para o lado, se abrindo para a noite fria. Comando de voz, simples e engenhoso. Americanos nunca teria conseguido aquilo na época da guerra.
O ar frio da noite que se encerrava em meio a uma floresta me rodeou e eu vesti o casaquinho azul, por cima da fina camisola de seda vermelha. Eu estava descalça, mas aquilo não importava. Sai pela porta e ela fechou atrás de mim. Eu poderia abri-la depois. Havia uma mochila de metal largada no chão. Estiquei minha mão para ela, que se desdobrou em um arco com aljava que se prendeu ao meu corpo. Eu estava inteira novamente.
Caminhei incerta pisando em folhas de pinus e ciprestes. O cheiro de eucalipto estava no ar. Ali o inverno não demoraria para chegar. O vento uivava entre as arvores e o som delas chacoalhando abafava o eco baixo dos meus passos. Eu seguia por uma estrada de terra antiga, mas sabia instintivamente que aquele não era o caminho. Loki não ficaria perto de estradas, esperando uma visita.
Sai da estrada, me embrenhando em meio as arvores. Eram bem espaçadas e caminhar não era difícil. O que me angustiava era não vê-lo em lugar nenhum.
—Loki. – Chamei em voz baixa. Apenas o vento frio me respondia, embaraçando todo aquele cabelo vermelho que eu tentava segurar com a mão. – Loki! – Repeti um pouco mais alto.
— Você devia ter ficado lá dentro. – A voz dele me respondeu em alemão vinda de lugar nenhum. Eu sorri.
— Cadê você? – Perguntei no mesmo idioma rindo meio boba. Ele saiu de trás de uma arvore andando despreocupado. Nem mesmo a lança estava com ele. Ele não tinha nenhum receio de estar tão perto dos Avengers. No quintal da casa deles, na verdade. Caminhou até mim e parou bem a minha frente me olhando de cima. – Obrigada... – Falei insegura na falta do que dizer. Eu mesma não sabia porque estava ali. Ele não respondeu. Ergueu a mão e percorreu com o dedão os pontinhos que eu ainda tinha abaixo do olho. Sua mão era fria como gelo. Senti minha pele arrepiar, mas não conseguia desviar o olhar. Os olhos dele pousaram nos pontos que subiam acima do meu joelho, até metade da coxa, sumindo por baixo da camisola.
— Você tem tendência a se meter em confusão. – Ele disse displicente. Eu ri.
— Minha tendência é esbarrar com você.
— Você não esbarrou comigo. Saiu por sua própria vontade. – Disse com um sorriso debochado. – Humanos não tem talento para fazer boas escolhas.
— Então você é uma má escolha? – Perguntei sorrindo. Ele apertou os lábios estreitando os olhos para mim. Não respondeu. Apenas ficou me olhando com aquela expressão que eu não conseguia definir. Algo entre o divertimento e a repulsa. Levei a mão aos meus cabelos que teimavam em me bloquear a visão, voando na frente do rosto. Loki caminhou alguns passos e sentou sobre uma pedra, olhando para cima distraído. Me sentei ao lado dele, o observando. Ele nem pareceu me notar. – O que vai acontecer com você agora? – Perguntei abraçando meus joelhos. Os olhos que naquele momento me pareciam espantosamente verdes se desviaram de esguelha para mim. Ele suspirou.
— Vocês são curiosos demais. – Falou. Não eu. Os humanos num geral. Eu ri e o cutuquei com a ponta do arco. Loki fechou os olhos impaciente. – Não sei. – Admitiu.
— Eu posso te ajudar? – Perguntei num tom baixo. Loki virou o rosto para mim, parecendo repentinamente irritado.
— Como se eu precisasse! – Falou num tom baixo e venenoso. Eu me encolhi com aquilo, olhando minhas próprias mãos sobre os joelhos. Ele suspirou. – Você provavelmente acabaria perdendo um braço.
— E isso importa? – Perguntei olhando para o chão. Aquela pergunta o fez franzir as sobrancelhas.
— Liana! – Ouvi a voz de Steve me chamando ao longe. Meus olhos se arregalaram em choque, assim como os de Loki. Ele me puxou pelo braço e me colocou de costas contra uma arvore me ocultando e parando a minha frente. Eu podia sentir aquele cheiro amadeirado que ele tinha. Podia ver cada nuance de cor nos olhos dele.
— Você foi seguida! – Ele murmurou irritado. Eu consegui reencontrar concentração e responder.
— Ninguém me viu sair. Ele está me procurando, mas não viu onde eu estou. – sussurrei em resposta. Loki ergueu os olhos de mim, vasculhando a direção de onde se ouvia a voz de Steve chamando, mas ele ainda não era visível. Voltou a atenção para mim e falou com urgência.
— Eu preciso de um livro que acredito que possa estar lá dentro. – Ele falou urgente. Sério isso? Achei que ele já tivesse livros em excesso. – Capa preta de couro. Titulo dourado em rúnico. Você vai saber qual é porque não vai conseguir ler. Traga para mim.
— O que tem nesse livro?
— Nada que seja da sua conta. – Respondeu frio. Foi minha vez de rir debochada.
— Então pegue você mesmo! – Sussurrei irritada. Os olhos dele se estreitaram perigosamente.
— Você perguntou se poderia me ajudar. Então me obedeça. – Falou autoritário. A voz de Steve se tornava mais próxima a cada segundo. Não ia adiantar discutir com ele agora. Não tínhamos tempo, como sempre. Eu grunhi irritada, mas assenti. Ele sorriu, afastando uma mecha de cabelo que se agarrava na minha boca. – Isso. Seja boazinha. – falou. Eu quase escutei Frigga por trás daquela frase.
— E você disse que não ia precisar de mim não é? – Falei rindo. Ele apertou os lábios, contendo a frustração, mais ignorou meu comentário.
— Seja uma boa atriz. – Falou enfim, me empurrando de trás da arvore. Eu cambaleei para longe o olhando irritada. Steve estava a menos de 4 metros de onde estivemos parados.
— Steve! – Chamei. Ele sorriu e correu para mim.
— Lia, onde você esteve? O que está fazendo aqui fora? – Perguntou.
— Eu... eu... vim para pegar o arco. E a porta fechou. Não consegui mais entrar. – Falei, tentando soar convincente. Ele pareceu acreditar.
— Você tem noção que quase me matou do coração? – Me repreendeu. Tentei parecer arrependida, mas desconfiei que fosse pouco convincente. – Eu levantei para preparar o café e resolvi passar para ver como você estava e não te achei na enfermaria, te procurei e não te achei em lugar nenhum. – Ele falou num tom cansado. Ele acariciou meu rosto, com a mão quentinha. – Vamos para dentro, você está gelada.
— Eu gosto de frio. – Falei impensada. Ele me deu um selinho.
— Quem não vai gostar é o Robert. – Falou me conduzindo de volta, uma mão na minha cintura. Olhei para trás antes de passar pela porta, que imitava a estrutura da montanha com perfeição. Não vi Loki em lugar nenhum.
—---------------------------------------------------------------------------------------------------------
Durante a tarde Robert limpou meu curativo, e tirou os pontos do rosto. Ele não falou em Anong em nenhum momento e eu fiz como Steve havia me orientado e também me mantive quieta.
Tony estava ocupado brigando com as portas do lugar e mal parava para comer. Ele era obcecado pelo que fazia e como as portas não tinham nenhum sensor de voz aparente e nenhum tipo de peça que indicasse aquela tecnologia ele ainda não havia cogitado a possibilidade. Eu precisava achar aquele livro antes que Tony percebesse o sistema das portas.
Pepper se ocupava em tentar manter aquilo parecido com uma casa. Limpava cada cantinho ao seu alcance e cozinhava. Ainda arranjava tempo para ver se eu precisava de algo e dar atenção a Tony no intervalo entre as atividade dele.
Steve ajudava Tony, falando tudo o que sabia sobre a H.I.D.R.A. e auxiliando nos afazeres de Pepper. Ele ainda vinha me mimar de vez em quando.
Tentei gastar minha tarde treinando arco, na sala de treinamento. Steve assistiu um pouco em um dos intervalos. Ele parecia bem impressionado, mas talvez fosse apenas educação. Atirar me ajudava a pensar melhor e planejar como eu faria para chegar àquela biblioteca sem que notassem a minha ausência.
Depois de quase 5 horas atirando flecha atrás de flecha, analisando ponteiras e treinando com Steve golpes de luta corpo a corpo usando o arco como bastão, disse a todos que iria tomar banho. Fui para o banheiro ao lado da biblioteca. Entrei e deixei minhas poucas coisas. Usaria a calça que eu havia costurado no lugar em que havia sido rasgada e o vestido curto de Asgard que Pepper tinha lavado para mim. Liguei a banheira grande de mármore, esperei encher e sai do banheiro me esgueirando pela porta. Dei o comando para trancar.
— Offen bibliothek – Murmurei para a porta. Ela deslizou para trás com um chiado. Eu entrei apressada e a porta voltou a fechar.
A biblioteca era enorme. Gigante. Haviam três andares de livros empoeirados e cheirando fortemente a mofo. Soltei um longo suspiro. Aquilo me daria muito trabalho. Peguei o primeiro de uma prateleira, com titulo em inglês. Um Tratado dos Astros. Haviam centenas de idiomas ali. Aquilo ia levar uma eternidade. Resolvi arriscar.
— Rune Buch. – Pedi em voz alta. Para minha surpresa uma das prateleiras altas se iluminou com lâmpadas na base. Caminhei até ela e puxei uma escada enferrujada onde subi. Cerca de dez livros escritos em rúnico enchiam a prateleira, mas apenas um se encaixava na descrição de Loki. Eu o peguei e soprei a poeira.
O coloquei em baixo da roupa e fui para a porta que se abriu e eu passei rapidamente dali para o banheiro. Fechei a porta atrás de mim torcendo para ninguém ter olhado pela câmera naquele minuto. Olhei para a capa do livro e sentia vontade de dar pulinhos de alegria. Eu tinha um objetivo.
Tomei meu banho, me vesti e enrolei o livro na roupa suja. Eu tinha desocupado a enfermaria essa manhã e estava em um dos quartos próximos da sala de comando. Fui direto para lá, larguei a roupa na lavanderia e disse a Pepper que levaria a caixa de areia de Jinggles para esvaziar lá fora e talvez aproveitasse para caminhar um pouco. Ela concordou, me mandou levar o arco e avisou sobre o horário do jantar.
Peguei o livro no quarto e tentei não correr porta a fora como uma louca. Quando estava digitando o código de Jarvis, senti uma bola de pelos se esfregando nas minhas pernas. Jinggles me olhava com olhos acusatórios. Ele sabia. Gato malandro. Acariciei as orelhas dele e abri a porta. Ele me seguiu para fora. Jinggles era mais esperto que muita gente que eu conhecia.
Eu não sabia onde procurar, mas meu gato parecia saber perfeitamente bem para onde ir. Me limitei a segui-lo. Jinggles caminhava saltitante e passava por baixo de raízes e saltava sobre pedras, às vezes virando para ver se eu o seguia. Eu o segui por quase quarenta minutos, achando que o gato estava indo a lugar nenhum quando comecei a escutar um som que já havia escutado, mas tinha pouca familiaridade. Uma flauta. Apressei o passo e para minha surpresa em meio a uma clareira erguia-se uma casa de pedra.
Loki estava sentado em frente em um banquinho, uma perna dobrada contra o peito. Ele vestia apenas uma camiseta verde de linho fino e uma calça simples e tocava distraído o instrumento, os cabelos bagunçados. Me escorei de lado em uma arvore e fiquei olhando para ele de longe. Achei que meu coração estivesse batendo tão alto em meio às costelas que ele fosse acabar me ouvindo. Jinggles foi correndo até ele e subiu no colo sem hesitar. Loki tirou a flauta dos lábios e acariciou o gato olhando ao redor, quando seus olhos pousaram em mim senti meu estômago virar geleia. Eu sorri para ele.
O deus se endireitou no banco de madeira, abrindo espaço para eu sentar. Caminhei até ele e me achei a criatura mais desengonçada do mundo. Ele não desviava os olhos de mim. Me sentei e ofereci o livro. Ele o pegou, olhou a capa e o largou ao seu lado sem ler.
— Vai me dizer sobre o que é? – Perguntei enfim, falando em alemão. Era muito confortável poder usar meu idioma com alguém.
— Se eu estiver certo é sobre a solução dos nossos problemas. – Explicou acariciando aquele gato vendido.
— Nossos? Achei que não houvesse um nós. – Falei debochada. Ele fez uma expressão de desafio. Decidi que não era uma boa ideia jogar aquele joguinho de provocação. Mudei de assunto. – Eu não sabia que você tocava flauta.
— Digamos que eu tive muito tempo para praticar. – Explicou num tom divertido.
— E essa casa?
— É como a caverna em Vanaheim. – Falou simplesmente.
— Por que você tem esses lugares assim? – Quis saber. Era isolado e era como se ele viesse ali com alguma frequência. Ele não respondeu. Para se estar perto dele, você precisa se acostumar a não ter todas as suas perguntas respondidas.
— Você tem um gato esperto. – Loki falou indiferente. Eu sorri. – Você deveria ir. – Falou olhando para mim. Estava escurecendo depressa e a casinha ficava relativamente longe.
— É acho que sim... – Disse desinteressada. – Acho você aqui amanhã?
— E porque você viria amanhã? – Ele perguntou soando surpreso. Percebi que ele julgava minha aproximação apenas como sinal de obediência as ordens dele.
— Eu faço o que eu quero. – Respondi olhando as arvores. Ele riu. Eu acabei rindo também. Levantei e tentei pegar Jinggles, mas meu gato era um traidor que me mostrou os dentes bufando ameaçador. Loki riu. Eu precisava realmente ir. Estava anoitecendo depressa demais. – Gato teimoso!
— Deixe ele ficar. Garanto que ele sabe o caminho de volta melhor do que você. – Falou displicente. Fiz ma careta para ele e puxei Jinggles com força. Ele se debateu tentando descer, mas eu era mais forte.
Sorri irônica e comecei a voltar em meio as arvores. Depois de metros e vários minutos depois eu mal enxergava o chão. Sentia meu coração contra as costelas, não por medo do lugar, mas mais pela adrenalina que estar com Loki causava em mim. Reduzi o passo com medo de tropeçar em alguma coisa. O vento rugia alto. Jinggles aproveitou minha insegurança e cravou as unhas no meu braço. Eu o soltei com um grito agudo e o maldito gato fugiu correndo em direção à casa de pedra. Coloquei a mão numa arvore, irritada. Eu ainda levaria uns 40 minutos para chegar a montanha e no escuro esse tempo podia dobrar. E se eu me perdesse?
Tentei avançar mais alguns passos, mas esse pensamento me deixava paralisada. E se houvessem animais ali? Ursos? Lobos? Senti o impulso de correr de volta. Apertei o arco nas mãos e disparei em meio às arvores, como um animal assustado. Os galhos baixos batiam no meu rosto, mas eu não me importava. Eu era mesmo uma covarde. Enquanto eu corria fiquei pensando se notariam minha ausência no jantar. Esperava que não. Talvez achassem que eu tinha ido dormir mais cedo. Eu havia trancado a porta do quarto e lá tudo era a prova de som. Ninguém nem tentaria me acordar, porque seria sem sucesso. Eu tinha que torcer por isso.
Quando cheguei à clareira já estava completamente escuro. Jinggles não era visível em lugar nenhum. Corri para a porta que estava destrancada e a abri com força. Loki estava sentado em uma poltrona, diante de uma lareira acessa, lendo o livro e acariciando um Jinggles muito feliz. Ele me olhou surpreso.
— O que você está fazendo aqui? – Perguntou como se questionasse minha sanidade. Apoiei as mãos nas pernas e tentei regular a respiração. Sentei em uma poltrona ao lado da dele.
— Você tem duas opções. – Falei ainda ofegante.- Ou me leva para casa, ou me deixa ficar. – Falei. Ele ergueu as sobrancelhas para mim. Depois estreitou os olhos.
— Medo de escuro? – Perguntou irônico me olhando de esguelha, e então voltando os olhos para o livro. Não respondi. Mas ele não disse que eu não poderia ficar.
Ficamos em silêncio por uns quarenta minutos. Ele lendo e eu encarando as chamas que crepitavam. Levantei e peguei um cacho de uvas de uma fruteira sobre uma mesinha. Ele nem ergueu os olhos para mim. Abri a porta e saí. Achei um espaço na grama e me deitei perto da casa, comendo as uvas. No meio da floresta as estrelas no céu eram ainda mais eminentes. Imaginei Heindall podendo olhar atentamente cada uma delas. Acenei como uma boba para o céu, na expectativa de que talvez ele me visse.
Depois de uns 5 minutos, Jinggles saiu pela porta e se deitou sobre a minha barriga. Gato traidor. Loki espiou pela porta e franziu as sobrancelhas quando me viu no chão terminando de comer as uvas com aquele gato obeso em cima de mim.
— O que você está fazendo? – Perguntou.
— Olhando as estrelas. Eu costumava fazer isso quando era criança. – Comentei. Ele saiu e caminhou até o meu lado.
— E o que tem demais nelas? – Perguntou como se falasse com uma criança. Desviei meus olhos para ele e dei dois tapinhas no chão do meu lado.
— Veja você mesmo. – Convidei. Para minha surpresa ele se deitou ali. Me senti muito consciente do cotovelo dele tocando o meu. Eu mal me mexi nos 20 minutos seguintes.
— Quando eu era criança eu não olhava as estrelas. – Ele falou depois de um tempo. Virei meu rosto para ele com atenção. – Eu fugia de casa às vezes. A verdade é que minha mãe sempre sabia, mas eu gostava de fingir que ninguém sabia.
— Por que você fugia? – Perguntei curiosa, louca para que ele conversasse mais comigo. Era raro pegar ele num humor tranquilo como aquele.
— Thor me incomodava. – Respondeu displicente. Inveja, percebi. – Quando achava que ia acabar matando alguém, eu fugia. Minha mãe sabia, mas me deixava em paz.
— Ela era legal. – Falei. – Por isso a casa e a caverna? – Ele assentiu sem me olhar.
— Existem vários outros lugares também. – Falou apático. O silêncio se abateu sobre nós outra vez. Eu comecei a sentir frio, mas não sairia dali nem sob tortura.
— Você tem muito da Frigga. – Falei sem pensar. Eu a conhecia muito pouco para poder afirmar uma coisa assim, mas esperava que ele não notasse. Loki virou o rosto para mim um meio sorriso nos lábios.
— E o que você sabe disso? – Perguntou em um tom indiferente.
— Bom, vocês dois são legais.
— Achei que eu fosse sinônimo de problema. – Ele disse olhando para o céu novamente.
— Você é. Mas como eu devo ser meio maluca, não tem problema. – Falei rindo. Ele me olhou pelo canto dos olhos, uma expressão de divertimento nos olhos verdes. – Eu sei me cuidar.
— Claro que sabe. – Falou revirando os olhos. Aquilo me fez rir.
— Sabe o que você é? Um chato rabugento. – Falei rindo. Ele levantou uma sobrancelha.
— Você tinha dito que eu era legal. Vai decidir o que eu sou afinal? – Falou em um tom indecifrável.
— Você é um mistério. – Me ouvi falando séria. Ele virou o rosto para mim, surpreso com a minha resposta. Me apoiei no antebraço ficando um nível mais alta que ele e tirando Jinggles de cima de mim. Encarei os olhos verdes de volta. – As vezes é estúpido, as vezes é gentil. Sem duvida é genioso. É muito inteligente e corajoso. Você tem uma personalidade terrível. – Ele me olhava estupefato. – É doce e azedo. É sempre muito frio e distante. É manipulador e perigoso. – Loki franziu as sobrancelhas para mim. Eu não conseguia parar de falar. – É cuidadoso e inconsequente. Você é... – Meu deus, eu precisava calar a boca. – é...
— O que? – Perguntou num tom seco. Eu deitei de volta e suspirei derrotada. Eu já tinha falado demais para simplesmente mudar de ideia.
— É lindo. – Dessa vez ele se apoiou no antebraço me encarando como se eu tivesse atirado uma pedra nele. – De tantas formas diferentes que me deixa confusa. – Admiti enfim. Achei que ele fosse me mandar embora, mas ele só ficou ali me olhando aturdido.
— É isso que você pensa? – Perguntou. Eu assenti incerta. Ele continuou me olhando uma expressão tão séria que me assustava um pouco.
— Agora o que você pensa é um mistério para mim. – Falei tentando sorrir e falhando miseravelmente. Eu estava tão nervosa que tudo que consegui foi um esgar.
— Você é louca. – Ele falou ainda muito sério. Agora eu consegui uma risadinha sem jeito. – É a criatura mais burra que eu conheço. E ainda assim é muito inteligente. – Espera. O que? – É corajosa e tão covarde que chega a ser risível. É forte e tão frágil que às vezes me admiro que tenha vivido tanto. É doce. É afiada como uma faca. – Ele falava tudo aquilo saboreando as palavras, como se nunca mais fosse repeti-las. Se eu o interrompesse ele pararia de falar e sairia dali na mesma hora. Ou me mandaria embora. Ele estava com o rosto tão perto do meu, que eu era capaz de sentir sua respiração contra minha pele. – Você é completamente inconsequente e um imã de problemas. Você é... – Ele hesitou o rosto a centímetros do meu. Eu desejei que ele me beijasse como nunca havia desejado nada na vida. Loki aproximou a boca da minha orelha e sussurou como se fosse um segredo. – Você é linda. De tantas maneiras diferentes que me deixa confuso. – Eu achei que podia ter morrido ali mesmo. Virei o rosto para ele, incapaz de imaginar a expressão que tinha. Os olhos dele encaravam os meus, mas então eles pousaram na cicatriz mínima e branca que eu tinha um pouco abaixo do olho. Ele franziu as sobrancelhas e encarou meus olhos novamente, se afastando. – Você é humana. – Falou alto com a voz carregada de desprezo como se estivesse se referindo a alguma coisa suja, se levantando e voltando para dentro da casa.
Eu não tive nenhuma reação. Nada. O que tinha acontecido ali? Eu senti as lagrimas descerem quentes pela lateral do meu rosto. Jinggles se aninhou ao meu lado e eu o abracei. Chorei em silêncio. Que merda eu estava fazendo?! Me perguntei com raiva. Senti vontade de levantar e ir embora naquele momento, mas não podia fazer isso. Eu estava fazendo a coisa mais errada de todas as imagináveis. Fiquei deitada ali fora, sentindo minha pele congelando com o ar noturno. Se ele tivesse me esfaqueado teria machucado menos. Loki me desprezava. Solucei tentando não fazer barulho.
Quando o frio se tornou insuportável me levantei e fui para dentro da casa. Loki estava de volta à poltrona e nem me olhou enquanto eu passei. Segui pelo corredor sem olhar na direção dele.
Na primeira porta que abri encontrei um banheiro, fechei a porta o mais silenciosamente que consegui e abri a seguinte achando um quarto. Havia uma ampla cama de casal, uma escrivaninha e para minha surpresa um tocador de discos antigos, com vários enfileirados. Eu não tinha sono então comecei a mexer nos discos, as lagrimas ainda escorriam silenciosas pelo meu rosto. Haviam bandas de vários lugares do mundo. A maioria eu não fazia ideia de onde vinha, então escolhi qualquer coisa e coloquei tocar. Aquilo quase me fez rir. Revirei os discos nas mãos e baixei o volume de maneira que mesmo para mim soasse baixo. O primeiro acorde, só serviu para aumentar minhas lagrimas. Era uma musica lenta e triste. Me sentei no chão, ao lado da escrivaninha e abracei os joelhos.
Eu era errada. Eu era suja. E não importava o que eu fizesse eu sempre seria assim. Me perguntei o que estava fazendo com Steve. Eu não sabia. Eu o adorava. Mas... eu não queria pensar naquilo. Tentei deixar minha mente vazia de tudo. Não me lembro quantas vezes ouvi a mesma musica antes de dormir, sentada no chão.
—------------------------------------------------------------------------------------------------------
Acordei na manhã seguinte esparramada na cama, uma sensação ruim na boca do estômago. Ele tinha me tirado do chão e largado ali, era certo. Eu não ia mais chorar. Isso não mudaria nada. Nada mudaria. Nunca.
Penteei os cabelos, desamarrotei o melhor que pude o vestido e sai do quarto. Quando entrei na sala Jinggles bebia água num potinho no chão e ele estava sentado no peitoril da janela comendo um pêssego. Ele virou a cabeça na minha direção e depois olhou para fora novamente. Engoli em seco e peguei meu gatinho. Fui à porta e quando planejei abri-la, ele me chamou. O jeito como ele dizia meu nome... Respirei fundo e olhei na direção dele.
— Liana. – Ele me chamou naquela voz arrastada, cheio de uma segurança invejável. – O livro. – Ele falou o oferecendo a mim. Fui até ele e perguntei no tom mais displicente que podia.
— Achou o que queria? – Ele assentiu. – Vai me falar o que era, ou vou ter que aprender a ler essa coisa? – Nos encaramos em silencio durante poucos segundos. Ele ia me contar. Ele sempre contava.
— As Joias do Infinito. – Falou enfim. Aquilo não me explicava nada. Levantei uma sobrancelha em um gesto muito parecido com o que ele mesmo usava. – Cada uma fornece um tipo de poder ao portador. Eu precisava da localização. Como a primeira estava aqui em Midgard achei que pudesse ter alguma indicação de onde conseguir as outras.
— Qual era a primeira? – Perguntei olhando meus pés.
— O Tesseract. Mente. – Falou como se aquilo explicasse tudo. – Estava com a H.I.D.R.A. e, Clint Barton me disse que eles tinham arquivos sobre as outras e me deu detalhes sobre o que a S.H.I.E.L.D. sabia.
— Você conversou com Clint?
— Mais ou menos. – Ele respondeu evasivo. Eu ri. Não pude me controlar, ele tinha esse tipo de efeito em mim. O som da minha risada o fez olhar para mim e eu vi, ou acho que vi, um sorriso ínfimo se formar nos lábios dele. – Então quando você entrou, fiquei na expectativa de que fosse conseguir o livro para mim. Você foi rápida.
— Para uma humana. – Acrescentei venenosa. Ele parecia entediado. Não faria aquele joguinho comigo. – E onde está a próxima?
— Jotunheim. Alma está lá. – Ele me contou sem eu pedir.
— Então boa sorte. – Falei virando para a saída. Ele desceu da janela.
— Liana. – Eu revirei os olhos e me virei de volta. – Preciso que vá comigo. – Eu comecei a rir debochada, quando ele disse isso. Ri muito e alto. Ele ficou me olhando até que eu parasse. – É muito provável que estejam guardadas em cofres como os que você entrou em Asgard.
— Bem, boa sorte então.
— Acho que você não entendeu. – Ele falou num tom suave. – Se eu conseguir essas joias, acabo com os meus e o seus problemas. Elas tem poder para isso.
— E se torna Rei do Universo? – Perguntei perspicaz. Ele deu de ombros.
— Um detalhe. – Desconsiderou. Ele não tinha jeito. Mas se as joias eram tão poderosas assim eu não podia fingir que não me interessava. Era ao menos uma solução mais palpável que qualquer coisa que os outros tivessem proposto.
— E o que eu diria a eles? – Falei me referindo aos Avengers. – Vou ir da uma voltinha ali com o Loki e já volto? Eles querem a sua cabeça numa bandeja de prata se não reparou ainda.
— Claro. E vão continuar querendo depois que eu te sequestrar na frente de todos. – Falou muito sério. Ele tinha planejado tudo. Isso os manteria ao meu lado e me tiraria de lá ao mesmo tempo.
— E que garantia eu tenho de que você vai me ajudar depois que eu pegar as joias dos cofres? – Perguntei.- Se é que vamos conseguir entrar.
— Você não confia em mim? – Manipulador maldito. Eu não respondi. Me sentei em uma poltrona. Eu ia aceitar e ele sabia. Tentei achar alguma coisa que me convencesse de que atravessar o universo atrás de supostas joias, com o exercito asgardiano, a S.H.I.E.L.D. e os Avengers na minha cola não fosse uma boa ideia, mas não achei nada bom o bastante. Me senti envergonhada. A ideia de atravessar o universo com ele era tentadora, mesmo depois do que ele tinha me dito. Mas a verdade é que eu não tinha mais nada a perder.
— E quais as chances de eu voltar viva? – Perguntei enfim. Eu já sabia quais eram.
— Mínimas. – Ele disse. Como eu esperava. – Se você fosse sem mim. – Eu franzi as sobrancelhas. Se eu estava entendo bem, ele tinha acabado de insinuar que me protegeria. Tudo bem que ele precisava de mim, mas aquilo acabou com qualquer defesa minha. Fiquei de pé e fui para a entrada.
— As nove da noite a porta de entrada costuma abrir sozinha. – Falei alto, saindo para o campo. Fechei-a atrás de mim e caminhei pela mata sem olhar para trás. Eu sentia um misto de vergonha por estar traindo meus amigos, por estar aceitando ajuda-lo mesmo depois de ontem e ainda assim sentia satisfação. Era quase uma vingança que ele precisasse de mim. E eu poderia ser ao menos útil. Eu era uma idiota.
—-----------------------------------------------------------------------------------------------------
Entrei discretamente no esconderijo e corri para o meu quarto com Jinggles na minha cola. Entrei no quarto e fechei a porta atrás de mim. Me sentei na cama, cansada. As palavras da noite anterior corriam pela minha mente e eu tentava afasta-las como se fossem insetos zumbindo. Mas uma única pergunta estava cravada com precisão no meu cérebro. E se eu não fosse humana?
Soltei o ar em arquejos. Ficar sozinha e remoendo aquilo não ia me ajudar em nada. Eu precisava me preparar para a noite. Separei as partes da armadura e as coloquei dentro de uma bolsa.
— Senhorita, o Senhor Rogers me pediu para chama-la. – Era voz de Jarvis. Fazia tempo que eu não escutava a voz dele.
— Eles sabem que eu saí? – Perguntei.
— Sabem. Mas ninguém sabe que a senhorita dormiu fora. – Ele respondeu.
— Nunca conte a ninguém, Jarvis. – Mandei categórica.
— Sim, senhorita. – Concordou. Eu abri a porta e Steve estava parado do outro lado. Vestia uma calça camuflada, com uma blusa branca com a estampa do escudo do Capitão America. Eu ri quando o vi. Ele ficou vermelho e deu de ombros.
— Tony que trouxe. – Justificou sem jeito. Era a cara dele. – Está tudo bem?
— Sim, por que? – Quis saber evasiva.
— Por nada... senti sua falta no jantar. – Steve falou terno. – Você foi dormir bem cedo né?
— Uhum... Treinei muito ontem... – Outra resposta evasiva. Eu me sentia muito mal por estar fazendo aquilo com ele. Mentindo descaradamente. Muito pior do que isso era corresponder aos beijos dele, agora que eu não tinha certeza de mais nada. Algumas semanas atrás ele me parecia absolutamente correto e perfeito. Agora eu estava tão confusa que não sabia o que queria de verdade. – Café? – Falei caminhando pelo corredor o puxando pela mão. Ele assentiu e caminhou comigo.
— Você está preocupada? – ele me perguntou, os olhos fixos em mim.
— Você não está? – Retruquei.
— Só com você. – Respondeu sério. Aquilo era golpe baixo. Ele era sempre tão honesto comigo. Tentei sorri para ele, mas saiu tão artificial que ele fez uma expressão de pena. Steve segurou minha mão e me puxou para perto, interrompendo minha caminhada. Ele me abraçou e beijou minha cabeça. – Nós vamos dar um jeito também? Tony pensou em tentar uma negociação de interrogatório.
— Eles não vão negociar Steve. Eles me querem presa ou morta. E quando vocês tomarem partido oficialmente, vão entrar para lista. – Falei erguendo os olhos. Ele sorriu constrangido. Ele sabia que estávamos encurralados. Seria preciso mais que uma conversa para acalmar os ânimos. Steve me beijou com aquele seu jeito doce, me segurando com gentileza pela cintura. De inicio senti o impulso de correr, mas ele era tão gentil que me dobrou a sua vontade com facilidade. Eu correspondi como se aquilo fosse tudo que importasse. Steve me colocou contra a parede com delicadeza. Seus lábios encontraram minha bochecha, a pele abaixo da orelha e desceram pelo meu pescoço com gentileza. Aquilo me faz arfar. E fez Anthony Stark bufar.
— Solta a minha irmã! – Tony gritou por um alto falante. Eu comecei a rir histérica. Steve ergueu as mãos acima da cabeça em rendição. Quando entramos no refeitório todos riram. Tony tamborilava os dedos na mesa de madeira, irritado. Havia uma placa de imagem ao seu lado. Nos sentamos e comemos junto com todos. Conversamos e rimos durante toda a manhã, como se estivéssemos na tranquilidade de casa. Eu desejei que aquela paz pudesse ser permanente.
A tarde consegui uma escapadela para a biblioteca, onde larguei o livro em cima de uma mesinha qualquer e corri de volta para o meu quarto. Eu estava ansiosa. Então decidi fazer a única coisa que servia para me acalmar. Atirar.
Pratiquei a tarde toda, parei apenas quando Pepper veio me chamar para jantar. Eram 20:30. Comi com certa pressa, e tentei participar da conversa da melhor maneira possível. Quando terminei faltavam 5 minutos para as 21:00. Fui escovar os dentes e no caminho passei pela porta de entrada. Sussurrei o comando para que a porta abrisse. Agora era esperar.
21:05. Ele estava atrasado. E se alguém visse a maldita porta escancarada? Entrei no meu quarto e fechei a porta. Quando me virei para a cama, quase gritei. Ele estava deitado as mãos atrás da cabeça. Me olhou pelo canto dos olhos.
— O que você vai levar?
— Ninguém te viu passar? – Perguntei. Ele virou o rosto sério. Eu suspirei. – O arco e a armadura. — Ele pegou a armadura e jogou por cima do ombro.
— O arco você chama quando estivermos indo. – Eu assenti, sem olhar para ele. Eu estava tendo dificuldade de encarar aqueles olhos verdes. Ele abriu a porta para que eu passasse. Fiquei olhando em duvida.
— Não podemos simplesmente sair andando. – Murmurei. Ele apenas moveu os olhos de mim para a saída. Eu grunhi irritada, mas fiz o que ele queria. Comecei a andar pelo corredor sem olhar para trás. Ele não me alcançava nunca. Quando pensei em me virar para ver onde ele estava, senti uma das mãos dele me puxar com força por trás e a outra tapar a minha boca, mas não rápido o bastante para impedir que um grito agudo escapasse. Eu estava andando de costas quase caindo por cima dele, qualquer um que visse acharia que eu estava me debatendo. Um alarme soou, mas já estávamos passando pela porta de entrada indo para o meio da estradinha. Tony surgiu com armadura e tudo.
— O arco. Agora. – Loki sussurou no meu ouvido. Ergui a mão da pulseira e esperei. O mochila de metal passou pela porta no segundo em que Steve e Banner chegaram a entrada. Banner urrou e quando percebi Hulk estava ali, correndo em nossa direção. Loki destapou minha boca. Eu podia ver seu rosto pelo canto dos olhos. Ele sorria maldoso, apreciando o desespero. Eu sabia o que devia fazer.
— Heindall. – Chamei num sussurro ínfimo. A luz nos envolveu e a ultima coisa que vi foi Tony disparando, Steve atirando o escudo em nossa direção e Hulk arremessando uma arvore. Depois disso eu tinha apenas Loki. E nada mais importava.
Fale com o autor